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sexta-feira, novembro 28, 2025

«Umbria: por fim, o Sul.», António Alves Martins

 

Artes Breves Edições, 2025. António Alves Martins

A beleza de «Umbria: por fim, o Sul» leva-nos numa viagem imaginária rumo ao Sul, proposto por António Alves Martins e que acompanhamos com gosto imenso. Sendo o sexto livro das Artes Breves Edições, de uma série cuja presença marcante do autor não deixa ninguém indiferente, quer pela qualidade da sua obra fotográfica, quer pelo seu grafismo, juntamente com outras formas de arte que se interligam e cruzam, como o desenho e a escrita.

Com a sua nota introdutória poderemos já adivinhar o que se seguirá ou o que contamos nesta viagem e, paradoxalmente, a surpresa que nos acompanha em cada página que voltamos. Surpreende-nos o rigor colocado nas suas fotografias e no grafismo que se observa na consistência formal de todo o livro, enquanto que nos deixamos maravilhar pela poética das imagens que nos são oferecidas. O conceito de Sul é aqui muito abrangente. O Sul, em «Umbria», é a Ideia, como nos diz Mallarmé: «A omnipresente Linha espaçada de qualquer ponto a qualquer ponto para instituir a Ideia (1)», mas é também uma viagem pelas formas, pelas texturas, por imagens que se nos apresentam com as suas nuances e sombras, pelos brancos que nos ofuscam, ou por névoas que nos envolvem. Ou, nos antípodas, pelos negros baços em que adivinhamos movimentos escusos. 

As linhas que assomam nestas múltiplas formas constituem essa liberdade que António Alves Martins nos propõe. Os dois espaços em branco que esmagam a linha  constituem, através do traço, uma afirmação  pessoal de um pensamento que aponta para um destino em que a partida se confunde com a meta. Aqui, em «Umbria» não há fixação, existe uma proposta de uma itinerância contínua, um nomadismo desassombrado, criativo.

O surpreendente em «Umbria» é a necessidade de uma comunicação sufocada com o espectador, o que vê as fotografias e as colagens apresentadas. Surgem pictogramas, signos, letras, linhas que se cruzam em redes, nos muros, em janelas e em fechaduras de portas. Na própria paisagem, as árvores que tentam falar através do rendilhado das folhas, nos arbustos e nas planícies que adivinhamos ondulantes do sul. Nestas imagens sentimos a comunicação da ruína, as «espirais de oiro e azul» que Alves Martins cria num sentido heraclitiano em que nada se repete, nada se toca, mas tudo rasa num movimento de uma mola helicoidal, onde os acontecimentos fluem em utopias marcadas pelo tempo já descritas em «Cidades Materiais». 

Há, em «Umbria», uma necessidade de sobreposição, de intersecção de linhas, de justaposição de formas que assume o objectivo de nos envolver em situação de questionamento constante por parte de quem se reconhece nas imagens oferecidas neste livro. Nesse jogo, que aceitamos em cada página que folheamos, transparece a dúvida, a suspeita, o cepticismo perante o que não compreendemos desde logo, mas compensado pelo maravilhoso, pela luz e contraluz que emanam de cada ideia ou metáfora da imagem. Nesse sentido, em «Umbria» há uma subversão clara baseada no traço, na linha, nas formas, como forma de atingir um imaginário plenamente livre.


ps: «Umbria» é um livro conseguido no que esta palavra tem de totalidade, de um todo coerente, consistente. A sua tiragem foi apenas de 47 livros, 5 são extra-série, o que equivale a afirmar que rapidamente será colocado fora da possibilidade de aquisição directa. No entanto, aconselho a quem queira ficar com ele, a contactarem o autor ou a editora Artes Breves.

alc
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(1) «La Musique et les Lettres». apud em Jean-Luc Nancy, «O Prazer no Desenho»

quarta-feira, novembro 27, 2024

Islenha 74. Uma revisitação a António Barros

Revista Islenha 74
A revista Islenha lançou este número semestral (de Janeiro a Junho de 2024) quase inteiramente dedicado a António Barros. Extremamente bem elaborada,  belíssima graficamente, com dados importantíssimos sobre o trabalho do autor ao longo de mais de 50 anos e que (nos) chama a atenção para um percurso singular que remete António Barros para um dos mais construtivos e provocadores artistas que está connosco. Baseado no seu trabalho «Florigen, 2005» escreve o autor/artor logo no início da revista:

«A escultura - em modo de objecto-livro - «Florigen,2005», elege o florescimento das plantas como pólo de reflexão sobre a conjugação: electricidade_energia_luz, e o seu caminho recíproco: luz_energia_electicidade. (...)
«Florigen, 2005» teve a primeira apresentação pública em What is Watt?, edição de 2005, no Museu de Arte Contemporânea Fortaleza de São Tiago, no Funchal. Depois em Coimbra na Casa da Escrita; no Círculo de Artes Plásticas_CAPC; e finalmente em: «da flor, esse rosto de esGrita», na Casa Museu Bissaya Barreto em 2024, enunciando-se como elegia ao museófilo, coleccionador de orquídeas, Alfredo Gomes de Barros, na celebração do centenário do seu nascimento.»

Explica-se que Alfredo Gomes de Barros é o pai de António Barros, como, aliás, é explicado por Isabel Santa Clara e Augusta Villalobos nas páginas que se seguem a esta apresentação tão clara, quanto necessária e global sobre o trabalho do autor. Aí, lê-se em alguns extractos que vos dou a conhecer:

«O conceito científico de florigen [António Barros cita o trabalho, de 1937, do cientista russo Mikhail Chailakhian] remete para o florescimento, metamorfose e maturação das plantas, em resposta à luz. Longe de ser um processo solitário, propaga-se, em convivialidade, gerando, em múltiplo jogo de espelhos, todo um jardim florido, pleno de vida. Uma festa para os sentidos e para a alma. Expandindo este conhecimento e esta sensibilidade, numa abordagem humanista percebemos florigen como uma metáfora da Vida, e da Arte. De uma Arte-Vida-Arte para a Elevação da Pessoa-Natureza. logo, da Sociedade e do Planeta. Tal é o desígnio de António Barros.» (pág.10)

Sobre o processo de construção das exposições de António Barros, Augusta Villalobos e Isabel Santa Clara apresentam-nos a seguinte ideia que, para quem já presenciou as exposições de António Barros, não pode deixar de se rever nestas palavras:

«Nos diversos momentos de mostra do seu trabalho num registo de fisicalidade - coisas reais, pessoas reais - António Barros proporciona uma vivenciação do espaço expositivo convertendo-o num lugar habitado, e habitável, convidando a que seja habitado em convivialidade: um muSeu que seja seu.
O próprio processo de construção de uma exposição constitui uma temporalidade privilegiada de diálogo com o Outro, sejam referentes de contaminação mais distanciados, sejam presenças próximas que o acompanham e contribuem directamente para a criação, ou - e de modo particular - o público, conceito que procura desconstruir e reinventar. Muito na linha Fluxus, a Arte como Processo. Para a universalidade.
O autor, que prefere assumir-se como artor, sempre captou a importância do lugar habitado numa exposição, e do modo de dar a ver, procurando através da semiótica da instalação e do rigor na montagem valorizar a especificidade e a densidade de cada peça, as afinidades e os confrontos. Os actos performativos encarnam de modo mais premente a delicadeza e a mutabilidade dessa habitar.» (pág.18)

O preço desta revista é de 15e e podem pedi-la para 

alc

segunda-feira, setembro 23, 2024

Folha de sala da exposição de António Barros «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois»

 

Extracto de um artigo meu sobre o trabalho de António Barros.
Folha de sala da exposição «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois».
Setembro de 2024

Exposição de António Barros na Galeria dos Prazeres - «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois»

Pratiquei a deriva na Ilha da Madeira, embora de dia, embora de automóvel, embora consciente. Portanto, totalmente ao contrário da verdadeira teoria da dita deriva que se quer à noite, a pé e com eflúvios libertadores do real vivido. Fui ver, como não poderia deixar de ser e tendo a oportunidade de estar com gente funchalense boa, disponível e interessada, a exposição de António Barros «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois». Até 28 de Outubro, podem vê-la num local extraordinário que é a freguesia dos Prazeres pertencente ao Concelho da Calheta. Sem pretender ser nenhum guia turístico (arreda!), aconselho o bife de atum e o bacalhau confeccionado nos restaurantes circundantes, para além de uma digestão necessária na casa de chá (mais que premiada) da vizinha Quinta Pedagógica dos Prazeres que, juntamente com o Mudas, Museu de Arte Contemporânea da Madeira, também foi um dos apoiantes desta exposição do António Barros. Portanto a freguesia faz jus ao nome. O mar, esse, sempre presente.

O que encontrei nesta exposição de António Barros foi uma grande coerência e uma inquietação indisfarçável. A dependência que se criou, na sociedade portuguesa, perante a sociedade de consumo, paradoxalmente exponenciada após o 25 de Abril de 1974, elevando igualmente à liberdade a economia especulativa, produziu em António Barros, uma intervenção poética denunciadora da ignorância na educação e no pensamento crítico, na política vazia de propostas, nos cérebros formatados, na incapacidade de ler e de se ser entendido. Na inexistência, igualmente, de uma linguagem libertadora. É aqui que a escravatura reaparece que aponta paulatinamente o caminho da humanidade sem que esta se aperceba da tra(u)ma que a envolve. A figura tutelar de Frantz Fanon surge então como metáfora última dessa mesma possibilidade de libertação da escravatura, mas igualmente a escrita à mão do artista/poeta e os objectos que atingem uma necessidade imperiosa de serem interpretados como liberdade que nos é ainda inerente. Se puderem não percam esta exposição e será muito pedir que ela (re)volte ao continente? Será pedir muito que ela seja debatida em espaços educativos e museológicos nos meses que ainda faltam para o término dos 50 anos do 25 de Abril ou mesmo depois do número redondo?

Deixo-vos com uma trecho de Augusta Villalobos e Isabel Santa Clara inserida na folha de sala de «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois»: 
«Em contexto expositivo, as peças relacionam-se entre si e relacionam-se com as pessoas reais que por elas passam. Um encontro que pede para ser prolongado e aprofundado a posteriori (...). Para além da exposição como escrita, a escrita em torno da (ex)posição. Convite à leitura, desde o próprio espaço visitado. Um espaço_livro habitável. Uma arquitectura do livro_livre (AB, esGritar, o VERbo, 2024). Modos instrumentais para explorar com uma leitura alternativa, essa, geradora de descobertas múltiplas (AB, da flor, esse rosto de esGrita, FBB, 2024.). (...) Numa vascularização, por osmose discursiva, alimentando o diálogo convivial e o fórum gregário. (...) Resgatando a pessoa da condição de espectador [cobarde ou traidor - Frantz Fanon]. Numa implicAcção.»

Algumas intervenções de António Barros na Galeria dos Prazeres, na Madeira

domingo, junho 09, 2024

Revista Triplov. Deriva



Eis um mapa dos navegantes das Ilhas Marshall. As suas derivas eram cartografadas em rotas apontadas para as estrelas do céu. Nunca se perderam nos mares, ao que consta. A Deriva Editores criou-se em 2003 acompanhada por um mapa que obrigava à atenção inconformada dos que não tinham voz ou era tão ténue que mal se ouvia. Foi assim a partida para o largo: recusa de mais literatura anglo-saxónica já de si excedentária nos escaparates e dar voz às literaturas minoritárias com a Galiza, o País Basco, a Bretanha, a Irlanda, a Catalunha, a Áustria, a Argentina. Foram realidades que nos obrigaram a um equilíbrio onde os factores se cruzavam literariamente do bom ao excelente, da luta política autonómica ou independentista, até à denúncia das majestosas democracias europeias que não escondiam a sua tendência centrípeta de engolirem as incómodas culturas minoritárias e lançarem para o ostracismo as riquíssimas línguas periféricas. Alguns pagaram com encarceramentos duradouros a sua ousadia como o basco Anjel Rekalde (20 anos de prisão) «Dorregarai – A Casa-Torre», o francês Jean-Marc Rouillan, (prisão perpétua) «Odeio as Manhãs», os americanos John Zerzan (organizador das manifestações de Seattle) «Futuro Primitivo», Peter Lamborn Wilson (Hackim Bey, o seu nome muçulmano) «Utopias Piratas», o bretão Patrick Raynal «Ex», o escocês a viver na Bretanha, Kenneth White, este último o criador do movimento geopoético e autor de «O Espírito Nómada», os galegos Antón Riveiro Coello «As Rolas de Bakunine», Xurxo Borrazás «Ser ou Não», Xavier Queipo «Bebendo o Mar» ou Gonzalo Navaza «Erros e Tanatos». A edição de «A Mobilização Global, seguido de Estado-Guerra» do catalão Santiago López-Petit veio apresentar a política notívaga de subversão contra o Estado na senda de uma verdadeira tentativa de propor as várias possibilidades de insubmissão permanente. «O nómada que existe em cada um de nós como uma nostalgia, como uma potencialidade, não tem a noção de identidade pessoal, a «consciência de si» é-lhe estranha. Sem dizer «penso» ou «sou», põe-se em movimento e a caminho faz melhor do que «pensar», no sentido denso da palavra, enuncia, articula um espaço-tempo de múltiplas focalizações que é como que um esboço do mundo. O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes.» Kenneth White «Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade.» Santiago López-Petit Antes, em 2006 e 2008, publicou-se com Vicente Romano, «A Formação da Mentalidade Submissa» e «Intoxicação Linguística» dois livros que denunciam os media como o alfa e o ómega na formação do indivíduo amorfo, narcisista, muito bem com ele próprio e com a sociedade que o escraviza e que, como bom obediente, o aceita, feliz. O escravo que tem orgulho em sê-lo: «A consciência indiferenciada corresponde à vida sentimental estereotipada. O pensamento mágico acrítico, gera uma consciência conformista, submissa. O que significa deixar por mãos alheias a solução dos problemas próprios, situação em que tudo pode ser facilmente manipulado por esses interesses estranhos. Aí radica o perigo de passar as rédeas dos assuntos pessoais para as mãos dos especialistas ou do novo credo académico. Autodeterminação significa, antes de tudo, libertar-se da angústia e ganhar consciência das determinações impostas por terceiros, para conseguir ultrapassá-las.» Vicente Romano De resto, as coisas fluíam e mais tarde, em 2014, com a edição de «Manual de Sabotagem – Escritos sobre política, memória e capitalismo», de Elfriede Jelinek, tão nobelizada, quanto esquecida e ostracizada na sua própria terra, a Áustria (em Viena, em três livrarias de referência não encontrei um único livro dela), conseguiu-se dar voz a esta autora única do desencanto germânico, afirmando que nunca a Alemanha ou a Áustria do Anchluss conseguiram ultrapassar o nazismo. Não só a culpa, mas o nazismo tal qual. Ele subsiste ainda, vivo. Nos anos 80, suicidaram-se vários operários na fábrica da Peugeot em Sochaux. Editou-se, em 2014, «Crónicas Peugeot» do sociólogo Michel Pialoux em conversas com o operário Christian Corouge, de modo a denunciar o trabalho demente porque repetitivo, mesmo na cadeia robótica que despontava: «Não sei se algum dia partirei da fábrica. Porque vou contar-te uma coisa perfeitamente parva, mas... há um ano, estivemos uma semana no desemprego, mesmo antes das férias, portanto isto dava cinco semanas. Ao fim de quatro semanas de férias – estávamos perto de Cherbourg – já não dava mais. Estava a bater mal lá. Estava a bater mal, fui obrigado a vir embora. Sabes, uma espécie de necessidade masoquista. Não estava bem. Quatro semanas, tudo bem, vês: recuperas fisicamente, fazes o ponto da situação na tua cabeça, tudo bem, descontrais... e depois, dizes para contigo: ‘O que é que me espera quando regressar? Portanto preciso de voltar. Preciso de voltar para ver, para estar ali porque... começo a estar farto das férias, começo a andar às voltas. Ando aqui a coçar os tomates, tenho que bazar’. E foi o que nos aconteceu. Viemos embora uma semana antes. Demos cabo de uma semana de férias para vir embora. Precisava de ir ver a fábrica durante as férias, vês, quando a fábrica está parada. Ir diante da porta e dizer para comigo: ‘Merda, mas como é que a gente vai fazer para desmontar esta coisa?’ Fazer isto... Crónicas Peugeot, de Michel Pialoux e Christian Corouge. Nesta mesma colecção aparecem nas livrarias pela mão da Deriva uma obra de Wittegenstein, «Observações sobre o Ramo Dourado de Fraser» nunca editado neste canto europeu e outro de Mikhail Bakhtin «Para uma Filosofia do Acto». A poesia e a narrativa acompanharam-nos durante os 15 anos de existência, com resultados tão desconcertantes e algo equívocos, como reveladores. Realça-se somente os que se considera terem sido os poetas verdadeiramente genuínos e que entenderam, desde o início, que um editor não é exactamente um promotor no mercado, muito menos do mercado literário ou de gestão de egos excêntricos. Aqui vão os que de uma maneira ou de outra deixaram registadas as melhores páginas e de doces lembranças em vários livros editados que marcaram uma época própria: José Ricardo Nunes, Ricardo Gil Soeiro, o já falecido Joaquim Castro Caldas com o seu «Mágoa das Pedras», Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida, Marilar Aleixandre, João Pedro Mésseder, Henrique Manuel Bento Fialho, António Alves Martins, Pedro Eiras, Maria Leonor C. Figueiredo, entre outros. A parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa deu-nos livrinhos da colecção Pulsar onde sobressaíram nomes como Sarrazac, Pascal Quignard, Antoine Compagnon, Anselm Kiefer, Carlo Ginzburg, Olivier Py, Jean-Claude Pinson, Stephane Mallarmé com o seu «Crise de Versos», Wyndham Lewis e os Manifestos Vorticistas. Também se editaram estudos literários sobre Annemarie Schwarzenbach, Max Frisch, Kafka, Coleridge ou Stevenson. «G. Agamben assinala que desde Miguel Ângelo o inacabamento é teimosamente exaltado pela arte e que se pode explicar este gosto por uma espécie de prazer derivado do fetichismo. Schlegel mostrava que, como as obras que admirávamos mais - quer dizer, desde a Renascença, as obras da Antiguidade - tinham chegado no estado de fragmentos, as obras dos modernos procuravam assumir esse estado logo ao nascerem, imputando o fascínio que exercem à fragmentação e julgando que estes pedaços, que evocavam totalidades indizíveis e ausentes ao provocarem o desejo do todo, ampliavam a emoção.» Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos, Pascal Quignard «A autodestruição foi sempre a finalidade mais íntima, a mais sublime da arte, cuja vaidade se torna desde logo percetível. Pois, qualquer que seja a força do ataque, e mesmo que tivesse chegado ao limite, a arte há de sobreviver às suas ruínas. (…) O Colégio de França convidou um artista plástico na esperança, presumo, de que vos fale de arte, vos informe acerca do que é a arte, demonstre a sua origem. Dir-vos-ei que não há definição da arte. Toda a tentativa de definição se desfaz no limiar do seu enunciado, tal como a arte, que não deixa de oscilar entre a sua perda e o seu renascimento. Nunca está onde contamos com ela, onde se espera apreendê-la e, referindo-me ao Evangelho segundo São João, direi: ‘Onde estiver, não o podemos alcançar’.» A arte há de sobreviver às suas ruínas, Anselm Kiefer Seguiu-se, pois, a denúncia com mais parcerias, agora com os livros editados com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique e com a Cultra, uma cooperativa cultural alternativa do Porto onde se editou Regina Guimarães com um libelo contra as chamadas «indústrias culturais», seja o que isso for. Mas é com uma intervenção, em Julho de 2016, no último livro que se editou pela Deriva, «Cidades Materiais», de António Alves Martins, que talvez esteja plasmada toda a génese, leitmotiv e o fim anunciado da Deriva. Não por acaso, reside nesta declaração tudo o que levou à sua criação e ao fim da editora e que exponho uma parte significativa: «Em meados dos anos 80, tínhamos todos 20 e tal anos. Miúdos da Faculdade de Letras que dizíamos abominar, sob a fórmula de palavrosas parábolas coimbrãs: ‘faça-se luz, incendeie-se a universidade!’. A verdade é que nos foi ensinado muito mais nos cafés adjacentes à Praça da República onde o prazer de falar, de conhecer e de debater era superior a tudo. Com algumas substâncias e segmentos aditivos que o facto de já terem prescrito, e apesar de uma louvável loucura que contrastava por vezes com imprevisíveis depressões, não me fazem aqui desenvolver e muito menos pormenorizar, por irrelevante. O agir concreto apareceu com o convite para fazer parte de um colectivo editorial da Centelha, e, mais tarde, da Fora do Texto. O espírito da revolta. In girum imus nocte et consumimur igni, o último filme de Debord realizado em 1978 e editado finalmente em 1981, com peripécias várias que, mais tarde, inclusive, levaram ao assassinato do editor da Champ Libre, Gerard Levobici (não foi o único), constrói a ideia do consumo e da alienação como alfa e ómega do capitalismo em fase de mutação para a pós-modernidade. Esta frase latina atribuída a Virgílio é a descrição real do que nos levou à deriva nocturna e à necessidade imperiosa de lutar contra a alienação do público que nos olhava de soslaio. Consumimos a noite e pegávamos-lhe fogo mesmo com acendalhas já usadas por outros. Creio não me enganar que entre blusões negros e echarpes negras ou canadianas verdes militares, construímos à nossa maneira um fogo permanente que nos devorou igualmente na ânsia da revolta e na dramatização do sem sentido de uma vida quotidiana que negávamos. Recusávamos o tédio. Recusávamos a mercadoria, recusávamos qualquer valor de troca. Preferíamos a poesia e o pensamento como as únicas vertentes que não se podem domar. E o amor. Esse, sempre presente no fogo quotidiano em que geríamos a noite em chamas. As chamas, essas, devoraram-nos? É possível, mas nas regras do Potlacht primitivo, este com coincidências inquietantes com o cristianismo também ele primitivo, quem perde ganha, quem ganha, perde. A noite consumiu-nos, sim, mas com a voragem da revolta romântica. (…) ‘Numa sociedade invertida, o verdadeiro é o momento do falso’. Isto foi dito em 1967 e corresponde a uma realidade já indesmentível e com contornos que o seu autor, Debord, provavelmente, não imaginaria na enorme dimensão espectacular que nos rodeia hoje. Assim, se nenhum movimento reivindicativo da arte revolucionária foi superado desde 1916 com Dada, esta tornou-se uma mera mercadoria, que vale o que vale consoante o valor das trocas. Nos anos 80, vivia-se por toda a Europa a ressaca dos anos de chumbo criados por Andreas Baader e Ulrike Meinhof que proclamava em livro ‘vocês falam do tempo, nós não!’ e pelas Brigadas Vermelhas de Renato Curccio na Itália, estas últimas teleguiadas, como se soube, pela polícia secreta. Tudo isto gerou uma impossibilidade poética, uma forma de ver a política e de destinar uma vida quotidiana não marcada pelo tédio e pelo aborrecimento, ou, se quiserem, pelas cadeias infernais do trabalho. Mas como promover isto mesmo numa sociedade alienada pelo medo, pela vingança dos anos pós-Prec e pelo espartilho terrorista no Portugal mesquinho dos anos 80 e da recuperação yuppie? Foi a altura também dos anos criadores e libertadores do rock com o aparecimento de Johnny Rotten, dos Clash, de um Lou Reed já sem os Velvet Underground, do Bowie tornado pop, de Ian Curtis dos Joy Division e depois com os New Order, de Iggy Pop, de trautearmos Jim Morrison pelas ruas desertas de Coimbra e aclamando o Jazz, recuperando para nós o be-bop e o free como forma de dizermos: ‘Falem do tempo, falem do tempo, nada temos a ver convosco!’ Aderimos à arte contemporânea e às possibilidades do vídeo, do teatro e da performance sendo que estas foram, exceptuando alguns, poucos, casos rapidamente recuperados. Identificávamo-nos pela música e pela deriva. A deriva consubstanciada todos os dias numa cidade que cada vez mais se tornava um labirinto de cimento corbusiano. A deriva que aqui se fala é a de Thomas de Quincey que, nas suas «Confissões de um Opiómano Inglês», tradução forçada, diga-se, afirmava haver uma rede subterrânea, marginal, na cidade de Londres, não cartografada pela polícia e pelas instituições políticas. Era terreno livre. Os dadaístas, os letristas e os surrealistas e muito mais tarde os situacionistas praticaram-na na forma de desconstrução da palavra e da deambulação livre em corredores libertários. Na construção de situações irreversíveis. Mas sem se superarem. Precisamente: o verdadeiro aqui, não superou o falso. Assim, toda a deriva que realizámos, muitas vezes sem sentido, nas ruas e becos nocturnos, só teve consequências na construção de mercadorias irrevogáveis: os livros e as ideias que eles trazem. O teor do que são feitos. A forma. A cadência e a recusa da «inovação». Até porque, sabemo-lo, quando o patrão exige inovação, o escravo honesto é o primeiro a proclamá-la.» Nunca quisemos aderir à escravatura. António Luís Catarino, Abril de 2024

Revista Digital Triplov. Este número: «As Vanguardas», sob a responsabilidade de António Barros

https://triplov.com/revistaTriplov/

Este é um dos números da Triplov que devem guardar. Revista de arte e opinião digital, este que vos apresento é da responsabilidade de António Barros. O índice das intervenções estará presente logo de início, mas atentem no cuidado gráfico, nas ilustrações e trabalhos de artistas que povoam este número obrigatório de leitura cuidada. O tema: «As Vanguardas».

segunda-feira, maio 20, 2024

II Feira de Livros de Arte. Centro de Artes Visuais, Coimbra

 


Na II Feira do Livro de Arte, no CAV de Coimbra, um fartote de aquisições de livros bonitos. Poesia de Heiner Müller, traduzida por Adolfo Luxúria Canibal e ilustrações de José Pereira, Jornal Punkto sobre a Palestina, "Existenzgrunder" de Anna Klos, um fabuloso "In the End, it was the economy" da Ghost Editions, "O livro da Patrícia" da mesma editora e "RIP", colagens de Pedro Teixeira Neves da Paper View Books. Claro que me escusei de adquirir os 5 livros de António Alves Martins das Artes Breves edições, porque já os tinha! Nada como realmente.

sábado, maio 18, 2024

«Menez | Pomar, Cartas»

 

Documenta, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar, 1ª ed. Outubro de 2022

A edição e apresentação desta publicação coube a Sara Antónia Matos e Pedro Faro. Não são cartas de amor ou de confissões mais ou menos privadas. Melhor dito: são também cartas de amor e privadas. É que este livrinho, em boa hora editado, circunspecto, em nada pedante, trata o processo de criação entre dois pintores consagrados como deve ser tratado: em jeito de confidência, vamos tomando nota das suas dificuldades e crises não só materiais, mas igualmente o terror da tela em branco, as interrupções nas séries temáticas, as impossibilidades várias que de tempos a tempos assolam a criação ou mesmo a destruição de telas, diria, por desespero. Que ninguém se iluda: se houvesse dúvidas que todo o acto criativo é também dor e isolamento, estas cartas, escritas entre 1979 e 1982, provam-no sem  qualquer apelo ou agravo. Mas, mostra, igualmente, a alegria e o contentamento de verem os seus quadros expostos, a tarefa terminada, ou já em vias de ser ultrapassada ou revista pelos próprios autores, muitas vezes em interrelação com os amigos.

Nestas cartas e postais (de Paris, Londres, do Báltico até ao Algarve e Lisboa) em que se revela um carinho e amizade profunda entre Menez e Pomar, lemos algumas confidências sobre galeristas, marchands, editores de catálogos, entrevistas, críticos. E aqui se vê, não sem algum incómodo como é difícil escrever sobre arte, ou sobre a obra criada (coloco a poesia neste saco). É até constrangedor ver como algumas figuras da nossa praça são tratadas pelas críticas que elaboram depois de se deslocarem a exposições «como se fossem a passar pelo Chiado», diz Menez. Mas mais do que isso: parece-me uma recusa, assumida quer por Menez, quer por Pomar, de ser interpretado por quem quer que seja. A tela está ali, o quadro chegou ao fim (processo que confessam ser um dos mais difíceis na criação da obra de arte), qualquer «apreciação» é votada a algum desprezo mais implícito do que explícito, excluindo um outro caso comentado ironicamente pelos dois.

Sobre o processo criativo, deixo um trecho de uma carta de Pomar a Menez que achei interessante de relevar aqui: 
«Porque falar não é mais que buscar companheiros - mesmo quando falas só por falar, por passatempo, buscas um eco de companhia nos que te cercam. E se exteriorizas meditações, se dás formas a pensamentos, ideias, sensações, é com o íntimo fito de ligar a ti os que, sentindo ou pensando do mesmo modo, não tiveram, ou não têm possibilidades de o fazer ainda. Falas, porque desejas que estejam contigo. Fazes um trabalho de ordem colectiva. Comunicas. E só do livre intercâmbio dessas comunicações poderá nascer caminho para qualquer real avanço.» (págs. 14 e 15)

Esta epistolografia também me obriga a levantar algumas questões que se colocam nos dias de hoje se entendermos a importância destas publicações. Hoje, já quase ninguém escreve cartas. O email é o mais usado, já para não falar nos SMS, ou WhatsApp. Valha-nos ainda algumas publicações digitais públicas ou os já antiquados Blogues, que ainda podem reter algumas indicações entre autores e criadores, ou mesmo trocas de opiniões entre eles. Espero que um dia se faça a história epistolográfica, principalmente através de emails, e que seja baseada na pesquisa digital, com a necessária autorização familiar, bem-entendido, como aliás aconteceu neste livrinho. Que muita coisa destas não se perca na nuvem.

domingo, agosto 06, 2023

"A Pedra e o Desenho", Julião Sarmento e Gonçalo M. Tavares

 

A água subiu, mas eu estou bem.
O meu pai morreu, mas eu estou bem.
A minha mulher saiu de casa, mas eu estou bem.
A morte já tocou à campainha, mas eu estou bem. (pag.71)

A linguagem é uma forma de desenhar no espaço vazio, no ar, com mão nenhuma. (pag.49)

Uma exposição de Julião Sarmento, em 2016, «O Peso e o Gesto», fez com que o pintor e desenhador convidasse Gonçalo M. Tavares a escrever os textos para o seu catálogo. O resultado foi o de publicar um outro projecto comum com outros textos do escritor e desenhos inéditos de Julião Sarmento que pouco ou nada teria a ver com os da referida exposição. A morte do pintor, em 2021, impediu-o de ver a publicação do livro em Julho de 2022, mas aí está ele pela mão da Relógio D'Água. Lemos, numa breve nota inicial de Gonçalo M. Tavares, um dos maiores escritores contemporâneos, este trecho que retiro: «No dia da morte de Julião, fiquei com o livro nas mãos, há muito a rever infinitamente as mesmas frases, pensando na inutilidade de tanta coisa e no absurdo. Este livro é, pois, também, uma homenagem ao amigo Julião. Um festejo de vida.»
O desenho e o texto, a colagem e o traço, fazem a maravilha deste estranho «A Pedra e o Desenho». Quem quer que ame o risco, entendido nos dois sentidos que a palavra supõe, gostará deste livro e fixar-se-á obrigatoriamente em palavras e imagens feitas à medida dos dois autores. Registo um que não me sai do pensamento: «(...) O que é o momento decisivo? É o momento em que não podes adiar, tens de marcar com tinta o espaço.
Cuidado: que a mão não trema, não falhes o teu traço.» (pag.64)

quarta-feira, março 29, 2023

«Modos de Ver», John Berger

 

Antígona, 2018
Por mera coincidência, vejo-me a ler dois livros que tiveram a mão de Jorge Leandro Rosa em editoras diferentes e sobre arte. Desta vez prefaciou e traduziu para a Antígona, em 2018, um livro icónico de John Berger. Parece-me evidente que um livro que foi publicado em 1972 e sendo talvez um guião de um programa da BBC, visto por muitos milhares, terá perdido o seu fulgor inicial, mas nem por isso estará arredado da sua atualidade principalmente na relação da arte (conceito hoje ambíguo tal como já o era nos anos 60 e 70) com o mercado e com o espetador. Nem todos os livros de ensaio sobre arte são tão úteis como este. Profusamente enriquecido com motivos pictóricos, publicitários ou fotográficos, John Berger leva-nos a questionar todo o papel da pintura para com quem a vê, como a vê e de que modo pode interagir com ela, se for esse o seu propósito. Isto não impedirá um leitor mais consciencioso do que preguiçoso a ir várias vezes consultar a internet para ver melhor os quadros e relacioná-los com os ''modos de ver'' de John Berger. Aí, a leitura torna-se mesmo estimulante. Um livro a ler e a reter.

«O Prazer no Desenho», Jean-Luc Nancy

 

Sistema Solar, col. Documenta, e Fundação Carmona e Costa, 2022
Não concebo que alguém que desenhe, e que sinta prazer nisso, ignore propositadamente este livro de Jean-Luc Nancy, editado e traduzido por Jorge Leandro Rosa, com iconografia final de Daniel Moreira e Rita Castro Neves.

O livro é composto por 16 capítulos, com igual número de «caderno de apontamentos», que são citações várias sobre o desenho, o traço, a linha sobre uma qualquer papel ou material que a isso se ofereça. Palavras e ideias algo densas, mas não impermeáveis, que nos permitem aclarar de um modo rigoroso que prazer é este do «Prazer no Desenho». Leia-se uma, duas, as vezes que forem necessárias para chegarmos às ideias-mestras do que significa o desenho que estará na base do nosso «desígnio». 

Jean-Luc Nancy morre em agosto de 2021, mas ainda teve tempo (e disposição) de endereçar ao editor um esboço de um prefácio a este livro. Apresenta-se um trecho inicial desse mesmo prefácio: 

««Le Plaisir au dessin» forma em francês uma expressão ambivalente: ou ela fala do prazer que se sente ao desenhar, ou então fala do prazer que se põe ele próprio ao desenhar. Poder-se-á pensar que apenas o primeiro sentido é possível e que o segundo não passaria, no melhor dos casos, der uma metáfora ou mesmo de uma absurdidade. Contudo, foi a mistura das duas significações, como dois aspectos de uma mesma e única realidade, que determinou a escolha deste título.
    Ninguém pode duvidar que se tenha prazer ao desenhar. Todas as culturas o atestam e em todas as culturas se verifica o gosto das crianças pelo desenho sob todas as suas formas. Seja num papel ou numa casca, na areia ou mesmo na água ou no ar, a criança sente satisfação em traçar linhas, contornos. Nem sempre se trata de traçar figuras, mas é sempre uma mostração que está em jogo: alguma coisa deve ser mostrada, posta em evidência, manifestada. Talvez não seja mais do que o próprio movimento da mão, ou então é a sobrevinda de uma emoção, de um pensamento, de uma impaciência ou de uma pausa. Algo que se forma em alguns traços, talvez em cores variadas ou por vezes em simples rabiscos numa cornija ou no chão (...)» (pág. 105)

quinta-feira, janeiro 19, 2023

«Vida a Crédito - arte contemporânea e capitalismo financeiro», Tomás Maia

 

Este é um dos livros mais estimulantes sobre a filosofia da arte contemporânea que foram editados em Portugal nos últimos anos. Tomás Maia, professor das Belas-Artes de Lisboa, consegue aqui uma síntese notável sobre a ligação da chamada «arte contemporânea» com o capitalismo financeiro. Livro algo denso, mas inevitável na utilização de uma linguagem complexa se o objetivo era o rigor de análise que é empreendido pelo autor. Conseguiu-o plenamente. A obra está dividida em quatro capítulos, sendo o primeiro e o último dedicados propriamente à «arte» ou ao que é considerado arte, hoje. Os capítulos dois e três dedicam-se ao valor das mercadorias e o papel do sujeito como produtor e detentor da força de trabalho, utilizando o papel do uso e da troca marxiana, superando inclusive as teorias de Marx com a referência a Debord, Jappe, Kurz entre outros e não deixando de notar a influência de Hegel, Feurbach ou mesmo Kant que precederam Marx. Mas é Adorno (iniciador do conceito de «indústrias culturais») e Walter Benjamim que no capítulo I são motivo de análise mais pormenorizada de Tomás Maia. Ultrapassando em parte a velha questão do «fim da arte» foca-se essencialmente na tentativa de responder ao subtítulo da obra: há ou não uma relação entre a arte e o capitalismo financeiro? A resposta é claramente um «sim». E os exemplos são vários que concretiza sobre esta relação íntima principalmente no capítulo IV.

Fazer uma síntese de uma síntese para uma ficha de leitura é sempre um exercício difícil mas, vejamos: Marx, em «O Capital» já adjetiva a mercadoria como fétiche, embora Anselm Jappe e, antes dele, Kurz do Grupo Krisis, tenha aprofundado o fetichismo da mercadoria como sendo o valor real do capitalismo. Assim a fórmula M-D-M, (mercadoria - dinheiro - mercadoria) seria a base do valor de troca dessas mesmas mercadorias que, aniquilando o seu valor de uso, torna-se mais-valia ou lucro para o detentor dos meios de produção. O capital financeiro que exige lucro infinito transforma-o mais tarde na fórmula D-M-D' que não só traduz a acumulação de dinheiro como o multiplica, tornando a mercadoria um mero instrumento que se esgota em si próprio. Assim, Tomás Maia descreve que o capitalismo financeiro tem agora um objetivo claro: o de tornar a mercadoria obsoleta ou inútil, baseando a sua ação num crédito infinito, ou seja, uma crença que o abraça numa religião cuja base se encontra no cristianismo, incluindo a transubstanciação do dinheiro. Deus, que exige de nós a dívida do perdão e do arrependimento, transforma-se em capital. Melhor: em capital acumulado indefinidamente, volátil, também ele imortal, em dívida permanente para qualquer crente/consumidor, portanto devedor eterno (a «Vida a Crédito»). Portanto, perante a vida a crédito e crescente acumulação que só terminará com a morte do capitalismo (senão mesmo do planeta se não o pararmos) a fórmula será D-D'. É aqui que a chamada arte contemporânea se revê.

Se na tradição da arte ocidental a arte obedece à sequência O-S-O' em que O é o primeiro objeto, S o sujeito-artista e O' o segundo objeto, no plano da «arte» contemporânea se até meados do século XX ainda poderíamos, segundo Maia, identificar o sujeito e a obra (mercadoria) nessa fórmula, hoje encontramos o S-S' não sendo necessária qualquer obra que sustente enormes transações o que determina uma verdadeira contrafação no plano da arte.

Este tipo de «arte» já denunciada por Boris Groys, Ferrari, Berger e outros que Maia cita, mesmo sem concordar totalmente com o primeiro, é acompanhada por um discurso sofisticado, falho de qualquer lógica filosófica, apresentado por curadores (é aqui que ele se afasta de Groys que reconhece o curador como o artista de hoje que nada «explica», não escreve, apresenta instalações onde parodia ou «ironiza» a sociedade, sem mais comprometimentos), folhas de sala salpicadas de palavras que nada dizem (a «falsa doxa» com um discurso aparentemente filosófico mas seu inimigo, que Sousa Dias já desconstruiu em obras editadas e referido igualmente por Maia), museus privados e públicos, fundações que se multiplicam, leiloeiras, marcas de luxo, críticos de arte, colecionadores, administradores de empresas, colaboradores e assistentes proletarizados por «artistas» de obras monumentais de volumetrias estapafúrdias (não sei bem porquê mas lembrei-me de Joana Vasconcelos!), guias e intérpretes mal pagos mas que tentam «interpretar» o artista, etc...etc...

Hoje, a arte contemporânea vale mais que a Bolsa de Valores a nível mundial e Tomás Maia não só dá números, como explica que a tendência é a de aumentar, embora os colecionadores mais ingénuos (digo eu) exijam cada vez mais um mercado regulador do valor das «obras» que aparecem no mercado com cotações absurdas que ninguém sabe de onde aparecem. Aqui não há CMVM's que lhes valha... Basta dizer que em 17 anos o valor do mercado da arte aumento 1400% tendo uma taxa de retorno atual de 7,6% (chega a 12/15% para obras acima dos 100 mil dólares) quando as taxas de juro eram quase negativas! As fórmulas apresentadas anteriormente já deixaram pois de ter sentido pela ausência da própria obra. Só o sujeito-«artista», narcisista portanto, é que vale pelo seu marketing próprio ou na sua posição num ranking mundial. Hoje vende-se por milhões de dólares obras «imateriais», i.e. que não existem de todo. Não resisto a um exemplo que Tomás Maia nos dá: «(...) o The Fine Art Group - um notório fundo privado de investimento em arte - comprou uma obra que ainda não existia. Mais: quando a revendeu com um lucro de 40%, [permaneceu] inexistente a mesma obra (...) e não sendo revelado o nome do «artista» (pág.216)». A arte NTF (non-fungible token) é igualmente significativa da especulação e tende a aumentar; um simples ficheiro jpeg, que reproduziu banalmente milhares de posts, foi vendido como sendo a terceira «obra» mais cara de sempre em leilão, por um «artista» ainda vivo. Não se disse quem era. Mas perante a desmaterialização da arte ou a inexistência da obra, vende o sujeito-artista á simples fórmula marxiana (não marxista que Maia felizmente não utiliza) de S-S'! O artista vende o artista! A obra (mercadoria) já não é necessária.

Concluo tendo em conta o que Tomás Maia refere na página 156 e que me parece importante trazê-la aqui, tentando com isto aclarar um pouco melhor o título do livro, embora saiba de antemão que só o lendo todo e fazendo as necessárias conexões entre os capítulos se consegue ter a visão completa da obra e do pensamento do autor:
«(...) Em toda a parte, desde que há capitalismo, a humanidade submeteu-se ao trabalho a crédito; e, desde que a finança capitalista impera globalmente, a humanidade submeteu-se à vida a crédito. O crédito - doravante co-extensivo à totalidade da vida humana, e doravante decisivo para a reprodução do capital - é então a figura depurada da expropriação do tempo (do devedor) e da apropriação do tempo (pelo credor): a forma final de ucronia, ela própria pensada como finalidade da metafísica (parousia ou fim do Tempo). No capitalismo e, mais particularmente, insisto, no capitalismo financeiro, culmina a metafísica ocidental enquanto ucronia.»

Editora - Sistema Solar/ Documenta
Abril de 2022


quinta-feira, janeiro 05, 2023

«O Hóspede da Casa do Infinito», exposição de Avelino Sá no CAPC

 





"O Hóspede da Casa do Infinito", exposição de Avelino Sá no Círculo Sede (na Castro Matoso) e na Sereia do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra. Até 14/01/2023. Mostro a minha folha de sala riscada como uma cartografia que pretendi identificar. O hóspede é Holderlin. As cores são em técnica de encáustica (uma cera) sobre madeira e os grafismos que lembram, entre outros, Álvaro Lapa, tornam a visita obrigatória. A técnica inovadora de acamar várias ceras sobre madeira criam uma espécie de caderno de pautas de onde saltam palavras e letras. O debate é este sábado às 14:30 no edifício da Sereia em conversa com João Barrento, Fátima Lambert, Luís Quintais e performance poética de Jorgette Dumby. Uma mostra austera, sóbria, viva. Com sentido.