segunda-feira, dezembro 02, 2019

O estado morreu, o cristianismo também, a ciência finge e Onfray não se sente lá muito bem.


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O estado morreu, o cristianismo também, a ciência finge e Onfray não se sente lá muito bem.

«Decadência – O declínio do Ocidente», de Michel Onfray

Que têm a ver as matérias fecais elevadas a arte de Piero Manzoni, farto de ser desconhecido, e que em 1961 as colocou à venda em latas de conserva numeradas e assinadas, que repentinamente tiveram um êxito absoluto e sendo hoje vendidas por colecionadores particulares a centenas de milhar de euros, com a possível beatização de S. Cirilo proposta por Bento XVI? E com a decapitação de Luís XVI e Maria Antonieta?

Aparentemente, nada. Mas na perspetiva da decadência ocidental de Onfray, tem. Arte, Filosofia e Política. Manzoni, após as declarações de morte da Arte nos finais do século XIX e inícios do século XX e mesmo que excreções humanas já tivessem sido usadas em quadros, arrisca-se a vender a sua merda por uns trocos (e que trocos!), S. Cirilo, bispo de Alexandria manda assassinar Hipatia em março de 415, destruindo uma biblioteca plena de textos clássicos e é em 2015 que Bento XVI propõe a beatificação desse grande bispo. A decapitação de Luís XVI inicia a descristianização e a degenerescência do próprio estado ocidental. A partir daí, tudo será possível em termos de autoritarismo legitimado pelo Iluminismo e pelo Humanismo. Hoje, nada nos dizem os conceitos de Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Portanto, advém igualmente a morte das Luzes. Hoje impera o vazio, o consumismo capitalista, o hedonismo serôdio, o egoísmo, as catedrais do dinheiro a criação propositada de crises sucessivas, a economia do desperdício. Mas nunca o fim da História segundo Fukuyama. A História é real, não a significação nem a simbologia do real. As ideias, porque inócuas hoje a Ocidente, submetem-se a outras realidades bem visíveis. A vitalidade ocidental está numa crise sem solução. Outras civilizações (Huntigton) estão num processo de grande vitalidade, nomeadamente os islâmicos, os chineses e os hindus. Substituir-nos, provavelmente sem darmos por isso, é exatamente o que fizemos ao longo dos tempos em que os Estados de Constantino e Teodósio se abraçaram ao Cristianismo de S. Paulo (que efetivamente se afasta dos Evangelhos e constrói uma igreja dominadora, inquisitorial e assexuada) a 3 séculos de distância da morte de Jesus. Foram dois mil anos de imperialismo, de submissão de povos, de massacres e guerras sem fim que culminam num século XX de horror nunca antes visto.

Não pensem que Onfray cai na ratoeira do alemão Oswald Spengler autor que, nos anos vinte, nos brindou com «O Declínio do Ocidente», embora o nosso autor nos consiga dar uma perspetiva clara e quase asfixiante dessa mesma decadência. Aliás, a sua tese de doutoramento foi exatamente sobre Spengler, mas recusa-o, obviamente, por este ser uma das bases filosóficas de sustentação do nacional-socialismo alemão. Declara o seu interesse por Samuel Huntigton em «O Choque das Civilizações» e em outras obras citadas abundantemente desde há mais de 2000 anos, não escondendo a sua simpatia por Epicuro e Lucrécio. Embora haja mais. Mesmo de livros clássicos que nunca tínhamos pensado existir.

As 624 páginas do livro não devem demover-vos de o ler. Aliás, se se começa não se consegue travar a fluidez do discurso e do pensamento de Onfray. Estejamos ou não de acordo com ele e várias vezes estive em desacordo. Onfray não é um filósofo no sentido clássico do termo (aliás, a filosofia ocidental morreu com o estruturalismo, segundo ele). É, antes demais, um pensador, mas um pensador rigoroso, um historiador genealógico, que demonstra o seu pessimismo através de factos e do estudo de leituras. O fim próximo que ele vê é o transhumanismo, purgante para uma visão não condizente com o otimismo ainda reinante que leva os tolos a dizerem que tudo se resolve com a Ciência, por futuros radiosos em que só se morre por acidente e em que não há trabalho, mas riqueza distribuída igualitariamente.

Palavras de Michel Onfray: «A Europa está para oferta ou para venda.Nem eu nem o meu leitor contemporâneo veremos quem a tomará e a quem esta velha coisa será vendida. No entanto, vários pretendentes parecem hoje notáveis. O judaico-cristianismo está esgotado; é um poder cujo tempo já passou. A estrela cadente volta a cair, faz parte da ordem do seu ser. A demografia testemunha o movimento das coisas, mas é uma disciplina de que os navegadores do real não querem ouvir falar: com efeito, é a atividade que produz imagens fiéis da realidade, mas é uma ofensa intelectual aos olhos dos que pensam que a realidade não existe e que, sobretudo, não querem que exista.  Contraria demasiado as suas ideias e preferem as ficções que os tranquilizam nas verdades que os inquietam.»

Mas isto lê-se na pág. 558. Terão de ler as anteriores se querem fruir este livro efetivamente bom.

António Luís Catarino
Coimbra, 2 de dezembro de 2019

terça-feira, novembro 26, 2019

José Mário Branco - FMI


Eu sei, José Mário, que abjuraste este disco. Mas arrepiei-me a primeira vez que te ouvi a dizê-lo, a cantá-lo, a emocionar-te e a nós, a rasgar a nossa pele e a vergonha de não nos inquietarmos o suficiente. Hoje isto está uma pasmaceira, uma pulhice de primeira água. Tinhas razão, sim.

José Mário Branco - "Queixa das almas jovens censuradas" do disco "Ser S...

Herberto Helder dito por Luis Miguel Cintra



Deve haver poucos a dizerem a poesia de Herberto Helder como ele, Luís Miguel Cintra. É um prazer nosso ouvi-lo.

domingo, novembro 10, 2019

George Steiner e a tristeza do pensamento

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Foto: Relógio D'Água

A questão é esta: como é que um livro de 40 páginas nos pode, através de um poder de síntese notável e que só os melhores dispõem, agarrar de tal modo? George Steiner tem esse dom. Quando li o último livro de Rui Pereira «Pensar em tempos de não-pensamento», cuja ficha de leitura se encontra neste blogue em http://derivadaspalavras.blogspot.com/2019/10/foto-rui-gracio-editor-rui-pereira-tem.html tive a feliz ideia, na esteira das questões levantadas pelo Rui, ler, logo de seguida, este «Dez razões (possíveis) para a tristeza do Pensamento». Parece-me, pois, que, na prática objetiva do ato de pensar, existe um lado solar e um lado lunar. Isto porque o ato de pensar não conduz necessariamente à tristeza. No entanto, o estudo de Steiner é demasiado claro para o pormos de lado. 

Steiner inicia o livro com uma citação de Shelling, em «Da essência da liberdade humana», quando escreve:

Tal é a tristeza inseparável de toda a vida finita, uma tristeza, porém, que nunca se torna realidade e serve tão-só para dar alegria eterna de a superar. Dela vem o véu de pesar que se estende sobre toda a natureza, a melancolia profunda e indestrutível de toda a vida
Apenas na personalidade há vida; e toda a personalidade assenta num fundamento sombrio, que, não obstante, tem também de servir de fundamento ao conhecimento.

E Steiner regressa a Shelling para nos avisar:

(...) e à asserção de que uma tristeza necessária, um véu de melancolia, se associa ao próprio processo de pensamento à perceção cognitiva. Poderemos nós tentar esclarecer algumas razões para tal? Teremos nós o direito de perguntar por que não deverá o pensamento humano  ser alegre?

Após esta introdução/aviso ao leitor, Steiner evolui paulatinamente e clareza  para os dez pontos sobre a possível tristeza no pensamento. Fastidioso era se eu as fosse enumerar todas, mas partilho convosco algumas afirmações de George Steiner:

·         A infinitude do pensamento é também uma «infinitude incompleta». Está sujeita a uma contradição interna para o qual não poderá haver qualquer solução. E continua, afirmando que essa contradição interna (aporia), esta inevitável ambiguidade, é inerente em todos os atos do pensamento, em todas as conceptualizações e intuições. Experimentem, provoca Steiner, escutar atentamente a torrente do pensamento e, no seu centro inviolável, irão ouvir dúvida e frustração. Não será necessário «pensar» muito para ver que sim, que é verdade. Não me atrevo aqui a dizer que eu sou um exemplo vivo..

·         A concentração completa não existe. Ela produz exaustão temporária, ou permanente, como acontece a certos jogadores de xadrez ou matemáticos do ramo da lógica. Eu acrescentaria outros, mas como se entende que esta concentração de que Steiner nos apresenta é provocada, torna-se evidente que o pensamento corrente, ou mesmo o de quando dormimos, é uma salvaguarda para a exaustão.

·         A originalidade no pensamento existe mesmo? Ou estamos somente no campo da retórica? Proponho: vamos pensar a utopia? Há quantos milénios o fazemos mudando apenas alguns pressupostos? Acreditem que só de ouvir falar em utopia já me sinto exausto, tal o número de variantes possíveis de construção.

E as palavras, o nosso pensamento, as ideias, as comparações tentadoras, as metáforas e analogias fluem neste livro incomum.

Steiner será um mestre em desfazer mitos de que somos tão carentes. Mas também, segundo ele, novos mitos levantar-se-ão, como quem repete de uma forma interminável, «novos» pensamentos.

Conclusão?

Entretanto, não é a discussão teológica ou filosófica que conduz o pensamento aos limites dos seus indispensáveis e sempre repetidos impasses. É, creio eu, a música, esse meio tantalizante de intuição revelada para lá das palavras, para lá do bem e do mal, em que o papel do pensamento, tal como o conseguimos captar, permanece profundamente fugidio. Os pensamentos demasiado profundos, não tanto pelas lágrimas como pelo próprio pensamento.
Pode muito bem que Sófocles tenha dito tudo na ode coral sobre o homem em «Antígona». O domínio do pensamento, da inquitante velocidade do pensamento exalta o homem acima de todos os seres vivos. No entanto, ele torna-o um estranho em relação a si mesmo e à enormidade do mundo.

Falta, propositadamente aqui, a exposição de Steiner de como o «pensamento» pode influenciar a «originalidade» e a chamada criatividade na arte, ou de como se os nossos neurónios não estivessem ligados química e eletricamente. Teremos nós o estudo da técnica, é certo, mas há gestos e «saltos» que o próprio criador desconhece.

António Luís Catarino
Coimbra 9 de novembro de 2019

«Schneller! Schneller!» ou uma flor amarela para Charlotte Delbo

Charlotte Delbo. Resistente das Juventudes Comunistas,
foi das poucas mulheres não-judias presa em Auschwitz
Foto: Club Editor


Livro estranho este. Pode um livro sobre Auschwitz, ser mais um livro sobre Auschwitz? Daqueles que inundam as livrarias para oferta do Natal que se aproxima e serão best-sellers garantidos? «Auschwitz e depois» de Charlotte Delbo é um livro diferente sobre o horror do programa nazi. Mas não só. Vêm lá todas as descrições consistentes e inequívocas dos campos de concentração, entre eles Auschwitz, somando o de Birkenau, campo da morte de onde ela pensava não poder sair e de Ravensbrück, campo só para mulheres, onde a autora também esteve; aliás, o seu último, antes da sobrevivência para a liberdade. Charlotte conta-nos o que já todos pensamos saber. O «Schnell! Schnell!» repetido e gritado constantemente aos seus ouvidos, sentir  e tentar ignorar os espancamentos das kapos judias, as horas intermináveis na neve, para a «chamada» dos e das SS, as trocas de rações miseráveis, o esgotamento físico e psicológico, por fim a morte, nalguns casos, salvadora. As descrições são-nos transmitidas com um profundo amor pelas companheiras, as que pereceram e as que se salvaram com ela. A sua escrita é de uma doçura paradoxal. Nada acomete a uma eventual e legítima raiva. Compreenderíamos. Vê uma flor amarela e isso vale como um raio de enorme felicidade. Na trilogia da sua obra «Nenhuma de nós há-de voltar» (Livro I), nos seus primeiros apontamentos, não aflora nenhuma fúria. Simplesmente não vê. Olha para o lado quando vê um monte de cadáveres nus com a tatuagem de um número que ela também tem no braço. Não olha para a fila de mulheres «inúteis», escolhidas pelos SS, que esperam a sua vez no laboratório, antes do block 25, o dos gaseamentos. Ajuda como pode as vivas, sente-se culpada pelas mortes das mais frágeis que ela. A sua irmã morre no campo, ao seu lado e ela pergunta-se o que dirás aos pais, sendo que Charlotte não a impediu de morrer. Não a protegeu como devia. A culpa advem-lhe, arrasadora, talvez pior do que as torturas praticadas nos campos.

O Livro II, «Um conhecimento inútil» e o III «Medida dos nossos dias» são espantosos e talvez raros, neste tipo de literatura, na sua descrição desiludida. É o «depois» aposto no título da trilogia. Após ser libertada pela Cruz Vermelha e aceite como refugiada pelos suecos foi repatriada para Paris onde, outrora, tinha sido presa pela Gestapo, como resistente. Após três anos, não se habitua à vida «cá fora». Acorda às 3 da manhã para a chamada e não mais adormece. Repete-se o  schnell, schnell, papéis, papéis, contagens, burocracias infinitas para quem não tem já forças. A família que a afasta por estar «desequilibrada». A luta pela herança do pai e o ataque jurídico da madastra. Cansa-a como nunca. Cá fora é tudo schnell, schnell...é internada, casa-se, divorcia-se, tem uma filha, quer estudar, tem de fazer a estúpida contabilidade do pequeno hotel  herdado. Consegue, todavia, estudar e ainda juntar-se com as antigas companheiras de Auschwitz...nos funerais de alguma delas. Todas riem e contam histórias do campo. 

Nascida em 1913, sai de uma insuportável  França rendida aos fuzilamentos dos colaboracionistas e desconfianças para com alguns resistentes. Ajuda ainda um que consegue provar a sua inocência. Vai para a Suíça. Consegue trabalho na ONU e, passados muitos anos, volta para Paris onde foi assistente de Henri Lefevre. Morre em 1985. Nunca se habituou, creio, ao quotidiano.

Deixo-vos um extrato de um dos seus últimos poemas:

(...)
«Regressar não é tudo
É regressar para nos voltarmos a pôr a viver
A viver todos os dias
A trabalhar e a ter dívidas
A poupar para pagar as dívidas
A vender sabão
Porque não sabemos fazer outra coisa
A voltar para o escritório
Porque não sabemos fazer outra coisa
Na vida de todos os dias a procurar onde morar
Porque não se pode viver de outro modo
A estar a horas
Porque no trabalho é preciso estar a horas

De que vos queixáis?
A vida é a vida com que sonháveis lá?
(...)»

Creio que todos nós entendemos a analogia de Charlotte Delbo neste poema. Mas só uma leitura completa dará a verdadeira dimensão desta grande escritora, para muitos desconhecida. Os seus livros foram escritos em 1961 mas só publicados em 1970-71, porque entendia que a sua escrita não refletia completamente o terror passado nos campos.

A edição é da BCF Editores, apoiada pelo Centre National du Livre francês.

António Luís Catarino
Coimbra, 10 de novembro de 2019

domingo, outubro 27, 2019

Uma viagem ao inferno de Jonathan Littell

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Uma História AntigaNova Versão, de Jonathan Littell é um círculo vicioso. Ou pode ser uma história que cresce de uma forma helicoidal, como uma mola em hélice, mas sem clímax. Ou nem sequer pode ser uma história. Não há, de facto, uma história, nem personagens descritas psicologicamente, ou uma identificação que seja, um nome, ou uma imagem, um ícone. Nada. Portanto, sentir-te-ás seguro de poder identificar-te com todas elas. Há, contudo sequências narrativas em catadupa. Em capítulos e entre capítulos. É uma verdadeira viagem aos infernos criado por Littell, após um outro inferno que foram as suas As Benevolentes escritos já há doze anos.

Na leitura de Uma História Antiga podes progredir em corredores estreitos, quase sempre escuros. Estás vestido/a com um fato de treino cinzento, cómodo. Encontras sempre uma maçaneta metálica que dás por acaso em labirintos em Y ou V. Após passares um umbral, encontras uma piscina onde te banhas e ouves sussuros, gritos de crianças e adultos que riem para, depois, entrares em quartos, em bosques ou quintais. Os quartos têm quase sempre edredãos, cobertores ou cortinas com flores verdes cosidas num fundo dourado. Os tapetes são vermelho sangue. Aí tudo pode acontecer num frenetismo de quase 400 páginas. Podes ser um pai de família que se entedia com o seu filho e as sua mulher, louros e belos. Podes ter mulheres igualmente louras e belas com um «carrapito meticulosamente penteado», mulheres matadoras e homens gentis, homens brutos que te violam ou são submissos e meigos e tu transformas-te num sádico. O sexo nunca é recusado; é, antes, uma vertigem necessária. Seja ele de que tipo for: em orgias dionisíacas, transformando-te em mulher, lésbica dominadora ou dominada, homossexual, trans, travesti, bissexual ou heterossexual, vendo crianças em jogos íntimos com os sentidos sexuais a aflorarem à pele, um tema quase tabu. Isto pode não ser o inferno. Ainda não o é completamente, embora algumas cenas desemboquem em violência pura e dura. Pelo meio, duas obsessões: o quadro da Rapariga com Arminho de Leonardo, as sonatas para piano e trechos da ópera Don Giovanni de Mozart.

O que te perturba verdadeiramente na leitura deste livro é a violência da guerra e como ela é descrita, com os horrores que nos entram sem pedir licença. Estas cenas são apostas entre os capítulos e sem esperares estás a ler o inferno descrito em Gaza, na Tchetchénia, num país em guerra civil em África, na América do Sul, na miséria absoluta na Europa ou seres amante de um chefe de um bando criminoso que controla a polícia. Joanhatan Littell, soube há pouco, esteve e está amiúde em teatros de guerra. Ele sabe do que fala e descreve como ninguém o que viu, o que presenciou, o nojo e o asco que sentiu. Filmou tudo o que pôde pelo telemóvel, parece-me. Mas atreve-se a ser um perpetrador de um massacre e relata o gosto que isso lhe dá. Nós, tu e eu, não damos importância nenhuma à guerra. Vemos bombas e tiros. Nunca vimos cadáveres disformes, nem nunca lhes sentimos o cheiro. Até porque jantamos cedo. Ela está tão longe que não pressentimos do que o Homem é capaz. Do mais aviltante e inumano, até ao saber infligir o cúmulo da dor ao outro.

O autor já ameaçou de pancada vários jornalistas e é esquivo o suficiente para não o encontrarmos e fazer-lhes as perguntas necessárias. Provavelmente, a sua irritação terá a ver com isso mesmo: ninguém ainda teve a coragem ou sabe a pergunta que quer que lhe façam ou que repitam sempre as mesmas. No entanto, ele aí está, premiado e procurado pelos media que, entretanto, se borrifam. Ele está sempre em fuga. Penso que se vivesse no século XVIII seria Sade e a sua premência de liberdade individual e política contra os fortes ou, mais tarde, poderia ser Sacher Masoch. Mas não me atrevo a classificar Jonathan Littell de quem nunca falhei um livro. Fiquemos talvez por Nietzche. Talvez...

António Luís Catarino
Coimbra, 27 de outubro de 2019

domingo, outubro 20, 2019

Enquanto este esgoto não colapsa

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Foto: Letra Livre e Mapa

O final do título poderia ser um «divertamo-nos todos enquanto isto dá», «carpe diem», «que se lixe, já cá não viverei nesse tempo»...e mais, e mais... dando à vox populi a razão suprema de andar de mãos dadas com o capitalismo, principal responsável do que aí vem, não fosse hoje o mundo um enorme esgoto em que o tornou. Ar, terra, mar poluídos e sempre a eterna esperança que a sacrossanta tecnologia nos salve do colapso.

Por isso ler o livro de Carlos Taibo, «Colapso – Capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo» editado oportunamente pela editora/livraria independente Letra Livre, faz-nos pensar (ou dos poucos que se esforçam por pensar), enquanto ser humanos do ainda Holoceno o que fizemos, ou melhor, o que deixámos fazer a este planeta Terra.

Primeiro choque: as notas de rodapé e a bibliografia do autor. Inegavelmente importantes estas notas de carácter científico, admiramo-nos na leitura e pesquisa que delas fazemos de algumas ideias que o autor sublinha, com cuidado e rigor, venham desde a década de 50! Ou seja, a preocupação por esta eutanásia dolorosa do Planeta vem desde muito cedo. Talvez mesmo do século XIX, razão pela qual a Revolução Industrial foi o início da crise do planeta pelo que não será exagerado ou eivado de falsidade a afirmação que a acumulação de capital e o imperialismo foi a causa última do início da decadência climática e ecológica.

No capítulo I, Carlos Taibo apresenta-nos o conceito de colapso. Talvez o mais interessante do livro seja esta questão. Já assistimos, durante a História, a vários colapsos: a queda dos impérios egípcios e hititas, a do Império Romano com o avanço do que chamamos (mal) de povos bárbaros do oriente muito possivelmente a períodos longos invernosos e verões húmidos e chuvosos, a Peste Negra que varreu da face da Europa três quartos da sua população, e, já mais para os tempos modernos as invasões napoleónicas, a guerra franco-prussiana e as guerras liberais, a I e II Guerras Mundiais com o seu cortejo de milhões de refugiados e de 150 milhões de mortos. Já para não falar da bomba nuclear usada pelos americanos no Japão, na paranóia e o medo permanentes que coisa igual se repita. A Humanidade enfrentou com a adaptação possível viver nessas condições. Embora em colapso.

O conceito de colapso é, também ele, muito variável. Carlos Taibo dá-nos vários exemplos: um vulcão na Islândia nos anos 90 permitiu que, durante 10 dias, os sistemas eléctricos e electrónicos baqueassem totalmente, as rotas de aviação e rodoviárias parassem, a internet funcionasse intermitentemente e que deixassem de existir as trocas de informação, de mercadorias e as bolsas mundiais praticamente não funcionassem. Não se contam aqui os milhares de mortos directos e indirectos da erupção vulcânica e os hospitais a trabalharem sem todos os equipamentos a funcionar. Mas isto aconteceu no Norte rico. Agora tentem falar em colapso a um habitante da faixa de Gaza, da Nigéria, da Síria ou do Iraque! É evidente que esta gente nasceu e já morreu em constante colapso. Sem água, sem luz eléctrica ou sem os cuidados básicos inerentes à sobrevivência, nem digo à vida, porque ela simplesmente não existe. No sul há povos em eterna ruptura, sem instituições, sem dinheiro, sem ajudas. Não perceberão o conceito de colapso, assim como se diz que o Norte colapsou porque se tornou impossível viver sem a TV ou sem rede de telemóvel pela erupção de um vulcão!

Passando a necessidade epistemológica de Taibo (professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid e com bibliografia editada) em explicar o conceito de colapso ao estudar as suas possíveis causas (tão óbvias que não vale a pena reproduzir aqui), desenvolve cenários pós-colapso extremamente audazes, mas com todas as possibilidades em aberto. É o melhor do livro.

Isto tanto pode acabar mal com um ecofascismo ou com a extinção total (o que não acredito, nem o autor), como até pode abrir espaços de liberdade comunitários que não devemos rejeitar como hipótese real, ou ainda mais real coexistirem em luta contínua as duas formas de vida, uma nova luta de classes baseada na teoria de Marx, com o desaparecimento traumático da classe média, do dinheiro e das mercadorias. Imaginemos uma enorme ruptura no campo das energias não renováveis, como aconteceu na URSS em 91 ou em Cuba ou na Venezuela ainda hoje e agora projectem-nas a nível global. Na Rússia tudo se transformou num enorme caos financeiro (de que se aproveitaram alguns oligarcas), na inoperância e desaparecimento do Estado que acabou com os apoios sociais e as reformas, o dinheiro acabou pela queda total do rublo e as mercadorias deixaram de circular. Nunca divulgados pelos media, houve comunidades inteiras que sobreviveram no campo, abandonando as cidades e criando comunidades fortes com democracia directa. Em Cuba, o embargo de petróleo dos EUA, levou a que tivesse importado um enorme volume de bicicletas à China, criando hortas urbanas e criando fortes comunidades no campo. A emissão de CO2 teve uma queda de 26,6%. Na Venezuela, a crise ainda não chegou ao colapso porque as reservas deste país ainda são fortes, mas a contínua baixa de preço do crude e o embargo nas exportações faz com que estas reservas estejam paradas. A necessidade de autoregulação e autogestão longe do poder, tem sido uma prioridade que tem resultado prescindindo de intermediários especuladores e indo à produção directa. Não rejeitemos portanto a necessidade da partilha comum da energia e da própria vida.

Portanto, as coisas não são fáceis de decifrar para um futuro que será tão distópico como utópico. Certezas: nunca iremos alcançar o objectivo de fixação de 2º em 2030. As emissões de CO2 têm aumentado como se fosse uma espécie de estertor do capitalismo que se pode tornar letal, mais do que é hoje. A ONU está descapitalizada e não poderá intervir, assim como a Unicef, ou a Fao. 

Em 2030 atingiremos, a este ritmo de emissões, os 4º graus o que produzirá uma temperatura amena na Europa do Sul, uma vida impossível na zona sul do planeta que originará grandes migrações para norte como aliás já acontece por motivos climáticos a que a guerra estará ligada, o norte da Europa e dos EUA e Canadá descerão de temperatura, principalmente nas regiões influenciadas pela corrente do Golfo que está a desaparecer, enquanto paradoxalmente os gelos do Árctico desaparecerão, abrindo uma corrida às explorações petrolíferas desta região e adiando talvez por mais vinte anos o fim da energia petrolífera. A energia está a esgotar-se. Vai esgotar-se.

Assim, as possibilidades são múltiplas. Ou arranjamos um modo de vida realmente possível de ser vivida, ou viveremos em cidades sem ordem, violentas, onde grupos criminosos e polícias privados (qual a diferença?) mandam a soldo de oligarcas que se pretendem ser uma elite que viverá condicionada a bolhas muralhadas.

Entre a base proudhoniana de comunidade que parece que Taibo abraça, a luta de classes mais aguerrida que nunca, de Marx que o autor também não rejeita, o ecofascismo, ou ainda violenta junção dos dois modelos, as hipóteses são múltiplas. Alguma ganhará. Um apontamento: o ecofascismo que já conhecemos de outras histórias do século XX (o fascismo e o nazismo eram ecológicos, criando até dias e jornadas de defesa da Natureza) pode não ter origem nestes novos pequenos partidos que têm nascido um pouco por toda a parte. O ecofascismo pode ser adoptado pelos partidos do sistemas e tradicionais, obrigando-nos a comportamentos ecológicos, leis severas para quem não cumpre, culpabilizando o infractor particular e, pior, separar o que não é «normal» na Natureza, pelo receio do outro numa época de grandes migrações mundiais. Isto é o ecofascismo. Separar o bom do mau na Natureza pode levar a uma higienização nazi nas pessoas de diferentes etnias, proibindo-as de entrar em terras «limpas».

Caso último que nos fará pensar: um elemento do Grupo de Bilderberg, Susan George, deixou passar uma resolução da sua última reunião. Para que o Holoceno não desapareça e voltemos à situação de antes da Revolução Industrial, será preciso que a população na Terra seja de somente 600 milhões de pessoas. Hoje, somos 7 mil milhões. O programa é de «redução drástica da população». Que terão eles na cabeça para chegar a estas conclusões? Mais epidemias devastadoras como a SIDA e o Ébola, milhares de vezes mais mortíferas? Ou a guerra permanente, sem fim? Também no horror as hipóteses estão em aberto. O que Carlos Taibo nos dá, em contrapartida, é uma luta para uma sociedade solidária, energeticamente sustentável e local. Não estarão longe as opções que teremos de tomar.

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de Outubro de 2019

sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


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Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019

quarta-feira, agosto 21, 2019

De como uma Eva e um Adão derrotam o racismo

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Neandertal: Foto NatNature
Repentinamente, dei-me com o livro da sueca Karin Bojs entre mãos. «A Grande Família Europeia – Os primeiros 54 000 anos».  Não é, como o editor nos quer fazer crer logo na capa, a história do Homo Sapiens na Europa. Acompanhei com alguma simpatia a obsessão da autora em descobrir a sua geneologia que depois passou a linhagem da sua família. A maior parte de quem tenta fazer isto páram todos no século XVII e já é uma sorte se o conseguirem. Pessoalmente, pensando bem, não aconselho ninguém a fazê-lo sem algum aconselhamento prévio: pode haver surpresas e darmos com linhagens esquisitas e estranhas logo em meados do século XX, faço-me entender? Basta um familiar ou amigo mais próximo, tão próximo, que se intrometeu na génese do nosso eventual auto-conhecimento da família para termos um baque no coração. A sério, se o fizerem estejam preparados para tudo!

Entretanto, quanto aos racistas ou racialistas é melhor que não o leiam. Aliás, nem sei se o saberiam interpretar, mas basta analisar as novas experiências e dados confirmados com o ADN e paf! lá se vai a teoria racista de cada povo ter desenvolvido o seu próprio caminho uns com mais inteligência e capacidade de sobrevivência que outros. Chama-se agora a este tipo de «teoria» (desculpem se estou a exagerar!) de «migracionismo» infelizmente muito em voga nos países do grupo de Visegrado e nos EUA. É possível que se espalhe um pouco por toda a Europa dentro de alguns anos, dada a situação política e social que a faz germinar como cogumelos no húmus da terra. (Reparem que eu disse «húmus da terra» para imitar o valter hugo mãe, senão teria dito simplesmente a humidade da terra).
Ora, voltemos a Karin Bojs de quem me esqueci de dizer que não é cientista. Foi simplesmente jornalista, editora-chefe da prestigiada revista científica Dagens Nyheter e mais que premiada no meio, como ser doutora honoris causa da Universidade de Estocolmo.

Vamos a isto: está provado que os neandertais se cruzaram com os humanos modernos há 54 000 anos. Portanto, os genes estão cá nos nossos corpinhos, entre 2% a 6%. Os bandos dos nossos antepassados eram um pouco canhestros, sem muita motricidade fina, musculosos, com o cérebro de grande volume, produtor pouco sofisticado de arte e de instrumentos, tinham pele escura, o pêlo que lhe cobria o corpo era castanho escuro, assim como o cabelo e os olhos escuros. Evitavam os humanos modernos e é possível que estes se tenham afastado moderadamente dos bandos deles, mas não se prova que tenha havido casos de violência constante com os humanos modernos, tendo-se cruzado inclusive e trocado instrumentos e peles. Os humanos modernos, tinham algumas tecnologias de caça, pesca e recoleção e sabiam defender-se melhor do frio da Era Glacial. São estes a quem chamamos de Homo Sapiens Sapiens e produziam arte e música. Faziam enterramentos cultuais e tinham olhos azuis, cabelos castanhos e pele escura, visto que está mais provado que viemos todos de África e aproveitámos uma mudança climática mais suave para nos espalharmos pela Ásia, pelas Américas através dos maciços gelados do Norte e de uma terra hoje desaparecida entre a Grã-Bretanha e a Suécia – a Doggerland. As águas do mar tinham baixado até ao ponto de permitirem grandes migrações. A Europa foi também ocupada por bandos de Homens e Mulheres com a tal pele escura e olhos azuis, visto que vindo todos de África levou centenas de milhar de anos a mudar a pigmentação da pele para absorverem os poucos raios de sol que existiam. Mas que viemos todos de África os genes estão aí para o comprovar e exigir que afinal se trata de uma só raça que existe – a humana. Embora com um cérebro mais pequeno (o tamanho é irrelevante, neste caso!), éramos mais hábeis a fabricar instrumentos e a viver em grupo, o que nos salvou da extinção. E também é provável que muitos dos nossos antepassados mais espigadotes ou jovens com as hormonas aos saltos tivessem tido relações sexuais com neandertais. Corrijo: não é provável, é certo. O que é mesmo verdadeiro é a extinção dos neandertais, mas ao que se julga agora não foram os humanos modernos que os extinguiram em massa. Foi a inabilidade em utilizar os recursos naturais para a Era Glacial que se aproximava.

Vamos a «Eva». Como sabem, os cientistas são uns brincalhões. Já com a Lucy, deram-lhe o nome por estarem a ouvir o «Lucy in the sky with diamonds (LSD)» dos Beatles. Esta ironia é mais fina. Eva, seguindo o rasto de ADN mitocondrial (que passa das mães para os filhos, sendo por isso uma linhagem feminina), viveu há 200 000 anos e veio a ser a ancestral materna de todos os seres humanos que vivem hoje, Há cerca de 60 000 anos, a linhagem saiu de África e espalhou-se para todo o mundo. Em África corresponde o genoma L. Quando se «saiu» de África os genomas que encontramos são o L3, o M, o D, o N, o R, o RO e o U (que se subdivide em 6 genomas). Na Europa é o genoma U que é preponderante mas não muito mais que os outros genomas todos do mundo onde aparecem igualmente. E nós estamos carregadinhos de todos eles.

No entanto o mais difícil de encontrar, mas também o mais seguro é o cromossoma Y, que passa de pai para filho e que tem mais ADN que as mitocôndrias maternas. É a nossa linha patriarcal a quem os antropólogos e arqueólogos deram o nome de «Adão». Estavam à espera de quê? É lógico que o encontrámos igualmente em África. Alguma vez estes nossos antepassados se uniram e deram origem à humanidade. Para o bem ou para o mal. Segundo a autora, «Acabou-se a discussão. A teoria multirregional estava morta: os humanos anatomicamente modernos têm origem em África».

Antes da forte glaciação de há 54 000 anos atrás, já estávamos espalhados por todo o mundo, embora fôssemos muito, muito poucos. Os bandos que existiam eram constituídos não mais do que umas dezenas e foram os neandertais que nos salvaram antes de se extinguirem. As crianças nascidas desses encontros com os humanos modernos sobreviveram mais porque não tinham consaguinidade. Afinal, os neandertais não se extinguiram completamente: nós somo também eles. Obrigado, portanto, neandertais por uma imunidade bem conseguida.

Quando em 54 000 anos veio a Era Glacial (das quatro existentes na vida da Terra) os nossos antepassados recuaram para sul à procura terras mais amenas, se assim se pode dizer. A Europa do sul e certas zonas do norte poderiam ser habitadas, mas foi o Médio Oriente o mais apetecido. Por lá ficámos, uns recolectores, outros já mais sedentários embora não se possa falar ainda de agricultura ou domesticação de animais. Fomos outra vez para o sul da Europa e Norte de África, américas e Oceania. Não parámos. O Degelo veio e foi uma nova vida. Aumentámos a qualidade da tecnologia, fizémos trocas por trocas, casámo-nos uns com os outros, tornámo-nos mais imunes às doenças e epidemias, aumentámos o tempo médio de vida e aumentámos, por isso, o número de indivíduos. Mas...há 38 500 anos, como prova o Homem de Kostenki descoberto na Rússia, ainda éramos pretos, tínhamos o cabelo encaracolado e castanho escuro e predominavam os tais olhos azuis e claros. Ou seja, fomos ficando mais branquelas para a pigmentação absorver melhor os raios solares. Houve outros que não necessitariam dessa pigmentação, como em África, Oceania e Américas. Mas o livro é riquíssimo em provas sustentadas pelo ADN em Universidades e Institutos de referência em todo o mundo.

Finalmente, o meu espanto: Karin Bojs, agora na reforma e sem a canga formal do jornalismo, fazendo a sua pesquisa científica livremente, falando à vontade com os cientistas que antes tinha entrevistado para a sua revista científica sem as cautelas institucionais a que são obrigados os jornalistas e os cientistas, reparou num incómodo, numa preocupação nunca antes referida: o racismo crescente na comunidade científica e em estudantes principalmente na Europa Central (já nem se fala na América do Norte!). Ela própria assistiu a um boicote a uma conferência sobre apresentação de resultados antropológicos na Universidade de Brno, na República Checa. Foi-lhes dada uma sala pequeníssima onde não cabiam quase 300 pessoas interessadas. Subitamente, entram em cena alguns professores e alunos, arrastando mais cadeiras para a sala de modo a torná-la sufocante, que contestaram abertamente as teorias baseadas em ADN, agora com uma ressalva: sim, houve algumas migrações, mas não tantas que não permitam a defesa da «verdade» deles: que os povos isoladamente desenvolveram-se tendo em conta a inteligência e os laços fortes e comunitários, génese de um povo e de uma nação. Chamam-se a estes senhores fascistas, os «migracionistas» de que falei atrás, cada vez mais e mais interventivos e cujas teorias estão muito longe de qualquer prova mínima que seja. Mas não deixa de ser irónico o nome científico dado à nossa mãe mitocondrial e ao nosso pai cromossomático. Adão e Eva!

Mas o livro não é só isto. Vale mesmo a pena lê-lo. 420 páginas de puro prazer e um enxerto de porrada nos neonazis.

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Agosto de 2019

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A Grande Família Europeia, de Karin Bojs
Ed. Portuguesa Foto: Bertrand Editora

sexta-feira, julho 26, 2019

Kenneth White e a Geopoética: a descoberta do Mundo Branco.

Kenneth White, autor de O Espírito Nómada, editado pela Deriva Editores em 2008
Foto Revista Caliban
Publicámos «O Espírito Nómada» de Kenneth White em 2008, na Deriva Editores, e com tradução de Luís Nogueira, pelo que este artigo é também uma lembrança feliz deste último, já desaparecido. O primeiro editou-o a Relógio d´Água em 1987, com tradução de Maria Regina Louro. Desde logo nos pareceu um autor peculiar e inovador na abordagem à poesia, dando-lhe novas formas e modificando-lhe o conceito habitual entre nós «os contemporâneos». Não deixa de ser paradoxal que em Portugal só se tenha publicado dois livros dele, quando se conhece a enorme bibliografia de Kenneth White, entre poesia, ensaios e prosa e acompanhado igualmente por um reconhecimento internacional, sendo professor de Poética em várias universidades. Sendo escocês das Terras Altas e crescendo nas suas costas foi, contudo, no rude noroeste da Bretanha onde se fixou permanentemente. Fundou, em 1989, o «International Institute of Geopoetics» http://institut-geopoetique.org/en/ (o seu site está em várias línguas entre as quais o português). Neste momento está ao dispor dos interessados um trabalho muito profundo e sério deste autor, também entrevistado, na revista «Flauta de Luz», nº6, (flautadeluz1@gmail.com) e sob a responsabilidade de Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques. Esteve entre nós, sem grande publicidade, num colóquio organizado pela FLUL entre 21 e 22 de Maio de 2019.

Kenneth White procura então o mundo branco que estando à nossa frente, não o procuramos mais virados que estamos para a tecnologia e para o consumo desenfreado aceitando «bovinamente» um falso bem-estar e as propostas ditas literárias e poéticas das grandes empresas editoriais. Tentaremos chegar a esse mundo através das poucas linhas deste artigo e sobretudo pelas palavras do próprio. Diz K.W.: «Desde há anos, se me acontece passar pelas cidades, frequento sobretudo as costas…Ao mesmo tempo limite e abertura, área de resistência e de dissipação, linha definidora e convite ao vazio, a costa é sem dúvida o lugar por excelência de uma poética de energia, de uma cosmografia em acção, de uma meditação movente» (Les Rives du Silence, p.7).Promove assim um método: o do nomadismo intelectual, tanto no espaço como no tempo e acrescenta que não há nele qualquer diletantismo, antes uma prática na qual «viagem e visão seguem juntas». Avisa, todavia: «não se trata de uma simples aventura, nem de uma simples expedição científica. O seu plano de trabalho comporta diversos estratos, está aberto a configurações inéditas. No seu cume, encontramos uma concepção de harmonia, uma estética (…)» Ou seja, promove uma ligação íntima entre a arte poética e a arte de viver, que, desde o fim dos tempos e a partir de meados do século XX passou a ser uma emergência.

Numa Carta a Portugal a propósito da Geopoética que faz parte da Flauta de Luz, nº6 (mereceríamos nós que ele se mexesse para nos enviar uma carta?) remete-nos para o «nosso» Espírito Nómada, em cuja terceira parte do livro, Poética do Mundo, trata dos Elementos da Geopoética. A sua leitura tornar-se-á mais clara. Quem quiser adquirir o livro nas livrarias já vem tarde. Agora só nos alfarrabistas ou pedindo à distribuidora da Deriva. Talvez haja por lá alguns. Os autores que mais lhe chamaram a atenção não deixa de ser singular: Fernando Pessoa no seu Ultimatum, o seu poema mais nietzscheniano e Miguel Torga. A este último dedica-lhe estas palavras: «a região natal de Torga foi o Nordeste, em Trás-os-Montes. Mas os trabalhos que dedicou a este território vão muito mais além de qualquer nostalgia localista». Para ele Torga é um proto-geopoetista.

Na excelente entrevista que Kenneth White dá a Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques paremos neste trecho: «O ‘’nómada intelectual’’ que eu sou, e que desenvolveu, com comprovados exemplos, a teoria prática do nomadismo intelectual no livro O Espírito Nómada, atravessa territórios e culturas em busca de elementos susceptíveis de ser incluídos numa possível cultura mundial. Situado no extremo limite crítico da sua ‘’própria’’ civilização, este nómada abre um caminho explorando margens de pensamento e de experiências esquecidas. Lucidamente. Sem se converter seja ao que for. Sem esperança. E por viver sem esperanças, nunca posso sentir-me desesperado». Kenneth White lançou aqui uma abertura para o que considera ser o «mundo branco». Ele define-se atrás como anarco-arcaico e será necessário lembrar este aspecto para que ele surja logicamente como um inimigo confesso do trans-humanismo que «acompanhado de robotização e de inteligência artificial, (…) é preciso resistência. Mais do que resistência, o desenvolvimento de um pensamento outro.» Mais do que voltar a um humanismo coagulado, construir um humanismo que rejeite o robô. Mais à frente, para que não permaneçam dúvidas sobre o humanismo que o autor pretende, ele explica melhor: «Enquanto isso [a adesão acéfala ao cientismo, à mitologia, ao misticismo, à religiosidade ou à espiritualidade, ou pior ainda, à má literatura], os inquisidores vigiam, os guardiães da fé antropocêntrica afiam as armas, os defensores de um humanismo míope, incapazes de conceber uma evolução fora dos sistemas conhecidos e que têm acumulados danos, estão prontos a asfixiar o planeta e a humanidade inteira em nome dos princípios que se pretendam humanistas, humanitários

Rui Bebiano, numa recensão ao livro na Ler, nº73, em 2008 o seguinte sobre Kenneth White e O Espírito Nómada:
«White prefere associar a erudição à forma de errância que alarga a leitura do mundo e, através de «universos de substituição», liberta o humano do «universo concentracionários das civilizações». Neste livro, escrito há duas décadas, enunciam-se alguns dos caminhos que essa escolha poderá abrir. Atravessando múltiplos saberes, o autor procura conduzir o leitor até esse território radical, que chama de geopoética dentro do qual pretende unir a presença no mundo a uma estética que seja poderosa, comevedora e bela. Se o prestígio do «nomadismo intelectual» se afirmou pelo menos desde os românticos, Kenneth White é dos primeiros a conferir-lhe uma base teórica. (...)»

Da Deriva Editores, escrevemos na contracapa de O Espírito nómada este trecho de Kenneth White:
«Desde há alguns anos para cá, a palavra “nómada” anda no ar. De um modo vago e que necessita apenas de tornar-se preciso, designa o movimento que se esboça no sentido de um novo espaço intelectual e cultural. Mas nas nossas culturas mediatizadas, cada palavra, de imediato sub-traduzida torna-se pretexto para uma moda. Do que aqui se trata não é de um assunto de moda mas de mundo.»
«O nómada que existe em cada um de nós como uma nostalgia, como uma potencialidade, não tem a noção de identidade pessoal, a «consciência de si» é-lhe estranha. Sem dizer «penso» ou «sou», põe-se em movimento e a caminho faz melhor do que «pensar», no sentido denso da palavra, enuncia, articula um espaço-tempo de múltiplas focalizações que é como que um esboço do mundo.
O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes.
Neste livro onde se encontrarão portanto mais peregrinações que problematizações, mais mapas que retratos, o prazer de peregrinar acaba por levar a melhor sobre o desejo de saber (aumentar e renovar o campo do saber) e no final da viagem será menos importante a questão de saber do a de ver no vazio.»

Para ver mais sobre a Deriva Editores e o autor

http://derivadaspalavras.blogspot.com/search/label/Kenneth%20White ou no marcador Kenneth White em baixo

De qualquer modo o pensamento de Kenneth White e a sua geopoética não se afasta muito da deriva que sempre propusemos nos 15 anos em que editámos. Foi dos melhores livros publicados, daqueles que nos orgulharemos sempre.

António Luís Catarino
Coimbra, 26 de Julho de 2019 (onze anos depois)

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Capa da edição de O Espírito Nómada de Kenneth White pela Deriva Editores
Autor da capa: Gémeo Luís

quarta-feira, julho 17, 2019

Série, a morte fica-vos tão bem: 1. Yukio Mishima

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25 de Novembro de 1970: Yukio Mishima apela à insurreição militar
antes de pôr termo à vida através de seppuku

Li Mishima muito novo. Se eu vos dissesse demasiado novo seria o argumento que Mishima utilizou para explicar o monte de livros que leu na infância e que o levou à melancolia que por vezes assolava a sua vida. Para mim e para os que me rodeavam, nos anos 70, o autor aparecia-nos como uma espécie de herói maldito, incompreendido, solitário e encontrava-se no panteão dos melhores escritores. Defendíamo-lo do facto de ser de extrema-direita porque esse rótulo era demasiado redutor para um tipo da sua estirpe. Bastava ser um excelente escritor que reflectia igualmente as nossas preocupações, frustrações e caminhava connosco na recusa total ao capitalismo que tudo subtrai à autenticidade e soma em voragem de espíritos livres. Bastava-nos isso e o seu visível niilismo. 

A sua morte deu-se a 25 de novembro de 1970 tentando um golpe de estado que fracassou num Japão já rendido ao esquecimento dos valores tradicionais samurais e da mística imperial. Agora pontificava o imperialismo americano. Asseguro-vos que tanto eu como os meus amigos pouco falámos então desse seppuku, ação que nos pareceu óbvia em Mishima, mas que contudo não a compreendíamos por completo. Li, na ocasião, O Marinheiro que perdeu as graças do mar e O Tumulto das ondas. Foi com alguma sensação de desconforto que vi as imagens de uma sessão de Yukio  Mishima na Universidade de Tóquio efervescente, em 1968, onde vários estudantes de capacete militar e em atitude agressiva o insultavam e não deixavam ouvi-lo. Recusou então protecção policial e clamava pelo que então, pensava, os unia: a sociedade moderna, o capitalismo, o consumo desenfreado e a tecnologia. Não suportava um exército japonês sem armas e o fim do culto ao imperador, factos que não podiam ser aceites pela esquerda. Nunca o poderiam ser.

Dois anos depois, faz outro discurso agora na parada de um quartel: sequestrou o ministro da defesa e ele mais seis seguidores com as tiras de kamikase na cabeça e fardados proclamam um novo Japão e apelam aos soldados que se revoltem e assumam o poder. Ridicularizaram-no e riram-se dele na parada do quartel enquanto as forças especiais entravam de rompante nas salas procurando o grupo de Mishima. Antes, porém, libertando quatro jovens seguidores pede ao seu braço direito que o ajude a fazer o seppuku. Ajoelhando-se com as pernas em cruz, usa um pequeno punhal para esventrar-se, enquanto o seu companheiro lhe corta a cabeça com um sabre. Depois, este último, mata-se.

Quando, nestes dias passei por uma livraria, vi um livro de Yukio Mishima que não sabia que existia. Vida à venda editado pela Livros do Brasil e com tradução de Hélder Moura Pereira. Levou 51 anos a chegar a Portugal. É evidente que não o li da mesma maneira que o lia quando tinha 16 ou 17 anos, mas a minha emoção foi a mesma. E relaciono-me, por vezes mal, comigo e com o mundo, porque sei no que ele se tornou e no pesadelo que poderá vir a tornar-se. O seu acto foi, até certo ponto, um mau presságio. Mishima era um soldado aristocrata adepto das artes marciais e obcecado pelo corpo. Escrevia dando asas à melancolia já citada e à raiva e mesmo ódio que sentia pelas baratas, ou picles avinagrados, que equiparava às pessoas com quem se cruzava na rua. Tentava extirpar a sua consciência provavelmente para se sentir num eterno vazio que só conquistou com a sua morte. Também via baratas a saírem das letras de jornal, metáfora para a manipulação das ideias e dos espíritos, através da conspiração universal que destruiria a heterogeneidade dos povos e particularmente a cultura japonesa.

Partilho convosco algumas dos trechos que sublinhei tentando entendê-lo melhor dois anos antes da sua morte, visto que este livro foi escrito em 1968:

«(…) – Sim – respondeu calmamente Hanio. – Porquê a surpresa? Já toda a gente percebeu que a vida humana não tem qualquer sentido e que as pessoas não passam de meras marionetas. Portanto, porquê tanta admiração?»

«(…) Agora, deve ser capaz de alcançar com os dedos o objeto duro e negro que está em cima da mesa. Segure-o bem. Isso mesmo. Mas não toque ainda no gatilho. Leve-o agora devagar até junto da cabeça. Tenha calma e relaxe os ombros. Sente-se melhor assim, de certeza. Pressione o cano contra a têmpora. Deve estar um pouco frio, mas agradável, não é? Transmite uma certa sensação de frescura, não acha? E também de alívio, como quando se tem febre e se aplica uma pacho de água fria na testa. Agora, com cuidado, ponha o indicador no gatilho…»

«(…) Pensando bem, é a primeira vez que olho de perto para um corpo sem vida. Nem os corpos da minha mãe e do meu pai cheguei a ver assim. Um corpo morto faz-me lembrar uma garrafa de uísque. Quando se pega nela e cai, o conteúdo derrama-se. Nada mais natural.»

«(…) Pensou em si como já tivesse morrido. A moral, as emoções, tudo o resto – nada fazia sentido. Estava completamente livre. E, no entanto, o amor que acabada de morrer sentira por ele continuava a pesar-lhe na consciência. Não chegara à conclusão de que outras pessoas não representavam para ele mais do que baratas?»

«(…) Há já muito tempo que Hanio não ia à cidade. Não se via qualquer indício de morte. As pessoas estavam metidas até ao pescoço na sua vida quotidiana. Pareciam caminhar como se fossem picles humanos.»

E é com estas expressões e outras bem mais violentas que um tipo como Mishima na voracidade de se eximir a qualquer emoção para sentir-se livre, cai. 

António Luís Catarino
17 de Julho de 2019

sexta-feira, julho 12, 2019

Populismo à esquerda, precisa-se. Ou talvez não

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Não se admirem com o título. Chantal Mouffe defende mesmo isso no seu livro Por um populismo de esquerda (Gradiva, 2019). José Neves, que leio sempre com agrado, prefaciou-o não sem, contudo, nos avisar que num momento de aumento do populismo de extrema-direita e de direita nacionalista esta hipótese não deve ser descartada pela esquerda. Neste campo, tal como a autora, coloca o Die Linke, o Podemos, o Syrisa, o Bloco de Esquerda, La France Insoumise de Mélenchon e Jeremy Corbin do Labour (lá mais para a frente, Chantal Mouffe cita igualmente Bernie Sanders) como um exemplo de uma identidade populista de esquerda. Sintomático é referir que a autora, só de raspão, analisa os regimes populistas da América do Sul que poderão, com algum esforço, ser considerados de «esquerda».

Não sei se é forçado colocar alguns destes partidos referidos atrás na área «populista de esquerda». Comecemos por analisar o conceito de «populismo». Um partido populista é definido pela sua demagogia, pelo carisma de um chefe ou líder, e promove um conjunto de propostas demasiado fáceis de entender pelo «povo». No fundo propõe o que se quer ouvir pelos descontentes. Utiliza igualmente uma linguagem simples, rasteira, contra as «elites» e utiliza a propaganda e os media com as suas «verdades irrefutáveis», mesmo que estas não se possam provar.

Chantal Mouffe (C.M.) diz-se gramsciana. Vai a Antonio Gramsci encontrar os argumentos para propôr a construção de um populismo de esquerda contraposto ao populismo de direita e de extrema-direita. Refuta o que ela chama de «essencialismo» na área da esquerda, reconhecendo nesse tal essencialismo um obstáculo sério à refundação da esquerda visto que esta se encontra amarrada a conceitos rígidos de «classe» e de uma suposta luta entre «capital e trabalho». Inclui-se no pós-marxismo. A Gramsci vai «captar a multiplicidade de formas de combate a diferentes tipos de dominação». C.M. redefine este projecto como de «radicalização da democracia» perante a existência de uma «cadeia de equivalências» numa sociedade plural que articulasse as exigências da classe trabalhadora com os novos (já não são assim tão novos, digo eu) movimentos sociais emergentes de modo a realizar um «querer comum» processo que desembocaria numa «hegemonia expansiva», sendo que esta última expressão é de Antonio Gramsci, de novo. O povo passaria então a ser um sujeito político.

Nada a opor, se não a sua inexequibilidade. Um dos companheiros de C.M. foi Ernesto Laclau que define populismo como a construção de uma barreira entre dois campos: os «miseráveis» e «os que estão no poder». Recusa a ideologia. Aponta para a construção de um regime político que pode assumir variadas formas e com vários enquadramentos sociais. Não pormenoriza ou exemplifica, nem C.M. se dá ao trabalho de o fazer.

Depois de elaborar um historial da vitória do neoliberalismo agressivo de Tatcher dos anos 80, tenta conjugar vários filófosos citando Habermas, Crouch, Rancière e Carl Schmitt (sem dizer donde este vem e que filósofo e jurista foi e ao serviço de quem!) que opõe democracia ao liberalismo e a possibilidade de uma oposição entre igualdade e liberdade. Aqui vem o populismo proposto: a diferença entre «nós» e «eles» que deve ser o alfa e ómega de toda a actividade do populismo de esquerda. Creio que Mouffe tem razão ao apresentar a raíz da radicalização da esquerda nos anos 90 e princípio do século XXI naquilo a que chama de «movimento das praças» onde coloca o Occuppy, os Indignados de Espanha e as múltiplas manifestações de protesto que assolaram toda a Europa. Agora o que vem depois, as perspectivas que coloca aos movimentos sociais e aos partidos da esquerda é o mais problemático. Mas, por defeito, não descartemos a hipótese que ela propõe: diálogo com os movimentos populistas de direita de modo a influenciar os apoiantes que embora incomodados com a presença da extrema-direita, estarão lá só pelos protestos quase sempre legítimos. Apresenta números com Corbyn a chamar gente do UKIP para o Labour e Meléchon a retirar perto de 16% de votos directamente à FN de Le Pen.

Penso que aqui tocou na ferida dos «essencialistas» pelo que explica adiante as «diferenças» destes populismos, os de direita e os de esquerda. Os primeiros, têm o sentido de nacionalismo, da identidade, da força e são claramente neoliberais, talvez mais agressivos que os ditos liberais, eles mesmos. Não acreditam na igualdade e são ferozmente individualistas. O populismo de esquerda traduz-se num aprofundamento e alargamento da democracia radical, que recusa ser directa, por sorteio (David van Reybrouk defende o sorteio contra as eleições num livro que me veio parar às mãos e citado pela autora) ou somente representativa, embora reconheça um papel importante a esta última. O que ela chama de um programa «agónico» (ou marcial e heróico?) não será mais do que a construção de um «povo» que entende o seu inimigo como a «oligarquia». Não rejeita traços afectivos (?) de nacionalismo, nem uma liderança, bem diferente de um chefe ou de um líder incontestado. Para isso não poderemos contar só com a classe trabalhadora. Temos de contar com uma «cadeia de equivalências» sempre em contacto plural com o movimento LGBTI, feministas, imigrantes, classe média em situação precária, movimentos ambientalistas e ecologistas, etc. O objectivo é criar uma situação que leve a uma «nova hegemonia que permita a radicalização da democracia».

Insurreição e revolução são alternativas fora do baralho de Chantal Mouffe. Afirma não precisar, a esquerda, de um corte revolucionário, mas sim de uma espécie de dètournement do regime liberal-democrático! Portanto, os dados estão lançados: trata-se de aprofundar uma «democracia radical e plural», influenciando e transformando as instituições democráticas existentes.

C.M. defende que, para atingir a formação hegemónica do populismo de esquerda, dever-se-á colocar em causa o campo económico «essencialista». Junta a esse campo a natureza cultural, política e jurídica, numa articulação de «senso comum» no quadro normativo de uma dada sociedade. Nem mais! ... Venha daí o «senso comum» para ajudar à festa! E eu que pensava num esqueleto jurídico forte que evitasse esse senso comum, expressão tão liberal que é. Ora, recusando a extrema-esquerda (ainda há pouco uma polémica no Bloco de Esquerda levantou-se quando Catarina Martins, numa entrevista, recusou esta matriz para o Bloco, substituindo-o por «radical») Chantal Mouffe apresenta-nos três tipos de política à esquerda:

«Reformismo puro» que aceita os princípios da formação social neoliberal.

«Reformismo Radical» que aceitando os princípios da ordem liberal, procura pôr em prática uma formação diferente.

«Política revolucionária» que exige uma ruptura total com a ordem social e política existente. São os nefastos marxistas-leninistas-trotskistas, bem como os anarquistas.

Como já devem ter reparado a autora pertence à segunda opção enquanto que os outros são os essencialistas (mesmo os que defendem hoje os princípios fundadores da social-democracia) que recusam ver o Estado como um campo neutro como os reformistas radicais o querem construir. Ou seja, o objectivo não é tomar o poder do Estado como diz Marx, mas «tornar-se Estado» como ela diz que disse Gramsci (em que conjuntura, pergunto eu?).

Reivindica, a autora, uma dimensão de luta anticapitalista, mas não dá essa hegemonia à classe trabalhadora. Hoje, segundo C.M. (e eu concordo) há cada vez mais um discurso anticapitalista em vastos sectores da população, mas não necessariamente de esquerda. Se assim é, só o reformismo radical está em condições de o captar. O que eu não consigo concordar é a aparente desvalorização do trabalho que parece emergir aqui.

Finalizando: depois de Marx, Bakunine, levarem das boas neste livro, nem Hardt e Negri estão a salvo. Defendendo a democracia representativa, Chantal Mouffe, ataca estes últimos autores por causa da sua estratégia de renúncia, deserção e êxodo para que se crie uma alternativa anticapitalista com a inevitabilidade de tomar o poder com uma imensa multidão (os 99%?) e apta a conquistar os meios de produção. É lógico, que tanto Hardt como Negri defendem a estratégia do «comum» que não existe em nenhuma Constituição iluminista. A propriedade ou é privada, pública, cooperativa, mas «comum» está quieto!... Mouffe chega ao ponto de não rejeitar os partidos políticos e os parlamentos actuais que ainda desempenham, com todas as maleitas, um papel simbólico. Pergunta-se, humildemente, de quê? Conclui, Chantal Mouffe, afirmando entre outras coisas, a inadequação da palavra «comum» e a crítica à crítica da democracia parlamentar, ainda fogosa, não fossem os reformistas radicais propor torná-la ainda mais representativa.

António Luís Catarino
12 de julho de 2019