segunda-feira, abril 17, 2023

«Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos & outros brevíssimos textos sobre quase nada», de Robert Walser


Assírio & Alvim, Março de 2023
Selecção, tradução e prefácio de Ricardo Gil Soeiro
Duvido muito que alguém que leia este livro extraordinário e não conheça suficientemente o autor suíço, não procure a sua bibliografia e a devore de imediato. Ficará a saber que alguns já se encontram esgotados, por isso será melhor recorrer aos que ainda existem nas livrarias e, nas feiras do livro ou alfarrabistas, tentar a hipótese de conseguir alguns exemplares que já não se encontram no tal mercado.

Percebemos que o responsável desta edição foi Ricardo Gil Soeiro que a traduziu do alemão (cantão a que pertenceu Robert Walser) e optou pelo diminutivo final -ito. Creio não ter sido por acaso (nesta tradução excelente, nada o é, diga-se) e este sufixo é ele próprio muito mais acolhedor e terno que o -inho muito mais comum em português. A selecção dos vinte textos para este livrito estende-se de 1901 a 1932 e nota-se a grande coesão e coerência literária dos contos e pensamento de Robert Walser. As referências que Ricardo Gil Soeiro utilizou demonstram a importância do poeta, citando no seu prefácio Agamben, Walter Benjamim, Calvino, Canetti, Sebald, Susan Sontag ou Vila-Matas, entre outros.

O autor teve uma vida atribulada passando 20 anos em hospícios e 25 sem nada escrever. Aliás, convenço-me cada vez mais que os hospícios e sanatórios foram o gulag da Mitteleuropa para poetas e indesejáveis. Os que tiveram sorte, porque os que não tinham dinheiro iam para a prisão sem o mínimo das comodidades que apresentavam as famílias, como as de Walser, com alguns recursos. É uma figura muito difícil de compararmos (e porque o devíamos fazer?) com alguém do seu tempo. Adverso à chamada «grandeza literária» ou à exposição, fazia longas caminhadas de horas por bosques e pelas estradas observando e discorrendo sobre as pequenas coisas insignificantes com um amor e carinho inexcedíveis. Um leitor que tenha o mínimo de sensibilidade sabe do que falo quando deparamos com a descrição de um lápis como este excerto:
«(...) No quer diz respeito ao pequeno lápis, aquilo que o torna tão valioso, como já todos sabemos, é quão afiado ele se vai tornando, até que não haja mais nada para afiar e, tornando inutilizável pelo uso impiedoso, o deitamos fora, pelo que não ocorre a ninguém, nem mesmo de longe, expressar uma palavra de apreço e de agradecimento pelos seus múltiplos serviços. O irmão do lápis chama-se lápis azul e, como já tem sido dito de tempos a tempos, os dois desafortunados lápis amam-se como irmãos, estabeleceram entre si uma frágil e profunda amizade para toda a vida.(...)» (pág.20)
Ou sobre si próprio:
«(...) Desejo, pois, ser ignorado. Se, ainda assim, alguém quiser prestar-me atenção, pela minha parte não prestarei atenção àqueles que prestam atenção. A escrita dos meus livros anteriores não foi forçada. Creio que escrever muito não garante uma escrita de qualidade. E que não me venham falar dos ''primeiros livros''! Que estes não sejam sobrevalorizados e que se tente compreender o Walser vivo, tal como ele é.» (pág. 121)

Finalizo com um excerto do prefácio de Ricardo Gil Soeiro (ele próprio um poeta) que nos dá uma ideia mais aproximada e real da escrita de Walser: «(...) Uma espécie de Paul Klee da prosa (a imagem é de Susan Sontag), Walser esculpe límpidos parágrafos, frases musicais em filigrana que fluem como água escorrendo entre os dedos. Adoptando um olhar minucioso sobre as ninharias do mundo, as suas páginas exumam uma desconcertante ternura, fina tapeçaria escrita em sotto voce simultaneamente graciosa e amarga, como sublinha Walter Benjamim.
Enrique Vila-Matas definiu-o, com propriedade, como pioneiro da arte da desaparição, incluindo-o em Bartleby e Companhia, na galeria dos mestres da recusa, na longa linhagem dos partidários do Não. (...)» (pág.10/11).

segunda-feira, abril 03, 2023

«Cidadãos - Uma Crónica da Revolução Francesa», Simon Schama

 

Bookbuilders, 2021. Trad. Miguel Mata
911 páginas de contra-revolução e de amor à Vendeia. Simon Schama pode chamar-se historiador e ter uma equipa de colaboradores tão numerosa quanto dedicada e que provavelmente ficou esquecida nos agradecimentos logo nas primeiras páginas, mas não pode esconder que escreveu uma narrativa da Revolução Francesa descrevendo-a como dispensável, sangrenta, equívoca e contraditória. 234 anos após um dos maiores acontecimentos da História europeia, pode-se ler em Schama o horror que ainda provoca em tipos como ele. Considerada uma narrativa «belíssima», «que se lê num fôlego» este «mestre romancista» apresenta um quadro de demência total perante os acontecimentos que decorrem entre 1789 e 1794. O homem não compreendeu nada sobre um processo revolucionário e pelos vistos não quer compreender, nem está para isso. Argumentar com a dispensabilidade da revolução de 1789, porque o Antigo Regime estava a desenvolver políticas «progressistas» no campo da introdução do liberalismo e tinha abraçado paulatinamente o fisiocratismo, para além de ter resolvido a questão económica é de pasmar. Um estudante do 1º ano da faculdade saberá perceber que as ruturas acontecem exatamente quando um processo de modernização tem lugar. Veja-se o 25 de Abril de 1974 e o marcelismo «desenvolvimentista», veja-se a Revolução de 1917 na Rússia quando as contradições geradas pela «modernização» vieram espoletar o confronto entre classes. Mas Schama não quer a Revolução, odeia-a; não tanto pelos seus excessos (motivo mais encontrado e aumentado entre historiadores de direita), mas porque para ele não fez sentido nenhum ter explodido. Se os franceses fossem outros - por exemplo, como os ingleses em 1688 na Gloriosa Revolução, cem anos antes, esses sim foram muito mais circunspectos, mesmo que tivessem cortado igualmente a cabeça a um rei, por acaso chamado Carlos! - não teriam feito a revolução que gastou as energias positivas de uma nação em claro progresso. Chega ao ponto de dizer que 1789 existiu por inépcia e estupidez da aristocracia, ordem que esteve efetivamente por detrás da Revolução, sem perceber que estava ela própria a pôr a cabeça no cepo. Culpados: Voltaire (não tão deísta assim e afinal amigo do clero!), Talleyrand (um falso bispo, como tal extremamente adaptável a todas as situações), Mirabeau (um escroque tão libidinoso, como populista), Lafayette (um salta pocinhas revolucionário que nada compreendeu da Revolução americana de 1776 em que participou), Sade (repugnante), Anarchasis Cloots (um parvalhão), Marat (um tolo), Robespierre (um dissimulado sangrento) e por aí fora... mas o grande elogio vai direitinho para o povo francês e principalmente o de Paris quando lhe chama, por várias vezes, de «turba». Eis a turba, feliz e radiante com o seu milenarismo entranhado (e defendido pelo sonso do Rousseau), a cortar cabeças que saíam à rua sem o «cocar»! E Luís XVI exposto assim, coitado, sem pingo de culpa que antes de ser morto era acarinhado pela mesma «turba» que o matou, ele que era poupadinho em Versalhes, que se dedicava à caça e aos jogos e que adorava construir fechaduras, foi duas vezes vítima e não um carrasco para o povo. Maria Antonieta, uma pequena rainha que teve o azar de ter nascido austríaca, imberbe, cujos boatos de deboche forma criados por pura maldade da «turba». O facto de ter chamado o irmão para invadir a França, não é tão exposto quanto ao «caso do colar», esse sim, um verdadeiro boato que esteve na base de toda a propaganda anti-antonietista e que a levou à morte, claro está.
A Bastilha? Um paraíso, se a compararmos com os serviços prisionais de hoje (sic)! Os prisioneiros eram bem tratados, estavam sozinhos nas celas, tinham uma cadeira ou várias delas, uma cama com colchão, uma estante onde podiam ter livros e um guarda fato. A investigação de Schama chega ao ponto de ter descoberto que o «repugnante» Sade (23 anos de prisões e hospícios, tendo saído uma semana antes do 14 de Julho) tinha a visita da «sofredora» mulher uma vez por semana, ou Latude (28 anos preso!) tinham uma vida relativamente folgada. Aliás, Sade é que foi culpado de ter ido para um hospício (com a colaboração da tal sofredora), não tivesse ele berrado diariamente pelas muralhas da Bastilha para a sublevação do povo de Paris e insultado várias figuras da aristocracia e nada lhe teria acontecido. Ler para crer. Embora não o aconselhe a um leitor minimamente crítico.

Ter fôlego para chegar a 1793, a páginas 600, a época do chamado Terror, é o mesmo que aguentar uma maratona de 42 km. Nem valerá a pena esperar pelos enormes contributos sociais aos mais desfavorecidos que são uma constante desta fase da Revolução em que os sans-culottes de Jacques Roux e Mercier, as mulheres de Paris ou os Iguais de Babeuf e Buonarroti, tiveram um papel fulcral. A maneira como são tratadas as diversas Comunas e a Guarda Nacional não dá para descrever aqui, tal a azia. Repete-se: quem, 234 anos depois, ter assim um ódio tão primário à Revolução, não é de um historiador. Para isso, ao menos, temos Michelet que foi contemporâneo e mostrou bem mais consideração pelos factos históricos do que este romancista. A frase dele que resume tudo é que a Revolução Francesa não foi uma revolução que quisesse mudar a estrutura social, mas sim causada por questões sociais. Quase um motim, a bem dizer.

Portanto, as primeiras 500 páginas, são para explicar que desde Luís XIV a Luís XVI tudo ia bem e a França ia pelo bom caminho liberal, abandonando o mercantilismo de Colbert e decidida a enveredar pelas possibilidades imensas do fisiocratismo liberal, não fosse a aristocracia ter abraçado o Iluminismo de Voltaire, de Montesquieu ou de um tal Rousseau, a némesis de Schama. O Antigo Regime caiu porque a aristocracia aderiu à Revolução! Isto sim, agora compreende-se os elogios dos principais jornais americanos e europeus quando dizem que estamos perante um romance com uma narrativa fluente que se lê «num fôlego»! Faltava o aviso no livro «Baseado em acontecimentos reais», para ser uma adaptação a um filme cómico se não fosse demasiado trágico para a História, embora Simon Schama já tenha na sua posse um Emmy!

quarta-feira, março 29, 2023

«Modos de Ver», John Berger

 

Antígona, 2018
Por mera coincidência, vejo-me a ler dois livros que tiveram a mão de Jorge Leandro Rosa em editoras diferentes e sobre arte. Desta vez prefaciou e traduziu para a Antígona, em 2018, um livro icónico de John Berger. Parece-me evidente que um livro que foi publicado em 1972 e sendo talvez um guião de um programa da BBC, visto por muitos milhares, terá perdido o seu fulgor inicial, mas nem por isso estará arredado da sua atualidade principalmente na relação da arte (conceito hoje ambíguo tal como já o era nos anos 60 e 70) com o mercado e com o espetador. Nem todos os livros de ensaio sobre arte são tão úteis como este. Profusamente enriquecido com motivos pictóricos, publicitários ou fotográficos, John Berger leva-nos a questionar todo o papel da pintura para com quem a vê, como a vê e de que modo pode interagir com ela, se for esse o seu propósito. Isto não impedirá um leitor mais consciencioso do que preguiçoso a ir várias vezes consultar a internet para ver melhor os quadros e relacioná-los com os ''modos de ver'' de John Berger. Aí, a leitura torna-se mesmo estimulante. Um livro a ler e a reter.

«O Prazer no Desenho», Jean-Luc Nancy

 

Sistema Solar, col. Documenta, e Fundação Carmona e Costa, 2022
Não concebo que alguém que desenhe, e que sinta prazer nisso, ignore propositadamente este livro de Jean-Luc Nancy, editado e traduzido por Jorge Leandro Rosa, com iconografia final de Daniel Moreira e Rita Castro Neves.

O livro é composto por 16 capítulos, com igual número de «caderno de apontamentos», que são citações várias sobre o desenho, o traço, a linha sobre uma qualquer papel ou material que a isso se ofereça. Palavras e ideias algo densas, mas não impermeáveis, que nos permitem aclarar de um modo rigoroso que prazer é este do «Prazer no Desenho». Leia-se uma, duas, as vezes que forem necessárias para chegarmos às ideias-mestras do que significa o desenho que estará na base do nosso «desígnio». 

Jean-Luc Nancy morre em agosto de 2021, mas ainda teve tempo (e disposição) de endereçar ao editor um esboço de um prefácio a este livro. Apresenta-se um trecho inicial desse mesmo prefácio: 

««Le Plaisir au dessin» forma em francês uma expressão ambivalente: ou ela fala do prazer que se sente ao desenhar, ou então fala do prazer que se põe ele próprio ao desenhar. Poder-se-á pensar que apenas o primeiro sentido é possível e que o segundo não passaria, no melhor dos casos, der uma metáfora ou mesmo de uma absurdidade. Contudo, foi a mistura das duas significações, como dois aspectos de uma mesma e única realidade, que determinou a escolha deste título.
    Ninguém pode duvidar que se tenha prazer ao desenhar. Todas as culturas o atestam e em todas as culturas se verifica o gosto das crianças pelo desenho sob todas as suas formas. Seja num papel ou numa casca, na areia ou mesmo na água ou no ar, a criança sente satisfação em traçar linhas, contornos. Nem sempre se trata de traçar figuras, mas é sempre uma mostração que está em jogo: alguma coisa deve ser mostrada, posta em evidência, manifestada. Talvez não seja mais do que o próprio movimento da mão, ou então é a sobrevinda de uma emoção, de um pensamento, de uma impaciência ou de uma pausa. Algo que se forma em alguns traços, talvez em cores variadas ou por vezes em simples rabiscos numa cornija ou no chão (...)» (pág. 105)

segunda-feira, março 20, 2023

Estudos 3, Galeria Atelier Ícone

 

Março de 2023, Galeria/Atelier Ícone

«Notícias do Bloqueio», de Joana Emídio Marques

 

Joana Emídio Marques, Língua Morta, fevereiro de 2023
Uma antologia de textos publicados no «Observador» e escolhidos por Joana Emídio Marques para a publicação deste «Notícias do Bloqueio» título baseado num poema de Egito Gonçalves e de uma revista de poesia publicada entre 1957 e 1962 com a participação de nomes como Alexandre O'Neill, Carlos Drummond de Andrade, António Reis, o próprio Egito Gonçalves, João Ribeiro de Mello, Orlando Costa, Joaquim Namorado, entre muitos outros.
O próprio título escolhido para o livro muito bem escrito por Joana Emídio Marques dá conta do país que (ainda) temos no plano literário: algo rançoso, promíscuo, indiferente, narcísico no que o termo tem de pior. A autora não descura as críticas que endereça ao «meio». Elas são muitas e reconhecíveis. Verosímeis, mesmo para quem nunca ainda passou pelos meandros do compra e venda literários. Dos festivais, da «crítica», das embirrações, dos ódios de estimação, do desprezo pelos leitores a que votam a maioria de quem escreve e que sabe a receita para vender bem, embora se saiba à partida que não viverá só disso. Terá de fazer mais um esforço, até ao limite do insuportável para qualquer humano, mas suportável para a maioria deles. 

Joana Emídio Marques inicia o seu capítulo mais forte, logo o primeiro, e olha, com emoção e precisão literárias, para os surrealistas. A emoção não fere a narrativa, reforça a vontade de nos dizer que foram aqueles surrealistas, avessos ao poder qualquer que fosse, a mostrar o desespero de viver-se em ditadura. Mais: de viver em ditadura em Portugal. Porque se todas as ditaduras são impossíveis de se viver e mesmo de sobreviver dignamente, o estado de ter nascido neste canto europeu ainda torna a coisa mais capciosa. Foi o que aconteceu desde 1949 em que os surrealistas tentaram formar-se em grupo. Dificilmente para espíritos tão livres quanto o eram desde início e muito novos, na casa dos vinte, tirando Cesariny já trintão. Quando me referia a emoção, como leitor e ao fazer esta ficha de leitura, esta foi-me entregue pela autora quando de uma forma clara utiliza magistralmente o registo biográfico com a poesia, prosa, pintura, instalação ou escultura que saíram das mãos destes homens e algumas mulheres (poucas, aliás. Contam-se, talvez, Natália e Isabel Meirelles). Ler neste ensaio a vida e obra de gente que nunca vergou, que polemizou, que se estava a marimbar para a vida, que queria atingir um grau de ascese poética com um vigor desconhecido até então, só se pode aferir com emoção. Essa emoção é-nos direcionada para as vidas de um Manuel de Castro (filho de um ministro de Salazar que nunca superou uma morte trágica e ainda mal contada da mãe), de um António José Forte, de um Mário-Henrique Leiria, de um António Maria Lisboa (que morreu aos vinte e cinco anos depois de destruída grande parte da sua obra pela família), de um José Escada, de um José Sebag, de um Alexandre O'Neil, de um Pedro Oom (que não resistiu à emoção da queda do fascismo), de um Manuel de Lima ou de um Ernesto Sampaio. Entre outros que formavam o grupo do Café Gelo (negado como grupo por Herberto Hélder) invadido violentamente pela polícia num dos mais aguerridos 1º de Maio de 1962 onde se contaram dois mortos e centenas de feridos em Lisboa. 

A coerência de «Notícias do Bloqueio» mostra-se ainda pela viagem crítica de Joana Emídio Marques para com figuras ímpares que dão força a uma contestação social que anda inevitavelmente de braço dado com as vivas experiências literárias como o austríaco Karl Kraus, Robert Walser, Stig Dagerman ou Sylvia Plath (esta última com a contribuição vivida com ela por Hélder Macedo). 

As palavras da autora são claras, para quem se assume como jornalista literária algo desencantada, não deixam dúvidas: «(...) Os tempos não estão para subtilezas, como não estão para a Cultura, nem para as utopias. É preciso fazer dinheiro, ter prestígio, ser famoso, ter sucesso (seja lá o que isso for) para ter direito a ser falado pelos média. A banalidade tenta recobrir a Cultura com uma superfície lisa, polida e sem atrito, sem zonas de resistência, onde tudo o que é reproduzido se destina a ser consumido e a gerar mais dinheiro. Essa lisura  que recobre o espírito da nossa época, impõe, como sendo Cultura, aquilo que não é mais do que mercadoria supérflua, e o consumo desenfreado como sinónimo de felicidade e bem-estar - sobretudo, para nos convencer de que tudo o que circula no mundo se destina a um progresso, sendo progresso sinónimo de bem, de bom e de belo. (pág.9)».

«No entanto, cheira a podre. É a crítica literária. Actualmente, qualquer crítica negativa, não  ou exultante a um livro, a um filme, a um trabalho discográfico ou a um espectáculo é considerada bullying ou ''discurso de ódio''. Posta de parte como uma filha aleijada, a secção de Cultura dos jornais foi perversamente esvaziada de jornalistas e tomada de assalto por pessoas que vêm de cursinhos de literatura, candidatos a escritores, pessoas de confiança dos grandes grupos editoriais, enfim: gente, gentinha, gentalha que vê no trabalho do jornalista cultural uma forma de amealhar capital simbólico para se tornar conhecido, para publicar os seus próprios livros, etc.(...) (pág13)»

«Um Discurso Escondido - Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a I República, 1910-19» de Vanessa de Almeida

 

De Vanessa de Almeida, Bizâncio, 2009
O livro de Vanessa de Almeida constitui uma tentativa de não esquecer um período específico das lutas operárias iniciadas com a I República até 1919 nesse local já mitológico das lutas operárias que foi o Barreiro da CUF. Para nós, uma aposta claramente ganhadora. Período do sindicalismo revolucionário, das Associações de classe que nasciam ao ritmo das desilusões populares face ao novo regime republicano que gorou qualquer veleidade de efetiva melhoria das condições de trabalho ao operariado. Do sindicalismo revolucionário do jornal Avante! de 1910, ao anarquismo de A Batalha e às grandes greves de 1943, já comunistas, o proletariado do Barreiro resistiu sempre e talvez seja o que mais consciência de classe demonstrou na região portuguesa. 

Vanessa de Almeida apresenta vária bibliografia e jornais que consultou pormenorizadamente, para além das atas da administração da CUF onde Alfredo da Silva, patrão «bom», «justo» e paternalista à moda de João Franco, Sidónio e Salazar, e donde vem a máscara do vice-presidente da AIP que não recuava perante milhares de despedimentos e que chamava a novíssima GNR para se aquartelar no espaço da própria CUF. A repressão acompanhou a bonomia paternal com que tratava os operários ou da imagem que fez passar a sua própria propaganda. A autora retira-lhe a máscara numa excelente conclusão ao seu livro:

«Se a imprensa operária analisada permitiu o contacto com o ''registo público'' da luta protagonizada pelos grevistas da CUF, as actas dos conselhos de administração e fiscal da companhia possibilitaram o acesso ao ''registo escondido'' do discurso de Alfredo da Silva. Segundo James Scott, no estabelecimento das relações de poder, o discurso público raras vezes corresponde ao discurso escondido. Numa relação de dominação, os dominados adoptam muitas vezes uma máscara face aos dominantes. Todavia, também as elites têm necessidade de adoptar máscaras na presença de subordinados e, como tal, existe uma disparidade entre o registo público expresso no exercício do poder e o registo escondido, que só será partilhado num ambiente propício a tal. (pág. 124)»

Veja-se, já sobre este paternalismo de Alfredo da Silva, o que diz A Batalha de 8 de abril de 1919, com uma nota de Vanessa de Almeida, informando-nos que não conseguiu confirmar a notícia com outras fontes:
«Quando em tempos os operários fundaram uma Associação de Classe, o Sr. Alfredo da Silva conseguiu, por processos vários, mas que tendiam sempre a atrair as simpatias ingénuas do pessoal, a transformar a associação, fundada para defesa económica dos trabalhadores, numa simples sociedade de recreio, que hoje tem o nome de Grémio Recreativo CUF, fornecendo dinheiro para a compra de instrumentos e organização de uma banda de música, fazendo assim desaparecer a Associação de Classe. (pág.93)»

E as máscaras de Alfredo da Silva e do governador civil da cidade, republicano, caem perante a violentíssima repressão às greves de milhares de operários da CUF e de Lisboa juntando-se a isso a chantagem da fome à população. Leia-se a Batalha de 26 de junho de 1919:
«Em virtude da acção jesuítica de Alfredo da Silva, os habitantes daquela localidade encontram-se sem pão. Tendo ido uma comissão de padeiros ao governo civil a reclamar alguma farinha para que o pão não faltasse, a resposta foi esta: ''Os operários desde que estão em greve não precisam de comer!'' E o digno governador não forneceu nenhuma farinha, razão porque falta pão no Barreiro, onde as crianças passam fome! E são essas criaturas, piores do que feras, que apregoam aos quatro ventos a liberdade e a fraternidade. (pág.113»

Mais que nunca a leitura deste livro de Vanessa Almeida torna-se necessária na desmontagem do que se supõe ser um «patrão bom». Neste caso de Alfredo da Silva, um falso self made man, tal como todos os outros. Mas de quantos «Discursos Escondidos» se faz um patrão jesuítico? Daqueles que são unânimes, até pelos que na esquerda foram criados. Atentemos num operário da CUF «diligente, disciplinado e respeitador» tal como gostava Alfredo da Silva:
«O Alfredo da Silva, caramba! Ele dava a volta ao bairro! Tanta vez que ele ia à fábrica! Tanta vez! Ele foi sempre bom patrão!... Quando nos deram leite com café e cacau, pão com manteiga, foi dele! Um ano, pelo Natal, as prendas que deram aos operários, foi ele! Aos homens foi... parece que era tabaco, se não estou em erro. Vinha da Tabaqueira; e às senhoras, era ou xailes ou cobertores, que ele mandou dar pelo Natal. Portanto, dele, os operários nunca tiveram queixa! Ele castigava era os que mandavam lá, os encarregados! (pág.126)» 
Outro:
«(...) uma vez vinha lá o Patrão. E eu estava a comer, assim que vi, tirei logo o pão e pus dentro da algibeira, mas a algibeira estava cheia de cotão, de desperdícios, e ó depois eu parei e ele veio por ali a fora (...) ''O que é que estavas a comer?'' E eu assim: ''Estava a comer um bocadinho de pão.'' ''Então mostra lá.'' Depois eu tirei, era cheio de pêlos (risos). E ele assim: ''Nunca faças isso, quando estiveres a comer, tu come, ninguém de ralha.'' E eu assim: ''Mas a gente não tinha ordem de comer'' (pág.127).»

quinta-feira, março 16, 2023

«A Voz das Mulheres», de Sarah Polley

 

Não cheguei a entender (mea culpa) se o filme, baseado em factos reais numa colónia evangélica na Bolívia, entre 2005 e 2009, onde várias mulheres eram sistematicamente violadas, tinha por objetivo a crítica implícita a toda a sociedade patriarcal ou só era explícito a violência particular daqueles actos concretos. Se assim foi, nesta segunda hipótese, é um filme consistente e atingiu os seus objetivos, se não, temos aqui metáforas não totalmente conseguidas: será possível transpor esta situação a toda uma sociedade oprimida? E se assim é, a solução entre fugir, ficar ou lutar, base de toda a discussão entre as mulheres violentadas, será a de fugir? Não me parece, se foi essa a mensagem da escritora canadiana Miriam Toews, uma solução inteiramente digna para quem apresenta uma possibilidade de liberdade da mulher. Ou de uma sociedade? 

sábado, março 11, 2023

«Breve História Mundial da Esquerda», Shlomo Sand

 

Zigurate, 2023. Tradução de Carlos Vaz Marques
Pode dizer-se que a leitura deste livro provoca um longo bocejo. Nada de novo no ar e a breve, não tão breve assim, descrição do que já todos sabemos é salteado, de vez em quando, com um azedume à esquerda impossível de o esconder. Aliás, para alimentar alguma confusão não há só uma página do livro em que não apareçam os termos «liberal», «liberais» ou «liberalismo», e isto não sendo inocente é associado a termos como «liberal de esquerda», «liberalismo esquerdista», «socialista liberal», «liberalização comunista», etc.,etc. Que o homem se tenha arrependido, mais tarde, em 1956, com a invasão da Hungria pelas tropas do Pacto de Varsóvia, que o pai o tenha inscrito nas Juventudes comunistas israelitas quando ainda era um jovem e sem estar sequer convicto, compreende-se. Mas tão tarde, caramba? É como o Carlos III chorar aos 50 anos que se casou com a Diana porque o pai o obrigou! Ou como os camaradas dos PC's descobrirem, em 1991 e ainda nos anos seguintes, que a URSS vivia uma ditadura!
Quando este autor não quer aclarar uma posição «sua» afirma solenemente que o fenómeno ainda não foi estudado suficientemente (por outros); assim se passa com a adesão dos jovens ao maoísmo na Europa, ou com o feminismo, ou com os jovens machos do Maio de 68 que eram servidos com café antes das manifestações ou durante as reuniões pelas suas colegas que exigiam libertação sexual. E que a conseguiam mas após servirem o café, confundindo liberdade sexual com assédio, balha-me nosso senhor! (página 221). 
Mas a «breve» descrição da esquerda mundial (não vai por menos!) tem alguns constrangimentos como, por exemplo, tentar defender que as ditaduras do Chile e da Argentina e as demais sul-americanas não se podem confundir com o fascismo ou nazismo por terem economias liberais, portanto prósperas. Tal como as de Salazar e Franco, retomando a sempre e estafada tese do conservadorismo católico de direita. Matar ou não matar fica para a esquerda que, segundo o senhor Sand, é sedenta de sangue e totalitarismo, mesmo que as descrições que faz dos massacres de militantes de esquerda em todo o mundo ocidental e colónias a ele adstritas provem exatamente o contrário. Foram aos milhões os revolucionários massacrados nos anos 50, 60 e 70 desde a Indonésia, Filipinas, Iraque ou no Paquistão. 
Quanto aos anarquistas, Shlomo Sand apresenta-se mais paternalista. Eram utópicos, antiautoritários, antimarxistas e, claro, defendiam sociedades «liberais». Não sei onde ele foi buscar isto de ver anarquistas liberais (talvez nos EUA, mas na Europa do século XIX?), mas acredito que tenha as suas fontes fidedignas. Sobre os anarquistas apresenta teses tão pobres que até mete dó. As omissões são imensas. 
Já com o nazismo ou o fascismo o seu capítulo «Camisas Negras ou Castanhas: direita ou esquerda?» diz tudo. Pela pergunta assim formulada escuso de falar muito mais sobre as suas conclusões.
Quanto a Lenine, quando chega da Finlândia a Moscovo, em 1917, e defende as suas Teses de Abril (sem que ele as denomine assim e faltem algumas dessas teses), diz que os princípios «Paz, Terra e Pão» foram «diabolicamente» eficazes. Diabolicamente a «Paz, Terra e Pão»? Outra questão é a de saber que palavra de ordem de Lenine foi esta «Todo o poder liberal aos Sovietes!» (página 126)? Como disse ao princípio deste texto, em cada página há a palavra «liberal», mas colocá-la assim junto aos sovietes? Mais outro «balha-me deus»! É isso e colocar o epíteto de «anarco-reformista» a Gandhi. Há limites para tudo, mesmo para a paciência de Gandhi.
Conclusões dos tempos que correm deixo-as para vós analisardes: «A aliança entre um poder político centralizador e uma economia de mercado, já experimentada com sucesso na Alemanha de Hitler, assumiu na China uma forma de simbiose original e surpreendente, desconhecida até então.» (pág. 160). E sobre a repressão e autoritarismo da Rússia de hoje vai desencantar  uma «ancestral tradição repressiva (dos czares)» tão relevante como o estalinismo, apontando o dedo aos historiadores que relevam para segundo plano o que ele em pouco tempo terá descoberto! Mais um dado não suficientemente aprofundado. Não fosse ele a avisar-nos!

quinta-feira, março 09, 2023

segunda-feira, março 06, 2023

«As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia», de Pascal Quignard

 

Cotovia, 1999, Tradução de Ernesto Sampaio
Pascal Quignard apresenta-nos um livro admirável baseado em pequenas memórias, recados, agendas, impressões de uma patrícia romana, Apronenia Avitia, que viveu no estertor do Império entre 343 e 414. Nestes folios recolhidos em 1604 pelo francês Fr. Juret, em Orriam, Pascal Quignard segue o seu roteiro literário de pequenos fragmentos que formam um todo percetível. Consegue-o de uma maneira magistral. 

Apronenia Avitia nasce em Roma em 343 e morre ao que se supõe aos 71 anos. Para alguma perplexidade de Pascal Quignard, Apronenia só muito por alto fala da queda do Império e da corrupção que lhe está inerente à vista de todos. As suas preocupações e registos são outros, embora ao que tudo indica tenha assistido aos cercos do chefe godo Alarico a Roma e se tenha refugiado numa das suas «villas» na Sicília também em devastação. Mas as suas impressões deixam-nos uma marca de uma época violenta e ao mesmo tempo terna, quase ingénua pela descoberta dos pequenos grandes prazeres do corpo, da sensibilidade pela natureza e também pela filosofia e pelo pensamento. Apronenia Avitia casa-se três vezes e tem sete filhos que lhe sobreviveram. Não escreve quase nada do seu primeiro marido embora soubéssemos que era rico e, como tal, patrício, tenha vivido com ele quase trinta anos e tenha tido os seus filhos com ele. Herdou e enviuvou duas vezes mais aumentando assim o seu pecúlio e riqueza não sem sobressaltos devido às expropriações cristãs de terrenos de patrícios pagãos que se dão em toda a Península Itálica, a partir do Édito de Milão e principalmente a partir de Teodósio. O cristianismo impunha-se com conversões oportunas desses patrícios, os seus «clientes» e juntamente com os escravos. Mais velha que Agostinho e Jerónimo vê sobrepor-se aos deuses romanos e ao pensamento a que hoje chamamos «clássico», a teologia cristã. Não aderiu, nem o seu círculo próximo de amigos e de senadores, ao cristianismo, embora amigas íntimas e alguns familiares por motivos políticos e de propriedade, o tenham feito.

Quando enviuvou pela primeira vez, uma amiga cristã de Apronenia, Anícia Proba, envia uma carta ao bispo Nasébio sobre os conselhos que a igreja lhe teria para dar quando aquela se preparava para se casar novamente. Conhecemos a carta, de 392, que lhe foi endereçada pelo bispo e ignorada olimpicamente pela patrícia:
«Tentarás reparar, na medida do possível, uma inocência manchada pelo prazer e pela idade, uma candura que o tempo, a maternidade e a sensualidade macularam. Pelo menos, procurarás restaurar em ti a nostalgia desse estado. Porás todo o cuidado em evitar armadilhas a que te expõem Roma, a comida, o gosto pelos livros profanos, os cuidados corporais, a riqueza, a proximidade da velhice e a autocomplacência que lhe é própria, a música e todas as artes. Purifica-te! Toma consciência da promiscuidade matrimonial! Deixa-te tocar pelo estado de Nosso Senhor, as virtudes da pobreza, o desprezo por esta terra e pela sociedade dos homens; deixa-te tocar pelo amor do Céu!» Apronenia não se deixou tocar, evidentemente.

Em 396 dá-se a separação do Império e, no Ocidente, começa-se a fúria destrutiva dos antigos deuses, pensamentos e conhecimentos pagãos. As estátuas eram destruídas e a expropriações revertiam para o espólio já enorme da igreja cristã. As violências sobre o «partido» pagão atingiam igualmente um ponto de não retorno. Volusianus, um senador do grupo do Monte Caelius e vagamente familiar de Apronenia enviou-lhe esta carta desesperada em 408, reproduzindo estas mesmas ideias (também por carta) por todo o Império. Dizia ele: «Desde que o cristianismo triunfara a vida perdera a alegria, as cidades, as vias, os templos, os teatros, as termas, deixadas ao abandono, alteravam-se e caíam lentamente aos bocados. Antes dos cristãos tomarem o poder, os livros eram mais bem escritos, a vida mais tranquila e feliz, mais radiosas e mais desejáveis, as moradias maiores e mais esplêndidas, a alegria mais contagiosa, a luz mais cintilante, os sons mais puros, o cheiro dos sexos mais exaltante e almiscarado; até as sardinhas  e as salsichas grelhadas tinham outro sabor. desde o édito de Honório, desde que perdera os seus deuses, com os Godos sempre presentes, Roma ficou desolada; o vinho tinha sido transformado em sangue, o pão em fogo e cinzas; os cantos e as pantominas tinham sido substituídos pelos gritos dos torturados; arte já não havia: apenas ruínas. (...)»

Alguns apontamentos de Apronenia Avitia nos pequenos buxos de cera escritos com estiletes de prata:

XXI. Coisas que dão um sentimento de paz
Gosto dos ruídos dos carros de Roma.
Dos banhos de sol nos terraços, ao entardecer.
Do sono pesado de um homem que gozou.
Dos colchões do Nilo.
Das estrelas, quando a madrugada pouco a pouco as apaga.
Detesto os velhos, ou pelo menos os que parecem sempre acompanhados pela morte.

XXXI. Descoberta
Não gosto de fazer amor durante a primeira sesta.

LVII. Alegrias da aurora
Gosto da aurora, das sombras roídas pela claridade.
Os telhados do parque tornam-se pouco a pouco visíveis.
O odor da noite, do suor e dos prazeres de que nos recordamos aos poucos, à medida que nos vamos despindo deles. Pouco a pouco a aparência retorna aos corpos, enquanto os vamos escondendo e maquilhando.
A água fresca sobre os olhos e na garganta.

LVIII. Litania de Spurius Possidius Barca
(...) - Houve um tempo em que eu não existia e houve um tempo em que tu não existias. Haverá talvez um tempo em que eu deixe de existir e tu existas, ou talvez um tempo em que tu não existas e eu exista. Serão sem dúvida os tempos mais tristes. Depois haverá um tempo em que ambos já não existiremos e nunca mais voltaremos a existir.
Enquanto ele falava, Spatalé repunha azeite nas candeias. Eu acariciava-lhe com o dedo as costas da mão, que tremia.

LXI. A pobrezinha de Lucianus
(...) ''Eu sou Lalagé Asdiga'', disse. ''O mar corrói as costas e forma baías. Tenho a boca e as nádegas das porcas. Fui bela. O tempo é um deus de água, de falésias que desabam, de areia. Tudo nos empurra, nos arrasta para a morte. Há muito tempo que o frutos dispostos na canastra tinham perdido o viço e fui repudiada. Amava Quintus e nos meus sonhos, por vezes, ainda o desejo.''

LXXXII. Os sinais da felicidade
Tais são os sinais da felicidade: uma fortuna herdada.
Uma linguagem precisa, o acento de quem não tem acento.
Um parque variado, com muitas sombras, acidentado e profundo.
Um corpo robusto.
Amigos dissemelhantes, loquazes, bons leitores, mas também convivas indulgentes e um pouco grosseiros.
O rosto de um homem cujos olhos revelam todas as emoções, tal como um espelho do Oriente.
Um sono de cinco horas desde que não seja interrompido.
A companhia de um homem que goste do prazer, isto é, da delicadeza do prazer.
Nas vezes da morte, um susto comedido.
Tomar banho.
O uso da lira.

XCVII. Dito de Spurius Possidius Barca
Depois da morte de Spurius não tenho pensado em nada. esta manhã, lembrei-me de uma coisa que me disse antes de entrar na agonia e que me comoveu:
- Não há outra vida. Nunca mais nos veremos.
As lágrimas corriam-nos pela cara. Apertámos a mão.

CXX. Moléstias dos olhos.
(...) Publius diz:
- Uma espécie de poeira invisível cai do sol, cheia de átomos. Nada consegue livrar-nos dela. Mete-se-nos na vista e torna-se cada vez mais espessa até à noite da morte.
Publius acrescenta:
- Essa poeira chama-se poeira.
Cala-se, depois acrescenta ainda:
- Ou então o nome dela é tempo.
Volta a calar-se, para acrescentar de novo:
- Ou então terra.
Cala-se mais uma vez, e por fim diz:
- Ou então o nome dessa poeira é ainda e sempre poeira. 
(...)

CXXXII. Coisas longas e coisas sem duração
Entre as coisas mais longas, acrescentaria a infância.
O arbusto do buxo.
Esperar por Aulus que está no gramático e já há uma hora que devia ter voltado.
A velhice.
A tartaruga do mar.
A morte daqueles que estão mortos.
A insónia.
A gralha.
Entre as coisas sem duração, não anotaste os deuses imortais e as obras irrepreensíveis.
Entre as coisas sem duração, o amor deve ser suprimido. Está para a espécie como o sexo ou as mamas que o acompanham e permitem a reprodução, mas não definem nada de propriamente humano.

A tradução de Ernesto Sampaio é uma mais valia considerável do livro. 

António Luís Catarino

terça-feira, fevereiro 28, 2023

Dois policiais


Dois policiais, duas narrativas completamente distintas separadas também pelo tempo. A primeira, de Carter Dickson, A Flecha Assassina, publicada nos anos 30, consegue ser uma obra interessante passando-se somente num tribunal e, menos, numa tasca inglesa. Toda a trama de um assassinato é descoberta em pleno tribunal, incentivando-nos a deduzir, pelo leitor, o caminho que levará ao final do enredo. As estratégias levadas a cabo pelos advogados de defesa e acusação são marcadas por uma forma literária que nos prende do princípio ao fim.

Já Os Diários Secretos, de Camila Lackberg de 2007, são 500 páginas, algumas desnecessárias, que retratam a impossibilidade  da Suécia e dos Suecos em verem-se livres de um passado de colaboração com os nazis e ocupação alemã sob a capa de uma neutralidade criminosa. Pelos vistos, e segundo as palavras da autora, foram muito mais os colaboracionistas do que os resistentes. Mas isso são contas de outro rosário. A trama é mais viva nas últimas páginas do que o enredo inicial onde a autora, que tem mais de 20 milhões de livros vendidos, parece não saber para onde quer ir a narrativa. Foi com algum alívio que vimos confirmar as nossas suposições de quem era o assassino. Afinal não foram os nazis os carrascos, também aí há bons rapazes!!, mas sim um velho resistente. Ele há gente para tudo.

alc

sábado, fevereiro 25, 2023

«Tár»

 

2022. De Todd Field. Com Cate Blanchett e Nina Hoss
Creio ser já um lugar comum afirmar que é um grande filme, embora fuja, até certo ponto, à matriz de Hollywood. Creio igualmente que todos estiveram com atenção ao seu início com a entrevista de Tár: o Tempo torna-se o mote da conversa levado inteligentemente para o debate pela maestrina protagonizada por uma Cate Blanchett soberba. O tempo que pode ser tanto o ritmado pelo metrónomo ou pelo tempo da vida, aquele que flui durante a nossa duração por aqui. A música pode ser matemática como liberdade pura. É razão e emoção. É Mahler ou Bach, os opostos. Tár vive obcecada pelo som, pelo tempo, e persegue-os e às personagens que os criam. O filme tem igualmente uma visão que pode ser caleidoscópica ou total: o poder que Tár exerce sobre tudo e todos os que a rodeiam sem se dar conta que há todo um mundo lá fora (da música e da política burocrática) que pode virar-se repentinamente contra ela pelo género, pela manipulação tecnológica da imagem (e, já agora, dos fonemas passados a palavras), pela comunicação social e redes sociais, por alunos e assistentes que usam contra o si o poder que lhes dá, numa teia onde, provavelmente, o mérito é o menos importante. Tár cai e a queda é ruidosa. Os seus inimigos exultam. Não por ser uma maestrina de excelência, e o filme abre-nos a porta a excertos musicais como é raro ver em filmes - Miguel Ramalhete Gomes fala disso aqui, num post seu sobre o filme, utilizando um termo «selvajaria» com que logo me identifiquei sobre o som da 5ª de Mahler que nos esmaga -, mas porque o jogo da substituição sem freio é o mote dos dias de hoje, mais do que o crime e castigo das tragédias. A queda está sempre presente, é sempre possível, em nós e o filme lembra-nos isso de uma forma inteligente.
alc

segunda-feira, fevereiro 20, 2023

«Alfabeto Adiado», de José Ricardo Nunes. 13 anos depois um livro diferente com o mesmo título


Um novo «Alfabeto Adiado» de José Ricardo Nunes. Em junho de 2010 um livro com o mesmo nome foi publicado na Deriva. Para mim, com a certeza de um dos melhores livros que editei enquanto mantive a editora em 15 anos. Há uns dias, pela mão do José Ricardo, recebi este livro excecional editado pela Companhia das Ilhas. Uma pequena nota de autor no final do livro faz notar a coincidência do título ressalvando que é um livro novo. Não completamente, contudo. Mas livro novo, mais apurado com mudanças, algumas significativas, de 23 poemas (não sou capaz de lhes chamar «prosas poéticas») inaugurados em 2010, com uma necessidade sentida de síntese, aberta pelo tempo, 13 anos depois. Acrescentou-lhe mais 19 poemas. E é essa necessidade de apuramento, de medição das palavras que faz todo o sentido neste livro extraordinário onde o poeta apresenta várias noções de tempo, seja o Kronos, o Kairos ou o Aion gregos. Um livro que deve ser lido devagar, se possível com outros «adiamentos» anteriores encontrados noutros tantos livros, alguns de viagens (ou o Topos), que faz desta poesia uma das melhores que tenho lido e sentido.

«Repetição da minha vida (excerto)
Sempre me senti deslocado face ao tempo, como se lhe tivesse ganho um avanço substancial, irrecuperável. As coisas acontecem em mim antes ainda de terem uma expressão objectiva e materializada. A realidade surge invariavelmente depois.
A dissonância existe entre o meu agora e o próprio fluir do tempo. (...) Poderia prosseguir com os exemplos durante o resto da noite. Apresentar a regra, porém, sem incoerências nem lapsos, exigir um poder de síntese para o qual a linguagem não revela aptidão. Sou mais lento do que maioria, a falar ou a mover-me, mas apreendo com uma velocidade de relâmpago - eis outra formulação possível. Antecipo. (...)» pág. 25 e 26
José Ricardo Nunes, Companhia das Ilhas, janeiro de 2023.
O autor publicou, igualmente, entre muitos outros, «Versos Olímpicos» (Deriva) ou de «Andar a Par» (Tinta-da-China).

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

«Não-Lugares. Introdução a uma antropologia da sobremodernidade», de Marc Augé

 

2ª Edição Letra Livre, 2016. Tradução de Miguel Serras Pereira
«(...) As três figuras do excesso pelas quais tentámos caracterizar a situação de sobremodernidade (a superabundância de acontecimentos, a superabundância espacial e a individualização de referências) permitem que apreendamos sem ignorarmos as suas complexidades e contradições, mas sem fazer também delas o horizonte insuperável de uma modernidade perdida da qual nos restaria apenas assinalar os traços, repertoriar as formações ou inventariar os arquivos. O século XXI será antropológico, não só porque as três figuras do excesso [o Tempo, o Espaço e o Ego] são apenas a forma actual de uma matéria-prima perene que é a própria matéria da antropologia, mas também porque nas situações de sobremodernidade (como nas que a antropologia analisou sob o nome de «aculturação») as componentes se adicionam sem se destruir. Podemos assim tranquilizar antecipadamente aqueles que se apaixonam pelos fenómenos estudados pela antropologia (da aliança à religião, da troca ao poder, da possessão à feitiçaria): estes não estão perto de desaparecer, nem em África, nem na Europa. Mas tornarão a fazer sentido (o sentido) com o resto, num mundo diferente cujas razões e desrazões os antropólogos de amanhã terão, como hoje, a tarefa de compreender.» (pág.40).

sexta-feira, fevereiro 03, 2023

«A Mais Baixa Profissão», Boris Vian

 

Editado pela Hiena em 1995, 30 anos após a sua 1ª edição póstuma pela Jean-Jacques Pauvert, não sem alguma polémica na ocasião, visto que não é certo, como aliás afirma Aníbal Fernandes em prefácio, que Boris Vian, falecido em 59, alguma vez estivesse de acordo com a sua publicação. No entanto ela existiu, sob protesto de Vian e porque censurada, em 1950. Aliás, em 1959 o seu coração já debilitado desde jovem não aguentou ao ver a versão cinematográfica de «Irei cuspir-vos na Campa». Não chegou a ver o filme completo, pois.
 
Trata-se de uma pequena peça de teatro, traduzida igualmente por Aníbal Fernandes, que serviria para complementar uma outra «L'Equarissage (Pour Tous)» já que teria somente 1 hora de duração!! Mas a verdade é que naquela pequena obra está lá todo o Vian que conhecemos: mordaz, irónico, surrealista, anarca. Não saberemos nunca qual das profissões é a mais baixa de todas: se a de padre, a de polícia, a de sacristão ou de repórter. Para o caso tanto faz. Poria todos no mesmo saco, embora a profissão de ator, ou melhor, de figurante que está na plateia para aplaudir, também não se safa do rol.

Nota curiosa: Aníbal Fernandes fala da apresentação da peça no Teatro Aberto e sem grandes comentários ou circunstâncias (e é pena) informa-nos de estudantes de Coimbra a «gozarem» com «A Mais Baixa Profissão». Sabemos do que estudantes de Coimbra são capazes e, por causa disso, a «cidade do conhecimento» como a si própria se intitula esteve décadas sem conhecer movimentos de vanguarda ou de protesto entre 1870 (as célebres Conferências...) até 1969. Depois da explosão libertária do Prec (que durou pouco na urbe inquietada), voltou à modorra que hoje conhecemos. Investigaremos, contudo, este facto.

Boris Vian, como sabemos, era igualmente engenheiro de máquinas, para além de músico, poeta, escritor e cantautor. A máquina-confessionário que ele próprio desenhou (para esta peça?) é de ser apresentada aqui:
A Máquina de Confessar, de Boris Vian. Hiena, 1995

Editora Hiena, 1995
Prefácio e Tradução de Aníbal Fernandes
Capa de Rui André Delídia

António Luís Catarino


 

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

«Os Anos», Annie Ernaux

 


Tinha lido «O Acontecimento» e visto o filme homónimo. Agora apeguei-me a este «Os Anos» de Annie Ernaux que, antes destes dois livros, não conhecia. Ernaux inicia o seu livro com a frase «Todas as imagens irão desaparecer» e o fio cronológico que tece é uma tentativa conseguida de desbravar as memórias de uma França em prosperidade económica do pós-guerra, mas com feridas por sarar entre gerações. Nascida em plena II Guerra Mundial, em 1940, lembra-se da morte de Estaline que marcou os resistentes franceses contra o nazismo e os comunistas de um PCF fortíssimo. A liberdade política da democracia representativa que se instalou na Europa Ocidental, excetuando a Grécia, Espanha e Portugal (não refere o nosso país), não tinha paralelo com a moral ainda muito influenciada pela Igreja e que perpassava na moral repressiva vigente e na separação dos sexos quer nos liceus, quer nas universidades. Os pais dos jovens exigiam o mesmo comportamento que eles tiveram com os avós, sem perceberem que os tempos e a memória se esvaem na cadência acelerada do «progresso». Se nos lembrarmos do livro de Pascal Quignard «L'Occupation Amèricaine» , já aqui mencionado numa ficha de leitura, perceberemos que os filhos não queriam falar nem da guerra, nem das senhas de racionamento, nem da heroica resistência, ou do esfíngico De Gaulle. Queriam mais e a liberdade era para eles o futuro desenhado ainda pelo comunismo e paradoxalmente pelo jazz, jeans, igualdade de género e prazer sexual. Como nos futuristas viam na velocidade das Vespas, ou no conforto de um banco traseiro de um Citroën ou de um Renault uma possibilidade infinita de felicidade.

Mas «Os Anos» de Annie Ernaux é um livro de memórias, por vezes duras, outras de verdadeira euforia, mas com uma preocupação central que é demonstrada pela epígrafe de Tchekov que escolheu:

« - Sim. Seremos esquecidos. É assim a vida, nada a fazer. O que hoje nos parece importante, sério, cheio de consequências, pois bem, um dia vai cair no esquecimento, vai deixar de ter importância. E o que é curioso é que não podemos saber hoje, o que, um dia, vai ser considerado bom e importante ou medíocre e ridículo. (...) Até pode acontecer que esta vida de agora, que tanto defendemos como nossa, venha um dia a ser considerado estranha, desconfortável, imbecil, não seja suficientemente inocente e, quem sabe, seja até condenável.»

E é este centro de um «diário» de 20 anos que a autora desfila os acontecimentos que a marcaram mais negativa ou positivamente na sua vida. Mas isso pouco interessa. A libertação que constituiu para a mulher a invenção da pílula, que permitiu a esta «comportar-se sexualmente como um homem» sem o perigo da gravidez indesejada, a despenalização do aborto, as carreiras académicas que abraçaram, a possibilidade do divórcio e do recomeço são etapas que descreve com a nostalgia de quem passou pelo Maio de 68 já mais velha que os estudantes barricados no Quartier Latin e na Sorbonne. Previu e aceitou a libertação que residiu nas revoltas quer dos estudantes, quer dos trabalhadores em greve geral. Mas também o tédio das sucessivas eleições e traições da maioria dos políticos socialistas e o quase desaparecimento do PCF. Claramente da esquerda socialista, antirracista, anti Le Pen, destaca o consumo desenfreado como um mal que corrói lentamente a Europa e já não só a França. Acusa os media de induzir ao esquecimento pela avalanche de «notícias» que substituem rapidamente as verdadeiras causas. Causas essas que podem ser perigosas para os governos e que criam a anomia social.

Durante muito tempo professora de liceu simpatizava e, simultaneamente, desconfiava dos jovens que os via cada vez mais consumistas e alienados pelo imediato. Entediavam-se, formavam «turmas desumanas» e quando se manifestavam na rua como em 95, logo que parte das suas reivindicações eram aceites pelos governos, recolhiam às aulas. Via a aproximação da reforma, destruindo apontamentos e livros que antes serviam para preparar aulas e o medo de perder gradualmente a memória foi decisiva para a escrita deste livro. Portanto, quem o ler, sabe que os momentos que ela analisa são os mesmos por que passámos, principalmente a partir dos anos 70, quando atingimos a liberdade em Portugal. A identificação torna-se assim uma atrativo simpático deste «Os Anos» que termina significativamente com um «Salvar qualquer coisa do tempo onde não voltaremos a estar». O círculo então fechou-se.

Livros do Brasil/Porto Ed.

1ª edição em França - 2008. Em Portugal - 2020

Tradução de Maria Etelvina Santos

António Luís Catarino

segunda-feira, janeiro 30, 2023

«Só o Tempo Dirá», de Jeffrey Archer

 

Livrinho de bolso, como se requer a um policial. Jeffrey Archer tem um condão não só de escrita, mas também, como convém a qualquer boa história, de saber do que fala. E para além da sua experiência de vida em confronto com a justiça que conhece bem, visto que esteve preso por fuga aos impostos, ainda por cima como deputado conservador, descreve com verosimilhança todas as tramas que nos descreve.
Como conservador, acredita que o mérito pode ser o impulsionador do elevador social, mas também sabe que não somos parvos ao ponto de acreditar totalmente nisso. Portanto, os livros de Archer devem ser lidos como minitratados de luta de classes, mas ao contrário. Daí a importância de o ler. Não só por isso, porque é inegável a qualidade da sua escrita e do suspense que suscita, mas também por isso.

Bertrand, col. 11/17 de bolso.
Tradução de Fernanda Oliveira
2018

quinta-feira, janeiro 19, 2023

«Vida a Crédito - arte contemporânea e capitalismo financeiro», Tomás Maia

 

Este é um dos livros mais estimulantes sobre a filosofia da arte contemporânea que foram editados em Portugal nos últimos anos. Tomás Maia, professor das Belas-Artes de Lisboa, consegue aqui uma síntese notável sobre a ligação da chamada «arte contemporânea» com o capitalismo financeiro. Livro algo denso, mas inevitável na utilização de uma linguagem complexa se o objetivo era o rigor de análise que é empreendido pelo autor. Conseguiu-o plenamente. A obra está dividida em quatro capítulos, sendo o primeiro e o último dedicados propriamente à «arte» ou ao que é considerado arte, hoje. Os capítulos dois e três dedicam-se ao valor das mercadorias e o papel do sujeito como produtor e detentor da força de trabalho, utilizando o papel do uso e da troca marxiana, superando inclusive as teorias de Marx com a referência a Debord, Jappe, Kurz entre outros e não deixando de notar a influência de Hegel, Feurbach ou mesmo Kant que precederam Marx. Mas é Adorno (iniciador do conceito de «indústrias culturais») e Walter Benjamim que no capítulo I são motivo de análise mais pormenorizada de Tomás Maia. Ultrapassando em parte a velha questão do «fim da arte» foca-se essencialmente na tentativa de responder ao subtítulo da obra: há ou não uma relação entre a arte e o capitalismo financeiro? A resposta é claramente um «sim». E os exemplos são vários que concretiza sobre esta relação íntima principalmente no capítulo IV.

Fazer uma síntese de uma síntese para uma ficha de leitura é sempre um exercício difícil mas, vejamos: Marx, em «O Capital» já adjetiva a mercadoria como fétiche, embora Anselm Jappe e, antes dele, Kurz do Grupo Krisis, tenha aprofundado o fetichismo da mercadoria como sendo o valor real do capitalismo. Assim a fórmula M-D-M, (mercadoria - dinheiro - mercadoria) seria a base do valor de troca dessas mesmas mercadorias que, aniquilando o seu valor de uso, torna-se mais-valia ou lucro para o detentor dos meios de produção. O capital financeiro que exige lucro infinito transforma-o mais tarde na fórmula D-M-D' que não só traduz a acumulação de dinheiro como o multiplica, tornando a mercadoria um mero instrumento que se esgota em si próprio. Assim, Tomás Maia descreve que o capitalismo financeiro tem agora um objetivo claro: o de tornar a mercadoria obsoleta ou inútil, baseando a sua ação num crédito infinito, ou seja, uma crença que o abraça numa religião cuja base se encontra no cristianismo, incluindo a transubstanciação do dinheiro. Deus, que exige de nós a dívida do perdão e do arrependimento, transforma-se em capital. Melhor: em capital acumulado indefinidamente, volátil, também ele imortal, em dívida permanente para qualquer crente/consumidor, portanto devedor eterno (a «Vida a Crédito»). Portanto, perante a vida a crédito e crescente acumulação que só terminará com a morte do capitalismo (senão mesmo do planeta se não o pararmos) a fórmula será D-D'. É aqui que a chamada arte contemporânea se revê.

Se na tradição da arte ocidental a arte obedece à sequência O-S-O' em que O é o primeiro objeto, S o sujeito-artista e O' o segundo objeto, no plano da «arte» contemporânea se até meados do século XX ainda poderíamos, segundo Maia, identificar o sujeito e a obra (mercadoria) nessa fórmula, hoje encontramos o S-S' não sendo necessária qualquer obra que sustente enormes transações o que determina uma verdadeira contrafação no plano da arte.

Este tipo de «arte» já denunciada por Boris Groys, Ferrari, Berger e outros que Maia cita, mesmo sem concordar totalmente com o primeiro, é acompanhada por um discurso sofisticado, falho de qualquer lógica filosófica, apresentado por curadores (é aqui que ele se afasta de Groys que reconhece o curador como o artista de hoje que nada «explica», não escreve, apresenta instalações onde parodia ou «ironiza» a sociedade, sem mais comprometimentos), folhas de sala salpicadas de palavras que nada dizem (a «falsa doxa» com um discurso aparentemente filosófico mas seu inimigo, que Sousa Dias já desconstruiu em obras editadas e referido igualmente por Maia), museus privados e públicos, fundações que se multiplicam, leiloeiras, marcas de luxo, críticos de arte, colecionadores, administradores de empresas, colaboradores e assistentes proletarizados por «artistas» de obras monumentais de volumetrias estapafúrdias (não sei bem porquê mas lembrei-me de Joana Vasconcelos!), guias e intérpretes mal pagos mas que tentam «interpretar» o artista, etc...etc...

Hoje, a arte contemporânea vale mais que a Bolsa de Valores a nível mundial e Tomás Maia não só dá números, como explica que a tendência é a de aumentar, embora os colecionadores mais ingénuos (digo eu) exijam cada vez mais um mercado regulador do valor das «obras» que aparecem no mercado com cotações absurdas que ninguém sabe de onde aparecem. Aqui não há CMVM's que lhes valha... Basta dizer que em 17 anos o valor do mercado da arte aumento 1400% tendo uma taxa de retorno atual de 7,6% (chega a 12/15% para obras acima dos 100 mil dólares) quando as taxas de juro eram quase negativas! As fórmulas apresentadas anteriormente já deixaram pois de ter sentido pela ausência da própria obra. Só o sujeito-«artista», narcisista portanto, é que vale pelo seu marketing próprio ou na sua posição num ranking mundial. Hoje vende-se por milhões de dólares obras «imateriais», i.e. que não existem de todo. Não resisto a um exemplo que Tomás Maia nos dá: «(...) o The Fine Art Group - um notório fundo privado de investimento em arte - comprou uma obra que ainda não existia. Mais: quando a revendeu com um lucro de 40%, [permaneceu] inexistente a mesma obra (...) e não sendo revelado o nome do «artista» (pág.216)». A arte NTF (non-fungible token) é igualmente significativa da especulação e tende a aumentar; um simples ficheiro jpeg, que reproduziu banalmente milhares de posts, foi vendido como sendo a terceira «obra» mais cara de sempre em leilão, por um «artista» ainda vivo. Não se disse quem era. Mas perante a desmaterialização da arte ou a inexistência da obra, vende o sujeito-artista á simples fórmula marxiana (não marxista que Maia felizmente não utiliza) de S-S'! O artista vende o artista! A obra (mercadoria) já não é necessária.

Concluo tendo em conta o que Tomás Maia refere na página 156 e que me parece importante trazê-la aqui, tentando com isto aclarar um pouco melhor o título do livro, embora saiba de antemão que só o lendo todo e fazendo as necessárias conexões entre os capítulos se consegue ter a visão completa da obra e do pensamento do autor:
«(...) Em toda a parte, desde que há capitalismo, a humanidade submeteu-se ao trabalho a crédito; e, desde que a finança capitalista impera globalmente, a humanidade submeteu-se à vida a crédito. O crédito - doravante co-extensivo à totalidade da vida humana, e doravante decisivo para a reprodução do capital - é então a figura depurada da expropriação do tempo (do devedor) e da apropriação do tempo (pelo credor): a forma final de ucronia, ela própria pensada como finalidade da metafísica (parousia ou fim do Tempo). No capitalismo e, mais particularmente, insisto, no capitalismo financeiro, culmina a metafísica ocidental enquanto ucronia.»

Editora - Sistema Solar/ Documenta
Abril de 2022


Na Galeria da Revista «A Ideia». Manuel de Castro e Pedro Oom

 

Na Galeria da Revista «A Ideia». Dois desenhos de Pedro Oom e Manuel de Castro em memória destes surrealistas. Uma colaboração pessoal com uma revista alternativa incontornável. 


«O Manipulador», de John Grisham

 

Mais um livro a justificar quão obcecado me encontro pelo policial. Este tem a particularidade de se meter com sistema trinitário da política, da justiça e do sistema prisional americano que, ironia à parte, todos sabemos ser exemplar. E John Grisham não brinca em serviço. Para além de bom escritor tem um posicionamento político extremamente crítico para com os EUA. 
Um advogado negro está encarcerado, por dez anos, numa prisão de um estado federal que nem é das piores, embora já tenha passado por várias bem más. A história começa aqui e acreditamos na sua inocência. O seu escritório foi contratado por pessoas nada recomendáveis que o meteram numa história de evasão fiscal recambolesca. O final é incrível e como vai sendo hábito nos policiais atuais, os «maus» talvez ganhem na teia ao FBI que entretanto montaram. A narrativa é rigorosa e cerebral, no entanto o autor teve o cuidado de dizer que nada daquilo que contou foi real. Não fosse o diabo tecê-las.
Ler Grisham é também ter um posicionamento político: «O meu companheiro de cela é um miúdo negro de dezanove anos, de Baltimore, condenado a oito anos de cadeia por vender crack. Gerard é como um milhar de tipos que encontrei nos últimos cinco anos, um jovem negro de uma cidade interior, cuja mãe era adolescente quando o teve e cujo pai desapareceu há muito. Abandonou a escola no décimo ano e arranjou trabalho a lavar pratos. Quando a mãe foi presa, Gerard foi viver com a avó, que está a criar uma horda de primos. Começou a consumir crack, depois a vender. Não obstante a vida nas ruas, Gerard é uma alma bondosa sem um pingo de maldade. Não tem qualquer historial de violência e não devia desperdiçar a vida na prisão. É um de entre um milhão de jovens negros que estão a ser armazenados pelos contribuintes. Neste país, somos aproximadamente dois milhões e meio de reclusos, de longe o maior número de encarcerados em qualquer sociedade semicivilizada. (pág.82)».
E a descrição do sistema de justiça americano contínua, sendo que a própria Constituição americana é regularmente ultrapassada e alterada conforme a decisão dos legisladores e juízes sem que daí venha mal ao mundo. E prende-se, prende-se muito, com penas completamente dementes e gratuitas que obrigam cidadãos sem qualquer perigosidade, alvo de pequenos erros, ou mesmo inocentes, a passarem anos infindos na prisão e a desfazerem uma vida normal, perguntando-se a si próprios «Como é que isto me aconteceu?»

terça-feira, janeiro 10, 2023

«Como se o Mundo Existisse», de Ana Teresa Pereira

Acompanho esta autora desde que iniciou o seu processo de escrita nos anos 80. O registo literário não mudou muito, por isso posso dizer sem me enganar (demais) que é das escritoras mais coerentes e mais sólidas no estilo que mantém. Felizmente. Há um verdadeiro mistério na sua escrita e que Jorge Silva Melo, nos lembra em texto colocado na contracapa deste «Como se o Mundo Existisse». Diz ele: «Que neblina é esta que nunca levanta nas histórias sem fim de Ana Teresa Pereira, que abismos (de paixão?)? E, no entanto, são nítidos os contornos, nada se esfuma, vemos tudo, as cores vibrantes dos vestidos, as jarras, corredores, portas, escadas, portões, jardins, labirintos. Que espelhos são estes, sempre lá, mas se abrem portas, nos camarins, nos quartos alugados, nos hotéis? Que teatros são estes onde se ensaia? Que homens são estes, estátuas monstros? Leio sem parar estas histórias misteriosas (são contos? apontamentos?), são uma janela sempre. Aqui, com Ana Teresa Pereira, ler é ver, voltar a ver, voltar a ler.»

Por mim, bastavam estas palavras tão certeiras, tão nítidas de Jorge Silva Melo para parar por aqui deixando-vos a descrição de «Como o Mundo Existisse» pela mão de um dos maiores autores e encenadores contemporâneos entretanto falecido. Contudo, julgo que esta neblina surge também de Londres e envolve as personagens de Ana Teresa Pereira com uma mestria como poucos o sabem fazer. Esse nevoeiro é tanto urbano como rural e as personagens são claramente (porque a autora não tenta esconder-nos) de Conan Doyle, das irmãs Brontë, de Enid Blyton ou de John Dickon Carr (alguns policiais dele estão na nova coleção Vampiro, disponíveis). Ana Teresa Pereira fala-nos destes autores (cita muitos mais) e das suas personagens com um carinho indiscutível e que convidam já a conhecer esses mistérios que envolvem as personagens que tiveram vida em atores de Hollyood ou em séries da BBC e que conhecemos bem. Tem uma ligação tão íntima com o cinema e com os livros policiais que dificilmente não acabamos a sua leitura para saltar para uma estante próxima e devorar os policiais ou ir aos dvd dos filmes de Hitchcock escondidos em qualquer caixote na garagem, visto que agora vê-se cinema por streaming no espaço exíguo de um ecrã de TV, coisa que deve ser quase impossível ver Ana Teresa Pereira a fazê-lo. Leiam este trecho da autora: «John Franklin Bardin escreveu que não há diferença entre um romance policial e um romance ''sério'' (o que deveria ser evidente, mas em 2021 ainda não é). Há bons livros e maus livros. Um bom livro é o que nos faz experimentar um mundo novo. Devil Take é uma experiência muitíssimo perturbadora. Como observou Patricia Highsmith, todos nós, nalguma altura da vida, conhecemos estes sentimentos, mas damos um passo atrás e não nos atrevemos a pensar no que teria acontecido se não o fizéssemos; os que conseguirem ler este romance não o esquecerão tão cedo. (...) pág.113» Essa perturbação é inegável nos livros de Ana Teresa Pereira. Nuns, mais, noutros menos certamente, mas só quem conhece profundamente toda a trama de obras de uma grande carga psicológica pode escrever assim.

E deixo-vos com este belíssimo trecho de «Como se o Mundo Existisse»: 
«Sento-me na mesa, fazendo cair o cinzeiro, e começo a abanar as pernas para trás e para a frente. Meu amor, é a redenção que procuras, que palavra vazia, a redenção através de um anjo que foste descobrir não sei onde? Ele olha para mim e não sei o que vê. A rapariga com o feio casaco comprido, o rosto inexpressivo, os olhos baixos e traiçoeiros. Ou a mulher de calças pretas e camisa branca, o cabelo preso na nuca, que parece um rapazinho com o rosto de um anjo de Botticelli. ''Fiery the Angels rose, and as they rose...'', o poema de Blake que uma de nós aprendeu quando estava a estudar; a tempestade chegou e os anjos ergueram-se à sua rente. (pág.59)». São estes anjos, omnipresentes nos livros de Ana Teresa Pereira que nos levam a territórios de não-lugares, às terríveis obsessões das personagens que provavelmente constroem o maravilhoso dos seus livros.

Relógio D'Água
Junho de 2021