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quarta-feira, fevereiro 12, 2025

«A Flor Cadáver e Outros Poemas», Jorge Sousa Braga

 

Assírio & Alvim, 2024
O último livro de poemas de Jorge Sousa Braga. Ao abri-lo, as epígrafes esclarecedoras de Samuel Beckett,
«When you're in the shit up to your neck,
there's nothing left to do but sing.»
e de Artaud,
«Là où ça sent la merde ça sent l'être.»

O jogo da poesia está aberto e o tema aponta-nos à leitura e ao pensamento absorto nos excrementos de que somos feitos e que reconhecemos a toda (toda, sem excepção) a actividade humana. Queira ou não se queira a merda acompanha-nos, omnipresente, e tenho dúvidas se igualmente omnisciente. Porque omnipotente já o é, embora eu não explique aqui o porquê. Basta olhar em volta. De resto, os profetas são chamados para aqui: desde um profeta que pedia para não utilizar a mão direita quando se fizessem as necessidades, ou outro, o inenarrável S. Paulo que, em epístola, clamava que o caminho até às estrelas está pejado de merda ou, o mais provável, o facto comprovado que Jesus Cristo comia e bebia e não defecava. Porque defecar menoriza quem o pratica. Ou transformar coprólitos humanos em alimentação como prática de mortificação por Santa Maria de Alacoque, beatificada por Bento XVI!
Lembro-me, em 1969, miúdo, no café onde acompanhava o meu pai, toda a gente se rir de um professor do Técnico (não direi o nome, mas o caso foi conhecido e comentado em anedotário) que duvidava da alunagem dos americanos, em Julho, porque a nave era pequena demais para suportar os excrementos dos astronautas; tal como na semana que passou li, num diário de referência, que um professor canadiano de uma empresa suíça (seriíssimos, portanto) informava o excelso público da descoberta de pílulas de excrementos humanos saudáveis, para combater as infecções intestinais. O excremento salva-nos tal como o que é transformado em objecto poético. Jorge Sousa Braga escreve, logo a abrir o livro, um texto lindíssimo sobre as propriedades da Flor Cadáver, Titan Arum, e avisa-nos, num dos seus Haikus, cauto e conhecedor do que é capaz a humanidade que:
«Nem todos
são capazes de ler
a merda» 
(pág.22)

De resto, deixo-vos não sem alguma comoção de quem já pouco espera da única certeza (pouco cartesiana) que temos, com um poema brilhante, De(composição), de Jorge Sousa Braga difícil de esquecer por quem leu este livro notável:

«Quando o sangue deixa de circular sobrevém o frio. Depois instala-se o rigor mortis primeiro nas pálpebras no queixo e no pescoço. Os músculos ficam rígidos e as articulações presas. Posteriormente as bactérias intestinais entram em acção e a pele destaca-se dos tecidos subjacentes. O corpo começa a libertar gases e os tecidos a liquefazerem-se. É a vez das moscas e das suas larvas e de outros predadores intervirem. Até que restam apenas os ossos...

Algures durante este processo uma borboleta abandona o cadáver, sacode as asas brancas e desaparece entre as folhas das árvores.»
(pág.44)

Será esta a razão pela qual ainda mantenho dúvidas sobre a incineração?

terça-feira, setembro 03, 2024

Diogo Vaz Pinto escreve sobre Joaquim Castro Caldas

 

De uma revista chamada Ler. Verão de 2024.
Devo dizer que, quase de certeza (tenho muito poucas, vá), o Joaquim Castro Caldas iria rever-se por inteiro nesta trabalho de Diogo Vaz Pinto sobre a colectânea de poemas dele e sobre a sua poesia. «Intérprete da Vontade do Pássaro» é o título da obra que foi organizada por Isaque Ferreira e Rui Spranger, amigos dele de longa data. O trabalho de Diogo Vaz Pinto tem tanto de honesto, quanto de rigoroso e devo dizer que me obrigou à compra da revista que, de todo, não leio habitualmente. Fiquemos com algumas afirmações com as quais me revejo: 

«Joaquim Castro Caldas é um poeta menor, não propriamente negligenciável, mas um poeta que dificilmente poderia infiltrar o cânone por mais que se dedicassem à sua obra os melhores esforços desses astrónomos capazes de fixar de forma genérica o nosso firmamento literário (...) Eles mesmo se mostrou consciente de que ''não fez nem faz outra coisa senão arte embrionária e terminal''.»

«Tem aquela graça da escrita desinchada, a capacidade de desarme de um literato que se desinteressou da imortalidade, preferindo estabelecer essa irmandade com o mais comum dos mortais, e explorando aquele sentimento de inaptidão irremediável para a vida.»

«Joaquim Castro Caldas lembra-nos que existe uma literatura não-oficial, que não nos faz ouvir os guizos dos condecorados.»

«Por outro lado, temos por vezes a sensação de que se trata de uma escrita que não se cumpre inteiramente, não alcança grandes cumes, fica aquém do que promete, mas vai-se implicando nesse esforço de forçar os limites, quase nos vira do avesso, e deve reconhecer-se como este ''quase'' é suficiente para desequilibrar quem respira e pressente essa força, encontrando nesta obra movimentos e levantamentos estranhos às suas necessidades de ar regulares, esse quadro que oferece um desvio face à vulgaridade do quotidiano, dando-nos um impulso.»

«Há momentos em que tudo o que parece haver nele é veneno, mas para não degradar os outros, busca saídas.»

Aviso-vos que Diogo Vaz Pinto acaba em beleza no último parágrafo do seu trabalho sobre Joaquim Castro Caldas e que será impossível de contornar a existirem estudos sobre a sua poesia. Não cometerei o erro e desrespeito de o transcrever aqui porque o artigo deve ler-se no seu todo. Tem um 'continuum' que não se pode fragmentar como eu o fiz em pequenos trechos com que me revi e que achei interessante partilhar convosco. 

O 31 de Agosto assinala os 16 anos da sua morte e ainda penso que foi há meses. Não passa esta data sem que pense nele. O Joaquim foi um cometa na Deriva e foi-o também na minha vida como editor e amigo desde os cafés de Coimbra quando esta era uma cidade noctívaga e trânsfuga, dada a escândalos e ao rasgar de normas. Falamos obviamente dos anos 70 e não da recuperação da normalidade neoliberal dos anos 80. Ele cirandava por Lisboa do teatro e os amigos de cá colocavam-no em Coimbra a vender os seus livros de café em café de bas-fonds em bas-fonds. Sempre à noite. Mas aproximámo-nos irremediavelmente, já nos 2000, nas Antas do Porto que ele amava, tal como eu. Vivia perto de mim e da escola onde eu dava aulas. A Deriva era na Batalha e por vezes deslocávamo-nos lá, mas era impossível, com o Caldas, parar muito tempo num escritório. Tínhamos de tomar ar e aí eram horas e horas nos cafés da Baixa do Porto a falar de tudo... Também era ele que mergulhava o nariz nos cabelos da minha filha quando a íamos buscar à escola primária na Costa Cabral e dizia-lhe «Cheiras a Escola! Deixa-me cheirar outra vez!»; atendia as minhas chamadas num telemóvel Nokia do século anterior todo partidinho e que era uma autêntica relíquia e ao mesmo tempo um mistério técnico por que magia conseguia funcionar. Planeámos várias apresentações do «Mágoa das Pedras», mas o seu estado de saúde já só permitiu duas: a de Lisboa e Porto. Descartou Coimbra, lembrado por mim. Ele lá soube porquê e eu também não estava muito entusiasmado. Para Lisboa, na Ler Devagar, já de Xabregas, fomos de Alfa Pendular. O Joaquim tinha sempre de mandar aquecer a cerveja sem álcool no vaporizador da máquina dos cafés. Explicado por ele, este estranho pedido era porque a cerveja fria o incomodava no esófago e garganta. Nos cafés das Antas já sabiam e não havia problemas de maior ou caras admiradas com o pedido, mas no Alfa Pendular desse dia, o empregado do bar entendeu o que não queria entender e considerar que o pedido era ou uma tentativa para o gozar, ou estavam a achincalhar o seu trabalho; aquilo acabou mal: o Joaquim que era a boa educação e bondade em pessoa, exigiu que lhe aquecessem a cerveja e que não tinha de dar mais explicações (ele não tinha dado nenhuma) e perante a evidente má criação e recusa do empregado da Refer que achava que a cerveja ia estalar e partir-se ao ser aquecida, retorquiu «que não estava para aturar bêbados!». Ora, isto chamou-me à colacção e vai daí foi uma cena do caraças em pleno comboio, lá para os lados de Pombal, que chegou a obrigar outros passageiros a entrar em campo separando as nossas mãos das golas dos respectivos casacos. Mas a coisa resolveu-se e bebemos as cervejas, eu com álcool e ele sem álcool (impossível portanto a acusação da ebriedade do Caldas). Outro grande «inconseguimento» dele era a sua relação aristocrática com o dinheiro e recusava-se a ter conta bancária. O «Mágoa das Pedras» foi-lhe pago em dinheiro vivo que ele gastava nas mercearias das Antas em hortícolas e fruta com a minha filha Ana atrás dele e a dar a sua opinião. Recebia uns morangos em troca. Gostava imenso dos seus amigos, arrisco-me a dizê-lo, que eram o seu mundo e falo obviamente do Spranger e do Isaque. Da malta vária do Pinguim (o Luís!) onde ela dizia maravilhosamente os seus poemas e de outros poetas como ele. Às segundas, quem fosse ao Pinguim era melhor levar um livro de poesia lá de casa porque o Joaquim invectivava as pessoas a poetarem «Agora és tu! O que vais ler?». O gosto pela palavra e o repentismo que o caracterizavam, quer na poesia, quer no seu contacto diário, era uma marca indelével do Joaquim Castro Caldas. Mas também a sua amargura relativamente aos académicos. Afastava-se rápido deles quando os pressentia perto. Infelizmente conheci pessoalmente, por via da Deriva, as suas doutíssimas e erradas opiniões acerca da poesia do Caldas e constituiu para mim outro mistério (dos muitos relacionados com ele) o particular ódio que alimentavam contra ele. Talvez por a sua vida ser verdadeiramente poética? Por procurá-la incessante e violentamente quando não a encontrava? Porque eram incapazes (e sabiam-no) de enveredar pela liberdade de uma vida errante e livre como a do Caldas? Saberiam eles que ele praticou a teoria da deriva por Paris, por Amesterdão, por Londres? Que foi amigo pessoal de Juliette Greco e Leo Ferré, entre outros?

Nunca mais esqueci o nosso encontro num dia qualquer de Julho de 2008, quando me preparava para ir de férias e lhe perguntei se precisava de alguma coisa. «Oh, estou a morrer. De que preciso eu?». Rimo-nos com alguma inquietação misturada. Tinha ideia que nas últimas semanas o seu estado se tinha degradado. Quando cheguei perto do final de Agosto foi o choque imenso de saber que não o via mais. Um estúpido atraso no estúdio de gravação de um cd que acompanhava um livro, o «Com quatro Pedras na Mão» sobre o Porto e do Bando dos Gambozinos de Suzana Ralha, que incluía o poema do Joaquim «Ir Indo» e musicado pelo Bando, só esteve pronto após a sua morte. Ele soube, contudo, que o íamos musicar e estava expectante, tal como o projecto do seu próximo livro que nunca teve lugar. Nunca o ouviu. Fica a sua música, o seu poema partilhado com outros como José Mário Branco, Jorge Sousa Braga, Luís Nogueira, Luísa Ducla Soares, Matilde Rosa Araújo, Rui Pereira, João Pedro Mésseder e Filipa Leal como uma lembrança que atravessará os tempos, certamente.

alc

segunda-feira, fevereiro 20, 2023

«Alfabeto Adiado», de José Ricardo Nunes. 13 anos depois um livro diferente com o mesmo título


Um novo «Alfabeto Adiado» de José Ricardo Nunes. Em junho de 2010 um livro com o mesmo nome foi publicado na Deriva. Para mim, com a certeza de um dos melhores livros que editei enquanto mantive a editora em 15 anos. Há uns dias, pela mão do José Ricardo, recebi este livro excecional editado pela Companhia das Ilhas. Uma pequena nota de autor no final do livro faz notar a coincidência do título ressalvando que é um livro novo. Não completamente, contudo. Mas livro novo, mais apurado com mudanças, algumas significativas, de 23 poemas (não sou capaz de lhes chamar «prosas poéticas») inaugurados em 2010, com uma necessidade sentida de síntese, aberta pelo tempo, 13 anos depois. Acrescentou-lhe mais 19 poemas. E é essa necessidade de apuramento, de medição das palavras que faz todo o sentido neste livro extraordinário onde o poeta apresenta várias noções de tempo, seja o Kronos, o Kairos ou o Aion gregos. Um livro que deve ser lido devagar, se possível com outros «adiamentos» anteriores encontrados noutros tantos livros, alguns de viagens (ou o Topos), que faz desta poesia uma das melhores que tenho lido e sentido.

«Repetição da minha vida (excerto)
Sempre me senti deslocado face ao tempo, como se lhe tivesse ganho um avanço substancial, irrecuperável. As coisas acontecem em mim antes ainda de terem uma expressão objectiva e materializada. A realidade surge invariavelmente depois.
A dissonância existe entre o meu agora e o próprio fluir do tempo. (...) Poderia prosseguir com os exemplos durante o resto da noite. Apresentar a regra, porém, sem incoerências nem lapsos, exigir um poder de síntese para o qual a linguagem não revela aptidão. Sou mais lento do que maioria, a falar ou a mover-me, mas apreendo com uma velocidade de relâmpago - eis outra formulação possível. Antecipo. (...)» pág. 25 e 26
José Ricardo Nunes, Companhia das Ilhas, janeiro de 2023.
O autor publicou, igualmente, entre muitos outros, «Versos Olímpicos» (Deriva) ou de «Andar a Par» (Tinta-da-China).

sábado, janeiro 19, 2013

Poesia na Deriva: este ano juntaremos mais nomes aos nomes

Aos poetas já publicados pela Deriva juntar-se-ão, este ano, os nomes de João Pedro Mésseder, Aurelino Costa, Ricardo Gil Soeiro, Catarina Costa e Hugo Neto.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

2013 vai continuar a poesia na Deriva

A poesia terá a sua continuidade na Deriva. Nomes como Filipa Leal, José Ricardo Nunes, Ricardo Gil Soeiro, Henrique Manuel Bento Fialho, Aurelino Costa, João Pedro Mésseder, Catarina Costa e Hugo Neto farão parte desta coleção de pequeno formato.

sábado, dezembro 29, 2012

Textos e Pretextos, nº17 sobre Herberto Helder



Chegou-me às mãos o último número, o 17, de Textos e Pretextos, revista do Centro de Estudo Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, toda ela dedicada a Herberto Hélder. A direção é de Margarida Gil dos Reis e este número é particularmente bem sucedido: tem, do poeta, um inédito.
Mas a colaboração é vasta, contando-se com Manuel Gusmão, Gustavo Rubim, Ritas Novas Miranda, António Guerreiro, Luís Maffei, Maria Filomena Molder, Rosa Maria Martelo, Silvina Rodrigues Lopes, Jorge Fernandes da Silveira, João Ferreira Duarte, Filipa Leal, Hugo Milhanas e Miguel Cardoso.
Destacamos aqui o excelente artigo de Pedro Eiras num exercício comparativo entre Descartes e Herberto Hélder e um poema igualmente
inédito e belíssimo de Filipa Leal.
A revista faz 10 anos o que é de saudar.



quinta-feira, abril 05, 2012

Adrienne Rich (1929-2012)


Livresque


There hangs a space between the man
and his words

like the space around a few snowflakes
just languidly beginning

space
where an oil rig has dissolved in fog

man in self-arrest
between word and act

writing agape, agape
with a silver fountain pen

The school among the ruins, 2002

quarta-feira, março 28, 2012

Livraria Poesia Incompleta de Mário Guerra. Umas notas


País de poetas? Nunca fui nessa, mas conheço e gosto de poesia e de poetas que mereceriam um lugar como a Poesia Incompleta, de Mário Guerra. Tínhamos lá os nossos autores e muitos deles passaram por lá. Desta livraria lisboeta conhecíamos a generosidade e o profissionalismo que lhe era emprestado pelo proprietário. E também da sua seriedade. Num país com uma política cultural, no mínimo, esquisita, a Poesia Incompleta ganhou o estatuto de utilidade pública e um local de debate e procura. Quando se há-de perceber que ler poesia (eventualmente escrevê-la) é uma forma de conhecer a linguagem e de exercer uma comunicação que se pode tornar uma fonte de prazer, muito maior se partilhada com outros? Quando se perceberá, enfim, que para que a poesia subsista é necessário que se adquiram livros de poesia porque esta se tem de ler devagar? Que não basta lê-la «na net» ou na fnac, arrumando-a em seguida nas estantes cada vez mais minguadas dos grandes espaços livreiros? Que não basta a alguém escrever «poesia» para se ser poeta? Que um editor não deve fazer-se pagar para editar, o que vulgarmente se chama de «poesia», por aí? Quando fecha um espaço destes nunca ficamos descansados, porque sabemos que outros parecidos se seguirão. É este o destino de um país de poetas?

quarta-feira, março 21, 2012

Ainda é possível a poesia, hoje?


João Pedro Mésseder, Filipa Leal, Joaquim Castro Caldas, Pedro Eiras, Catarina Nunes de Almeida, Marilar Aleixandre, José Ricardo Nunes, Luís Maffei, Maria Sofia Magalhães
Alberto Pimenta acalentava a esperança de ser possível a poesia depois de Auschwitz. Mas, hoje, ainda há a esperança da poesia e da magia da palavra em pessoas como estas que a Deriva editou e continuará a editar. Mesmo num tempo de guerra espetacular, dos media ensurdecedores, da brutalidade do trabalho rotineiro, das paisagens mortas, das cidades violentas, de governos corruptos e da ascensão do dinheiro, ainda há espaço para a leitura de uma palavra que se acende em nós através deles. Se eles resistem é sinal de que pode haver ainda o triunfo do homem.

segunda-feira, maio 18, 2009

A Pequena Morte que vem do Brasil


Desenho de Mariana Vilhena

Creio já ser incontornável o conhecimento da revista Pequena Morte dinamizada pela nossa amiga Raquel Menezes e Hugo Langone. A Raquel esteve cá em Portugal assistindo, em várias ocasiões, a sessões de poesia portuguesa e brasileira e acompanhando Luis Maffei na sua viagem a Portugal. Foi de uma dedicação muito grande a um novo intercâmbio tão necessário aos dois países.

Como o texto de apresentação da Pequena Morte é tão bonito, não resisito a transcrevê-lo na íntegra:

«…surge a pequena morte.; se faz presente o prazer, a produção e a criação. encontro de corpus. sentidos. leituras. escrita. pensamento e estilhas.
revista eletrônica bimestral no mais alto vôo, a aposta em experiências, conhecidas ou não, pois o que importa é “o amor quando chega”: a literatura quando penetra e se encerra em estado de renovação. viagens pela linguagem. releituras e desleituras. pequenas mortes para o nascimento da literatura; despreendimento de energia para nada e por tudo… erotismo presente como experiência e como nome.
pequena morte. é o trabalho daqueles que são os amantes e os amadores da literatura. reunião de idéias, de áreas, de pensamentos. linguagem. gozo literário:

Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce. (Eduardo Galeano)»

Hugo Langone e Raquel Menezes, editores.
Mariana Vilhena, arte da capa.

domingo, maio 06, 2007

Curso de Línguas e Literaturas ou o poeta ofendido

O poeta ofendido dirige-se a Nunes, o secretário

Para quem anda com mais um pouco de atenção às coisas da educação isto já não era novidade - o Curso de Línguas e Literaturas está a morrer. Há uns seis anos, o Departamento a que pertencia enviou um documento ao ME (os tais que tentam demonstrar a participação dos professores) denunciando, entre outras coisas, que um aluno que fosse para o 10º ano para o Curso de Línguas e Literaturas poderia, através de uma política estúpida de opções, nunca vir ter a disciplina de Literatura Portuguesa. Ou seja, chegaria à Universidade sem a disciplina! (Aliás passa-se o mesmo a Medicina: um aluno pode ter de optar entre Química ou Biologia no 10º! Mas isso é outra conversa.). Até hoje não houve resposta do ME tendo o meu departamento enviado, para que não houvesse extravio, o mesmo documento por e-mail. Sei que houve centenas de pareceres nessa altura. Disseram, na ocasião, que estavamos a «corporizar». Hoje, os media acordaram para o «problema». Há cada vez menos alunos para este curso no secundário. Como haverá certamente para História e para Filosofia (hoje equiparadas às inócuas Educação Tecnológica, Área de Projecto ou Estudo Acompanhado, em tempos atribuídos por semana) . O ataque a estas últimas já começou há bué (palavra inscrita no Dicionário da Ac. das Ciências).
Solução do secretário de estado Nunes: «que sim, já pensámos nisso, vamos agir!» (não tinha pensado nada, mas está bem!). No dia seguinte veio a resposta: o Curso de Línguas e Literaturas vai integrar as Ciências Sociais!! Não há melhor. A ratio da disciplina de Latim, em Portugal, é de 1 aluno para 1000, a mais baixa da Europa. Na Alemanha é de 100! Logo, junta-se a desgraça à desgraça alheia - Literaturas e Ciências Sociais - e a coisa tem de dar resultado. Talvez haja, até, mais uns distraídos de CS que escolham Latim e Grego até os pais os demoverem por causa da média final! Mas aí encontra-se-á mais uma solução óbvia como fizeram com a Filosofia. Abaixo os exames no Secundário! E a coisa vai. Mas façam-me um favor: nunca mais me falem em rigor e exigência com as vossa caras de actores manhosos de um filme de série B da TVI, está bem?

domingo, janeiro 21, 2007

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

Poema retirado da Revista Nova 1, Inverno de 75/76.

O que existiu entre mim e as figuras desfeitas pelas sombras
por escultores? Os bustos entre as abóbadas dos jardins mortíferos
com cálices espadas as legendas intactas de cada autor

que é único e consuma um desejo ou o terror deixaram-me atónita.
Perante o agrupamento mítico das chamas das charruas
e das rodas recolhia-me longe do veneno destilado pelas bocas

do mal das pedras antigas. Uma estátua com o tridente
um jorro de sangue sobre os limos o meu coração esvaído desfigurado
pela saudade instintiva de todas as formas do mundo antes de nascer

aquela escultura que não evoca a ninguém a cronologia mas o seu corpo entrelaçado
à náusea a convicção de que a história da circum-navegação grega
se perde e de que a desfiguração do passado é exacta instantânea.

Esse corpo fendido de que brota para o ócio a água ordena
o jogo dos arcos com uma cruz na transparência a marca
da vida vulnerável na morte dos personagens da batalha

que no socalco no sopé em torno da coluna sombreada
pelas glicínias plantas que rastejam e adornam partes do tórax
de século para século acompanham a nudez do obelisco

das filas de habitantes imóveis destinados à cena
do reverdecer das ervas subterrâneas. Quando na praça o pavor que a eternidade
no jardim me comunica através da distribuição dos afectos da relação

e da exaltação que as figuras petrificadas ao viver entregues às sombras hirtas
me transmitem quando me sento no interstício do conjunto bélico nos reflexos
de lanças quando observo o alheamento a paz com que os destruo.

Nasceu em Lisboa (Portugal), em 1938. Pertenceu ao grupo Poesia 61 e, na colectânea em que este grupo surgiu, publicou «Morfismos». Traduziu »O Teatro e o seu Duplo», de Artaud. Traduziu também Brecht e prepara versões de Whitman. Escreveu teatro. Encenou Lorca. Publicou vários volumes de poesia.
Nova 1

fotografia de Maria João Palla

terça-feira, janeiro 09, 2007

Ilse Losa: breve perfil de uma autora a ler e reler, por José António Gomes

De origem alemã e ascendência judaica, Ilse Lieblich Losa nasceu em 1913, em Bauer, cidade próxima de Hanover. Tendo vivido a primeira infância com os avós paternos, frequentou o liceu em Osnabrük e Hildesheim e o Instituto Comercial em Hanover. Ao regressar à Alemanha, após um período em Londres tomando conta de crianças, vê-se obrigada a abandonar a pátria, dada a sua condição de judia. Escapa desse modo à perseguição nazi e, chegada a Portugal em 1934 (ano em que Hitler assume o poder na Alemanha), radica-se no Porto, casando com o arquitecto Arménio Losa e adquirindo a nacionalidade portuguesa.
Inicia, então, uma vasta obra escrita em português, a qual abrange romances inspirados – ou pelo menos enraizados – na sua experiência de vida (como O Mundo em que Vivi, 1949, Rio sem Ponte, 1952, Sob Céus Estranhos, 1962), além de contos, crónicas, trabalhos de índole pedagógica (Nós e a Criança, 1954) e sobretudo literatura para crianças. Traduziu para português autores alemães, colaborou em diversos jornais e revistas e foi também uma divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha. Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e, em 1998, o Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro À Flor do Tempo (1997).
Revelando permanente abertura à diversidade temática, de géneros e de perspectivas que deve caracterizar a produção literária para crianças, foi a partir de finais dos anos 40 do século XX que Ilse Losa contribuiu, com os seus contos, recontos de histórias tradicionais e peças de teatro (por exemplo A Adivinha: peça em quatro quadros, 1ª ed.: 1967; 2ª ed. refundida: 1979), para a renovação da literatura portuguesa para crianças, enveredando muitas vezes por uma via «realista», de acentuada envolvência social, mesmo quando a voz que narra é a de um animal antropomorfizado, como sucede em Faísca Conta a Sua História (1949). Mas imbuiu também a ficção de dilemas morais e espírito crítico, sonho e sentido de esperança, numa escrita coloquial e despojada, pontuada contudo por expressivas comparações e prosopopeias e marcada por um uso rigoroso do adjectivo. Uma escrita que se abriu também ao maravilhoso, ao humor (v. Bonifácio, 1980) e a uma fantasia de cunho onírico (Viagem com Wish, 1984), sem nunca se esquivar a temas «problemáticos» como a guerra, a perseguição política e a tortura. Veja-se, a este propósito, o conto «Apesar de tudo», de A Minha Melhor História, ou ainda Silka, que é difícil não ler como uma parábola focada na questão da intolerância étnica e como uma dolorida meditação sobre o destino do povo judeu. De referir ainda que Ilse Losa dissertou sobre o livro para crianças em várias das suas crónicas jornalísticas, tendo sido pioneira no ensino da literatura para a infância no nosso país.
Beatriz e o Plátano (1976) (livro editado numa histórica e notável colecção de livros infantis que ela própria dirigiu – «ASA Juvenil» –, e que revelou muitos jovens autores, nas décadas de 70 e 80) é uma das primeiras narrativas portuguesas para crianças animadas do espírito do 25 de Abril, evidenciando também pioneiras preocupações ambientais e cívicas. Várias vezes reeditados até à sua morte, em 2006, livros de Ilse Losa como Faísca Conta a Sua História, Um Fidalgo de Pernas Curtas (1961), Um Artista Chamado Duque (1965), O Quadro Roubado (1977) (que não anda longe da estrutura do relato policial), a par de O Senhor Pechincha (a 1ª ed. de que temos conhecimento data de 1973, encontrando-se este conto incluído na 2ª ed. da colectânea Um Fidalgo de Pernas Curtas e Outras Histórias, com ilustrações de Júlio Resende) e ainda A Minha Melhor História (1979) e Silka (1984) constituem marcos na história da literatura portuguesa para a infância e juventude. O último original para crianças que publicou em vida, O Rei Rique e outras Histórias (1989; reeditado em 2006 pela Porto Editora), traz-nos cinco contos breves e divertidos, impregnados de fantasia, a que não falta uma crítica fina e actual a certos comportamentos sociais e até a respeitáveis instituições. Coloquial e discretamente desafiadora, a escrita de Ilse Losa irmana-se nesta última obra com as aguarelas e colagens de um grande pintor, Júlio Resende, que mais do que uma vez ilustrou os textos de Ilse e se afirmaria pela sua criatividade na ilustração de livros para crianças.
Hoje, esta escritora merece sobretudo que bibliotecas e escolas (designadamente as do Porto, cidade que a «adoptou») dêem destaque aos livros que nos deixou, à sua vida e escrita, encontrando modos de continuar a dar a ler tais livros aos mais novos, mantendo-os assim vivos e actuantes. É que Ilse Losa foi, a vários títulos, uma voz inovadora e, a partir de 1949, concorreu, de maneira decisiva, para a renovação da literatura portuguesa dirigida aos mais pequenos, tendo sido, como se disse, uma das primeiras professoras (senão a primeira) de literatura para a infância na velha Escola do Magistério Primário do Porto. Foi, ademais, uma assumida antifascista e democrata, que, dos anos 50 em diante, conviveu com uma notável plêiade de homens e mulheres que dinamizaram – com todas as dificuldades impostas pelo fascismo – a vida cultural, literária e cívica do Porto durante a segunda metade do século XX. Entre essas mulheres e homens, contam-se Óscar Lopes (que muito apreciava Ilse e sobre ela escreveu), Luísa Dacosta, Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, José Augusto Seabra, António Rebordão Navarro e tantos outros.
Copyright/ José António Gomes

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Sophia de Mello Breyner Andresen e a sua obra para crianças e jovens, por José António Gomes

Segundo testemunhos da própria Sophia de Mello Breyner Andresen, a sua obra para crianças nasceu como reacção contra o infantilismo de alguma literatura que, nas décadas de 40 e 50, era dada aos mais novos: «Comecei a inventar histórias para crianças quando os meus filhos tiveram sarampo» — lê-se num depoimento publicado em 1986. «Mandei comprar alguns livros que tentei ler em voz alta. Mas não suportei a pieguice da linguagem nem a sentimentalidade da “mensagem”: uma criança é uma criança, não é um pateta. Atirei os livros fora e resolvi inventar. Procurei a memória daquilo que tinha fascinado a minha própria infância. (...) Nas minhas histórias para crianças quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância.» (in Soares (org.), 1986: 19).
Não surpreende assim que, nestes contos, seja possível redescobrir referências ao Natal, à viagem ou a certos espaços quase mágicos, como o mar, a praia, a casa, o jardim e a floresta, que marcam também presença na lírica de Sophia e nas suas narrativas «para adultos»: Contos Exemplares (1962) e Histórias da Terra e do Mar (1984). No seu conjunto trata-se, de facto, de uma produção de grande unidade ideotemática e estilística, acerca da qual Maria Graciette Besse (1990: 11) escreveu: «A obra poética (...) exprime o amor da vida e uma profunda exigência moral, através de símbolos marinhos e aéreos, que revelam um cunho visionário e uma constante busca da perfeição. Esta exigência, herdeira da liberdade e da luta pela dignidade do ser, encontra-se também nos textos em prosa.»
A prosa de Sophia destinada a crianças, cuja harmonia no plano rítmico é por de mais evidente, produz um efeito quase encantatório, sendo as obsessivas enumerações presentes na sua prosa servidas pela sábia combinação de nome e adjectivo e por uma sintaxe peculiar que recorre com frequência a estruturas de tipo anafórico, ao polissíndeto e ao assíndeto. Das imagens emana uma sensorialidade que encontra paralelo num discurso fluente, marcado por aliterações e assonâncias, cujo léxico (obsessivo) se reporta sobretudo ao mundo natural, fixando-se nos elementos ligados à água, à terra, ao ar e ao fogo. Se, no plano sintáctico, esse discurso procura quase sempre ir ao encontro da limitada competência linguística do seu destinatário extratextual – a criança –, nunca resvala para a facilidade; antes encontra, em certas estruturas frásicas e textuais aparentemente elementares, o modo mais adequado de exprimir a beleza do mundo, a complexidade dos sentimentos e das fantasias pessoais. À maioria dos contos que constituem esta obra não é estranho o conhecimento da literatura de fantasia nórdica e anglo-saxónica, registando-se evidentes relações dialógicas quer com a restante obra lírica e narrativa da autora (v. Rocha, 1980: 65, sobre a intertextualidade homo-autoral), quer com grandes clássicos da literatura universal (para adultos e para crianças): os contos de fadas e as Mil e Uma Noites, Homero, Ovídio, Camões, Boccaccio, Shakespeare, Collodi e Andersen, entre outros.
Tanto O Rapaz de Bronze (1956), A Fada Oriana (1958), A Menina do Mar (1958) e A Noite de Natal (1960) como O Cavaleiro da Dinamarca (1964), A Floresta (1968), O Anjo de Timor (2004) e os recontos que é possível ler em A Árvore (1985) e «A cebola da velha avarenta» (in A Antologia Diferente: De que São Feitos os Sonhos, 1986), a par da curta peça teatral O Bojador (1ª ed., [1961]; 2ª ed., 2000), representam, na sua maioria, momentos altos da história da literatura portuguesa para crianças. Sem se assumirem declaradamente como obras moralistas, não restam dúvidas de que a sua inteligente urdidura aponta para um dever ser, em que surgem valorizados a Natureza, a harmonia, o equilíbrio e a justiça. À condenação do egocentrismo e do artificialismo, da hipocrisia e da perversão originada pelo apego aos bens materiais, opõem-se a amizade, o amor, a paz e a generosidade, bem como a exaltação do humanismo cristão, do valor social e ético da obra de arte e da fidelidade a princípios antigos e universais.
A atmosfera das principais narrativas para crianças (as dos anos 50 e 60) permite-nos quase sempre penetrar em espaços a cuja ordem subjaz uma lógica do maravilhoso – com a presença de fadas, anões, animais humanizados e transformações mágicas –, indissociável porém de um quadro ético, em que as acções «humanas» dos diferentes heróis (a que correspondem, normalmente, opções morais) surgem como determinantes no evoluir das histórias.
Em A Fada Oriana, a protagonista é vítima do seu próprio narcisismo e, após um percurso probatório, readquire a condição de fada. «Confia nas crianças, nos sábios e nos artistas» – recomenda o Rei dos Anões ao anão de A Floresta, uma parábola sobre a corrupção espiritual e os malefícios associados ao ouro e à riqueza, compreendidos por Isabel (a criança), por Cláudio (o músico) e pelo próprio anão. A Noite de Natal oferece-nos uma imagem renovada do maravilhoso cristão (e do ideal que o inspira), plena de significado social e individual. Várias das personagens infantis de Sophia apresentam-se-nos, é certo, como crianças sem dificuldades materiais. Mas, além da solidão e da orfandade afectiva que por vezes os caracteriza, e que são também atributos da protagonista de A Noite de Natal, surge neste conto a orfandade social de Manuel, como uma reencarnação de Cristo, que no final vem dar sentido aos valores da amizade, da partilha e da busca de uma união entre o humano e o sagrado. Sob a forma de uma quase-fábula poética protagonizada pelas flores de um jardim e por uma estátua viva – que nos traz à memória alguns contos de Hans Christian Andersen – O Rapaz de Bronze, por seu turno, antecipa a visão crítica de uma organização social hierarquizada e injusta que mais tarde reencontramos nos livros «para adultos» Contos Exemplares e Histórias da Terra e do Mar.
Obra de síntese, afirmando a vitória da inteireza moral e da abnegação sobre a vertigem e as forças da perversão, mais longa e complexa que os restantes livros, a narrativa O Cavaleiro da Dinamarca ilustra a grande viagem iniciática e probatória que – colocando o protagonista ante uma sucessão de figuras humanas, eventos e lugares míticos – tudo revela a esse cavaleiro impoluto: o perigo e as tentações, o valor da família, os exemplos de heroísmo, a paixão e a arte. Para não falar da tensão (não inteiramente resolvida) entre uma visão teocêntrica e um novo olhar antropocêntrico que emerge do Renascimento. Pelo meio, é possível revisitar a Dinamarca, a Terra Santa, a Itália do norte e a Flandres. Sente-se o fascínio pelo esplendor humanista (a acção desenrola-se no século XV) e pela grande aventura dos descobridores portugueses, no que é apresentado como «um tempo novo» para a Europa e o mundo, sem contudo se ignorarem as tensões decorrentes do (des)encontro de culturas e até de etnias. Tudo plasmado num encadeamento de narrativas modelizadoras encaixadas na história principal: a história de Vanina (quase uma versão de «Romeu e Julieta», de final não deceptivo), as vidas de Giotto, de Dante, e as aventuras de um marinheiro flamengo e de um português, Pero Dias. Deste modo, a obra representa também uma apaixonada homenagem, quase sempre implícita, às narrativas da grande tradição cultural do Ocidente: a Bíblia, a Divina Comédia, o Deccameron, os livros de viagens, as crónicas navais...
A Menina do Mar é na aparência talvez a mais simples, mas sem dúvida uma das mais belas narrativas de Sophia, onde os tópicos recorrentes na sua obra ganham novos matizes e os seus lugares de eleição (o mar, a casa nas dunas, o jardim de areia) adquirem dimensões simbólicas peculiares – resultado, afinal, de uma maravilhosa reelaboração de densas memórias de infância, ligadas à Praia da Granja. Sem enveredar pela dimensão trágica das «Ondinas» de Andersen e de Jean Giraudoux ou de L'Enfant de la Haute Mer, de Jules Supervielle, mas oferecendo-nos algumas descrições poéticas da natureza marinha que evocam as do grande romântico dinamarquês, a obra narra a história de uma amizade construída contra «um tempo dividido», entre um rapaz, uma menina do mar (que lembra também a Polegarzinha de Andersen) e os seus amigos: um polvo, um caranguejo e um peixe. Depois de aventuras e desventuras várias, por onde se insinuam a revelação mágica do mundo, a paixão pelo oceano e uma angustiada espera de ressonância sebastianista, surge enfim a festa, num palácio subaquático. Partindo da poderosa tradição simbólica associada ao mar e aos seus elementos, Sophia constrói uma narrativa de profundas implicações psicanalíticas (como a fantasia do regresso ao útero materno) que o limitado espaço deste texto não permite sequer aflorar. Uma narrativa que é simultaneamente a afirmação do direito à liberdade afectiva e a expressão de um anseio de equilíbrio e harmonia, no quadro de uma fantasia de retorno às fontes da vida – essa dimensão em que o ser não possui ainda a consciência do tempo e da morte.
É de recordar ainda que, além das narrativas originais que escreveu, das histórias tradicionais portuguesas e japonesas que recontou e da já citada peça O Bojador, Sophia de Mello Breyner Andresen organizou duas belíssimas antologias de poesia em Língua Portuguesa destinadas à infância e à juventude: Poesia Sempre e Primeiro Livro de Poesia – e pena é que a primeira, em dois volumes, não se encontre reeditada1.
A terminar, registe-se a profunda ligação dos contos escritos por Sophia ao Porto e suas imediações. Nascida nesta cidade, a autora passou parte da infância na Quinta do Campo Alegre (que inspiraria as florestas e jardins dos seus contos para crianças) e na Praia da Granja, a que A Menina do Mar veio conferir uma certa auréola mítica.

Nota

1 Quase todas as obras de Sophia de Mello Breyner Andresen destinadas a crianças se encontram editadas pela Figueirinhas, do Porto, e têm conhecido numerosas reedições, o que atesta a popularidade destes livros, confirmada também no facto de os programas e as práticas de leitura escolares os terem acolhido sem reservas (fazem parte, por exemplo, das listas de obras para leitura orientada do programa de Português do 2º ciclo do Ensino Básico). Apenas se não encontram editados pela Figueirinhas os livros O Bojador e Primeiro Livro de Poesia (1991) – que têm a chancela da Caminho –, O Anjo de Timor (obra publicada pela Cenateca, do Marco de Canaveses), «A cebola da velha avarenta» (que integra uma colectânea coordenada por Luísa Ducla Soares e editada pela Areal – v. Referências bibliográficas) e ainda a antologia Poesia Sempre I (em colaboração com Alberto de Lacerda; Lisboa, Livraria Sampedro Ed., s.d.) e Poesia Sempre II (Lisboa, Livraria Sampedro Ed., s.d.).

Referências bibliográficas

BESSE, Maria Graciette (1990). Sophia de Mello Breyner: Contos Exemplares. Mem Martins: Europa-América.
ROCHA, Clara Crabbé (1980). Os Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen. 2ª ed., Coimbra: INIC.
SOARES, Luísa Ducla (org.) (1986). A Antologia Diferente: De que São Feitos os Sonhos. Porto: Areal.
Copyright - José António Gomes

domingo, novembro 26, 2006

Cesariny (1923-2006)


No país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

E no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho

ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela só até à ilharga
a grande história do amor só até ao pescoço

E no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso dos meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

Diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato


Mário Cesariny de Vasconcelos
Poesia (1944-1955), Ed. Delfos
Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano

quarta-feira, outubro 25, 2006

Preguntas para lhe Facer em Voz Alta a Federico García Lorca, Irmán, de Xavier Queipo



Ai Federico García! Ai Federico! Que te apartou do acolhedor refúgio da tua estirpe? Como foste acovilhar no tobo da ignomínia? Que te levou a rejeitar o fío vermelho que Ariadna te tendera? Que te levou a Granada?

Diz, Federico García. Que estranho instinto te fixo confiar em Minotauro? Quantas noites de lua para distinguir o urro da quimera do canto das sereias? De onde apareceu a fúria ancestral que rachou a geometria do teu corpo?

Ai Federico García! Ai Federico! Que se sente quando os fuziles percutem nas tuas costas? Que quando as balas laceram a tua pele de óleo e caramelo? Que após do estourado, do reverso da ração, da vértebra que secciona o centro e as cisternas? Que te esperava após do golpe imóvel, do sangue as gurgulhadas?

Diz, Federico García, com os teus versos inchados de alecrim e de mapoulas, de reflexos e luares, de sangue e caraveis: A que ule a incandescência do corpo queimado pela pólvora? A que arrecende a traição dos bem amados?

Eu quisera saber, Federico, percebes, Federico, a opacidade do diamante, o voo do colibri, as imagens que passaram trás das pálpebras. Eu quisera saber, Federico, que paixões, que escrituras, que delicias guardavam nas gavetas do cérebro?

Eu quisera saber, ai Federico! Quisera saber, mas é tarde.

Xavier Queipo, Bruxelas, Outubro de 2006 (no aniversário do assassinato de García Lorca)

sexta-feira, setembro 15, 2006

Palavras no Fim do Verão, de João Pedro Mésseder

PALAVRAS NO FIM DO VERÃO

Cai a noite, cai
o verão,
caem pálpebras
e o sol
só leva de seu
deste dia
umas palavras à sede

que em breve
alguém despertando,
alguém do outro lado da Terra
colherá em concha fria
para que elas
se ergam de novo
e busquem sozinhas a água.


Poema de João Pedro Mésseder
Setembro de 2006

Ilustração de João Maio Pinto

quarta-feira, abril 19, 2006

Epifanias de Fernando Echevarría.


A Andrea Peniche, da Afrontamento, deu-me as Epifanias, livro surpreendente de um poeta - Fernando Echevarría. Poeta que vou lendo como ele escreve -com vagar mas com enorme gosto. Conheci-o nas Correntes d'Escritas e é daquelas pessoas que se deve ouvir com muita atenção, sem pressas fúteis e não esperando dele verdades insofismáveis. Esperemos, antes, a interrogação incómoda. Rigoroso e calmo, embrenhado numa aparente contemplação de tudo e de todos, parece que de Echevarría emana uma espécie de sacralidade laica onde a palavra atinge um patamar dificilmente atingível no seu uso mais comum. O rigor que antevi nas suas palavras e nas ideias expostas também em conversa com o Nuno Rebocho, poeta e jornalista da Antena 2, apelam à arte do estudo aturado e profundo e à crítica permanente contrastando, assim, com a tagarelice espectacular e pós-moderna dos dias que correm, ou que nos fazem correr, sem sentido nenhum. Um poeta, pois, a ler.

Dele, escreveu Pedro Mexia (6ª, DN, 14/04/2006) - «(...) Echevarría é um poeta sem concessões nem modismos, comprometido com as palavras e as ideias, algumas das quais só existem plenamente quando alcançam uma expressão poética exigente. Epifanias, como toda a poesia de Echevarría, instaura o domínio absoluto do verbo.(...)»

Das Epifanias:

Há o silêncio de antes da palavra.
E aquele que, depois dela, deixa sítio
para subirem pausas
com outras dentro desenvolvendo o limbo
por onde suba inviolável, alta
a melodia do que foi esquecido.
Esse silêncio pauta.
Vai decifrando vestígios
de quanto o precedeu no gasto mapa
de que é possível compulsar o ritmo.
E estar à escuta com, ao fundo, a alma
a desprender-se. Subindo
até o silêncio recobrir a água
e desnudar a solidão do espírito.

Epifanias, Afrontamento, pag.65.

O seu vagar vai indo. Enquanto ciência
não dilucida já, antes se alarga
e estende a sua felicidade intensa
a domínios que tocam a palavra.
E, depois, de a tocar, a levam
a um campo de luz. A uma entranha
que devolve o calos da inteligência
com que satura o núcleo da substância.
O vagar é a grande recompensa
do homem. Vem-lhe dessa zona arcaica
que começou a deslumbrar-se. E dela
usufruindo foi até que a alma
tão peremptória irradiou que a terra
sucumbiu. Para só reter a santa
iluminação que trouxe às trevas
vagar, a antiga aparição das águas.

Epifanias, Afrontamento, pág.61.

segunda-feira, abril 03, 2006

O Anjo do Desespero, de Heiner Müller

Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.
Ich bin der Engel der Verzweiflung, Heiner Müller, 1979. Trad. portuguesa de João Barrento, Relógio d'Água, 1997, ed bilingue.