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segunda-feira, março 20, 2023

«Um Discurso Escondido - Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a I República, 1910-19» de Vanessa de Almeida

 

De Vanessa de Almeida, Bizâncio, 2009
O livro de Vanessa de Almeida constitui uma tentativa de não esquecer um período específico das lutas operárias iniciadas com a I República até 1919 nesse local já mitológico das lutas operárias que foi o Barreiro da CUF. Para nós, uma aposta claramente ganhadora. Período do sindicalismo revolucionário, das Associações de classe que nasciam ao ritmo das desilusões populares face ao novo regime republicano que gorou qualquer veleidade de efetiva melhoria das condições de trabalho ao operariado. Do sindicalismo revolucionário do jornal Avante! de 1910, ao anarquismo de A Batalha e às grandes greves de 1943, já comunistas, o proletariado do Barreiro resistiu sempre e talvez seja o que mais consciência de classe demonstrou na região portuguesa. 

Vanessa de Almeida apresenta vária bibliografia e jornais que consultou pormenorizadamente, para além das atas da administração da CUF onde Alfredo da Silva, patrão «bom», «justo» e paternalista à moda de João Franco, Sidónio e Salazar, e donde vem a máscara do vice-presidente da AIP que não recuava perante milhares de despedimentos e que chamava a novíssima GNR para se aquartelar no espaço da própria CUF. A repressão acompanhou a bonomia paternal com que tratava os operários ou da imagem que fez passar a sua própria propaganda. A autora retira-lhe a máscara numa excelente conclusão ao seu livro:

«Se a imprensa operária analisada permitiu o contacto com o ''registo público'' da luta protagonizada pelos grevistas da CUF, as actas dos conselhos de administração e fiscal da companhia possibilitaram o acesso ao ''registo escondido'' do discurso de Alfredo da Silva. Segundo James Scott, no estabelecimento das relações de poder, o discurso público raras vezes corresponde ao discurso escondido. Numa relação de dominação, os dominados adoptam muitas vezes uma máscara face aos dominantes. Todavia, também as elites têm necessidade de adoptar máscaras na presença de subordinados e, como tal, existe uma disparidade entre o registo público expresso no exercício do poder e o registo escondido, que só será partilhado num ambiente propício a tal. (pág. 124)»

Veja-se, já sobre este paternalismo de Alfredo da Silva, o que diz A Batalha de 8 de abril de 1919, com uma nota de Vanessa de Almeida, informando-nos que não conseguiu confirmar a notícia com outras fontes:
«Quando em tempos os operários fundaram uma Associação de Classe, o Sr. Alfredo da Silva conseguiu, por processos vários, mas que tendiam sempre a atrair as simpatias ingénuas do pessoal, a transformar a associação, fundada para defesa económica dos trabalhadores, numa simples sociedade de recreio, que hoje tem o nome de Grémio Recreativo CUF, fornecendo dinheiro para a compra de instrumentos e organização de uma banda de música, fazendo assim desaparecer a Associação de Classe. (pág.93)»

E as máscaras de Alfredo da Silva e do governador civil da cidade, republicano, caem perante a violentíssima repressão às greves de milhares de operários da CUF e de Lisboa juntando-se a isso a chantagem da fome à população. Leia-se a Batalha de 26 de junho de 1919:
«Em virtude da acção jesuítica de Alfredo da Silva, os habitantes daquela localidade encontram-se sem pão. Tendo ido uma comissão de padeiros ao governo civil a reclamar alguma farinha para que o pão não faltasse, a resposta foi esta: ''Os operários desde que estão em greve não precisam de comer!'' E o digno governador não forneceu nenhuma farinha, razão porque falta pão no Barreiro, onde as crianças passam fome! E são essas criaturas, piores do que feras, que apregoam aos quatro ventos a liberdade e a fraternidade. (pág.113»

Mais que nunca a leitura deste livro de Vanessa Almeida torna-se necessária na desmontagem do que se supõe ser um «patrão bom». Neste caso de Alfredo da Silva, um falso self made man, tal como todos os outros. Mas de quantos «Discursos Escondidos» se faz um patrão jesuítico? Daqueles que são unânimes, até pelos que na esquerda foram criados. Atentemos num operário da CUF «diligente, disciplinado e respeitador» tal como gostava Alfredo da Silva:
«O Alfredo da Silva, caramba! Ele dava a volta ao bairro! Tanta vez que ele ia à fábrica! Tanta vez! Ele foi sempre bom patrão!... Quando nos deram leite com café e cacau, pão com manteiga, foi dele! Um ano, pelo Natal, as prendas que deram aos operários, foi ele! Aos homens foi... parece que era tabaco, se não estou em erro. Vinha da Tabaqueira; e às senhoras, era ou xailes ou cobertores, que ele mandou dar pelo Natal. Portanto, dele, os operários nunca tiveram queixa! Ele castigava era os que mandavam lá, os encarregados! (pág.126)» 
Outro:
«(...) uma vez vinha lá o Patrão. E eu estava a comer, assim que vi, tirei logo o pão e pus dentro da algibeira, mas a algibeira estava cheia de cotão, de desperdícios, e ó depois eu parei e ele veio por ali a fora (...) ''O que é que estavas a comer?'' E eu assim: ''Estava a comer um bocadinho de pão.'' ''Então mostra lá.'' Depois eu tirei, era cheio de pêlos (risos). E ele assim: ''Nunca faças isso, quando estiveres a comer, tu come, ninguém de ralha.'' E eu assim: ''Mas a gente não tinha ordem de comer'' (pág.127).»

quinta-feira, maio 20, 2021

«Mulheres da Clandestinidade», de Vanessa Almeida

 

Um dia, quando «Mulheres da Clandestinidade» deu à estampa, comentei-o com uma turma do 12º ano de uma Escola do Porto que por acaso era bastante interventiva e curiosa (mais elas) sobre a História contemporânea. Como estudavam para o exame e este se aproximava calculando que quase sempre sai uma questão sobre o Estado Novo o interesse era normal que acontecesse. No entanto, passados alguns dias e já com o sufoco da aproximação do exame em que a «matéria» se condensava, como sempre estupidamente, vi um grupo de alunas com este livro da Vanessa Almeida nas mãos e que me diziam que o gostariam de comentar na aula. Como tinha sido eu a emprestá-lo acedi não sem alguma preocupação ligada ao «cumprimento do currículo». Contudo, foi das aulas mais profícuas que tive e que me deu para pensar bastante sobre o papel de um professor no sistema de ensino que nos enforma e, porque não dizê-lo, nos deforma. Quantos manuais escolares que se debruçam sobre a ditadura salazarista e marcelista são insonsos, embasbacadamente neutros sem o conseguirem ser de todo e repetitivos (mesmo tendo eu participado em alguns deles e tentando sempre mudar isso, não sei se com algum sucesso). 

A aula de duas horas, repetiu-se mais tarde sobre o mesmo tema. Estas alunas e alguns alunos tinham a ideia de uma ditadura morna, alguns confusos sobre os conceitos interiorizados por alguns professores entre «conservadorismo autoritário» versus «fascismo», não sabiam de todo as condições da clandestinidade e da luta das mulheres que Vanessa Almeida retratava ali. Comunistas, vindas de estatutos socioeconómicos variados, a maior parte pobres, camponesas, mas igualmente intelectuais que deram a sua vida a uma causa em torno da liberdade, de uma vida mais digna e pelo ideal comunista. O conjunto de alunas que leram os depoimentos de uma Maria Machado, de uma Margarida Tengarrinha, de uma Sofia Ferreira, de uma Teodósia Gregório ou de uma Fernanda Alves Rodrigues, entre outras, ficaram atónitas em relação a esta resistência à ditadura. O ser e estar clandestino era entrar numa outra dimensão, num outro mundo que julgavam acontecer só em filmes ou na literatura. O que me levou na ocasião a pensar, e hoje estou mais convicto disso, que o melhor manual escolar é o conjunto de livros como «Mulheres da Clandestinidade» será um exemplo em interligação com outros. Está lá tudo. Mesmo as circulares da PIDE foram escalpelizadas, o que deu pano para mangas sobre possíveis infiltrações e como seria isso possível. A tortura de Conceição Matos foi especialmente dolorosa para estas jovens alunas, assim como foi a separação dos filhos das clandestinas, muitos com destino a Ivanovo na URSS. Mas também mulheres que aprenderam a ler e a escrever através da imprensa do PCP, elas próprias clandestinas e que rodearam a impossibilidade de frequentar a escola «cá fora», ou seja, no ensino salazarista. Todo um manancial de depoimentos que ilustram bem a relação entre o amor, a luta, a firmeza no que se acredita, a utopia e a imaginação. O que os jovens de hoje dão importância, mesmo contando-lhes o passado próximo.

Se há alguma conclusão, ou conclusões, que se possam extrair desta descrição, e acredito que será mais comum do que se pensa, é que «Mulheres da Clandestinidade» devia fazer parte do Plano Nacional de Leitura. Não só porque se trata de um trabalho aturado, honesto, não sectário, sociologicamente sustentado com nomes e referências que reconhecemos, mas também por acreditar que o PNL deve ser multidisciplinar e não deve ficar refém da disciplina dedicada à prática de língua portuguesa. Em cada professor, deveria existir um pesquisador. Ou provavelmente adormeceremos a ler manuais escolares o que nos colocaria na prateleira dos preguiçosos.

Um livro a ler sempre. Cá ficará. 

António Luís Catarino