quinta-feira, julho 02, 2026

"A Lua e as Fogueiras", Cesare Pavese

 

Público, col. Mil Folhas, 2002. Tradução de Manuel de Seabra

De Cesare Pavese li, em tempos já remotos, «O Cárcere» e «O Camarada», este último quando era um indefectível jovem militante. O que não esqueci foi a onda de dúvidas que me assolou, quando pretendia exactamente o reforço dos meus ideais que julgava incólumes, indestrutíveis. Não esqueci Pavese, tal como Roger Vailland com o seu «Um Homem Só». Foram livros, e não só esses, que me inocularam a inquietação de pertencer a um partido quer de resistência política, quer de cariz revolucionário. Não aceitava de bom grado, sem mais, algumas das decisões «de cima». Não abandonei, contudo, quer a resistência, quer a revolução. Acredito nelas como construção, como saída, como acção para a liberdade e igualdade. 

Estamos na Itália de 1950, no pós-guerra e já pressentimos a desesperança de Enguia, retornado da América para onde emigrou para fugir à miséria e ao fascismo de Mussolini, e que interrogava Nuto, seu amigo de infância e resistente, por que ficaram a meio de uma mudança política e social que se queria mais profunda nessa Itália a contas com a vingança popular contras os «camisas negras», principalmente a partir de 1943. A ocupação alemã até ao 25 d'Aprile de 1945 fez correr quase tanto sangue como nos quatro anos anteriores. A luta de classes aí está descrita, as opções políticas que obrigavam a um fim quase sempre trágico, de ambos os lados, mais a mais quando se tem um país ocupado pelos alemães, o fascismo não completamente morto, ele nunca está de facto, e a miséria ainda a grassar teimosamente entre os camponeses sem terra, ou com rendas e deveres exorbitantes pagas aos terratenentes ricos. Os operários, esses, levantavam-se em lutas sindicais enquanto se empenhavam simultaneamente na reconstrução e na possibilidade dos comunistas chegarem ao poder por via eleitoral.

Há uma leve nostalgia neste livro de Pavese, até porque foi o seu último. Provavelmente já sentido a morte que se aproximava pelo suicídio no exacto ano de 1950, data da publicação de «A Lua e as Fogueiras». Estas fogueiras não são somente as de S. João, mas todo o fogo tomado pela violência que a miséria suscita. Tal como as hordas fascistas que se reciclaram em democratas, apesar dos fuzilamentos, apesar dos tribunais populares, apesar da resistência e acção de desfascistização levada a cabo pelos partigiani

E nós, em Portugal, fizemo-la? Pergunta que é impossível não a circunscrever perante a leitura atenta de «A Lua e as Fogueiras». O tão necessário julgamento dos torcionários do fascismo luso, dos crimes do colonialismo e da guerra colonial, das torturas como sistema, da morte programada de resistentes, da censura, da acção da PIDE e da Legião? Fizemo-la? Não creio que alguma vez houvesse coragem de praticar séria e coordenadamente a dessalazarização do país, nas escolas, nas instituições, na saúde, na assistência, na justiça, na cultura. Alguém a travou e não foram só os cravos a entupirem as G3, como nos lembrava, a tempo, Mário-Henrique Leiria. Houve na Alemanha, na Itália e no Japão. Os que não tiveram esse percurso deu-se mais facilmente o recrudescimento do fascismo, como na Áustria (aqui não houve desnazificação) e na Europa de Leste, malgrado terem tido quase 50 anos para o fazer, embora o nacionalismo condicionasse por vezes o combate ao fascismo como deveria ter sido feito. Na URSS e na RDA os nacionalistas de direita não eram tão incomodados como a oposição de esquerda. Portugal e Espanha não o fizeram, optou-se pela brandura e esquecimento e pela reconciliação hipócrita. Nunca houve uma reconciliação sequer, mas sim um prolongamento do rancor. Pagaremos por isso? Claro que sim e os nossos jovens escritores e artistas terão outros temas mais prementes a serem discutidos do que este. Se na Itália não é verosímil, mesmo com um governo de extrema-direita um qualquer topónimo que lembre Mussolini, se na Alemanha os familiares de Hitler e sequazes tiveram de mudar de nome, digam-me se neste momento, em Portugal, uma modesta proposta de erguer um museu-memória de Salazar era possível? Não só era possível, como já existe. Pavese, neste «A Lua e as Fogueiras» sem levantar estas questões (estávamos somente a 5 anos do fim do fascismo italiano) coloca-nos esta dilema verificando que mantinha, afinal, tudo na mesma. Tal como o seu suicídio, o dilema final mais violento que pode existir.

alc