Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

"Um Bárbaro no Jardim", Zbigniew Herbert

Cavalo de Ferro, 2019. Tradução do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
As impressões de viagens de um poeta pela sua escrita. A História mesclada com errâncias, pensamentos, descrições naturais, construídas pelo polaco Zbigniew Herbert, cuja poesia estou ainda a conhecer. Tenho comigo a sua «Poesia Quase Toda» e faltará pouco para eu iniciar a sua leitura. «Um Bárbaro no Jardim» é um livro que poderemos comparar aos de Claudio Magris ou aos do seu conterrâneo Ryszard Kapuscinsky tal a quantidade de temas díspares num mundo unido por manifestações de beleza e de profundidade que ainda perduram teimosamente, ou ao que dele resta. A ironia, o espanto e até o amor moram nestas páginas.

Imaginem as grutas paleolíticas de Lascaux e as suas pinturas parietais que se movem num espaço sagrado, animista. Herbert lembra-nos uma evidência que por vezes esquecemos quando falamos destas pinturas fantásticas: esses desenhos produzidos por mãos artísticas, para além de belas, não eram estáticas e observadas com luz artificial como a de hoje, mas antes por tochas e fogueiras votivas. As escuras grutas que as envolvem eram palco de rituais que se perderam no tempo e «moviam-se» entre a luz e sombra envolvidas pelo fogo. Enquanto estamos concentrados nessa leitura e necessariamente embrenhados nesse ambiente, surge-nos André Breton, o papa do surrealismo, a mostrar o dedo indicador sujo de ocre de um touro e a bradar «é falso!», não evitando pesada multa e ignorando que as pinturas foram salvas exactamente pela existência de uma humidade salina e calcária que as mantiveram incólumes durante milhares de anos. Breton provocou um claro anti-clímax, o contrário do objectivo último do Surrealismo, que não teve culpa nenhuma da sua autoproclamada chefia. Não saberemos se a opção de edificar uma gruta artificial ao lado da de Lascaux não terá que ver com estes arroubos emocionais, mas hoje encontram-se a salvo. 

As impressões do viajante continuam: a arquitectura dórica, que Herbert dá mostras de conhecer bem, é desfiada ao pormenor, desde as suas colunas e capitéis despidas de ornamentos supérfluos, à anulação das ilusões de óptica que os gregos sabiam que o olho humano estava sujeito. A arquitectura grega dá lugar, então, ao gótico das grandes, enormes, catedrais francesas como em Arles, Saint-Denis ou Nôtre-Dame, mas Herbert não se fica somente pelo pormenor da técnica dos mestres canteiros e dos arquitectos geralmente anónimos ou apócrifos, como se o trabalho destes não fosse importante, se desvanecessem perante o objectivo principal da construção que era, sem dúvida, a obediência a Deus e à cidade que a criou, como se a grandeza do dinheiro e da riqueza burguesa estivesse bem ciente do seu poder debaixo, ou ao lado, de uma omnipotência bem maior. Mas o poeta lembra-nos igualmente do povo que construiu as catedrais que foram feitas literalmente «com as mãos» e que ultrapassavam em muito a consciência espiritual da Igreja: «As catedrais eram motivo de orgulho e um sinal de poder que se avistava ao longe. Mas eram também um lugar de encontros e actividades laicas. O homem medieval sentia-se na igreja como em casa. Às vezes aí comia, dormia e conversava, sem baixar o tom de voz. (...) aí se resguardava do mau tempo. As proibições eclesiásticas que proíbem a realização a realização de reuniões seculares nas igrejas indicam que provavelmente tal deve ter sido uma prática generalizada. Os vitrais não versavam somente sobre a vida dos santos, mas também, caso se possa comparar as coisas grandes com as pequenas, desempenhavam a função de publicidade de néon de hoje, ao anunciarem vendedores de têxteis, carpinteiros ou sapateiros.» (pág.122) Tal como nos avisam vários historiadores da Idade Média, também Zbigniew Herbert lembra-nos que o trabalho (recordo-me de Henri Pirenne sobre este tema) não era uma escravidão absoluta como por vezes somos levados a crer: em 365 dias de um ano, contando com os domingos e com 50 dias santos, trabalhava-se 250 dias efectivos, com várias pausas diárias no verão bem maiores que no inverno. Isto sem contar com os falecimentos, baptizados e casamentos que as corporações convocavam. Coisas tão terrenas, faziam com que as greves fossem igualmente uma oportunidade dos estratos sociais mais carecidos para melhorarem as suas parcas condições salariais. A primeira greve vencedora que o poeta nos dá conta, em pleno século XII, é a da construção do Mosteiro de Obazine. 

Siena foi uma cidade italiana que Herbert visitou e que nos descreve o poder das famílias condottieri que se guerreavam entre si por gerações, muitas delas, esquecendo porque alimentavam tal ódio, diremos nós. Tipos cruéis, sem pingo de compaixão perante os inimigos, sedentos de poder e de riqueza que não olhavam a meios para atingir os seus fins. As comunas e a Igreja só em parte aplacavam esta ira familiar e durante o Renascimento estas famílias tiveram o seu auge político, não sem que o termo «maquiavélico» tivesse ganho o seu significado actual. 

A pintura é outro dos motivos que leva Herbert a escrever as mais belas páginas de «Um Bárbaro no Jardim» e fico-me somente pelas palavras que dedica a Piero della Francesca, recuperado em toda a sua importância, tardiamente, no século XIX. É por causa dele, mas igualmente de Giotto ou Cimabué, que visitamos as Galerias Uffizi, em Florença, e a de Brera, em Milão, onde os pintores estão bem representados. Se conseguirem ultrapassar comodamente a enormes filas de turistas ou tirarmo-los da frente dos quadros a fotografarem-se, diríamos nós.

Páginas impressionantes são dedicadas à heresia cátara pela recém-criada Inquisição dominicana e à dissolução e posterior criminalização dos Templários. Embora completamente díspares nos seus propósitos, Herbert deixa-nos um fio de horror pelo que se passou na repressão aos cátaros do sul francês. A heresia - Herbert coloca bem a possibilidade de não estarmos perante uma heresia, mas sim de uma nova religião, tal a diferença de pressupostos face ao cristianismo - foi, durante dezenas de anos alvo da repressão mais sangrenta por parte do papado e dos dominicanos (os autodenominados «cães de Deus»!) em que se confundia o espiritual com o terreno político mais sórdido. Quem conhece relativamente bem a região d'Oc, a Ocitânia, sabe que o rancor surdo ao Norte francês ainda perdura nos dias de hoje sob múltiplas formas de coesão social e de resistência cultural. A repressão brutal e maquiavélica sobre os Templários é outra questão que o autor não deixa de sublinhar explicando que «Na História, nada se encerra definitivamente. Os métodos aplicados para combater os Templários entraram no repertório das autoridades. Por isso, não podemos deixar este caso distante aos dedos pálidos dos arquivistas.» (pág.202) Num tempo em que as perseguições ao pensamento livre começam a ganhar forma nunca será demais lembrar como se pode urdir uma teia imaginária de factos que podem levar à prisão, à tortura e à morte, mesmo em sociedades aparentemente «abertas» e civilizadas. O improvável está sempre à espreita. 

Por fim, Herbert passeia connosco, solitariamente, na companhia de Rousseau, em Ermenonville. Não só desenvolvendo a chamada teoria dos jardins, mas enveredando pelos meandros do Classicismo e do pré-Romantismo. Nada melhor que esta despedida de um livro notável, na companhia de Rousseau. Passeamos com Jean-Jacques por uma «poética, um catálogo de figuras e de tropos, só que explicáveis por meio de cascatas, pontes, tufos de árvores, ruínas artificiais. Aí havia tudo o que era necessário a um coração afectuoso: ''a gruta dos encontros secretos''; ''o banco da mãe fatigada''; ''a sepultura do amante infeliz''. A história revelou-se cruel para estas plântulas de sentimentalismo.» (pág.244) 
Sim, é possível que a história entre em conflito com o sentimentalismo, mas os românticos nunca o pretenderam saber.

alc

segunda-feira, dezembro 09, 2024

«Melancolia em Tempos de Perturbação», Joke J. Hermsen


Melancolia 1, Albrecht Dürer, 1514
Livro interessante que versa uma pequena história da melancolia a que hoje chamamos erradamente de depressão. Isto porque o estado melancólico passou por tantas fases e teve tantas interpretações que temos muita dificuldade em acertarmos o passo num conceito minimamente comum e geral. Talvez assim até seja melhor. Ainda hoje se pode entender a melancolia como um estado de felicidade interior que busca na arte, na música, na literatura, no teatro e na poesia uma referência e uma experiência intensa, sem que para isso seja imediatamente considerado um estado patológico grave. Lá chegaremos, mas agora ainda não. A holandesa Joke Hermsen consegue, com êxito, construir a história da melancolia desde Platão até aos nossos dias. E tem interesse saber, ou especular, como passámos de um dito estado melancólico desde os tempos medievais ao romantismo e ao spleen de Baudelaire até aos escuros tempos de hoje. Pois é, mais uma vez o capitalismo e a evecção do tempo que gera dinheiro, consumo exacerbado e despersonalização do indivíduo não sai daqui incólume. Como se sabe, o sistema capitalista apropriando-se do nosso corpo e  teleguiando os nossos desejos, não é de somenos a autora atirar-lhe com as culpas para cima devido ao aumento exponencial de estados depressivos no mundo actual. Da alegria e felicidade melancólicas até à depressão generalizada foi um pequeno passo de poucos séculos. A «melan chole» aristotélica que quer dizer, traduzido à letra, «bílis negra» e que fez nascer a palavra «melancolia» que era teorizada como «inspiradora de ideias geniais», embora fosse exigido que não estivesse «demasiado fria, nem demasiado quente». Deixo-vos com «Melancolia 1», de Albrecht Dürer e a análise interessantíssima que Joke Hermsen faz deste quadro de uma época, a Renascença, que talvez tenha sido a que maior importância deu, elevando-o aos píncaros, o feliz estado melancólico (talvez clicando na gravura vejam melhor):

«A ligação estabelecida, durante o Renascimento, entre a melancolia e a sabedoria está especialmente patente na gravura mais famosa daquela época, a alegoria de Albrecht Dürer intitulada Melancolia I, com data de 1514. Uma mulher alada, sentada numa atitude melancólica, aparece rodeada de atributos que remetem para o conhecimento e a sabedoria, como o compasso que tem na mão, as volumosas figuras geométricas que estão em seu redor e o tinteiro apoiado no chão, junto de um estojo para penas. No entanto, o que melhor define a gravura é que a figura protagonista não faz nada com nenhum desses atributos, limitando-se a contemplar o vazio, mergulhada nos seus pensamentos. Esta Melancolia afastou-se do mundo à espera de um momento de inspiração. Na parede, há um quadro mágico com números, cuja soma oferece o mesmo resultado na vertical, na horizontal e na diagonal, neste caso, trinta e quatro. (...) Por trás da angelical mulher alada, que leva na cabeça uma coroa de louros, há dois objectos que simbolizam duas vertentes distintas do tempo: a balança de Kairós, deus do momento oportuno, e a ampulheta Cronos, que marca a passagem do tempo, e, por meio disso, recorda-nos a transitoriedade da vida.
Por baixo da balança há um «putto», um anjinho, que simboliza o nascimento de uma ideia depois de se esperar pelo momento oportuno, examinar atentamente as circunstâncias e encontrar a justa medida.» (Pág. 31,32)

Importante é o destaque que a autora atribui ao trabalho determinante de Lou Andrea-Salomé sobre Nietzsche (e não só sobre ele), de Julia Kristeva e também de Hanna Arendt, principalmente no que respeita ao tempo, neste caso o Kairos e não Cronos, para o aparecimento da obra de arte, seja em que formas for. «Aqui, quero relacionar o tempo kairótico principalmente com a experiência estética e o possível efeito catártico da arte, numa tentativa de reflectir em mais profundidade sobre a importância da música, da literatura, do cinema, do teatro e das artes plásticas, para mantermos uma relação saudável com a nossa melancolia.» (pág.73)

Joke Hermsen não é poupada nos termos que dirige à extrema-direita europeia e americana, aos totalitarismos vários que se perfilam igualmente em todo o mundo, visto que são claramente responsáveis, tal como ao capitalismo, pela xenofobia e pela repressão dos sentidos, e são, ao fim ao cabo, inimigos do homem e mulheres biológicos (aqui entra o conceito de biopoder de Agamben, também referido no livro). A imposição do não conhecimento dos outros, impele ao pensamento único, à sociedade totalitária, à unicidade social e étnica; ou seja, à impossibilidade do 'momento único', oportuno, porque tudo é trabalhado para o seguimento do tempo, a linha do tempo do nascimento à morte, que é o controlo total da humanidade e o princípio primeiro do totalitário. Para sermos verdadeiramente humanos precisamos de contemplação e paragem do tempo. Um livro bastante interessante de ler.


«Melancolia em Tempos de Perturbação», de Joke. K. Hermsen
Quetzal, 2022
Tradução de Maria Antónia Vasconcelos

alc

segunda-feira, março 18, 2024

«O Princípio de Tudo - Uma nova História da Humanidade», David Graeber e David Wengrow

 

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício
É mesmo uma perspectiva original. Aqui não há embustes com o adjectivo «novo» que muitos autores utilizam para vender o seu produto, muitas vezes com hipóteses mal construídas ou sem verificação científica. David Graeber (1961-2020), juntamente com David Wengrow, apresentam-nos um livro tão consistente quanto interessante de se ler. As questões formuladas variam quer no grau de provocação académica no campo da Antropologia e na História, quer na inteligência viva como são apresentadas. Muitas delas são óbvias e, por isso mesmo, desconcertantes. Por exemplo: a História tendo teimado durante tanto tempo na cronologia evolucionista, isto é, do Paleolítico ao Neolítico e das «civilizações» urbanas e teocráticas à Idade Clássica, desta aos Impérios, seguindo-se depois as conhecidas «idades», não se limitou a criar compartimentos estanques que «esqueceram» períodos intermédios de séculos, se não mesmo de milénios, em que, faltando registos escritos ou arqueológicos, foram arrumados numa espécie de «idades das trevas», mas provavelmente tão ricas sociológica e politicamente como as que foram estudadas mais profundamente? Isto dar-se-ia essencialmente naquilo a que chamamos de Pré-História. A velha sequência de caçadores recolectores, logo nomadismo, agricultores, logo sedentarismo, criação de cidades, logo hierarquias políticas e aparecimento de estados teocráticos, não será demasiado simplista? E se nada disto se tivesse passado e as estruturas socias do nomadismo conviveram amiúde com o sedentarismo que nunca o terá sido verdadeiramente? E se os nómadas recolectores a que vulgarmente associamos a sociedades «igualitárias» não o fossem tanto assim, nem os primeiros agricultores permanecessem em sociedades «desiguais»? E se se complementassem em sociedades onde o predomínio da recolecção fosse de algum modo complementado com uma agricultura «a brincar»? Isto durante milénios, não vendo a humanidade qualquer vantagem numa agricultura intensiva. E se, nas grandes cidades como Uruk ou Çatal Hüyük, no chamado Crescente Fértil, houvesse menos desigualdade quanto imaginamos hoje ou que o poder sacerdotal e político convivesse com grandes assembleias populares e organizações de bairro, tornando os primeiros uma espécie de poder teatral? E se a agricultura não teve origem só no Crescente Fértil, mas ao mesmo tempo, ou até muito antes, em cidades maiores na Ucrânia e na América Central?  E se as sociedades primitivas fossem de facto igualitárias, com chefes que não eram obedecidos ou só o fossem em caso de guerra? E se os filósofos iluministas tivessem tido conhecimento destas sociedades igualitárias nomeadamente as das Cinco Nações índias que iam do Québec e Ontário ao que é hoje St. Louis e Florida e que as críticas indígenas à sociedade europeia branca tivessem sido estudadas por Rousseau ou Montesquieu, tendo-as passado para os seus ensaios em «As Origens da Desigualdade...» ou o «Espírito das Leis», respectivamente? Os autores apresentam dados convincentes para que estes factos tenham sido bem reais do que à primeira vista podem parecer. O mesmo quando se aplica o conceito de «guerra» e escravatura em sociedades ditas primitivas.

Mas fiquemos com um trecho dos autores na conclusão de «O Princípio de Tudo»: «Os teóricos sociais têm uma tendência para escrever sobre o passado como se tudo o que aconteceu pudesse ter sido previsto antecipadamente. Esta postura é um pouco desonesta, pois todos sabemos que, quando tentamos realmente prever o futuro, quase sempre nos enganamos - e isto aplica-se tanto aos teóricos sociais como a todas as outras pessoas. Não obstante, é difícil resistir à tentação de escrever e pensar como se o estado actual do mundo, no início do século XXI, fosse o desfecho inevitável dos últimos dez mil anos de História, apesar de, evidentemente, não termos uma verdadeira ideia de como será sequer o mundo em 2075, quanto mais em 2150.
Quem sabe? Se a nossa espécie perdurar e um dia olharmos para trás, a partir desse futuro ainda desconhecido, talvez os aspectos do passado remoto que agora parecem anomalias - como, por exemplo, as burocracias que funcionavam a uma escala comunitária; as cidades governadas por conselhos de bairro; os sistemas de governo em que as mulheres tinham uma preponderância nas posições formais; ou os modos de gestão da terra baseados no cuidado e não na posse e na extracção - venham a ser considerados os verdadeiros avanços significativos e as grandes pirâmides ou estátuas de pedra se pareçam mais com curiosidades históricas. E se partíssemos agora dessa abordagem e olhássemos, digamos, para a Creta minóica ou a cultura hopewell [indígenas do leste americano] não como pequeos desvios aleatórios num caminho que leva inexoravelmente a Estados e Impérios, mas como alternativas: estradas não tomadas?» (págs. 589/590)

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício


quarta-feira, novembro 15, 2023

«Cosmos - Uma Ontologia Materialista», Michel Onfray

 

Edições 70, 2015. Tradução de Pedro Elói Duarte
Este é o primeiro volume de uma trilogia fundada por Michel Onfray, sendo que o segundo já é o nosso conhecido «Decadência» publicado em 2019 e já comentado aqui no blogue: https://derivadaspalavras.blogspot.com/2019/12/o-estado-morreu-o-cristianismo-tambem.html . O último da trilogia não está ainda disponível em português e tem o título de «Sagesse».  Nietzschiano de esquerda (embora afastando-se de Deleuze), ateu, hedonista e vitalista, livre pensador e libertário, nem por isso Onfray deixa de ser por vezes desconcertante e provocador, mas, sem essa qualidade, poucos o leriam e o comentariam. É mais do que necessário, num mundo ocidental em clara ruptura, saber dos pressupostos filosóficos que o norteiam e que são apresentados com grande clareza ontológica. O mais interessante em Onfray, para além de uma honestidade e seriedade que podemos sentir em todas as ideias apresentadas nas perto de 500 páginas de «Cosmos», é o seu apego ao materialismo. Não um materialismo básico, daquele que nos reenvia para a mesma fé cega das igrejas e mesquitas ou do monoteísmo das religiões do livro, mas, paradoxalmente, para um materialismo primitivo, hedonista, epicurista, cosmológico. É neste sentido que nos identificamos com as propostas de Michel Onfray porque não cai na vulgaridade, embora não seja nada meigo para com o legado judaico-cristão. Legado esse que ainda é observado em múltiplas reminiscências quer na filosofia, quer na arte contemporânea, mesmo naqueles que propõem o afastamento das religiões. Não é contraditório. É, antes, complexo tudo isto e o olhar de Onfray remete-se para essas pequenas grandes manifestações em que a religiosidade é apanhada em falta, envolvendo-nos na sua negatividade com uma capa de «provocação» e «novidade». A proposta de uma ontologia materialista, sub-título de «Cosmos», não é fácil: a vida em comunidade com o cosmos, com o universo é muito mais difícil de interiorizar do que ir à missa e crer em algo impossível de provar a existência. A materialidade do universo está connosco e não só com o corpo, mas com os átomos de que tudo é feito. Para lá caminhamos (para o universo) e essa fusão final está carregada de uma ontologia que vem dos inícios dos tempos da Humanidade. Basta conhecê-la e compreendê-la, por vezes afastando-nos das pesquisas oficiais e académicas, e preparar a vida merecida de ser vivida em comunidade activa com a Natureza e com os outros. A minha proposta é conhecer esta obra com alguns trechos breves e escolhidos no desejo que seja lido na íntegra.

Sobre o tempo:
«(...) O esquecimento do tempo virgiliano é causa e consequência do niilismo da nossa época. Ignorar os ciclos da natureza, desconhecer os movimentos das estações e viver apenas no betão e no betume das cidades, no aço e no vidro, nunca ter visto um prado, um ampo, uma mata, uma floresta, uma mata de corte, uma vinha, uma pastagem, um rio é já viver no jazigo de cimento que um dia alojará um corpo que nada terá conhecido do mundo. Assim, como encontrar o nosso lugar no cosmos, na natureza, na vida, na nossa vida, se vivemos num mundo de motores poluentes, de luzes eléctricas, de ondas insidiosas, de sistemas de viodeovigilância, de ruas alcatroadas, de passeios cheios de dejectos de animais? Sem outra relação com o mundo senão a de um objecto num mundo de objectos, é impossível sair do niilismo.» (páginas 30 e 31)

Sobre  a «construção de um contratempo»:
«(...) este tempo dissociado das suas ligações ao passado e ao futuro, este tempo não dialéctico, este tempo intemporal define o tempo morto. Vivemos no tempo morto construído pelas máquinas de virtualizar o real. (...) Este tempo morto, portanto, nada mais permite que não a morte. Não é o tempo suspenso do místico pagão ou do sábio que sabe alcançar o sublime, o êxtase e o sentimento oceânico, mas a presença vazia e oca neste mundo como se fosse já um nada. Da mesma maneira que encontramos o silêncio no próprio coração da música descascada como uma cebola, encontramos a morte quando retiramos as escamas deste tempo do niilismo. No vazio mais íntimo do plano da televisão, na sinuosidade mais indetectável da fala radiofónica, no epicentro da mensagem do Twitter ou de correio electrónico, só há magia, ilusão, ficção tomada por realidade - a realidade, a única realidade. Somos sombras que vivemos num teatro de sombras. A nossa vida é geralmente a morte.» (Pág. 109)

Sobre Nietzsche:
«Nietzsche, justamente. Quem quiser sabe, agora sabe: A Vontade do Poder não é um livro de Nietzsche, mas um produto de marketing e de política antissemita e fascista posto no mercado pela sua irmã amiga do Duce e de Adolfo Hitler. Há tudo e o seu contrário neste livro volumoso confeccionado com notas de leitura, citações de autores não referenciadas, pistas de trabalho, esboços de demonstração, ensaios de pensamento, tentativas de reflexão abortadas e até, provavelmente, acrescentos da irmã do filósofo sob o pretexto de recopiar as páginas manuscritas perdidas (!) do irmão - tudo menos aquilo que define habitualmente um livro.» (pág.112)

Sobre o «vitalismo»:
«O Ocidente tem dificuldade em olhar de frente a materialidade da natureza e em encarar o que subsistiria de culturas vitalistas no planeta. O cristianismo praticou um etnocídio planetário a partir de 1492. As civilizações ameríndias do Norte, de Centro e do Sul, os índios e os Maias, os Astecas e os Olmecas, os Maias e os Toltecas, os Zapotecas e os Mixtecas, as civilizações árticas inuítes, as numerosas civilizações africanas colonizadas e depois destruídas pelos militares e missionários vindos dos países europeus, como a França, a Bélgica, a Alemanha, a Inglaterra, o islamismo, também destruidor da cultura dos países que conquistou, todos esses povos que mantêm uma relação sagrada com a natureza e não com o seu hipotético criador.
Antes das devastações efectuadas pelo Ocidente, a África foi a grande terra do sagrado na natureza e da natureza no sagrado, sem que houvesse transcendência alienante: os espíritos dos mortos viviam entre os vivos e vice-versa, tudo nesta terra (...).» (pág.125)

quinta-feira, outubro 26, 2023

«Europa Medieval», Chris Wickham

 

Edições 70, 2019, Tradução de Marian Toldy e Teresa Toldy
Sendo uma história generalista da Europa, não deixa de ser um livro muito interessante e até certo ponto imprescindível se nos ativermos às questões novas que nos coloca. Chris Wickham, professor medievalista em Oxford, não entra numa ruptura completa com a História do século XX, citando várias vezes os trabalhos fundamentais de Marc Bloch, Le Roy Ladurie ou Georges Duby para só falar de alguns referidos por ele. A sua proposta é outra: a partir desses dados e das fontes utilizadas, portanto sérias, ele parte para outras conclusões que não deixam de nos surpreender pela lógica dos grandes movimentos estruturais da História da Europa. Não sendo taxativo nas afirmações, questiona, recompõe, critica, inova no sentido de se basear em novas fontes e na arqueologia. A interpretação que faz ao nível da cultura e das mentalidades medievais é onde reside o seu principal foco científico, mesmo que essa transmissão seja essencialmente baseada nos escritos das elites. 

Wickham provoca o leitor de uma forma responsável avançando com questões que nos incomodam pela novidade e mesmo pela sua verosimilhança. Só darei poucos exemplos, mas resume-se alguns deles: «Se o Império Romano não tivesse caído? Se o Império, que não caiu do lado oriental até ao século XV, tivesse igualmente permanecido com as suas instituições reformadas e pequenas mudanças ou retraimentos na Europa Ocidental cimentando-se no direito romano e canónico?»; «E se a tomada (e destruição) de Constantinopla do Império Otomano na Quarta Cruzada não foi um retrocesso grave no desenvolvimento global da Europa Ocidental?»; «E se a tributação fiscal e centralização do poder no Império Bizantino, juntando-se a um comércio de longo curso fosse adoptado pelos reinos belicosos da Europa Ocidental o protocapitalismo não teria chegado mais cedo obrigando a uma necessária revolução industrial, mesmo que incipiente?»; «E se o chamado desenvolvimento económico do século XII na Europa Ocidental não o foi assim tanto, tendo predominado muito mais as trocas directas entre as pequenas cidades e o campo, muito mais dinâmico que o comércio externo das ligas hanseáticas, das feiras de Champanhe ou das cidades italianas, sobrevalorizadas pelos historiadores até agora?»; «E, retirando o cinismo inerente à hipótese, se a Peste Negra de 1348-50 fosse antes um alívio face ao aumento demográfico exponencial do século XII e XIII, sem que houvesse tecnologias para aumentar a produção agrícola ou a desflorestação que teve necessariamente de se pôr cobro devido ao esgotamento de recursos disponíveis?»; e continua as suas «provocações» sendo que há uma delas que não posso deixar de citar. Trata-se de muitas vezes olharmos para as cidades como sendo um espaço de liberdade para os camponeses e artesãos face à extrema exploração tributária dos senhores da terra nos campos. Ora se olharmos para as leis municipais veremos uma elite burguesa muito associada à aristocracia terratenente com leis e práticas dominantes nada simpáticas aos migrantes internos sujeitos a leis brutais. A circulação de moeda, principalmente de prata, ao contrário do Império Bizantino que a cunhava em ouro e de circulação abundante, continuou a perpetuar a troca directa em detrimento do propalado «desenvolvimento» deste século.

O interesse deste livro tem a ver, igualmente, com a visão global que temos de uma Europa Ocidental que permaneceu tempo demais com instituições e economias cuja necessária transformação não acompanhou estados e regiões que seriam muito mais dinâmicos durante a Alta e Baixa Idade Média, como a China, a Índia ou o próprio Império Bizantino este último muito mais sólido cultural, política e economicamente falando. A perspectiva eurocêntrica é assim abandonada e não deixa de ser curiosa a posição de Chris Wickham sobre a expansão do século XVI (data limite do estudo) iniciada por portugueses e espanhóis cuja contribuição para o desenvolvimento do capitalismo comercial foi claramente sobrevalorizada, ajudando mais à riqueza dos seus próprios reis o que para o crescimento mundial. Ou seja, esse desenvolvimento já estava em marcha desde há um ou dois séculos antes da expansão marítima ibérica que fez baixar os preços dos produtos orientais transaccionados desde há muito.

Essa visão global da História da Europa Ocidental na Idade Média é dada pelo autor pela descrição detalhada sobre os pequenos ou grande estados que a formavam, com fronteiras sistematicamente elásticas consoante as guerras permanentes que aconteciam desde os impérios de Rus, Kiev e Novgorod, pela junção e separação dos estados balcânicos, da Bulgária, da Boémia, do Sacro Império Romano, do Reino da Lituânia e Polónia ou do Francês e Inglês sempre em conflito. Também Portugal e Castela não são esquecidos, comparando, com alguma ironia, a nossa relação com o poderoso vizinho com a Escócia e Irlanda com a Inglaterra. 

sexta-feira, outubro 13, 2023

«Uma Nova História do Mundo Clássico», de Tony Spawforth

Alma dos Livros, 2021. Tradução de Paulo Mendes
Título presunçoso tendo em conta ao que se propõe: uma «nova» história do mundo clássico! Sinceramente, nada encontrei de novo relativamente ao que se estudava há 45 anos. A saber: que o Linear A micénico ainda não foi decifrado (Done!); que Atenas e Esparta não se podiam ver (Done!); que, apesar de tudo, Esparta esteve a lutar ao lado de Atenas contra os Persas (Done!); que Homero era excepcional e que os seus poemas vieram até nós pela tradição oral (Done!); que os gregos eram requintadamente amantes da cultura, embora também fossem amantes entre homens (várias vezes realçado!) e as mulheres tivessem poucos direitos (Done!); que a Democracia não era benquista por Platão (Done!); e assim por diante... nada a declarar igualmente sobre Roma que é uma sucessão de lugares-comuns sem nada de verdadeiramente «novo» que instigue a aquisição da obra. 

O título do livro sugere a tendência de hoje no campo da divulgação histórica. Essa presunção do «novo» não é só sobre este livro. Basta passear pelas estantes das livrarias dos centros comerciais para ver que o vocábulo «novo» se implanta em qualquer livro principalmente nesta disciplina. Mas a insolência do «neo» acaba aqui. De facto, há qualquer coisa de novo no ar e que lemos neste livro em particular (mas há outros, há outros!): o recurso à experiência pessoal do autor, isto é, sem que seja necessário, ele diz que esteve presente na escavação tal ou tal, de modo a dar uma certa verosimilhança ao «estudado» mesmo que a escavações referidas não tenham dado em nada ou acrescentado algo de diferente do que já se sabia; a islamofobia latente em cada linha da exposição - chega a referir o «vandalismo islâmico», como coisa assente; ainda que de mansinho, uma simpatia não escondida e desculpabilizadora da acção de autocratas e imperadores como Nero ou Calígula, vítimas segundo ele de exageros contemporâneos. visto que eram amados pelo povo; o recurso irritante a comparações de imperadores ou políticos gregos e romanos com (imaginem!) Thatcher ou Trump; comparar a derrocada do império de Alexandre com a «Guerra dos Tronos» da Netflix, ou «chamar» a Rowling de «Harry Potter» para exemplificar os augures ou as pitonisas de Delfos é um exercício sublime de estupidez ou de uma puerilidade confrangedora.

Estamos de volta à história anedótica, personalizada, sem uma corrente de ar fresco que nos faça reconhecer e avançar nos estudos das instituições, da sociedade, da cultura, ou da economia dos povos. É pouco para um presunçoso e insolente «neo»!

domingo, abril 30, 2023

«A Conspiração dos Iguais», de Ilya Ehrenburg. Sobre a morte de Babeuf

 


Edições Dinossauro, 2004. Tradução e Introdução de Francisco Martins Rodrigues

Como nos lembra Francisco Martins Rodrigues na Introdução esta edição de Ilya Ehrenburg baseia-se na de Philippe Buonarroti que, em 1828, publica em Bruxelas «La Conspiration pour L'Égalité, dite de Babeuf». 

Nessa Introdução é lembrado que Babeuf será provavelmente exemplo único de um comunismo libertário ou anarquista (eu não lhe chamaria «primitivo») que durante a Revolução Francesa teve o apoio incondicional das vastas camadas populares de Paris e que nunca se reviu no Directório que mandou matar Babeuf e Darthé, enviar para o exílio em Caiena quer Buonarroti, quer Germain e Goujon, Duroy, Soubrani, Javogues entre muitos outros. A sua referência era sem dúvida a Constituição de 1793 que praticamente nunca foi posta em prática devido ao seu carácter «comunista», alguns montanheses e as comunas dos 12 departamentos de Paris organizadas pelos sans-culottes e pelas mulheres dos Bairros de Antoine e Marceau, vanguardas do povo de que a burguesia sempre desconfiou e tentou derrotar.

Sobre Ilya Ehrenburg, Francisco Martins Rodrigues dá-nos uma ideia clara. Escritor soviético, falecido em 1967, assistiu aos processos de Moscovo teleguiados por Estaline «(...) não é difícil encontrar nesta Conspiração dos Iguais, a propósito do Terror da Revolução Francesa, alusões transparentes ao Terror ditatorial dos anos 30 na União Soviética.» Não estou aqui para uma análise da qualidade literária de Ehrenburg (nunca o fiz nestas fichas de leitura, nem tenho pretensões a crítico seja do que for), mas creio que o registo do autor se aproxima mais do jornalismo do que literatura. Mas é um estilo que se lê com soltura perante uma tragédia anunciada que foi a conspiração dos Iguais de Babeuf e Buonarroti em 1796 já no fim da Revolução Francesa de 1789. Pode dizer-se com certeza que a História confere que foi com esta conspiração que terminou, de facto, toda a qualquer tentativa de a transformar em algo mais do que uma República burguesa, realista, a que Napoleão deu forma logo a seguir.

Babeuf morre guilhotinado, através de uma traição de um tal Grisel teleguiada por Barras (um dos 5 membros do Directório) que se infiltra na insurreição preparada pelos Iguais. Será pago, mais tarde com umas míseras 30 libras (doce ironia bíblica)! O Tribuno do Povo (como era conhecido devido ao título do seu Jornal), Gracchus Babeuf, morre, portanto, a 8 de Pradial do ano V, ou, pelo antigo calendário gregoriano, a 27 de Maio de 1797, com 37 anos de idade. Antes, em pleno tribunal, ao conhecer a sentença da guilhotina e depois do Directório ter influenciado um dos jurados que quase absolviam os Iguais, tenta o suicídio juntamente com Darthés, embora mal-sucedidos. Mantêm-nos vivos até à guilhotina. Paris pobre chorou-o, admirou a sua coragem e a sua coerência, não acreditou nas calúnias que lhe lançaram, mas não se moveu para o libertar. Cansaço da revolução? É possível. Há 7 anos que se seguiam insurreições, revoluções dentro da Revolução, prisões, torturas, massacres e guilhotinas a mais tal como afirmava Babeuf que lutava por uma Sociedade de Felicidade. Marat e Robespierre, Anarchasis Cloots, tal como Danton já não faziam parte do desejo revolucionário. Tinham sido devorados pelo frémito da mudança violenta de um estado para outro. Nada que Babeuf, os Iguais e igualmente o povo de França não soubessem. Entretanto morria-se literalmente à fome, o desemprego tornava-se endémico e a miséria instalava-se. O cair de braços dos mais fracos e dos subalternos também. Talvez por isso os bairros pobres de Paris não reagiram à prisão de Babeuf ou tivessem pressentido o fim próximo. Acabaram por morrer com eles, ou seja, com Babeuf e os Iguais.

A preparação da conspiração:

«Babeuf e os amigos não confiavam nos montagnards (montanheses, deputados de esquerda da Convenção): não são verdadeiros democratas! Enquanto os Iguais reverenciavam a memória de Robespierre, entre os antigos deputados não havia um só que não tivesse ultrajado, depois do Termidor, o ''tirano derrubado''. Em política, contudo, não há lugar para sentimentos, e os Iguais encetaram conversações com os montagnards.
(...) Os montagnards ouviam sem pestanejar as declarações dos Iguais; deixem-nos divertir-se! Outra coisa os preocupava: quem entrará no novo governo? Os Iguais reclamavam a autoridade para os pobres diabos, jornaleiros, operários, artesãos, mas nesse ponto os montagnards eram irredutíveis. Queriam o poder para si. A sua única palavra de ordem era: ''Viva a antiga Convenção!''.
Isto indignava Babeuf:
- Não podemos fazer concessões. faz algum sentido tanta luta para a França voltar a ser governada por essa Convenção a que Robespierre chamou com razão ''Assembleia de Assassinos''? Não, esta gente já tomou o gosto do poder, já molharam os lábios na taça, estão envenenados! Do que precisamos realmente é de forças novas. Precisamos de sans-culottes, gente do povo, não de políticos.» (págs. 134/135)

A defesa em tribunal de Babeuf:

«O processo durou muito tempo. Começara em Ventoso, no tempo dos grandes frios, e já estava no alegre Floreal. Faltava o ar na sala sombria. Fazendo apelo a toda a sua energia, Babeuf leu a defesa. Leu durante dez horas, sem um minuto de descanso. Por fim, falta-lhe a voz. Expõe as suas ideias aos juízes: a lei agrária não é um remédio, só a comunidade dos bens garante a igualdade. Bailly (um dos juízes) desata a rir. (...)
Ele fala agora do perigo que ameaça a República, mas Veillart (outro juiz) interrompe-o:
- Vós quisestes arruinar a República!
- Não! Quisemos salvá-la! A Revolução não deu nada ao povo e o povo começa a odiar a República. Olhai à vossa volta. Que vedes? Indiferença. Os patriotas, ainda ontem intrépidos e ardentes, agora calam-se. Perderam a coragem... Mas a igualdade deve triunfar, triunfará. A Revolução Francesa é apenas a precursora de uma outra revolução, bem maior e mais solena, que será a última; então desaparecerão os limites das propriedades, as vedações, os muros, as prisões, os roubos, os crimes, os enforcamentos, a inveja, a avidez, a traição, a hipocrisia, e esse verme que tudo rói, a cobiça universal...» (págs. 172/173)

segunda-feira, abril 17, 2023

«A Economia Moral da Multidão na Inglaterra do século XVIII», de E.P.Thompson


 Antígona, 2008. Trad. de Frederico Ágoas e José Neves
Quem pensa que a chamada «multidão» em pleno século XVIII , e antes, por todo o século XVII, era uma turba desorganizada e ao sabor de emoções primitivas terá uma surpresa neste livro de E.P.Thompson. O historiador inglês apresenta-nos factos e fontes fidedignas que a economia moral dos subalternos tentou lutar, muitas vezes de armas rudimentares nas mãos, contra o capitalismo agrícola e industrial que começava a nascer com o liberalismo baseado na acumulação de terras nas enclosures e na acumulação de capital financeiro e industrial, de mãos dadas, que veio a sair vencedor no século XIX e XX. A luta foi renhida e mais organizada do que se pode pensar numa primeira observação. Assim o atesta em várias fontes coevas, muitas delas anónimas, que Thompson nos apresenta. Sobre o preço do pão e a necessidade de repartição igualitária das terras, levadas a cabo quer pelos Levellers (niveladores), quer pelos Diggers (cavadores) ou, mais tarde pelos Luddistas. Embora o milenarismo não esteja completamente arredado destas lutas o que sobressai é a emergência de uma nova sociedade, baseada não na diferenciação do nascimento, mas sim pelo trabalho. Não por acaso, a repressão brutal abateu-se sobre todos eles, fazendo com que estes movimentos libertadores tivessem desaparecido da crosta da Terra. Não sem que o imaginário popular as tivesse recordado até hoje. E o trabalho do historiador reflecte bem que o liberalismo defendido por Adam Smith nunca funcionou, no que à distribuição de alimentos do campo se refere. A necessidade da existência de intermediários foi sempre uma aposta do liberalismo, originando muitas vezes uma desregulação de preços e açambarcamento que as populações lutaram de modo violento de modo a evitar períodos de fome. O sentimento anti-intermediários foi um dos vectores da «economia moral» que pretendia fixar os preços dos alimentos e principalmente dos cereais. Adam Smith equiparou-a a uma espécie de «bruxaria».

Vejamos alguns exemplos de panfletos anónimos:

Sobre a liberdade (1768):
«Não se pode dizer que se trate de liberdade de um cidadão, ou de alguém que vive sobre a protecção de qualquer comunidade; trata-se antes da liberdade de um selvagem; e assim sendo, aquele que disso se aproveita não merece a protecção concedida pelo poder da Sociedade.» (pág.36).

Título de um ensaísta anónimo (só por si este título é todo um programa):
«Um Ensaio para Provar que Revendedores, Monopolistas, Açambarcadores, Bufarinheiros e Intermediários do cereal, Gado e Outros Bens Comercializáveis...São Destruidores de Comércio, Opressores dos Pobres e Uma Praga Comum para o Reino em Geral.» (pág.49)

Carta anónima dirigida a J.S.Girdler, juiz de paz em Middlessex (1796-1800):
«Sabemos que és inimigo de agricultores, moleiros, farinheiros e padeiros do nosso Comércio - se não tivesse sido graças a mim e a outro, tu, meu filho da puta, terias sido assassinado há já muito tempo por ofereceres as tuas malditas recompensas e perseguires o nosso Comércio. Que Deus te amaldiçoe e demonize, tu não viverás para ver outra colheita (...)» (pág.51/52)

Motim de mineiros em Padstow em Shropshire (1773):
«Algumas pessoas levaram longe demais a exportação de cereal (...). Setecentos ou oitocentos mineiros de estanho foram até lá, oferecendo de início aos negociantes de cereal 17 xelins por 24 galões de trigo; todavia, sendo-lhes dito que nada obteriam, de imediato arrmbaram as portas do armazém e levaram tudo o que aí havia, sem dinheiro ou preço.» (pág.56)

Outro aviso em Northiam (Sussex) aos agricultores que aceiram as novas medidas de alqueire do parlamento (1793):
«Cavalheiros, tudo o que esperamos é que tomem isto como aviso a todos os que deixem de lado os pequenos alqueires e retomem a antiga medida, pois, caso não o façam, um grande agrupamento incendiará as pequenas medidas quando vocês estiverem na cama e a dormir e, com elas, as vossas medas, os vossos celeiros e vocês mesmos (...)» (pág.62)

Escreve E.P.Thompson em jeito de conclusão sobre a eficácia destas lutas baseadas nesta «economia moral» da multidão na Inglaterra do século XVIII:
«Na verdade, o motim de subsistência não requeria um elevado grau de organização. Requeria, sim, um apoio consensual junto da comunidade e um padrão de acção herdado, com restrições e objectivos que lhe eram próprios. E a persistência desta forma de acção levanta uma questão interessante: até que ponto seria ela, fosse de que forma fosse, bem-sucedida? Teria ela persistido durante tantos anos - centenas de anos, na verdade - se os seus objectivos fracassassem constantemente e deles resultassem senão uns quantos moinhos destruídos e algumas vítimas na forca?» (pág.90) Mais à frente, o historiador refere como um factor de regulamentação do mercado a própria «expectativa do motim» como dissuasor de açambarcamento ou de aumento generalizado de preços à maneira liberal.

Carta de Witney, um dos mais destacados dos Levellers, em 1767, sob a forma de rima popular (págs.104/105):
 
«(...) Um pequeno Exército de mais três mil, prontos para a luta final,
E maldito eu seja se não fizermos em merda a Tropa Real,
Se o Rei e o Parlamento continuarem a mandar à sua maneira,
faremos de Inglaterra uma lixeira.
E se não baixam os preços dos mantimentos,
Maldito eu seja se não resolver o problema incendiando o Parlamento (...)

De qualquer modo, os movimentos populares e violentos dos trabalhadores do campo e pequenos agricultores, no início do século XIX, foram ultrapassados pelos luddistas devido quer à sangrenta repressão militar, quer à pressão sobre os salários nas indústrias com uma incipiente organização sindical clandestina, com juramentos: os United Englihsmen.

segunda-feira, abril 03, 2023

«Cidadãos - Uma Crónica da Revolução Francesa», Simon Schama

 

Bookbuilders, 2021. Trad. Miguel Mata
911 páginas de contra-revolução e de amor à Vendeia. Simon Schama pode chamar-se historiador e ter uma equipa de colaboradores tão numerosa quanto dedicada e que provavelmente ficou esquecida nos agradecimentos logo nas primeiras páginas, mas não pode esconder que escreveu uma narrativa da Revolução Francesa descrevendo-a como dispensável, sangrenta, equívoca e contraditória. 234 anos após um dos maiores acontecimentos da História europeia, pode-se ler em Schama o horror que ainda provoca em tipos como ele. Considerada uma narrativa «belíssima», «que se lê num fôlego» este «mestre romancista» apresenta um quadro de demência total perante os acontecimentos que decorrem entre 1789 e 1794. O homem não compreendeu nada sobre um processo revolucionário e pelos vistos não quer compreender, nem está para isso. Argumentar com a dispensabilidade da revolução de 1789, porque o Antigo Regime estava a desenvolver políticas «progressistas» no campo da introdução do liberalismo e tinha abraçado paulatinamente o fisiocratismo, para além de ter resolvido a questão económica é de pasmar. Um estudante do 1º ano da faculdade saberá perceber que as ruturas acontecem exatamente quando um processo de modernização tem lugar. Veja-se o 25 de Abril de 1974 e o marcelismo «desenvolvimentista», veja-se a Revolução de 1917 na Rússia quando as contradições geradas pela «modernização» vieram espoletar o confronto entre classes. Mas Schama não quer a Revolução, odeia-a; não tanto pelos seus excessos (motivo mais encontrado e aumentado entre historiadores de direita), mas porque para ele não fez sentido nenhum ter explodido. Se os franceses fossem outros - por exemplo, como os ingleses em 1688 na Gloriosa Revolução, cem anos antes, esses sim foram muito mais circunspectos, mesmo que tivessem cortado igualmente a cabeça a um rei, por acaso chamado Carlos! - não teriam feito a revolução que gastou as energias positivas de uma nação em claro progresso. Chega ao ponto de dizer que 1789 existiu por inépcia e estupidez da aristocracia, ordem que esteve efetivamente por detrás da Revolução, sem perceber que estava ela própria a pôr a cabeça no cepo. Culpados: Voltaire (não tão deísta assim e afinal amigo do clero!), Talleyrand (um falso bispo, como tal extremamente adaptável a todas as situações), Mirabeau (um escroque tão libidinoso, como populista), Lafayette (um salta pocinhas revolucionário que nada compreendeu da Revolução americana de 1776 em que participou), Sade (repugnante), Anarchasis Cloots (um parvalhão), Marat (um tolo), Robespierre (um dissimulado sangrento) e por aí fora... mas o grande elogio vai direitinho para o povo francês e principalmente o de Paris quando lhe chama, por várias vezes, de «turba». Eis a turba, feliz e radiante com o seu milenarismo entranhado (e defendido pelo sonso do Rousseau), a cortar cabeças que saíam à rua sem o «cocar»! E Luís XVI exposto assim, coitado, sem pingo de culpa que antes de ser morto era acarinhado pela mesma «turba» que o matou, ele que era poupadinho em Versalhes, que se dedicava à caça e aos jogos e que adorava construir fechaduras, foi duas vezes vítima e não um carrasco para o povo. Maria Antonieta, uma pequena rainha que teve o azar de ter nascido austríaca, imberbe, cujos boatos de deboche forma criados por pura maldade da «turba». O facto de ter chamado o irmão para invadir a França, não é tão exposto quanto ao «caso do colar», esse sim, um verdadeiro boato que esteve na base de toda a propaganda anti-antonietista e que a levou à morte, claro está.
A Bastilha? Um paraíso, se a compararmos com os serviços prisionais de hoje (sic)! Os prisioneiros eram bem tratados, estavam sozinhos nas celas, tinham uma cadeira ou várias delas, uma cama com colchão, uma estante onde podiam ter livros e um guarda fato. A investigação de Schama chega ao ponto de ter descoberto que o «repugnante» Sade (23 anos de prisões e hospícios, tendo saído uma semana antes do 14 de Julho) tinha a visita da «sofredora» mulher uma vez por semana, ou Latude (28 anos preso!) tinham uma vida relativamente folgada. Aliás, Sade é que foi culpado de ter ido para um hospício (com a colaboração da tal sofredora), não tivesse ele berrado diariamente pelas muralhas da Bastilha para a sublevação do povo de Paris e insultado várias figuras da aristocracia e nada lhe teria acontecido. Ler para crer. Embora não o aconselhe a um leitor minimamente crítico.

Ter fôlego para chegar a 1793, a páginas 600, a época do chamado Terror, é o mesmo que aguentar uma maratona de 42 km. Nem valerá a pena esperar pelos enormes contributos sociais aos mais desfavorecidos que são uma constante desta fase da Revolução em que os sans-culottes de Jacques Roux e Mercier, as mulheres de Paris ou os Iguais de Babeuf e Buonarroti, tiveram um papel fulcral. A maneira como são tratadas as diversas Comunas e a Guarda Nacional não dá para descrever aqui, tal a azia. Repete-se: quem, 234 anos depois, ter assim um ódio tão primário à Revolução, não é de um historiador. Para isso, ao menos, temos Michelet que foi contemporâneo e mostrou bem mais consideração pelos factos históricos do que este romancista. A frase dele que resume tudo é que a Revolução Francesa não foi uma revolução que quisesse mudar a estrutura social, mas sim causada por questões sociais. Quase um motim, a bem dizer.

Portanto, as primeiras 500 páginas, são para explicar que desde Luís XIV a Luís XVI tudo ia bem e a França ia pelo bom caminho liberal, abandonando o mercantilismo de Colbert e decidida a enveredar pelas possibilidades imensas do fisiocratismo liberal, não fosse a aristocracia ter abraçado o Iluminismo de Voltaire, de Montesquieu ou de um tal Rousseau, a némesis de Schama. O Antigo Regime caiu porque a aristocracia aderiu à Revolução! Isto sim, agora compreende-se os elogios dos principais jornais americanos e europeus quando dizem que estamos perante um romance com uma narrativa fluente que se lê «num fôlego»! Faltava o aviso no livro «Baseado em acontecimentos reais», para ser uma adaptação a um filme cómico se não fosse demasiado trágico para a História, embora Simon Schama já tenha na sua posse um Emmy!

segunda-feira, outubro 10, 2022

«Montaillou - Cátaros e Católicos numa aldeia occitana, 1294-1324», de Emmanuel Le Roy Ladurie

 

Edições 70, 1975, 2ª ed.1982
Tradução de Nuno Garcia Lopes e Pedro Bernardo

É um trabalho mais que pormenorizado: estamos perante um verdadeiro «cusco» que faz, no papel de historiador, um levantamento do quotidiano de uma aldeia occitana - Montaillou entre os séculos XIII e XIV. Esta aldeia faz parte de uma grande rede de aldeias pirenaicas e (hoje) do sudeste de França quase completamente tomadas pela heresia cátara, embora com uma presença minoritária católica. Não se pense que uma e outra apresentavam práticas totalmente «puras». Essas práticas cruzavam-se: por um lado recusava-se a extrema-unção, mas pedia-se o consollamentum e a endura cátaras à hora da morte e inversamente também. Havia padres católicos que eram hereges e que não confessavam, nem davam hóstias porque não acreditavam na transubstanciação. Havia, por sua vez, perfeitos ou homens-bons cátaros que embora imbuídos de maniqueísmo oriental rezavam o Pater Nostrus ou a Ave Maria. Nada é tão simples como parece nesta região occitana onde a luta de classes se diluía num ódio cada vez maior partilhado por nobres, burgueses, camponeses e pastores contra os poderes políticos e religiosos da Île-de-France e Paris, ou seja, do Norte de França, para com os impostos senhoriais e dízimos clericais. Nunca se perdoará a brutalidade de Simon de Monfort contra as cidades, vilas e aldeias occitanas no século anterior e com os massacres correspondentes bem mais violentos do que fez contra Constantinopla. Os levantamentos não eram raros e aí víamos igualmente cátaros e católicos juntos.

É verdade que Le Roy Ladurie teve fontes históricas incríveis e uma sorte que não se deve desdenhar ao encontrar os registos minuciosíssimos de Jacques Fournier, inquisidor-mor contra o catarismo que não tolerava e que chegou a papa (talvez por isso mesmo) com o nome de Bento XII. Deixava a violência dos interrogatórios para outros. Preferia que o pormenor do interrogatório, as contradições, a delação e o medo do acusado de catarismo ou de valdismo seguisse o seu caminho. E apontava tudo em grossos volumes. São esses registos que foram parar às mãos do historiador que não se fez rogado. Está lá tudo: as amizades, as inimizades, a alegria, o ódio, as fratrias, as domus, as locus, os olhares, os casamentos, o sexo adúltero ou não, a comida, os animais. Enterramos os nossos pés nas vias das aldeias, sentamo-nos à lareira das domus, ouvindo estórias, bebendo um copo de vinho e um pão feito ao forno com peixe frito ou com um naco de perna de porco, animal demoníaco é certo, mas se estivesse presente um perfeito cátaro dar-lhe-íamos um fígado de bode. Um cura católico comeria de tudo! O papel da mulher é de tal modo importante que se pode dizer que estamos perante um matriarcado. Se na infância e na adolescência a mulher está numa situação perigosa (as violações e os raptos consentidos ou não, eram frequentes) à medida que ultrapassa a adolescência vai tendo um papel primordial nas comunidades por duas ordens de razões: os casamentos escolhidos por mulheres sucedem-se porque a esperança média de vida do homem é quase metade do da mulher (sessenta anos é o máximo a que o homem pode aspirar, mas a média é de 40 anos) e aumenta-lhe assim os recursos materiais e voz nas assembleias e finalmente porque uma mulher velha é mais respeitada do que um homem velho, isto na boa tradição kabila ou mediterrânica, como quiserem.

Não será de religião propriamente dita que se falará aqui. Mas falaremos de comunitarismo pré-capitalista onde não havia sequer moeda. A única que havia veio tardiamente e era a moeda francesa do norte, o parisis. Em plena Idade Média havia um poder dual: o senhorialismo e o comunitarismo aldeão e pastoril. O nomadismo transumante estava nas mãos dos pastores que se sentiam realmente livres e pobres, ao ponto de recusarem astutamente o casamento, devido ao facto de o serem, embora a poesia trovadoresca da língua de oc (que influenciou a nossa poesia) nos dê bons exemplos de grande fraternidade com as mulheres de muitas aldeias occitanas! Fraternidade aqui é um eufemismo, visto que o pastor era partilhado por várias mulheres de aldeias diferentes com consciência disso mesmo. O tabu do incesto ia até à prima de primeiro grau e, evidentemente, aos irmãos. Já mais misterioso é o tabu entre cunhados.

As decisões eram tomadas por assembleias livres comunitárias onde se partilhava o gado bovino, ovino e a respetiva lã e carne. Havia pastos e campos cerealíferos comuns. Isto não queria dizer que os pastos e os campos eram de toda a região de Sabhartès, onde pertence Montaillou. Para os usarem era necessário que o pastor ou camponês tivesse de ser casado com alguém da terra ou aldeia a que pertencesse os pastos ou os campos. Este comunalismo já existia desde o século XIII e no XVIII e mesmo no início do século XIX era possível assistir a estas práticas que não deixavam de ser algo rígidas para que pudessem vingar. E vingou. Durante muito tempo não se pagou o dízimo ou impostos senhoriais ao rei francês o que fez com que a Occitânia pagasse bem caro com uma repressão brutal a que a própria heresia serviu de causa aparente para uma regulação fiscal por parte do Estado. Antes da Inquisição que retirou terras quer a nobres, quer a camponeses, sob a acusação de heresias, engordando a nobreza e clero do norte, as assembleias é que serviam de mediação fiscal para com o estado central. 

É notável o registo da vaga de refugiados que a repressão inquisitorial provocou. Fala-se da Lombardia, Sicília, Catalunha, Espanha. Na minha opinião essa onda enorme de fugitivos veio até Portugal onde os recebemos como povoadores altamente necessários para um país despovoado. E a toponímia já nos ajuda com algumas corruptelas: Proença/Provence, Montalvão/Montauban, albi-castrense/Albi, Tolosa/Toulouse, Rodão/Ródano, Nisa/Nice e por aí fora. Quanto aos patronímicos como «Catarino» já aqui falámos, mas não deixa de ser estranho que exista na raia espanhola, como no litoral de arroteias onde este nome prolifera.

Caso notável era que esta comunalismo se estendia  por todos os Pirenéus inclusivamente para a Catalunha e Aragão. Com esta regiões se faziam trocas comerciais e de pastoreio quer de um lado, quer de outro. Para Navarra e País Basco não temos notícia nos registos de Jacques Fournier, mas sabemos que aí havia um forte comunalismo mas aparentemente sem contactos com a Occitânia. Havia portanto cátaros desde as regiões hoje espanholas até Toulouse e Montpellier. 

Há uma figura central em todo o livro que, habilmente, Le Roy Ladurie nos apresenta. É Pierre Maury, pastor, cátaro, não muito praticante é certo, mas portador de uma filosofia muito própria que nos remete para a existência de um espírito verdadeiramente livre e acerrimamente crítico dos padres e mesmo dos frades menores. A página 160 e seguintes são todas elas um manifesto de um ideal igualitário e democrático (até nómada) possível nos século XIV. O que se questiona é por que razão este tipo de vida foi usurpado pelas cidades das confrarias e do corporativismo mercantil e usurário. Até à derrota do comunalismo que, astutamente, o poder o fez confundir com a pobreza e ignorância. Ironicamente, este livro tão pleno de fontes históricas e no período em questão, não foi registado qualquer período de fome, embora houvesse tempos de penúria em anos agrícolas não muito bons, mas fome generalizada como em outros contextos não houve. A solidariedade e hospitalidade entre as domus e as locus eram obrigatórias para os que estivessem em dificuldades. 

Numa época de colapso a todos os níveis como a que estamos a viver hoje talvez fosse uma fonte de bom senso e prazer ler este livro, atentando com a minúcia de um Jacques Fournier, o que de bom e útil comunidades inteiras foram capazes de criar durante séculos. Conseguiremos reerguer essas experiências?

António Luís Catarino

quinta-feira, maio 06, 2021

Uma história «sem álibis nem omissões», um artigo de Manuel Loff


Manuel Loff

Só agora (tarde, portanto) li este artigo de Manuel Loff. Pois é, a necessidade de quebrar consensos políticos perante a História deste país é uma obrigação bem mais honesta do que procurar a paz artificial. Todo o artigo aqui:

Uma história "sem álibis nem omissões"
Manuel Loff, PÚBLICO, 27.4.2021
Lamento mas, se chegou a haver alguma unanimidade quanto ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no 25 de Abril, eu não me junto a ela. Por mais corajosa que possa ter parecido a atitude do homem que nos falou como filho de "governante na ditadura e no Império", e que entende ser "prioritário assumir tudo, todo o passado, sem auto-justificações ou auto-contemplações globais indevidas", deveria, ele que me desculpe, começar por si próprio. É compreensível que o filho de Baltazar Rebelo de Sousa, cuja carreira política esteve associada até à medula à gestão colonial nos anos da guerra, nos recorde que, como "constituinte, [viveu] o arranque do novo tempo democrático (...) como milhões de portugueses [situado] entre duas histórias da mesma história" - mas já não é aceitável ser quem nos peça que, ao "revisitarmos a história", não a julguemos com os valores do presente. Porque é isso mesmo que ele faz, como fizeram os anteriores presidentes da República todos os dias 10 de Junho, 1º de Dezembro, 5 de Outubro e, claro está, 25 de Abril. Chama-se a isso o uso político do passado, que Marcelo usa como usam representantes de Estados que queiram dar lições aos cidadãos do presente a propósito dos atos dos cidadãos de ontem, e que, em nome da honestidade, não deveria pretender ser coisa apenas daqueles que discutem o passado nos termos que lhe não agradam.
Quando Marcelo nos pede para não "[exigir] aos que viveram esse passado que pudessem antecipar valores (...) agora tidos por evidentes, intemporais e universais", persiste num dos mais velhos erros metodológicos da leitura reacionária do passado: o de inventar um tempo em que os valores dominantes seriam tão consensuais que nenhuns outros teriam sido enunciados. Em todas as épocas os valores dominantes tiveram alternativas; todas as ordens tiveram resistência; todas as verdades do tempo tiveram quem as denunciasse. Marcelo, que em 2017 foi a Gorée (Senegal) elogiar a precocidade portuguesa na história da abolição da escravatura, pretendendo que Pombal a teria abolido em 1761, não só sabia que o Estado português o não fez antes de passados mais de cem anos - eis o (ab)uso político do passado - como sabia também que a condenação da escravatura, do papel pioneiro e persistente que portugueses tiveram no tráfico, ou a denúncia do trabalho forçado que se manteve até aos anos 1960 nas colónias portuguesas, foi contemporânea dos próprios fenómenos e não é um "juízo do passado com os olhos de hoje". Como o anticolonialismo foi contemporâneo do colonialismo, e contemporânea da guerra foi a recusa em fazê-la (sobre a qual Marcelo não pronunciou uma palavra) e foi a contestação da resistência antifascista portuguesa à escolha de Salazar em fazê-la. Nenhuma destas batalhas é recente, pelo que é inaceitável qualquer insinuação de que estas podem ser "campanhas de certos instantes".
Com toda a razão, o presidente diz que "o 25 de Abril foi feito para libertar, sem esquecer nem esconder". Deveria, contudo, lembrar-se como o seu partido e todo o universo conservador da sociedade portuguesa, que, logo desde 1974, amaldiçoaram a Revolução e descreveram a descolonização como uma traição, não simplesmente procuraram "esconder", mas pura e simplesmente negaram a natureza intrínseca da dominação colonial e toda a violência que ela significou. Se hoje, como Presidente da República, pretende que se faça uma História "sem álibis nem omissões", pode desde já ajudar à desclassificação de muita documentação militar que continua inacessível.
Pela minha parte, eu e muitos investigadores estamos disponíveis para "estudar o passado e nele dissecar tudo". Mas "tudo" é tudo mesmo, e é importante que inclua, de uma vez por todas, aquilo que, por envolver crimes nunca julgados, atos inaceitáveis à luz da moral e do Direito (não apenas os de hoje, mas também os do momento em que foram praticados), o Estado e a maioria da sociedade nunca quis assumir e não quer que se investigue. Era bom que o Presidente esclarecesse se "dissecar tudo" abriria, afinal, essas discussões que ele entende não serem "prioritárias para os portugueses", e que é "duvidoso que o sejam alguma vez". Se assim fosse, teríamos de duvidar da sinceridade do discurso. É que só esclarecendo essas "omissões" seria verdade que, enquanto sociedade, "nos responsabilizamos" pelos nossos "fracassos" históricos da mesma forma como "assumimos as glórias que nos honram".

terça-feira, janeiro 15, 2013

A Deriva histórica tem um rumo

A Deriva Histórica encontra um rumo em cada livro que edita, desde A Peste Bubónica no Porto, publicada por Ricardo Jorge, às obras que preencheram o bicentenário das Guerras Peninsulares com a edição de Alfredo Pereira Taveira, Alexandre Morais Sarmento e do Diário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro.

terça-feira, outubro 30, 2012

As Invasões Francesas na Deriva

Notícias das Guerras Napoleónicas é o famoso dietário (diário) do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro que esteve anos sem conhecer a luz do dia. A responsabilidade de o dar a conhecer é de Maria Isabel Pereira Coutinho que fez um trabalho notável de fixação de texto. A importância histórica do documento é bem atestada por Luís Oliveira Ramos no prefácio que escreve para a obra.

A Relação Das Medidas de Defesa do Vouga contra o Exército de Soult em 1809, é um excelente diário de Alexandre Tomás de Morais Sarmento que pertenceu ao Batalhão Académico de estudantes e professores de Coimbra. As suas memórias falam-nos da estratégia utilizada pelo corpo expedicionário luso inglês e pelas vitórias então conseguidas contra Soult.

segunda-feira, outubro 08, 2012

A Queda Iminente do Bairro Judeu de Salzedas





A guia do Convento de Salzedas bem nos corrigiu: aquilo que víamos à nossa frente, em estado deplorável de conservação, não era a Judiaria, mas antes deveria chamar-se de Bairro Medieval. Assim é que era, não fosse tomarmos a nuvem por Juno! Mais a mais, não havia sinais identificadores nas casas, como se os judeus em Portugal e desde sempre, vivessem felizes e contentes, donos da sua simbologia e senhores dos seus valores. Bom, não valerá a pena dirigir-me ao Ipar ou a qualquer instituição, mas alertar que isto que vocês veem não aguentará mais um inverno. Vai cair...coisas do costume!

quarta-feira, outubro 14, 2009

Relação das Medidas de Defesa do Vouga contra o Exército de Soult, em 1809, de Alexandre Tomás de Morais Sarmento

Um soldado do Batalhão Académico de Coimbra em 1809 a que Alexandre Morais Sarmento pertenceu sob as ordens do Coronel Trant

A leitura, correcção e revisão do texto da Relação das Medidas de Defesa do Vouga contra o exército de Soult, em 1809 de Alexandre Tomás de Morais Sarmento, estão a dar-me uma visão muito mais ampla do que perdemos em termos de vocabulário. Li, há uns tempos, uma crónica de Vasco Pulido Valente, no Público, que dizia isto mesmo. Já o tinha sentido (embora menos, por ser um livro de 1890) no Estudo Histórico sobre a Campanha do Marechal Soult em Portugal, de Alfredo Pereira Taveira. Mas é importante assinalar a pobreza de vocabulário com que nos deparamos todos os dias e os termos que cairam em desuso ou que foram banidos por nós, alguns de uma sonoridade lindíssima e que os podemos reconhecer nestes livros. Quem de entre nós já vasqueou um rio? Ou observou um acampamento em bivaque? Ou viu a situação de uma veiga aprazível? Ou subiu a corda de um monte? Ou leu o termo paisanaria, o atravessadouro, o voltigueiro, os hússares, a lameda, etc, etc.
Optei, por isso e por outras razões fáceis de entender, ao fixar o texto para português actual em deixar incólumes as expressões que Alexandre Tomás de Morais Sarmento, do Corpo Militar Académico de Coimbra e o 1º Visconde do Banho (actual S. Pedro do Sul) usou em 1810, até porque, o Dicionário Houaiss mantém todas estas expressões. Sem, excepção. O livro sairá para o público dentro de muito pouco tempo.
Um mapa militar com as principais estradas em 1808

domingo, outubro 04, 2009

Requiem de Domingos Bomtempo. Um CD que se deve ouvir com a leitura de Estudo Histórico sobre a Campanha do Marechal Soult em Portugal

Duas obras apoiadas pela Comissão para a Evocação do Bicentenário das Guerras Peninsulares
Já temos connosco o CD do Requiem de Domingos Bomtempo sobre as Invasões Francesas, uma edição do ESMAE no âmbito da Evocação do Bicentenário das Guerras Peninsulares sob a responsabilidade do Maestro António Saiote, que dirigiu igualmente a Orquestra Sinfonieta da ESMAE e o Coro da Sé Catedral do Porto.
Neste mesmo âmbito da evocação do bicentenário das invasões francesas e com o apoio desta comissão, dirigida por Luís Valente de Oliveira, lembramos que editámos Estudo Histórico sobre a Campanha do Marechal Soult em Portugal, de Alfredo Pereira Taveira, cuja primeira edição foi em 1890. Este estudo ainda é considerado dos mais valiosos sobre as invasões e sobre a resistência do Porto, devido ao rigor, distanciamento histórico e dinâmica narrativa emprestada à descrição das guerras.
Deverá ler-se o livro com a música de Bomtempo. Dizemos nós...

domingo, junho 28, 2009

Henrique Fialho escreve sobre Utopias Piratas em Rascunho.net

Capa de Utopias Piratas

«A pouco e pouco, a editora Deriva tem vindo a edificar um catálogo na área das ciências sociais e humanas que importa sublinhar. Livros como O Espírito Nómada, de Kenneth White, A Formação da Mentalidade Submissa e A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano, e este Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson (n. 1945) são exemplos de uma atitude editorial concentrada em algo mais do que a vulgaridade pululante nos escaparates das livrarias portuguesas. Poucos saberão que Peter Lamborn Wilson é o verdadeiro nome de Hakim Bey, «anarquista ontológico» com um percurso nómada e errante, autor de uma obra que se esforça por encontrar pontos de encontro entre a doutrina sufista e o anarquismo. Viveu em países tais como a Índia, o Paquistão, o Irão e o Afeganistão. Em 2000 a editora Frenesi publicou-lhe em Portugal uma breve recolha de textos intitulada Zona Autónoma Temporária, chamando a atenção para uma das suas teses centrais: a fundamentação das TAZ enquanto zonas governadas unicamente pela liberdade e pela autonomia, independentes das regras e das normas de Estado que submetem os indivíduos a ditames contrários à sua natureza livre. Alguns exemplos históricos: a Ordem dos Assassinos, fundada no século XI por Hassan ibn Sabbah (o velho da montanha), assim como os piratas e corsários do século XVIII.

Nas Utopias Piratas (Fevereiro de 2009) Peter Lamborn Wilson ocupa-se precisamente dessas experiências remotas de resistência à ditadura da normalidade, transportando o leitor para uma época que não pode senão ser visitada com um certo romantismo fantasioso e exótico. Os dados históricos são muito escassos. Mais do que uma reconstituição histórica, o que se pretende é uma interrogação, uma reflexão, acerca de uma rede de vivências concentradas em pequenas zonas, micro-sociedades, que escapavam, resistiam e, de algum modo, combatiam as pragas morais colonizadoras com origem na Europa. (...)»

Assim, se inicia a crítica de Henrique Fialho a Utopias Piratas de Peter Lamborn Wilson, no Rascunho.net. Podem ver o resto da crítica aqui