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segunda-feira, setembro 29, 2025

«A Vingança», John Grisham

 

Eis mais um período de nojo em que mergulho nos policiais. Neste, a vingança, passa-se nos finais de 40, após a II Guerra Mundial, com pelo menos metade das 400 páginas a descrever os horrores da Marcha da Morte nas Filipinas, cujas vítimas eram soldados americanos nas mãos dos terríveis japoneses. Não pretendendo brincar com isto, esta longa descrição de Grisham nada tinha a ver com a trama policial em si, a não ser ter sido dado como morto o que eventualmente servirá para apimentar a estória: um herói de guerra de uma pequena vila do estado segregacionista do Mississipi, um rico proprietário de algodão, mata um pastor evangélico que pensa estar enrolado com a mulher enquanto ele passava tempos terríveis num campo de prisioneiros japonês e na guerrilha da selva, tudo por culpa do incompetente e narcisista MacArthur. Chegou aos EUA e deu um tiro no tipo errado. Não era ele o culpado, mas sim um empregado negro que entretanto fugiu para o norte, zona libertada, segundo ele. Segundo nós, nem tanto assim, mas... Conclusão: é condenado à cadeira eléctrica, sendo branco e rico, contudo, não o salvam porque teimosamente não disse o motivo e estava-se em período de eleições e o governador precisava de votos (é sempre assim); perde a casa e os hectares com a brutal indemnização à família do pastor e os filhos do falecido que remédio têm senão estudar em busca de mérito. Pasmaceira de livro...

sexta-feira, outubro 13, 2023

«Os Litigantes», John Grisham

 

Bertrand Ed., col. 11/17. Tradução de Ana Mendes Lopes
Para quem ache que o policial é uma literatura menor aconselho a ler as opiniões que sobre o tema escreveram os principais escritores portugueses, ou não; para o caso, as fronteiras de nada servem. Mas ler John Grisham é uma boa aposta. Mais ainda se ele, com o conhecimento de causa que se lhe reconhece (foi advogado litigante durante anos antes de se tornar uma «besta célere»), nos demonstrar a completa imoralidade e insensibilidade do sistema de saúde americano e dos lucros fabulosos das multinacionais farmacêuticas dos EUA. O livro «Os Litigantes» é igualmente um retrato bem vivo do sistema de justiça que acompanha bem de perto o sistema de saúde. Todos ganham, menos, obviamente, os que mais precisavam de apoio. Os doentes, com ou sem seguros de saúde, as pessoas usadas como cobaias dos países pobres do Sul americano, africano ou asiático e os pequenos advogados engolidos pelos grandes escritórios de autênticos tubarões sempre em busca de vítimas e dólares. Também há advogados especialistas  em acusar os advogados que perdem invocando negligência, como se, em tribunal, entre a defesa e a acusação, a matemática não obrigasse um a perder! Mas há também especialistas em procurar desastres de automóveis, brinquedos chineses à venda com níveis de chumbo não adequados, especialistas em pessoas obesas para litigar com farmacêuticas ou com restaurantes de comida rápida. Alguns nem chegam a tribunal. Um punhado de dólares em acordos e já está, só que o dinheiro nunca chega às «vítimas». 

O liberalismo no seu melhor. O mesmo é dizer que vale tudo e tudo está à venda, seja o corpo humano, seja a própria justiça com o seu cortejo de hipocrisias e nomeações. Aqui, quem manda é quem tem dinheiro. Tão simples como isso. Um livro que substitui as longas páginas de jornais (alguns com interesses inconfessáveis) sobre o assunto e que, por vezes, lhes cheiramos as conivências. Ler este livro vale mais do que ler intermináveis e laboriosos estudos sobre as virtudes do liberalismo.

quinta-feira, janeiro 19, 2023

«O Manipulador», de John Grisham

 

Mais um livro a justificar quão obcecado me encontro pelo policial. Este tem a particularidade de se meter com sistema trinitário da política, da justiça e do sistema prisional americano que, ironia à parte, todos sabemos ser exemplar. E John Grisham não brinca em serviço. Para além de bom escritor tem um posicionamento político extremamente crítico para com os EUA. 
Um advogado negro está encarcerado, por dez anos, numa prisão de um estado federal que nem é das piores, embora já tenha passado por várias bem más. A história começa aqui e acreditamos na sua inocência. O seu escritório foi contratado por pessoas nada recomendáveis que o meteram numa história de evasão fiscal recambolesca. O final é incrível e como vai sendo hábito nos policiais atuais, os «maus» talvez ganhem na teia ao FBI que entretanto montaram. A narrativa é rigorosa e cerebral, no entanto o autor teve o cuidado de dizer que nada daquilo que contou foi real. Não fosse o diabo tecê-las.
Ler Grisham é também ter um posicionamento político: «O meu companheiro de cela é um miúdo negro de dezanove anos, de Baltimore, condenado a oito anos de cadeia por vender crack. Gerard é como um milhar de tipos que encontrei nos últimos cinco anos, um jovem negro de uma cidade interior, cuja mãe era adolescente quando o teve e cujo pai desapareceu há muito. Abandonou a escola no décimo ano e arranjou trabalho a lavar pratos. Quando a mãe foi presa, Gerard foi viver com a avó, que está a criar uma horda de primos. Começou a consumir crack, depois a vender. Não obstante a vida nas ruas, Gerard é uma alma bondosa sem um pingo de maldade. Não tem qualquer historial de violência e não devia desperdiçar a vida na prisão. É um de entre um milhão de jovens negros que estão a ser armazenados pelos contribuintes. Neste país, somos aproximadamente dois milhões e meio de reclusos, de longe o maior número de encarcerados em qualquer sociedade semicivilizada. (pág.82)».
E a descrição do sistema de justiça americano contínua, sendo que a própria Constituição americana é regularmente ultrapassada e alterada conforme a decisão dos legisladores e juízes sem que daí venha mal ao mundo. E prende-se, prende-se muito, com penas completamente dementes e gratuitas que obrigam cidadãos sem qualquer perigosidade, alvo de pequenos erros, ou mesmo inocentes, a passarem anos infindos na prisão e a desfazerem uma vida normal, perguntando-se a si próprios «Como é que isto me aconteceu?»

quinta-feira, agosto 18, 2022

4 policiais 4. O mundo mudou e o policial também

 


Gosto de policiais e se forem de bolso melhor ainda. Não gasto muito dinheiro, podemos tratá-los mal e lê-los de uma assentada sem grandes preocupações que a escrita dita literária obriga. 

Neste Agosto, contudo, observei uma regra: em dez dias levei para férias dois autores considerados antigos e dois «novos»; destes últimos só conhecia toda a saga dos «Homens que odeiam as mulheres» de Stieg Larsson e um de Camilla Läckberg de que já não me lembra o nome.

Os da conhecidíssima coleção Vampiro, agora nas mãos da Porto Editora, temos boas traduções e são bem revistos, coisa que não acontecia no passado. Li E.C.Bentley com agrado. Claramente socialista, o livro escrito em 1913, logo antes da guerra retrata como ninguém a voragem que já se fazia sentir em Wall Street por «capitalistas sem escrúpulos» cujo assassinato de um deles terá sido obra de um sindicato vingativo e arquivado pela polícia. Com alguma simpatia, dá-nos a verdadeira razão desse crime, mesmo que o relatório do detective esteja completamente errado. Por isso, acaba com a sua profissão num belo jantar com o verdadeiro homicida. Lindo! Psicologicamente algo denso, a trama é extremamente bem feita e obriga-nos a pensar, mas isso são contas de outro rosário. O Último Caso de Trent foi adaptado ao cinema nos anos 30 o que o obrigou a ressuscitar a personagem. 

Dashiell Hammett é outro que tal: membro do Partido Comunista Americano, nem por isso se deixa acometer por algum racismo em relação aos negros e «mulatos» como lhes chama... mas a história deixa antever os ricos como os maus da fita, tipos vulgares, odiosos, que não se detêm perante nada, passando por cima de tudo e todos. Assassinos com fartura e sangue aos borbotões. Mas ainda assim é um gosto ler Hammett e vê-lo no cinema com um Bogart a fazer de Marlowe. A Maldição dos Dain foi igualmente levado ao cinema nos anos 30, claro.

Jeffrey Archer pia mais fininho com um livro de 2019, não fosse ele um ex-vice-presidente do grupo parlamentar torie, dos conservadores, para os mais desatentos. Atenção que isto não é uma história inventada. Faz parte da autobiografia do autor: apanhado nas teias da bolsa de Londres, o tipo fica a dever meio milhão de libras a uma data de gente e indo a tribunal cometeu perjúrio o que lhe valeu 4 anos de prisão onde escreveu, em 3 volumes, os Diários da Prisão, pois claro! Hoje voltou à política, pagou as suas dívidas e é um milionário por vende 250 milhões de livros em 37 países. Portanto, o livro que li titula-se Quem Não Arrisca... caso para dizer que sabe-la toda, o homem!

John Grisham, escreveu o manuscrito e é outro que tal: é lido aos milhões pelo universo conhecido, mas é honesto pelo que se sabe. Escreveu O Manuscrito e pode dizer-se que é um bom escritor. A história envolvem milhões de dólares e são fruto da especulação alfarrabista (!?) de 1ª edições assinadas. Sendo o livro um objeto mais apetecível que o ouro, acções da bolsa ou mesmo os dólares, dá que pensar ao amante de livros que se viu sempre rodeado deles, certamente. Que sejam objecto de especulação nos States é de abrir a boca de espanto. Mas estamos aqui para aprender sempre.

Qual a diferença entre os «novos» e os «velhos» policiais? É que, nestes, os criminosos geralmente pagam sempre os seus crimes hediondos ou talvez nem tanto, conforme a moral e a ética de quem os escreve. Quem com ferro mata, com ferro morre é o bíblico refrão que se aplica aqui. A trama policial é composta pelo desenrolar de mentes inteligentes o que obriga a equacionarmos possíveis soluções à medida que as páginas avançam. Há tiros a rodos e frieza dos detectives que prendem belas mulheres e homens de fora de qualquer suspeita social. A polícia científica é a de laboratório de vão de escada. Lá ajudar, ajuda, mas pouco. A mente é que descobre, desfaz a teia construída com denodo pelos criminosos e somos convidados a participar na descoberta da coisa.

Já com os «novos» não se vislumbra castigo nenhum para os criminosos. Antes pelo contrário. É tipo «Ocean's Eleven», topam? Os ambiciosos se forem espertos continuam as suas actividades com ambição e inteligência. A polícia científica toma o lugar da dedução ou indução do leitor. As câmaras de vigilância sabem tudo. A mínima lã deixada numa carpete é caso para levar um tipo 30 anos para a prisão. A marca de batom nos cigarros é mentira porque já ninguém fuma.  A observação mórbida dos cadáveres dizem mais do que os desgraçados que são abertos ao ritmo das anedotas dos médicos legais que é para descontrair! Os dólares já não são o objetivo, nem os milhões ou ouro, mas sim a arte e os manuscritos e 1ª edições valiosos que sempre valorizam a cada dia que passa. Livros e quadros? Museus a serem assaltados? É claro como água e todos os que se arrebanharam à grande contra os bens públicos têm a medalha dos bons e intocáveis. «Quem não arrisca...», não é? Mesmo assim, a polícia perde sempre. Sim, os policiais mudaram muito, mesmo com as câmaras de vigilância e a chafurdice nos cadáveres que nos permitem preguiçar na solução dos crimes. Querem alimentar a mente? Joguem xadrez!