quarta-feira, fevereiro 12, 2025
«A Flor Cadáver e Outros Poemas», Jorge Sousa Braga
terça-feira, setembro 03, 2024
Diogo Vaz Pinto escreve sobre Joaquim Castro Caldas
alc
segunda-feira, fevereiro 20, 2023
«Alfabeto Adiado», de José Ricardo Nunes. 13 anos depois um livro diferente com o mesmo título
sábado, janeiro 19, 2013
Poesia na Deriva: este ano juntaremos mais nomes aos nomes
segunda-feira, dezembro 31, 2012
2013 vai continuar a poesia na Deriva
sábado, dezembro 29, 2012
Textos e Pretextos, nº17 sobre Herberto Helder
quinta-feira, abril 05, 2012
Adrienne Rich (1929-2012)
There hangs a space between the man
and his words
like the space around a few snowflakes
just languidly beginning
space
where an oil rig has dissolved in fog
man in self-arrest
between word and act
writing agape, agape
with a silver fountain pen
The school among the ruins, 2002
quarta-feira, março 28, 2012
Livraria Poesia Incompleta de Mário Guerra. Umas notas
quarta-feira, março 21, 2012
Ainda é possível a poesia, hoje?
![]() |
| João Pedro Mésseder, Filipa Leal, Joaquim Castro Caldas, Pedro Eiras, Catarina Nunes de Almeida, Marilar Aleixandre, José Ricardo Nunes, Luís Maffei, Maria Sofia Magalhães |
segunda-feira, maio 18, 2009
A Pequena Morte que vem do Brasil
revista eletrônica bimestral no mais alto vôo, a aposta em experiências, conhecidas ou não, pois o que importa é “o amor quando chega”: a literatura quando penetra e se encerra em estado de renovação. viagens pela linguagem. releituras e desleituras. pequenas mortes para o nascimento da literatura; despreendimento de energia para nada e por tudo… erotismo presente como experiência e como nome.
pequena morte. é o trabalho daqueles que são os amantes e os amadores da literatura. reunião de idéias, de áreas, de pensamentos. linguagem. gozo literário:
Mariana Vilhena, arte da capa.
domingo, maio 06, 2007
Curso de Línguas e Literaturas ou o poeta ofendido
O poeta ofendido dirige-se a Nunes, o secretáriodomingo, janeiro 21, 2007
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
Poema retirado da Revista Nova 1, Inverno de 75/76.
O que existiu entre mim e as figuras desfeitas pelas sombras
por escultores? Os bustos entre as abóbadas dos jardins mortíferos
com cálices espadas as legendas intactas de cada autor
que é único e consuma um desejo ou o terror deixaram-me atónita.
Perante o agrupamento mítico das chamas das charruas
e das rodas recolhia-me longe do veneno destilado pelas bocas
do mal das pedras antigas. Uma estátua com o tridente
um jorro de sangue sobre os limos o meu coração esvaído desfigurado
pela saudade instintiva de todas as formas do mundo antes de nascer
aquela escultura que não evoca a ninguém a cronologia mas o seu corpo entrelaçado
à náusea a convicção de que a história da circum-navegação grega
se perde e de que a desfiguração do passado é exacta instantânea.
Esse corpo fendido de que brota para o ócio a água ordena
o jogo dos arcos com uma cruz na transparência a marca
da vida vulnerável na morte dos personagens da batalha
que no socalco no sopé em torno da coluna sombreada
pelas glicínias plantas que rastejam e adornam partes do tórax
de século para século acompanham a nudez do obelisco
das filas de habitantes imóveis destinados à cena
do reverdecer das ervas subterrâneas. Quando na praça o pavor que a eternidade
no jardim me comunica através da distribuição dos afectos da relação
e da exaltação que as figuras petrificadas ao viver entregues às sombras hirtas
me transmitem quando me sento no interstício do conjunto bélico nos reflexos
de lanças quando observo o alheamento a paz com que os destruo.
fotografia de Maria João Palla
terça-feira, janeiro 09, 2007
Ilse Losa: breve perfil de uma autora a ler e reler, por José António Gomes
Inicia, então, uma vasta obra escrita em português, a qual abrange romances inspirados – ou pelo menos enraizados – na sua experiência de vida (como O Mundo em que Vivi, 1949, Rio sem Ponte, 1952, Sob Céus Estranhos, 1962), além de contos, crónicas, trabalhos de índole pedagógica (Nós e a Criança, 1954) e sobretudo literatura para crianças. Traduziu para português autores alemães, colaborou em diversos jornais e revistas e foi também uma divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha. Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e, em 1998, o Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro À Flor do Tempo (1997).
Revelando permanente abertura à diversidade temática, de géneros e de perspectivas que deve caracterizar a produção literária para crianças, foi a partir de finais dos anos 40 do século XX que Ilse Losa contribuiu, com os seus contos, recontos de histórias tradicionais e peças de teatro (por exemplo A Adivinha: peça em quatro quadros, 1ª ed.: 1967; 2ª ed. refundida: 1979), para a renovação da literatura portuguesa para crianças, enveredando muitas vezes por uma via «realista», de acentuada envolvência social, mesmo quando a voz que narra é a de um animal antropomorfizado, como sucede em Faísca Conta a Sua História (1949). Mas imbuiu também a ficção de dilemas morais e espírito crítico, sonho e sentido de esperança, numa escrita coloquial e despojada, pontuada contudo por expressivas comparações e prosopopeias e marcada por um uso rigoroso do adjectivo. Uma escrita que se abriu também ao maravilhoso, ao humor (v. Bonifácio, 1980) e a uma fantasia de cunho onírico (Viagem com Wish, 1984), sem nunca se esquivar a temas «problemáticos» como a guerra, a perseguição política e a tortura. Veja-se, a este propósito, o conto «Apesar de tudo», de A Minha Melhor História, ou ainda Silka, que é difícil não ler como uma parábola focada na questão da intolerância étnica e como uma dolorida meditação sobre o destino do povo judeu. De referir ainda que Ilse Losa dissertou sobre o livro para crianças em várias das suas crónicas jornalísticas, tendo sido pioneira no ensino da literatura para a infância no nosso país.
Beatriz e o Plátano (1976) (livro editado numa histórica e notável colecção de livros infantis que ela própria dirigiu – «ASA Juvenil» –, e que revelou muitos jovens autores, nas décadas de 70 e 80) é uma das primeiras narrativas portuguesas para crianças animadas do espírito do 25 de Abril, evidenciando também pioneiras preocupações ambientais e cívicas. Várias vezes reeditados até à sua morte, em 2006, livros de Ilse Losa como Faísca Conta a Sua História, Um Fidalgo de Pernas Curtas (1961), Um Artista Chamado Duque (1965), O Quadro Roubado (1977) (que não anda longe da estrutura do relato policial), a par de O Senhor Pechincha (a 1ª ed. de que temos conhecimento data de 1973, encontrando-se este conto incluído na 2ª ed. da colectânea Um Fidalgo de Pernas Curtas e Outras Histórias, com ilustrações de Júlio Resende) e ainda A Minha Melhor História (1979) e Silka (1984) constituem marcos na história da literatura portuguesa para a infância e juventude. O último original para crianças que publicou em vida, O Rei Rique e outras Histórias (1989; reeditado em 2006 pela Porto Editora), traz-nos cinco contos breves e divertidos, impregnados de fantasia, a que não falta uma crítica fina e actual a certos comportamentos sociais e até a respeitáveis instituições. Coloquial e discretamente desafiadora, a escrita de Ilse Losa irmana-se nesta última obra com as aguarelas e colagens de um grande pintor, Júlio Resende, que mais do que uma vez ilustrou os textos de Ilse e se afirmaria pela sua criatividade na ilustração de livros para crianças.
Hoje, esta escritora merece sobretudo que bibliotecas e escolas (designadamente as do Porto, cidade que a «adoptou») dêem destaque aos livros que nos deixou, à sua vida e escrita, encontrando modos de continuar a dar a ler tais livros aos mais novos, mantendo-os assim vivos e actuantes. É que Ilse Losa foi, a vários títulos, uma voz inovadora e, a partir de 1949, concorreu, de maneira decisiva, para a renovação da literatura portuguesa dirigida aos mais pequenos, tendo sido, como se disse, uma das primeiras professoras (senão a primeira) de literatura para a infância na velha Escola do Magistério Primário do Porto. Foi, ademais, uma assumida antifascista e democrata, que, dos anos 50 em diante, conviveu com uma notável plêiade de homens e mulheres que dinamizaram – com todas as dificuldades impostas pelo fascismo – a vida cultural, literária e cívica do Porto durante a segunda metade do século XX. Entre essas mulheres e homens, contam-se Óscar Lopes (que muito apreciava Ilse e sobre ela escreveu), Luísa Dacosta, Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, José Augusto Seabra, António Rebordão Navarro e tantos outros.
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Sophia de Mello Breyner Andresen e a sua obra para crianças e jovens, por José António Gomes
Segundo testemunhos da própria Sophia de Mello Breyner Andresen, a sua obra para crianças nasceu como reacção contra o infantilismo de alguma literatura que, nas décadas de 40 e 50, era dada aos mais novos: «Comecei a inventar histórias para crianças quando os meus filhos tiveram sarampo» — lê-se num depoimento publicado em 1986. «Mandei comprar alguns livros que tentei ler em voz alta. Mas não suportei a pieguice da linguagem nem a sentimentalidade da “mensagem”: uma criança é uma criança, não é um pateta. Atirei os livros fora e resolvi inventar. Procurei a memória daquilo que tinha fascinado a minha própria infância. (...) Nas minhas histórias para crianças quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância.» (in Soares (org.), 1986: 19).Não surpreende assim que, nestes contos, seja possível redescobrir referências ao Natal, à viagem ou a certos espaços quase mágicos, como o mar, a praia, a casa, o jardim e a floresta, que marcam também presença na lírica de Sophia e nas suas narrativas «para adultos»: Contos Exemplares (1962) e Histórias da Terra e do Mar (1984). No seu conjunto trata-se, de facto, de uma produção de grande unidade ideotemática e estilística, acerca da qual Maria Graciette Besse (1990: 11) escreveu: «A obra poética (...) exprime o amor da vida e uma profunda exigência moral, através de símbolos marinhos e aéreos, que revelam um cunho visionário e uma constante busca da perfeição. Esta exigência, herdeira da liberdade e da luta pela dignidade do ser, encontra-se também nos textos em prosa.»
A prosa de Sophia destinada a crianças, cuja harmonia no plano rítmico é por de mais evidente, produz um efeito quase encantatório, sendo as obsessivas enumerações presentes na sua prosa servidas pela sábia combinação de nome e adjectivo e por uma sintaxe peculiar que recorre com frequência a estruturas de tipo anafórico, ao polissíndeto e ao assíndeto. Das imagens emana uma sensorialidade que encontra paralelo num discurso fluente, marcado por aliterações e assonâncias, cujo léxico (obsessivo) se reporta sobretudo ao mundo natural, fixando-se nos elementos ligados à água, à terra, ao ar e ao fogo. Se, no plano sintáctico, esse discurso procura quase sempre ir ao encontro da limitada competência linguística do seu destinatário extratextual – a criança –, nunca resvala para a facilidade; antes encontra, em certas estruturas frásicas e textuais aparentemente elementares, o modo mais adequado de exprimir a beleza do mundo, a complexidade dos sentimentos e das fantasias pessoais. À maioria dos contos que constituem esta obra não é estranho o conhecimento da literatura de fantasia nórdica e anglo-saxónica, registando-se evidentes relações dialógicas quer com a restante obra lírica e narrativa da autora (v. Rocha, 1980: 65, sobre a intertextualidade homo-autoral), quer com grandes clássicos da literatura universal (para adultos e para crianças): os contos de fadas e as Mil e Uma Noites, Homero, Ovídio, Camões, Boccaccio, Shakespeare, Collodi e Andersen, entre outros.
Tanto O Rapaz de Bronze (1956), A Fada Oriana (1958), A Menina do Mar (1958) e A Noite de Natal (1960) como O Cavaleiro da Dinamarca (1964), A Floresta (1968), O Anjo de Timor (2004) e os recontos que é possível ler em A Árvore (1985) e «A cebola da velha avarenta» (in A Antologia Diferente: De que São Feitos os Sonhos, 1986), a par da curta peça teatral O Bojador (1ª ed., [1961]; 2ª ed., 2000), representam, na sua maioria, momentos altos da história da literatura portuguesa para crianças. Sem se assumirem declaradamente como obras moralistas, não restam dúvidas de que a sua inteligente urdidura aponta para um dever ser, em que surgem valorizados a Natureza, a harmonia, o equilíbrio e a justiça. À condenação do egocentrismo e do artificialismo, da hipocrisia e da perversão originada pelo apego aos bens materiais, opõem-se a amizade, o amor, a paz e a generosidade, bem como a exaltação do humanismo cristão, do valor social e ético da obra de arte e da fidelidade a princípios antigos e universais.
A atmosfera das principais narrativas para crianças (as dos anos 50 e 60) permite-nos quase sempre penetrar em espaços a cuja ordem subjaz uma lógica do maravilhoso – com a presença de fadas, anões, animais humanizados e transformações mágicas –, indissociável porém de um quadro ético, em que as acções «humanas» dos diferentes heróis (a que correspondem, normalmente, opções morais) surgem como determinantes no evoluir das histórias.
Em A Fada Oriana, a protagonista é vítima do seu próprio narcisismo e, após um percurso probatório, readquire a condição de fada. «Confia nas crianças, nos sábios e nos artistas» – recomenda o Rei dos Anões ao anão de A Floresta, uma parábola sobre a corrupção espiritual e os malefícios associados ao ouro e à riqueza, compreendidos por Isabel (a criança), por Cláudio (o músico) e pelo próprio anão. A Noite de Natal oferece-nos uma imagem renovada do maravilhoso cristão (e do ideal que o inspira), plena de significado social e individual. Várias das personagens infantis de Sophia apresentam-se-nos, é certo, como crianças sem dificuldades materiais. Mas, além da solidão e da orfandade afectiva que por vezes os caracteriza, e que são também atributos da protagonista de A Noite de Natal, surge neste conto a orfandade social de Manuel, como uma reencarnação de Cristo, que no final vem dar sentido aos valores da amizade, da partilha e da busca de uma união entre o humano e o sagrado. Sob a forma de uma quase-fábula poética protagonizada pelas flores de um jardim e por uma estátua viva – que nos traz à memória alguns contos de Hans Christian Andersen – O Rapaz de Bronze, por seu turno, antecipa a visão crítica de uma organização social hierarquizada e injusta que mais tarde reencontramos nos livros «para adultos» Contos Exemplares e Histórias da Terra e do Mar.
Obra de síntese, afirmando a vitória da inteireza moral e da abnegação sobre a vertigem e as forças da perversão, mais longa e complexa que os restantes livros, a narrativa O Cavaleiro da Dinamarca ilustra a grande viagem iniciática e probatória que – colocando o protagonista ante uma sucessão de figuras humanas, eventos e lugares míticos – tudo revela a esse cavaleiro impoluto: o perigo e as tentações, o valor da família, os exemplos de heroísmo, a paixão e a arte. Para não falar da tensão (não inteiramente resolvida) entre uma visão teocêntrica e um novo olhar antropocêntrico que emerge do Renascimento. Pelo meio, é possível revisitar a Dinamarca, a Terra Santa, a Itália do norte e a Flandres. Sente-se o fascínio pelo esplendor humanista (a acção desenrola-se no século XV) e pela grande aventura dos descobridores portugueses, no que é apresentado como «um tempo novo» para a Europa e o mundo, sem contudo se ignorarem as tensões decorrentes do (des)encontro de culturas e até de etnias. Tudo plasmado num encadeamento de narrativas modelizadoras encaixadas na história principal: a história de Vanina (quase uma versão de «Romeu e Julieta», de final não deceptivo), as vidas de Giotto, de Dante, e as aventuras de um marinheiro flamengo e de um português, Pero Dias. Deste modo, a obra representa também uma apaixonada homenagem, quase sempre implícita, às narrativas da grande tradição cultural do Ocidente: a Bíblia, a Divina Comédia, o Deccameron, os livros de viagens, as crónicas navais...
A Menina do Mar é na aparência talvez a mais simples, mas sem dúvida uma das mais belas narrativas de Sophia, onde os tópicos recorrentes na sua obra ganham novos matizes e os seus lugares de eleição (o mar, a casa nas dunas, o jardim de areia) adquirem dimensões simbólicas peculiares – resultado, afinal, de uma maravilhosa reelaboração de densas memórias de infância, ligadas à Praia da Granja. Sem enveredar pela dimensão trágica das «Ondinas» de Andersen e de Jean Giraudoux ou de L'Enfant de la Haute Mer, de Jules Supervielle, mas oferecendo-nos algumas descrições poéticas da natureza marinha que evocam as do grande romântico dinamarquês, a obra narra a história de uma amizade construída contra «um tempo dividido», entre um rapaz, uma menina do mar (que lembra também a Polegarzinha de Andersen) e os seus amigos: um polvo, um caranguejo e um peixe. Depois de aventuras e desventuras várias, por onde se insinuam a revelação mágica do mundo, a paixão pelo oceano e uma angustiada espera de ressonância sebastianista, surge enfim a festa, num palácio subaquático. Partindo da poderosa tradição simbólica associada ao mar e aos seus elementos, Sophia constrói uma narrativa de profundas implicações psicanalíticas (como a fantasia do regresso ao útero materno) que o limitado espaço deste texto não permite sequer aflorar. Uma narrativa que é simultaneamente a afirmação do direito à liberdade afectiva e a expressão de um anseio de equilíbrio e harmonia, no quadro de uma fantasia de retorno às fontes da vida – essa dimensão em que o ser não possui ainda a consciência do tempo e da morte.
É de recordar ainda que, além das narrativas originais que escreveu, das histórias tradicionais portuguesas e japonesas que recontou e da já citada peça O Bojador, Sophia de Mello Breyner Andresen organizou duas belíssimas antologias de poesia em Língua Portuguesa destinadas à infância e à juventude: Poesia Sempre e Primeiro Livro de Poesia – e pena é que a primeira, em dois volumes, não se encontre reeditada1.
A terminar, registe-se a profunda ligação dos contos escritos por Sophia ao Porto e suas imediações. Nascida nesta cidade, a autora passou parte da infância na Quinta do Campo Alegre (que inspiraria as florestas e jardins dos seus contos para crianças) e na Praia da Granja, a que A Menina do Mar veio conferir uma certa auréola mítica.
Nota
1 Quase todas as obras de Sophia de Mello Breyner Andresen destinadas a crianças se encontram editadas pela Figueirinhas, do Porto, e têm conhecido numerosas reedições, o que atesta a popularidade destes livros, confirmada também no facto de os programas e as práticas de leitura escolares os terem acolhido sem reservas (fazem parte, por exemplo, das listas de obras para leitura orientada do programa de Português do 2º ciclo do Ensino Básico). Apenas se não encontram editados pela Figueirinhas os livros O Bojador e Primeiro Livro de Poesia (1991) – que têm a chancela da Caminho –, O Anjo de Timor (obra publicada pela Cenateca, do Marco de Canaveses), «A cebola da velha avarenta» (que integra uma colectânea coordenada por Luísa Ducla Soares e editada pela Areal – v. Referências bibliográficas) e ainda a antologia Poesia Sempre I (em colaboração com Alberto de Lacerda; Lisboa, Livraria Sampedro Ed., s.d.) e Poesia Sempre II (Lisboa, Livraria Sampedro Ed., s.d.).
Referências bibliográficas
BESSE, Maria Graciette (1990). Sophia de Mello Breyner: Contos Exemplares. Mem Martins: Europa-América.
ROCHA, Clara Crabbé (1980). Os Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen. 2ª ed., Coimbra: INIC.
SOARES, Luísa Ducla (org.) (1986). A Antologia Diferente: De que São Feitos os Sonhos. Porto: Areal.
domingo, novembro 26, 2006
Cesariny (1923-2006)

No país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
E no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela só até à ilharga
a grande história do amor só até ao pescoço
E no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso dos meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
Diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
Mário Cesariny de Vasconcelos
Poesia (1944-1955), Ed. Delfos
Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano
quarta-feira, outubro 25, 2006
Preguntas para lhe Facer em Voz Alta a Federico García Lorca, Irmán, de Xavier Queipo

Ai Federico García! Ai Federico! Que te apartou do acolhedor refúgio da tua estirpe? Como foste acovilhar no tobo da ignomínia? Que te levou a rejeitar o fío vermelho que Ariadna te tendera? Que te levou a Granada?
Diz, Federico García. Que estranho instinto te fixo confiar em Minotauro? Quantas noites de lua para distinguir o urro da quimera do canto das sereias? De onde apareceu a fúria ancestral que rachou a geometria do teu corpo?
Ai Federico García! Ai Federico! Que se sente quando os fuziles percutem nas tuas costas? Que quando as balas laceram a tua pele de óleo e caramelo? Que após do estourado, do reverso da ração, da vértebra que secciona o centro e as cisternas? Que te esperava após do golpe imóvel, do sangue as gurgulhadas?
Diz, Federico García, com os teus versos inchados de alecrim e de mapoulas, de reflexos e luares, de sangue e caraveis: A que ule a incandescência do corpo queimado pela pólvora? A que arrecende a traição dos bem amados?
Eu quisera saber, Federico, percebes, Federico, a opacidade do diamante, o voo do colibri, as imagens que passaram trás das pálpebras. Eu quisera saber, Federico, que paixões, que escrituras, que delicias guardavam nas gavetas do cérebro?
Eu quisera saber, ai Federico! Quisera saber, mas é tarde.
Xavier Queipo, Bruxelas, Outubro de 2006 (no aniversário do assassinato de García Lorca)
sexta-feira, setembro 15, 2006
Palavras no Fim do Verão, de João Pedro Mésseder
PALAVRAS NO FIM DO VERÃOCai a noite, cai
o verão,
caem pálpebras
e o sol
só leva de seu
deste dia
umas palavras à sede
que em breve
alguém despertando,
alguém do outro lado da Terra
colherá em concha fria
para que elas
se ergam de novo
e busquem sozinhas a água.
Poema de João Pedro Mésseder
Setembro de 2006
Ilustração de João Maio Pinto
quarta-feira, abril 19, 2006
Epifanias de Fernando Echevarría.
A Andrea Peniche, da Afrontamento, deu-me as Epifanias, livro surpreendente de um poeta - Fernando Echevarría. Poeta que vou lendo como ele escreve -com vagar mas com enorme gosto. Conheci-o nas Correntes d'Escritas e é daquelas pessoas que se deve ouvir com muita atenção, sem pressas fúteis e não esperando dele verdades insofismáveis. Esperemos, antes, a interrogação incómoda. Rigoroso e calmo, embrenhado numa aparente contemplação de tudo e de todos, parece que de Echevarría emana uma espécie de sacralidade laica onde a palavra atinge um patamar dificilmente atingível no seu uso mais comum. O rigor que antevi nas suas palavras e nas ideias expostas também em conversa com o Nuno Rebocho, poeta e jornalista da Antena 2, apelam à arte do estudo aturado e profundo e à crítica permanente contrastando, assim, com a tagarelice espectacular e pós-moderna dos dias que correm, ou que nos fazem correr, sem sentido nenhum. Um poeta, pois, a ler.Dele, escreveu Pedro Mexia (6ª, DN, 14/04/2006) - «(...) Echevarría é um poeta sem concessões nem modismos, comprometido com as palavras e as ideias, algumas das quais só existem plenamente quando alcançam uma expressão poética exigente. Epifanias, como toda a poesia de Echevarría, instaura o domínio absoluto do verbo.(...)»
Das Epifanias:
Há o silêncio de antes da palavra.
E aquele que, depois dela, deixa sítio
para subirem pausas
com outras dentro desenvolvendo o limbo
por onde suba inviolável, alta
a melodia do que foi esquecido.
Esse silêncio pauta.
Vai decifrando vestígios
de quanto o precedeu no gasto mapa
de que é possível compulsar o ritmo.
E estar à escuta com, ao fundo, a alma
a desprender-se. Subindo
até o silêncio recobrir a água
e desnudar a solidão do espírito.
Epifanias, Afrontamento, pag.65.
O seu vagar vai indo. Enquanto ciência
não dilucida já, antes se alarga
e estende a sua felicidade intensa
a domínios que tocam a palavra.
E, depois, de a tocar, a levam
a um campo de luz. A uma entranha

que devolve o calos da inteligência
com que satura o núcleo da substância.
O vagar é a grande recompensa
do homem. Vem-lhe dessa zona arcaica
que começou a deslumbrar-se. E dela
usufruindo foi até que a alma
tão peremptória irradiou que a terra
sucumbiu. Para só reter a santa
iluminação que trouxe às trevas
vagar, a antiga aparição das águas.
Epifanias, Afrontamento, pág.61.
segunda-feira, abril 03, 2006
O Anjo do Desespero, de Heiner Müller
Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.Ich bin der Engel der Verzweiflung, Heiner Müller, 1979. Trad. portuguesa de João Barrento, Relógio d'Água, 1997, ed bilingue.













