Mostrar mensagens com a etiqueta Surrealismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Surrealismo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, maio 27, 2024

Um post de Diogo Vaz Pinto sobre a biografia de Manuel de Castro

Às vezes, entre as centenas de livros que se editam, o mais estranho é que, do meio da indiferença que nos gela e que é o maior dos abismos desta época, surge um leitor, um abelhão todo coberto do pólen que se reservou nalgumas páginas, nalgum desses livros feitos quase secretamente e só em nome dessa hipótese de haver mais alguém vivo nesta língua que quase se deixou de falar, e que está, para os efeitos de perturbação profunda e de mudança, praticamente morta. Daí o espanto quando afinal ainda nos surge um leitor pela frente, alguém vindo do outro lado, abrindo uma esperança de não sentirmos o desconhecido como um vazio, mas ainda como um território que nos desafie. Curiosamente, este leitor calha ser um antigo editor, desses que deu tudo e acabou atirado para a berma, muitas vezes também por esse género de autores tomados pela sanha de saltar para algo com um ascendente publicitário maior. Porque a chamada cultura literária entre nós ainda não fez mais que um punhado de escritores com verdadeira vontade de criar tudo outra vez, e por isso vão perfumando os cadáveres de ontem enquanto se queixam por não haver margem para fundar uma razão que diga respeito ao amanhã.

Diogo Vaz Pinto, sobre um artigo referente à edição da biografia de Manuel de Castro, no perfil da editora Língua Morta. Maio de 2024. 

quinta-feira, maio 23, 2024

«O Poeta passeia-se pelo seu túmulo», uma biografia de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa

Língua Morta, Novembro de 2023
É muito possível que quem não se emocionar com esta biografia de Manuel de Castro em jeito de cumplicidade e diálogo com o autor, desaparecido em 1971, guiada por Nuno dos Santos Sousa, tenha, nas suas veias, Água das Pedras, caldeadas por Frizes de morango para as colorir, ao menos.

Ninguém pode ficar indiferente a esta biografia, o que é simplista de se dizer. Aliás, o sub-título já explica por si: «Subsídios, Esmolas, Aforismos e umas Rodadas para a Biografia Teratológica de Manuel de Castro». Portanto, é mais que isso. Nuno dos Santos Sousa não é meigo com a linguagem utilizada, pelos que convoca para aqui, pelo que é escolhido das cartas do poeta ou pelos poemas que sabemos de «Zona», «Estrela Rutilante», «Paralelo W» e «Escorpião» (este desapareceu ou está em mãos desconhecidas, como se pode aventar) e «Bonsoir Madame». Esta biografia não é como as outras, não é um tijolo pessoano ou camoniano, de vastas posses, é uma obra bonita, que respeita o biografado literário e o homem, o que em Manuel de Castro é uma e a mesma coisa. O editor da Língua Morta soube-lhe dar casa e isto não se esquece. Não me retenho sequer a fazer qualquer consideração sobre a sua poesia. Não posso, não tenho estofo e vai daí também a emoção de o ter lido e de o ter desenhado em ex-voto (ver em baixo) não me deixa escrever porque adivinho o desprezo de quem é «interpretado», ou o caraças! Só direi que Manuel de Castro é inesquecível pela raiva, pelo amor, pela ruptura surrealista e abjeccionista, embora não se fique só por estes ismos. Morreu com 37 anos, depois de uma doença prolongada de que não quis tratar-se completamente. Morreu devagar, num suicídio lento num país que está longe de o merecer, sequer. Ele di-lo com clareza, não quer ficar por cá e parte para Paris e Alemanha, estacionando por lá 5 anos. E os seus amigos, Herberto Helder, Helder Macedo, João Rodrigues, Carlos Loures, José Manuel Simões, Pedro Oom, António Barahona (o único que está vivo desse grupo do Gelo, que não era bem um grupo, antes pelo contrário), Fernando Madureira, António José Forte, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Luiz Pacheco e mais, muitos mais... Cesariny e Mário-Henrique constam aqui e ali. 

Nuno dos Santos Sousa dialoga com Manuel de Castro. Com um carinho límpido, que um leitor atento sabe atentar, sim senhor. «Menos na política, Manel», menos na política, que dá merda! Chama igualmente por quem o convocou como «poeta sonegado» no dizer de Luiz Pacheco. Não fosse a «A Ideia» e António Cândido Franco ou António Barahona, e editoras que o vão lembrando e ainda estaríamos em maré de nada. E até hoje foram alguns, se bem que persista o esquecimento que já nada tem de involuntário. É voluntaríssimo e infame, porque é impossível imitar Manuel de Castro sem se dar conta. É único. E os poetíssimos e poetíssimas contemporâneos não o querem perto, porque pode haver desmascaramento e o Herberto Helder ainda dá para se arrevesarem e dar uns ares da sua graça, treslendo-o ou coincidindo, sem se saber, claro. Escreveu para revistas, para jornais, para editoras. Bebeu demasiado, e dava-se à noite lisboeta e aos bordéis. Estava pronto para a porrada, sempre que fosse necessário e também com os amigos, porque era uma nobre prova de amor (chamava aos amigos de «rosas brancas»). Era um incontrolável, o que lhe daria combustível para as melhores páginas escritas no Gelo, no Royal, ou nos cafés que já não existem hoje.

Companheiros do programa biográfico de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa chamou à obra, Cioran, Jünger, Raúl Brandão, Drieu La Rochelle, Ingeborg Bachmann com um belíssimo texto e, além de outros, Jean Cocteau. 

Não porei aqui nenhum poema de Manuel de Castro. Pela simples razão que toda a poesia (como afirmou, «nem todo o poema é poesia!») é nele, um continuum, é muito difícil separá-la em extractos. Compre-se os livros e manuseie-se devagar ou com raiva, cheios de pressa. É convosco. Mas leiam este livro que é igualmente poesia.

António Luís Catarino, Abjectos Surreais, Manuel de Castro, 2022

terça-feira, fevereiro 06, 2024

A Ideia 100 a 103. Desenho para o Suplemento de homenagem aos 100 anos de Mário Cesariny

 

A Ideia, número quádruplo 100 a 103, editou-me, num suplemento sobre os 100 anos do nascimento de Mário Cesariny, uma ilustração do poeta. Devo a António Cândido Franco essa escolha o que me faz sentir um certo orgulho que não escondo. O número já está à vossa disposição nos locais habituais e o índice coloquei-o em post anterior.

domingo, janeiro 28, 2024

«A Ideia», 100 a 103. Outono de 2023

O número de outono d' A Ideia já saíu e está à vossa disposição nas livrarias independentes habituais. Para além da excelente revista de cultura libertária, cuja qualidade e intervenção alternativa já nos habituou, junta igualmente um suplemento dedicado aos 100 anos de Cesariny.

O Índice do número 100 a 103



 

sexta-feira, setembro 22, 2023

Arthur Cravan, poeta e boxeur

 

Mélanges éd., 2005
Um livrinho editado em 2005, baseado num poema impresso pela primeira vez em 1915 no número 5 da revista Maintenant dirigida pelo próprio Arthur Cravan, poeta, boxeur e dadaísta. Mas não só. A sua vida é extraordinária e, pelo que sabemos, confunde-se literalmente com os pressupostos Dada. Foi-me oferecido pelo Pierre, responsável da livraria/alfarrabista La Manufacture, de Montolieu. Não me atrevendo a traduzir o que quer que seja de Cravan aqui vai uma declaração de amor inscrita no poema de 8 páginas com que nos atinge de frente:
(...)
Et tandis qu'allophage
A l'amour de ton chauffage,
Nos gilets
Se câblent leurs violets,
Que, chéri et choufleur,
Je suis tes gammes
Et tes couleurs,
Et, qu'en un amalgame
De Johnson, de phoque et d'armoire
Nos merdes rallument leurs moires,
Fff! les pistons
Du veston.
Dans la finale
Abdominale!
(...)
Cravan está, contudo, publicado em português numa edição já esgotada de 1980 pela Antígona e acompanhado por Jacques Rigaut e Jacques Vaché. Suponho ser importante referir que Abel Prazer/ Silva de Viseu, seus tradutores (ou, talvez, tradutor somente), escreveram nesta antologia:
«De Cravan vai publicada, na presente colectânea, toda a sua obra, excepto os poemas e aquilo a que ele chamava ''prosopoemas''. As dificuldades de tradução destes últimos textos eram tantas (rimas, aliterações, etc.) que o prazer de divulgar um autor a nossos olhos simpatiquíssimo - e para isso basta ele ter preferido o boxe à literatura - se dissolveria completamente num tão ciclópico trabalho. Fez-se o que se pôde.» (pág.5 e 6)

A biografia de Cravan, como disse atrás, fala por si e resumo um pouco a que foi descrita na mesma antologia e com base na revista Maintenant:
1881 - Nasce o Misterioso Sir Arthur Cravan, de seu verdadeiro nome Fabian Lloyd, o poeta com os cabelos mais curtos do mundo, neto do Chanceler da Rainha, naturalmente, sobrinho de Oscar Wilde, renaturalmente, e neto de Lord Alfred Tennyson, re-renaturalmente.
Abril de 1912 a Abril de 1915 - Aparecem os cinco números da pequena revista Maintenant, dirigida por Arthur Cravan. Segundo Breton, ''por ódio às livrarias abafadiças onde tudo se confunde e tudo cai aos bocados ainda em estado de novo, Cravan transporta, ele próprio, um sortido de Maintenant numa carroça de vendedor ambulante.
Junho de 1914 - Na sola de Sociétés Savants junta-se um numeroso público que Cravan insulta e perante o qual dança e faz uma demonstração de boxe.
23 de Abril de 1916 - Em Espanha, o pugilista negro Jack Johnson, campeão do mundo de pesados, bate Cravan por KO ao primeiro assalto. Cravan foge e pede perdão ao antagonista.
25 de Dezembro de 1916 - Vai para os EUA no navio «Montserrat» onde se cruza por acaso com Trotsky.
Março de 1917 - Cravan é convidado para dar uma palestra sobre o humor moderno nos «Independesntes» de Nova Iorque. Surge embriagado, despe-se e a polícia intervém.
Abril de 1917 - Os EUA entram na guerra e Cravan vai para o Canadá onde se casa com a poetisa inglesa Mina Loy de quem terá uma filha. Depois parte para o México.
1919 - É professor de Educação Física na Academia Atlética Mexicana. Desaparece, de canoa, no Golfo do México. 

Edição portuguesa da Antígona, 1980. Cravan, Rigaut, Vaché. Tradução de Abel Prazer/Silva de Viseu

Nesta antologia vale a pena ler, se a conseguirem adquirir, uma carta endereçada a André Gide e a Apollinaire, entre outros nomes insultados... por vezes, ao ler estes poetas cuja vida se confunde com a sua poesia, penso como seria profícua a vinda de um poeta boxeur a este recanto. 

António Luís Catarino

quinta-feira, janeiro 19, 2023

Na Galeria da Revista «A Ideia». Manuel de Castro e Pedro Oom

 

Na Galeria da Revista «A Ideia». Dois desenhos de Pedro Oom e Manuel de Castro em memória destes surrealistas. Uma colaboração pessoal com uma revista alternativa incontornável. 


quarta-feira, janeiro 04, 2023

2 de janeiro - 100 anos do nascimento de Mário-Henrique Leiria

Este meu desenho enquadra-se numa exposição que realizei no Liquidâmbar em Coimbra, intitulada «Abjectos Surreais» e é uma referência a Mário-Henrique Leiria. Decorreu entre 1 a 28 de Outubro de 2021. Este desenho é uma colagem, tinta-da-china e aguarela a escala de cinzentos, em tamanho A4.  Lembra-se que este poeta abjeccionista e surrealista merece, nesta data redonda, um tratamento pelo menos igual a outros de importância bem menor nas chamadas «letras» portuguesas. Para mais, calcorreou o mundo nunca se habituando ao modo tão canino de ser português, pelo que deve ser conhecido internacionalmente. Pede-se, pois, que haja um/a curador/a que se disponibilize à causa!

 

quinta-feira, abril 07, 2022

« A Rapariga já não gosta de brincar », Filipa Leal

 

Uma interessante experiência em que não está ausente o confinamento obrigatório que se iniciou em 2020. Creio que a Filipa Leal se divertiu neste exercício tão paciente como solitário. A colagem, matéria cara aos surrealistas e ao acaso, às matérias esquisitas e intrigantes em jogos de mesas de pé de galo como diria o nomeado Cesariny neste livro. Igualmente uma referência bonita a Perfecto E. Cuadrado e ao seu «A Única Real Tradição Viva» que guardo em casa e que me serviu para a minha segunda exposição «Abjectos Surreais». Mas a Filipa explica tudo no início, na introdução. 

A língua portuguesa é traiçoeira, como todos sabemos. Um estrangeiro (essa figura sempre mais contemporânea que nós, o que nos elogia) não compreende na nossa língua a dupla negativa que passa a ser afirmativa e a dupla afirmativa que quer ser negativa. «Não! Não! Queres lá ver!...». Assim é o título deste livro. É de uma grande duplicidade que nos instiga a perceber se primeiro vem o poema, se as palavras encontradas em colagens aqui e ali, à boa maneira surrealista; ou as duas. Mas saiu tão bem, que dá gosto tê-lo sempre consigo e perscrutar de onde surgiu aquele encadeamento tão lógico, como aparentemente absurdo. 

A publicação é da responsabilidade da «Não Edições» e a tiragem é de somente 160 exemplares. Eu já tenho o meu que encomendei pela Snob. Façam o mesmo e não se arrependem.

quarta-feira, novembro 10, 2021

«Escada Líquida», de Maria Aurélia Marcelino e Eduarda Feio

O livro da Antígona, editado há pouco mais de um mês, apresenta-se como «conversas inéditas com surrealistas portugueses», realizadas por Eduarda Feio e Maria Aurélia Marcelino. Estas «entrevistas» tiveram lugar no ano de 1978 e as autoras eram alunas da ESBAL não conformadas com o ensino conservador que aí então se vivia e que era fruto do salazarismo e, simultaneamente, em profunda convulsão e transformação. Intui-se ao longo do livro que essas mudanças na ESBAL não foram tão profundas quanto necessitavam, mas isso levar-nos-ia a outra conversa.

Os surrealistas nomeados são cinco: Henrique Risques Pereira, Mário-Henrique Leiria, Mário Cesariny (que recusou o encontro), Cruzeiro Seixas, Fernando Alves dos Santos (que não foi encontrado) e Pedro Oom cuja entrevista decorreu numa «conversa com um surrealista morto», ou seja, tendo um carácter esotérico e mediúnico. 

Henrique Risques Pereira foi o mais contido, tendo já dado exemplos dessa contenção em outras publicações. Pouco diz e o que diz não esclarece, nem clarifica. A conversa com Cruzeiro Seixas é um resumo, visto que as autoras não a gravaram, tendo somente tomado notas que as editaram sem tratamento posterior. Já com Fernando Alves dos Santos limitam-se a dar-nos provas que estiveram no seu encalço a partir de informações dadas por Henrique Risques Pereira ou Cruzeiro Seixas, sem que o tivessem encontrado no Algarve segundo era a sua convicção. A «conversa» com Pedro Oom limita-se a um sessão quase de mesa pé de galo, em que tentam reconstruir impressões surrealistas ao poeta que morreu de comoção após o 25 de Abril de 1974. Pessoalmente, acho a experiência demasiado pueril.

A coisa muda de figura com Mário-Henrique Leiria que é de uma loquacidade invulgar para quem sempre se escusou a dar entrevistas públicas. Solta-se completamente com as autoras. Só por isso vale a pena ter o livro em mãos. Reparem no que ele afirma:

«Isto de dizer pintura surrealista, ou literatura surrealista, não há, pá. Há gajos surrealistas que fazem pintura, que escrevem, e de vez em quando extravasam tudo o que têm de extravasar, e catrapuz, deitam cá para fora, sai na pintura, sai na literatura, sai no que eles fazem, sai nos actos de vida até, o chamado processo do acto falhado. Nós tínhamos muito esse processo. O acto falhado. Sai cá para fora. É uma revolta. Quanto a mim, é uma posição de revolta perante a sociedade que nos rodeia. Agora surrealismo, surrealismo, é muito difícil dizer o que é o surrealismo. Para mim, não sou capaz.» (pág.33)

E mais à frente:

«Vivência poética? Sempre a tenho feito...ainda hoje. Poeta, quer dizer, dentro de uma forma de viver poeticamente.(...)» (pág. 51)

Um caso sério este Mário-Henrique Leiria. Um livro a ter.

António Luís Catarino


quarta-feira, setembro 22, 2021

«Abjectos Surreais», exposição de 1 a 18 de outubro do Liquidâmbar, em Coimbra


Já não será muito cedo para informar-vos que vai acontecer mais uma exposição minha no Liquidâmbar, entre 1 a 18 de Outubro de 2021. A conversa com os amigos, e se tudo correr bem, será no próprio dia 1, sexta-feira, às 18:00.

O objecto dos «Abjectos Surreais» é esse mesmo: uma viagem aos surrealistas portugueses que mudaram profundamente a modorra do país que tínhamos. Depois deles, nada foi como dantes. Todos já em permanente errância num qualquer panteão dourado, continuam sempre presentes nas minhas visitas muito pessoais à poesia, ao texto escrito. Coisas do outro mundo tão irreais quanto as estranhezas que nos assaltam todos os dias. Vou mostrar-vos, em catorze desenhos, como eu os vivo e convivo com eles. São eles: Pedro Oom, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Mário-Henrique Leiria, António José Forte, Henrique Risques Pereira, António Dacosta, Carlos Eurico da Costa, Virgílio Martinho, Cruzeiro Seixas, Manuel de Castro, Manuel de Lima, Herberto Helder e Álvaro Lapa. Estes dois últimos porque sim.


terça-feira, julho 20, 2021

Mário-Henrique Leiria e as «Obras completas». Um bocado triste, isto

 

Estudo: Mário-Henrique Leiria

Tenho comigo dois volumes da chamada «Obra Completa» de Mário-Henrique Leiria (M-HL) coordenado, se assim se pode dizer para quem se apresenta com uma «introdução, organização e notas», por Tania Martuscelli. O volume I é a ficção de M-HL e o volume III é composto por «manifestos, textos críticos e afins». O volume II apresenta a sua poesia publicada. Debrucei-me mais sobre o último volume já que a ficção e poesia conheci-as e devorei-as a partir de 1973. Aliás, deve dizer-se ''devorámos'', assim na primeira pessoa do plural, visto que houve uma geração inteira que leu, comentou, riu e lutou com os «Contos do Gin Tonic» e o sucedâneo «Novos Contos do Gin» debaixo do braço.

O volume III é uma tristeza que quero partilhar convosco. Se ousamos vibrar com os manifestos de 1949, data da Exposição Surrealista de Lisboa, e ir por aí fora com os textos de irreverência absoluta, pelo menos até 1952, destacando-se precisamente Mário-Henrique Leiria por ser particularmente violento e verrinoso para com o SNI fascista e companhia, em que dispara para todos os lados inclusive para os neo-realistas, não se compreende que neste volume se coloque, no mesmo pé, as suas cartas de amor. Não dá, assim como não compreendemos a falta de datação das várias missivas que podem ser consultadas logo no índice: a grande maioria apresenta o frio «s/d» quando uma investigação mais aprofundada poderia ser relativamente fácil a inclusão de uma data aproximada e a conjuntura necessária para certos factos relatados pelo autor e que são do conhecimento de todos. Pelo menos no plano da política e da História. Faltam as notas necessárias.

Sou, em princípio, contra a publicação de cartas privadas de autores conhecidos. Por muitos motivos, mas principalmente porque é um pouco velhaca, esta prática. Ainda há pouco estive a consultar numa livraria as cartas de Paul Celan e Ingeborg Bachmann, mulher de Max Frisch. Completa falta de interesse ou de emoção. O mesmo para tantas outras epistolografias célebres, sendo a de Fernando Pessoa a Ofélia a mais conhecida. Quanto a Mário-Henrique Leiria as suas cartas são de uma tortura imensa que bem podia não ser revelada. Para quê saber o que a escrevia à Isabelinha, a Maruska, a «menina do sorriso bonito»? Ou ainda, as cartas que revelavam uma completa depressão perante o seu divórcio com Dietlind? Absolutamente nada. Ficamos com um sabor amargo na boca e ainda mais quando reparamos que os herdeiros e família de M-HL não foram sequer consultados como vem registado em nota introdutória. Por mim dispensava o conhecimento das cartas. Tenho a certeza que o autor também não aprovaria, mas isso é outra história mais etérea e nada terra a terra.

Por outro lado, já ficamos com a pulga atrás da orelha com alguns factos que podiam ser motivo para uma exaustiva biografia de M-HL, nomeadamente a sua relação com o PCP e com Manuel Sertório, a relação com Álvaro Guerra, por exemplo, e com os comunistas brasileiros que o levou à prisão e tortura no Brasil., tal como a sua relação com Cuba dos «guerrilheiros barbudos», sabendo nós que ele esteve na ilha a convite da Associação de Amizade Brasil - Cuba, isto em 1962. Há igualmente um vislumbre de dissensões e lutas internas dentro do surrealismo/abjeccionismo português que podemos sentir nas cartas, principalmente a sua relação com António Maria Lisboa e com Mário Cesariny, mas principalmente com o primeiro deles. E Londres, Paris, Bruxelas, Checoslováquia, na Marinha Mercante e mais as minas de carvão, somando-se o Brasil e São Paulo, a fome, a falta de dinheiro, as relações fátuas. Depois, há certas passagens em cartas que, à falta de uma biografia séria, nós só podemos supor; assim é com a referência à guerrilha da Guerra Civil de Espanha (acho-o demasiado novo para ter participado nela) ou no «maquis» da Resistência francesa em que diz ter participado. De qualquer maneira, sentimos que esteve envolto em armas e que chegou a estar preso em Caxias, também. A sua raiva à PIDE e a Salazar é bem notória em certas passagens, mas tudo entremeado com juras de amor à Isabelinha a «Maruska de olhos tristes» e a depressões brutais. É uma grande salganhada é o que é. Precisa-se, pois, de um biógrafo à altura.

Seria muito bom para todos que, ao menos, estes volumes sirvam para um conhecimento mais aprofundado pela vida extraordinária deste homem e deste escritor surrealista (que o deixou de ser em 1953) e tudo!

quinta-feira, março 25, 2021

Quem com faca nos dentes anda, a bom porto há-de parar. A poesia de António José Forte

António José Forte. Foto de Aldina

Poeta sem sombras, luminoso, de índole revolucionária, conhece-se pouco de António José Forte não fossem a Parceria A.M.Pereira, a Hiena, a &etc e a Antígona do amigo Luís Oliveira, que agora publicou a sua poesia «completa», mais Cesariny, Virgílio Martinho, Eugenio Castro e Aldina a darem-lhe a visibilidade merecida. Tal como Dacosta, Forte esteve uma interregno de dezenas de anos sem nada publicar, o que não o impedia de escrever. E só o facto de saber que escrevia abre todo um leque de possibilidades de virmos a conhecer melhor este poeta surrealista do Grupo do Café Gelo. Aliás, escreveu um texto belíssimo sobre os cafés de Lisboa onde se lhe refere. Herberto Helder prefaciou «Uma Faca nos Dentes» e Luís Oliveira fala do contacto que com ele teve em Santarém e Lisboa, quando António José Forte calcorreava o país com as Citroën das bibliotecas volantes da Gulbenkian. Helder coloca-o como um dos grandes poetas «Como muita poesia surrealista ou afim, a de Forte molda-se num corpus de fragmentos soldados por pontos magnéticos de analogia imaginística ou verbal, por enlaces rítmicos: uma colagem orgânica de fragmentos.»; palavras, expressões feitas de fragmentos e colados no poema que atinge o(s) sentido(s) «num continuum, sempre perfeito, denota[ndo] a ágil intuição dos recursos de escrita, uma oficina atenta.» (HH). Mas António Cândido Franco, num excelente e interessante texto sobre a publicação castelhana de «Uma Faca nos Dentes» vê-o deste modo: «Trata-se de um poeta invulgarmente coerente, que deixou uma obra breve mas pontuada de sinais vivos e imperecíveis - e não tanto pela grandeza da arte, que lhe foi quase indiferente, mas pela potência ingénita do sopro. O que é admirável no seu verbo é a força da imprecação, a destemperada fúria da voz, a altivez do tom profético e apocalíptico a denúncia e o combate.» (Revista A Ideia, nº90,91,92,93, pág. 314).

Já, nós mesmos, queremos então apontar-vos a «destemperada fúria» de António José Forte com um excerto de «EXPOSIÇÃO DADA» direccionada para os falsos avestruzes que pedem emprestados o nome DADA para servirem à mesa de divindades académicas com que se alimentam de tempos a tempos em realizações que têm tanto de basbaque como de ridículo. 

Ora tomem lá do Forte:

EXPOSIÇÃO DADA

(...) Se houvesse cadáver DADA, mas não há, o que vai chegar agora aí embalsamado seria um falso cadáver. Se houvesse cadáver insepulto de DADA, cheirava mal num continente inteiro. Se houvesse cadáver de DADA enterrado em vala comum, havia ainda hoje fogo-fátuo que dava para iluminar uma cidade - exemplo, Lisboa. Como não cheira e tudo permanece muito às escuras, segue-se que não há cadáver de DADA.» («Uma Faca nos Dentes», Ed. Antígona, 2017, pág. 124)

DENTE POR DENTE

«Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares.» (Op.Cit., pág. 47)

RESERVADO AO VENENO

«...é um dia perfeitamente para cães...» (Op.Cit., pág. 34)

QUASE 3 DISCURSOS QUASE VEEMENTES

«Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.» (Op. Cit. pág. 27)

E assim se faz forte ainda incompleto.

António Luís Catarino


domingo, março 14, 2021

«A Ideia» em número quádruplo (90,91,92 e 93). Cruzeiro Seixas, Luiz Pacheco, Mário-Henrique Leiria, surrealismos & Florbela Espanca, espanca.

 

Uma revista incontornável para quem prefere o debate de ideias ao consumo fácil do entretenimento. António Cândido Franco e a comissão editorial constituída por João Freire, José Maria Carvalho Ferreira e Paulo Eduardo Guimarães apresentam-nos neste número quádruplo (90,91,92 e 93) um Cruzeiro Seixas algo diferente do que estamos habituados pelas apresentações académicas habituais no artigo «Rasgos, Homenagens & Outros Sinais» uma excelente retrospectiva do pintor/poeta surrealista. Estamos a falar de pessoas que o conheceram pessoalmente e que trocaram com ele cartas, ideias e lugares.

De resto, cartas inéditas de Mário Cesariny, uma «aproximação afirmativa à ''arte'' dos loucos», de Eugénio Castro, uma entrevista a Mário-Henrique Leiria, por Tania Martuscelli, autora que assinou o monumental estudo em três volumes daquele autor, um estudo sobre Luiz Pacheco de Ana da Silva e um artigo belíssimo de Henrique Garcia Pereira que talvez o tenha conhecido como ninguém na nocturna e lisboeta urbe, diríamos nós; Teixeira de Pascoaes é tido em conta como não poderia deixar de ser para uma revista que tem sedimentado, de número para número, o seu apego ao surrealismo e aqui à referência cesariniana de um surrealista antes do tempo. Tal como foi feito em números anteriores o desconcerto de ver Júlio Dantas com linguagem dada e Florbela Espanca, numa outra Espanca. Como diria Adília Lopes, Florbela espanca, espanca. Perspectivas oblíquas, pois. Mas inquestionavelmente interessantes de seguir e pensarmos que em poesia, tal como na literatura, tenham elas os rótulos com que as querem enfeitar, nem tudo o que parece é. Esta revista surpreende-nos sempre.

A ler, consultar e a guardar. Podem adquiri-la na Letra Livre, Snob, em Lisboa, Utopia, no Porto ou directamente à revista.

A Ideia toda:

REVISTA A IDEIA - 2020
Nºs 90/91/92/93
CENTENÁRIO DE CRUZEIRO SEIXAS

340pp.
Dezembro, 2020

GRUPO SURREALISTA DE MADRID & REVISTA
FLAUTA DE LUZ
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA
LUIZ PACHECO
HENRIQUE GARCIA PEREIRA
GANDHI & A ANARQUIA
GIUSEPPE PINELLI & MILÃO 50 ANOS DEPOIS
CARTAS INÉDITAS DE MÁRIO CESARINY
SIMON WATSON TAYLOR
A RAINHA DE INGLATERRA
MIGUEL PEREZ CORRALES
ANDRÉS DEVESA
EUGÉNIO CASTRO & A ARTE DOS LOUCOS
ANTÓNIO TELMO & CARLOS CASTANEDA
TEIXEIRA DE PASCOAES & FLORBELA ESPANCA
ENCONTROS DOS BARDINHOS DE 2019
A TECNOLOGIA 5 G
MURRAY BOOKCHIN versus DAVID WATSON
OS COMEDORES DE FOGO EM ÉVORA
POESIA DE JESUS LIZANO

presenças & inéditos
Adalberto Alves, Amadeu Baptista, Ana da Palma, Ana da Silva, Ana Rita Fialho, António
Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Bruno Silva Rodrigues, Carlos Baptista,
Carlos d Abreu, Carlos Diaz, Carlos Mota de Oliveira, Enrique Nogueras, Fátima Pitta
Dionísio, Fernando J. B. Martinho, Ferra// Aisa, Francisco Cardo, Gabriel Rui Silva, Guy
Girard, Isabel Mendes Ferreira, João Freire, João Prates, Joélle Ghazaria/i, José Emílio-
-Nelson, José Matutei Martins, José Pais de Carvalho, José Rui Teixeira, Júlio Henriques,
Hugo Gonçalves Silva, Luís de Barreiros Tavares, Luis Ma/a/el Gaspar, M. Ricardo de Sousa,
Mara Rosa, Margarida Morgado, Maria Estela Guedes, Mário Bui Pinto, Michael Lòwy,
Nata/t Schafer, Nicolau Saião, Paulo J. Brito e Abreu, Pedro Fernando, Pedro Martins, Pedro
Morais, Risoleta Pinto Pedro, Rui Sousa, Sílvia das Fadas, Sofia A. Carvalho, Sofia Santos.


desenhos, ilustrações & imagens
Almerinda Pereira, Ana da Silva, A/tabela Calatróia, André e Alice Montanha, António
Couvinha, Cruzeiro Seixas, Délia Vargas, Dominique Lahaume, João Francisco Vilhena,
João Prates, José Ma/a/el Rodrigues, Luis Manuel Gaspar, Luiz Pires dos Reys [Capa e
Contracapa], Manuel de Almeida e Sousa, Mara Rosa, Maria João Vasconcelos, Mário Rui
Pinto, Miguel de Carvalho, Rik Lina, Vasco Rosa.


Com dois suplementos: um de João Freire e outro uma antologia poética inédita de Dulce Pascoal


terça-feira, junho 30, 2020

«Flauta de Luz», Boletim de Topografia, nº7

Revista Flauta de Luz Nº 7
«Flauta de Luz» - Boletim de topografia, nº7
Tenho adquirido a revista Flauta de Luz. Júlio Henriques é seu editor e coordenador e abre a publicação com «Civilização». Aí, poder-se-á ler numa descrição de uma sociedade doente e a crise de civilização a que assistimos: «(…) A torrente inovadora que tornou crianças, adolescentes e adultos furiosamente agarrados (enganchados, como se diz no calão da droga) a computadores, tablets e smartphones criou uma atmosfera geral de ausência comunicativa, de relação preferível com as coisas, em que avulta um novo tipo de insensibilização. Juntando a cultura do narcisismo [que, mais à frente, Anselm Jappe bem explica juntamente com o fetichismo da mercadoria, nota minha] (modelo parental educativo em que passaram a evoluir as novas gerações) ao impelido apego destas últimas às ‘’tecnologias da informação’’, chegamos assim a auto-estrada digital conducente a este coktail de shots corporais de aturdimento garantido.(…)». O mote está dado e as coisas dividem-se deste modo: os que se apegam às novas tecnologias sofregamente e aqueles que, como eu, ainda compram, leem e divulgam revistas como a Flauta de Luz.

De resto, é com verdadeiro prazer que lemos os artigos que se sucedem a um ritmo vertiginoso para quem pega  na revista, perdão, boletim de topografia, sem a conseguir largar. Comecemos por Raoul Vaneigem, mais lúcido que nunca, a perspectivar novas insurreições e a urgência em criá-las em direção a uma verdadeira humanidade que salve não só o planeta como a espécie humana que se quer autónoma e livre. Que conhece o percurso deste homem, sabe do que fala e da coerência que sempre o acompanhou.  Interessante a sua posição sobre a epidemia de hoje «Seria mesmo necessário o coronavírus para demonstrar aos mais obtusos que a desnaturação em prol da rentabilidade tem consequências desastrosas para a saúde universal? Esta saúde que de forma constante é gerida por uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas disfarçam o desaparecimento dos hospitais públicos? Há uma correlação evidente entre o coronavírus e o desmoronamento do capitalismo mundial. Ao mesmo tempo não é menos evidente que aquilo que recobre e submerge a epidemia do coronavírus é uma peste emocional, um medo histérico, um pânico que simultaneamente dissimula as carências de tratamento e perpetua o mal assustando os pacientes. (…)». Vaneigem assina mais dois artigos um deles uma entrevista truncada no Le Monde e que conhece aqui a sua versão definitiva. Atenção a esta entrevista onde o autor declara a real importância do movimento dos Coletes Amarelos, juntando as ZAD (Zonas A Defender), o movimento zapatista e a crítica contundente aos Black Bloc. Mas, principalmente, a apresentação de uma saída insurrecional e alternativa ao modelo capitalista.

Temos David Watson, autor de Against the Megamachine na conhecida Autonomedia, editora libertária norte-americana, num artigo muito claro «Atualizar os Possíveis» sobre o possibilitismo e as novas utopias na construção de um mundo diferente.

A «Advertência Final» é um exercício irónico de quatro investigadores científicos sobre o tão conhecido «Aviso à Humanidade», de 2017, que juntou 15 mil cientistas de 184 países sobre os perigos que pairam sobre o Planeta. Estes 4 signatários advertem, ao tal aviso, que, sem a crítica ao capitalismo e as alternativas económicas que devem acompanhar essa (ir)responsabilidade do lucro e da rapina de recursos, podem esperar sentados até ao próximo aviso à humanidade. As coisas ficarão na mesma.

Um «suprimento litrário avulso» vai dando conta de autênticos murros no estômago à intelectualidade e ao processo de criação artística em curso. Se o riso era quase impossível de arrancar a quem lesse ou consultasse em diagonal os verdadeiros e reais suplementos literários que proliferam por aí, neste suprimento litrário a verdadeira alegria da leitura neo-abjeccionista brota, incontrolável. Também há insurgência no riso. Atenção aos registos de Júlio Henriques «Amar um robô» (lembrei-me de Sophie, mas podem dar-lhe outro nome qualquer…) e «Mas o que é que nós queremos?». Não percam a sua leitura.

Os artigos sucedem-se com entrevistas a Jorge Valadas / Charles Reeve, que assinou agora o livro «Socialismo Selvagem» saído na Antígona e já divulgado aqui no Deriva das Palavras em http://derivadaspalavras.blogspot.com/2020/03/a-memoria-e-o-fogo-e-o-socialismo.html e uma importante entrevista a Júlio Henriques onde se fala, entre outros, de Paul Mattick, de René Vienet, do Maio 68, de Serge Bricianer ou de René Lefeuvre, editor da conhecida Spartacus. Uma mostra para uma possível construção de uma «antologia da poesia ameríndia contemporânea» acompanhada de artigos de uma verdadeira topografia indígena, tornados aqui os últimos guardadores da humanidade se quer continuar a ser, como os trabalhos de Ailton Krenak (que refere o importante «A Sociedade Contra o Estado» e que conheceu Pierre Clastres), Davi Kopenawa Yanomani, manifestos da Survival International em defesa dos Povos Índigenas, Stephen Corry com «Os melhores guardiães da natureza construíram o nosso meio ambiente e podem salvá-lo», Corsino Vela com «Uma guerra real num mundo virtual», e «Morrer em Rojava» uma coletânea de depoimentos sobre os internacionalistas que morreram pela autonomia autogestionária dos enclaves curdos na Síria, contra o Daesh e o exército turco às ordens da Nato. Provavelmente, para não dizer quase de certeza, que houve algum ímpeto irracional de quem defendeu que a Guerra Civil de Espanha foi a última guerra por ideais revolucionários!

Podem contar-se igualmente com artigos de Jorge Leandro Rosa, Vasco Santos e Chuang. O primeiro versa sobre as tecnologias e poder e os dois últimos analisam não só as implicações do coronavírus e as consequências sociais das novas epidemias para o século XXI. O último, Chuang, é uma revista e igualmente um blogue. O significado da palavra é um cavalo que passa o portão, que (se) liberta. A análise do que se passa na China de hoje, não só ao nível das epidemias, mas igualmente no campo social e da passagem de uma economia fechada para uma economia de capitalismo integrado mundial aponta as contradições a que está votada a ditadura chinesa. É por isso espectável que se tivesse optado pelo anonimato. Mas que é de alguém que está no terreno e que nos passa informação, não se tem dúvidas.

Também se comemora nesta Flauta de Luz os 100 anos de Lawrence Ferlinghetti, esse jovem beatnick ímpar!

Um número único, este 7º boletim, de 289 páginas!, com ilustrações fabulosas, que dá vontade de requisitar numa livraria mais números (a mim faltam-me dois!). Há, de certeza, na Livraria Letra Livre em Lisboa e na Utopia, do Porto. Ou então, flautadeluz1@gmail.com .

Ah…e Cesariny, pois claro, com um «Lembrete de coisas de um passado recente – Uma Raça Maldita». Quem será a «raça mais infame que apareceu à face da Terra?». Ele dir-vos-á.

António Luís Catarino
Coimbra, 6 de julho de 2020

«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas

A Ideia celebra o centenário da escrita automática

«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas

Habituei-me a ler «A Ideia» desde sempre. Este número vale (muitíssimo) por si próprio quando se assinalam três datas directamente ligadas a uma publicação que se define como de «cultura libertária». São 45 anos da criação d’«A Ideia» num círculo de exilados portugueses em Paris e com divulgação assídua em Portugal, mais o apontamento circunstanciado dos 100 anos do jornal «A Batalha» que, como sabem os que acompanham minimamente as lutas operárias do século XX, chegou a ser um diário com uma tiragem de 10 mil exemplares, julga-se, logo atrás de dois jornais institucionais. Para além desta nota, lembrar que foi o órgão anarquista da União Operária Nacional cujo congresso fundacional foi, creio eu, em Tomar e que deu origem à forte CGT. E ainda outro centenário importante para a iniciação de um verdadeiro e genuíno debate a que este número d'«A Ideia» contribui de uma forma indelével – falamos da publicação de «Les Champs Magnétiques» de André Breton e Philippe Soupault, em 1919, e que foram «cruciais para o nascimento do surrealismo entre 1922 e 1924». 

A revista muito pela responsabilidade de António Cândido Franco que coordenou um Inquérito sobre o Centenário da Escrita Automática apresenta-nos uma vasta panóplia de opiniões sobre este tipo de escrita com destaque, subjectivo é certo, para os depoimentos de Alberto Pimenta, Cruzeiro Seixas que, aliás, apresenta um poema inédito de 1961 titulado «Pequeno poema a Angola», Fernando Cabral Martins, Manuel de Freitas que não gosta do termo mas que ainda assim fala dele, Manuel da Silva Ramos, Margarida Vale do Gato com um artigo extremamente interessante sobre escrita automática em Kerouac e Withman entre outros, Maria Estela Guedes que a encontra em Herberto Helder, Michael Löwy, Miguel de Carvalho ou Nuno Júdice que optou por nos dar uma lição pedagógica sobre o tema. Mas são muitos os depoimentos, mesmo daqueles que separam o automatismo psíquico da escrita automática surrealista, apesar de toda a ideia contrária que a revista sugere e ainda que o próprio Breton e os surrealistas o neguem! Mas o resultado do inquérito é francamente bom.

Uma ressalva para as excelentes ilustrações que acompanham a publicação e ao trabalho gráfico cuidado.

Mas deixemos a revista falar por si e através da arte da colagem, do «détournement» se assim o entenderem:

Na página 30, André Breton explica, já como cadavre exquis e com a condescendência para um só depoente que, lesto e impante, apontava o seu dedo académico aos surrealistas afirmando que não foram estes os «inventores» da escrita automática, disse Breton: «Em 1919, a minha atenção tinha-se fixado sobre frases mais ou menos parciais que, em plena solidão, no momento de adormecer, se tornam perceptíveis para o espírito sem que lhes seja possível descobrir uma determinação prévia. Estas frases, notavelmente imaginativas e duma sintaxe perfeitamente correcta, surgiram-me como materiais poéticos de primeira qualidade. Esforcei-me antes de mais por retê-las. Foi só um pouco mais tarde que Soupault e eu pensámos reproduzir de forma voluntária o estado em que elas ocorriam. Bastava para tanto abstrair-nos do mundo exterior. Foi desse modo que elas nos chegaram durante dois meses, cada vez mais copiosas, sucedendo-se em catadupa, sem intervalo e com uma rapidez tal que foi preciso recorrer a abreviações para as registarmos». Foi assim que se iniciou, em 1922, a escrita de «Les Champs Magnétiques» e com ela o movimento surrealista.

Mas é com a profunda análise de António Cândido Franco em «Fluidos, Berlindes, Médiuns, Bolas de Cristal & Carvões – Do automatismo psíquico surrealista» que a clareza das posições surrealistas se tornam mais óbvias, tendo afirmado com toda razão que só existe a expressão «escrita automática» porque Breton e Soupault eram poetas. Seria então mais correto dizer-se «automatismo psíquico» visto que este abarca uma grande amplitude de comunicação artística como a imagem, o desenho, o filme, a pintura, o «ready made», a palavra, a colagem ou a junção de artefactos. Mais à frente o autor afirma, clarificando igualmente algumas confusões já referidas num depoimento em particular que nunca os surrealistas reivindicaram para si a «invenção» da escrita automática, socorrendo-se por vezes do próprio Breton. Diz António Cândido Franco: «O automatismo surrealista nasceu no âmbito da experimentação dos processos mentais, como um modo próprio de análise feito fora do âmbito hospitalar, mas baseado nos mesmos supostos de auto-conhecimento e de terapia catártica. Por isso, o seu criador, André Breton, sempre se negou a classificar o surrealismo como um movimento literário e artístico, preferindo encará-lo como uma nova etapa humana em direcção a uma maior e mais larga liberdade de consciência. O surrealismo tinha um âmbito próprio de pesquisa, uma revolução autónoma a realizar, e não se podia confinar à arte e à literatura.» (bold meu). Cândido Franco aclara mais à frente no mesmo artigo: «O instrumento que o surrealismo colocou disposição de todos, o automatismo mental, e que justificou o seu propósito da poesia passar a ser feita por todos e qualquer um, naquilo que se chamou ‘’o comunismo do génio’’, continua válido pois cada um de nós precisa de fazer a expedição às fontes originais do espírito donde brota a criação e a liberdade para poder viver a vida em plenitude».  Entretanto, o autor chama a atenção, igualmente, para um fenómeno contemporâneo poderosíssimo e que, este que vos escreve, tem chamado a atenção sempre que pode pelo que tem de realmente mau, de distopia. Leiam e meditem: «A tragédia da inteligência artificial é a escravização do espírito, naquilo que este tem de mais autêntico e que só no continente submerso da alma humana se pode encontrar do mesmo modo que apenas na escura profundidade duma mina se pode colher uma rama de oiro (…) no tempo da robótica é ele [o surrealismo] o primeiro a tocar a rebate nos sinos da imaginação».

Michael Löwy, no seu artigo sobre «O marxismo libertário de André Breton» faz-nos uma resenha com pormenores importantes da relação entre Breton e Trotsky e à sua ligação sempre tensa até ao seu afastamento total do Partido Comunista. Breton não desiste da liberdade e essencialmente da liberdade de criar, para isso juntando-se aos anarquistas o que leva o velho Trostsky a subscrever essa ideia no Segundo Manifesto Surrealista o mais politicamente envolvido de todos os manifestos. A ideia é não abandonar os princípios da Revolução de Outubro, mesmo que já traída e adulterada por Estaline. O PC não lhe perdoará e temos o Komintern a adjectivar o surrealismo de «materialismo gótico», de «marxismo romântico» como forma de o reduzir ou esvaziá-lo de sentido. Os surrealistas proclamam então, o «reencantamento do mundo» e a «recusa espontânea das condições de vida propostas aos seres humanos e a necessidade imperiosa de mudá-las». Enquanto muitos ainda duvidavam, eles cortam com o estalinismo em 1935, datas da maior repressão nos «processos de Moscovo».

Três manifestos surrealistas inéditos em português acompanham este número d’«A Ideia». Só por isto valeria a pena a sua rápida aquisição, ao mesmo tempo que nos perguntamos qual a razão de só agora os conhecermos, quando a criação do Grupo Surrealista de Lisboa e, mais tarde, do Grupo Dissidente de Cesariny, Cruzeiro Seixas e António Maria Lisboa entre outros, datam desta precisa época! Mesmo nos Textos de Afirmação e Combate do Surrealismo Mundial de 1977,de Cesariny, não consta alguma referência a estes manifestos (re)fundadores e clarificadores do surrealismo. São textos de uma beleza agressiva e de clara ruptura para com os PC, contra aqueles que em 1947 achavam todos os alemães nazis, clarificadora para com os pressupostos da revolução surrealista denunciando ao mesmo tempo a degenerescência da ditadura do proletariado na ditadura de um só partido. Para eles, os surrealistas, a revolução não se compadecia com a moral ou prática burguesas e denunciavam quer a religião e, com ela, o cristianismo: «os marxistas deverão deduzir que não se produziu nenhuma mudança significativa no domínio da economia desde que Moisés foi chamado ao Monte Sinai», os costumes e a moral «A sua confiança na perfectibilidade do percurso humano é, hoje, como ontem, o prolegómeno que diminui o espectáculo desolador do mundo»  e, ainda em 1947, proclamavam: «O sonho e a revolução foram feitos para se associarem, não para se excluírem. Sonhar com a Revolução não é renunciar-lhe, mas sim fazê-lo duplamente e sem qualquer reserva mental». Portugueses presentes nesta magna assembleia surrealista foram Cândido Costa Pinto e António Dacosta. Sabe-se que foi o primeiro a dar a Cesariny os contactos com André Breton que aquele aproveitou para se encontrar com ele pelo menos duas vezes.

Manuela Parreira da Silva faz um excelente retrato de Pessoa mediúnico cujo automatismo na escrita (principalmente no ortónimo e em Caeiro) nada teriam a ver com o automatismo surrealista tal como estes o entendem. É provável que Pessoa desdenhasse os surrealistas e principalmente os dadaístas. Pelo menos esta investigadora data esse conhecimento de 1917 e talvez este conhecesse bem Apollinaire que, como sabemos, foi colaborador em vida dos surrealistas aquando da apresentação de Les Mamelles de Tirésias, drame surréaliste en deux actes et un prologue. Mas Soupault, que esteve com Pessoa em duas ocasiões em Lisboa, não lhe foi muito simpático, ligando-o a um porto branco e a um sorriso associado! De qualquer maneira, somos levados a concluir que Pessoa, em certos aspectos, não se afasta dos surrealistas pese embora aquele modo mediúnico de conquistar o sonho que o separava destes. Pessoa e Freud seriam incompatíveis. Mesmo Cesariny, mais tarde, acaba por reconhecer a importância de Pessoa, mesmo que as suas loas fossem dirigidas, e muito bem, para Teixeira de Pascoaes.

Quem adquirir a revista não deixe de ler «Abjeccionismo & Automatismo» de Rui Sousa. Aqui entra-se em outra dimensão que é o muito português abjeccionismo, embora Rui Sousa em tese que está a preparar o coloque mais internacionalizado, digamos assim. A questão coloca-se: será o abjeccionismo uma deriva portuguesa do surrealismo? Teríamos então como representantes dessa corrente um Raúl Brandão, Gomes Leal, algum Orpheu, Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio, António José Forte e o não menos importante Pedro Oom. Já de fora teríamos um outro tipo de abjeccionismo: Artaud, Bataille, Kristeva. Mas há um nome verdadeiramente esquecido hoje e que se sobrepõe que é o de António Maria Lisboa e a sua Metaciência, esse novo humanismo que ultrapassa a racionalidade e procura a consciência individual, onírica e verdadeiramente livre.

Centenário outro, desta vez o da criação, por Leonardo Coimbra, da primeira Faculdade de Letras do Porto, livre e libertária, que a ditadura fechou denunciada (não há outro termo) pela Faculdade de Letras de Coimbra (cidade/universidade/prostíbulo salazarista dos anos 30) denominando-a «Faculdade das Tretas do Porto». Agostinho da Silva foi seu aluno antes do seu exílio.

Uma pessoa até se encontra a ler «A Ideia» com grande concentração e aparece-nos vindo sei lá de onde um texto sofrível e mesquinho de Stefan Zweig sobre Verlaine. Já li coisas más, mas esta ultrapassa, em muito, alguns textos maus de pessoas más para quem dizer mal de pessoas que não se podem defender é um mal necessário para elas. Uma chusma de males. Que coisa insuportável! Ele, Zweig, refugiado judeu no Brasil e EUA, nunca atacando directamente os nazis porque as suas críticas poderiam originar mais mortes (!!!) tem a veleidade de apontar o dedo à «participação oportunista» junto com a anarquista Louise Michel na Comuna de Paris! Leiam agora este pedaço sobre Verlaine: «O espírito feminino comete muitas vezes o erro de confundir o comovente com o que é grande: se a vida de Verlaine pode ser qualificada de trágica e de profundamente perturbante, seria abusivo querer fazer desta chama vacilante que se apaga uma obra de arte, uma tragédia biográfica». Espírito feminino? Mais à frente: «Em casa de uma amigo [Verlaine] conhece uma rapariga, Matilde Mauté, 16 anos, graciosa, loura delicada, a encarnação da inocência e da pureza [ai, ai, Zweig! Onde pairava a tua alma enquanto escreveste estas linhas?]. O jovem Verlaine, feio com um bugio (sic), tímido e lascivo, um romântico que encontra as suas efémeras aventuras venais à esquina da rua (sic) com a ajuda de um copo de vinho, vê de repente a alva menina, a santa [alva e santa, que se pode mais querer senão cair nas garras de um bugio, ó Zweig?], aquela que lhe pode trazer a salvação [e nós a pensar que era o copo de vinho!]. Pela vossa saúde não vos conto mais. Ele não foi um nobelizado? Ora tomem…

Acabamos com Anselm Jappe com «Reflorestar a Imaginação» com um estudo rigoroso sobre a mudança do trabalho concreto para o trabalho abstracto nos dias de hoje. «É por isso que a sociedade moderna é uma sociedade baseada no contínuo aumento de trabalho, um aumento tautológico do mesmo. Não se trabalha para satisfazer uma necessidade, e logo repousar em sossego, senão que se trabalha para se poder trabalhar ainda mais» ou «Foi sobretudo a tradição poética francesa, primeiro com Baudelaire e mais tarde com os dadaístas, surrealista e outros, que se opôs à sociedade do trabalho – e também a nível prático. A outra grande excepção foi William Morris, que podemos considerar um marxista e que também impugnou de forma admirável o trabalho».

Finalizemos (ou iniciaremos, é convosco) a leitura deste excelente número da revista com Jappe:

«As tecnologias não criam valor, não acrescentam novo valor»

«Antes de mais precisamos de nos deixar de identificar com o papel de consumidor, do trabalhador, do cidadão, do eleitor. Hoje as novas exigências humanas só podem impor-se contra essas categorias. Os movimentos sociais devem insistir em que todos temos o direito a viver mesmo não conseguindo vender a nossa força de trabalho, mesmo não encontrando para ela nenhum comprador».

Pedidos a acvcf@uevora.pt ou António Cândido Franco / Rua celestino David, nº13-C, 7005-389 Évora

António Luís Catarino

Coimbra 2 de julho de 2020