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quinta-feira, junho 04, 2026

"14 Juillet", Éric Vuillard

 

Actes Sud (Col. Babel), 2016.
O que haverá de comum entre Lissagaray, Orwell, John Reed e Éric Vuillard? Se Lissagaray descreveu aqueles gloriosos 72 dias da Comuna de 1871, se Orwell dissertou sobre a Guerra Civil de Espanha e John Reed contou-nos aqueles 10 dias da Revolução Russa, Éric Vuillard realizou uma experiência literária que nos conduz a um só dia da Revolução Francesa: o 14 de Julho de 1789. Não exagero se me atrevo a dizer que este livro nos conduz de um modo extremamente vívido ao povo que, pacientemente, Vuillard retira do anonimato quando decidiu assaltar violentamente a Bastilha e tomar em mãos os destinos da França e, provavelmente, sem tomar total consciência disso, os destinos do mundo. Só existe uma diferença entre os nomes que referi e o nosso autor já aqui citado várias vezes: Vuillard não «assistiu» ao início da Revolução; de resto, ele é um nosso contemporâneo e soube descrevê-la ao ponto de sentirmos o bater do coração do povo em fúria, do desespero que o levou a entregar-se à morte face aos canhões e às espadas, da necessidade de transmutar-se em peças inseparáveis de uma enorme roda que esmagava o Antigo Regime e os seus representantes de uma velha ordem que entendiam como «natural». Não era e o povo de Paris apresentou os seus argumentos na violência regeneradora por uma sociedade igualitária, livre e fraterna. Nesse mesmo dia, o 14 de Julho, Éric Vuillard soube transmitir-nos o pulsar de uma revolução na rua, o início de uma realidade que pode resgatar uma utopia, mostrar, com uma inteligência literária viva, as contradições de classe já existentes na explosão revolucionária. É um livro que viaja por um só dia e cujo ritmo nos leva quase ao minuto, à hora, em que sentimos o calor abafado de Julho e o que ele provoca nos corpos comprimidos como uma massa única; ouvimos os gritos dos feridos e a sensação de abandono que sentem os que lentamente morrem frente aos portões da Bastilha, adivinhamos o sentimento de revolta profunda dos que sentiram fome ou que nunca puderam dar de comer aos seus, a doença e o desemprego, enquanto Versalhes se afundava no luxo e na infâmia dos enormes gastos e na repressão mais hedionda. A burguesia soube ser revolucionária, como a caracterizou Marx quase um século depois, mas não deixou de ser astuta e oportunista, usando a força popular para os seus próprios interesses. Interessante verificar que Vuillard já nos dá esta visão política com as descrições das delegações dos «representantes do povo» nas negociações pela rendição da Bastilha, tentando ultrapassar e moderar as decisões populares saídas directamente da rua em ebulição e isto tudo na cronologia de um só dia. 

Um livro que não foi traduzido e editado em Portugal. Vá lá saber-se porquê.

alc

segunda-feira, abril 03, 2023

«Cidadãos - Uma Crónica da Revolução Francesa», Simon Schama

 

Bookbuilders, 2021. Trad. Miguel Mata
911 páginas de contra-revolução e de amor à Vendeia. Simon Schama pode chamar-se historiador e ter uma equipa de colaboradores tão numerosa quanto dedicada e que provavelmente ficou esquecida nos agradecimentos logo nas primeiras páginas, mas não pode esconder que escreveu uma narrativa da Revolução Francesa descrevendo-a como dispensável, sangrenta, equívoca e contraditória. 234 anos após um dos maiores acontecimentos da História europeia, pode-se ler em Schama o horror que ainda provoca em tipos como ele. Considerada uma narrativa «belíssima», «que se lê num fôlego» este «mestre romancista» apresenta um quadro de demência total perante os acontecimentos que decorrem entre 1789 e 1794. O homem não compreendeu nada sobre um processo revolucionário e pelos vistos não quer compreender, nem está para isso. Argumentar com a dispensabilidade da revolução de 1789, porque o Antigo Regime estava a desenvolver políticas «progressistas» no campo da introdução do liberalismo e tinha abraçado paulatinamente o fisiocratismo, para além de ter resolvido a questão económica é de pasmar. Um estudante do 1º ano da faculdade saberá perceber que as ruturas acontecem exatamente quando um processo de modernização tem lugar. Veja-se o 25 de Abril de 1974 e o marcelismo «desenvolvimentista», veja-se a Revolução de 1917 na Rússia quando as contradições geradas pela «modernização» vieram espoletar o confronto entre classes. Mas Schama não quer a Revolução, odeia-a; não tanto pelos seus excessos (motivo mais encontrado e aumentado entre historiadores de direita), mas porque para ele não fez sentido nenhum ter explodido. Se os franceses fossem outros - por exemplo, como os ingleses em 1688 na Gloriosa Revolução, cem anos antes, esses sim foram muito mais circunspectos, mesmo que tivessem cortado igualmente a cabeça a um rei, por acaso chamado Carlos! - não teriam feito a revolução que gastou as energias positivas de uma nação em claro progresso. Chega ao ponto de dizer que 1789 existiu por inépcia e estupidez da aristocracia, ordem que esteve efetivamente por detrás da Revolução, sem perceber que estava ela própria a pôr a cabeça no cepo. Culpados: Voltaire (não tão deísta assim e afinal amigo do clero!), Talleyrand (um falso bispo, como tal extremamente adaptável a todas as situações), Mirabeau (um escroque tão libidinoso, como populista), Lafayette (um salta pocinhas revolucionário que nada compreendeu da Revolução americana de 1776 em que participou), Sade (repugnante), Anarchasis Cloots (um parvalhão), Marat (um tolo), Robespierre (um dissimulado sangrento) e por aí fora... mas o grande elogio vai direitinho para o povo francês e principalmente o de Paris quando lhe chama, por várias vezes, de «turba». Eis a turba, feliz e radiante com o seu milenarismo entranhado (e defendido pelo sonso do Rousseau), a cortar cabeças que saíam à rua sem o «cocar»! E Luís XVI exposto assim, coitado, sem pingo de culpa que antes de ser morto era acarinhado pela mesma «turba» que o matou, ele que era poupadinho em Versalhes, que se dedicava à caça e aos jogos e que adorava construir fechaduras, foi duas vezes vítima e não um carrasco para o povo. Maria Antonieta, uma pequena rainha que teve o azar de ter nascido austríaca, imberbe, cujos boatos de deboche forma criados por pura maldade da «turba». O facto de ter chamado o irmão para invadir a França, não é tão exposto quanto ao «caso do colar», esse sim, um verdadeiro boato que esteve na base de toda a propaganda anti-antonietista e que a levou à morte, claro está.
A Bastilha? Um paraíso, se a compararmos com os serviços prisionais de hoje (sic)! Os prisioneiros eram bem tratados, estavam sozinhos nas celas, tinham uma cadeira ou várias delas, uma cama com colchão, uma estante onde podiam ter livros e um guarda fato. A investigação de Schama chega ao ponto de ter descoberto que o «repugnante» Sade (23 anos de prisões e hospícios, tendo saído uma semana antes do 14 de Julho) tinha a visita da «sofredora» mulher uma vez por semana, ou Latude (28 anos preso!) tinham uma vida relativamente folgada. Aliás, Sade é que foi culpado de ter ido para um hospício (com a colaboração da tal sofredora), não tivesse ele berrado diariamente pelas muralhas da Bastilha para a sublevação do povo de Paris e insultado várias figuras da aristocracia e nada lhe teria acontecido. Ler para crer. Embora não o aconselhe a um leitor minimamente crítico.

Ter fôlego para chegar a 1793, a páginas 600, a época do chamado Terror, é o mesmo que aguentar uma maratona de 42 km. Nem valerá a pena esperar pelos enormes contributos sociais aos mais desfavorecidos que são uma constante desta fase da Revolução em que os sans-culottes de Jacques Roux e Mercier, as mulheres de Paris ou os Iguais de Babeuf e Buonarroti, tiveram um papel fulcral. A maneira como são tratadas as diversas Comunas e a Guarda Nacional não dá para descrever aqui, tal a azia. Repete-se: quem, 234 anos depois, ter assim um ódio tão primário à Revolução, não é de um historiador. Para isso, ao menos, temos Michelet que foi contemporâneo e mostrou bem mais consideração pelos factos históricos do que este romancista. A frase dele que resume tudo é que a Revolução Francesa não foi uma revolução que quisesse mudar a estrutura social, mas sim causada por questões sociais. Quase um motim, a bem dizer.

Portanto, as primeiras 500 páginas, são para explicar que desde Luís XIV a Luís XVI tudo ia bem e a França ia pelo bom caminho liberal, abandonando o mercantilismo de Colbert e decidida a enveredar pelas possibilidades imensas do fisiocratismo liberal, não fosse a aristocracia ter abraçado o Iluminismo de Voltaire, de Montesquieu ou de um tal Rousseau, a némesis de Schama. O Antigo Regime caiu porque a aristocracia aderiu à Revolução! Isto sim, agora compreende-se os elogios dos principais jornais americanos e europeus quando dizem que estamos perante um romance com uma narrativa fluente que se lê «num fôlego»! Faltava o aviso no livro «Baseado em acontecimentos reais», para ser uma adaptação a um filme cómico se não fosse demasiado trágico para a História, embora Simon Schama já tenha na sua posse um Emmy!