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sexta-feira, novembro 28, 2025

«A Morte é um Acto Solitário», Ray Bradbury

 

Cavalo de Ferro, 2019. Tradução de Maria João Freire de Andrade

Se a morte é um acto solitário, neste livro ela é acompanhada por uma multidão de cadáveres. Um autor que escreveu os interessantíssimos «Fahreneit 451» e «Crónicas Marcianas», vê-se agora enredado numa escrita pouco escorreita, num ambiente sufocante de uma Venice em decadência, num policial pouco conseguido. Talvez, até, presunçoso pela quantidade de referências a escritores, realizadores e actores e actrizes que calcorrearam os plateaux cinematográficos. O mistério que envolve esta história é saber quando ou se encontramos o seu fim, mais se assemelhando a um guião de um filme de Hollywood, tudo a bem de construir algo de verossimilhante e com interesse para o leitor. Recomendo-o pouco, mesmo aos que gostam da modalidade.

alc

segunda-feira, setembro 29, 2025

«A Vingança», John Grisham

 

Eis mais um período de nojo em que mergulho nos policiais. Neste, a vingança, passa-se nos finais de 40, após a II Guerra Mundial, com pelo menos metade das 400 páginas a descrever os horrores da Marcha da Morte nas Filipinas, cujas vítimas eram soldados americanos nas mãos dos terríveis japoneses. Não pretendendo brincar com isto, esta longa descrição de Grisham nada tinha a ver com a trama policial em si, a não ser ter sido dado como morto o que eventualmente servirá para apimentar a estória: um herói de guerra de uma pequena vila do estado segregacionista do Mississipi, um rico proprietário de algodão, mata um pastor evangélico que pensa estar enrolado com a mulher enquanto ele passava tempos terríveis num campo de prisioneiros japonês e na guerrilha da selva, tudo por culpa do incompetente e narcisista MacArthur. Chegou aos EUA e deu um tiro no tipo errado. Não era ele o culpado, mas sim um empregado negro que entretanto fugiu para o norte, zona libertada, segundo ele. Segundo nós, nem tanto assim, mas... Conclusão: é condenado à cadeira eléctrica, sendo branco e rico, contudo, não o salvam porque teimosamente não disse o motivo e estava-se em período de eleições e o governador precisava de votos (é sempre assim); perde a casa e os hectares com a brutal indemnização à família do pastor e os filhos do falecido que remédio têm senão estudar em busca de mérito. Pasmaceira de livro...

segunda-feira, maio 12, 2025

«Tóquio Express», Seicho Matsumoto

 

Presença, 2025. Tradução do japonês de André Pinto Teixeira
Um policial japonês por dia, nem sabe o bem que lhe fazia! Dizem que Seicho Matsumoto é a Agatha Christie do Japão e este livro uma «obra-prima». O que não se compreende é que, mesmo escrito originalmente em 1958, tenha sido banido «por ter ideias ocidentais decadentes», segundo o Financial Times. Nós exportamos decadência aos molhos, está visto, os japoneses suicidam-se aos pares nos chamados «suicídios de amantes» tema central desta obra. O autor não nos engana sobre este fenómeno muito nipónico: 

«A ideia de que um homem e uma mulher encontrados nos braços um do outro devam ser considerados amantes suicidas quase dá vontade de rir. No entanto, desde tempos imemoriais que milhares e milhares de casais foram encontrados nesse estado, sem que ninguém suspeitasse de qualquer prática criminosa. Quando a morte é vista como um suicídio de amantes, a investigação criminal do incidente nunca é tão exaustiva como em casos de homicídio. Mal há uma investigação digna de tal nome.» (pág.181) Chamo-vos a atenção para as expressões «desde tempos imemoriais» e de «Milhares e milhares de casais foram encontrados nesse estado [de suicídio].» Como o caso interage com uma grande corrupção num ministério japonês ficamos, igualmente, a saber que quando são apanhados nessas teias os funcionários também se suicidam, atirando-se pela janela fora de um qualquer arranha-céus. Não saberemos, portanto, quem ficará para contar a história, mas Matsumoto não é muito original: os corruptos de cima safam-se e até melhoram o seu estatuto político em cargos de maior prestígio em remodelações governamentais para esconder esses tais casos e o mexilhão suicida-se, embora neste caso houvesse mesmo assassinato, visto que estamos num policial muito cerebral, para rimar. Estamos, pois, no final dos anos 50, cujos mistérios ainda são revelados pela intuição e dedução. Aqui não há tiros, nem câmaras de vigilância, drones, ou localizadores gps em telemóveis. Também não há escutas ou satélites. 

Contudo, há imensos horários de comboios por todo o Japão, visto que os assassinos se fazem mover por este transporte em horários cruzados e estudados ao pormenor para construírem um forte álibi. Quando se dá o suicídio, aliás, assassinato, os perpetradores têm de estar no outro lado do Japão. Fácil. No entanto, os polícias descobrem tudo no final, e nós muito antes, visto que a Editora, por excesso de zelo, nos dá a pista. Se até às páginas 150 (do total de 191!) ficamos a saber que se movem em diferentes comboios e num ferry, obrigando-nos a estar com enorme atenção à lógica das viagens, a Editora, não se sabe porquê faz este aviso: «Nota da obra original: os horários dos comboios e aviões referidos têm como base o ano de 1957»! Ora, ainda não se tinha falado em aviões na trama da história do crime. Faltando ainda 40 páginas para o fim percebemos que o assassino apanhou um avião da gloriosa Japan Airlines!! Certíssimo. Obrigado, Presença! 

alc

terça-feira, abril 02, 2024

«Caçadores de Cabeças», Jo Nesbo

Mais do Jo Nesbo. É evidente que ele sabe o que a maioria dos leitores quer ler, o que, em princípio, não é sinal de qualidade. No caso do norueguês Jo Nesbo, junta uma certa expectativa na narração que nos prende e, ao mesmo tempo, sabe que o policial mudou muito desde o século passado. Hoje, a brutalidade é maior, o adn e o csi vieram modificar a pesquisa cerebral, portanto dedutiva, dos detectives para encontrar um assassino e nem sempre o crime não compensa. Neste caso, compensou, sim. 

Editado em «Mostra o que estás a ler» Facebook

terça-feira, fevereiro 13, 2024

«A Porta dos Traidores», Jeffrey Archer

 

Bertrand, 2023
Nada a dizer de extraordinário. Mais um livro de um antigo deputado conservador de que já falámos aqui e que também conheceu a prisão. Conhecedor dos meandros da política e da polícia de Sua Majestade Isabel II que entretanto se foi deste mundo cor-de-rosa ou nem tanto assim quando se trata de um império feito a ferros e a sangue, como sabemos. Mas a narrativa policial tem essa garantia - a de saber-se do que fala e, nos tempos que correm, é uma mais-valia literária nada negligenciável. Por sinal, trata-se de gizar um roubo das jóias da coroa britânica coisa que só o Capitão Blood conseguiu na data de 1667! Consegue-se, mas nem tudo o que parece é e nos policiais isso é matéria importante e decisiva. Dá verdadeiro gozo ver como seria o tal roubo pensado ao milímetro e que foi posto em prática com sucesso. De tal maneira que o final do livro é verdadeiramente frenético, contado ao minuto. 

Mas compreendemos o marketing literário de Jeffrey Archer já multimilionário com as vendas mundiais dos seus livros. Está lá tudo para a continuação da saga e para possível adaptação cinematográfica. É antes que tudo um guião fabuloso que não necessitaria sequer de adaptação e, muito melhor do que isso na perspectiva monetária do lucro, prepara-se para, deste livro, surgirem não um, não dois, não três, mas muitos mais livros que continuarão a narrativa baseada na vingança dos maus contra os bons. É o cânone policial. Mas melhor do que para aí se faz neste campo.

domingo, dezembro 31, 2023

«Um Homem muito Procurado», John Le Carré

 

D. Quixote, 2008. Tradução de Isabel Veríssimo
Uma longa e complicada teia de interesses entre vários departamentos policiais antiterroristas ingleses e americanos que passam por Hamburgo e a Síria. John Le Carré lembra que foi nesta cidade alemã que permitiu a organização e preparação do ataque às Torre Gémeas de Nova Iorque no 11 de Setembro de 2001 o que não deixa de ser significativo. De resto, entram banqueiros suíços, uma advogada idealista de apoio aos refugiados, antigos membros do Exército Vermelho da ex-URSS e a forma maquiavélica como se podem utilizar os fanáticos e moderados islâmicos para, através de uma chantagem completamente imoral, para reforçar o estado policial nas democracias ocidentais. Lá aparecem o Hamas e o Hezbollah, os mercenários sírios, como peões no tabuleiro de xadrez que se movem consoante os objectivos dos governos.

quinta-feira, dezembro 07, 2023

«Fechada para o Inverno», Jorn Lier Horst


D. Quixote, 2016, Tradução: João Reis
Bom, o que vale é que Horst foi polícia na Divisão de Oslo o que dá um carácter de veracidade a tudo o que lemos dele. Não só a questão administrativa a que são obrigados os detectives (creio que ainda bem!), mas a sua relação com os procuradores e juízes e igualmente com os métodos de investigação, embora mais que ajudados pelos capitalismo de vigilância. Já aqui se disse que a dedução, a memória, a inteligência de um detective do século XX já nada tem a ver com os quilómetros de imagens, mails, contas bancárias, telemóveis e discos duros dos computadores a que hoje começa e acaba toda uma investigação criminal no século XXI. Os crimes hoje são essencialmente económicos e deixa-se para trás o tráfico de droga ou outros equivalentes, como os humanos. Não há mãos para tudo, caramba! O Estado assim o obriga e tudo corre às mil maravilhas.

A história do livro em si não é má de todo. Mas os liberais deviam seguir a narrativa de Horst quando este vai à Lituânia numa investigação criminal. Longe de ser um autor que aborde a política, não deixa, contudo, de exercer a sua visão sobre a sociedade lituana há poucos anos saída da União Soviética. Como disse, os liberais, depois de um dia de trabalho árduo no Parlamento ou nas suas empresas e nos seus unicórnios, depois de passarem no ginásio ou no spa, ou mesmo durante os mesmos, sei lá, deviam ler o que ele conta da Lituânia neste livro. O liberalismo selvagem produziu pobres a esmo, 25% de desemprego, riquezas fabulosas, crime mais organizado que o Estado, mercados negros tão grandes como os maiores bairros de Oslo onde tudo se consome e vende sem que se possa criar riqueza para o Estado, porque a exercer o fisco nesses mercados era pior do que as suas consequências sociais. Fixe, não é? Claro que quem paga isso, em parte, são os países ricos como a Noruega, a Suécia, a Finlândia e a Dinamarca, por exemplo. Mas nem tudo é mau: produz uma literatura policial profícua e lucrativa nestes países, em troca de umas casas assaltadas (geralmente as segundas ou terceiras casas de férias de famílias viquingues), uns televisores LCD a menos e uns carros desviados dos seus donos. Nada que preocupe a social-democracia em descida inclinada para a extrema-direita, igualmente favorecida para o seu discurso político. Todo um programa liberal em poucas centenas de páginas. 

quarta-feira, novembro 29, 2023

«Marcada para a Vida», Emelie Schepp

 

D.Quixote, 2023, Tradução de Ana Costa
Um policial norueguês a reboque do «nórdico». Dá para tudo e o seu contrário, o nada. Muito sangue, pouco sexo talvez por uma postura muito protestante e púdica da autora sabe-se lá, desaparecimentos, vinganças a rodos, uma procuradora que foi treinada em criança para assassinar tudo o que mexesse e que perdeu convenientemente a memória dessa infância, refugiados mortos em contentores... um longo bocejo. Pena minha gostar de policiais, porque às vezes surgem banhadas destas. Mas há que os ler até ao fim. Não sendo uma promessa, não façam como Marx que os lia só pela metade quando não lhe cheirava a literatura da boa. Mas gostava do poeta Heine!

quinta-feira, novembro 16, 2023

«Silverview», John Le Carré

 

D. Quixote, 2021. Tradução de Maria de Fátima Carmo 
Um dos pesos-pesados da literatura policial ou, simplesmente, da literatura anglo-saxónica. Silverview tem, contudo, a particularidade de ter sido o último publicado por John le Carré, postumamente e em 2021, após a sua morte por pneumonia. Silverview é um romance escrito por quem está em paz com o mundo, mesmo que esse mundo que ele tão friamente descreveu estivesse bem longe dessa mesma paz. John le Carré foi um espião da Guerra Fria e nela se despediu na década de 60. O que nos legou foi a narrativa do cinismo dos serviços da sua majestade, da inumanidade das guerras, da preparação aturada e ao pormenor de novos conflitos, dos interesses económicos inconfessáveis das potências, dos povos sacrificados sem que isso impedisse o sono aos chefes e às elites. Lá está Gaza, a Palestina e Israel, a Jordânia, Cuba, o embuste do Iraque, a CIA, feroz e omnipotente (e omnipresente), a África repartida pelos ocidentais. Tudo isso, mas não só, é descrito em Silverview numa toada tranquila como quem espera a sua morte pessoal que é talvez pensada ao milímetro transposta para um funeral de dois capítulos, dos mais inquietantes que poderemos ler no livro, revisto e terminado por Nick Cornwell, o filho mais novo de le Carré. É ele que escreve no posfácio:

«Silverview faz uma coisa que nenhum outro livro de John le Carré fez: mostra um serviço fragmentado, repleto das suas próprias facções políticas, nem sempre amável para quem devia acarinhar, nem sempre muito eficaz e alerta, e, em última instância, já não seguro de poder justificar-se a si mesmo. Em Silverview, os espiões da Grã-Bretanha perderam, como tantos nós, a certeza quanto ao significado do país e de quem somos para nós mesmos. Tal como Karla em A Gente de Smiley, também aqui com a nossa própria facção: é a humanidade do Serviço que não está à altura da tarefa - e isso começa a pôr em causa o facto de a tarefa valer o custo.»

terça-feira, outubro 17, 2023

«O Morcego», Jo Nesbo

 

BIS, Livro de Bolso, 2ª ed. 2019. Trad. (inglês) Maria Georgina Segurado
Primeiro livro da série do inspector norueguês Harry Hole é claramente uma aposta sofrível. Os acontecimentos não fluem, são colocados a camartelo para dar algum aspecto de verosimilhança, mas falha completamente. Um polícia que vem da Noruega à Austrália para se inteirar de um assassínio de uma rapariga norueguesa em Sidney, vítima de um assassino em série, dão-lhe uma arma que usa à fartazana, anda à porrada em bares, bebe que se farta, estampa carros, utiliza prostitutas para ter acesso a informações e pior que tudo, envia para a morte certa a sua namorada sueca, por quem diz ter-se apaixonado loucamente, para os braços do assassino que a mata sem rebuço, usando-a como isco! Isto sem haver inquéritos, expulsões da polícia, ou sequer uma advertenciazinha. Ou a polícia australiana anda a dedicar o seu tempo ao surf ou estamos perante uma piada ao país, repetida vezes sem conta no livro para com os australianos, pouco focados nas lides policiais. As drogas aparecem em todo o lado, tal como a prostituição generalizada nas ruas, tal como os hippies tardios, os gays são em maior número do que em S. Francisco o que o leva a declarar à namorada, ainda viva na ocasião, que se sente mal ao reparar que são o único par heterossexual na King's Cross de Sidney, tal como os aborígenes que são gente dada a crimes, pobreza, alcoolismo (ele que é alcoólico!), prostituição e disfuncionalidade familiar. Todavia, dados aos mais profundos segredos da Natureza.

E por falar em aborígenes, claro que o assassino em série será um deles. Só massacra e viola (por vezes a ordem inverte-se) mulheres louras sem filhos (requinte de malvadez) para que não possam procriar mais tarde e, assim mesmo, se vinga da forma como os brancos humilharam, maltrataram e torturaram o povo que vivia há 60 mil anos na Austrália. Mesmo que os estudos revelem que os assassinos em série são geralmente homens brancos, alguns com família constituída e perfeitamente integrados socialmente. Mas, para o livro de Nesbo, essa vingança sociopata só poderia vir de um aborígene que morre no aquário de Sidney engolido por um tubarão!! Claro que Harry Hole, antes, tenta matá-lo a tiro, por entre as pessoas que, com os filhos, visitavam calmamente o aquário e que tiveram como bónus ao bilhete adquirido, um tipo a ser comido aos safanões por um tubarão branco. Já antes, em capítulos anteriores, um palhaço tinha sido decapitado por uma guilhotina, expelindo rios de «sangue e medula» (sic), perante o entusiasmo da criançada! Se me contassem que isto era descrito num livro não acreditaria à primeira...

Mas as coisas estão assim: enquanto me dedico à História, principalmente de autores contemporâneos que obviamente não conheci na Faculdade e na leitura de autores malditos do século XX, tive necessidade de intervalar com alguns livros policiais que sempre gostei de ler, aliás. Não os conhecendo como deveria, levei este Nesbo, apodado, na capa do livro de bolso, de «autor nórdico do momento, best seller internacional» e que me custou 9,95 euros. Que fiquem pois com o seller que como best, estamos conversados. Grande banhada nórdica!

sexta-feira, outubro 13, 2023

«Os Litigantes», John Grisham

 

Bertrand Ed., col. 11/17. Tradução de Ana Mendes Lopes
Para quem ache que o policial é uma literatura menor aconselho a ler as opiniões que sobre o tema escreveram os principais escritores portugueses, ou não; para o caso, as fronteiras de nada servem. Mas ler John Grisham é uma boa aposta. Mais ainda se ele, com o conhecimento de causa que se lhe reconhece (foi advogado litigante durante anos antes de se tornar uma «besta célere»), nos demonstrar a completa imoralidade e insensibilidade do sistema de saúde americano e dos lucros fabulosos das multinacionais farmacêuticas dos EUA. O livro «Os Litigantes» é igualmente um retrato bem vivo do sistema de justiça que acompanha bem de perto o sistema de saúde. Todos ganham, menos, obviamente, os que mais precisavam de apoio. Os doentes, com ou sem seguros de saúde, as pessoas usadas como cobaias dos países pobres do Sul americano, africano ou asiático e os pequenos advogados engolidos pelos grandes escritórios de autênticos tubarões sempre em busca de vítimas e dólares. Também há advogados especialistas  em acusar os advogados que perdem invocando negligência, como se, em tribunal, entre a defesa e a acusação, a matemática não obrigasse um a perder! Mas há também especialistas em procurar desastres de automóveis, brinquedos chineses à venda com níveis de chumbo não adequados, especialistas em pessoas obesas para litigar com farmacêuticas ou com restaurantes de comida rápida. Alguns nem chegam a tribunal. Um punhado de dólares em acordos e já está, só que o dinheiro nunca chega às «vítimas». 

O liberalismo no seu melhor. O mesmo é dizer que vale tudo e tudo está à venda, seja o corpo humano, seja a própria justiça com o seu cortejo de hipocrisias e nomeações. Aqui, quem manda é quem tem dinheiro. Tão simples como isso. Um livro que substitui as longas páginas de jornais (alguns com interesses inconfessáveis) sobre o assunto e que, por vezes, lhes cheiramos as conivências. Ler este livro vale mais do que ler intermináveis e laboriosos estudos sobre as virtudes do liberalismo.

terça-feira, fevereiro 28, 2023

Dois policiais


Dois policiais, duas narrativas completamente distintas separadas também pelo tempo. A primeira, de Carter Dickson, A Flecha Assassina, publicada nos anos 30, consegue ser uma obra interessante passando-se somente num tribunal e, menos, numa tasca inglesa. Toda a trama de um assassinato é descoberta em pleno tribunal, incentivando-nos a deduzir, pelo leitor, o caminho que levará ao final do enredo. As estratégias levadas a cabo pelos advogados de defesa e acusação são marcadas por uma forma literária que nos prende do princípio ao fim.

Já Os Diários Secretos, de Camila Lackberg de 2007, são 500 páginas, algumas desnecessárias, que retratam a impossibilidade  da Suécia e dos Suecos em verem-se livres de um passado de colaboração com os nazis e ocupação alemã sob a capa de uma neutralidade criminosa. Pelos vistos, e segundo as palavras da autora, foram muito mais os colaboracionistas do que os resistentes. Mas isso são contas de outro rosário. A trama é mais viva nas últimas páginas do que o enredo inicial onde a autora, que tem mais de 20 milhões de livros vendidos, parece não saber para onde quer ir a narrativa. Foi com algum alívio que vimos confirmar as nossas suposições de quem era o assassino. Afinal não foram os nazis os carrascos, também aí há bons rapazes!!, mas sim um velho resistente. Ele há gente para tudo.

alc

segunda-feira, janeiro 30, 2023

«Só o Tempo Dirá», de Jeffrey Archer

 

Livrinho de bolso, como se requer a um policial. Jeffrey Archer tem um condão não só de escrita, mas também, como convém a qualquer boa história, de saber do que fala. E para além da sua experiência de vida em confronto com a justiça que conhece bem, visto que esteve preso por fuga aos impostos, ainda por cima como deputado conservador, descreve com verosimilhança todas as tramas que nos descreve.
Como conservador, acredita que o mérito pode ser o impulsionador do elevador social, mas também sabe que não somos parvos ao ponto de acreditar totalmente nisso. Portanto, os livros de Archer devem ser lidos como minitratados de luta de classes, mas ao contrário. Daí a importância de o ler. Não só por isso, porque é inegável a qualidade da sua escrita e do suspense que suscita, mas também por isso.

Bertrand, col. 11/17 de bolso.
Tradução de Fernanda Oliveira
2018

quinta-feira, janeiro 19, 2023

«O Manipulador», de John Grisham

 

Mais um livro a justificar quão obcecado me encontro pelo policial. Este tem a particularidade de se meter com sistema trinitário da política, da justiça e do sistema prisional americano que, ironia à parte, todos sabemos ser exemplar. E John Grisham não brinca em serviço. Para além de bom escritor tem um posicionamento político extremamente crítico para com os EUA. 
Um advogado negro está encarcerado, por dez anos, numa prisão de um estado federal que nem é das piores, embora já tenha passado por várias bem más. A história começa aqui e acreditamos na sua inocência. O seu escritório foi contratado por pessoas nada recomendáveis que o meteram numa história de evasão fiscal recambolesca. O final é incrível e como vai sendo hábito nos policiais atuais, os «maus» talvez ganhem na teia ao FBI que entretanto montaram. A narrativa é rigorosa e cerebral, no entanto o autor teve o cuidado de dizer que nada daquilo que contou foi real. Não fosse o diabo tecê-las.
Ler Grisham é também ter um posicionamento político: «O meu companheiro de cela é um miúdo negro de dezanove anos, de Baltimore, condenado a oito anos de cadeia por vender crack. Gerard é como um milhar de tipos que encontrei nos últimos cinco anos, um jovem negro de uma cidade interior, cuja mãe era adolescente quando o teve e cujo pai desapareceu há muito. Abandonou a escola no décimo ano e arranjou trabalho a lavar pratos. Quando a mãe foi presa, Gerard foi viver com a avó, que está a criar uma horda de primos. Começou a consumir crack, depois a vender. Não obstante a vida nas ruas, Gerard é uma alma bondosa sem um pingo de maldade. Não tem qualquer historial de violência e não devia desperdiçar a vida na prisão. É um de entre um milhão de jovens negros que estão a ser armazenados pelos contribuintes. Neste país, somos aproximadamente dois milhões e meio de reclusos, de longe o maior número de encarcerados em qualquer sociedade semicivilizada. (pág.82)».
E a descrição do sistema de justiça americano contínua, sendo que a própria Constituição americana é regularmente ultrapassada e alterada conforme a decisão dos legisladores e juízes sem que daí venha mal ao mundo. E prende-se, prende-se muito, com penas completamente dementes e gratuitas que obrigam cidadãos sem qualquer perigosidade, alvo de pequenos erros, ou mesmo inocentes, a passarem anos infindos na prisão e a desfazerem uma vida normal, perguntando-se a si próprios «Como é que isto me aconteceu?»

quinta-feira, dezembro 22, 2022

«Cães de Caça», de Jorn Lier Horst


É evidente que um livro, uma história policial, que é contada com alguma competência por um ex-polícia ao serviço da instituição norueguesa durante 20 anos tem de dar resultado, sabendo igualmente que os policiais nórdicos têm uma aceitação pública que se tem mantido estável fruto de uma política de marketing bem sucedida e vendendo-se com regularidade séries de TV relativamente em conta até para a nossa televisão. Neste caso, a série em causa foi «Wisting» (nome da personagem principal) que deu na cadeia de cabo AMC. 
Mas no caso de «cães de caça» de Jorn Lier Horst a coisa torna-se verosímil pela experiência profissional do autor o que lhe dá credibilidade. Só não percebo a teimosia vikingue, quase uma caso de estudo, por que razão existem sempre pessoas, geralmente mulheres, a desaparecerem e a surgirem em caves, presas e acorrentadas. Ou é uma coisa que Freud terá explicado em detalhe, ou é uma mania local que veio desde Stieg Larsson, esse sim, um jornalista que conhecia os meandros da polícia e da política sueca e um escritor fora de série. Horst encontra-se a meio caminho, mas ainda lhe falta alguma coisa para atingir a mestria daquele. 

quarta-feira, dezembro 07, 2022

«Objetos Cortantes» de Gillian Flynn

 


É o que eu digo: o policial tem mudado a olhos vistos. Uma autora nova é uma nova autora, Gillian Flynn, visto que é o seu primeiro livro; constrói uma personagem, jornalista, cujos pais que ela adotou são o seu editor e a mulher, que se corta ela própria compulsivamente por todo o corpo, com graves depressões, bebe bourbon à farta, droga-se com tudo o que encontra e que a irmã mais nova de 13 anos lhe arranja (e que drogas!), uma mãe que a odeia mais um padrasto ausente, faz sexo um pouco ao calhas com o que vai encontrando e para compor isto tudo, numa cidadezinha do Missouri, nos confins do sul dos EUA onde tudo não é o que parece e a mãe é dona e senhora daquilo tudo porque tem uma fábrica de processamento de porcos para abate (?!). A trama até nos agarra, mas para a meio do livro já se desconfia seriamente que a mãe é a assassina de uma outra filha, irmã da personagem que estamos a descrever, através de uma síndrome que parece crescer estatisticamente, em que as mães para provarem que são boas e sofredoras ativam doenças sistemáticas aos filhos para surgirem como extremosas. Até que os filhos morrem! Bonito. Não sabia desta síndrome dos tempos modernos, mas até já desconfio das gripes que tive quando era miúdo. Quando já estamos a prever a prisão da mãe eis que surge, rápido, a descoberta dos assassínios das duas miúdas na pequena cidade e que levou a jornalista que se corta amiúde à sua terrinha: era a irmã mais nova, a tal que lhe arranjava as drogas e festas secretas. Não há como realmente!

Bocejos - ** 

sábado, novembro 05, 2022

«A Princesa de Gelo», de Camilla Läckberg»

 

Problema: eu gostar de policiais sem ser um entendido na matéria. Poderia ter pesquisado um pouco mais em blogues específicos quem é quem neste particular, mas a mania de não confiar nas opiniões dos outros, ainda para mais sobre livros, levam-me a conhecer cada barrete, que mete impressão.
Mistério: como Camilla Läckberg vende milhões em todo o mundo. Apresentá-la na capa como «A nova Agatha Christie que vem do frio» não basta para desvanecer o quebra-cabeças de um best-seller. Até porque vem do frio. 
A trama: não tem nada que o frio nórdico não traga neste género. Famílias ricas com esqueletos no armário, crimes antigos que emergem para que se proceda a novos crimes. Algum sexo envergonhado entre polícias disponíveis e intelectuais e artistas como prova que a antítese é também capaz de amar e por aí fora. Não acho que seja uma boa escritora e, em alguns casos, até poderemos classificar de infantis algumas situações, já que de verosimilhança o tal frio da Escandinávia até nos tem dado alguns presentes. Mas não neste livro, seguramente. 
Continuarei à procura de policiais, como é evidente.


quinta-feira, outubro 27, 2022

«Origem», de Dan Brown

Daqueles livros de bolso que servem para passar um bom bocado. A trama é bem desenhada. Numa Espanha que ainda não se libertou dos seus fantasmas, isto é, da guerra civil e da ditadura franquista, a Igreja católica ultra-conservadora tenta por todos os meios impedir a divulgação de uma descoberta da origem de uma vida física que se libertava da criação teosófica das religiões. O impacto seria igual, se não maior do que as descobertas de Pitágoras, Galileu, Copérnico ou Darwin. A resposta à questão «De onde vimos? Para onde vamos?» é o mote que nos avassala o espírito há que séculos! O assassínio do cientista Edmond Kirsh, que se propôs desvendar este pequeno grande mistério, vai desenvolver uma catadupa de acontecimentos que já vimos reproduzida no cinema em Código Da Vinci e Anjos e Demónios. Algumas coisas serão inverosímeis, é certo, mas a lógica científica é bem elaborada e as teorias da conspiração são uma realidade a que não poderemos fugir conhecendo, como conhecemos bem, as redes sociais e a prática dos media. Lá vemos o Professor Langdon e uma bela directora do Museu Guggenheim de Bilbau em maus lençóis mas que saem não totalmente vencedores e com a certeza científica de estar vivos. Nascemos nós por geração espontânea da sopa primordial da Terra, há 4 mil milhões de anos, a partir de um corpo unicelular que, através da dispersão da energia do sol, foi formando uma espiral de moléculas que por sua vez levou ao aparecimento e desenvolvimento ADN dos seres vivos? Et pourquoi pas? O pior não é saber de onde vimos; o pior, mesmo, é saber para onde vamos e a perspectiva sombria de que o Homo Sapiens vai dar lugar ao Homo Technius em que a Inteligência Artificial absorverá toda a nossa vida. Nada que não nos admiremos muito, mas até um escritor tem a imaginação limitada o que não acontecerá certamente a robots especializados em gerar policiais inimagináveis a ganhar todos os prémios em festivais literários e a ganhar milhões que distribuirão, com fervor altruísta, para o incremento do capitalismo verde. 700 páginas prós amigos, mas não cabe num bolso, como é evidente.

segunda-feira, outubro 17, 2022

«O Pássaro de Peito Vermelho», de Jo Nesbo

 

Gosto de livros de bolso e creio que não é a primeira vez que o digo. São mais baratos, guardam-se mais facilmente e o facto de quase caberem na mão dá-lhes uma certa intimidade que um livro de formato normal, terá mais dificuldade em conseguir. Já se não gostarmos de um livro de bolso é-nos mais fácil atirá-lo janela fora que o prejuízo não será muito. Uso-o, na maioria das vezes, para ler policiais e ficção científica. Mas parece que, definitivamente, entrou nos hábitos dos portugueses que lêem. 

Por vezes, quando o autor é bom como é o caso de Jo Nesbo este, através de uma trama policial tão verosímil, como enredada em teias políticas e sociais que nos prendem à leitura, sabemos muito mais quando acabamos o livro, do que a descoberta de quem assassinou quem. Por exemplo, que a Noruega nunca foi o exemplo de paz e bonomia democrática com que a olhamos vulgarmente. Até foi o contrário, segundo o seu compatriota Jo Nesbo. Durante a II Guerra Mundial e a partir dela, a Noruega passou de um país relativamente pobre em recursos para um dos países mais prósperos do mundo. Isso não foi ao acaso. Nunca o é. Mas a fuga do seu monarca para Londres e depois América juntamente com as reservas de ouro, abandonando à sua sorte o povo da invasão nazi, levou a que a «protecção» de Roosevelt contra a URSS fosse traduzida num apoio monetário substancial à construção dos riquíssimos poços de petróleo com que as suas «elites» se deleitam. E por falar em «elites» devemos dizer que não foi por acaso que o rei fugiu. Essa fuga desprezível, para Nesbo também, aponta para uma clara capitulação sem guerra a Hitler, como o foi a «neutralidade» sueca ou a rendição em 3 dias da Dinamarca. Todos eles estiveram, de uma maneira ou de outra, ao lado de Hitler, sendo o caso da Finlândia uma outra conversa. Não se pense contudo que não houve resistência norueguesa. Haver houve, mas foi fraquíssima e com pouca organização. Remeteu-se aos bosques e a algumas cidades, mas aumentou exponencialmente em 1944, já os soviéticos avançavam sobre Berlim. Astutos, não puderam contudo esquecer-se dos números de antes da guerra: a fria estatística apontava para 3 ou 4 vezes mais mobilizações nas Waffen SS na frente oriental contra os russos do que na débil mas honrosa Resistência. Depois da derrota da Alemanha nazi os soldados vivos voltaram para a Noruega e logo nos dias seguintes da libertação o Forte Akershus abateu milhares de traidores como uma fúria, segundo Jo Nesbo, muito maior do que países cuja resistência foi bem maior. Conta perto de cem mil encostados à parede em todo o país. Cem mil num país com menos de 4 milhões em 1950! Percebemos agora a brandura dos tribunais para com os «traidores» que estiveram na frente oriental e que apodaram de «peixe-miúdo»! Era necessário parar com os fuzilamentos e deixar que a economia funcionasse já que as perspectivas americanas mais o Plano Marshall eram as melhores.

Só que, entretanto, e é disto que trata «O Pássaro de Peito Vermelho», passaram três gerações após a II Guerra Mundial e soldados da frente oriental não tinham motivos para pensar que eram traidores de coisa nenhuma e que lutarem ao lado dos alemães foi lutar ao lado do nacionalismo norueguês contra o inimigo russo! E vieram os filhos e depois os netos a ouvirem estas histórias. Não nos admiremos pois, e o autor não se admira nada, que a Noruega juntamente com outros países nórdicos, sejam onde mais cresceu a extrema-direita e está mais arreigado o clima anti-imigração. Já há governos nórdicos com fascistas declarados. Mesmo que angelicamente a Krippo, a polícia norueguesa, tenha contado somente 59 militantes de extrema-direita no país! 

Não se viu o «Ovo da Serpente» de Bergman, um sueco? Não lemos igualmente um outro sueco que já não está entre nós: Stieg Larsson? Jo Nesbo escreve tão bem como ele. Tem as mesmas preocupações que ele! Triste social-democracia que não tiveste engenho, arte ou energia para veres a incubação lenta de um ovo!

António Luís Catarino

quinta-feira, agosto 18, 2022

4 policiais 4. O mundo mudou e o policial também

 


Gosto de policiais e se forem de bolso melhor ainda. Não gasto muito dinheiro, podemos tratá-los mal e lê-los de uma assentada sem grandes preocupações que a escrita dita literária obriga. 

Neste Agosto, contudo, observei uma regra: em dez dias levei para férias dois autores considerados antigos e dois «novos»; destes últimos só conhecia toda a saga dos «Homens que odeiam as mulheres» de Stieg Larsson e um de Camilla Läckberg de que já não me lembra o nome.

Os da conhecidíssima coleção Vampiro, agora nas mãos da Porto Editora, temos boas traduções e são bem revistos, coisa que não acontecia no passado. Li E.C.Bentley com agrado. Claramente socialista, o livro escrito em 1913, logo antes da guerra retrata como ninguém a voragem que já se fazia sentir em Wall Street por «capitalistas sem escrúpulos» cujo assassinato de um deles terá sido obra de um sindicato vingativo e arquivado pela polícia. Com alguma simpatia, dá-nos a verdadeira razão desse crime, mesmo que o relatório do detective esteja completamente errado. Por isso, acaba com a sua profissão num belo jantar com o verdadeiro homicida. Lindo! Psicologicamente algo denso, a trama é extremamente bem feita e obriga-nos a pensar, mas isso são contas de outro rosário. O Último Caso de Trent foi adaptado ao cinema nos anos 30 o que o obrigou a ressuscitar a personagem. 

Dashiell Hammett é outro que tal: membro do Partido Comunista Americano, nem por isso se deixa acometer por algum racismo em relação aos negros e «mulatos» como lhes chama... mas a história deixa antever os ricos como os maus da fita, tipos vulgares, odiosos, que não se detêm perante nada, passando por cima de tudo e todos. Assassinos com fartura e sangue aos borbotões. Mas ainda assim é um gosto ler Hammett e vê-lo no cinema com um Bogart a fazer de Marlowe. A Maldição dos Dain foi igualmente levado ao cinema nos anos 30, claro.

Jeffrey Archer pia mais fininho com um livro de 2019, não fosse ele um ex-vice-presidente do grupo parlamentar torie, dos conservadores, para os mais desatentos. Atenção que isto não é uma história inventada. Faz parte da autobiografia do autor: apanhado nas teias da bolsa de Londres, o tipo fica a dever meio milhão de libras a uma data de gente e indo a tribunal cometeu perjúrio o que lhe valeu 4 anos de prisão onde escreveu, em 3 volumes, os Diários da Prisão, pois claro! Hoje voltou à política, pagou as suas dívidas e é um milionário por vende 250 milhões de livros em 37 países. Portanto, o livro que li titula-se Quem Não Arrisca... caso para dizer que sabe-la toda, o homem!

John Grisham, escreveu o manuscrito e é outro que tal: é lido aos milhões pelo universo conhecido, mas é honesto pelo que se sabe. Escreveu O Manuscrito e pode dizer-se que é um bom escritor. A história envolvem milhões de dólares e são fruto da especulação alfarrabista (!?) de 1ª edições assinadas. Sendo o livro um objeto mais apetecível que o ouro, acções da bolsa ou mesmo os dólares, dá que pensar ao amante de livros que se viu sempre rodeado deles, certamente. Que sejam objecto de especulação nos States é de abrir a boca de espanto. Mas estamos aqui para aprender sempre.

Qual a diferença entre os «novos» e os «velhos» policiais? É que, nestes, os criminosos geralmente pagam sempre os seus crimes hediondos ou talvez nem tanto, conforme a moral e a ética de quem os escreve. Quem com ferro mata, com ferro morre é o bíblico refrão que se aplica aqui. A trama policial é composta pelo desenrolar de mentes inteligentes o que obriga a equacionarmos possíveis soluções à medida que as páginas avançam. Há tiros a rodos e frieza dos detectives que prendem belas mulheres e homens de fora de qualquer suspeita social. A polícia científica é a de laboratório de vão de escada. Lá ajudar, ajuda, mas pouco. A mente é que descobre, desfaz a teia construída com denodo pelos criminosos e somos convidados a participar na descoberta da coisa.

Já com os «novos» não se vislumbra castigo nenhum para os criminosos. Antes pelo contrário. É tipo «Ocean's Eleven», topam? Os ambiciosos se forem espertos continuam as suas actividades com ambição e inteligência. A polícia científica toma o lugar da dedução ou indução do leitor. As câmaras de vigilância sabem tudo. A mínima lã deixada numa carpete é caso para levar um tipo 30 anos para a prisão. A marca de batom nos cigarros é mentira porque já ninguém fuma.  A observação mórbida dos cadáveres dizem mais do que os desgraçados que são abertos ao ritmo das anedotas dos médicos legais que é para descontrair! Os dólares já não são o objetivo, nem os milhões ou ouro, mas sim a arte e os manuscritos e 1ª edições valiosos que sempre valorizam a cada dia que passa. Livros e quadros? Museus a serem assaltados? É claro como água e todos os que se arrebanharam à grande contra os bens públicos têm a medalha dos bons e intocáveis. «Quem não arrisca...», não é? Mesmo assim, a polícia perde sempre. Sim, os policiais mudaram muito, mesmo com as câmaras de vigilância e a chafurdice nos cadáveres que nos permitem preguiçar na solução dos crimes. Querem alimentar a mente? Joguem xadrez!