sábado, julho 18, 2026

Flauta de Luz, nº12

 

Flauta de Luz, nº12. Julho de 2026

Mais uma número imperdível de «Flauta de Luz», agora a número 12, publicada com o trabalho de Júlio Henriques e de Joëlle Ghazarian. São 360 páginas de qualidade ímpar para quem o inconformismo anda a par com uma vida de recusa ao Estado e à ordem capitalista tenha ela a forma em que se apresente. Seja a ordem do mercado ou a burocrática. Os temas são tão díspares, quanto são os ataques desta ordem à humanidade. O diagnóstico está feito e parece-me que esta revista não faltarão as fórmulas libertadoras de quem assume essa recusa.

Júlio Henriques assina uma importante análise social da conjuntura na região portuguesa, mas tenham igualmente presente as contribuições de Jorge Leandro Rosa «Pensar a Guerra Enriquece e Ilumina», de Chris Hedges «Declínio e Queda do Império Americano», de Franco Berardi «Introdução ao século XXI», um artigo de Robert Kurz «Imperialismo de Crise», de Joëlle Ghazarian «Esboço (de uma mulher) sobre a Guerra» e «Uma Espécie de Movimento de Fundo», de Pedro Levi Bismark «Primo Levi, Memória e Destino», de Charles Reeve «Educar para Submeter, Socialismo Autoritário e Fascismos», um esclarecedor artigo de Erik Corrêa «Uivos para Sanguinetti» que esclarece muito do que se passou entre este e Debord, um importantíssimo artigo de Phil Mailer (tem editado o novíssimo «Portugal, a Revolução Impossível», pela Antígona) «Obsceno Fascínio da Internet», de Júlio do Carmo Gomes «Kopenawa em Berlim, Quem não Beija não Manduca», de Ivan Illich «Declaração sobre o Solo», e mais artigos entre os quais se contam Anselm Jappe, John Berger, Wendell Berry. 

"O Belo Verão", Cesare Pavese

 

Livros do Brasil, 2021. Tradução de José Lima. 

Li um livro belo, consequência lógica da procura pela obra de Pavese. Lá estão as mulheres e as colinas, forma de fugir às cidades, os cafés sombrios e as ruas dispostas pelas ambições e frustrações humanas. O Sol vigoroso e o calor que faz explodir os sentidos, mas igualmente o frio de Inverno com que acaba o romance. A neve que tapa a nudez da modelo. Duas mulheres radicalmente diferentes, dois homens estranhamente iguais, com comportamentos padronizados. Nesse aspecto compreendemos bem Pavese e o que ele nos oferece dizer sobre as mulheres. Os diálogos são breves, como que amalgamados nos sentidos das personagens. Pouco se diz, muito fica por dizer, mais intuímos na continuação  das situações criadas. As descrições precisas obrigam-nos ao recurso da imagem, enquanto as palavras fluem como os diálogos. Sem quase adjectivos, somente a palavra exacta.

Não me canso de ler Pavese. 

alc

segunda-feira, julho 13, 2026

«Ora Esguardae», Olga Gonçalves

 

Olga Gonçalves (1929-2004)
Leio «Ora Esguardae», livro que gostei bastante de ler quando foi publicado em 1982. Hoje, releio-o não já com o entusiasmo da altura, quando ainda se acreditava vagamente que a democracia parlamentar se teria consolidado numa revolução social então em regressão e a que se chamou, mal, de «prec». Nunca aderi a este acrónimo meio tacanho, aceitando-o contudo por facilitação: aqueles dois anos e meio foram, antes de tudo, uma reposição violenta das condições sociais baseadas na justiça e na liberdade, contra aqueles que durante décadas foram os plenipotenciários disto tudo. Foi uma revolta dos de baixo. Foi a reposição possível do comum da vida. Da dignidade, também. 

O que isto, assim dito, terá a ver com «Ora Esguardae» que quer dizer no antigo galaico-português «olhai e vede»? Tudo. Porque ler esta obra insere-se numa forma de escrita pouco estudada ainda: a de uma literatura social pós-revolução. Hoje achamo-la extremamente ingénua, perguntando-nos como foi possível esta torrente de palavras, grande parte delas quase de improviso, plena de tentativas de inovação literária, rechaçando a página e partindo-a em colunas, propondo-nos poesia a meio da prosa, diálogos infindáveis. A forma e conteúdo em sério confronto. No final, admiramo-nos com as preocupações pedagógicas de Olga Gonçalves (e de muitos outros e outras autores e autoras dos anos 70 e 80) sobre a construção de um país novo, mesmo que corra a risco óbvio de se tornar uma literatura assente em casos conjunturais, muito delimitados. Quem sabe hoje quem foi Mota Pinto ou Nobre da Costa? Mas não é isso o principal dos temas apresentados: a guerra colonial, a repressão da Pide e do Estado Novo, a censura, cujo texto sobre ela foi das coisas mais bem conseguidas de «Ora Esguardae», a reforma agrária e os partidos políticos, as proclamações da liberdade e por aí fora. Este livro foi escrito em 1981, por ironia com uma bolsa literária dada pela Tinker Foundation de Nova Iorque e escolhida por Urbano Tavares Rodrigues, o Tio Urbano, para uma colecção intitulada de «Grandes Escritores Portugueses Actuais» da... Planeta Agostini! No início da década de 80, as coisas já estavam assim, como que a formar um limbo político-comercial em que tudo seria possível. A ingenuidade aparece, consolida-se, quando se não estabelece um padrão de liberdade em que o dinheiro possa ter uma papel neutral. Não tem, nunca teve.

alc

sábado, julho 11, 2026

"Hotel Roma", Pierre Adrian

 

Gallimard. 2024. Col. Folio, 2026.

Um escritor francês ainda pouco conhecido, nascido em 1991, escreve sobre Cesare Pavese. E de que modo o faz! Muito bom seguir os passos de Pavese por onde ele nasceu, trabalhou, passou férias com Calvino, Einaudi, Elsa Morante, Natalia Ginzburg ou Antonioni, lendo cartas breves aos que amou e às mulheres que o descartaram, deslaçando o seu feitio difícil, introvertido e insone. Ele, que compreendia bem as mulheres, com aquelas que privou tomavam-no por um tipo aborrecido, pouco dado a divertimentos. Ler uma obra como esta dá-nos uma confiança que, por paradoxal que possa ser esta afirmação, uma biografia «oficial» não nos daria. Porque estamos perante uma romance admirável sustentado por fontes próximas de Pavese, pelo visionamento de filmes de Antonioni e de outros dos anos 40 e 50, em que teve uma profunda influência, pela leitura atenta de cartas e de trechos dos seus romances que podem dar-nos pistas sobre a sua vida e morte em 1950. Cesare Pavese não deixa de ser um mistério adensado por cada obra que dele se lê. É mais que um enigma, é uma vida constante e o que ela contém de misterioso, perseverante, por um mundo que já não era o seu, como acontece com todos nós chegados a uma certa idade. Com ele foi-o desde sempre. Aquele mundo não era o seu, nunca o foi. A Itália de Resistência, finda a guerra, não lhe levou a mal o seu aparente afastamento. Nunca seria um verdadeiro ''partigiani d'Italia'' já que evitava qualquer conflito, era um pacifista nato, embora próximo do PCI e do seu L'Unità, cuja redacção visitava com frequência, quando não se encontrava na Editora Einaudi. Aliás, chegou a inscrever-se numa secção política de Turim. Era aquilo que se podia chamar de um militante anti-militante, um homem que escreveu o melhor que se poderia ler contra a guerra, pela justiça social e por uma profunda desconfiança no chamado progresso. Preferia subir as colinas com o seu cão e fumar o seu cachimbo, enquanto observava tudo e sentia o sol do Piemonte.

Todos os romances movidos por uma personagem central deveriam ser escritos assim: em viagem, como o fez Pierre Adrian, sem fôlego, mas que nos deixa um rasto de dúvidas e questões impossíveis de resolver a não ser no nosso íntimo. Aí, tudo é resolúvel, as coisas esclarecem-se sem que sejamos suficientemente desbocados para o dizer. É o que acontece com «Hotel Roma», um hotel em Turim transformado em ícone, entre uma estação de comboios, local de partidas constantes, e a casa da sua família há anos. Num domingo, a 27 de Agosto, no quarto 46, Pavese foi encontrado sem vida por um jovem trabalhador do hotel. O seu funeral, conta um amigo ainda vivo, Ferrarotti, contou com imensa gente, embora a Turim que o enlevou se tenha esquecido dele: na livraria ''La Bussola'' na Piazza Vittorio Veneto, que Pavese frequentava bastante, Adrian e uma companheira de viagem, perguntam por obras de Pavese. Depois de uma procura acompanhada pelo sibilar de «Pavese...Pavese...» o livreiro disse que não tinha nada dele. Não é caso único, as livrarias estão como estão e em toda a parte assim é.  

Há uma carta de Italo Calvino a Isa Bezzera, sobre o suicídio de Cesare Pavese, que valerá a pena traduzi-la aqui, mas, obviamente, não toda. Talvez aquela parte que demonstra a perda absoluta que significou o desaparecimento do escritor para Calvino:
«- Perguntar-me-ás, como toda a gente: ''Mas por que é que ele se matou?'' Aqueles que o conheceram ficaram petrificados com a notícia, mas não surpreendidos: Pavese era tentado pelo suicídio, desde a sua adolescência, como pela solidão, as suas crises de desespero, a insatisfação que lhe inspirava a vida, o conjunto dissimulado pela sua natureza fugidia e regressiva. Mas completamente revoltado, eu julgava-o, quanto a mim, que ele era verdadeiramente um duro, um coriáceo, uma trincheira: o género de pessoa em quem se pensa a cada momento de desespero, para se ganhar coragem: no entanto, Pavese manteve-se firme.» (pág.196)

Assim é. Talvez agora se esteja preparado para o «Ofício de Viver», obra póstuma de 1952.

alc

quinta-feira, julho 02, 2026

"A Lua e as Fogueiras", Cesare Pavese

 

Público, col. Mil Folhas, 2002. Tradução de Manuel de Seabra

De Cesare Pavese li, em tempos já remotos, «O Cárcere» e «O Camarada», este último quando era um indefectível jovem militante. O que não esqueci foi a onda de dúvidas que me assolou, quando pretendia exactamente o reforço dos meus ideais que julgava incólumes, indestrutíveis. Não esqueci Pavese, tal como Roger Vailland com o seu «Um Homem Só». Foram livros, e não só esses, que me inocularam a inquietação de pertencer a um partido quer de resistência política, quer de cariz revolucionário. Não aceitava de bom grado, sem mais, algumas das decisões «de cima». Não abandonei, contudo, quer a resistência, quer a revolução. Acredito nelas como construção, como saída, como acção para a liberdade e igualdade. 

Estamos na Itália de 1950, no pós-guerra e já pressentimos a desesperança de Enguia, retornado da América para onde emigrou para fugir à miséria e ao fascismo de Mussolini, e que interrogava Nuto, seu amigo de infância e resistente, por que ficaram a meio de uma mudança política e social que se queria mais profunda nessa Itália a contas com a vingança popular contras os «camisas negras», principalmente a partir de 1943. A ocupação alemã até ao 25 d'Aprile de 1945 fez correr quase tanto sangue como nos quatro anos anteriores. A luta de classes aí está descrita, as opções políticas que obrigavam a um fim quase sempre trágico, de ambos os lados, mais a mais quando se tem um país ocupado pelos alemães, o fascismo não completamente morto, ele nunca está de facto, e a miséria ainda a grassar teimosamente entre os camponeses sem terra, ou com rendas e deveres exorbitantes pagas aos terratenentes ricos. Os operários, esses, levantavam-se em lutas sindicais enquanto se empenhavam simultaneamente na reconstrução e na possibilidade dos comunistas chegarem ao poder por via eleitoral.

Há uma leve nostalgia neste livro de Pavese, até porque foi o seu último. Provavelmente já sentido a morte que se aproximava pelo suicídio no exacto ano de 1950, data da publicação de «A Lua e as Fogueiras». Estas fogueiras não são somente as de S. João, mas todo o fogo tomado pela violência que a miséria suscita. Tal como as hordas fascistas que se reciclaram em democratas, apesar dos fuzilamentos, apesar dos tribunais populares, apesar da resistência e acção de desfascistização levada a cabo pelos partigiani

E nós, em Portugal, fizemo-la? Pergunta que é impossível não a circunscrever perante a leitura atenta de «A Lua e as Fogueiras». O tão necessário julgamento dos torcionários do fascismo luso, dos crimes do colonialismo e da guerra colonial, das torturas como sistema, da morte programada de resistentes, da censura, da acção da PIDE e da Legião? Fizemo-la? Não creio que alguma vez houvesse coragem de praticar séria e coordenadamente a dessalazarização do país, nas escolas, nas instituições, na saúde, na assistência, na justiça, na cultura. Alguém a travou e não foram só os cravos a entupirem as G3, como nos lembrava, a tempo, Mário-Henrique Leiria. Houve na Alemanha, na Itália e no Japão. Os que não tiveram esse percurso deu-se mais facilmente o recrudescimento do fascismo, como na Áustria (aqui não houve desnazificação) e na Europa de Leste, malgrado terem tido quase 50 anos para o fazer, embora o nacionalismo condicionasse por vezes o combate ao fascismo como deveria ter sido feito. Na URSS e na RDA os nacionalistas de direita não eram tão incomodados como a oposição de esquerda. Portugal e Espanha não o fizeram, optou-se pela brandura e esquecimento e pela reconciliação hipócrita. Nunca houve uma reconciliação sequer, mas sim um prolongamento do rancor. Pagaremos por isso? Claro que sim e os nossos jovens escritores e artistas terão outros temas mais prementes a serem discutidos do que este. Se na Itália não é verosímil, mesmo com um governo de extrema-direita um qualquer topónimo que lembre Mussolini, se na Alemanha os familiares de Hitler e sequazes tiveram de mudar de nome, digam-me se neste momento, em Portugal, uma modesta proposta de erguer um museu-memória de Salazar era possível? Não só era possível, como já existe. Pavese, neste «A Lua e as Fogueiras» sem levantar estas questões (estávamos somente a 5 anos do fim do fascismo italiano) coloca-nos esta dilema verificando que mantinha, afinal, tudo na mesma. Tal como o seu suicídio, o dilema final mais violento que pode existir.

alc