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domingo, fevereiro 15, 2026

"Terra Queimada", Jonathan Crary

Antígona, 2023. Tradução de Nuno Quintas

Conhecido em Portugal com o seu «24/7», também editado pela Antígona, Jonathan Crary avisa-nos nesse livro para o projecto sub-reptício do capitalismo em ver-nos disponíveis para o trabalho durante 24 horas, 7 dias por semana. Numa altura em que o governo de Milei impôs 12 horas de trabalho cujo salário pode ser pago em géneros, habitação ou comida e os laboratórios científicos de empresas multinacionais ligadas à saúde e à defesa desenvolvem medicamentos capazes de levar a humanidade a não dormir, ou a dormir cada vez menos, para aumentar a produção de bens, é mesmo para levar a sério. Se olharmos igualmente para o nova Lei Laboral em Portugal somos levados a crer que existe um programa que mimetiza todo um projecto de claro retrocesso civilizacional.

«Terra Queimada» leva-nos por um caminho complementar a «24/7». Não é somente o que se está ao fazer ao planeta tornando-o literalmente inabitável, mas realçar o fim do que resta de coesão social através de um programa letal do capitalismo seja na forma de neoliberalismo, seja pelo capitalismo chamado cinicamente de «verde». Hoje, encontram-se activos 500 mil poços e jazidas minerais extrativas em todo o mundo que empregam 50 milhões de pessoas quase escravizadas e com um rasto de assassínios de ambientalistas e de povos indígenas por forças de segurança privadas. E isto só para o fabrico de componentes para microprocessadores, painéis solares, turbinas eólicas e veículos eléctricos, não contando com a extração carbonífera e de petróleo que tiveram um novo alento com a administração Trump, de Putin e de Xi Jiping. O desastre total ao virar da esquina: «Os paladinos do capitalismo verde e das ''renováveis'' dão garantias enganosas de que, mediante fiscalização, se poderiam extrair recursos sem destruir habitats, ecossistemas e comunidades, mas sabem que isso nunca vai acontecer. A História demonstrou categoricamente que o capitalismo é irreconciliável com qualquer espécie de conservação e preservação.» (pág.41) Trata-se pois de exercer a objectificação da Natureza «que nos separa da nossa inerência com a criatividade e a variabilidade ilimitadas do mundo físico» que foi exemplarmente demonstrado por Marx, Debord ou Agamben para só citar alguns que Crary chama profusamente no seu livro. E esta separação já desenhada e criticada nos anos 60 do século XX teve um novo desenvolvimento socialmente tóxico com a nova «era digital» em que assenta a construção de enormes centro de dados e torres de servidores para gerir o aumento imenso de produção de dados que exigem forças energéticas assombrosas e levam ao gasto de milhões de litros de água por dia para arrefecer os níveis de calor que causam danos aos circuitos integrados. Não pensem, portanto, que a utilização da internet é «neutral». Antes pelo contrário. 

O trabalho aturado de Jonathan Crary, neste «Terra Queimada», leva-nos directamente para o que designamos por um isolamento do indivíduo enquanto ser social faze à ditadura dos ecrãs sejam eles dos telemóveis, dos computadores ou do trabalho online, aumentado desde a pandemia de 2019/20. E a viagem até aos pressupostos da biopolítica é uma evidência clara e a que nos leva a formulações mais inquietantes:

«Conforme o complexo internético se expande e agrega, masi facetas da nossa vida convergem nos protocolos das redes digitais. A calamidade é a irredimível incompatibilidade das operações online com a amizade, o amor, a comunidade, a compaixão, o livre curso do desejo ou a partilha da dor e da dúvida. Muito disso desaparece ou recompõe-se em pobres simulações, sem singularidade nem inefabilidade, infundidas de ausência e superficialidade. Não há alegria ou tristeza, beleza ou exuberância na internet. Encontraremos poemas, mas poesia não. Como avaliar as consequências plenas de uma restrição tão drástica da abundante e inesgotável potencialidade humana na desolação e na monotonia dos sistemas digitais? Por toda a parte se evidenciam a loucura e a violência desta dissonância, mas, ao mesmo tempo, turva-a a crença delirante na inevitabilidade de vivermos a vida online, onde inexoravelmente se dissipam as nossas esperanças e energias criativas.» (pág.103)

Uma das críticas mais interessantes e talvez as mais contundentes de Crary é a que elabora relativamente à esquerda radical entre os anos 60 e 80. Exceptuando o caso de Guy Debord que nas suas teses já apontava a destruição do planeta e da Vida perpetrado pelo capitalismo espectacular, é a ausência de uma crítica radical face ao lento, mas sustentado, ocaso da Terra com as perspectivas cada vez mais sombrias das alterações climáticas, do extractivismo e do neocolonialismo baseado na rapina dos recursos naturais em todo o mundo. Enquanto os ecologistas e ambientalistas bradavam contra o que se passava, os intelectuais de esquerda, menosprezavam esses clamores óbvios, realçando os temas que segundo eles estariam na primeira página das lutas empreendidas: o desemprego, o tráfico de armas, as guerras interétnicas, a guerra nuclear ou o terrorismo. O terror do fim do planeta não se encontrava nas suas maiores preocupações. E assim tudo se manteve até aos anos 90. Se ainda vamos conseguir lutar contra o negacionismo entranhado socialmente é a grande questão com que temos de lidar nos próximos tempos, não tão distantes como isso. 

alc

quinta-feira, dezembro 25, 2025

"Ódio à Civilização Moderna", William Morris

Cornuda Radiante, 2025. Tradução, selecção e notas de Júlio do Carmo Gomes
Não se pense que estamos unicamente perante um livro histórico, datado no tempo. «Ódio à Civilização Moderna» é uma edição recente da Cornuda Radiante, que nos remete para um autor singular no que à ideia de socialismo diz respeito. Trata-se de uma selecção de escritos, quase todos dos finais do século XIX, que se debruça sobre a construção de uma sociedade comunista e que bebe os seus pressupostos nas ideias de Marx, do socialismo e do anarquismo. O que é singular em Morris é o facto de encontrarmos nele um profundo amor pela Natureza e pela solidariedade comum dos homens que só se libertariam do capitalismo e do trabalho assalariado através da construção de uma ideia e prática comuns baseadas no trabalho livre e nas relações de entreajuda em comunidades verdadeiramente cooperativas. A síntese comunista é uma evidência em William Morris, mesmo que Engels o tenha desconsiderado, em correspondência privada, chamando-lhe um «burguês acomodado». Morris desanca a sociedade vitoriana e o capitalismo adivinhando-se já que este se desenvolveria de crise em crise, colocando em causa as relações humanas baseadas no domínio e subjugação dos mais fracos, os trabalhadores, e pelo extractivismo que anunciava uma Natureza exaurida. A fealdade das cidades e dos seus edifícios, o desarrumo dos campos, o fim do artesanato que criava coisas úteis e belas, foram a pedra de toque da denúncia de Morris de uma sociedade que criticou severamente. Perante o reformismo dos socialistas, preconizava a abstenção e a preparação de uma revolução que os ingleses teimavam em negar. Defendia um proselitismo activo das ideias socialistas na classe trabalhadora e invectivava as classes médias a afastarem-se das práticas capitalistas que apontavam à ruína e ao fim de uma humanidade em vias de deixar de ser pela existência de guerras permanentes a que se obrigava pela lógica dos lucros sem fim, da maquinaria industrial que exigia o fim do trabalho livre pela existência de um trabalho escravizado e do estertor da Natureza que se consumia pelo extractivismo. Talvez as melhores páginas desta selecção levada a cabo por Júlio do Carmo Gomes sejam as que se referem à construção pormenorizada de uma sociedade comunista: algumas delas claramente influenciadas pelo socialismo de Proudhon e pelo falanstério, mas igualmente pelas teses de Marx. William Morris não esconde o seu profundo conhecimento pela sociedade e economia feudais e colabora em clubes românticos, pré-rafaelitas, o que não deixa de ser sintomático sabendo nós a simpatia que Marx tinha para com poetas e pintores românticos muito pouco alinhados com a sociedade burguesa dessa época. 

Reside nessa síntese teórica a possibilidade de um caminho das ideias da Esquerda e do Socialismo nos miseráveis dias de hoje. Numa época em que a realidade já foi ultrapassada pelo espectáculo e em que a mentira é o artifício da tecnologia e de quem a dirige, este «Ódio à Civilização Moderna» não nos deixa de invectivar, de nos obrigar ao questionamento permanente de como outra sociedade é possível. É por isso que este livro é tão importante.

«É uma sociedade que não conhece o significado das palavras rico e pobre, nem o direito de propriedade, nem a lei e a legalidade, nem a nacionalidade: uma sociedade que não tem de viver com a assunção de ser governada; uma sociedade na qual a igualdade de condições é uma questão natural e na qual nenhum homem é recompensado por prestar serviços à comunidade pelo mero facto de dispor do poder de causar-lhe dano.
É uma sociedade ciente do desejo de preservar uma vida simples e de renunciar a uma parte do poder de domínio sobre a natureza, adquirido ao longo de eras passadas, com a finalidade de ser mais humana e menos mecânica, e disposta a fazer algum sacrifício para atingir esse fim. Estaria dividida em pequenas comunidades, muito diversas entre si dentro dos limites consentidos pela ética social respectiva, mas sem rivalidades e olhando com aversão para a ideia de um povo eleito.» (pág.156)

alc

segunda-feira, novembro 24, 2025

"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi

 

VS. Editor. 2022. Tradução de João Coles

Furio Jesi faleceu em 1980, precocemente aos 39 anos deixando-nos, contudo, uma obra ensaística significativa principalmente na questão do conceito de mito. «Spartakus, Simbologia da Revolta» debruça-se sobre os mitos da esquerda, os que sempre acompanharam a construção utópica de sociedades livres em que a esquerda se viu envolvida, mesmo com erros inerentes à aplicação prática numa dada realidade social em ebulição. Furio Jesi parte da revolução espartaquista, entre Dezembro de 1918 e Janeiro de 1919, para notar que o mito já existe no próprio nome da Liga Espartaquista que vai ser o gérmen do KPD e que lembra a revolta dos escravos liderada por Espártaco contra o Império Romano. Reside aqui o mito que guiou Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt a participar numa revolta que, paradoxalmente, não acreditavam poder ganhar mas que serviu de estímulo para a construção de uma sociedade livre. Para além do sacrifício, talvez desnecessário (por uma análise incorrecta da correlação de forças em campo)  dos revoltosos alemães, perpetrado pela social-democracia de Ebert, Furio Jesi expande as suas considerações sobre o que distingue uma revolta de uma revolução. Enquanto que, na primeira, existe uma suspensão do tempo histórico, na revolução há uma apropriação desse mesmo tempo. Uma destrói, a outra constrói e é nessa destruição que existe a suspensão, pela violência e pela identificação próxima com o  outro, de uma realidade que se quer outra. A revolução retoma o tempo normal, sob outras formas, é certo, mas a construção de um tempo é um dos objectivos não escondidos de qualquer revolução. Assim foi em 1789 e em 1917. 

A esquerda actual vive igualmente de mitos. O mito da comuna de 1871, dos conselhos de 1918/19, da Guerra Civil de Espanha de 36/39, do Maio de 68, da guerrilha de Che, mas não deixa de ser sintomático que essa identificação do mito persista nos derrotados e não nas revoluções vitoriosas, como a de 1917. Compreende-se que o sangue derramado dos heróis, construa uma identificação psicológica forte quando a derrota foi o culminar das suas utopias. 

A esquerda, não por acaso, deixou de ser subversiva, dispensando a propaganda como coisa de nazis e fascistas, não compreendendo que ela foi uma das razões que uniu (e ganhou) camadas de gerações revolucionárias em torno de uma ideia comum. Hoje acantonou-se no parlamentarismo deixando para outros a construção de uma sociedade mais livre. A subversão deixou de fazer sentido para largos estratos da esquerda, receosa de perder votos afirmando-se como uma espécie de corpo bem-comportado em debates que julga fracturantes, mas que não são mais do que o caminho óbvio da evolução das liberdades. O tempo aqui não será suspenso, porque não há revolta que lhe valha com estes pressupostos. 

De Furio Jesi:
«Podemos amar uma cidade, podemos reconhecer as suas casas e ruas nas nossas mais remotas ou mais caras memórias, mas só na hora da revolta sentimos verdadeiramente a cidade como nossa: nossa, por ser do eu e aos mesmo tempo dos ''outros''; nossa, por ser campo de uma batalha que se escolheu e que a colectividade escolheu; nossa, por ser espaço circunscrito no qual o tempo histórico está suspenso e no qual cada acto vale por si só, nas suas consequências absolutamente imediatas. Apropriamo-nos de uma cidade fugindo ou avançando na alternância das investidas, muito mais do que brincando, quando crianças, nas suas ruas, ou passeando por elas mais tarde com uma rapariga. Na hora da revolta já não estamos sozinhos na cidade.» (pág.77)

alc

domingo, novembro 16, 2025

«In girum imus nocte et consumimur igni», Guy Debord

 

Antígona, 2022. Tradução de Júlio Henriques

Edição sobre o filme homónimo de Guy Debord, é composta por uma introdução de Alice Becker-Ho, que aqui assina como Alice Debord, e seguida de uma nota crítica do autor, em Dezembro de 1977, que se debruça sobre as condições da sua época que despreza absolutamente. Para além da ficha técnica do filme de 1978, «in girum imus nocte et consumimur igni» (1) conta, igualmente, com instruções para a sonoplastia e montagem, assim como «Notas sobre a utilização dos filmes roubados» e uma «Lista das citações ou dos desvios no texto do filme ''in girum...''». Finaliza com um provocador e belíssimo texto de Debord e Gil Wolman «Modo de usar o desvio» publicado em  «Les Lèvres nues», nº8, escrito em Maio de 1956.

Avesso a toda a interpretação do seu pensamento teórico, Guy Debord não deixou de exprimir a sua revolta pelo sistema capitalista e da burocracia estalinista. Para ele, é suficientemente claro o que deixou escrito, plasmado na circunstância do tempo vivido por uma população alienada num espectáculo em que a produção e consumo infinitas de mercadorias é parte integrante dessa mesma alienação. O início do filme é disso um exemplo.

Este livro, traduzido, com rigor, por Júlio Henriques, não é só um guião do filme com o mesmo nome que pode ser acompanhado gratuitamente no YouTube (In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni (1978)) e sem qualquer anunciante a atrapalhar o seu visionamento, o que não deixa de ser irónico. É mais que um guião: são considerações importantes sobre o estado das coisas nos finais dos anos 70, já com a Internacional Situacionista, que ele fundou em 1956, dissolvida em 72. Aí, Guy Debord afirma:

«Mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo, e ter-me-ia irritado possuir outros méritos aos olhos de uma tal sociedade. Mas, segundo observei, foi ainda no cinema que provoquei a mais perfeita e a mais unânime indignação. Essa aversão foi mesmo levada ao ponto de me pilharem no cinema com muito menos frequência do que no resto, pelo menos até agora. A minha própria existência no cinema continua a ser uma hipótese que em geral é refutada. Vejo-me, pois, colocado acima de todas as leis do género. Por isso, como dizia Swift, ''não é para mim parco contento apresentar uma obra em tudo superior a qualquer crítica''.» Eis uma boa razão para não perder o filme ou os outros que estão à nossa disposição, embora vistos numa sala escurecida seja bem diferente que a luz difusa das casas. 

Não imagino um Debord nostálgico, muito longe disso, mas não deixa de ser motivo de atenção as observações que faz a uma Paris que foi destruída pelo urbanismo contemporâneo (palavra esta que chama todos os insultos a Debord) ou de uma Florença que ele amou, mas que o impediram de viver por supostas ligações às BV italianas, o que é, de todo, impossível no autor. Bastava para isso ler, mesmo em diagonal como é apanágio dos procuradores, as suas teses. Uma metáfora certeira para as cidades hoje destruídas pelo urbanismo oficial e pela gentrificação. Existe igualmente inscrita nesta obra a publicação referida atrás, de 1956, que vale a pena ler e que versa sobre um tema particularmente interessante nos situacionistas: a noção de «desvio», em francês «dètournement», em todos os campos da actividade humana e, principalmente, no que se chama de «cultura». Trata-se, simplificando, do que se pode chamar de «colagens» de obras ou frases que descontextualizando-as, serão utilizadas em novos contextos criados por quem faz, propositadamente, esse desvio. Para isso, já em 1956, Debord e Wolman, criam uma classificação e um «modo de usar o desvio» precocemente utilizado por Lautrèamont em «Cantos de Maldoror»: 

«(...) Tudo pode servir. É óbvio que podemos não só corrigir uma obra ou integrar diversos fragmentos de obras caducas numa obra nova, mas também mudar o sentido destes fragmentos e alterar, de todas as formas que se julguem adequadas, aquilo que os imbecis se obstinam a chamar citações.» (pág.73)

«Uma palavra de ordem como ''o plágio é necessário, o progresso implica-o'' é ainda tão mal compreendida, e pelas mesmas razões, como a frase famosa sobre a poesia que ''deve ser feita por todos''.» (pág.74)

«A barateza [do desvio] dos seus produtos é a artilharia pesada com a qual se abatem todas as muralhas da China da inteligência. Estamos perante um meio efectivo de ensino artístico proletário, o primeiro esboço de um comunismo literário.» (pág.77)
__
(1). Se repararem trata-se de um palíndromo, ou seja, pode ler-se da normalmente da esquerda para a direita, como da direita para a esquerda. Traduz-se por «Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo».

alc

quinta-feira, agosto 14, 2025

"Flauta de Luz" 11

 

Cada número que sai constitui uma surpresa pela qualidade, mas igualmente pela insubmissão que espelha em cada artigo que se lê, não fosse ela feita de Luz. Gostaria de aqui destacar um ou outro artigo, mas seria injusto e ostracizaria todos os outros. Arrisco, no entanto, falar do genocídio de Gaza ("Gaza é o destino da Humanidade", de Ognian Kassabov, por exemplo, é arrasador de tão verdade que é), um texto maravilhoso de Christian Bobin, o fim do extractivismo no Barroso, Alfred Jarry, Gunther Anders, Júlio Henriques, Joelle Ghazarian, David Watson, etc...etc...

quarta-feira, maio 28, 2025

«Esta Má Fama...», Guy Debord

 

Letra Livre, 2014. Tradução e notas de Júlio Henriques
Talvez um dos mais atacados e vilipendiados membros da Internacional Situacionista, de certeza aquele que mais sofreu na pele as invenções e maquinações que o poder de Estado francês (e não só) exerceu sobre uma pessoa. Guy Debord esteve a pontos de ser detido por assassínio do seu editor Gèrard Lebovici - uma outra história que um dia valerá a pena contar aqui - e isto tudo com a complacência, se não mesmo cumplicidade do poder mediático, da direita, obviamente, e de uma certa esquerda estatista que perdeu totalmente a vergonha perante a ignomínia do que disseram sobre ele: ''agente secreto ao serviço de interesses inconfessáveis, talvez americano ou talvez «soviético», avençado por um cunhado antiquário de Hong Kong, excepcionalmente rico que induziu estrategicamente o poder político a reforçar o seu poder, um homem que organizou as maiores violências do Maio de 68 incluindo as pichagens mais criativas (talvez haja alguma verdade, mas seria muito para um homem só), estalinista, nazi, um profeta ferido na sua deriva utópica, um tipo de gostos requintados comparando-o ao Cardeal de Retz de quem imitava a escrita''. 

Acredito que é necessária muita imaginação para o insulto e a ofensa e para inventar factos totalmente falsos como este pequeno livro demonstra em defesa do próprio. E assim numas meras 96 páginas ficamos cientes do papel vergonhoso a que se prestaram aqueles que, não lendo, como é fácil de observar, «A Sociedade do Espectáculo» ou, mais tarde, os seus «Comentários...» atacaram o homem, não sem saírem completamente ridicularizados na desmontagem dessa tentativa por Guy Debord. Estão lá todos os nomes. 

«(...) Nunca detestei os ricos pelo simples motivo de o poderem ser. Bastava-lhes saberem-se comportar com tacto suficiente; e com bastante estilo. Não teria eu sido muito mais censurável se a riqueza deste ou daquele indivíduo tivesse parecido impressionar-me? se lhe tivesse dado a pensar que podia influenciar-me por causa desse único detalhe? Ou que podia simplesmente falar comigo num tom mais alto? Creio que eles viram que não. Seja como for, nunca pensei de outra maneira, e agi em consequência como devia. Nunca fui rico; e também nunca tive de reconhecer-me como alguém necessariamente pobre. Nunca nada estava garantido. ''O tempo dos gonzos'', para o dizer em termos shakespearianos, e desta vez era verdadeiramente por toda a parte: na sociedade, na arte, na economia, na própria maneira de pensar e de sentir a vida. Já nada tinha medida. Acima de tudo, fui alguém desses tempos, mas sem partilhar as suas ilusões. Gabo-me de ter sobretudo raciocinado segundo o princípio que diz: ''A cavalo dado, não se olha o dente.'' Pratiquei o potlach com grandeza bastante para me não inquietarem algumas delicadezas excessivas.» (pág.58)

Sendo mais avisado ler os livros teóricos de Debord sobre a sua análise do mundo que há-de vir, deixo-vos este pequeno extracto extremamente visionário, escrito em 1993:

««(...) Por todo o lado, a especulação, para concluir, tornou-se a parte soberana de toda a propriedade. Autogoverna-se mais ou menos, segundo as preponderâncias locais, à volta das bolsas, dos estados ou das máfias, federando-se todos numa espécie de democracia das elites da especulação. O resto é miséria. Por toda a parte o excesso de simulacro explodiu como Chernobil, e por toda a parte a morte se espalhou tão depressa e tão maciçamente como a desordem. Já nada funciona, e já não se acredita em nada.» (pág.80)

Debord, doente, suicida-se um ano depois destas palavras premonitórias ainda os Calígulas e os Neros contemporâneos não tinham chegado ao poder e a mentira instalar-se em «toda a parte».


alc

quarta-feira, março 26, 2025

«A Ideia», 104/105/106

A Ideia, 104/105/106. Outono de 2024. Periodicidade anual

A IDEIA - 104 / 105 / 106
revista de cultura libertária

outono 2024

director: António Cândido Franco

editor gráfico: Luiz Pires dos Reyes

268 páginas

SUMÁRIO DE MATÉRIAS
A. Cândido Franco – Sobre o 25 de Abril – da revolução ao colapso
Beldiabo – Ideias, precisam-se
Manuel da Silva Ramos – Plongée sobre os meus anos de 74 e 75
José do Carmo Francisco – Pranto e lamentação de Joana em 22 versos
Adriano Alcântara – País de partida (trecho final)
Risoleta Pinto Pedro – Os dyanthus caryophyllus
Teresa Ferrer Passos – A luz rompeu a noite
Pedro Ferreira – Da censura ao jogo de interesses
Jorge Leandro Rosa – Simone Weil: o activismo e os trabalhos da alma
Simone Weil – Carta a Georges Bernanos
A. Cândido Franco – Sobre a carta de Simone Weil a G. Bernanos
José Carlos Costa Marques – Pomar na vertente escarpada
Amadeu Baptista – Os dias invisíveis
A IDEIA – Cem anos da rebelião surrealista
Pedro Martins – Camões: antigas e novas andanças da heresia
Nuno Júdice – No centenário do surrealismo
Paulo Jorge Brito e Abreu – Menagem-homenagem a Nuno Júdice
Grupo DeCollage – Por uma nova convocação dos cúmplices
Michaël Lowy – Um manifesto libertário
Paulo Jorge Brito e Abreu – O surrealismo no lance
Manuel Almeida e Sousa – Mandrágora
Pedro Águas – O primeiro dos primeiros poemas
Duas cartas inéditas de Pedro Águas
Penelope Rosemont – Charles Radcliff (1941-2021)
Nicolau Saião – Um voo sobre o surrealismo
José Manuel Rojo – Eugenio Castro (1959-2024)
José Estevão – O estado poético do entomólogo
A IDEIA – José Maria Ferreira de Castro (1898-1974)
Bernard Emery – Murcharam mesmo os cravos da esperança?
Ricardo António Alves – Jaime Brasil e Ferreira de Castro
Mara Rosa – Jaime Brasil (1896-1966)
Jaime Brasil – Postal a Pinto Quartin
Tomás Ibáñez – Carta a Catherine Malabou
La “Oveja negra” de Ana María Matute – Almerinda Pereira
Clandestinos do anarquismo – Sebastian Kalicha
AMGD 102 – Maria Estela Guedes
Quatro pneus furados – Henrique Manuel Bento Fialho
Contestação lúdica da extrema-direita – Henrique Garcia Pereira
Sobre o anarquismo de direita – Jerónimo Leal
Dos nazis a Elon Musk – Irénée Régnauld
Oração II – Maria Estácio Marques
Os impertinentes – Carlos Oliveira Santos


LEITURAS & NOTAS
[Alain Gras, Cassandra Querido, François Jarrigue, João Freire,
José Nuno Lacerda Fonseca, Sebastian Kalicha, Tomás Ibáñez]
BIBLIOGRAFIA
[A. Cândido Franco, João Freire, Paulo Guimarães, Mara Rosa]

[este volume da revista A IDEIA comporta um primeiro suplemento com inéditos em verso & outros achados poéticos de Nunes da Rocha & um segundo de João Freire intitulado Um Futuro Perigoso ideologias, políticas, interesses – num mundo finito & ainda um encaixe em papel IOR de quadradinhos a preto e branco da autoria de Ariana Vitorino com A VIDA DE EMMA GOLDMAN]


 

segunda-feira, janeiro 06, 2025

«Viva L' Anarchie!», Tomos 1 e 2. Bruno Loth e Corentin Loth

 

«Viva L'Anarchie!», Tomos 1 e 2. Bruno Loth (argumento e desenho) e Corentin Loth (côr)
Subtítulo: «O Encontro entre Makhno e Durruti. La Boîte à Bulles, 2020

Um regresso feliz à BD com este «Viva L'Anarchie!» pelo argumento e desenho de Bruno e Corentin Loth. Revivo, com esta forma popular que adquiriu o nome pomposo de «novela gráfica» nos dias de hoje, uma relação íntima com esta forma de arte. Claro que a BD pode ser lida em conjunto, mas não é de modo nenhum uma forma muito agradável de o fazer. Tal como a leitura de um livro, quando é feita a dois é já uma multidão, o que, como sabemos, não acontece com a pintura, o cinema, a música, a performance, ou o teatro. Daí, considerar a Banda Desenhada uma arte (a nona?) com um carácter muito particular. 

«Viva L' Anarchie!» é História. Os factos, documentados e cujas personagens são biografadas, relatam a luta travada por Nestor Makhno e Buenaventura Durruti, nos anos 20 e 30 do século passado, respectivamente na Ucrânia e na Catalunha para a construção de uma terra verdadeiramente livre e partilhada por todos. Mas as geografias utópicas não ficam só nessas regiões, não fosse o projecto anarquista ser assumidamente internacionalista. O mundo era um lugar sem fronteiras, tal como o dinheiro e o capitalismo não as têm, igualmente. A clarividência e a exigência do impossível foram sempre atributos anarquistas. Principalmente, quando acompanhados por milhões de camponeses e operários sem nada, explorados até ao tutano, morrendo de fome, reprimidos e humilhados em todos os continentes como foi presenciado também na América do Sul por Durruti e Ascaso. Esta história pode e deve ser contada, mas infelizmente não há editores portugueses que o façam. Na França, na Grã-Bretanha, na Bélgica, nos Países Baixos e em Espanha, não há receio de assumir uma história de luta que está entranhada no adn do país ou da região. Aqui em Portugal, que temos uma enorme história de construção do anarco-sindicalismo e no comunismo libertário, temos parece que uma amnésia, um véu, que desce sobre as lutas dos operários e camponeses por vidas mais dignas. 

Pouco antes da Guerra Civil de Espanha de 1936-39, Durruti encontra-se em Paris com Makhno (este já «derrotado» e a trabalhar, com várias doenças entre as quais a tuberculose que o vai matar, na Renault) e com a sua mulher Galina e Yelena, a filha. Durruti faz-se acompanhar por Ascaso, Louis Lecoin e Yakov, entre outros e outras companheiras. É essa conversa de recordações e de projecções de futuros que a história se desenvolve com um ritmo argumentativo de assinalar. Nessas recordações vimos a violência extraordinária de Guerra Civil de 1918 a 21 na Rússia e, principalmente, na Ucrânia, visto que foi lá que a força da Makhnovchtchina (expressão que Makhno não aceitava, aliás) se fez sentir derrotando os nacionalistas ucranianos aliados dos austro-húngaros e alemães ocupantes após Brest-Litovsk, esmagando igualmente os Brancos de Denikine e, depois, de Wangrel. Contudo, o mais importante, o que levou ao ao apoio entusiástico das populações ucranianas em torno de Makhno, foi o projecto igualitário e colectivista levado a cabo pelos comunistas libertários no campo e na cidade. Reconhecemos demasiado bem, hoje, diria que infelizmente, o mapa da Ucrânia e lá vem as zonas libertadas, o rio Dniepre, o Donbass, a Crimeia sempre fonte de conflito e de acesso ao Mar Negro. As vitórias de Makhno só se poderiam dar com o apoio da população, visto que o número e as forças em presença eram gritantes tal a sua diferença. De vitória em vitória, até à derrota da Makhnovchtchina pelos bolcheviques de Trotsky, já quando desgastados depois da campanha da Crimeia e este não considerando sequer a sua antiga inclusão no Exército vermelho. Quase todos foram presos, alguns desaparecidos e muitos eliminados, executados por ordem de Estaline, como aconteceu com Galina e Yelena, presas mais tarde em Berlim Oriental após a II Guerra Mundial. 

Quanto a Durruti, morreu, como sabemos, em plena Guerra de Espanha em circunstâncias estranhas em que não há certezas de onde vieram os tiros. Aliás, como Ascaso e tantos outros e outras da CNT-FAI que morreram, não só metaforicamente, com tiros nas costas. Uma história verdadeira onde se misturam traições, ódios, amores e principalmente a enorme vontade de edificar algo que ainda não temos. Talvez um dia. Para já, em plena regressão humana, é sempre bom ter estes livros bem perto.

alc

sexta-feira, agosto 30, 2024

«Caminhar - Uma filosofia», Frédéric Gros

 

Antígona, 2023. Tradução de Inês Fraga. Não segue o AO90
De Frédéric Gros conheço o seu livro «Desobedecer» editado igualmente pela Antígona. Livro interessante de seguir, não se pense que é de auto-ajuda, o que não quer dizer que não vos ajude. De jeito enciclopédico, leva-nos a viajar pela ideia filosófica da caminhada por alguns dos seus protagonistas mais conhecidos: Thoreau, Nietzsche, Nerval, Kant (este chato menos caminhante que os outros), Rimbaud, Rousseau, Kierkegaard, Hölderlin e até Gandhi. Outras pequenas referências são-nos dadas conforme a narrativa e a procura de Gros, como, por exemplo, as errâncias dos primeiros monges cristãos proibidos pela igreja sedentária ou os peregrinos de todos os matizes que encontram a «revelação» caminhando incessantemente.

E, por falar em «caminhar incessantemente» desconhecia, de todo, a doença dos «caminhantes loucos» capítulo do livro que, se o adquirirem, não devem deixar de ler. Nerval e Rousseau encontram-se, escreve Gros e recorrendo à opinião de alguns «médicos pouco inspirados», entre os chamados «dromomaníacos», um síndrome de doença mental que obriga o paciente a caminhadas repetitivas e intensivas. O mentor desta teoria foi Achille Foville, sócio da Sociedade Médico-Psicológica, e que, em 1875, descreveu como patológicos «o gosto por viagens intempestivas e a paixão migratória»! Pois: fosse dizer isso a uma família irlandesa com fome e que emigrava para os EUA ou Austrália que tinha uma patologia dromomaníaca e que mostrava uma «impossibilidade de permanecer em casa»!! Gostaria muito de ver a reacção dessa família para com o senhor Achille. No entanto, teve a boa educação (já que senso demonstrou não ter) de distinguir dos chamados dromomaníacos os «...imbecis que não conseguem estar parados e deambulam tolamente; os dementes que materializam o seu delírio em errâncias sem destino; os dipsomaníacos (bêbados inveterados) ou eratómanos que saem de casa para se precipitar na lama das cidades e aí satisfazer os seus vícios (sic!).» (pág.77) Haja paciência para ler estas coisas sem ser nos programas eleitorais dos «iliberais»!

Gostamos de ler «Caminhar», embora o autor nos avise que esta actividade não é um desporto. E ainda bem que não o é. Gostamos nós de caminhar na natureza em silêncio, comunicando com as pedras e as árvores ou os pássaros, ou correr numa passadeira como um hamster amestrado num ginásio a cheirar a suor? É escolher... por mim, que já usei as duas experiências, fixei-me na primeira proposta. Contudo, ao finalizar a leitura deste livro, vi-me como um amador das caminhadas: comparar-me com as pernas de Nietzsche que andava os seus 50 km por dia nas margens do lago Léman (onde já caminhei, por acaso) é impossível, tal como com Rousseau que caminhou incessantemente quando era miúdo de 20 anos e no seu Outono da vida; nos entrementes, frequentava os salões sociais onde se fartou. Hölderlin foi outro que caminhou de Estrasburgo até Bordéus, fazendo com que os críticos e amigos assentassem que houve um poeta antes da viagem e outros, após-Bordéus! Ou seja, o enorme poeta procurou claramente a ruptura que o levou a ser guardado numa torre e tendo, como leal amigo, um marceneiro, seu tutor. Já Rimbaud conhecemos bem de que é feito: a partir dos 15 anos nunca teve sossego na sua errância constante. Por não ter dinheiro, fugia a pé pelas estradas e assim permaneceu toda a sua vida poética e de comerciante de armas. Sabemos o fim, não necessariamente ligado às suas longas caminhadas. Já não se poderá afirmar o mesmo com Robert Walser, igualmente um grande caminhante, arredado estranhamente ausente deste estudo de Gros, que faleceu num trilho de montanha que contornava o Hospital psiquiátrico de Herisau, em 1956. Sinto-me, pois, no direito mais que legítimo e, aliás, muito pouco arrogante de me identificar com as caminhadas diárias e circulares de Thoreau que não saía da floresta Concord, aproveitando os dias que formavam o conjunto das estações do ano as mudanças, as transformações, que a natureza tinha o condão de nos apresentar. Monótono? Pois sim: «A caminhada é melancólica, monótona. É por isso que nunca se revela enfadonha. Devemos opor a monotonia ao tédio. O tédio é a ausência de projectos de perspectivas. Giramos em volta de nós mesmos. (...) A caminhada nunca é entediante. Apenas monótona. Quando caminhamos, vamos a algum lado, estamos em movimento, o passo é uniforme. Há demasiada regularidade, demasiado ritmo para que a caminhada provoque tédio.» (pág.139)

As caminhadas nas cidades também não são esquecidas, mas nota-se um certo desprezo do autor perante as fugas e caminhadas urbanas. Só o espírito de 'flâneur', quer de Baudelaire e Walter Benjamim, quer da Teoria da Deriva de Debord e dos situacionistas (Groz dedica a este último um único pequeno parágrafo) é tido como viável, tal como nos diz neste trecho que reproduzo:
 
«Subversão da especulação. O 'flâneur' resiste ao produtivismo. É perfeitamente inútil, mas não é passivo. Não faz nada, mas persegue obstinadamente tudo, captando instantaneamente choques, encontros, imagens. Sem o 'flâneur', quem poderia atestar o que acontece nos cruzamentos? Cada um de nós produz às cegas a sua série de fenómenos. O 'flâneur' apreende as centelhas, as fricções, num piscar de olhos.
Subversão do consumo. A multidão perde-se no seu devir-mercadoria. Arremessado de um lado para o outro, o indivíduo torna-se presa dos movimentos. A multidão consome, as avenidas devoram. Os letreiros, as montras existem para fazer circular mais depressa as mercadorias. O 'flâneur' não consome nem é consumido. Respiga, rouba. É verdade que nunca recebe, ao contrário do caminhante das planícies e das montanhas, a paisagem como oferenda pelos seus esforços. Mas capta, apanha instantaneamente encontros improváveis, momentos furtivos, coincidências fugidias. Deita a mão a vinhetas e faz fluir em si a chuva fina das imagens roubadas.» (pág.220)

Talvez por isso, o registo (e roubo assumido) de imagens pela fotografia e pelo desenho urbano tornou-se, hoje em dia, um modo de subversão impossível de imaginar em meados do século XX.

alc

terça-feira, julho 30, 2024

«A Guerra dos Pobres», Éric Vuillard

 

D. Quixote, 2020. Tradução de João Carlos Alvim. De acordo com o AO90.
Em 72 páginas, o escritor francês Éric Vuillard, também autor de «Ordem do Dia», levou a cabo um exercício de síntese extremamente difícil em literatura. Em pouquíssimas palavras, todas elas tão contidas quanto certas, num jeito confessional para com o leitor, dá-nos uma perspectiva entusiástica da vida de Thomas Müntzer que levou a cabo nos anos vinte do século XVI uma revolta milenarista, de carácter religioso e social contra a igreja e a nobreza alemã.

A acção, muito complexa de analisar ainda hoje e alvo de vários estudos históricos, de Thomas Müntzer e da revolta camponesa e operária, acantonada nos núcleos urbanos juntamente com os artesãos, tem, contudo, antecedentes na Europa Central. Estamos a falar do checo Jan Huss (no livro a grafia que aparece é Hus), do inglês John Wyclif e dos seus lollardos que puseram a Inglaterra a ferro e fogo, de John Ball e de Wat Tyler seus continuadores nas revoltas onde decapitaram nobres e funcionários do rei, incendiaram castelos, propagandearam as suas teorias de uma era de ouro, mel e igualdade, usando a palavra de Cristo através dos evangelhos entretanto traduzidos para a língua comum. Não obedeciam às regras do clero, não pagavam os dízimos, assassinavam padres e nobres, saqueavam castelos como já se disse e não pagavam os arrendamentos das terras. Almejava-se uma igualdade social, baseado nas metáforas e palavras mais ou menos claras de Cristo contra a riqueza e o luxo. Acresce-se, em jeito de final de história (ironia minha, porque a vontade de igualdade social esteve e estará sempre presente nas lutas sociais) que todos foram mortos com extrema violência seja através do enforcamento, esquartejamento, decapitação, queima, tortura, etc, tudo o que a imaginação tétrica dos possidentes pode atingir. Embora a violência das massas populares  entregues a si próprias não fosse propriamente de anjinhos, fossem eles católicos ou protestantes. Aliás, Lutero, opôs-se violentamente contra a ordem revolucionária camponesa nos territórios ocupados pelos sediciosos. Não fosse a «sua» igreja ficar sem benesses...

Müntzer, diz-nos Éric Vuillard, assistiu à execução do pai, seu homónimo. O escritor define-o como colérico, iroso. Tem a palavra de deus e isso basta-lhe como programa que sintetiza no seu «Manifesto de Praga», embora recusando qualquer discussão estéril com o clero. O termo utilizado para esta recusa é «repugnância». A partir daqui é com um grande entusiasmo que continuamos a leitura querendo sempre chegar ao clímax da história, sabendo de antemão que o final de Thomas Müntzer estará traçado desde início. Pouco importa. Quando se escreve bem, vale sempre a pena continuar até porque somos brindados com alguns pormenores impossíveis de saber em livros académicos. É curiosos que a proximidade do Verão, abre quase sempre as portas às revoltas e revoluções. Claro que há excepções (Novembro de 1917, por exemplo), mas não sei se foi por esse facto que Vuillard nos apresenta o capítulo «O Verão Bate às Nossas Portas»:

«''Mund é a boca de Zerstörung, a destruição''. De forma que é possível detectar, em Thomas Müntzer, uma afinidade prodigiosa entre a palavra e a negação. Decerto, pode ver-se em Müntzer um desses idealistas apaixonados de que a medicina troça, podem colocar-se no divã Rousseau, Tolstoi, Lenine, e forçá-los a dizer o que quer que seja. Pode ver-se em todas as revoltas e em todos os fervores uma dor pessoal transfigurada; e então? (...)
Sim, Müntzer é violento, sim, Müntzer delira. Convoca o Reino de Deus aqui e agora, há nele um excesso de impaciência. Os exasperados são assim, irrompem um belo dia da cabeça dos povos, como fantasmas saem das paredes.» (pags. 45, 46)

A história de Thomas Müntzer termina na Batalha de Frankenhausen, se «batalha» se pode chamar a um massacre de dezenas de milhares de desvalidos miseráveis e cuja repressão brutal posterior do exército do rei e dos nobres levou dois meses a acabar. É assim que Éric Vuillard inicia o capítulo correspondente:
«E assim, dos quatros cantos do Império, surgiram hordas de miseráveis. Müntzer cantava, a multidão acorria. O landgrave de Hesse nem queria acreditar nos seus olhos. Em seguida, foram os operários das cidades, os loucos, toda a massa camponesa que bruscamente se sublevou. Houve um grande pavor entre os nobres e os burgueses. As mulheres deixavam as suas casas, as crianças caminhavam através dos campos, na esteira do Espírito Santo. As raparigas, os vagabundos, a atroz populaça, até os animais! Viu-se assim todo o género de gente, em grupos de dois ou de três, sozinha também, sem bagagem, sem nada. Não se sabia o que pretendia. Os senhores e os seus bandos armados já não ousavam fazer o que quer que fosse; viam-na passar aterrados. Um vago temor começava a nascer. Que deveria decidir-se? Nunca se tinha visto uma coisa assim. Todos largavam casas e casebres e se juntavam à errante multidão. E para onde ia toda essa gente? Ignorava-se. Temia-se até dispersá-la. Dormia nos bosques, na palha, entre sonhos.» (pág. 66)

E assim entre sonhos, a mole humana miserável que seguia Thomas Müntzer viu esfumar-se a igualdade que ansiava. Derrotada? É possível, mas ainda hoje está aí para a sua história ser contada. O milenarismo, o assalto à utopia da idade de ouro vindoura, aí está para ser lida e pensada nos dias de hoje pela mão de Éric Vuillard e de outros que não desistiram de nos lembrar, como Norman Cohn o fez no seu trabalho excepcional, de 1957, «Na Senda do Milénio - Milenaristas revolucionários e anarquistas místicos da Idade Média» que tomo a liberdade de vos apresentar como dos poucos livros de grande fôlego, talvez não ultrapassado até hoje, sobre o tema. Foi neste livro que Éric Vuillard encontrou pormenores da vida e pensamento de Thomas Müntzer que veio a ser essencial para a construção da sua pequena obra.

alc

quinta-feira, julho 18, 2024

«Révolution», Enzo Traverso

 

La Découverte, 2022. Edição francesa. Traduzida do inglês por Damien Tissot.
Capa de Ferdinand Cazalis
Numa época de triste recuo histórico das esquerdas mundiais, nunca é demais um exercício de memória sobre as revoluções passadas. Não se pense, contudo, que este livro se baseia numa melancolia revolucionária de quem pensa que a revolução é letra morta, que numa sociedade de capitalismo de vigilância e nas tecnologias avançadas, as experiências insurreccionais (sejam elas revoltas ou motins e revoluções) estarão necessariamente votadas ao fracasso. É exactamente o contrário. Ler este livro é uma lufada de esperança para quem acredita que a vida, a verdadeira vida, residirá numa saída única da catástrofe anunciada a que o sistema de exploração sistemática dos recursos do planeta e do trabalho alienado humano nos votou. Ler este livro de Enzo Traverso é tão-só analisar, pelas suas 450 páginas que se lêem num ápice de entusiasmo, as grandes derrotas históricas, as vitórias «dos assaltos aos céus», o «tempo das cerejas» ou dos «enragés» e sans-culottes que só exigiam governar-se a si próprios. É revisitar a vitória libertária de 1917, também sob o prisma tanto dos derrotados de Cronstadt como, ironicamente, a de Trostsky. É conhecer melhor Marx e Engels, Blanqui e Fourier, Bakunine e Proudhon, Walter Benjamim, Fanon e Constant, Lenine, Estaline e Mao e tantos outros; foi com muita atenção que o historiador referiu a grande massa de revolucionários anónimos e que pereceram numa aura de heroísmo e de «santidade» nas barricadas de 1830 e 1848, já em desuso e criticadas em 1871, mas nem por isso menos simbólicas no Maio de 68 francês, na Alemanha e Hungria de 19 ou na Espanha em 1936. Ou revisitarmos igualmente os vitoriosos de Sierra Maestra, o Vietname, o Laos e o Camboja, a China da grande marcha ou Tiananmen de 90. O século XX foi farto em dar-nos essas experiências, muitas delas afundadas em sangue e em experiências que melhor fora não terem tido lugar. O que não retira uma vírgula, à vontade de mudança radical que é aposta numa revolução e à sua carga utópica. 
Por isso há uma impossibilidade clara de haver um compromisso entre revolução e contra-revolução seja ela legitimista, conservadora ou fascista. Esses perigosos compromissos dar-se-ão, como demonstra Enzo Traverso, na social-democracia e no socialismo democrático. Mesmo que, entre as duas guerras, se tentasse fazer essa síntese, foram todas votadas ou ao esquecimento, muitas delas junto com esses autores, ou ao fracasso. Essa força, a força revolucionária, nada tinha a ver com a autoridade legitimada das classes subalternas no poder, e a vontade ilegítima (porque pessoal) de um qualquer duce ou führer. A revolução, as revoluções, são sempre a consequência de causas de injustiças e de exploração insuportáveis para os seres humanos. Que elas sejam mais ou menos violentas ou que as instituições mudem de mãos sem um único tiro (lá vem o caso português de 74 e a Checoslováquia de 89!) as revoluções mostram sempre as suas particularidades e igualmente as suas idiossincrasias. Criticadas e temidas por muitos, até por aqueles que delas beneficiariam, retiram-lhes quase sempre as suas causalidades e as conjunturas históricas em que explodem. 

Vejamos ao que vem Enzo Traverso logo no início do livro na página 25: 

«O objecto deste livro é a revolução, para o melhor e para o pior. Ele não opera nenhuma selecção entre as boas e as más revoluções, distinção tão difícil quanto estéril visto que as revoluções não pedem para serem idealizadas ou diabolizadas: elas são experiências vivas que se transformam em permanência e cuja dinâmica é imprevisível. Mais do que um julgamento moral, uma idealização ingénua ou uma condenação intransigente, merecem uma compreensão crítica. É ainda a melhor maneira de compreender o seu significado histórico e transmitir a sua herança. Numa passagem célebre, Marx escreveu que as revoluções modernas ''não retiram a sua poesia do passado'', enquanto que Benjamin vê o seu motor escondido num desejo de redenção dos vencidos que não é mais do que ''o compromisso tácito entre as gerações passadas e a nossa''. É muito provável que as revoluções oscilem entre estas duas temporalidades: elas salvam o passado inventando o futuro, mas podem incluir os dois.»

Mais à frente:

«Contrariamente à maior parte dos trabalhos sobre as revoluções, este ensaio não consagra um capítulo específico à questão controversa da violência. Há várias razões para esta ausência, que não resulta de maneira nenhuma de uma estratégia de fuga. A mais importante prende-se com o facto de a violência revolucionária atravessar esta obra, de maneira explícita ou subterrânea, duma ponta à outra. Com algumas excepções as revoluções são erupções, pontos de viragem traumáticos. A violência pertence à sua estrutura ontológica. As revoluções pacíficas são excepções, não a regra e, em muitos casos, elas não não mais do que arautos de explosões do futuro. Em 1974, a «revolução dos cravos» em Portugal foi pacífica porque foi desencadeada por uma parte do próprio exército e se, quinze anos mais tarde, as «revoluções de veludo» na Europa central se desenvolveram sem efusão de sangue, é porque as forças repressivas foram provavelmente neutralizadas na URSS. (...) 
A segunda razão pela qual esta obra não conta com um capítulo sobre a violência é mais especificamente historiográfica. Os historiadores conservadores escrevem à maneira de promotores, que estigmatizam as revoluções não como uma, mas mais especificamente, a fonte do totalitarismo moderno. Eles repartem-se em geral em duas categorias: de um lado os apologistas astutos do fascismo, do outro, os pregadores de uma sabedoria política solidamente amarrada aos postulados do liberalismo clássico. (...)» 

«Assim, esta obra junta fragmentos intelectuais e materiais dum passado revolucionário impulsivo e bastante esquecido, com o fim de re-articular uma composição com sentido, elaborada por imagens dialécticas: locomotivas, corpos, estátuas, colunas, barricadas, bandeiras, sítios, pinturas, pósteres, datas, ruas singulares, etc. De uma certa maneira, os conceitos, eles próprios, são tratados como imagens dialécticas, na medida em que emergem nos seus contextos próprios, como as cristalizações intelectuais de necessidades políticas e do consciente (ou do inconsciente) colectivo. (pág.31).

Um livro que devemos ter sempre em conta e nunca desfazê-lo num alfarrabista, até pelas imprevisibilidades várias que podem vir a existir no futuro. Sabe-se lá.

alc

sexta-feira, julho 05, 2024

Jornal Mapa 42 nas ruas!

A solidariedade que se possa impor ao racismo interessa-nos mais do que o dó ou a caridade. E disso damos conta numa grande reportagem feita com migrantes que estão há mais de um mês acampados nos Anjos, em Lisboa, pessoas que conseguiram passar pelos poros das cada vez mais violentas fronteiras externas da UE. As lutas pelo território continuam também a interessar-nos mais do que as eleitorais e, mesmo saídos dum desses exercícios, decidimos lançar um olhar à «voragem energética» que a nova vaga industrial trouxe para Sines e também para as ocupações, despejos, resistências que se dão em tecido mais urbano.

Tudo como cama para um composto que possa ajudar a criar uma vida de outro modo, como nos lembra Carmen Staats. Uma vida que, para ser atingida, necessita de lutas ecológicas pensadas também a partir dos Soulèvements de la Terre, um movimento nascido em 2021 numa assembleia da ZAD de Notre-Dame-des-Landes (França) na qual participaram duzentas pessoas de diferentes coletivos de agricultores, ambientalistas, sindicais e autónomos. Interessa-nos ainda relembrar o Unabomber mais do que o Manuel Fernandes, ou Varela Gomes mais do que o Camões, e apoiar o esforço financeiro da Disgraça mais do que o do crescimento orçamental para a defesa.

Jorge Valadas, continua a iluminar-nos com o seu luar que, desta vez, nos deixa ver uma América onde «o sonho» se desfez e onde a pobreza branca também se generaliza. A série «25 de Abril – outros 50 anos» continua neste número, permitindo um olhar para essa espécie de turismo revolucionário que foi a vinda de muita gente de fora do país para participar na revolução, nas palavras de Joëlle Ghazarian.

Tudo isto e ainda outras notícias, crónicas, entrevistas, poesia, literatura, ilustração e BD, no número 42 do Jornal MAPA, que podes adquirir em qualquer dos pontos habituais de venda ou, melhor ainda, assinar, ajudando assim à continuação sustentada deste projeto voluntário de informação crítica.

quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

segunda-feira, abril 22, 2024

Jornal Mapa 41, ilustração de artigo de L. Silva

 

A minha contribuição para o Jornal Mapa 41. Ilustração do artigo de L. Silva (Sandra Faustino) "Startups: não é um ecossistema, é uma plantação"

domingo, abril 21, 2024

Jornal Mapa 41

 

Saiu o número 41 do Jornal Mapa. O SAAL, a Coimbra radical dos anos 70, o 25 de Abril nos liceus de Leiria, o associativismo contra a especulação, as startups e os unicórnios, a gentrificação, a crise ecológica, mulheres: o 25A começou em África, as notas de Júlio Henriques, Phil Mailer e a Revolução portuguesa, poemas, ilustrações... Um número a não perder.

segunda-feira, abril 15, 2024

«Os Galifões e a luta contra a praxe na Coimbra dos anos 70, seguido de Os Quentes Anos 70 em Coimbra», M. Ricardo de Sousa e F. Carmichael

 


Letra Livre, col. Anátema, 2024
Livro interessante e um contributo importantíssimo para a história da radicalidade em Coimbra nos anos 70. Mais visivelmente entre o final dos anos 60, com a crise de 69 na cidade estudantil, o final dos anos 70 e início dos anos 80. Ricardo Sousa, que assina «Os Galifões e a luta contra a praxe na Coimbra dos anos 70», sendo seguido por F. Carmichael numa pequena nota em «Os quentes anos 70 em Coimbra» apresenta-nos um breve ensaio sobre a República dos Galifões e a centralidade revolucionária desta casa/comuna para as intervenções radicais de uma Coimbra que se ergueu contra a praxe académica e trilhou um caminho alternativo e provocador a uma cidade que preferiu a desgraçada tradição basbaque com o seu cortejo de imbecilidades e fluxos de autoritarismo político das direitas e das esquerdas reformistas, baseados em conceitos hierárquicos de chefias, mandos e violências sobre os caloiros que, ávidos de serem castigados, as aceitaram, servis. A grande maioria da população juntou-se à astúcia restauracionista fascista, à cupidez comercial e ao comprometimento universitário, levando Coimbra ao estado comatoso em que encontra hoje. Acelerou-se, então, a destruição do operariado sempre incómodo para a universidade que já ensinava pouco, os bairros operários com tradições de luta que passaram, por exemplo, na participação de ferroviários no 18 de Janeiro de 1934, ou ainda antes, em confrontos abertos contra os Camisas Azuis de Rolão Preto em plena baixa de Coimbra e que se soldaram por dezenas de feridos. Muitos desses operários anarquistas acabaram (e morreram) no Tarrafal. Tudo isso fez parte do passado de Coimbra que esta teima em ostracizar. 

Coimbra revolta-se em 1962 e, principalmente, em 69 com a greve estudantil que levaram muitos estudantes à prisão, à tortura, à clandestinidade, à fuga para o estrangeiro e à incorporação militar forçada na Guerra Colonial. Esta luta está relativamente bem documentada. Para além disso, em 69, como também trata o ensaio de Ricardo Sousa, existiu um laivo de modernidade e de resistência ao fascismo que fugia claramente ao que era proposto pela oposição democrática, liderada pelo PCP e, em 1972, com a recém-formada UEC. Valham os estudos de Manuela Cruzeiro, Rui Bebiano ou Miguel Cardina, entre outros, assinalados por Ricardo Sousa, que referem a existência destas correntes, e teria esta luta sido atirada para o esquecimento histórico, não fosse, aqui e ali, sido lembrada, embora de um modo disperso, diga-se. Este livro é uma prova de que há uma resistência ao esquecimento.

A luta contra a praxe toma a dianteira na análise de Ricardo Sousa que lembra igualmente o seu percurso pessoal, juntamente com outros estudantes radicais onde sobressai a acção do Karpa e de muitos outros, citados no livro da Letra Livre. Mas há igualmente o cuidado de referir as bases teóricas de um movimento que era extremamente diverso e plural dentro daqueles que acreditavam ainda numa retoma do que foi a alegria popular do PREC e o movimento das ocupações por todo o país. Em Coimbra, praticamente toda a Sé Velha e Praça da República era domínio dos estudantes revolucionários enquadrados nas repúblicas onde pontificavam comunistas, maoístas, trotskistas, anarquistas, conselhistas e situacionistas para além de muitos que não tinham a pachorra para rótulos mas que alinhavam nesse espaço de liberdade que era, sem dúvida, a chamada «zona vermelha» com que o Diário de Coimbra, jocosamente e por analogia com a mesma zona de Amesterdão, apelidava o conjunto da teia urbana que recusava serenatas e capas e batinas. Queria-se muito mais, mas não esperávamos que o DC o compreendesse. Miserável foi o fim desta liberdade conquistada. O jornal publica em 1979, as fotografias, em primeira página, do desastre de viação horrível em que morreram, carbonizados, cinco estudantes (Victor, Pinto, Freitas, Patrícia e Luísa) que eram repúblicos dos Galifões. O choque foi, então, grande para quase toda a população estudantil e sentimos que algo mais se perdeu para além daquelas vidas. A recuperação da praxe e com ela os governos do PS e da AD levaram a um reforço da repressão sobre as repúblicas e a uma «normalização» das instituições que no Prec levaram um abanão consistente. A violência e raiva fascistas e «democráticas» continuaram e em 1985 (pessoalmente já não estava em Coimbra) um estranho fogo acabou com a Comuna dos Galifões, sem que houvesse um inquérito digno desse nome.

Este livro de Ricardo Sousa merece ser lido. Não só pela revisitação dos lugares que nos foram comuns em anos seguidos de liberdade em que fizemos Coimbra um lugar onde valia a pena a «arte de viver» tão caro a Vaneigem, mas também pelo cruzar de filamentos revolucionários e de resistência ao capitalismo que tivemos (alguns de nós ainda têm) a ousadia de o confrontar. Citados pelo autor lembramo-nos ainda do GAME (Grupo Anti-Militarista e Ecológico da AAC onde pontificava o Francisco Pedroso Lima e Pais de Sousa, para além do próprio Ricardo Sousa), do CITAC, da Centelha de Soveral Martins (onde, para além de literatura política alternativa, se criou a Ekomedia, mais tarde, em rede com a antiga Indymedia) para além de muitas secções da AAC quando esta se mostrava independente e em contactos íntimos com as repúblicas onde, sem dúvida, os Galifões não deixaram de ter um papel muito peculiar e frontal. No deve e haver da recuperação de direita, alguns destes estudantes e jovens trabalhadores que se juntavam entre si, escolheram trilhos mais difíceis de luta e aí pagaram demasiado caro, mas tão legítimos quanto os que escolheram as derivas do trabalho da «sobrevida», de expressões artísticas ou de cooperação de afinidades políticas e sociais, nunca esquecendo que a vigilância do estado nunca nos deixou totalmente em paz.

Hoje, a cidade pode gabar-se de comemorar de ano para ano o seu cortejo tão bárbaro, quanto entediante, a superioridade moral do vómito em alcatrão quente, sempre pelos idos de Maio. Os comerciantes de uma baixa decadente agradecem, a universidade lambe-se de entusiasmo, a polícia é condescendente com os futuros «dótores» e os hospitais mobilizam tendas e ambulâncias por todo o lado não vão eles sujar os corredores. A população com dinheiro suficiente consegue fugir para outros sítios menos poluentes e regressa, após uns dias, para o mar de lixo que entupiu as ruas. 

Autores: Ricardo Sousa e F. Carmichael
Ano: 2024
Pedidos à Editora Letra Livre