domingo, agosto 29, 2021

O Chega faz o abraço de urso aos professores

Capa do Expresso após as legislativas. A recusa em ver
resolvidos os problemas dos professores dá votos à extrema-direita.
E esta já o compreendeu para as autárquicas.

Isto já não é pesca à linha que o Chega faz aos professores: é uma verdadeira pesca de arrasto que, como sabemos devassa não só os peixes, como o fundo do oceano base de toda a alimentação. Metáfora, é certo, mas que serve para compreendermos a estratégia da extrema-direita.

No argumentário utilizado pelo Chega para levar a bom termo as campanhas autárquicas aconselha os seus candidatos a não hostilizarem os professores, visto que num dos sete pilares da campanha o candidato chegano é levado a:

Considerar os educadores e os professores a chave do bom desempenho eleitoral (…). Aproximando-se dos educadores e dos professores do seu concelho, estratégia política e eleitoral fundamental para a inserção e afirmação do Chega no mundo autárquico e a nível nacional, no imediato e a prazo”. 

E entre todos os considerandos do partido de extrema-direita que são claramente entendidos por todos nós como óbvios devido à degradação do ensino levada a cabo pelos sucessivos governos acrescenta-se ainda:

Nenhum autarca da actualidade (…) é inocente na grave degradação do ensino e, por isso, deve ser clara e objectivamente criticado. Por todo o país, nenhum autarca tem desculpas para não ter visto, por exemplo, crescer a indisciplina nas salas de aula, as depressões e frustrações entre educadores e professores ou a consequente má preparação escolar que se tem agravado, prejudicando o futuro das crianças e jovens das famílias que não podem pagar o ensino privado, ou nem sequer têm acesso ao mesmo''.

Por hoje, os autarcas serão os culpados, amanhã... Ora isto é escrito e assinado por Gabriel Mithá Ribeiro, um chegano que antes de o ser já o era, mesmo quando militante do PSD publicando um triste livro sobre as «mentiras» históricas que os manuais do ensino público andavam a propagandear, principalmente no que respeita à «gloriosa» expansão e posterior colonialismo português. Hoje, diz que o racismo acabou com o apartheid sul-africano. Não existe, ponto! Também se destacou pela invectivas contra a indisciplina nas escolas e a coisa colhe pela demagogia: nada melhor que a prática escolar do regime salazarista para pôr as coisas em ordem.

Mas a autêntica volta de 180 graus vem com o programa do Chega: defendendo acerrimamente o fim do SNS e da Escola Pública, no que a esta última diz respeito inflecte o discurso: afinal a escola pública é para existir. O que se deve é dar aos professores mais autonomia para acabar com a bandalheira da indisciplina e apontar os culpados visto que e mais uma vez não há um só autarca que não seja culpado ao que isto chegou nas escolas'.

É com alguma apreensão que vejo este namoro descarado aos professores com um discurso populista e demagogo em toda a linha. Mais apreensão tenho quando noto que está tudo silencioso. Temo que este discurso cole em muito dos docentes. Não é necessário estar numa sala de professores diariamente para ouvir que ''levei umas chapadas no meu tempo e não me fizeram mal nenhum'', ''sabia-se mais na 4ª classe do que em mestrados actuais'', ''venham os exames! Reprove-se quem não sabe. Há uns anos só tínhamos de justificar se houvesse mais de 50% de chumbos e nunca fui impedido(a)!'', ''isto do rendimento mínimo dá para tudo. Retirassem-no quando chumbavam e isto acabava logo'', já para não falar de atoardas contra ciganos, chineses, russos e contra os alunos LGBTI. Cada vez mais cresce a agressividade dos professores, à falta de verem resolvidos os seus verdadeiros problemas e de o Poder os tratar como trata (então este último ministro é autêntica gasolina nesta fogueira). É verdade que o cansaço dos professores é bem visível e nota-se isso quando são os reprodutores do discurso das notícias das redes sociais, ou dos noticiários oficiais. É possível que a crítica, o gosto pelo debate e a investigação docente tenha decrescido na proporção inversa ao descrédito dos ministérios da educação. Mas que os professores são terreno fértil para os votos da extrema-direita é uma realidade que o futuro vai mostrar mais cedo do que esperamos.

António Luís Catarino

sexta-feira, agosto 27, 2021

«The Martian Chronicles», de Ray Bradbury

 


Capa bonita, livro de ficção científica editado em 1951, reeditado em vagas sucessivas, em pleno início da Guerra Fria, por Ray Bradbury. Não sou um indefectível deste género, mas reconheço em muitos autores de FC uma excelência que ultrapassa outros que advogam géneros mais «literários», o que é ridículo. Houve uma época que li muito da colecção Argonauta e da Caminho. Encontrei lá livros inesquecíveis de Robert Heilein, Ursula Le Guin, Ray Bradbury, Isaac Asimov e tantos outros...

Este livro foi comprado na Payot de Lausanne a um preço de bolso (formato e valor). Aliás, não poderia pensar em levar livros grandes porque a bagagem de avião paga-se a preços proibitivos. Sinceramente, não sei se o li. O desencadear da história leva-me a dizer que sim, porque estranhamente reconheço a trama. Ou vi um filme baseado nos contos marcianos do autor e com outro nome? Ainda por cima tem tudo a ver com os enredos fantásticos da Twiligth Zone. Enfim, espero desfazer as minhas dúvidas e impressões.

Ir a Marte nos anos cinquenta tinha o que se lhe diga: de planeta vermelho, as tripulações dos ''rockets'' que lá chegavam são levadas ao engano através de hipnose, telepatia, sensações psíquicas induzidas por quem ainda não dispõe de defesas atómicas contra os habitantes da Terra que se digladiam entre si e que esperam a qualquer momento nova deflagração nuclear. Que lhes resta, aos marcianos, senão aniquilá-los através da percepção sensorial? 

Esperemos então o enredo final, agora que já lá temos robots e em 2035 lá chegaremos. Mas levem um arqueólogo porque poderá dar-se o caso de os seus habitantes terem sido extintos, coisa que logicamente nunca acontecerá aos terráqueos. Impossível, não é?

António Luís Catarino

quinta-feira, agosto 19, 2021

Cosmos, chaos et le monde qui vient, Norman Cohn

 

Este livro estava há muito à minha espera. Respeito muito Norman Cohn, autor inglês e historiador empenhado no estudo do milenarismo através dos tempos. Pelo que percebo não é benquisto na universidade conimbricense, porque quando propus, nos anos 80, o conhecimento e debate da sua obra maior (de que falarei mais tarde) sobre o milenarismo na Idade Média, o professor meu interlocutor, olhou para o tecto e assobiou para o lado, despachando-me em três tempos, coisa que nas Letras é mato fazer-se. Talvez seja por o autor ser libertário e marxista, nunca o saberemos:

Este livro, cujo título "Cosmos, Caos e o Mundo que há-de vir", traduzo livremente, é de 1993 e não foi traduzido em Portugal. Li-o na versão francesa das Éditions Allia e trata de temas tão interessantes como polémicos o que lhe confere um gosto absoluto em lê-lo.

O Cosmos contra o Caos. O bem contra o mal. Deuses contra diabos maléficos. Concretamente, é mais objectivamente: deuses maléficos contra diabos maléficos porque, estranhamente, a humanidade teve sempre um pendor para adorar quem lhe batia, torturava ou matava em sofrimentos atrozes. No fundo, como os pais castigadores que diziam "levaste um enxurro de porrada mas para teu bem!"

A cosmologia de há 7 ou 8 mil anos atrás era simples (isto é relativo porque as oferendas aos sacerdotes obrigavam à matemática pura!). Os deuses egípcios, mesopotâmios, sírio palestinianos, védicos indianos ou os iranianos tratavam de ordenar o mundo dando aos homens boas colheitas, água abundante e enormes proles ao mesmo tempo que derrotam copiosamente os anjos do mal. Por vezes, estes últimos conseguiam a vitória por algum tempo. Estavam pois explicados os cataclismos, como as secas, terramotos, inundações, etc. A vida para além da morte, má ou boa, não estava dependente da acção do homem. Eram os deuses na sua omnipotência que resolviam os destinos.

A partir do zoroatrismo e das profecias de Zaratustra há uma inflexão total. Haveria um Deus mais poderoso do panteão que lutava contra os demónios do Caos. E mais importante ainda, lá para o ano de 1200 a.C.: começou-se a acreditar que praticar o bem poderia ser recompensador. A alma e o corpo de um justo poderia viver eternamente num paraíso, ao contrário dos desonestos e iníquos que viveriam nas profundezas da terra e no fogo eterno alimentado por dragões manipulados pelas forças do mal.

Segundo Cohn, o zoroatrismo teve uma influência determinante no judaísmo sírio palestiniano, apontando, como é óbvio no Antigo Testamento, um único Deus castigador e implacável que arrolava os pecados do homem como sendo as causas da vitória perene do mal. O judaísmo e o Levítico, com a Tora, aí estavam controlando ao mínimo passo a vida humana.

A seita judaica do cristianismo vem ainda trazer um dado novo: o do filho de Deus tornado o Messias, ou o ungido. A análise de Norman Cohn traduz uma certa inquietação com as paráfrases de Jesus e de Paulo traçando um paralelo entre o Antigo e Novo Testamento. Lendo este último com atenção e alguma distanciação teológica reparamos que quer num, quer noutro, a violência é igual se não maior neste último. O Reino dos Céus não está ao alcance de todos: é só para aqueles que não viraram costas a Cristo. Um balde de água fria para quem, mesmo depois das adaptações e reformulações oportunísticas da teologia das igrejas cristãs, ainda acredita na bondade do Novo Testamento através da mensagem de Cristo. 

A coincidência da representação dos deuses é deusas entre as diversas religiões desde que elas apareceram nas sociedades agrícolas e extremamente hierarquizada, até aos dias de hoje são apresentadas por Cohn com grande clareza. Recapitulando, é provável que já o soubéssemos a linearidade e convergência das religiões (até por autores anteriores como Mircea Eliade), mas constituiu um verdadeiro prazer quando tomamos dele conhecimento tão pormenorizado. 


sexta-feira, agosto 06, 2021

A «Ilíada» e a «Odisseia»

 

Em férias deu-me para isto. Podia ser bem pior: reli, com o entusiasmo e bonomia dos meus sessenta, as obras de Homero que eram obrigatórias nas aulas de Grécia Clássica de Maria Helena da Rocha Pereira. Dois anos consecutivos com ela, não me sossegaram o interesse que sempre tive com estes dois livros e com os gregos quer na sua vivênia quotidiana, quer na sua relação com os deuses e com a pólis. Que diferença, lê-los hoje: no meus primeiros dois anos da Faculdade de Letras eram esmiuçadas muitas das páginas da «Ilíada», tal como aquela professora nos queria guiar. Alguns dos episódios mais marcantes da obra eram debatidos e discutidos principalmente nas aulas práticas leccionadas por Ribeiro Ferreira, também ele um helenista, como a vingança de Aquiles (que praticamente só aparece no canto XVIII) sobre Heitor que pressentiu das suas poucas possibilidades em combate contra aquele, como a despedida de Heitor a Andrómaca e ao filho pequeno, o pedido de Príamo para que o seu assassino, Aquiles, restituísse o cadáver do filho, como as personalidades discutíveis pela sua arrogância de Menelau e de Agamémnon e a densidade psicológica de Helena, sempre a odiada e cujo rapto por Páris inicia a guerra de 10 anos de Tróia. 

Já a «Odisseia» é, contudo, diferente, embora eu acredite nos que defendem ter sido escrita pelo mesmo autor da «Ilíada», Homero, e com uma técnica de escrita cuja métrica os seus versos não escondem. Isso não impediria que houvesse igualmente uma tradição oral que tenha perpassado os anos. A «Odisseia» é de enredo menos imaginativo e talvez menos belo, mas ainda assim com recurso ao maravilhoso e ao mágico chamando os deuses que sofrem, que amam, que mentem e que tomam partido por este contra aquele. As personagens são menos densas psicologicamente, embora se realce a brutalidade da vingança de Ulisses, o crescimento rápido de Telémaco e a dúvida permanente de Penélope sobre a sua condição de mulher e de mãe. E, já agora, de raínha. As entrelinhas das duas obras não desmerecem no interesse do leitor, antes pelo contrário, incitam-no às releituras.

Uma palavra para Frederico Lourenço: excepcional tradutor e helenista (não temos assim tantos!) dá-nos pistas nas suas introduções e prefácios à «Ilíada» e à «Odisseia», mas se quiserem um conselho de amigo aos que as vão ler, iniciem as leituras das introduções e dos prefácios quando terminarem as leituras dos poemas. É que terão a oportunidade, após o fazerem, de concordarem ou não com o que é escrito e poderem comparar as vossas opiniões com as dos estudiosos dos clássicos. Podem fazer o mesmo com a «Hélade» de Maria Helena da Rocha Pereira.

Poderia agora ficar aqui a falar do enredo que já quase todos conhecem, mas lê-lo agora sem constrangimentos educativos é outra coisa.