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quinta-feira, dezembro 25, 2025

"Ódio à Civilização Moderna", William Morris

Cornuda Radiante, 2025. Tradução, selecção e notas de Júlio do Carmo Gomes
Não se pense que estamos unicamente perante um livro histórico, datado no tempo. «Ódio à Civilização Moderna» é uma edição recente da Cornuda Radiante, que nos remete para um autor singular no que à ideia de socialismo diz respeito. Trata-se de uma selecção de escritos, quase todos dos finais do século XIX, que se debruça sobre a construção de uma sociedade comunista e que bebe os seus pressupostos nas ideias de Marx, do socialismo e do anarquismo. O que é singular em Morris é o facto de encontrarmos nele um profundo amor pela Natureza e pela solidariedade comum dos homens que só se libertariam do capitalismo e do trabalho assalariado através da construção de uma ideia e prática comuns baseadas no trabalho livre e nas relações de entreajuda em comunidades verdadeiramente cooperativas. A síntese comunista é uma evidência em William Morris, mesmo que Engels o tenha desconsiderado, em correspondência privada, chamando-lhe um «burguês acomodado». Morris desanca a sociedade vitoriana e o capitalismo adivinhando-se já que este se desenvolveria de crise em crise, colocando em causa as relações humanas baseadas no domínio e subjugação dos mais fracos, os trabalhadores, e pelo extractivismo que anunciava uma Natureza exaurida. A fealdade das cidades e dos seus edifícios, o desarrumo dos campos, o fim do artesanato que criava coisas úteis e belas, foram a pedra de toque da denúncia de Morris de uma sociedade que criticou severamente. Perante o reformismo dos socialistas, preconizava a abstenção e a preparação de uma revolução que os ingleses teimavam em negar. Defendia um proselitismo activo das ideias socialistas na classe trabalhadora e invectivava as classes médias a afastarem-se das práticas capitalistas que apontavam à ruína e ao fim de uma humanidade em vias de deixar de ser pela existência de guerras permanentes a que se obrigava pela lógica dos lucros sem fim, da maquinaria industrial que exigia o fim do trabalho livre pela existência de um trabalho escravizado e do estertor da Natureza que se consumia pelo extractivismo. Talvez as melhores páginas desta selecção levada a cabo por Júlio do Carmo Gomes sejam as que se referem à construção pormenorizada de uma sociedade comunista: algumas delas claramente influenciadas pelo socialismo de Proudhon e pelo falanstério, mas igualmente pelas teses de Marx. William Morris não esconde o seu profundo conhecimento pela sociedade e economia feudais e colabora em clubes românticos, pré-rafaelitas, o que não deixa de ser sintomático sabendo nós a simpatia que Marx tinha para com poetas e pintores românticos muito pouco alinhados com a sociedade burguesa dessa época. 

Reside nessa síntese teórica a possibilidade de um caminho das ideias da Esquerda e do Socialismo nos miseráveis dias de hoje. Numa época em que a realidade já foi ultrapassada pelo espectáculo e em que a mentira é o artifício da tecnologia e de quem a dirige, este «Ódio à Civilização Moderna» não nos deixa de invectivar, de nos obrigar ao questionamento permanente de como outra sociedade é possível. É por isso que este livro é tão importante.

«É uma sociedade que não conhece o significado das palavras rico e pobre, nem o direito de propriedade, nem a lei e a legalidade, nem a nacionalidade: uma sociedade que não tem de viver com a assunção de ser governada; uma sociedade na qual a igualdade de condições é uma questão natural e na qual nenhum homem é recompensado por prestar serviços à comunidade pelo mero facto de dispor do poder de causar-lhe dano.
É uma sociedade ciente do desejo de preservar uma vida simples e de renunciar a uma parte do poder de domínio sobre a natureza, adquirido ao longo de eras passadas, com a finalidade de ser mais humana e menos mecânica, e disposta a fazer algum sacrifício para atingir esse fim. Estaria dividida em pequenas comunidades, muito diversas entre si dentro dos limites consentidos pela ética social respectiva, mas sem rivalidades e olhando com aversão para a ideia de um povo eleito.» (pág.156)

alc

segunda-feira, novembro 24, 2025

"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi

 

VS. Editor. 2022. Tradução de João Coles

Furio Jesi faleceu em 1980, precocemente aos 39 anos deixando-nos, contudo, uma obra ensaística significativa principalmente na questão do conceito de mito. «Spartakus, Simbologia da Revolta» debruça-se sobre os mitos da esquerda, os que sempre acompanharam a construção utópica de sociedades livres em que a esquerda se viu envolvida, mesmo com erros inerentes à aplicação prática numa dada realidade social em ebulição. Furio Jesi parte da revolução espartaquista, entre Dezembro de 1918 e Janeiro de 1919, para notar que o mito já existe no próprio nome da Liga Espartaquista que vai ser o gérmen do KPD e que lembra a revolta dos escravos liderada por Espártaco contra o Império Romano. Reside aqui o mito que guiou Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt a participar numa revolta que, paradoxalmente, não acreditavam poder ganhar mas que serviu de estímulo para a construção de uma sociedade livre. Para além do sacrifício, talvez desnecessário (por uma análise incorrecta da correlação de forças em campo)  dos revoltosos alemães, perpetrado pela social-democracia de Ebert, Furio Jesi expande as suas considerações sobre o que distingue uma revolta de uma revolução. Enquanto que, na primeira, existe uma suspensão do tempo histórico, na revolução há uma apropriação desse mesmo tempo. Uma destrói, a outra constrói e é nessa destruição que existe a suspensão, pela violência e pela identificação próxima com o  outro, de uma realidade que se quer outra. A revolução retoma o tempo normal, sob outras formas, é certo, mas a construção de um tempo é um dos objectivos não escondidos de qualquer revolução. Assim foi em 1789 e em 1917. 

A esquerda actual vive igualmente de mitos. O mito da comuna de 1871, dos conselhos de 1918/19, da Guerra Civil de Espanha de 36/39, do Maio de 68, da guerrilha de Che, mas não deixa de ser sintomático que essa identificação do mito persista nos derrotados e não nas revoluções vitoriosas, como a de 1917. Compreende-se que o sangue derramado dos heróis, construa uma identificação psicológica forte quando a derrota foi o culminar das suas utopias. 

A esquerda, não por acaso, deixou de ser subversiva, dispensando a propaganda como coisa de nazis e fascistas, não compreendendo que ela foi uma das razões que uniu (e ganhou) camadas de gerações revolucionárias em torno de uma ideia comum. Hoje acantonou-se no parlamentarismo deixando para outros a construção de uma sociedade mais livre. A subversão deixou de fazer sentido para largos estratos da esquerda, receosa de perder votos afirmando-se como uma espécie de corpo bem-comportado em debates que julga fracturantes, mas que não são mais do que o caminho óbvio da evolução das liberdades. O tempo aqui não será suspenso, porque não há revolta que lhe valha com estes pressupostos. 

De Furio Jesi:
«Podemos amar uma cidade, podemos reconhecer as suas casas e ruas nas nossas mais remotas ou mais caras memórias, mas só na hora da revolta sentimos verdadeiramente a cidade como nossa: nossa, por ser do eu e aos mesmo tempo dos ''outros''; nossa, por ser campo de uma batalha que se escolheu e que a colectividade escolheu; nossa, por ser espaço circunscrito no qual o tempo histórico está suspenso e no qual cada acto vale por si só, nas suas consequências absolutamente imediatas. Apropriamo-nos de uma cidade fugindo ou avançando na alternância das investidas, muito mais do que brincando, quando crianças, nas suas ruas, ou passeando por elas mais tarde com uma rapariga. Na hora da revolta já não estamos sozinhos na cidade.» (pág.77)

alc

quarta-feira, outubro 29, 2025

«O PREC e o Relógio das Revoluções», Aldo Casas e António Louçã

 

Parsifal, 2025
Não se trata de uma simples comparação entre quatro revoluções, até porque não estamos perante um modelo de análise simplista da História. Antes pelo contrário: há complexidades várias no decorrer do tempo político e social nessas mesmas revoluções. As particularidades revolucionárias da Comuna de Paris de 1871, não são as mesmas da Revolução russa de 17, dos Conselhos alemães de 18/19 ou da Revolução portuguesa de 74/75. Mas há, como não poderia deixar de ser, pontos comuns que António Louçã e Aldo Casas põem em relevo neste livro.

Desses pontos comuns realça-se sobretudo a apropriação dos meios de produção pelas massas populares, pelos pobres, que tentavam auto-organizar-se em conselhos autónomos livres. Muitas vezes de forma ingénua, hesitante, outras enraivecidos pela fome, pelo cerco ou pela miséria souberam usar a força para se apropriarem não só de fábricas, das instituições públicas, de casas devolutas, dos campos terratenentes, mas também expulsarem os possidentes das suas próprias vidas comuns criando a possibilidade de uma outra realidade que há muito desejavam para si baseada na liberdade e na autonomia. 

Paradoxalmente pormenorizada e sintética, os autores apresentam a História dessas revoluções de um modo crítico e visivelmente parcial, estando ao lado dos mais fracos na «conquista dos céus», mas que em nada prejudica a visão geral dos acontecimentos descritos. E assim deve ser a História. Desconfie-se de todos aqueles que chamam a neutralidade para «analisar» factos históricos: ao fazerem-no listam a história anedótica ou falseiam-na propositadamente. Não é o caso deste «O PREC e o Relógio das Revoluções».

Sobre o PREC português, acrónimo pejorativo tardio, que serviu durante décadas para o menorizar ou ridicularizar os dois anos do processo revolucionário, logo após o 25 de Abril e a queda do fascismo e o final da guerra colonial, os factos descritos não constituem novidade, mas as suas consequências são fruto de observações claras, honestas, para além de uma visão crítica já referida. Analisam-se a formação de Comissões de Moradores, por acaso ou talvez não, as primeiras movimentações populares de ocupação de casas devolutas logo três dias após o 25 de Abril, a reconstrução e legalização de infraestruturas dos bairros de lata através de arquitectos ligados ao SAAL, a ocupação de terras a sul (perto de 1,5 milhão de hectares em UCP ou cooperativas agrícolas), a democratização e/ou desmantelamento das estruturas militares repressivas, a ocupação de fábricas cujos donos eram agentes activos na sabotagem económica ou que não atendiam às reivindicações básicas dos trabalhadores, a formação de imensas Comissões de Trabalhadores em todo o país e nas empresas, a movimentação de estudantes liceais e universitários na gestão democrática e pedagógica das escolas, enfim, um turbilhão de desejos e de vontades expressas por uma democracia directa, pelo poder popular.

Se este poder popular no PREC não foi transformado em conselhos revolucionários efectivos como o tentaram em Paris, Petrogrado ou Munique foi pela mesma razão: a sabotagem política de quem se dizia com a revolução, mas que tão rápida quanto eficazmente lutou contra ela, e caso destas últimas revoluções referidas, não hesitando em derramar sangue, prisões ou torturas. Histórias que contam com centenas de milhares de mortos, massacres autênticos que não impedia que se utilizassem até, exércitos estrangeiros para sufocarem os levantamentos populares. 

E se não houve derramamento de sangue em Portugal que possa ser comparável às outras três experiências revolucionárias, não foi por causa dos chamados «brandos costumes» portugueses, como lembram os autores. Os brandos costumes não existiram nos 500 anos de colonialismo selvagem, na brutalidade da Inquisição, nos castigos bárbaros que o «povo» exercia sobre soldados franceses nas invasões, na Guerra Civil de 1832-34, nos mortos do Tarrafal e da PIDE, ou no terror de direita e da igreja no «verão quente» de 75. O que impediu a Guerra Civil em 1974 foi Novembro e a negociação que se lhe seguiu ou que lhe esteve na base. O papel dos «moderados» e dos militares ditos moderados é disso exemplo: não necessitavam de um massacre à «comuna de Lisboa» como lhe chamava a direita e a sua extrema, porque a esquerda perdeu o rumo, tendo força e armas, não saberia para que fim usá-las. Os que fizeram Novembro só eram moderados até perderem essa moderação se necessário fosse. Utilizariam as armas sem qualquer problema de consciência. O regime que hoje temos é de uma Constituição que já nada diz e que a esquerda teimosamente afirma conter «conquistas irreversíveis» que mais não é do que sobras de um Estado Providência depauperado e um item indispensável para a social-democracia. No entanto, após 50 anos, as classes possidentes em Portugal já não necessitam da democracia. Querem uma outra coisa que não tardará a conhecermos. Contudo, o que fica daqueles anos inesquecíveis de 74/75 foi a enorme energia de quem nada tinha a perder e tudo a ganhar. As coisas eram diferentes, tornaram-se outras, o entusiasmo e alegria invadiram as ruas, as assembleias, os cafés, os clubes, as empresas, os campos e as casas. A raiva que eles ainda demonstram possuir é directamente proporcional a esta alegria inscrita na genética revolucionária que ainda existe em nós e muito bem expressa neste livro.

alc

terça-feira, julho 30, 2024

«A Guerra dos Pobres», Éric Vuillard

 

D. Quixote, 2020. Tradução de João Carlos Alvim. De acordo com o AO90.
Em 72 páginas, o escritor francês Éric Vuillard, também autor de «Ordem do Dia», levou a cabo um exercício de síntese extremamente difícil em literatura. Em pouquíssimas palavras, todas elas tão contidas quanto certas, num jeito confessional para com o leitor, dá-nos uma perspectiva entusiástica da vida de Thomas Müntzer que levou a cabo nos anos vinte do século XVI uma revolta milenarista, de carácter religioso e social contra a igreja e a nobreza alemã.

A acção, muito complexa de analisar ainda hoje e alvo de vários estudos históricos, de Thomas Müntzer e da revolta camponesa e operária, acantonada nos núcleos urbanos juntamente com os artesãos, tem, contudo, antecedentes na Europa Central. Estamos a falar do checo Jan Huss (no livro a grafia que aparece é Hus), do inglês John Wyclif e dos seus lollardos que puseram a Inglaterra a ferro e fogo, de John Ball e de Wat Tyler seus continuadores nas revoltas onde decapitaram nobres e funcionários do rei, incendiaram castelos, propagandearam as suas teorias de uma era de ouro, mel e igualdade, usando a palavra de Cristo através dos evangelhos entretanto traduzidos para a língua comum. Não obedeciam às regras do clero, não pagavam os dízimos, assassinavam padres e nobres, saqueavam castelos como já se disse e não pagavam os arrendamentos das terras. Almejava-se uma igualdade social, baseado nas metáforas e palavras mais ou menos claras de Cristo contra a riqueza e o luxo. Acresce-se, em jeito de final de história (ironia minha, porque a vontade de igualdade social esteve e estará sempre presente nas lutas sociais) que todos foram mortos com extrema violência seja através do enforcamento, esquartejamento, decapitação, queima, tortura, etc, tudo o que a imaginação tétrica dos possidentes pode atingir. Embora a violência das massas populares  entregues a si próprias não fosse propriamente de anjinhos, fossem eles católicos ou protestantes. Aliás, Lutero, opôs-se violentamente contra a ordem revolucionária camponesa nos territórios ocupados pelos sediciosos. Não fosse a «sua» igreja ficar sem benesses...

Müntzer, diz-nos Éric Vuillard, assistiu à execução do pai, seu homónimo. O escritor define-o como colérico, iroso. Tem a palavra de deus e isso basta-lhe como programa que sintetiza no seu «Manifesto de Praga», embora recusando qualquer discussão estéril com o clero. O termo utilizado para esta recusa é «repugnância». A partir daqui é com um grande entusiasmo que continuamos a leitura querendo sempre chegar ao clímax da história, sabendo de antemão que o final de Thomas Müntzer estará traçado desde início. Pouco importa. Quando se escreve bem, vale sempre a pena continuar até porque somos brindados com alguns pormenores impossíveis de saber em livros académicos. É curiosos que a proximidade do Verão, abre quase sempre as portas às revoltas e revoluções. Claro que há excepções (Novembro de 1917, por exemplo), mas não sei se foi por esse facto que Vuillard nos apresenta o capítulo «O Verão Bate às Nossas Portas»:

«''Mund é a boca de Zerstörung, a destruição''. De forma que é possível detectar, em Thomas Müntzer, uma afinidade prodigiosa entre a palavra e a negação. Decerto, pode ver-se em Müntzer um desses idealistas apaixonados de que a medicina troça, podem colocar-se no divã Rousseau, Tolstoi, Lenine, e forçá-los a dizer o que quer que seja. Pode ver-se em todas as revoltas e em todos os fervores uma dor pessoal transfigurada; e então? (...)
Sim, Müntzer é violento, sim, Müntzer delira. Convoca o Reino de Deus aqui e agora, há nele um excesso de impaciência. Os exasperados são assim, irrompem um belo dia da cabeça dos povos, como fantasmas saem das paredes.» (pags. 45, 46)

A história de Thomas Müntzer termina na Batalha de Frankenhausen, se «batalha» se pode chamar a um massacre de dezenas de milhares de desvalidos miseráveis e cuja repressão brutal posterior do exército do rei e dos nobres levou dois meses a acabar. É assim que Éric Vuillard inicia o capítulo correspondente:
«E assim, dos quatros cantos do Império, surgiram hordas de miseráveis. Müntzer cantava, a multidão acorria. O landgrave de Hesse nem queria acreditar nos seus olhos. Em seguida, foram os operários das cidades, os loucos, toda a massa camponesa que bruscamente se sublevou. Houve um grande pavor entre os nobres e os burgueses. As mulheres deixavam as suas casas, as crianças caminhavam através dos campos, na esteira do Espírito Santo. As raparigas, os vagabundos, a atroz populaça, até os animais! Viu-se assim todo o género de gente, em grupos de dois ou de três, sozinha também, sem bagagem, sem nada. Não se sabia o que pretendia. Os senhores e os seus bandos armados já não ousavam fazer o que quer que fosse; viam-na passar aterrados. Um vago temor começava a nascer. Que deveria decidir-se? Nunca se tinha visto uma coisa assim. Todos largavam casas e casebres e se juntavam à errante multidão. E para onde ia toda essa gente? Ignorava-se. Temia-se até dispersá-la. Dormia nos bosques, na palha, entre sonhos.» (pág. 66)

E assim entre sonhos, a mole humana miserável que seguia Thomas Müntzer viu esfumar-se a igualdade que ansiava. Derrotada? É possível, mas ainda hoje está aí para a sua história ser contada. O milenarismo, o assalto à utopia da idade de ouro vindoura, aí está para ser lida e pensada nos dias de hoje pela mão de Éric Vuillard e de outros que não desistiram de nos lembrar, como Norman Cohn o fez no seu trabalho excepcional, de 1957, «Na Senda do Milénio - Milenaristas revolucionários e anarquistas místicos da Idade Média» que tomo a liberdade de vos apresentar como dos poucos livros de grande fôlego, talvez não ultrapassado até hoje, sobre o tema. Foi neste livro que Éric Vuillard encontrou pormenores da vida e pensamento de Thomas Müntzer que veio a ser essencial para a construção da sua pequena obra.

alc

quinta-feira, julho 18, 2024

«Révolution», Enzo Traverso

 

La Découverte, 2022. Edição francesa. Traduzida do inglês por Damien Tissot.
Capa de Ferdinand Cazalis
Numa época de triste recuo histórico das esquerdas mundiais, nunca é demais um exercício de memória sobre as revoluções passadas. Não se pense, contudo, que este livro se baseia numa melancolia revolucionária de quem pensa que a revolução é letra morta, que numa sociedade de capitalismo de vigilância e nas tecnologias avançadas, as experiências insurreccionais (sejam elas revoltas ou motins e revoluções) estarão necessariamente votadas ao fracasso. É exactamente o contrário. Ler este livro é uma lufada de esperança para quem acredita que a vida, a verdadeira vida, residirá numa saída única da catástrofe anunciada a que o sistema de exploração sistemática dos recursos do planeta e do trabalho alienado humano nos votou. Ler este livro de Enzo Traverso é tão-só analisar, pelas suas 450 páginas que se lêem num ápice de entusiasmo, as grandes derrotas históricas, as vitórias «dos assaltos aos céus», o «tempo das cerejas» ou dos «enragés» e sans-culottes que só exigiam governar-se a si próprios. É revisitar a vitória libertária de 1917, também sob o prisma tanto dos derrotados de Cronstadt como, ironicamente, a de Trostsky. É conhecer melhor Marx e Engels, Blanqui e Fourier, Bakunine e Proudhon, Walter Benjamim, Fanon e Constant, Lenine, Estaline e Mao e tantos outros; foi com muita atenção que o historiador referiu a grande massa de revolucionários anónimos e que pereceram numa aura de heroísmo e de «santidade» nas barricadas de 1830 e 1848, já em desuso e criticadas em 1871, mas nem por isso menos simbólicas no Maio de 68 francês, na Alemanha e Hungria de 19 ou na Espanha em 1936. Ou revisitarmos igualmente os vitoriosos de Sierra Maestra, o Vietname, o Laos e o Camboja, a China da grande marcha ou Tiananmen de 90. O século XX foi farto em dar-nos essas experiências, muitas delas afundadas em sangue e em experiências que melhor fora não terem tido lugar. O que não retira uma vírgula, à vontade de mudança radical que é aposta numa revolução e à sua carga utópica. 
Por isso há uma impossibilidade clara de haver um compromisso entre revolução e contra-revolução seja ela legitimista, conservadora ou fascista. Esses perigosos compromissos dar-se-ão, como demonstra Enzo Traverso, na social-democracia e no socialismo democrático. Mesmo que, entre as duas guerras, se tentasse fazer essa síntese, foram todas votadas ou ao esquecimento, muitas delas junto com esses autores, ou ao fracasso. Essa força, a força revolucionária, nada tinha a ver com a autoridade legitimada das classes subalternas no poder, e a vontade ilegítima (porque pessoal) de um qualquer duce ou führer. A revolução, as revoluções, são sempre a consequência de causas de injustiças e de exploração insuportáveis para os seres humanos. Que elas sejam mais ou menos violentas ou que as instituições mudem de mãos sem um único tiro (lá vem o caso português de 74 e a Checoslováquia de 89!) as revoluções mostram sempre as suas particularidades e igualmente as suas idiossincrasias. Criticadas e temidas por muitos, até por aqueles que delas beneficiariam, retiram-lhes quase sempre as suas causalidades e as conjunturas históricas em que explodem. 

Vejamos ao que vem Enzo Traverso logo no início do livro na página 25: 

«O objecto deste livro é a revolução, para o melhor e para o pior. Ele não opera nenhuma selecção entre as boas e as más revoluções, distinção tão difícil quanto estéril visto que as revoluções não pedem para serem idealizadas ou diabolizadas: elas são experiências vivas que se transformam em permanência e cuja dinâmica é imprevisível. Mais do que um julgamento moral, uma idealização ingénua ou uma condenação intransigente, merecem uma compreensão crítica. É ainda a melhor maneira de compreender o seu significado histórico e transmitir a sua herança. Numa passagem célebre, Marx escreveu que as revoluções modernas ''não retiram a sua poesia do passado'', enquanto que Benjamin vê o seu motor escondido num desejo de redenção dos vencidos que não é mais do que ''o compromisso tácito entre as gerações passadas e a nossa''. É muito provável que as revoluções oscilem entre estas duas temporalidades: elas salvam o passado inventando o futuro, mas podem incluir os dois.»

Mais à frente:

«Contrariamente à maior parte dos trabalhos sobre as revoluções, este ensaio não consagra um capítulo específico à questão controversa da violência. Há várias razões para esta ausência, que não resulta de maneira nenhuma de uma estratégia de fuga. A mais importante prende-se com o facto de a violência revolucionária atravessar esta obra, de maneira explícita ou subterrânea, duma ponta à outra. Com algumas excepções as revoluções são erupções, pontos de viragem traumáticos. A violência pertence à sua estrutura ontológica. As revoluções pacíficas são excepções, não a regra e, em muitos casos, elas não não mais do que arautos de explosões do futuro. Em 1974, a «revolução dos cravos» em Portugal foi pacífica porque foi desencadeada por uma parte do próprio exército e se, quinze anos mais tarde, as «revoluções de veludo» na Europa central se desenvolveram sem efusão de sangue, é porque as forças repressivas foram provavelmente neutralizadas na URSS. (...) 
A segunda razão pela qual esta obra não conta com um capítulo sobre a violência é mais especificamente historiográfica. Os historiadores conservadores escrevem à maneira de promotores, que estigmatizam as revoluções não como uma, mas mais especificamente, a fonte do totalitarismo moderno. Eles repartem-se em geral em duas categorias: de um lado os apologistas astutos do fascismo, do outro, os pregadores de uma sabedoria política solidamente amarrada aos postulados do liberalismo clássico. (...)» 

«Assim, esta obra junta fragmentos intelectuais e materiais dum passado revolucionário impulsivo e bastante esquecido, com o fim de re-articular uma composição com sentido, elaborada por imagens dialécticas: locomotivas, corpos, estátuas, colunas, barricadas, bandeiras, sítios, pinturas, pósteres, datas, ruas singulares, etc. De uma certa maneira, os conceitos, eles próprios, são tratados como imagens dialécticas, na medida em que emergem nos seus contextos próprios, como as cristalizações intelectuais de necessidades políticas e do consciente (ou do inconsciente) colectivo. (pág.31).

Um livro que devemos ter sempre em conta e nunca desfazê-lo num alfarrabista, até pelas imprevisibilidades várias que podem vir a existir no futuro. Sabe-se lá.

alc

quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

terça-feira, junho 27, 2023

«Alemanha Ensanguentada», Aquilino Ribeiro

 

Bertrand, 2015. Prefácio de Pedro Mexia
A maior parte deste livro foi escrita em 1920, tendo-se seguido algumas impressões sobre os campos de batalha da I Guerra Mundial em 1928, em viagens que Aquilino Ribeiro fez à Alemanha nessas mesmas datas. As descrições que faz da Alemanha completamente exausta económica e moralmente devido ao diktat do Tratado de Versalhes de 1918/19 não faz dele, longe disso, um «germanófilo» no sentido militar que lhe foi na ocasião apontado; era, contudo, um claro apaixonado pela cultura alemã, sabendo falar bem a língua, visto que era casado com Grete Tiedemann que vem a falecer precocemente em 1927. Para além disso aponta-se uma tendência clara pelo anarquismo em Aquilino e alguns factos relacionados com as suas actividades políticas e consequentes prisões em Portugal, ainda durante a monarquia e a sua participação na revolta de 1927 contra a Ditadura Militar, não deixam dúvidas. 

Perante o verdadeiro entusiasmo que é ler Aquilino e desfrutar o seu português límpido e depurado, com a palavra certeira, em todos estes apontamentos diarísticos, de viagem, teremos de nos fixar somente em dois aspectos: a clareza das suas posições políticas sobre a violência de Versalhes sobre a Alemanha, a tentativa Espartaquista da Revolução de 18 de que ele viu ainda barricadas não levantadas e paredes esburacadas por balas e petardos e as conversas mantidas com oficiais soviéticos ainda na Alemanha depois da derrota às portas de Varsóvia. Reparemos que as impressões de Aquilino foram escritas somente 3 anos após o Armistício. 

Logo na página 18, Aquilino dá-nos uma visão muito particular dos ingleses que ocupam a Alemanha com este trecho delicioso: «Ponho-me a examinar-lhes as caras, cujo taciturno ou seriedade, se quiserem, não é mais que contenção ou fisionomia do animal lançado numa determinada pista. Os britânicos têm sempre no sentido um alvo a tocar. Vão a reflectir, ou devaneando como eu? Qual! Vão embalados no seu inconsciente, ruminando porventura o corned beef, e parece que se não dignam reparar que vai gente ao pé deles. A vigília e inquietação são apanágio do espírito; o motor inglês é instinto e aí está a sua força. Sobem sem olhar para nós; passam diante de nós sem vénia; o comboio como o mundo é ring para eles; eis a gente de alto lá com ela a quem os pregadores alemães, durante a guerra, chamavam em suas imprecações ao Altíssimo «malandragem escrofulosa dos nevoeiros». Mas esta definição dos gentlemen ingleses, Pedro Mexia no seu prefácio não teve em conta!

Não deixa de ser observável a simpatia que Aquilino nutre pelos revolucionários alemães de 1918, nomeadamente a Karl Liebknecht e a Rosa Luxemburgo, a quem destinou um fim trágico por não terem compreendido que a hora da revolução não se teria dado então. Mas tem a noção clara do que terá representado para a Europa a criação dos sovietes de Berlim e Munique por menos de três meses. Por pouco a Europa Ocidental não teria sido socialista. A sua evidente simpatia, não obstante mais à frente criticar a revolução russa em guerra civil, é inversamente proporcional à antipatia que sente pelo social-democrata Ebert verdugo dos revolucionários que utilizou a tropa imperial, ou o que restava dela, para sufocar com sangue a insurreição. Nota Aquilino que a paga desses mesmos militares monárquicos foi o desprezo! A 10 de Outubro de 1920 Aquilino regista no seu diário o seguinte trecho que considero dos mais importantes do livro no que à Revolução de 1918 diz respeito: «(...) semelhante atonia [dos parlamentares social-democratas] acabou por dar fôlego à reacção, chamando à vida os exânimes burgueses e aristocratas, e dando origem a uma oposição ferina, com apartar-se do flanco esquerdo da social-democracia e socialismo independente, chefiado por Lebedour, e do modo mais formal o espartaquismo de queram cabecilhas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Foram estes as cabeças da hidra. O seu cavalo de batalha estava em forçar o Governo a prosseguir a via revolucionária, ceifando por um lado nos privilégios das classes possidentes, por outro trazendo, além da liberdade, bem-estar económico ao proletariado. A sua táctica consistia em quanto mais lhe dessem mais reclamar. (...) Nessa altura, reuniam os plenipotenciários em Versalhes e os exércitos da Enterite atacavam a Rússia Soviética por Odessa e o Mar Báltico. A Ditadura de Moscovo tirava o sono aos vencedores da guerra. Além do fermento revolucionário que ameaçava, levedando, contagiar a Europa doente e insatisfeita, havia o perigo de uma aliança germano-soviética, mercê da qual podiam sorvar os laboriosos frutos da vitória.» (pág.64,65). É muito interessante a visão muito própria de Aquilino Ribeiro acerca das causas do fim da revolução soviética alemã, para além daquela que se referiu acima. Afirma, com evidente conhecimento de causa, que a situação de penúria a que estava votada a Alemanha e a falta de armas e de alimentação geral foi a causa próxima da atonia que o escritor apontou atrás. Cremos que haverá outras mais consistentes no plano da estratégia revolucionária, mas damos estas como importantes igualmente.

Aquilino, neste livro a todos os títulos notável, considerado talvez um diário longe de outras obras de grande fôlego que nos doou, tem a noção exacta do que pode acontecer à Alemanha, se vier, como veio a verificar-se em 1933, um aventureiro que cavalgasse a miséria material e psíquica, atónica, a que estava votado o povo alemão; esse aventureiro chamou-se Hitler que ele refere nominalmente numa carta a Francisco Pulido Valente, em Maio de 1935 e aposta ao livro. Aí lê-se, a páginas 97 e 98, o seguinte: «Desiludido está, de modo geral, o povo germânico, desiludido de Deus, dos estadistas, da justiça, da força, desiludido desde as unhas dos pés até aos cabelos da cabeça deste governo social-democrata com Ebert na presidência, mantenedor do mais ortodoxo burguesismo para os operários, serventuário nojento dos aliados para os nacionalistas. Reconhece que o povo germânico tem necessidade de ocupar a imaginação com alguém ou alguma coisa que pelo tamanho e prestígio personifique o extraordinário. Mas onde está essa figura de proa? O Kaiser é o bronze partido à martelada de que fala Nietzsche. Hindenburgo não passa de um gigante com pescoço de toiro, bastante rebarbativo e intratável, de ignorância enciclopédica para tudo o que não seja a arte da guerra. Lundendorff, inteligência mais dúctil e penetrante; verga sob a responsabilidade da derrota. Mackensen, o invencível, não soube criar idólatras. Se aparecer um aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia, que bata o pé ao vencedor, misto de Anticristo e de Lohengrin, tem povo. Vencida mas não derrotada, a Alemanha quando puder voltará a desembainhar a espada, no que, de resto, não faz mais do que obedecer à estúpida condição humana.(...)». 

Aquilino escreve isto em 1920. Previu com antecipação notável, que só os grandes observadores são capazes, a ascensão do nazismo e a guerra que Versalhes e os vencedores foram capazes de criar em 1918. Que este livro nos sirva, para além de contemplarmos uma das maiores escritas da nossa língua, de aviso sério sobre as consequências de humilharmos povos e estados e de ver um qualquer «aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia» a sair do buraco onde hibernou durante décadas. Em 1920 ainda estávamos longe do apocalipse nuclear.

domingo, abril 30, 2023

«A Conspiração dos Iguais», de Ilya Ehrenburg. Sobre a morte de Babeuf

 


Edições Dinossauro, 2004. Tradução e Introdução de Francisco Martins Rodrigues

Como nos lembra Francisco Martins Rodrigues na Introdução esta edição de Ilya Ehrenburg baseia-se na de Philippe Buonarroti que, em 1828, publica em Bruxelas «La Conspiration pour L'Égalité, dite de Babeuf». 

Nessa Introdução é lembrado que Babeuf será provavelmente exemplo único de um comunismo libertário ou anarquista (eu não lhe chamaria «primitivo») que durante a Revolução Francesa teve o apoio incondicional das vastas camadas populares de Paris e que nunca se reviu no Directório que mandou matar Babeuf e Darthé, enviar para o exílio em Caiena quer Buonarroti, quer Germain e Goujon, Duroy, Soubrani, Javogues entre muitos outros. A sua referência era sem dúvida a Constituição de 1793 que praticamente nunca foi posta em prática devido ao seu carácter «comunista», alguns montanheses e as comunas dos 12 departamentos de Paris organizadas pelos sans-culottes e pelas mulheres dos Bairros de Antoine e Marceau, vanguardas do povo de que a burguesia sempre desconfiou e tentou derrotar.

Sobre Ilya Ehrenburg, Francisco Martins Rodrigues dá-nos uma ideia clara. Escritor soviético, falecido em 1967, assistiu aos processos de Moscovo teleguiados por Estaline «(...) não é difícil encontrar nesta Conspiração dos Iguais, a propósito do Terror da Revolução Francesa, alusões transparentes ao Terror ditatorial dos anos 30 na União Soviética.» Não estou aqui para uma análise da qualidade literária de Ehrenburg (nunca o fiz nestas fichas de leitura, nem tenho pretensões a crítico seja do que for), mas creio que o registo do autor se aproxima mais do jornalismo do que literatura. Mas é um estilo que se lê com soltura perante uma tragédia anunciada que foi a conspiração dos Iguais de Babeuf e Buonarroti em 1796 já no fim da Revolução Francesa de 1789. Pode dizer-se com certeza que a História confere que foi com esta conspiração que terminou, de facto, toda a qualquer tentativa de a transformar em algo mais do que uma República burguesa, realista, a que Napoleão deu forma logo a seguir.

Babeuf morre guilhotinado, através de uma traição de um tal Grisel teleguiada por Barras (um dos 5 membros do Directório) que se infiltra na insurreição preparada pelos Iguais. Será pago, mais tarde com umas míseras 30 libras (doce ironia bíblica)! O Tribuno do Povo (como era conhecido devido ao título do seu Jornal), Gracchus Babeuf, morre, portanto, a 8 de Pradial do ano V, ou, pelo antigo calendário gregoriano, a 27 de Maio de 1797, com 37 anos de idade. Antes, em pleno tribunal, ao conhecer a sentença da guilhotina e depois do Directório ter influenciado um dos jurados que quase absolviam os Iguais, tenta o suicídio juntamente com Darthés, embora mal-sucedidos. Mantêm-nos vivos até à guilhotina. Paris pobre chorou-o, admirou a sua coragem e a sua coerência, não acreditou nas calúnias que lhe lançaram, mas não se moveu para o libertar. Cansaço da revolução? É possível. Há 7 anos que se seguiam insurreições, revoluções dentro da Revolução, prisões, torturas, massacres e guilhotinas a mais tal como afirmava Babeuf que lutava por uma Sociedade de Felicidade. Marat e Robespierre, Anarchasis Cloots, tal como Danton já não faziam parte do desejo revolucionário. Tinham sido devorados pelo frémito da mudança violenta de um estado para outro. Nada que Babeuf, os Iguais e igualmente o povo de França não soubessem. Entretanto morria-se literalmente à fome, o desemprego tornava-se endémico e a miséria instalava-se. O cair de braços dos mais fracos e dos subalternos também. Talvez por isso os bairros pobres de Paris não reagiram à prisão de Babeuf ou tivessem pressentido o fim próximo. Acabaram por morrer com eles, ou seja, com Babeuf e os Iguais.

A preparação da conspiração:

«Babeuf e os amigos não confiavam nos montagnards (montanheses, deputados de esquerda da Convenção): não são verdadeiros democratas! Enquanto os Iguais reverenciavam a memória de Robespierre, entre os antigos deputados não havia um só que não tivesse ultrajado, depois do Termidor, o ''tirano derrubado''. Em política, contudo, não há lugar para sentimentos, e os Iguais encetaram conversações com os montagnards.
(...) Os montagnards ouviam sem pestanejar as declarações dos Iguais; deixem-nos divertir-se! Outra coisa os preocupava: quem entrará no novo governo? Os Iguais reclamavam a autoridade para os pobres diabos, jornaleiros, operários, artesãos, mas nesse ponto os montagnards eram irredutíveis. Queriam o poder para si. A sua única palavra de ordem era: ''Viva a antiga Convenção!''.
Isto indignava Babeuf:
- Não podemos fazer concessões. faz algum sentido tanta luta para a França voltar a ser governada por essa Convenção a que Robespierre chamou com razão ''Assembleia de Assassinos''? Não, esta gente já tomou o gosto do poder, já molharam os lábios na taça, estão envenenados! Do que precisamos realmente é de forças novas. Precisamos de sans-culottes, gente do povo, não de políticos.» (págs. 134/135)

A defesa em tribunal de Babeuf:

«O processo durou muito tempo. Começara em Ventoso, no tempo dos grandes frios, e já estava no alegre Floreal. Faltava o ar na sala sombria. Fazendo apelo a toda a sua energia, Babeuf leu a defesa. Leu durante dez horas, sem um minuto de descanso. Por fim, falta-lhe a voz. Expõe as suas ideias aos juízes: a lei agrária não é um remédio, só a comunidade dos bens garante a igualdade. Bailly (um dos juízes) desata a rir. (...)
Ele fala agora do perigo que ameaça a República, mas Veillart (outro juiz) interrompe-o:
- Vós quisestes arruinar a República!
- Não! Quisemos salvá-la! A Revolução não deu nada ao povo e o povo começa a odiar a República. Olhai à vossa volta. Que vedes? Indiferença. Os patriotas, ainda ontem intrépidos e ardentes, agora calam-se. Perderam a coragem... Mas a igualdade deve triunfar, triunfará. A Revolução Francesa é apenas a precursora de uma outra revolução, bem maior e mais solena, que será a última; então desaparecerão os limites das propriedades, as vedações, os muros, as prisões, os roubos, os crimes, os enforcamentos, a inveja, a avidez, a traição, a hipocrisia, e esse verme que tudo rói, a cobiça universal...» (págs. 172/173)

segunda-feira, março 20, 2023

«Um Discurso Escondido - Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a I República, 1910-19» de Vanessa de Almeida

 

De Vanessa de Almeida, Bizâncio, 2009
O livro de Vanessa de Almeida constitui uma tentativa de não esquecer um período específico das lutas operárias iniciadas com a I República até 1919 nesse local já mitológico das lutas operárias que foi o Barreiro da CUF. Para nós, uma aposta claramente ganhadora. Período do sindicalismo revolucionário, das Associações de classe que nasciam ao ritmo das desilusões populares face ao novo regime republicano que gorou qualquer veleidade de efetiva melhoria das condições de trabalho ao operariado. Do sindicalismo revolucionário do jornal Avante! de 1910, ao anarquismo de A Batalha e às grandes greves de 1943, já comunistas, o proletariado do Barreiro resistiu sempre e talvez seja o que mais consciência de classe demonstrou na região portuguesa. 

Vanessa de Almeida apresenta vária bibliografia e jornais que consultou pormenorizadamente, para além das atas da administração da CUF onde Alfredo da Silva, patrão «bom», «justo» e paternalista à moda de João Franco, Sidónio e Salazar, e donde vem a máscara do vice-presidente da AIP que não recuava perante milhares de despedimentos e que chamava a novíssima GNR para se aquartelar no espaço da própria CUF. A repressão acompanhou a bonomia paternal com que tratava os operários ou da imagem que fez passar a sua própria propaganda. A autora retira-lhe a máscara numa excelente conclusão ao seu livro:

«Se a imprensa operária analisada permitiu o contacto com o ''registo público'' da luta protagonizada pelos grevistas da CUF, as actas dos conselhos de administração e fiscal da companhia possibilitaram o acesso ao ''registo escondido'' do discurso de Alfredo da Silva. Segundo James Scott, no estabelecimento das relações de poder, o discurso público raras vezes corresponde ao discurso escondido. Numa relação de dominação, os dominados adoptam muitas vezes uma máscara face aos dominantes. Todavia, também as elites têm necessidade de adoptar máscaras na presença de subordinados e, como tal, existe uma disparidade entre o registo público expresso no exercício do poder e o registo escondido, que só será partilhado num ambiente propício a tal. (pág. 124)»

Veja-se, já sobre este paternalismo de Alfredo da Silva, o que diz A Batalha de 8 de abril de 1919, com uma nota de Vanessa de Almeida, informando-nos que não conseguiu confirmar a notícia com outras fontes:
«Quando em tempos os operários fundaram uma Associação de Classe, o Sr. Alfredo da Silva conseguiu, por processos vários, mas que tendiam sempre a atrair as simpatias ingénuas do pessoal, a transformar a associação, fundada para defesa económica dos trabalhadores, numa simples sociedade de recreio, que hoje tem o nome de Grémio Recreativo CUF, fornecendo dinheiro para a compra de instrumentos e organização de uma banda de música, fazendo assim desaparecer a Associação de Classe. (pág.93)»

E as máscaras de Alfredo da Silva e do governador civil da cidade, republicano, caem perante a violentíssima repressão às greves de milhares de operários da CUF e de Lisboa juntando-se a isso a chantagem da fome à população. Leia-se a Batalha de 26 de junho de 1919:
«Em virtude da acção jesuítica de Alfredo da Silva, os habitantes daquela localidade encontram-se sem pão. Tendo ido uma comissão de padeiros ao governo civil a reclamar alguma farinha para que o pão não faltasse, a resposta foi esta: ''Os operários desde que estão em greve não precisam de comer!'' E o digno governador não forneceu nenhuma farinha, razão porque falta pão no Barreiro, onde as crianças passam fome! E são essas criaturas, piores do que feras, que apregoam aos quatro ventos a liberdade e a fraternidade. (pág.113»

Mais que nunca a leitura deste livro de Vanessa Almeida torna-se necessária na desmontagem do que se supõe ser um «patrão bom». Neste caso de Alfredo da Silva, um falso self made man, tal como todos os outros. Mas de quantos «Discursos Escondidos» se faz um patrão jesuítico? Daqueles que são unânimes, até pelos que na esquerda foram criados. Atentemos num operário da CUF «diligente, disciplinado e respeitador» tal como gostava Alfredo da Silva:
«O Alfredo da Silva, caramba! Ele dava a volta ao bairro! Tanta vez que ele ia à fábrica! Tanta vez! Ele foi sempre bom patrão!... Quando nos deram leite com café e cacau, pão com manteiga, foi dele! Um ano, pelo Natal, as prendas que deram aos operários, foi ele! Aos homens foi... parece que era tabaco, se não estou em erro. Vinha da Tabaqueira; e às senhoras, era ou xailes ou cobertores, que ele mandou dar pelo Natal. Portanto, dele, os operários nunca tiveram queixa! Ele castigava era os que mandavam lá, os encarregados! (pág.126)» 
Outro:
«(...) uma vez vinha lá o Patrão. E eu estava a comer, assim que vi, tirei logo o pão e pus dentro da algibeira, mas a algibeira estava cheia de cotão, de desperdícios, e ó depois eu parei e ele veio por ali a fora (...) ''O que é que estavas a comer?'' E eu assim: ''Estava a comer um bocadinho de pão.'' ''Então mostra lá.'' Depois eu tirei, era cheio de pêlos (risos). E ele assim: ''Nunca faças isso, quando estiveres a comer, tu come, ninguém de ralha.'' E eu assim: ''Mas a gente não tinha ordem de comer'' (pág.127).»

sábado, dezembro 31, 2022

100 anos da URSS


Não se compara os 100 anos da URSS com os 100 da revolução de 1917. A primeira não me entusiasma por aí além. Em 1922 a revolução era ainda uma festa. A burguesia perdeu a guerra civil e o apoio ocidental foi um fracasso. Até perto de 1932 a imprensa de esquerda era livre e plural. A arte revolucionária florescia. Embora com Cronstad e Mackno, que manchou para sempre os primeiros anos, a liberdade vivia-se na rua, nas fábricas, nos campos. Os sovietes eram livres e autónomos. Ligo a URSS à burocracia nascente e cada vez mais forte desde a doença e morte de Lenine e o exílio de Trotsky e a consequente subida ao poder de Estaline que, por mero poder de adivinhação e forte intuição política achou que a grande maioria do comité central dos bolcheviques iria morrer primeiro que ele, aquilo começou a descambar. Até 1953 e nos anos seguintes até à estagnação foram os planos quinquenais e a grande industrialização que marcaram o país e os grandes projetos agro-industriais que vingaram. Essa é a imagem que me ficou da URSS. Há mais imagens, mas fico-me por aqui. Estaline é o 18 do Brumário da Revolução libertária e conselhista, soviética, de 1917. Kruchev enterrou-a definitivamente ao querer competir com o capitalismo. Brejnev era velho desde a adolescência. Triste fim de uma Utopia generosa.

sexta-feira, abril 23, 2021

«A Bandeira Vermelha - História do Comunismo», de David Priestland

 



Será muito difícil analisar concretamente «uma história» do comunismo. Há «histórias» do comunismo e aqui o plural faz toda a diferença. David Priestland faz um trabalho extraordinário de pesquisa, quer ao nível de documentos pós-89/90 dando-nos novas perspectivas baseadas em factos sustentados, quer na seriedade de análise que imprimiu à obra monumental de quase 800 páginas. Não é sem admiração que, ainda assim, notamos algumas lacunas ou, se quisermos, com alguns incómodos ao nível da apreciação da queda das experiências políticas, económicas e sociais do leste europeu ou das experiências falhadas do chamado Terceiro Mundo. 
Que não afiem já as facas os saudosos do anticomunismo da Guerra Fria. O livro não lhes dá oportunidade de sacarem argumentos primários. A verdade incontornável da análise que faz David Priestland é que o comunismo foi, é e será uma luta contínua pela construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, ou se quisermos entrar em subjectividades, mais feliz.
É verdade que a utopia comunista levou um rombo com a queda atabalhoada dos países do chamado socialismo real e com a URSS e igualmente com os caminhos, não compreendidos por várias gerações comunistas, que o PCChinês enveredou desde a morte de Mao.
Sejamos claros enquanto analisamos A Bandeira Vermelha: o comunismo continua a ser uma ideia fixa da humanidade, chamem-lhe agora o que quiserem ou entenderem chamar. E mais: é possível ver o nascimento de uma nova emergência comunista livre já das idiossincrasias que levaram à sua queda estrondosa. E ao ler este livro começamos a ter uma perspectiva bem diferente no que toca a 1917, à Guerra Civil de 1918-20 que arrasou a Rússia e o legado da NEP e depois de Estaline. O Terror e o Grande Terror foi o «mata e esfola» retirado, com algumas diferenças, da metodologia utilizada pela burguesia radical e jacobina da Revolução Francesa de 1789 e com o medo de um país cercado pelo imperialismo do ocidente. A escolha, hoje impossível, do prevalecer da indústria pesada e dos kolkhoses para aumento exponencial da produção a qualquer custo, teve causas que se podem explicar sem grande dificuldade, assim como as consequências nem sempre tão desastrosas quanto se diz por aí, em obras que deveriam ter mais cuidado na análise de documentos já disponíveis.
Podemos analisar o comunismo de várias perspectivas e até se devem fazer por uma pluralidade de pontos de vista, mas nunca perdendo o rumo que levou aos seus objectivos primeiros. Podemos analisar o facto de 1/3 da população mundial ter estado sob domínio de comunistas, de frentes populares ou de governos anticolonialistas e anti-imperialistas amigos da URSS e da China, mas não se pode dizer, porque é falso, segundo Priestland, que os povos foram necessariamente obrigados a serem subjugados por ditaduras sanguinárias. Não foram e o livro dá-nos exemplos disso mesmo e que os países europeus do leste socialista tiveram objectivos claros de ascender a uma nova sociedade com o apoio de largas franjas da juventude resistente saída de uma guerra devastadora entre 1939 e 1945. Tal como seria impossível que a URSS que tinha ficado sem 20 milhões de habitantes nessa guerra, saísse incólume económica e socialmente. A tarefa de a pôr de pé é estudada por Priestland apresentando-nos dados novos que nos podem fazer pensar nos enormes erros a que se chama de «estalinismo tardio», isto até 1953. A estagnação que se lhe seguiu foi consequência da quase destruição completa do tecido económico da II Guerra, embora houvesse muitas outras questões que deverão ser abordadas com outra perspectiva, necessariamente mais racional, assertiva e livre de todo o pensamento único com que somos brindados pela historiografia oficial e, já agora, bem alicerçada pela direita internacional.
Em conclusão, embora seja prematuro usar este termo quando se lê «A Bandeira Vermelha» de David Priestland: é possível estudar a história do comunismo estudando-o desde a I Internacional de Marx e Engels, passando pela social-democracia reformista da II Internacional até à III Internacional do Comintern e das Frentes Populares e das diversas dissidências por quem é possível ter alguma simpatia e mesmo compreensão política, mas torna-se impossível o estudo do comunismo, ou dos comunismos, sem as lutas dos Partidos Comunistas e das organizações revolucionárias congéneres cujo objectivo era a conquista de uma sociedade centrada na igualdade e na liberdade. Por muito que custe a alguns, isso foi conseguido em parte por todo o mundo, mas o seu contrário também é verdade: a queda da URSS e do campo socialista, mesmo aceitando a esclerose que o atacava por dentro, deu ao liberalismo e ao capitalismo armas que foram apontadas rápida e eficazmente à classe trabalhadora mundial. Veremos em breve os resultados, quando o tardocapitalismo colocar a sua agenda fascista e imperialista como forma de salvar a estratégia da acumulação de lucros nas mãos de núcleos de oligarcas e de destruição dos recursos do planeta.

António Luís Catarino