terça-feira, junho 25, 2019

Livros usados: algumas inquietações


Gosto de comprar livros em 2ª mão. Agora começam a aparecer nos alfarrabistas os do meu tempo de juventude que, por uma razão ou outra, deixei de ter. Compro-os pouco a pouco. Algo estragados, com folhas dobradas, páginas já amarelecidas e sublinhadas. Não me importo. Quando aparece um sublinhado num verso, ou em dois, tento perceber a mensagem (se o era) que o antigo leitor ou leitora deixaram. Neste «Signe Ascendant» uma tal Isabel C. deixou-me que eu lesse o seu:

Qui n'a rien de plus pressé
Que de se lacérer lui-même

Mais inquietante que a poesia de Breton.

sábado, junho 22, 2019

Há as palavras cruzadas, o sudoku e o assassínio de Olof Palme

Organigrama dos nomes envolvidos no assassinato de Olof Palme segundo Jan Stocklassa
e baseado no arquivo de Stieg Larsson. Do livro «Stieg Larsson», saído há pouco.
Nestas ocasiões em que o trabalho aperta em burocracias dementes e sem sentido, deu-me para comprar o livro de Jan Stocklassa titulado de «Stieg Larsson», na esperança de me encontrar com alguma paz, sem que me desse ao trabalho de pensar muito. O policial não é bem o meu género, mas li toda a saga (3 volumes mais 2 que foram editados após a sua morte prematura) de «Milennium» deste jornalista sueco. Também vi o filme homónimo com Craig como ator. O que Jan Stocklassa, outro jornalista de investigação sueco, faz é em si muito simples. Conseguiu ter acesso aos arquivos de Larsson sobre o assassínio de Olof Palme nunca resolvido pela SAPO ou pela polícia sueca. Houve vários acusados, mas posteriormente libertados...alguns para morrerem em seguida, em acidentes de automóvel, com overdoses, etc. As testemunhas eram contraditórias, em particular a de Lisbeth Palme que se feriu levemente com um segundo tiro. A pista de Larsson apontava para a extrema-direita. A de Stocklassa, além de concordar com ele, acrescenta mais conexões. E que conexões! Tive o cuidado de dar a Vossas Excelências que me lêem (estou a atingir mínimos históricos no Facebook!) o organigrama que ele fez com alguns dos nomes que estão claramente ligados ao assassínio e nunca verdadeiramente interrogados por quem o deveria ter feito. Além disso, foram relativamente fáceis de encontrar pelo jornalista. A verdadeira teia vai desde a extrema-direita sueca (que fez o papel de autêntica papalva como de uma fantoche se tratasse, só se dando conta disso tarde demais), a CIA, O MI6 inglês, a Coordenação superior da SAPO, o almirantado, os ricos aristocratas industriais suecos que dão dinheiro a rodos para a extrema-direita, a Mafia italiana, a conexão internacional da venda de armas para a guerra entre o Iraque-Irão (lembram-se do papel de Portugal nisto?), a UNITA com um nome que não vem no organigrama mas que se chama Luís Albuquerque representante do movimento na Suécia, a Polícia Política sul-africana do apartheid com Pik Botha à cabeça e a DINA chilena. Ora, o meu cuidado foi pôr a vermelho os que sofreram «acidentes» fatais na Suécia ou os agentes que estavam para depor na Comissão Verdade e Reconciliação na África do Sul já então de Nelson Mandela, acidentes esses tão brutais como brutal era a polícia branca e fascista de Botha. Todos eles morreram e alguns com as suas famílias, como era comum no modus operandi desta polícia. Mas sul-africanos, suecos ou de outras nacionalidades nenhum morreu na cama! A amarelo coloquei os que sabiam com antecedência e que terão promovido e ajudado material e logisticamente ao assassínio de Palme. Hoje alguns estarão vivos.

Mas porquê a morte Palme? Ora, sabe-se que ele estava nas vésperas de denunciar a conexão da venda de armas sueca que passava pela África do Sul, Chile, Chipre, Seichelles, etc...Alguns empresários milionários chegaram a estar detidos pelo Departamento de Finanças e estavam prontos a falar. Por outro lado estaria em preparação uma limpeza da extrema-direita nos quadros superiores da SAPO e Marinha suecas. O apoio À SWAPO, ao ANC e igualmente à Frelimo e a Moçambique, tal como à Namíbia, também não passava despercebido pela polícia sul-africana que matou a mulher de Joe Slovo e o secretário-geral do PC, Kani, entre muitos outras vítimas, quer à metralhadora, quer com cartas-bomba. Os refugiados chilenos de Pinochet eram aos milhares na Suécia o que deveria irritar a DINA. Mas adiante que vão conhecer alguns nomes:

No centro de tudo, ou seja, o cérebro operacional da operação, está um indivíduo perigoso que se move particularmente bem nos movimentos mundiais da extrema-direita:

Bertil Wedin, que Stocklassa entrevistou em 2016 já velho e no Chipre turco, onde não há tratados de extradição para nenhum país. Viveu sempre lá e de lá vieram algumas das diretivas mais importantes deste caso. Simpático, não negou nenhum dos crimes de morte, que foram vários. Chegando ao caso Palme, foi propositadamente vago. Mas afirmou que sabia de antemão o que se preparava. Agora reparem nas linhas esquerda e direita ao lado deste nome:

Craig Williamson – MI6
Pik Botha – Ministro dos Negócios Estrangeiros do apartheid sul-africano.
Alf Enerstom – Perigoso e assassino operacional. Matou várias pessoas fora da Suécia, por encomenda. Liderou e uniu vários movimentos de extrema-direita. Tinha sempre muito dinheiro disponível. Entrevistado por Stocklassa disse conhecer antecipadamente o atentado. Esteve presente no local. Ainda vive, hoje está num hospício, mas mesmo assim acompanhado por um «secretário» que não o deixa falar demais.
Jacob Thedelin – Presente no local do assassinato. Judeu, foi dos poucos que teve, rapidamente e após o crime, direito ao difícil visto de residência permanente em Israel. Nunca mais saiu de lá o que poderá colocar a Mossad no terreno. Provavelmente foi o que carregou no gatilho, de um modo canhestro, de amador. Perfeito para ser um «bode expiatório». Ligado à extrema-direita dos Democratas Suecos, hoje representados no parlamento e no governo.
Eugene de Kock – Operacional da polícia sul-africana. Estava na Suécia na altura do atentado. Pensa-se que nas imediações do local. Acompanhado por mais quatro agentes, saem da Suécia no dia seguinte, sem quaisquer problemas.
William Casey – Não o  conhecem? Chefe da CIA na época Reagan. Provou-se contactos com Bertil Wedin e com ligações fortes à conexão da venda de armas americanas (ver em baixo Oliver North).
Mario Ricci – Ligações à Máfia italiana e vendedor internacional de armas. Joavan von Birchan era o seu contacto na Suécia. Vendiam principalmente para o Irão através de navios que faziam escala na África do Sul para outros barcos. Quando Olof Palme tentou barrar este negócio, os aviões da CIA fizeram o resto, com Oliver North à cabeça. Lembram-se do seu silêncio e do «julgamento» dele? Há muito que está em liberdade. Considerado um herói pelos republicanos e democratas americanos.

É preferível ficar por aqui. Ainda há quem queira ou quem possa falar, mas por que o haveria de fazer passados 30 anos do assassínio (foi em 1986) e correndo o risco de cair no ridículo ou, pior, um maluquinho que acredita em teorias da conspiração? Seria, quiçá, mais uma fake news?

Lindo, para quem quer um livro para não pensar muito, somente para apaziguar o trabalho.

António Luís Catarino
Coimbra, 22 de junho de 2019

quarta-feira, junho 19, 2019

«Quimeras», ou as crisálidas de Cristo de Sanmartino

Quimeras
«Quimeras». Foto: Teatro Nacional S. João
Entrar no claustro de S. Bento da Vitória no Porto e sair de lá sem poder expressar uma só palavra que destruiria toda a emoção criada com o espetáculo único do TNSJ e da Karnart. Recuperar mais tarde. Sentir mais tarde. Compreender a transformação dos corpos, mais tarde. Não há lugares sentados. Deambulamos pelo claustro agora fechado por entre corpos femininos fechados sobre si próprios e uma luz contrastante. No meio do claustro, uma cama funerária com um corpo masculino nu envolto num sudário transparente branco e uma rede negra. Luís Castro e Vel Z lembram, na apresentação escrita do projeto, que é uma reconstituição vívida do Cristo jacente de Giuseppe de Sanmartino, de Nápoles. À sua volta os corpos femininos envoltos igualmente num tecido branco transparente. Os seus olhos têm uma íris branca, num ricto imperscrutável. Ouve-se uma música longínqua. Num dos cantos do quadrado formado pelas mulheres, logo atrás do Cristo jacente, uma figura diferente, a rainha das crisálidas, vestida de negro e máscara de luz, aquela que ao som da música observa os corpos das servas a elevarem-se até estarem erectos. Leva uma hora os seus nascimentos. As crisálidas estão prontas e juntam-se, leves e ondulantes, à cama funerária de Cristo. A rainha negra gira o sudário negro no seu corpo, rodando em si própria até que o destapa totalmente. A música barroca e a luz atingem o seu auge. As crisálidas dão vida à vida numa ressurreição subentendida. Os autores chamam a este exercício de perfinst ou body art. Sim, mas eu chamei-lhe na ocasião, uma experiência plástica, musical e teatral entre o maravilhoso ou a pura e crua beleza.

António Luís Catarino
14 de junho de 2019

segunda-feira, junho 17, 2019

Tamila Kharambura e Pinho Vargas. Na Orquestra Sinfónica do Porto

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Tamila Kharambura
Foto: Casa da Música


Sempre me habituei a ouvir a Orquestra Sinfónica do Porto e digo-vos que vale a pena ir ouvi-la na Casa da Música sempre que puderem. Os músicos mudam, os maestros também, mas consolida-se uma opção clara pela qualidade e pela fuga ao facilitismo. Parece que cada maestro que vai, deixa um rasto inesquecível. Lembro-me de alguns.

A última vez que a vi (e ouvi) foi há pouco tempo. Dirigida pelo maestro Pedro Neves, ouvimos as composições de Pedro Amaral, de Clotilde Rosa e de António Pinho Vargas. Se o primeiro se ouviu com prazer, a segunda levanta-me já algumas questões que possivelmente, para um leigo como eu, nada tem a ver com a harpista/compositora tardia. Segundo o que se percebeu Clotilde Rosa, que nos deixou em 2017, pertenceu ao ensemble de Jorge Peixinho que nos anos 70 os provoca desta maneira: cada um dos músicos comporia uma peça que, no final, se uniam numa única composição. Desafio aceite e Clotilde Rosa não mais parou com o «bichinho » da composição. Atenção que não era qualquer músico que tocava com Peixinho, portanto a qualidade da música/compositora é inquestionável, lembrando igualmente que a sua formação foi construída no Grupo de Darmstadt, com Boulez, Stockhausen e Ligeti antes de Peixinho. Portanto, mal de mim vir para aqui analisar isto ou aquilo. Falo, por isso, de emoções que a música me cria e particularmente a música concreta e contemporânea que sigo com alguma regularidade. Ouvir Clotilde Rosa foi bom, mas custa-me enquadrá-la na música concreta. São demasiados bombos, metais e tímbales que exportam a euforia da autora. É possível que nos anos 70 a alegria fosse a regra (foi e eu vivia-a) e as composições de Rosa tenham essa impressão. Ou seja, a harmonia está muito presente o que me fez interrogar e achá-las deslocalizadas. Só ultrapassei esse desconforto com a última composição (foram apresentadas três sem título) quando entrou o piano de Jonathan Ayerst. Mas aparte disto há uma terrível injustiça para com Clotilde Rosa. A Secretaria de Estado da Cultura encomendou-lhe desde 2007 várias obras que ela transformou em longas composições e óperas...nunca ouvidas! Só a Orquestra Sinfónica do Porto pela mão de Pedro Neves inaugurou este trecho. Uma vergonha, portanto, não sabermos mais sobre ela e principalmente as últimas composições.

António Pinho Vargas estava presente na Casa da Música e teve uma enorme ovação merecida com o seu Concerto para violino in memoriam de Gareguin Aroutionian cuja estreia foi a 7 de fevereiro de 2016 com a Orquestra Metropolitana de Lisboa no CCB. Pinho Vargas foi, é, e será sempre um compositor extraordinário. Dos poucos que já nos restam dessa geração. A ovação foi também por isso e ele sentiu-o. A surpresa final foi a apresentação de uma violinista do outro mundo: a ucraniana Tamila Kharambura. Não esqueçam este nome. Extraordinária. Eleva-nos sei lá para onde. Se não a conseguirem vê-la e ouvi-la ao vivo (vive em Lisboa de tempos a tempos), há um CD da sua estreia editado pela mpmp em 2017.

António Luís Catarino
Coimbra, 14 de junho de 2019

terça-feira, junho 11, 2019

Sheila Fitzpatrick e «A Revolução Russa»

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Sheila Fitzpatrick, autora de «A Revolução Russa» (Tinta da China)

Dois anos após o centenário da Revolução Russa a literatura é vasta e ainda a procissão laica vai no adro. Sheila Fitzpatrick editou «A Revolução Russa» e, se esperavam algum tema novo, alguma nova tese, algum documento inédito, relatórios intermináveis das catacumbas da Tcheka, da GPU ou do KGB, ou do PCUS, desenganem-se. É cansativo ler mais um livro sem que haja uma simples mais-valia sob o tema. Se Lenine se apoiou em Estaline para afastar a Oposição Operária, ou não. Se o seu testamento ordenou o afastamento de secretário-geral do Partido Bolchevique por ter sido «rude» com Kupriskaya e não serviria para as pontes que teriam de ser (ou não) construídas entre as várias sensibilidades comunistas no partido, ou com os socialistas revolucionárias de esquerda e mesmo com mencheviques. Se Molotov afirmou que Lenine era mais inflexível que Estaline (sendo ele um homem de mão deste último). Se o «terror» foi engendrado já no tempo de Lenine e se o Exército Vermelho e os bolcheviques se basearam ou não na Guerra Civil, ou cimentaram as expropriações da terra e das indústrias. E Lenine estaria de acordo com as perspetivas da NEP, apoiando a sua continuidade e esclarecendo (coisa que nunca o fez) que o verdadeiro socialismo residiria nesta solução? E Bukarine, o tal da Oposição de direita reuniu-se ou não em segredo com a nova troika de Trotsky, Zinoviev e Kamenev, antes desavindos? Quereria o partido bolchevique imitar o Terror de 1793/94 francês? E o medo do Termidor levou-os às execuções em massa? E a relação muito discutível com os camponeses e com os Kulaks seria uma forma de criar uma proletarização rápida nas cidades? E a Grande Fome foi provocada deliberadamente, para que houvesse um êxodo rural igual ao movimento das enclosures britânicas? Teriam as massas não compreendido totalmente as reivindicações de Trotsky e da Oposição de esquerda, ostracizando-as não pelo medo, mas remetendo-as para o «caixote de lixo da história» termo paradoxalmente dito por este? Estaline defendeu com unhas e principalmente com os dentes o primeiro plano quinquenal que se baseava na industrialização forçada de ferro e aço, ideia original de Trotsky que o defendeu igualmente, sendo copiado pelo burocrata-mor. Talvez isso explique, segundo alguns historiadores e pela autora, que Trotsky, já depois da «Revolução Traída» e das tarefas de formação da IV Internacional, nunca tenha ousado criticar a dimensão económica da URSS, motivo de querelas dentro do movimento. Este ficou-se somente pela crítica da burocracia que, segundo a autora, seria incompreensível pelas massas revolucionárias russas que viam nesta burocracia a subida de escalão social do proletariado!! Santa ingenuidade.
Esta enorme quantidade de «ses» nunca afirmando ou esclarecendo factos históricos que poderia ter à mão é tão mais estranho porque Sheila Fitzpatrick, professora, teve acesso facilitado e privilegiado a documentos importantes da história soviética chegando mesmo a publicar um livro titulado de «A spy of soviet archives» não traduzido em Portugal. Pois o que encontramos em «A Revolução Russa» (Tinta da China) é mais do mesmo. Violência, a raíz do comportamento humano, as revoluções comem os seus melhores filhos...etc.etc.
O livro lê-se com agrado e com uma facilidade diretamente proporcional às dúvidas alimentadas.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de junho de 2019

sexta-feira, maio 31, 2019

A beleza de «Breviário Mediterrânico» de Predrag Matvejevitch

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Creio que foi em 1991 que a 1ª edição de «Breviário Mediterrânico» de Predrag Matvejevitch foi editada em Portugal. Nessa ocasião comprei este livro sem que a crítica lhe desse muita importância, mas eu também nunca dei muita importância à crítica. Estamos, pois, empatados. Li-o de um fôlego e maravilhei-me com ele. A editora foi a Quetzal, a tal da ave trepadora, uma metáfora, certamente. Comprei, agora, a 2ª edição que a Quetzal diz que é a primeira. Na ficha técnica nem sequer está essa 1ª edição registada. Mistérios. Acresce que esta edição está muito melhorada, com ilustrações de mapas e desenhos antigos que são uma mais-valia para o livro, não fosse o prefácio indigente de uma folha A4 de Francisco José Viegas e o posfácio de Robert Bréchon. Dispensamo-los de todo e empobrecem claramente a edição. Salva a apresentação da obra, Claudio Magris.
Penso que quando saiu a obra já estava em curso a guerra fratricida entre croatas, sérvios e bósnios que implodiu a Jugoslávia. Predrag Matvejevitch é croata e morreu em Zagreb em 2017. Como sinto a perda de bons escritores, os «meus» escritores, também eu senti a sua ausência. Nunca em lado nenhum do «Breviário» se sente ódio, rancor, exclusão. Pelo contrário: o seu discurso é de paz absoluta, de leitura lenta e atenta às margens do Mediterrâneo. Como ele soube descrevê-lo! As pedras, as areias, os seus faróis, as cidades e as populações que as habitam, as religiões, os seus mosteiros e conventos, as mesquitas, as ilhas e as lendas, os seus barcos altivos, os corais e as árvores que explodem de odores diversos e o modo como consegue conviver tudo isto ainda no Mediterrâneo circundam as expressões mais fortes do «Breviário». É um verdadeiro livro de História sem pretender qualquer pedagogia desnecessária ligada à disciplina. Leiam-no, simplesmente. É um prazer raro. E está lá João de Barros e Pedro Nunes, Gama, Fernão Mendes Pinto, Magalhães, Colombo e os cientistas catalães, árabes, cristãos e muçulmanos, judeus e gentios, comungando as cores, os ventos, as marés e as correntes mediterrânicas. Também Pessoa com a sua questão em «O Marinheiro»: «o mar de outras terras é belo?». Os marinheiros têm essa resposta secreta. Ou Borges: «o mar é uma antiga linguagem que já não consigo decifrar». 
E voltamos às ilhas mediterrânicas belas como só elas são, mas igualmente cruéis como também sabem ser quando os homens as transformam em prisões como aconteceu a Bonaparte, a Trotsky ou a prisão de Kotor que serviu para os opositores ao fascismo, ou a ilha de Rab, um campo de concentração italiano para judeus, ou ainda a ilha de Goli Otok onde estavam presos os jugoslavos que não tinham aceitado a rutura titista (talvez a única prisão para estalinistas em 1948?, digo eu...). E Durrell, sempre Durrell, na sua ilha de Corfu, que o levou a escrever o «Quarteto de Alexandria». E Camus, Aldous Huxley e tantos outros.
Ler o «Breviário Mediterrânico» limpa a alma e a vida. Da morte fica-nos, paradoxalmente, o teatro e a evocação de Leburna, ator de Sisak, dos fins do século III, cujo epitáfio é este: «Muitas vezes morri em cena, mas nunca desta morte». 
A representação de Predrag Matvejevitch do «teatro da vida» mediterrânico descreve assim as praças com uma beleza literária ímpar: «O cais, o porto, o molhe e a ponte do navio, a praça pública, o mercado e a venda de peixe, o estaleiro naval, os espaços que rodeiam fontes e faróis, que contornam igrejas ou mosteiros, os cemitérios e o próprio mar tornam-se assim, de tempos a tempos, palcos ou teatros ao ar livre. Lá se representam diversos papéis, insignificantes ou fatais, comédias e dramas, quotidianos e eternos. Os séculos estão cheios de espetáculos destes: passado e presente do Mediterrâneo, a sua história» (pág.88). A rigorossíssima tradução é de Pedro Támen.

Coimbra, 31 de maio de 2019
António Luís Catarino


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Predrag Matvejevitch
Foto: Getty Images

sábado, maio 18, 2019

Intervenção nas Conversas de «Cidade Exposta: Coimbra». 27 de abril de 2019

Intervenção nas conversas de «Cidade Exposta: Coimbra» de António Alves Martins. Sábado, 18:30, Liquidâmbar. 27 de abril de 2019

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Teddy Boys, Londres, anos 50

«A cidade existe e tem um simples segredo: só conhece partidas e nunca regressos»
Italo Calvino


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Revista Pravda, nº1
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Banalidades de Base
em Portugal. 1969

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CAP: celebração do 1.000.55º aniversário de Coimbra
Esta frase de Calvino foi o ponto de partida de uma conversa proposta por António Alves Martins enquadrada na sua exposição fotográfica «Cidade Exposta: Coimbra». Das conversas existentes no espaço do Liquidâmbar, calhou-me a mim tentar debater com as pessoas as possibilidades das partidas e regressos a uma cidade. Sobre o meu regresso definitivo a Coimbra passado quase 30 anos de ausência e que me deram a possibilidade de conhecer outras cidades, não tenho a certeza de concluir em absoluto com o desafio de Italo Calvino. Comigo, sim, tive muitas partidas que foram umas dolorosas, outras muito menos. Estas últimas, foi onde me senti, ou fizeram sentir-me, um estrangeiro. Como estrangeiro que fui, nem sequer uma despedida se deu. Vejo-a cartografada no mapa e eis tudo. Com outras foi mais complicado. Tenho o Porto comigo. Cidade estranha, que me era antipática pela suposta rudeza das gentes, recebeu-me com um abraço que ainda hoje sinto a falta. Acarinhou-me, estudou-me, fez-me sentir portuense, sem que, de tempos a tempos, me lembrassem a minha condição de «sulista». Parti do Porto com um aperto na alma. Foi lá, cidade litoral, que aprendi o mar. Velejando pelas suas águas pouco mansas vi o Porto de longe com o cheiro do mar, bem diferente do odor do rio Douro que lá desagua, apertado e altivo. Entrar no mar de Matosinhos, seguir pela Foz e atracar na Ribeira do Porto é um perigo real, mas uma necessidade imperiosa de me tornar um deles – um portuense.  Entrar, na Foz, significa estar ao dispor de três forças contrárias: as correntes de oeste-leste, os ventos do norte e as marés fortíssimas. Quando o fazemos com êxito, clamamos vitória.Quanto ao estranho regresso a Coimbra, vindo do Porto, os sentimentos são contraditórios. O facto de eu ter aí nascido e estudado uma parte do liceu, dos meus avós e pais terem morado na mesma rua e ainda sentir a excitação dos vários regressos a Coimbra em férias ou vindo do colégio para onde fui (ainda hoje evito entrar na cidade de Tomar por causa disso) descendo Santa Clara, faz-me recordar o início do meu tempo e do tempo dos meus pais, ou que eles contavam. Coimbra da II Guerra Mundial e a rivalidade entre o British Council e a Casa Alemã. A guerra de propaganda que ambos ativaram junto dos estudantes que se tornaram claramente anglófilos. As manifestações do fim da guerra e, muito depois mas já na memória dos meus pais e tios, a campanha de Humberto Delgado e a «modernidade» que aí despontou com os teddy boys, emanação da juventude londrina e das cidades operárias inglesas e que Coimbra aportuguesou para cowboys que se tornaram o nome da claque mais importante da Académica. Operários em Coimbra ainda os conheci, orgulhosos da sua condição e distribuídos pelos clubes populares e Ateneu onde desenvolviam a resistência ao salazarismo. Tal como os velhos intelectuais da Brasileira estavam enquadrados politicamente pelo Partido Comunista, muitos sem o saberem. Daí a força da Presença e do neo-realismo conimbricense que até ao final dos anos 70 ainda perduraram, não sem que a crise estudantil de 1969 fizesse abanar essa realidade. Em 69 a Internacional Situacionista tinha a sua influência no Conselho das Repúblicas, sendo denominadas CR’s, os mais radicais do movimento e que se opunham já aos delegados das faculdades organizados pelo PCP. Quando fui para o liceu, no meu 6º ano, as coisas em Coimbra tinham-se modificado muito. Campeavam os grupos maoístas, alguns trotskistas e a UEC, organismo autónomo da juventude estudantil do PC. Todos tinham organizações semiclandestinas para combater o marcelismo e com elas a guerra colonial. Paralelamente a estes começaram a aparecer pela Praça da República os hippies, com os quais nunca me identifiquei. Irritava-me, neles, a promoção do peace and love quando sentia que estavamos verdadeiramente em guerra. Ora, quando se deu o 25 de abril, toda as liberdades foram possíveis e os contactos com o ocidente, mais profícuo. Se o neo-realismo era uma realidade em Coimbra até ali, e talvez nos dois ou três anos que se lhe seguiram, as coisas começaram a mudar. Os situacionistas que sempre tiveram uma presença importante nos círculos intelectuais da cidade e que foram referidos por Vaneigem no seu livro «Arte de Viver da Geração Nova» começaram a ter as suas publicações divulgadas nos cafés. Não nos podemos esquecer que do mesmo autor foi publicado em 1969, com tradução de Manuel Reis e pela Almedina, as «Banalidades de Base» sem referência ao autor, logo depois do maio de 68. Assim, nos anos 70 iniciou-se a publicação da Subversão Internacional, com coordenação de Júlio Henriques, a Toupeira Vermelha da LCI, o Esquerda Socialista do MES, o UEC, o Luta Popular, o Combate, a Batalha e a Voz do Povo, todos enquadrados entre as diversas sensibilidades políticas. Nos anos 80 desponta uma das revistas mais importantes de Coimbra: a Fenda e a Pravda, coordenadas por Vasco Santos. Também a Via Latina da AAC teve um papel importante nas alternativas que, entretanto, se desenhavam enquanto permitiram já que os dinheiros vinham da direção da própria associação que rapidamente lhes fechou a torneira. O Grupo Ecológico da AAC tinha igualmente o seu papel de luta e por um ambiente sustentável, verdades que ninguém quis ouvir em 80 (muito pela divulgação de Francisco Pedroso Lima que sairia igualmente de Coimbra), com os resultados que hoje todos sabemos. Lembro-me da publicação «A Urtiga». No final do ano de 1986 eu e o Tó Martins entrámos na Centelha, uma cooperativa editorial nascida nos idos de 69 e que Soveral Martins coordenava. O nosso objetivo era a renovação da editora já um pouco esclerosada e cuja dinâmica tinha conhecido melhores dias. Editou-se então a poesia de Kavafy, de Sena, António Ramos Rosa, Jorge Sousa Braga, Gil de Carvalho e Phillip Larkin, tudo pela mão do Tó. Da minha parte, mais de intervenção política, editou-se Félix Guattari e Toni Negri, de Anabela Carvalho, «O Serviço Social no Estado Novo» e uma publicação em rede internacional com um boletim «Ekomedia Portugal» que deu origem ao movimento Indymedia.  Desde os anos 70 que o movimento punk existia, juntando-se mais tarde a cena New Wave  principalmente em Londres.  Nessa ocasião, tentámos percebê-los e rapidamente demos conta que as letras dos temas dos Clash, Joy Division, Sex Pistols, Stranglers e tantos outros vinham da continuidade dos Velvet Underground de Lou Reed, de Horses de Patti Smith, ou dos Doors de Jim Morrison. Foi uma festa. Também o Jazz na sua forma de Beebop e Free conseguiu conquistar-nos. Não os largámos mais até hoje.


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Punks, Londres 1977
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Coimbra 2019. Representação/Diversão do Holocausto por estudantes
do Curso de História da FLUC
A questão que se colocou era até onde o provincianismo de Coimbra, cidade que amava, iria. Se se podia derrotar ou não. Apercebi-me então de quanto o difícil era. Tarefa impossível. As coisas estavam a tornarem-se feias. O Círculo de Artes Plásticas da Túlia, desde os anos 70 estava a ser objeto de verdadeiro ódio por parte dos comunistas, boicotando e pretendendo até censurá-lo como aconteceu logo a 27 de abril de 74 com uma instalação de uma simples cadeira vazia com a bandeira de Portugal no Parque da Sereia. Estiveram lá o Alberto Carneiro e o Dixo, para além de António Barros da Po.Ex e da Fluxus. Sempre foram olvidados em Coimbra. A Fenda foi para Lisboa. O projeto da Centelha acabou. Os cinemas fecharam e o independente era uma miragem. O teatro estudantil uma repetição pueril de temas já estafados. Coimbra voltou nos anos 90 a fechar-se sobre si mesma e sob a sua Universidade, já que as indústrias tinham sido expulsas e com elas a classe operária. Afinal Coimbra não tinha mudado, estava precisamente igual à que existia umas décadas antes. Nunca esqueci o que a minha mãe disse sobre a cidade e a sua relação com a cultura. Durante anos, demasiados anos, a modernidade cultural nunca veio a cá pôr os pés. Tudo o que soava a inovação e modernidade era boicotada pelos cowboys e pela turba da Queima praxista, atualmente um evento a todos os títulos ignóbil e indigente, relançada pela astúcia parola de comerciantes, entretanto ultrapassados por centros comerciais dentro da urbe. Saímos, claro. Voltámos 30 anos depois. Talvez nunca cá tivéssemos estado. Agora, que a conhecemos, damo-nos bem, apesar de tudo, afastados dos seus centros.

Votemos a Italo Calvino e à exposição fotográfica de António Alves Martins. Dou-lhe um excerto do autor que penso caber-lhe totalmente:

„-... Porque, uma vez que começou - perorava -, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita quando foi fotografada, é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está a fazer um castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto chora porque o castelo se desmoronou e depois enquanto a ama o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de uma concha. É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: "Ah, que bonito, que tinha era que tirar uma foto!", e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido e que para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida.“ —  Italo Calvino

António Luís Catarino
Coimbra, abril de 2019



sábado, abril 27, 2019

Conversas da «Cidade Exposta: Coimbra», exposição fotográfica de António Alves Martins

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António Barros - O poema acompanha a deriva


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António Barros – O poema acompanha a deriva

«Se não morrermos aqui, seremos capazes de ir mais longe?»
Internacional Letrista, nº23 de Potlatch

Quando, pelos anos 60, começa a despontar a poesia experimental provocando a náusea aristocrática de muitos iluminados já então escurecidos pela falência filosófica, na decadência da palavra escrita e sentida como mercadoria, não se pensou que aquele tipo de expressão comum e vendável, bem suportado pelo «romance/poesia/imagem», teria muito tempo de vida, tal a vitalidade das novas formas poéticas. A poesia das «emoções», balofas, da virtualidade do pastel de nata e do café pessoano, do enaltecimento do quotidiano como possibilidade de uma falsa poesia da alegria alarve, mesmo que esse quotidiano fosse o da miséria repetitiva no gesto, os poetas experimentais e António Barros em particular, talvez dos poetas mais novos dessa onda purificadora, denunciaram isso mesmo: o objeto como fétiche acumulativo de capital. Nasce então o poema-objeto tão caro a Barros, ironizando toda uma sociedade de produção nas suas peças, mostrando o inconcebível que os arautos da arte sofrível nunca entenderam. O objeto contemporâneo, esse, é todo o fruto de um processo de produção, cujo valor se divide na troca e no uso. Ora, a tese de Marx é recuperada por Debord, chamando-lhe a esta diferença, o espetáculo. Barros e a Po.Ex e provavelmente a Fluxus, perceberam o que outros, excecionalmente dotados para o processo especulativo, nunca perceberam. A experiência, em Barros, toma o objeto em forma de valor de uso, através da apresentação metafórica deste e recusando o seu valor de troca. Essa produção poética verdadeiramente provocante, que nos incomoda e que nos obriga à reflexão, não é benquisto pelas hordas político-parlamentares que continuam a derramar aos borbotões a sua ideia de vidinha. A deriva é exatamente o corolário artístico de António Barros e explicado pelos situacionistas. É uma política notívaga que reage em círculos concêntricos atravessando uma quadrícula urbana repressiva e que se encontra no local onde nos sentimos identificados, livres, usando os objetos certeiros que apontam aos estômagos. Portanto, objeto-poema e deriva contra o quotidiano do tédio é o que se adquire observando e absorvendo cada poema-objeto. Como afirma Asger Jorn «A arte compõe-se, toda ela, de signos que, ao caracterizarem certas qualidades de um objeto, evocam a imagem deste». Justamente. António Barros transforma o valor de uso de um objeto na poética possível: retirando-o da cadeia de produção e propondo-lhe o signo.
António Luís Catarino
Coimbra 21 de abril de 2019
Texto que integra o livro de António Barros «Uma Luva na Língua»

terça-feira, abril 23, 2019

Balthus

Balthus

Por que razão esta instalação de Balthus me provoca e incomoda? Talvez porque observando esta foto me lembre que, na aparência, há uma beleza inquestionável da natureza ao mesmo tempo que estamos todos a fazer de mortos.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Run, run, Roy Batty


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Todos os teus companheiros foram abatidos
Roy Batty
e as tuas lágrimas fundiram-se com a chuva que então caía
copiosamente, na cidade elétrica de néon sujo.
O teu ricto era cínico, mesmo que uma pomba
(mau presságio)
te viesse afagar os cabelos platinados
de um Replicant binário, que era o que tu
verdadeiramente eras.
Na tentativa vã de trespassar crivos
e sentires vida na tua mão,
donde só brotava um gel escurecido
procuravas matar o teu código final.
A ti a quem chamaram robô de combate
e tal como o Homem matou o seu Deus
foste engolido pela rede de falsos neurónios
substituindo os deuses por chips que
nos ligam ao panóptico que tudo vigia
menos a ti Roy Batty
assassino a quem uma pomba afagou o cabelo.
Na hora do fim, entregaste a tua virtual plenitude
e ainda amaste uma mulher, comandada à distância
mortalmente útil, baleada pelas costas numa chuva 
de vidros reluzentes.
Foste tu Roy Batty que mataste o teu criador cibernético
não sem antes
o cegares como a Édipo Rei, com os teus próprios
dedos ainda não quebrados.
A eletrónica erradicou qualquer replicante
e já não há espaço para a revolta, como tu sabes, aliás.
Só para sentires a dor que tentaste cravar, sem
dares por isso, na tua própria mão
imitando a mesma mão de Cristo
cuja dor tentou cimentar o mundo.
A tua analgesia libertou-te do assassínio
que cometias regularmente com justiça e prazer
e querias tu, encontrar o doce regular
do tempo, quando já só havia vazio,
sexo e dinheiro extraordinário.
Sentiste então que os homens mataram-No
que o substituíram pela usura e pelo humanismo
de uma enxurrada de mortos, estropiados e loucos.
Na deriva da tua demanda
provavelmente viste o nome de um amor
descer irremediavelmente na lista de contactos
de uma comunicação de bolso de dois chips
que tento envolver na minha mão
para sentir a réplica de ainda estar vivo.

António Luís Catarino
Porto, Café Célia, 8 de abril de 2015

terça-feira, janeiro 22, 2019

O Museu dos «Descobrimentos» / 29


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Portugal foi um país esclavagista? Responder a isto nunca foi tão fácil para qualquer jovem que esteja a frequentar o ensino secundário e, creio mesmo, em patamares inferiores. Claro que Portugal foi esclavagista. Avancemos mais um degrau nesta confirmação: foi o primeiro país esclavagista, como gostam de lembrar os holandeses. Bom, este debate na sociedade lusa nunca foi tão ríspido como hoje. Como começou não sei bem, mas, há uns meses, o SOS Racismo quis levantar a questão da escravatura negra e mostrar-se contrário à abertura do uma pretensa construção de um «Museu dos Descobrimentos» exatamente onde se encontra uma estátua do nosso literato, filósofo e missionário jesuíta Padre António Vieira. Porquê fazer-se um protesto a um padre que morreu no século XVII, nascido a 1608 e levando com a vossa ocupação castelhana uns anos até ir para o Brasil, onde morreu na cidade de S. Salvador da Baía? A polémica é esta: sendo António Vieira contra a escravatura e escrevendo-a em cartas para vários reis, polemiza-se que este só era contra a opressão contra os ameríndios, ignorando e até favorecendo a escravatura dos negros que vinham de África no comércio triangular onde assentou o capitalismo nascente. Sabemos que foram milhões de negros que foram empregues em sanzalas na extração de cana de açúcar e nas minas e que tiveram como destino o Brasil. Ora, sendo esta uma verdade, o dito protesto chamou a atenção oportunista e simplória de nacionalistas de cariz salazarista que rodearam a estátua do pobre Vieira com as suas saudações de braço estendido. A extrema-direita a ler um filósofo que não o do pobre intelecto do Gobbels? Não acredito sequer que algum tenha lido qualquer letra escrita por Vieira, mas enfim, a polémica arrastou-se até hoje e ainda perdura agora com o nome a dar ao tal «Museu dos Descobrimentos». Deverá ser o museu da «expansão», das «viagens» ou mesmo da «escravatura». Fala-se mesmo da possibilidade de simultaneamente ao eventual museu encarar-se a hipótese de uma estátua a lembrar este passado obscuro da nossa história pátria. Não ironizo. Concordo com esta última proposta e aceito a ideia que nos «esquecemos», há demasiado tempo, do que fizemos em África até ao século XX. No meio desta polémica houve quem lembrasse que a escravatura até ao século XIII/XIV era essencialmente branca. Daí o nome de escravatura ter como raiz a palavra «eslavo». Os árabes sempre praticaram a escravatura eslava, branca, até à escravatura negra ser muito mais rentável; é um facto e desde o Império Romano. O reverso da medalha é que os que defendem que «não temos de nos envergonhar do passado» (que fiz eu de mal?) afirmarem que os negros faziam já escravos entre as diversas tribos. Ora, é só uma questão de escala? Fazer 40 prisioneiros de guerra e vendê-los como escravos é o mesmo do que se escravizar 9 milhões? Antes o suicídio, como Vieira afirma nas suas cartas, aquele em que tribos inteiras de ameríndios tupis ritualizavam a morte em recusa ao «tripalium» raiz da palavra «trabalho». Pior que tudo, na minha modesta opinião, não é a existência desta polémica que até tem razão de ser. O problema é que a maioria da opinião pública e publicada prefere ainda seguir a filosofia de Gilberto Freire, brasileiro e fervoroso apoiante do Estado Novo brasileiro e português nos anos 40, que dizia que os portugueses «ao contrário de outros povos» (seria uma referência a Espanha? À Bélgica? À Grã-Bretanha?) eram naturalmente propícios à miscigenação e ao contacto amigável entre os povos! Ora, acreditem, que isto não é verdade e, se o foi nalgum lado do Império, aconteceu por falta de mulheres europeias numa população pequena como a nossa; se aconteceu miscigenação foi à força da lei, ou pelos direitos próprios, não escritos, de se ser branco. Bem vistas as coisas, não nos livramos tão depressa da banalização da escravatura; nos manuais escolares ao responder-se à questão «Quais os produtos que vinham de África?» os nossos jovens aprendem a dizer «malagueta, marfim, ouro e escravos»! Como se fosse tudo igual, não é?


António Luís Catarino, 24/07/2018

Violência e Literatura: um mal nunca vem só / 28


Na capa da inominável revista: «O romance que derrotou a ETA»

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Algo na capa da última LER (nº149) chamou-me a atenção. Um exclusivo de Eduardo Mendoza, editado pela Seix Barral em forma de livro em Espanha, foi aqui publicado nesta revista com o seguinte título: «O que é que se está a passar na Catalunha?». A outra chamada de capa tinha um título mais bombástico. Literalmente. «País Basco. O romance que derrotou a ETA». Ora, depois de desembolsar a quantia nada meiga da revista em causa, pus-me a ler de imediato o segundo artigo sobre o País Basco e tratava-se de uma crítica do livro «Pátria» de Fernando Aramburu, editado aqui em Portugal há pouco tempo. Mas um livro que derrota uma organização paramilitar como a ETA? Afinal, quando abro na página do artigo em causa, o título era outro: «Pátria, a derrota LITERÁRIA da ETA». Ah, literária! Depois de lido o artigo na íntegra onde Aramburu nada tem de sua responsabilidade, chega-se à conclusão que «Depois da derrota nos planos operacional e legal, Pátria deixa a derrota literária da ETA a um passo», Afinal em que ficamos? Derrota final, derrota assim-assim ou vitória nem que seja de Pirro? É minha convicção que não se vence nenhuma luta desta natureza com qualquer livro por muito bem escrito que esteja. E está. Se fosse assim Savater tê-la-ia derrotado antes. A literatura não salva ninguém. Não é redentora. Não de desculpa nem se exorciza. Não derrota ninguém. Talvez nos dê a vaga sensação de catarse, e aí talvez tenha alguma utilidade. O campo da derrota ou da vitória prende-se somente com a política e com a vontade dos homens e mulheres que a fazem.
Já Eduardo Mendoza começa por dizer que não vive na Catalunha (tal como Aramburu não vive no País Basco) mas dá-nos uma visão nítida do que se passa nas terras de Barcelona. É uma perspetiva que é apresentada aos «estrangeiros» como nós, certo. Mas incomoda a não identificação do fascismo com o franquismo e por assim dizer ao salazarismo visto ambos serem de matriz católica. Ora, a estrutura do estado estava assente no fascismo corporativista italiano e segundo Michael Mann o que diferencia estes dois regimes é a não existência de grupos paramilitares promotores de terror sobre as massas. Não o seu catolicismo. Sabemos como foram tratados os radicais de direita nestes regimes. Perseguição em Espanha aos falangistas e as JONS e em Portugal aos «Camisas Azuis» de Rolão Preto, que criticavam ambos os regimes. Quer Franco, quer Salazar odiavam a desordem. Mas isso não quer dizer, segundo a minha opinião, que no caso da Catalunha, não sofresse a repressão do franquismo (que Mendoza e Aramburu aliviam cada um à sua maneira e na sua região de origem), proibindo a fala do catalão (tal como o galego e o basco) e cujo desenvolvimento económico levou Espartero a pronunciar a frase «Há que bombardear Barcelona a cada 50 anos». Isto é fascismo. Os dois regimes, espanhol e português, souberam como ninguém criar uma sólida cultura de propaganda e de falso folclore, criando uma espécie de espectáculo popularucho, inventando trajes, músicas e falsos costumes, estereótipos franquistas que Mendoza nos apresenta nesta frase: «o catalão é trabalhador, um pouco lerdo de expressão, bastante tacanho. O seu modo de se comportar é tosco. A sua imagem é a de um homem barrigudo, de meia-idade, careca, risonho, devoto de Moreneta, sócio do Barça desde o berço. Comparado com o andaluz gracioso e preguiçoso, o madrileno jeitoso, o basco algo nobre e duro de moleirinha, o aragonês teimoso ou o galego astuto, mas impreciso, a caricatura poderia ser pior». Por isso, não admira que Mendonza nos atire à cara que a burguesia catalã também não tem literatura e daí a sua derrota frente à intelectualidade espanhola. A existir, o que é pouco provável, salvai-nos da literatura que derrota povos inteiros. E de literatos ou poetas em governos!

António Luís Catarino, 13/07/2018

De como recuperar livros que, entretanto, desapareceram /27


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Devo dizer-vos que se trata de uma história verdadeira que aconteceu comigo e se terá passado certamente convosco. As pessoas que hoje vão nos cinquenta anos, sessenta e outros «enta» sabem que perderam livros que ao longo do tempo constituíram a sua biblioteca quando tinham quinze, dezasseis anos e mais uns dos que vieram logo a seguir. Penso que a década em que tivemos vinte anos talvez seja mesmo a que desenha a nossa personalidade estampada nos livros e que se reflete até hoje, com algumas variantes, bem-entendido. Entretanto, as bibliotecas pessoais foram alargando-se, engordando, vítimas do sabor do tempo e da moda. E os poetas que nos abandonaram vendendo-se ao status quo? E os nossos autores preferidos que, entretanto, se renderam aos prémios literários? Quantos destes livros foram deitados ao lixo e substituídos por outros mais «modernos». Agora vejam: para além da contínua substituição dos livros, dos empréstimos a alguns a quem perdemos o rasto, houve também mudanças de casas e livros perdidos, inundações, divórcios, separações litigiosas ou compreensivas, embora não tanto que impedisse o ex-cônjuge de dizer «estes são meus!»  e as bibliotecas continuaram a transformarem-se. Ora, um bom amante de livros não os esquece tão facilmente. Aqueles que perdi, pensava eu definitivamente, aparecem gloriosos, agora, nos alfarrabistas. Já passaram 40 e muitos anos e torna-se lógico que numa visita a um alfarrabista se encontram os livros da nossa juventude. Agora vem a história: há uns anos vendi parte da minha biblioteca para conseguir dinheiro para uma viagem a grande parte da Europa numa autocaravana. Devo dizer que escondi do comerciante alguns de que não podia sequer pensar em separar-me. Mas a grande parte da poesia, do romance, dos livros de História, de Filosofia, Sociologia, Antropologia, de catálogos de arte, foram-se. O arrependimento veio logo a seguir, de alguns livros que deixei ir: alguns do editor Vítor Silva Tavares, um de António Maria Lisboa, de Cesariny, de Nuno Júdice, de Mircea Eliade ou de Edgar Morin. Muitos. O que me acontece agora é reencontrar-me com eles nas lojas de livros antigos. Tenho recuperado muitos a preços proibitivos. Do que mais senti a falta, aquele que me fez chorar copiosamente a alma foi a minha venda criminosa de um livro do poeta surrealista Cesariny. Eram os Textos de afirmação e combate do Movimento Surrealista Mundial, uma resenha luminosa da poesia surrealista que se fez pelo mundo todo. Mas há uma semana, readquiri-o numa Feira do Livro. O preço era exorbitante: 175 euros, quando, com 22 anos, me custou uns 200 escudos que correspondem hoje a 1 euro. E assim tenho-me afastado paulatinamente das livrarias dos grandes espaços e enfio-me em alfarrabistas procurando o meu passado nos livros que possuí. Cada vez que reponho um livro na minha estante, sinto-me mais velho, mas incomparavelmente mais feliz. E mais falido, também. Mereço-o.

António Luís Catarino, 13/06/2018

Álvaro Lapa. No Tempo Todo /26

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«O Homem que sabia demais», Álvaro Lapa

Uma das maiores retrospetivas de pintura está a decorrer no Porto, numa exposição fantástica em Serralves com 300 das suas obras, cuja curadoria pertence a Miguel von Hafe Pérez. Álvaro Lapa, pintor e escritor, nascido em Évora em 1939 e falecido no Porto em 2006, foi um dos pintores de arte contemporânea que possivelmente influenciou mais a nova geração. As presentes obras entre pinturas, desenhos, objetos e livros expostos compreendem os anos de 1963 a 2005. Não são despiciendas estas datas. Álvaro Lapa, numa retrospetiva sua de 1994 a 2006, rejeita toda a sua obra antes de 1968 argumentando que só tinha encontrado o seu «traço» a partir deste ano. Concordo absolutamente com a opção tomada de algum risco curatorial sempre exposto à crítica miudinha. Daí, o nome da exposição No tempo todo. Conhecêmo-lo assim melhor. Autodidata enquanto pintor, escolhe primeiro Direito e opta em definitivo pela Filosofia tornando-se professor de Estética na Faculdade de Belas-Artes do Porto. Vale a pena observar-lhe o percurso: liceu de Évora onde é aluno de Vergílio Ferreira, mas mais importante que isso, denuncia o ambiente de «padre-pide» da terra latifundiária antes de 1974 e contacta António Charrua, António Palolo, António Areal e Joaquim Bravo (que foi meu colega em Lagos e por quem conheci Lapa). Forma-se um trio sólido de provocação imediata nas artes: Lapa-Bravo-Palolo. Defendem, com palavras do primeiro a condição do artista: 1) uma arte não portuguesa; 2) uma solidão não dividida; 3) um único limite ao acto, o do originário. Estuda Milarepa, um sábio tibetano do século XI e é ligeiramente influenciado pela filosofia zen, tão cara aos beatnicks americanos. As figuras negras que verão em alguns quadros constituem o que ele chama de «Homem sem esforço, sem propósito, sem utilidade».Recusa violentamente, já a viver em Lagos, o conceito de indústria cultural e aqui vemos Bravo com ele, sustentados pelas filosofias de Adorno e Benjamim. Recusa igualmente os perigos da dita cultura e principalmente o conceito de «vanguarda que define como um termo gasto como uma rameira velha que se vende a pataco».Assume o ventriloquismo, espécie de alter ego (segundo Estrella de Diego), de Abdul Varetti, escritor falhado, siciliano do século XIII. João Ribas, contudo, assume estas pinturas como heterónimo que proclama «Isto, isto não é pintura!». A pintura de Lapa é pictográfica. Lê-se, transforma-se em cores e proclamações ou profecias. Pessoalmente, o que me fascina mais em Lapa é o conceito de colagem numa união entre partes aparentemente díspares, dar coesão aos opostos, integrar signos e significados diferentes. Creio que a liberdade em Lapa encontra-se aí. No conceito de colagem, esta torna-se vácuo.

Sorte. Tive a sorte de, ao ver No tempo todo, assistir a leituras das leituras de Álvaro Lapa, organizadas pela inexcedível Regina Guimarães e Amarante Abramovici. Não podendo, por falta de espaço, apontar todos os nomes que influenciaram o artista, entrego-vos as mais significativas: Luiz Pacheco (Ana Deus), Cervantes (Isaque Ferreira),Ferlinghetti (Pedro Eiras), Joyce (Rui Spranger), Tristan Tzara (Rui Reininho), Louis Aragon (Bernardo Sarmento) e outros, muito outros. Lapa, em 1971, dizia-nos sabiamente: «Ocioso, pois? Sim, o meu progresso tem-se gerado para o ócio, e nisso me vejo cada vez só e livre, A arte é a degradação do silêncio».

António Luís Catarino, 18/04/2018

De como Almeida Faria decompõe Portugal, o seu passado e destino / 25


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Almeida Faria nasceu em 1943 na alentejana vila de Montemor-o-Novo. Aos 19 anos publica Rumor branco com que ganha o Prémio Revelação da então Sociedade Portuguesa de Escritores. Outros se seguirão. Aluno de Vergílio Ferreira no liceu de Évora é com entusiasmo que este o vê como jovem prometedor, faltando-lhe a continuidade desse apoio aquando da saída de Paixão, em 1965, não vá o diabo tecê-las e de jovem prometedor não fosse tornar-se escritor concorrente. Segundo Almeida Faria, a relação esfriou-se e entende que estas invejas e maledicências são próprias de um país pequeno. Geografias, portanto. Não me escuso de afirmar a excelência de Almeida Faria e a sua enorme coerência. Uma vida, uma obra. Percorre a escrita poética em forma de prosa que se transforma em romance que se lê com avidez. Óscar Lopes, esse professor ímpar, diz que o uso recorrente de aliterações, anáforas, hipérbatos e principalmente a metáfora viva nos seus romances-poemas em «ritmo livre» é que liberta a leitura ritmada por pontuações abertas. Mas é Manuel Gusmão que nos dá a dimensão exata da coerência literária de A.F. projetada no tempo e que o leitor deduzirá se a leitura for rigorosamente cronológica da Trilogia Lusitana com Paixão (1965), Cortes (1978) e Lusitânia (1981) a que se veio juntar Cavaleiro andante (1983) transformando-se em Tetralogia Lusitana. Traduzido para várias línguas, em Espanha só se conhece Lusitânia, editado pela Alfaguara em 1985 e O conquistador, já fora da tetralogia, pela Tusquets, em 1997. A singularidade deste escritor prende-se com a forma de apresentar o romance destes quatro livros: Paixão, passa-se a uma sexta feira santa, Cortes a um sábado e Lusitânia no domingo de Páscoa. As personagens, do sul latidundiário português, sendo as mesmas, são submersas pelos acontecimentos e absorvidos pela História, espaçados pelo tempo de quase trinta anos. Houvesse uma teoria da relatividade literária e Almeida Faria seria o seu inventor, retirando essa condição a Joyce, obviamente. A técnica literária do escritor varia entre a epistolografia até à descrição das personagens e dos anos de brasa do pós-25 de abril e da descolonização. Em 2012, publica O Murmúrio do mundo de uma viagem a Goa, talvez à Índia camoniana, onde perfila citações várias e as cruza com a História. Apresento-vos o final de Cortes que, infelizmente, não o viram traduzido em espanhol: «João Carlos não acha graça, diz: merda de pátria, azar ter caído aqui, ninguém nem nada me consola, desastre ter tomado o comboio errado, em descensão há séculos, apodrecido por dentro, por fora velho cagado, arrumado em ramal fechado, atacado de demência do passado, mantido em vida por extremo artifício, tresanda a bafio, a morte, a melancolia inglória.(...)» Onírico, clássico, romance-ensaio como afirma Óscar lopes, poema-prosa, psicanalista rigoroso de um povo, como diz dele Eduardo Lourenço, que sabe, como ninguém, quais os nossos labirintos feitos da saudade. Volto a Almeida Faria, em Lusitânia: «Sair desta terra não seria novidade. Gerações de gente sobrevivente, não raro subserviente, não são um caso à parte. Os mais valentes sempre emigraram.»

António Luís Catarino, 20/05/2018

terça-feira, janeiro 08, 2019

Xabier López López considerado um dos melhores contistas europeus

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Não deixa de ser muito reconfortante dar de caras com uma revista literária bastante influente realçar o nome de um autor que a Deriva Editores descobriu na Galiza e de quem publicámos «A Estranha Estrela». Isto por 2004. Sempre o achámos um autor acima da média. A crítica até foi simpática, mas os leitores não. Provavelmente levados pelo tédio de alguma literatura anglo-saxónica, desconfiavam dos nossos «irmãos» galegos. E assim foi. Hoje, se o quiserem ler peçam à Amazon...o texto aí está:

Now in its tenth year, Best European Fiction continues to be an essential resource for readers, critics, and publishers interested in contemporary European literature. This year’s anthology brings together some of the most exciting prose writing in Europe today, by writers such as Alberto Olmos, Lars Petter Sveen, Xabier López López, Teolinda Gersão, and Ádám Bodor. Ranging from the firmly well-established to rising young writers never before translated into English, the stories of Best European Fiction 2019 are bound to provoke and delight.
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Edição da Deriva Editores / 2004
Tradução de Ângela Carvalhas
Capa de Gémeo Luís

Romance de aventuras onde Emílio Amarante, o protagonista, está submetido a encontros extraordinários onde as leis naturais não ocupam grande lugar. Filósofos, corsários, navegantes de todos os feitos arrastam o leitor para o prazer puro da liberdade e da fruição da narrativa. Um romance onde se cruza o estilo oitocentista e o pós-moderno.
Prémio da Crítica Espanhola (2002).

As cartas da guerra de Lobo Antunes / 24

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António Lobo Antunes / foto «Visão»


Foi uma simples frase de Marc Ferro, no seu derradeiro livro Cegueira, que me fez pensar na epistolografia e na cinematografia de guerra. Dizia este historiador que o filme Non ou a vã glória de mandar, de Manoel de Oliveira, é uma forma de contar a derrota de 1578, em Alcácer Quibir, transportando-a para todas as guerras que se lhe seguiram, entre elas, a colonial. Este tema encontra-se noutros realizadores como João Botelho, Um adeus português, e escritores como Assis Pacheco, Mário de Carvalho, Lídia Jorge e outros para quem a guerra colonial portuguesa não foi uma simples nota de rodapé da História ou que se pudesse esconder debaixo do seu tapete. A guerra durou 13 longos anos em 3 frentes africanas e mobilizou 1 milhão e meio de jovens. Mais de 13 mil não vieram para casa e centenas de milhar diminuídos física e intelectualmente. A guerra foi terrível e só terminou em 1974. É aqui que chamo António Lobo Antunes, um escritor ímpar na nossa literatura. A guerra colonial absorveu a sua escrita e deu-lhe forma física, dolorosa e incongruente, como um fardo coletivo. Sabemo-lo no excelente filme de Ivo Ferreira, Cartas da guerra, baseado no livro que as filhas de Lobo Antunes editaram na epistolografia mantida entre o pai e a mãe, esta recentemente falecida. São perto de 400 aerogramas (cartas que se destinavam às famílias dos soldados da frente) de amor entre ele e a mulher, Maria José. Ele, médico em Angola, assiste ao pior das guerras: aos massacres, às torturas perpetradas pela PIDE e por comandos, aos amigos a morrerem, à cobardia e ao heroísmo vão. Não mostra nenhum moralismo ou arrependimentos serôdios. Era a guerra que claramente contestava e uma pesada solidão que se pressente quer no filme de Ivo Ferreira ou na leitura das cartas. Quase toda a obra de António Lobo Antunes reflete isso mesmo desde os primeiros O cu de judas ou A memória do elefante, por acaso (?), recusados por editoras nos finais dos anos 70 e com a jovem democracia cicatrizando ainda as feridas da guerra, até às obras posteriores deste autor. D'Este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra é como se chama o livro que deu lugar ao filme de Ivo Ferreira e que levou o escritor a afirmar que «É sobretudo uma história de amor e isolamento e de como um Estado pode privar mais de um décimo da população das suas vidas, contaminando um país inteiro. É uma declaração de amor e uma questão de sobrevivência». Essa luta pela sobrevivência sente-se a cada frame do filme ou cada palavra de uma carta. Mas às vezes não. O espírito soçobra perante a estupidez da guerra e da sua sujidade, da nostalgia de um país adiado, pequenino, intriguista, pobre e sujeito à vidinha quotidiana, cuja fuga possível seria o futebol, o fado e Fátima. Nesse desespero, Lobo Antunes escreve, de Angola para Portugal, todos os dias e redige palavras sublimes à mulher que ama: «Gosta sempre de mim. Imagino o frio que aí estará, a nossa casa de que me hei-de lembrar sempre, apesar de nunca mais voltarmos para lá, o porteiro, a rua, os móveis, a cozinha, a cama com o cobertor ao meio, as gravuras, e vejo como fui feliz aí contigo, como tenho sido sempre feliz contigo, como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o pescoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé, do teu dente de ouro, do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a.»


António Luís Catarino, 21/03/2018

Céline / 23


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Céline

O ano era o de 1980 e encontrava-me em Coimbra, numa Universidade tão antiga, quanto resistente aos ventos de inovação e crítica que, no país, desde a revolução de 1974 varriam o país. Depois da tempestade transformadora veio a bonança normalizadora e, enquanto os soldados voltavam para os quartéis, rapando as longas barbas e cabelos, os operários e camponeses desocupavam as fábricas e terras; os estudantes, esses, não cortavam os seus cabelos e barbas, mas preparavam-se para voltar a estudar as longas matérias e tornarem-se úteis à sociedade – tarefa muito difícil, ou quase impossível, como viriam a comprovar mais tarde, pelo visível desprezo que o Estado democrático lhes dedicava.
Nos entretantos do tempo, eu lia poesia, literatura vária, ouvia música e rádio. Muito rádio. Entre os meus programas favoritos contava-se o excelente «Café Concerto» de Maria José Mauperrin que, com as escolhas jazzísticas de Aníbal Cabrita, fazia as delícias dos meus dias da semana entre as 22:00 e a 24:00. Nunca mais me esqueci de uma entrevista em particular e que, casualmente num encontro entre livros, relembrei-a com Aníbal, aqui no Porto no ano passado. Maria José Mauperrin, entrevistava Jorge Listopad. Este, um dramaturgo e realizador de origem checoslovaca, contava que veio para Portugal, afastando-se do estado do «socialismo real» que, nos anos 50, já se consolidava no seu país. Lá, o entusiasmo pela libertação também esmorecia, como em Portugal dos anos 70. Embora resistente aos nazis no seu país e na Jugoslávia, meteu-se no seu Skoda, com a mulher e as duas crianças gémeas e só parou em Portugal, travando à vista do Atlântico. Era uma figura algo controversa mas, pessoalmente, muito empática. Que tem isto a ver com Céline? A entrevista com Mauperrin continuava interessante e Listopad contava que, na sua errância, tinha chegado aos arredores de Paris, noite chuvosa, e as duas gémeas encontravam-se doentes com febre. Uma gastroenterite, creio. Entrou na vila de Meudon por acaso e, num café, perguntou se conheciam algum médico perto. Apontaram-lhe uma casa. Listopad, então, bateu à porta e saiu-lhe um homem rude com um casaco grosso e rodeado de cães. Era Louis-Férdinand Destouches e Listopad reconheceu-o como Céline. Era o tal médico, sim. Ao pedir-lhe ajuda, Céline ter-lhe-á dito que não podia observar e curar as filhas dele porque…tinha de dar comida aos cães! Nunca mais esqueci esta sequência e mostra bem as partículas elementares da raiva de que era feito Céline, cuja memória dos seus panfletos antijudaicos, volta a incomodar a nossa veia iluminista. Fosse este homem quem fosse, e era radicalmente mau como pessoa, não invalida ter escrito dos maiores libelos contra a guerra como «Viagem ao fim da Noite» e «Morte a Crédito». Não se trata de uma tentativa metafórica mas as gémeas de Listopad, essas, salvaram-se, apesar de tudo.

António Luís Catarino, 1/03/2018

«Sinto que o que havia de bom em mim me vai abandonando e pareço-me mais positivo a cada dia que passa!» 22


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Patrik Ouredník

Calhou-me às mãos um livro de um rapaz checo nascido como eu nos anos 50 do século XX: Patrik Ouredník que escreveu o tão estranho, quanto lúcido «Europeana». A Espanha teve sorte, visto que o livro de 2001, foi editado aí em 2004 e em Portugal somente em 2017. Adiante. É obrigatório lê-lo e não ter receio de comparar o seu autor a Swift, Sterne ou mesmo a Beckett. Entremos no horror: em 1944, aquando do desembarque na Normandia, os americanos tinham de altura média 1,73m. Se juntássemos os corpos dos que tombaram teríamos uma fila de 38 Km. Atenção: se utilizássemos o mesmo padrão aos franceses caídos em toda a II Guerra teríamos 2681 Km, os ingleses 1547 e os alemães 3010. Se num exercício mais macabro os contássemos a todos, teríamos a soma terrífica de 15508 km. O diâmetro da Terra é de 12 742Km. Mas a carnificina da I Guerra terá sido mais traumatizante ainda: havia novas armas e novas estratégias que matavam no mar, em terra e no ar. Perante a morte em massa fixemo-nos na frase de um soldado italiano que, nas trincheiras infectas, escreve à sua irmã o estranho título em epígrafe, versão não nuclear do Dr. Strangelove. Não faltará, pois, entusiasmo e os nazis e os estalinistas criaram campos de concentração, de extermínio e de reeducação e também a noção do «homem novo», o que vai dar ao mesmo. Mas foi o trabalho e a técnica, o alfa e o ómega da nova era. As mulheres também se libertaram entre as duas guerras, substituindo os homens nas fábricas de armamento e gazes nocivos e algumas morreram de cancro e ficaram estéreis. Colavam cartazes nos EUA do tipo «Ai quem me dera ser homem: juntava-me imediatamente à marinha!». Depois, as teorias eugénicas levaram ao Holocausto e ao genocídio dos judeus em massa mas, em 1985, o Conselho Mundial Judaico não reconheceu o genocídio cigano. Depois, matou-se Deus lá pelos anos 60 e um revolucionário francês conhecido afirmou que tinha dúvidas que o Homem O substituísse com competência. Mas nos anos 30 e 40 mataram-se muitos homossexuais, alcoólicos, inadaptados, subversivos e malucos. Pararam nos anos 50 quando os cientistas pensaram que se os eliminassem a todos, seriam ainda precisas 90 gerações para conseguir 1 associal em cem mil pessoas. Depois vieram as crianças e os jovens que queriam produtos para eles e a sociedade de consumo deu-lhes tudo, embora eles combatessem a sociedade de consumo. Este hedonismo é que mata a memória, o que é perigoso, diziam os historiadores entendidos no assunto. Depois, os animais ficaram importantes e os soldados americanos no Vietname quotizaram-se para construir um monumento aos 4100 cães caídos pela democracia e pela liberdade. Finalmente (?), em 2000, o estado do Alabama permitiu casamentos mistos entre brancos e negros. Vieram as teorias apocalípticas afirmando bastas vezes que o mundo ia acabar. Quase que acabou às 23.59h do dia 31 de dezembro de 1999, quando o «Bug do Milénio» não saberia identificar o ano de 2000 e voltaríamos a 1900. Como o século não existisse e a eletricidade não tivesse sido inventada.

António Luís Catarino, 12/02/2018