Mostrar mensagens com a etiqueta Suécia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Suécia. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 14, 2025

«Um Sonho», de August Strindberg

Que interpretações fantásticas de «Um Sonho», de August Strindberg. No Teatro da Cerca de S. Bernardo e encenado por António Augusto Barros. 
 

sábado, fevereiro 22, 2025

«Kallocaína», Karin Boye

Penguin Clássicos, 2025. Introdução de David McDuff. Tradução de Ivan Figueiras
Ainda estou por perceber qual a razão que levou a editora, depois de declarar a protecção da propriedade intelectual e dos direitos de autor, a colocar-lhe um sub-título completamente abusivo, até melhor explicação, de «Romance do século XXI»! 

Trata-se de uma distopia, de um livro inquietante, escrito em 1940, portanto antes dos conhecidos «1984», de Orwell e de «Fahrenheit 451» de Bradbury, mas após os incontornáveis «Admirável Mundo Novo», de Huxley, «Nós», de Zamiatine ou as obras futuristas de H.G.Wells, entre muitos outros que viveram o período entre as duas guerras mundiais, o que se deverá compreender facilmente com a ascensão do nazismo, do fascismo e dos processos de Moscovo liderados por Estaline que desvirtuaram a tentativa libertária da revolução russa. Todas as razões para perspectivar um futuro sombrio.

É um livro notável que nos remete para a construção de um totalitarismo que poderia ter saído da II Guerra Mundial. Mesmo com o nazi-fascismo derrotado (repete-se que «Kallocaína», foi escrito em 1940, ano de todas as vitórias alemãs sobre os aliados e o início da invasão da URSS) no final da guerra a tentativa de controlo do indivíduo pelos governos e pelos serviços secretos democráticos era uma realidade próxima e que a Guerra Fria veio acentuar e tornando-se quer numa realidade «democrática» ocidental, quer «burocrática» de leste.

A kallocaína seria um soro da verdade que quando injectado num inimigo capturado, preso, suspeito de resistência contra o Estado, ou o que quer que seja, - Kall, o inventor, usa-o na mulher para se certificar que não tem uma relação sexual com um seu colega resistente e que é condenado à morte, denunciado por ele - os fazem dizer toda a verdade contra a sua vontade e denunciar todos os seus companheiros, organismos oponentes e todos os que moral e eticamente se separam das directrizes do Estado. Uma tortura limpa, portanto; sem sangue ou violências escusadas, primitivas e cansativas. Talvez o que Elon Musk nos reserve com o seu programa Neuralink que adivinha através da computação e IA o pensamento dos simples mortais como nós que têm veleidades a, imaginem, pensar criticamente! Não que não houvesse tentativas anteriores como a administração lesiva de LSD e outras drogas químicas pela CIA, ditaduras sul-americanas e serviços secretos do leste a prisioneiros, mas a questão era e foi sempre jurídica: não se aceitavam confissões sob o efeito comprovado dessas drogas, anulando ou minorando as penas aplicadas. Agora pergunto-vos: haverá algum travão a que esse tipo de tortura se torne juridicamente aceite nos EUA de Trump e após Guantanamo? Bem me parecia que a vossa resposta não foi tão imediata quanto se pretendia, se me permitem a ousadia de tentar adivinhá-la. 

Karin Boye previu tudo isto, tal como o Estado todo-poderoso totalitário, a alienação total das massas, a credulidade em fés messiânicas, a violência da denúncia de colegas de trabalho ou de membros da família, de comportamentos considerados desviantes, o estado de guerra permanente contra inimigos imaginários ou como forma de fortalecer os Estados, como aliás se passa hoje. Bem o sabemos e não será necessário procurar muitos exemplos. «Kallocaína» também prevê a Resistência. Ela durará enquanto o Estado totalitário existir com todas as suas violências. Isso será a única certeza que Karin Boye teve e que aqueles que conhecem a luta contra a discricionaridade o sabem igualmente em todo o mundo. A autora assistiu, em Berlim e em 1938, a um comício em que o orador era Göering. A alienação e o ethos de morte era de tal ordem que, no fim, levantou o braço em saudação nazi, sabendo que correria o risco de ser linchada pela multidão se não o fizesse. Suicidou-se na Suécia em 1941, o que me leva a pensar que a maioria dos autores distópicos acabam na sua maioria assim. Ou por suicídio, ou por doenças evitáveis devido a abusos de toda a ordem. 

«(...) Nestas situações, vai ser bom ter a minha Kallocaína à disposição. Com ela, poder-se-á prever e prevenir muitas atrocidades que agora acontecem de um momento para o outro sem que as tenhamos visto chegar...
 - Desde que apanhemos as pessoas certas. O que também não é assim tão fácil. Não está a insinuar que toda a gente deva ser examinada, pois não?
 - Porque não? Porque não toda a gente? Eu sei que é um sonho futurista, mas ainda assim! Prevejo um tempo em que ninguém será colocado num posto sem primeiro ser submetido a um teste de Kallocaína, de forma tão natural como agora se é submetido aos testes psicotécnicos. Assim, serão do conhecimento público não só a competência profissional da pessoa em questão, como também o seu valor como camarada soldado. Eu imaginaria até um exame anual de Kallocaína obrigatório para cada camarada soldado...
 - Os seus planos para o futuro não são nada modestos. - Mas seria necessário um dispositivo demasiado grande.
 - Tem toda a razão, chefe, seria necessário um dispositivo demasiado grande. Exigiria uma grande entidade inteiramente nova com uma multidão de funcionários, todos eles retirados da presente organização militar e de produção. (...)» (págs.114,115, ee)

sexta-feira, novembro 08, 2024

«Os Detalhes», Ia Genberg

 

D. Quixote, 2024. Tradução do sueco de João Reis. Segue o AO90.
Livro de 2022 de Ia Genberg, autora sueca em construção, divide-se em quatro capítulos, cada qual com uma personagem. Nem todas femininas. Não são propriamente «detalhes», nem os encarei como tal. Se por detalhes, encontramos o acaso e a necessidade, título de um livro importante de Jacques Monod que talvez venha a falar dele aqui, então estamos cientes que a vida é isso mesmo: um conjunto de pequenos detalhes que nem damos por isso, mas que imprimem uma linha irreparável no nosso percurso individual. Para o bem e para o mal e, sejamos justos, mais para o primeiro do que para o segundo, maniqueísmos à parte. Alegrias, esperanças, desilusões, relações inesquecíveis, equívocos, depressões, doenças, euforias, desejos avassaladores estão em toda a parte variando proporcionalmente na medida das escolhas e caminhos que percorremos. Poderia ser um livro-estucha, moralista, mas não é: Ia Genberg escreve muito bem, recusa a vulgaridade e isso é determinante para o entusiasmo com que se o lê. Tem momentos bons de leitura como estes:

«Eu e Johanna tínhamos na literatura a nossa brincadeira predileta. Apresentávamo-nos mutuamente autores, temas, épocas, regiões, obras individuais e livros antigos e contemporâneos de diferentes géneros. Tínhamos gostos semelhantes, mas opiniões divergentes o suficiente para tornar as nossas conversas interessantes. Não concordávamos em certas coisas (Oates, Bukowski), outras deixavam-nos a ambas indiferentes (Gordimer, fantasia), e partilhávamos alguns favoritos (Östergen, a trilogia Krilon, de Eyvind Johnson, Lessing). Conseguia perceber se a Johanna gostava ou não de um livro com base na velocidade com que o lia. Quando lia muito depressa (Kundera, todos os policiais), sabia que estava a aborrecer-se e a apressar a leitura, a fim de terminar o quanto antes, e quando lia muito devagar (O Tambor de Lata, de Grass, toda a ficção científica), sentia-se igualmente entediada, mas tinha de se esforçar para chegar à última página. Via como sua obrigação terminar todas as leituras, tal como terminava todos os seus cursos, trabalhos e projetos. Havia nela um sentido de obediência profundamente enraizado, uma espécie de respeito pela tarefa em mãos, por mais inútil que esta lhe parecesse.»

Um detalhe último com o qual, por acaso, me identifiquei totalmente. Também o faço. E quem não?

«Em novembro, costumamos comprar velas e ir ao cemitério, onde nos encontramos à entrada com Sally e os seus filhos (a campa do pai dela dista trezentos metros da da Brigitte [a mãe da autora], e, enquanto caminhamos entre lápides, os anos passam em nosso redor atrás de cortinas difusas. Para os mortos, a cronologia não tem qualquer importância, e só os detalhes interessam - o grau de densidade, estes como e o quê, e tudo o que tem que ver com o quem

alc

domingo, julho 16, 2023

«A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer», Stig Dagerman

 

VS, Vasco Santos Editor, 2018 (1ª ed. Fenda,1989). Trad. Paula Castro e José Daniel Ribeiro. Design: João Bicker
Já falámos de Stig Dagerman e voltaremos certamente a falar dele neste blogue. É um autor impossível de contornar (haja quem!) e necessitamos de o (re)ler, num quadro de literatura, hoje, em que tudo é considerado como tal sem que haja um pensamento, uma ideia ou sequer uma escrita digna do seu nome. Stig Dagerman tem plasmado no que escreve uma suavidade tensa, uma raiva doce, paradoxalmente uma vida vivida com apego e paixão, mesmo que isto se refira a um suicida precoce, como todos os suicidas o são. Continua a ser um mistério à medida que o lemos e se o relermos, como é quase obrigatório fazê-lo, ainda o adensamos mais. Lê-lo é um exercício de inteligência e busca. Uma deriva entre lugares que provavelmente não existem, tal é a topografia de Dagerman.

    «Bem estreito é o fio da navalha! Entre dois perigos me equilibro: de um lado ameaça-me a ávida boca do excesso, do outro a amargura da avareza que de si mesmo se alimenta. E teimo na recusa de optar entre a orgia e a ascese, ainda que com isso me sujeite ao suplício em brasa dos desejos. Não sou livre nos meus actos, por isso tudo me pode ser desculpado. Mas este conhecimento não me basta. O que procuro para a vida não é uma desculpa, mas exactamente o seu contrário: é o perdão que busco. Descubro, afinal, que se não levar em conta a minha liberdade, todo o consolo é enganador, mera imagem reflectida do desespero. De facto, assim que o desespero me diz - «perde a esperança, o dia não passa de um momento de trevas entre duas noites», há uma falsa voz que me grita - «tem confiança, a noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias.»
    «A humanidade, porém, não é de palavras que precisa; anseia por um consolo que ilumine. E mesmo aquele que deseje tornar-se mau - agir como se todos os actos fossem defensáveis - deve ter ao menos a bondade de notar quando o consegue.
    «É impossível saber quando cairá o crepúsculo, impossível enumerar todos os casos em que o consolo se fará necessário. A vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão ou os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem.» (pág.17 e seguintes)

António Luís Catarino

sexta-feira, junho 23, 2023

«Outono Alemão», Stig Dagerman

 

Antígona, 3ª ed. 2020. Tradução, introdução e apresentação de Júlio Henriques. Capa de Gonçalo Duarte

Stig Dagerman escreve este livro em 1947 com apenas 24 anos. Sueco, tem uma vida tramada
desde miúdo sendo educado por avós, já que nunca conheceu a mãe e o pai. Anarquista, extremamente humano, suicida-se contudo aos 31 anos, em 1954. Deixa vivas impressões nos seus livros acerca da existência da humanidade numa época de guerra e principalmente no pós-1945 quando se jurava a pés juntos que as guerras teriam acabado de vez. Algo me diz que Dagerman estava longe de acreditar nisto.

Não foi fácil certamente, para Stig Dagerman, escrever o que escreveu acerca de uma Alemanha derrotada, ocupada e violentada nos últimos dias do nazismo e após o suicídio de Hitler, Nuremberga e a desnazificação levada a cabo pelos vencedores. Isto em 1947, quando estava ao rubro o sentimento de ódio pelos alemães a quem acusavam de condescendência geral, quando não cumplicidade para com a violência e horrores nazis. Dagerman tenta compreender, percebe aqui e ali o que levou quase um povo inteiro a jurar lealdade até à morte a um Führer (não a uma constituição que o III Reich nunca teve) e o ter levado a declará-lo mesmo tendo sido obrigado nos últimos dias a defender uma pátria já exangue e em derrota total. Nos pequenos julgamentos de desnazificação realizados pelos ingleses e americanos aos colaboradores das SS, das SA ou do NDASP, estes não se arrependiam, pura e simplesmente diziam que tinham «jurado lealdade» pelo que não conheciam outra maneira de o evitar. Stig Dagerman adivinhou aqui uma das tragédias que assolaram o povo alemão, alguns culpados, outros nem tanto, outros (principalmente o peixe graúdo dos nazis) aproveitados para o funcionalismo da nova social-democracia e da democrata-critã CDU.

Júlio Henriques, num apontamento final sobre Stig Dagerman, dá-nos uma espécie de epitáfio escrito por este último, num esboço de um romance (O Viajante, de 1951): «Deixo simultaneamente sonhos imutáveis e ligações inconstantes. Deixo uma carreira promissora que simultaneamente me prometeu o desprezo por mim mesmo e a consideração geral. Deixo simultaneamente uma má reputação e a promessa de uma reputação ainda pior ainda. Deixo uma centenas de milhares de palavras, algumas escritas com prazer e a maior parte escritas com tédio e por dinheiro. Deixo uma situação financeira miserável, uma posição hesitante perante os problemas do nosso tempo, uma dúvida que já serviu mas de boa qualidade, e a esperança duma redenção. 
Levo, na minha viagem, um conhecimento inútil do globo uma leitura superficial das filosofias e da terceira via, um desejo de extinção e a esperança de uma redenção. Levo, ainda, um baralho de cartas, uma máquina de escrever e um amor desgraçado pela juventude europeia. E levo, finalmente, a visão duma pedra tumular que se ergue no deserto ou no fundo do mar com a seguinte inscrição: 

«Aqui jaz/um escritor sueco/que sucumbiu por nada/o seu crime: a inocência/esqueçam-no muitas vezes.»

Stig Dagerman não tem grandes ou nenhumas expectativas sobre a capacidade de a humanidade fazer o bem, principalmente quando esta se enquadra em instituições burguesas do Estado e do liberalismo capitalista. Sabe do que é capaz e nota-o no seu olhar perspicaz de jornalista e escritor quando conhece in loco a Alemanha após a II Guerra Mundial e o sofrimento do povo alemão, que teve  a ver mais com vingança inútil, como de rapina sem limites. Mais a mais, quando ele observou que essa mesma rapina e exploração atingia as classes mais desprotegidas e sem crimes nazis, enquanto os ricos e os membros do partido nazi se safavam e nada lhes faltava. É claro que na campanha eleitoral de 1946, na Alemanha, os partidos burgueses negavam veementemente a existência de luta de classes. Pudera...

Deixo aqui registado um dos trechos mais significativos e também mais dilacerantes de «Outono Alemão»: «Que distância haverá entre literatura e sofrimento? Será ela função da natureza do sofrimento, da sua intensidade ou do espaço que os separa? A obra literária estará mais próxima do sofrimento que causa o reflexo do fogo ou daquele que provém do próprio fogo? Exemplos imediatos, tanto no espaço como no tempo, mostram existir relações praticamente directas entre a literatura e o sofrimento remoto, fechado, sendo porventura possível afirmar que o facto de sofrer com os outros constitui uma forma de literatura ardentemente em busca das suas palavras.(...)». (pág.132)

Em cada linha de «Outono Alemão», Stig Dagerman partilha desse sofrimento, não tanto para com os alemães que eram, em última análise, os «culpados» de exercerem sofrimento aos outros povos dominados, mas pelo absurdo do sofrimento de homens, mulheres e crianças baseado na guerra em bombardeamentos a cidades onde a temperatura atingia os 1000 graus centígrados, na vida permanente em caves húmidas, na morte pela fome e tuberculose até meados dos anos 50, na prostração psíquica de seres humanos que viam os seus entes queridos, famílias inteiras a soçobrarem em menos de uma semana, a serem obrigadas a roubar, a matar inclusive, a prostituírem-se para sobreviver. Tudo isso, Dagerman observou, sentiu talvez como nenhum outro jornalista ou escritor da altura, também não isentos de culpa acerca da imagem que davam dos próprios alemães. É dele esta ideia transcrita em «Outono Alemão»: quando se pergunta a um alemão, ou alemã, com fome e desprovida de qualquer bem material ou de afecto, se vivia melhor no tempo de Hitler, a resposta provavelmente não seria aquela que o jornalista queria ouvir; mas é esse mesmo jornalista que vai escrever no seu artigo que o amor a Hitler ainda perdura na Alemanha!

terça-feira, fevereiro 28, 2023

Dois policiais


Dois policiais, duas narrativas completamente distintas separadas também pelo tempo. A primeira, de Carter Dickson, A Flecha Assassina, publicada nos anos 30, consegue ser uma obra interessante passando-se somente num tribunal e, menos, numa tasca inglesa. Toda a trama de um assassinato é descoberta em pleno tribunal, incentivando-nos a deduzir, pelo leitor, o caminho que levará ao final do enredo. As estratégias levadas a cabo pelos advogados de defesa e acusação são marcadas por uma forma literária que nos prende do princípio ao fim.

Já Os Diários Secretos, de Camila Lackberg de 2007, são 500 páginas, algumas desnecessárias, que retratam a impossibilidade  da Suécia e dos Suecos em verem-se livres de um passado de colaboração com os nazis e ocupação alemã sob a capa de uma neutralidade criminosa. Pelos vistos, e segundo as palavras da autora, foram muito mais os colaboracionistas do que os resistentes. Mas isso são contas de outro rosário. A trama é mais viva nas últimas páginas do que o enredo inicial onde a autora, que tem mais de 20 milhões de livros vendidos, parece não saber para onde quer ir a narrativa. Foi com algum alívio que vimos confirmar as nossas suposições de quem era o assassino. Afinal não foram os nazis os carrascos, também aí há bons rapazes!!, mas sim um velho resistente. Ele há gente para tudo.

alc

sábado, novembro 05, 2022

«A Princesa de Gelo», de Camilla Läckberg»

 

Problema: eu gostar de policiais sem ser um entendido na matéria. Poderia ter pesquisado um pouco mais em blogues específicos quem é quem neste particular, mas a mania de não confiar nas opiniões dos outros, ainda para mais sobre livros, levam-me a conhecer cada barrete, que mete impressão.
Mistério: como Camilla Läckberg vende milhões em todo o mundo. Apresentá-la na capa como «A nova Agatha Christie que vem do frio» não basta para desvanecer o quebra-cabeças de um best-seller. Até porque vem do frio. 
A trama: não tem nada que o frio nórdico não traga neste género. Famílias ricas com esqueletos no armário, crimes antigos que emergem para que se proceda a novos crimes. Algum sexo envergonhado entre polícias disponíveis e intelectuais e artistas como prova que a antítese é também capaz de amar e por aí fora. Não acho que seja uma boa escritora e, em alguns casos, até poderemos classificar de infantis algumas situações, já que de verosimilhança o tal frio da Escandinávia até nos tem dado alguns presentes. Mas não neste livro, seguramente. 
Continuarei à procura de policiais, como é evidente.


sexta-feira, fevereiro 18, 2022

«Inferno» de August Strindberg

O desenho de Strindberg na capa da Sistema Solar é de Edvard Munch

«Insólito círculo vicioso que aos vinte anos previ quando escrevia Mestre Olof, o drama que se transformou na tragédia da minha vida.Terá realmente sentido eu arrastar-me por trinta anos de uma vida penosa, e ser a experiência a dar-me aquilo que eu já tinha previsto? Durante a mocidade fui devoto sincero, e fizestes de mim um livre-pensador; do livre-pensador fizestes um ateu, e do ateu um religioso. Inspirado por ideias humanitárias preconizei o socialismo, e cinco anos mais tarde mostrastes-me o seu absurdo. Tudo o que me entusiasmou fizestes enfraquecer. Votasse-me eu à religião, e estou certo de que iríeis dentro de dez anos refutá-la.
    Não é verdade que os Deuses se divertem connosco, mortais, permitindo que nós, os trocistas conscientes, saibamos rir nos momentos mais tormentosos da vida?
    Como quereis fazer-nos levar a sério o que se manifesta como um imenso gracejo?» (págs.229-230)

Não consigo explicar a atracção que este livro teve em mim. Li-o nos finais da década de 70, quando a &etc o publicou, com a mesma excelente tradução, notas e duas redacções cronológicas de Aníbal Fernandes com que a Sistema Solar o publica agora.

Strindberg, neste livro, é inclassificável. A Menina Júlia, outra das obras que conheci dele, está neste momento que escrevo em exibição no Teatro Carlos Alberto no Porto, com encenação de Renata Portas. Inferno foi escrito nos finais da década de 90 do século XIX, possivelmente em Lund, na Suécia e revela um Strindberg atormentado pela doença. Ou melhor, pelas doenças, visto que padecia de várias. Apontar-lhe esquizofrenia, assim, sem mais, é muito redutor, embora a sua obsessão pelo ocultismo e teosofia e pelas Potências malignas fosse uma realidade. A noção que tinha de perseguição à sua pessoa era tal que chega a atribuir uma enorme tempestade de trovões e relâmpagos como um acontecimento que o teria como única vítima. 

Católico, não o chega a ser por inteiro, visto que se acantona somente no Antigo Testamento, principalmente nas figuras de Elias, de Job e de Jacob, desprezando o Novo Testamento. Muitas vezes recorre aos Salmos de David para castigar os seus próprios inimigos, existentes ou não, e, não sem grande surpresa, vê-se a ligar o AT à filosofia de Nietzsche. Contraditório e provocador, por vezes violento, a sua vida está intimamente ligada à sua obra, tendo inclusive uma tetralogia que a descreve em romances ainda não completamente conhecidos em Portugal.

Os medos e as obsessões de Strindberg não se podem contar pelos dedos das nossas mãos. As dele, afectadas pela psoríase, levavam-no a pensar que eram estigmas iguais aos de S. Paulo cujo corpo era deformado e dorido. Desde a eletricidade, passando pelos relâmpagos, figuras incrustadas em plátanos malhados, correntes de ferro emaranhado, tudo eram sinais de forças maléficas de demónios que se incarnavam em figuras naturais, animais ou humanas. Alquímico, tentou fazer ouro a partir do carbono e do chumbo, presumo que para mal da sua saúde. 

Como ele via a Terra? «Tradução livre: a terra é uma colónia penitenciária onde temos de expiar a pena de crimes cometidos numa existência anterior, e a nossa consciência conserva deles a vaga memória que nos impele a uma melhoria. Como somos todos criminosos, tem razão o pessimista que pensa e constantemente diz mal do próximo» (pág.87)

Aníbal Fernandes, por diversas vezes, aponta algumas incorrecções, contradições e erros, em Inferno, fruto talvez de uma escrita torrencial , mas há uma que não posso deixar de sublinhar pela não compreensão total, quer da mensagem de Jesus Cristo inscrita no Novo Testamento, quando Strindberg o compara a um demónio (já Pasolini o faz com o evangelista Lucas) ou quando afirma que este veio para acabar com a alegria e com o prazer. Para quem admite somente o Antigo Testamento, não deixa de ser um pouco incongruente. Mas a Strindberg tudo lhe é permitido, não fosse ele um escritor dos diabos! Mas o que o liga verdadeiramente ao catolicismo é a sua necessidade de o ligar à «fé dos antepassados».

Não deixa igualmente de ser curioso que eu, neste momento em fase algo depressiva, me tenha dado à leitura de Strindberg. Pela fórmula matemática do - por - dá +, eu já estaria totalmente liberto. Mas não. Esperarei mais um pouco, então.

Nota: a escritora Cristina Carvalho escreveu um livro sobre Strindberg que adquiri há dias e que está na minha lista de leitura. 

quarta-feira, agosto 21, 2019

De como uma Eva e um Adão derrotam o racismo

Resultado de imagem para neandertais fotos
Neandertal: Foto NatNature
Repentinamente, dei-me com o livro da sueca Karin Bojs entre mãos. «A Grande Família Europeia – Os primeiros 54 000 anos».  Não é, como o editor nos quer fazer crer logo na capa, a história do Homo Sapiens na Europa. Acompanhei com alguma simpatia a obsessão da autora em descobrir a sua geneologia que depois passou a linhagem da sua família. A maior parte de quem tenta fazer isto páram todos no século XVII e já é uma sorte se o conseguirem. Pessoalmente, pensando bem, não aconselho ninguém a fazê-lo sem algum aconselhamento prévio: pode haver surpresas e darmos com linhagens esquisitas e estranhas logo em meados do século XX, faço-me entender? Basta um familiar ou amigo mais próximo, tão próximo, que se intrometeu na génese do nosso eventual auto-conhecimento da família para termos um baque no coração. A sério, se o fizerem estejam preparados para tudo!

Entretanto, quanto aos racistas ou racialistas é melhor que não o leiam. Aliás, nem sei se o saberiam interpretar, mas basta analisar as novas experiências e dados confirmados com o ADN e paf! lá se vai a teoria racista de cada povo ter desenvolvido o seu próprio caminho uns com mais inteligência e capacidade de sobrevivência que outros. Chama-se agora a este tipo de «teoria» (desculpem se estou a exagerar!) de «migracionismo» infelizmente muito em voga nos países do grupo de Visegrado e nos EUA. É possível que se espalhe um pouco por toda a Europa dentro de alguns anos, dada a situação política e social que a faz germinar como cogumelos no húmus da terra. (Reparem que eu disse «húmus da terra» para imitar o valter hugo mãe, senão teria dito simplesmente a humidade da terra).
Ora, voltemos a Karin Bojs de quem me esqueci de dizer que não é cientista. Foi simplesmente jornalista, editora-chefe da prestigiada revista científica Dagens Nyheter e mais que premiada no meio, como ser doutora honoris causa da Universidade de Estocolmo.

Vamos a isto: está provado que os neandertais se cruzaram com os humanos modernos há 54 000 anos. Portanto, os genes estão cá nos nossos corpinhos, entre 2% a 6%. Os bandos dos nossos antepassados eram um pouco canhestros, sem muita motricidade fina, musculosos, com o cérebro de grande volume, produtor pouco sofisticado de arte e de instrumentos, tinham pele escura, o pêlo que lhe cobria o corpo era castanho escuro, assim como o cabelo e os olhos escuros. Evitavam os humanos modernos e é possível que estes se tenham afastado moderadamente dos bandos deles, mas não se prova que tenha havido casos de violência constante com os humanos modernos, tendo-se cruzado inclusive e trocado instrumentos e peles. Os humanos modernos, tinham algumas tecnologias de caça, pesca e recoleção e sabiam defender-se melhor do frio da Era Glacial. São estes a quem chamamos de Homo Sapiens Sapiens e produziam arte e música. Faziam enterramentos cultuais e tinham olhos azuis, cabelos castanhos e pele escura, visto que está mais provado que viemos todos de África e aproveitámos uma mudança climática mais suave para nos espalharmos pela Ásia, pelas Américas através dos maciços gelados do Norte e de uma terra hoje desaparecida entre a Grã-Bretanha e a Suécia – a Doggerland. As águas do mar tinham baixado até ao ponto de permitirem grandes migrações. A Europa foi também ocupada por bandos de Homens e Mulheres com a tal pele escura e olhos azuis, visto que vindo todos de África levou centenas de milhar de anos a mudar a pigmentação da pele para absorverem os poucos raios de sol que existiam. Mas que viemos todos de África os genes estão aí para o comprovar e exigir que afinal se trata de uma só raça que existe – a humana. Embora com um cérebro mais pequeno (o tamanho é irrelevante, neste caso!), éramos mais hábeis a fabricar instrumentos e a viver em grupo, o que nos salvou da extinção. E também é provável que muitos dos nossos antepassados mais espigadotes ou jovens com as hormonas aos saltos tivessem tido relações sexuais com neandertais. Corrijo: não é provável, é certo. O que é mesmo verdadeiro é a extinção dos neandertais, mas ao que se julga agora não foram os humanos modernos que os extinguiram em massa. Foi a inabilidade em utilizar os recursos naturais para a Era Glacial que se aproximava.

Vamos a «Eva». Como sabem, os cientistas são uns brincalhões. Já com a Lucy, deram-lhe o nome por estarem a ouvir o «Lucy in the sky with diamonds (LSD)» dos Beatles. Esta ironia é mais fina. Eva, seguindo o rasto de ADN mitocondrial (que passa das mães para os filhos, sendo por isso uma linhagem feminina), viveu há 200 000 anos e veio a ser a ancestral materna de todos os seres humanos que vivem hoje, Há cerca de 60 000 anos, a linhagem saiu de África e espalhou-se para todo o mundo. Em África corresponde o genoma L. Quando se «saiu» de África os genomas que encontramos são o L3, o M, o D, o N, o R, o RO e o U (que se subdivide em 6 genomas). Na Europa é o genoma U que é preponderante mas não muito mais que os outros genomas todos do mundo onde aparecem igualmente. E nós estamos carregadinhos de todos eles.

No entanto o mais difícil de encontrar, mas também o mais seguro é o cromossoma Y, que passa de pai para filho e que tem mais ADN que as mitocôndrias maternas. É a nossa linha patriarcal a quem os antropólogos e arqueólogos deram o nome de «Adão». Estavam à espera de quê? É lógico que o encontrámos igualmente em África. Alguma vez estes nossos antepassados se uniram e deram origem à humanidade. Para o bem ou para o mal. Segundo a autora, «Acabou-se a discussão. A teoria multirregional estava morta: os humanos anatomicamente modernos têm origem em África».

Antes da forte glaciação de há 54 000 anos atrás, já estávamos espalhados por todo o mundo, embora fôssemos muito, muito poucos. Os bandos que existiam eram constituídos não mais do que umas dezenas e foram os neandertais que nos salvaram antes de se extinguirem. As crianças nascidas desses encontros com os humanos modernos sobreviveram mais porque não tinham consaguinidade. Afinal, os neandertais não se extinguiram completamente: nós somo também eles. Obrigado, portanto, neandertais por uma imunidade bem conseguida.

Quando em 54 000 anos veio a Era Glacial (das quatro existentes na vida da Terra) os nossos antepassados recuaram para sul à procura terras mais amenas, se assim se pode dizer. A Europa do sul e certas zonas do norte poderiam ser habitadas, mas foi o Médio Oriente o mais apetecido. Por lá ficámos, uns recolectores, outros já mais sedentários embora não se possa falar ainda de agricultura ou domesticação de animais. Fomos outra vez para o sul da Europa e Norte de África, américas e Oceania. Não parámos. O Degelo veio e foi uma nova vida. Aumentámos a qualidade da tecnologia, fizémos trocas por trocas, casámo-nos uns com os outros, tornámo-nos mais imunes às doenças e epidemias, aumentámos o tempo médio de vida e aumentámos, por isso, o número de indivíduos. Mas...há 38 500 anos, como prova o Homem de Kostenki descoberto na Rússia, ainda éramos pretos, tínhamos o cabelo encaracolado e castanho escuro e predominavam os tais olhos azuis e claros. Ou seja, fomos ficando mais branquelas para a pigmentação absorver melhor os raios solares. Houve outros que não necessitariam dessa pigmentação, como em África, Oceania e Américas. Mas o livro é riquíssimo em provas sustentadas pelo ADN em Universidades e Institutos de referência em todo o mundo.

Finalmente, o meu espanto: Karin Bojs, agora na reforma e sem a canga formal do jornalismo, fazendo a sua pesquisa científica livremente, falando à vontade com os cientistas que antes tinha entrevistado para a sua revista científica sem as cautelas institucionais a que são obrigados os jornalistas e os cientistas, reparou num incómodo, numa preocupação nunca antes referida: o racismo crescente na comunidade científica e em estudantes principalmente na Europa Central (já nem se fala na América do Norte!). Ela própria assistiu a um boicote a uma conferência sobre apresentação de resultados antropológicos na Universidade de Brno, na República Checa. Foi-lhes dada uma sala pequeníssima onde não cabiam quase 300 pessoas interessadas. Subitamente, entram em cena alguns professores e alunos, arrastando mais cadeiras para a sala de modo a torná-la sufocante, que contestaram abertamente as teorias baseadas em ADN, agora com uma ressalva: sim, houve algumas migrações, mas não tantas que não permitam a defesa da «verdade» deles: que os povos isoladamente desenvolveram-se tendo em conta a inteligência e os laços fortes e comunitários, génese de um povo e de uma nação. Chamam-se a estes senhores fascistas, os «migracionistas» de que falei atrás, cada vez mais e mais interventivos e cujas teorias estão muito longe de qualquer prova mínima que seja. Mas não deixa de ser irónico o nome científico dado à nossa mãe mitocondrial e ao nosso pai cromossomático. Adão e Eva!

Mas o livro não é só isto. Vale mesmo a pena lê-lo. 420 páginas de puro prazer e um enxerto de porrada nos neonazis.

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Agosto de 2019

Resultado de imagem para karin Bojs
A Grande Família Europeia, de Karin Bojs
Ed. Portuguesa Foto: Bertrand Editora