domingo, outubro 27, 2019

Uma viagem ao inferno de Jonathan Littell

Resultado de imagem para Uma história antiga jonathan littell


Uma História AntigaNova Versão, de Jonathan Littell é um círculo vicioso. Ou pode ser uma história que cresce de uma forma helicoidal, como uma mola em hélice, mas sem clímax. Ou nem sequer pode ser uma história. Não há, de facto, uma história, nem personagens descritas psicologicamente, ou uma identificação que seja, um nome, ou uma imagem, um ícone. Nada. Portanto, sentir-te-ás seguro de poder identificar-te com todas elas. Há, contudo sequências narrativas em catadupa. Em capítulos e entre capítulos. É uma verdadeira viagem aos infernos criado por Littell, após um outro inferno que foram as suas As Benevolentes escritos já há doze anos.

Na leitura de Uma História Antiga podes progredir em corredores estreitos, quase sempre escuros. Estás vestido/a com um fato de treino cinzento, cómodo. Encontras sempre uma maçaneta metálica que dás por acaso em labirintos em Y ou V. Após passares um umbral, encontras uma piscina onde te banhas e ouves sussuros, gritos de crianças e adultos que riem para, depois, entrares em quartos, em bosques ou quintais. Os quartos têm quase sempre edredãos, cobertores ou cortinas com flores verdes cosidas num fundo dourado. Os tapetes são vermelho sangue. Aí tudo pode acontecer num frenetismo de quase 400 páginas. Podes ser um pai de família que se entedia com o seu filho e as sua mulher, louros e belos. Podes ter mulheres igualmente louras e belas com um «carrapito meticulosamente penteado», mulheres matadoras e homens gentis, homens brutos que te violam ou são submissos e meigos e tu transformas-te num sádico. O sexo nunca é recusado; é, antes, uma vertigem necessária. Seja ele de que tipo for: em orgias dionisíacas, transformando-te em mulher, lésbica dominadora ou dominada, homossexual, trans, travesti, bissexual ou heterossexual, vendo crianças em jogos íntimos com os sentidos sexuais a aflorarem à pele, um tema quase tabu. Isto pode não ser o inferno. Ainda não o é completamente, embora algumas cenas desemboquem em violência pura e dura. Pelo meio, duas obsessões: o quadro da Rapariga com Arminho de Leonardo, as sonatas para piano e trechos da ópera Don Giovanni de Mozart.

O que te perturba verdadeiramente na leitura deste livro é a violência da guerra e como ela é descrita, com os horrores que nos entram sem pedir licença. Estas cenas são apostas entre os capítulos e sem esperares estás a ler o inferno descrito em Gaza, na Tchetchénia, num país em guerra civil em África, na América do Sul, na miséria absoluta na Europa ou seres amante de um chefe de um bando criminoso que controla a polícia. Joanhatan Littell, soube há pouco, esteve e está amiúde em teatros de guerra. Ele sabe do que fala e descreve como ninguém o que viu, o que presenciou, o nojo e o asco que sentiu. Filmou tudo o que pôde pelo telemóvel, parece-me. Mas atreve-se a ser um perpetrador de um massacre e relata o gosto que isso lhe dá. Nós, tu e eu, não damos importância nenhuma à guerra. Vemos bombas e tiros. Nunca vimos cadáveres disformes, nem nunca lhes sentimos o cheiro. Até porque jantamos cedo. Ela está tão longe que não pressentimos do que o Homem é capaz. Do mais aviltante e inumano, até ao saber infligir o cúmulo da dor ao outro.

O autor já ameaçou de pancada vários jornalistas e é esquivo o suficiente para não o encontrarmos e fazer-lhes as perguntas necessárias. Provavelmente, a sua irritação terá a ver com isso mesmo: ninguém ainda teve a coragem ou sabe a pergunta que quer que lhe façam ou que repitam sempre as mesmas. No entanto, ele aí está, premiado e procurado pelos media que, entretanto, se borrifam. Ele está sempre em fuga. Penso que se vivesse no século XVIII seria Sade e a sua premência de liberdade individual e política contra os fortes ou, mais tarde, poderia ser Sacher Masoch. Mas não me atrevo a classificar Jonathan Littell de quem nunca falhei um livro. Fiquemos talvez por Nietzche. Talvez...

António Luís Catarino
Coimbra, 27 de outubro de 2019

domingo, outubro 20, 2019

Enquanto este esgoto não colapsa

Resultado de imagem para colapso carlos taibo
Foto: Letra Livre e Mapa

O final do título poderia ser um «divertamo-nos todos enquanto isto dá», «carpe diem», «que se lixe, já cá não viverei nesse tempo»...e mais, e mais... dando à vox populi a razão suprema de andar de mãos dadas com o capitalismo, principal responsável do que aí vem, não fosse hoje o mundo um enorme esgoto em que o tornou. Ar, terra, mar poluídos e sempre a eterna esperança que a sacrossanta tecnologia nos salve do colapso.

Por isso ler o livro de Carlos Taibo, «Colapso – Capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo» editado oportunamente pela editora/livraria independente Letra Livre, faz-nos pensar (ou dos poucos que se esforçam por pensar), enquanto ser humanos do ainda Holoceno o que fizemos, ou melhor, o que deixámos fazer a este planeta Terra.

Primeiro choque: as notas de rodapé e a bibliografia do autor. Inegavelmente importantes estas notas de carácter científico, admiramo-nos na leitura e pesquisa que delas fazemos de algumas ideias que o autor sublinha, com cuidado e rigor, venham desde a década de 50! Ou seja, a preocupação por esta eutanásia dolorosa do Planeta vem desde muito cedo. Talvez mesmo do século XIX, razão pela qual a Revolução Industrial foi o início da crise do planeta pelo que não será exagerado ou eivado de falsidade a afirmação que a acumulação de capital e o imperialismo foi a causa última do início da decadência climática e ecológica.

No capítulo I, Carlos Taibo apresenta-nos o conceito de colapso. Talvez o mais interessante do livro seja esta questão. Já assistimos, durante a História, a vários colapsos: a queda dos impérios egípcios e hititas, a do Império Romano com o avanço do que chamamos (mal) de povos bárbaros do oriente muito possivelmente a períodos longos invernosos e verões húmidos e chuvosos, a Peste Negra que varreu da face da Europa três quartos da sua população, e, já mais para os tempos modernos as invasões napoleónicas, a guerra franco-prussiana e as guerras liberais, a I e II Guerras Mundiais com o seu cortejo de milhões de refugiados e de 150 milhões de mortos. Já para não falar da bomba nuclear usada pelos americanos no Japão, na paranóia e o medo permanentes que coisa igual se repita. A Humanidade enfrentou com a adaptação possível viver nessas condições. Embora em colapso.

O conceito de colapso é, também ele, muito variável. Carlos Taibo dá-nos vários exemplos: um vulcão na Islândia nos anos 90 permitiu que, durante 10 dias, os sistemas eléctricos e electrónicos baqueassem totalmente, as rotas de aviação e rodoviárias parassem, a internet funcionasse intermitentemente e que deixassem de existir as trocas de informação, de mercadorias e as bolsas mundiais praticamente não funcionassem. Não se contam aqui os milhares de mortos directos e indirectos da erupção vulcânica e os hospitais a trabalharem sem todos os equipamentos a funcionar. Mas isto aconteceu no Norte rico. Agora tentem falar em colapso a um habitante da faixa de Gaza, da Nigéria, da Síria ou do Iraque! É evidente que esta gente nasceu e já morreu em constante colapso. Sem água, sem luz eléctrica ou sem os cuidados básicos inerentes à sobrevivência, nem digo à vida, porque ela simplesmente não existe. No sul há povos em eterna ruptura, sem instituições, sem dinheiro, sem ajudas. Não perceberão o conceito de colapso, assim como se diz que o Norte colapsou porque se tornou impossível viver sem a TV ou sem rede de telemóvel pela erupção de um vulcão!

Passando a necessidade epistemológica de Taibo (professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid e com bibliografia editada) em explicar o conceito de colapso ao estudar as suas possíveis causas (tão óbvias que não vale a pena reproduzir aqui), desenvolve cenários pós-colapso extremamente audazes, mas com todas as possibilidades em aberto. É o melhor do livro.

Isto tanto pode acabar mal com um ecofascismo ou com a extinção total (o que não acredito, nem o autor), como até pode abrir espaços de liberdade comunitários que não devemos rejeitar como hipótese real, ou ainda mais real coexistirem em luta contínua as duas formas de vida, uma nova luta de classes baseada na teoria de Marx, com o desaparecimento traumático da classe média, do dinheiro e das mercadorias. Imaginemos uma enorme ruptura no campo das energias não renováveis, como aconteceu na URSS em 91 ou em Cuba ou na Venezuela ainda hoje e agora projectem-nas a nível global. Na Rússia tudo se transformou num enorme caos financeiro (de que se aproveitaram alguns oligarcas), na inoperância e desaparecimento do Estado que acabou com os apoios sociais e as reformas, o dinheiro acabou pela queda total do rublo e as mercadorias deixaram de circular. Nunca divulgados pelos media, houve comunidades inteiras que sobreviveram no campo, abandonando as cidades e criando comunidades fortes com democracia directa. Em Cuba, o embargo de petróleo dos EUA, levou a que tivesse importado um enorme volume de bicicletas à China, criando hortas urbanas e criando fortes comunidades no campo. A emissão de CO2 teve uma queda de 26,6%. Na Venezuela, a crise ainda não chegou ao colapso porque as reservas deste país ainda são fortes, mas a contínua baixa de preço do crude e o embargo nas exportações faz com que estas reservas estejam paradas. A necessidade de autoregulação e autogestão longe do poder, tem sido uma prioridade que tem resultado prescindindo de intermediários especuladores e indo à produção directa. Não rejeitemos portanto a necessidade da partilha comum da energia e da própria vida.

Portanto, as coisas não são fáceis de decifrar para um futuro que será tão distópico como utópico. Certezas: nunca iremos alcançar o objectivo de fixação de 2º em 2030. As emissões de CO2 têm aumentado como se fosse uma espécie de estertor do capitalismo que se pode tornar letal, mais do que é hoje. A ONU está descapitalizada e não poderá intervir, assim como a Unicef, ou a Fao. 

Em 2030 atingiremos, a este ritmo de emissões, os 4º graus o que produzirá uma temperatura amena na Europa do Sul, uma vida impossível na zona sul do planeta que originará grandes migrações para norte como aliás já acontece por motivos climáticos a que a guerra estará ligada, o norte da Europa e dos EUA e Canadá descerão de temperatura, principalmente nas regiões influenciadas pela corrente do Golfo que está a desaparecer, enquanto paradoxalmente os gelos do Árctico desaparecerão, abrindo uma corrida às explorações petrolíferas desta região e adiando talvez por mais vinte anos o fim da energia petrolífera. A energia está a esgotar-se. Vai esgotar-se.

Assim, as possibilidades são múltiplas. Ou arranjamos um modo de vida realmente possível de ser vivida, ou viveremos em cidades sem ordem, violentas, onde grupos criminosos e polícias privados (qual a diferença?) mandam a soldo de oligarcas que se pretendem ser uma elite que viverá condicionada a bolhas muralhadas.

Entre a base proudhoniana de comunidade que parece que Taibo abraça, a luta de classes mais aguerrida que nunca, de Marx que o autor também não rejeita, o ecofascismo, ou ainda violenta junção dos dois modelos, as hipóteses são múltiplas. Alguma ganhará. Um apontamento: o ecofascismo que já conhecemos de outras histórias do século XX (o fascismo e o nazismo eram ecológicos, criando até dias e jornadas de defesa da Natureza) pode não ter origem nestes novos pequenos partidos que têm nascido um pouco por toda a parte. O ecofascismo pode ser adoptado pelos partidos do sistemas e tradicionais, obrigando-nos a comportamentos ecológicos, leis severas para quem não cumpre, culpabilizando o infractor particular e, pior, separar o que não é «normal» na Natureza, pelo receio do outro numa época de grandes migrações mundiais. Isto é o ecofascismo. Separar o bom do mau na Natureza pode levar a uma higienização nazi nas pessoas de diferentes etnias, proibindo-as de entrar em terras «limpas».

Caso último que nos fará pensar: um elemento do Grupo de Bilderberg, Susan George, deixou passar uma resolução da sua última reunião. Para que o Holoceno não desapareça e voltemos à situação de antes da Revolução Industrial, será preciso que a população na Terra seja de somente 600 milhões de pessoas. Hoje, somos 7 mil milhões. O programa é de «redução drástica da população». Que terão eles na cabeça para chegar a estas conclusões? Mais epidemias devastadoras como a SIDA e o Ébola, milhares de vezes mais mortíferas? Ou a guerra permanente, sem fim? Também no horror as hipóteses estão em aberto. O que Carlos Taibo nos dá, em contrapartida, é uma luta para uma sociedade solidária, energeticamente sustentável e local. Não estarão longe as opções que teremos de tomar.

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de Outubro de 2019

sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


Resultado de imagem para pensar em tempos de não-pensamento rui grácio
Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019