terça-feira, dezembro 31, 2024
segunda-feira, maio 27, 2024
Um post de Diogo Vaz Pinto sobre a biografia de Manuel de Castro
Às vezes, entre as centenas de livros que se editam, o mais estranho é que, do meio da indiferença que nos gela e que é o maior dos abismos desta época, surge um leitor, um abelhão todo coberto do pólen que se reservou nalgumas páginas, nalgum desses livros feitos quase secretamente e só em nome dessa hipótese de haver mais alguém vivo nesta língua que quase se deixou de falar, e que está, para os efeitos de perturbação profunda e de mudança, praticamente morta. Daí o espanto quando afinal ainda nos surge um leitor pela frente, alguém vindo do outro lado, abrindo uma esperança de não sentirmos o desconhecido como um vazio, mas ainda como um território que nos desafie. Curiosamente, este leitor calha ser um antigo editor, desses que deu tudo e acabou atirado para a berma, muitas vezes também por esse género de autores tomados pela sanha de saltar para algo com um ascendente publicitário maior. Porque a chamada cultura literária entre nós ainda não fez mais que um punhado de escritores com verdadeira vontade de criar tudo outra vez, e por isso vão perfumando os cadáveres de ontem enquanto se queixam por não haver margem para fundar uma razão que diga respeito ao amanhã.
Diogo Vaz Pinto, sobre um artigo referente à edição da biografia de Manuel de Castro, no perfil da editora Língua Morta. Maio de 2024.
quinta-feira, maio 23, 2024
«O Poeta passeia-se pelo seu túmulo», uma biografia de Manuel de Castro, Nuno dos Santos Sousa
Não porei aqui nenhum poema de Manuel de Castro. Pela simples razão que toda a poesia (como afirmou, «nem todo o poema é poesia!») é nele, um continuum, é muito difícil separá-la em extractos. Compre-se os livros e manuseie-se devagar ou com raiva, cheios de pressa. É convosco. Mas leiam este livro que é igualmente poesia.
terça-feira, fevereiro 06, 2024
A Ideia 100 a 103. Desenho para o Suplemento de homenagem aos 100 anos de Mário Cesariny
domingo, janeiro 28, 2024
«A Ideia», 100 a 103. Outono de 2023
sexta-feira, setembro 22, 2023
Arthur Cravan, poeta e boxeur
quinta-feira, janeiro 19, 2023
Na Galeria da Revista «A Ideia». Manuel de Castro e Pedro Oom
quarta-feira, janeiro 04, 2023
2 de janeiro - 100 anos do nascimento de Mário-Henrique Leiria
quinta-feira, abril 07, 2022
« A Rapariga já não gosta de brincar », Filipa Leal
Uma interessante experiência em que não está ausente o confinamento obrigatório que se iniciou em 2020. Creio que a Filipa Leal se divertiu neste exercício tão paciente como solitário. A colagem, matéria cara aos surrealistas e ao acaso, às matérias esquisitas e intrigantes em jogos de mesas de pé de galo como diria o nomeado Cesariny neste livro. Igualmente uma referência bonita a Perfecto E. Cuadrado e ao seu «A Única Real Tradição Viva» que guardo em casa e que me serviu para a minha segunda exposição «Abjectos Surreais». Mas a Filipa explica tudo no início, na introdução.
A língua portuguesa é traiçoeira, como todos sabemos. Um estrangeiro (essa figura sempre mais contemporânea que nós, o que nos elogia) não compreende na nossa língua a dupla negativa que passa a ser afirmativa e a dupla afirmativa que quer ser negativa. «Não! Não! Queres lá ver!...». Assim é o título deste livro. É de uma grande duplicidade que nos instiga a perceber se primeiro vem o poema, se as palavras encontradas em colagens aqui e ali, à boa maneira surrealista; ou as duas. Mas saiu tão bem, que dá gosto tê-lo sempre consigo e perscrutar de onde surgiu aquele encadeamento tão lógico, como aparentemente absurdo.
A publicação é da responsabilidade da «Não Edições» e a tiragem é de somente 160 exemplares. Eu já tenho o meu que encomendei pela Snob. Façam o mesmo e não se arrependem.
quarta-feira, novembro 10, 2021
«Escada Líquida», de Maria Aurélia Marcelino e Eduarda Feio
O livro da Antígona, editado há pouco mais de um mês, apresenta-se como «conversas inéditas com surrealistas portugueses», realizadas por Eduarda Feio e Maria Aurélia Marcelino. Estas «entrevistas» tiveram lugar no ano de 1978 e as autoras eram alunas da ESBAL não conformadas com o ensino conservador que aí então se vivia e que era fruto do salazarismo e, simultaneamente, em profunda convulsão e transformação. Intui-se ao longo do livro que essas mudanças na ESBAL não foram tão profundas quanto necessitavam, mas isso levar-nos-ia a outra conversa.
Os surrealistas nomeados são cinco: Henrique Risques Pereira, Mário-Henrique Leiria, Mário Cesariny (que recusou o encontro), Cruzeiro Seixas, Fernando Alves dos Santos (que não foi encontrado) e Pedro Oom cuja entrevista decorreu numa «conversa com um surrealista morto», ou seja, tendo um carácter esotérico e mediúnico.
Henrique Risques Pereira foi o mais contido, tendo já dado exemplos dessa contenção em outras publicações. Pouco diz e o que diz não esclarece, nem clarifica. A conversa com Cruzeiro Seixas é um resumo, visto que as autoras não a gravaram, tendo somente tomado notas que as editaram sem tratamento posterior. Já com Fernando Alves dos Santos limitam-se a dar-nos provas que estiveram no seu encalço a partir de informações dadas por Henrique Risques Pereira ou Cruzeiro Seixas, sem que o tivessem encontrado no Algarve segundo era a sua convicção. A «conversa» com Pedro Oom limita-se a um sessão quase de mesa pé de galo, em que tentam reconstruir impressões surrealistas ao poeta que morreu de comoção após o 25 de Abril de 1974. Pessoalmente, acho a experiência demasiado pueril.
A coisa muda de figura com Mário-Henrique Leiria que é de uma loquacidade invulgar para quem sempre se escusou a dar entrevistas públicas. Solta-se completamente com as autoras. Só por isso vale a pena ter o livro em mãos. Reparem no que ele afirma:
«Isto de dizer pintura surrealista, ou literatura surrealista, não há, pá. Há gajos surrealistas que fazem pintura, que escrevem, e de vez em quando extravasam tudo o que têm de extravasar, e catrapuz, deitam cá para fora, sai na pintura, sai na literatura, sai no que eles fazem, sai nos actos de vida até, o chamado processo do acto falhado. Nós tínhamos muito esse processo. O acto falhado. Sai cá para fora. É uma revolta. Quanto a mim, é uma posição de revolta perante a sociedade que nos rodeia. Agora surrealismo, surrealismo, é muito difícil dizer o que é o surrealismo. Para mim, não sou capaz.» (pág.33)
E mais à frente:
«Vivência poética? Sempre a tenho feito...ainda hoje. Poeta, quer dizer, dentro de uma forma de viver poeticamente.(...)» (pág. 51)
Um caso sério este Mário-Henrique Leiria. Um livro a ter.
António Luís Catarino
quarta-feira, setembro 22, 2021
«Abjectos Surreais», exposição de 1 a 18 de outubro do Liquidâmbar, em Coimbra
Já não será muito cedo para informar-vos que vai acontecer mais uma exposição minha no Liquidâmbar, entre 1 a 18 de Outubro de 2021. A conversa com os amigos, e se tudo correr bem, será no próprio dia 1, sexta-feira, às 18:00.
O objecto dos «Abjectos Surreais» é esse mesmo: uma viagem aos surrealistas portugueses que mudaram profundamente a modorra do país que tínhamos. Depois deles, nada foi como dantes. Todos já em permanente errância num qualquer panteão dourado, continuam sempre presentes nas minhas visitas muito pessoais à poesia, ao texto escrito. Coisas do outro mundo tão irreais quanto as estranhezas que nos assaltam todos os dias. Vou mostrar-vos, em catorze desenhos, como eu os vivo e convivo com eles. São eles: Pedro Oom, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Mário-Henrique Leiria, António José Forte, Henrique Risques Pereira, António Dacosta, Carlos Eurico da Costa, Virgílio Martinho, Cruzeiro Seixas, Manuel de Castro, Manuel de Lima, Herberto Helder e Álvaro Lapa. Estes dois últimos porque sim.
terça-feira, julho 20, 2021
Mário-Henrique Leiria e as «Obras completas». Um bocado triste, isto
quinta-feira, março 25, 2021
Quem com faca nos dentes anda, a bom porto há-de parar. A poesia de António José Forte
Poeta sem sombras, luminoso, de índole revolucionária, conhece-se pouco de António José Forte não fossem a Parceria A.M.Pereira, a Hiena, a &etc e a Antígona do amigo Luís Oliveira, que agora publicou a sua poesia «completa», mais Cesariny, Virgílio Martinho, Eugenio Castro e Aldina a darem-lhe a visibilidade merecida. Tal como Dacosta, Forte esteve uma interregno de dezenas de anos sem nada publicar, o que não o impedia de escrever. E só o facto de saber que escrevia abre todo um leque de possibilidades de virmos a conhecer melhor este poeta surrealista do Grupo do Café Gelo. Aliás, escreveu um texto belíssimo sobre os cafés de Lisboa onde se lhe refere. Herberto Helder prefaciou «Uma Faca nos Dentes» e Luís Oliveira fala do contacto que com ele teve em Santarém e Lisboa, quando António José Forte calcorreava o país com as Citroën das bibliotecas volantes da Gulbenkian. Helder coloca-o como um dos grandes poetas «Como muita poesia surrealista ou afim, a de Forte molda-se num corpus de fragmentos soldados por pontos magnéticos de analogia imaginística ou verbal, por enlaces rítmicos: uma colagem orgânica de fragmentos.»; palavras, expressões feitas de fragmentos e colados no poema que atinge o(s) sentido(s) «num continuum, sempre perfeito, denota[ndo] a ágil intuição dos recursos de escrita, uma oficina atenta.» (HH). Mas António Cândido Franco, num excelente e interessante texto sobre a publicação castelhana de «Uma Faca nos Dentes» vê-o deste modo: «Trata-se de um poeta invulgarmente coerente, que deixou uma obra breve mas pontuada de sinais vivos e imperecíveis - e não tanto pela grandeza da arte, que lhe foi quase indiferente, mas pela potência ingénita do sopro. O que é admirável no seu verbo é a força da imprecação, a destemperada fúria da voz, a altivez do tom profético e apocalíptico a denúncia e o combate.» (Revista A Ideia, nº90,91,92,93, pág. 314).
Já, nós mesmos, queremos então apontar-vos a «destemperada fúria» de António José Forte com um excerto de «EXPOSIÇÃO DADA» direccionada para os falsos avestruzes que pedem emprestados o nome DADA para servirem à mesa de divindades académicas com que se alimentam de tempos a tempos em realizações que têm tanto de basbaque como de ridículo.
Ora tomem lá do Forte:
EXPOSIÇÃO DADA
(...) Se houvesse cadáver DADA, mas não há, o que vai chegar agora aí embalsamado seria um falso cadáver. Se houvesse cadáver insepulto de DADA, cheirava mal num continente inteiro. Se houvesse cadáver de DADA enterrado em vala comum, havia ainda hoje fogo-fátuo que dava para iluminar uma cidade - exemplo, Lisboa. Como não cheira e tudo permanece muito às escuras, segue-se que não há cadáver de DADA.» («Uma Faca nos Dentes», Ed. Antígona, 2017, pág. 124)
DENTE POR DENTE
«Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares.» (Op.Cit., pág. 47)
RESERVADO AO VENENO
«...é um dia perfeitamente para cães...» (Op.Cit., pág. 34)
QUASE 3 DISCURSOS QUASE VEEMENTES
«Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.» (Op. Cit. pág. 27)
E assim se faz forte ainda incompleto.
António Luís Catarino
domingo, março 14, 2021
«A Ideia» em número quádruplo (90,91,92 e 93). Cruzeiro Seixas, Luiz Pacheco, Mário-Henrique Leiria, surrealismos & Florbela Espanca, espanca.
A ler, consultar e a guardar. Podem adquiri-la na Letra Livre, Snob, em Lisboa, Utopia, no Porto ou directamente à revista.
A Ideia toda:
REVISTA A IDEIA - 2020
Nºs 90/91/92/93
CENTENÁRIO DE CRUZEIRO SEIXAS
340pp.
Dezembro, 2020
GRUPO SURREALISTA DE MADRID & REVISTA
FLAUTA DE LUZ
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA
LUIZ PACHECO
HENRIQUE GARCIA PEREIRA
GANDHI & A ANARQUIA
GIUSEPPE PINELLI & MILÃO 50 ANOS DEPOIS
CARTAS INÉDITAS DE MÁRIO CESARINY
SIMON WATSON TAYLOR
A RAINHA DE INGLATERRA
MIGUEL PEREZ CORRALES
ANDRÉS DEVESA
EUGÉNIO CASTRO & A ARTE DOS LOUCOS
ANTÓNIO TELMO & CARLOS CASTANEDA
TEIXEIRA DE PASCOAES & FLORBELA ESPANCA
ENCONTROS DOS BARDINHOS DE 2019
A TECNOLOGIA 5 G
MURRAY BOOKCHIN versus DAVID WATSON
OS COMEDORES DE FOGO EM ÉVORA
POESIA DE JESUS LIZANO
presenças & inéditos
Adalberto Alves, Amadeu Baptista, Ana da Palma, Ana da Silva, Ana Rita Fialho, António
Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Bruno Silva Rodrigues, Carlos Baptista,
Carlos d Abreu, Carlos Diaz, Carlos Mota de Oliveira, Enrique Nogueras, Fátima Pitta
Dionísio, Fernando J. B. Martinho, Ferra// Aisa, Francisco Cardo, Gabriel Rui Silva, Guy
Girard, Isabel Mendes Ferreira, João Freire, João Prates, Joélle Ghazaria/i, José Emílio-
-Nelson, José Matutei Martins, José Pais de Carvalho, José Rui Teixeira, Júlio Henriques,
Hugo Gonçalves Silva, Luís de Barreiros Tavares, Luis Ma/a/el Gaspar, M. Ricardo de Sousa,
Mara Rosa, Margarida Morgado, Maria Estela Guedes, Mário Bui Pinto, Michael Lòwy,
Nata/t Schafer, Nicolau Saião, Paulo J. Brito e Abreu, Pedro Fernando, Pedro Martins, Pedro
Morais, Risoleta Pinto Pedro, Rui Sousa, Sílvia das Fadas, Sofia A. Carvalho, Sofia Santos.
desenhos, ilustrações & imagens
Almerinda Pereira, Ana da Silva, A/tabela Calatróia, André e Alice Montanha, António
Couvinha, Cruzeiro Seixas, Délia Vargas, Dominique Lahaume, João Francisco Vilhena,
João Prates, José Ma/a/el Rodrigues, Luis Manuel Gaspar, Luiz Pires dos Reys [Capa e
Contracapa], Manuel de Almeida e Sousa, Mara Rosa, Maria João Vasconcelos, Mário Rui
Pinto, Miguel de Carvalho, Rik Lina, Vasco Rosa.
Com dois suplementos: um de João Freire e outro uma antologia poética inédita de Dulce Pascoal
terça-feira, junho 30, 2020
«Flauta de Luz», Boletim de Topografia, nº7
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| «Flauta de Luz» - Boletim de topografia, nº7 |
«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas
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«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas |
Habituei-me a ler «A Ideia» desde sempre. Este número vale (muitíssimo) por si próprio quando se assinalam três datas directamente ligadas a uma publicação que se define como de «cultura libertária». São 45 anos da criação d’«A Ideia» num círculo de exilados portugueses em Paris e com divulgação assídua em Portugal, mais o apontamento circunstanciado dos 100 anos do jornal «A Batalha» que, como sabem os que acompanham minimamente as lutas operárias do século XX, chegou a ser um diário com uma tiragem de 10 mil exemplares, julga-se, logo atrás de dois jornais institucionais. Para além desta nota, lembrar que foi o órgão anarquista da União Operária Nacional cujo congresso fundacional foi, creio eu, em Tomar e que deu origem à forte CGT. E ainda outro centenário importante para a iniciação de um verdadeiro e genuíno debate a que este número d'«A Ideia» contribui de uma forma indelével – falamos da publicação de «Les Champs Magnétiques» de André Breton e Philippe Soupault, em 1919, e que foram «cruciais para o nascimento do surrealismo entre 1922 e 1924».
















