terça-feira, dezembro 31, 2019

Dora Bruder, de Patrick Modiano


Dora Bruder
Patrick Modiano é um dos melhores escritores contemporâneos. O espírito de síntese nele é admirável, expurgando e limitando o adjetivo, a frase bombástica, o espírito doutoral de nos dar lições, a frase idiomática, o intrincado pensamento de uma situação ou de uma emoção que só quem escreveu conhece...daí, uma escrita límpida e limpa, escorreita, cujos factos falam por si e, se quisermos, vêmo-nos a pensar neles profundamente . Quase sempre o queremos, garanto. Dele ainda li muito pouco: «La Place d’Etoile» que foi o seu primeiro livro, «Dans le café de la Jeunesse Perdu», «Pour que tu ne perdes pas dans le Quartier» e, agora «Dora Bruder» que o escreveu em 1997, na Gallimard. É deste último que vos quero falar. Talvez um dia deixe registos dos outros. Ameaço, sim.

Dora Bruder, não está presente. Ou melhor, não existe fisicamente, mas toda a linha de narrativa a vai encontrar. No entanto, Patrick Modiano segue-lhe o rasto desde que, ocasionalmente, lê um anúncio no Le Soir de 1942. Alguém que procura uma menina, Dora Bruder, porque necessitam de saber o seu paradeiro urgentemente. O seu remetente é um pequeno hotel, em Paris, onde vivem os seus pais. O pai, 100% de incapacidade, gaseado na I Guerra Mundial, não se sabe a sua profissão. A mãe, costureira, é doente e francesa «ariana» tal como a polícia da ocupação a regista, por imposição alemã. Primeira interrogação: o que leva, em 1942, ano de terror total por parte das gendarmeries para com os judeus franceses que eram entregues no campo de Tourelles, depois na prisão de Drancy com destino a Auschewitz e Dachau, a publicar um anúncio desesperado por uma jovem judia de 18 anos, não reconhecendo o perigo de ser toda a família descoberta pela Brigada de Tratamento dos Judeus Franceses? Bom, o resultado foi a prisão do pai, o enfranquecimento físico e psicológico contínuo da sua mãe e, como «amiga» de judeus, deportada igualmente para Auschwitz mais tarde, quando as leis nazis começaram a apertar ainda mais. Mas ainda vê a filha em Paris.

Dora Bruder não aparece em fotos ou fisicamente como se disse atrás. Se Patrick Modiano o fizesse ou conseguisse entrevistá-la em 1997 teria ela 90 anos. Foi possível falar com algumas amigas que estiveram no campo de Tourelles, depois em Drancy e fim da viagem em Auschewitz. Foi este o roteiro. Antes, Dora Bruder passou por um reformatório de freiras, durante 8 anos, portanto, desde os dez. Pensaria o pai que assim a protegeria? Segundo a madre superiora ela era uma rapariga rebelde, independente, amada pelas colegas, agreste para com as freiras e registada a sua fuga definitiva em 1942 (houve várias anteriores). Esteve meses escondida. Onde? Quando foi apanhada sem a braçadeira amarela de judia foi imediatamente presa na casa dos pais, denunciada pelos vizinhos que ainda afirmaram aos gendarmes que era habitual Dora Bruder andar na rua sem a estrela de David (alguns judeus tentaram assim escapar sem sucesso). O nojo sobe-nos à boca! Com ela foram presas mais cinco judias, devidamente registadas nos arquivos de hoje, sendo a acusação mais comum não usarem a braçadeira identificadora. A seguir vinha a tentativa de fuga para a «zona livre» de França. Nunca mais sairam da prisão. É por aqui que Patrick Modiano sabe mais de Dora Bruder por depoimentos que ouviu de companheiras dela e nos registos encontrados nos campos e prisões. No fim da leitura do livro, sentimo-nos com emoções desencontradas. Não é só o genocídio nazi. É a submissão total aos totalitaristas alemães de alguns (muitos) franceses e insituições francesas que faziam o trabalho sujo de denúncia, prisão e entrega aos esbirros das SS. Também nos interrogamos que vida viveu Dora Bruder, esta jovem cuja liberdade foi refreada anos a fio desde Paris até à sua morte em Auschewitz. E nos outros países ocupados pelos alemães, como foi?

Mas houve quem se revoltasse para além da Resistência organizada. Pessoas que se solidarizaram com os judeus e contra a ocupação. Assumo toda a responsabilidade da rápida tradução de Modiano:

Sobre a solidariedade para com os judeus: «Entre as mulheres que Dora pôde conhecer em Tourelles encontravam-se aquelas a quem os alemães apelidavam ‘’amigas de judeus’’: uma dezena de Francesas ‘’arianas’’ que tiveram a coragem de, em junho [de 1942], no primeiro dia em que os judeus deveriam usar a estrela amarela, as trazerem no braço em sinal de solidariedade, mas de um modo fantasista e insolente para com as autoridades de ocupação. Uma delas colocou uma estrela no pescoço do seu cão. Uma outra, bordou por cima da estrela a palavra Papou. Outra: Jenny. Outra ainda coseu oito estrelas à cintura e em cada uma figurava a palavra Victoire. (...) Presas em Drancy, exerciam as seguintes profissões: dactilógrafa. Empregada de uma papelaria. Vendedora de jornais. Mulher de limpezas. Empregada dos PTT. Estudantes.»

Sobre a ação da Polícia Juciária e Polícia Municipal Francesas  nas leis antijudaicas: «I-Judeus - homens de 18 anos ou mais: Todo o judeu  em infração será enviado para a prisão sob a responsabilidade de um comissário municipal com a ordem de envio especial e individual estabelecida em dois exemplares (a cópia é destinada a M. Roux, comissário divisionário, chefe das companhias de circulação – secção prisão (...) 2 – Menores dos dois sexos entre 16 e 18 anos e mulheres judias: serão igualmente enviados para a prisão sob a responsabilidade dos comissários municipais seguindo os modelos já descritos [eram procedimentos administrativos pormenorizados sobre a situação pessoal, profissional, económica, etc. de cada judeu]. A permanência na prisão dependerá dos documentos registados e o envio dos originais à Direção de Estrangeiros e das Questões Judaicas, a quem, depois do parecer da autoridade alemã, decidirá sobre o seu caso. Nenhuma iniciativa será efetuada sem uma ordem escrita desta Direção». Para que fique registado o nome da Direção da Polícia Judiciária era um simples Tanguy, assim como da Direção da Polícia Municipal era um não menos ambíguo Hennequin!

Sobre os regimes de internato jovem, Modiano conta a sua própria experiência de fuga que transporta para o colégio interno onde esteve Dora Bruder perto de 10 anos: «Lembro-me a forte impressão que tive após a minha fuga de janeiro de 1960 – tão forte que creio nunca ter conhecido sensações semelhantes. Foi a bebedeira de cortar, de um só golpe, todos os laços: rutura brutal e voluntária com a disciplina que se nos impõe, o colégio, os professores, os companheiros de sala de aula. Decididamente, não conseguirão fazer nada com este tipo de gente; rutura com os pais que não souberam amar-nos e em que se afirma que nunca deverão esperar algum futuro de nós; sentimentos de revolta e solidão presentes na incandescência e que nos corta a respiração e nos coloca no vazio. Uma das raras ocasiões da minha vida, sem dúvida, onde fui verdadeiramente eu e onde caminhei com o meu próprio passo.
Este extâse não poderia durar muito tempo. Não teria nenhum futuro. Mais depressa do que julgamos somos quebrados pela nossa situação.

A fuga – parece-me – é um apelo de ajuda e muitas vezes em forma de suicídio. Provam, até, um breve sentimento de eternidade. Não cortaram somente as ligações com o mundo, mas igualmente com o tempo. Ele chega ao fim de uma manhã, o céu de um ligeiro azul e que niguém nos pesa com a sua presença. Os ponteiros do relógio do Jardim das Tulherias estão imóveis para sempre. Uma formiga não chega a atravessar a largura do sol.»

Dora Bruder, sentir-se-ia assim quando da última fuga. É possível, segundo Modiano, que estivesse na casa da mãe onde foi presa, na casa de amigos, na casa de «amigos de judeus» ou simplesmente na casa de 5 jovens judeus escondidos nas águas-furtadas de um prédio no próprio boulevard onde a mãe habitava. A questão não é contudo só essa. É que todos somos Dora Bruder, se a banalização desta frase hoje não tivesse o sentido que na França de 42 se dava num sentido mais vital. Lá, era a vida ou a morte. Com todos a contemplar e a trair. Provavelmente, cidadãos imaculados de qualquer crime e de não quererem interiorizar que os cometeram. Escondidos, atrás das cortinas.

António Luís Catarino
Delémont, Suiça, 31 de dezembro de 2019

domingo, dezembro 29, 2019

O Labirinto espanhol de Javier Cercas

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Javier Cercas é um «escritor de sucesso», seja lá o que for que isso signifique. Para esse epíteto é necessário que o autor seja reconhecido com mais de 30 prémios nacionais e internacionais (lá se encontram os jogos florais de escritores que dão pelo nome de Correntes d’Escrita), seja traduzido pelo menos por cinco línguas estrangeiras e seja considerado como possível Nobel. Ele tem tudo isso e até mais. A capa do livro que eu li «El Monarca de las Sombras» tem «Best Seller!» lá inscrito. Ainda tentei com a unha do polegar direito descolá-lo, mas não, era mesmo uma inscrição na capa. Certezas de editor, digo eu!




O autor escreveu antes, em 2001, «Os Soldados de Salamina» que descrevia o combate de um republicano que, com a sua coluna, combatia os fascistas, falangistas e destacamentos «mouros», sendo que o herói era aquele. Estava escrito, escrito estava. Nada a fazer perante uma sociedade ainda hoje dividida em dois e cujos direitistas o recriminaram por passar uma esponja sobre os crimes levados a cabo pelos voluntários da II República, destacando os massacres perpetrados pelos franquistas, exagerando-os. Javier Cercas prometeu a si próprio nunca escrever um livro que «anulasse», pela ambiguidade ou suposta imparcialidade, que aliás ele sempre recusou para com Franco, a mensagem de que a razão estava do lado da República, fossem eles socialistas, comunistas, republicanos radicais, anarquistas e os brigadistas internacionais abandonados mais tarde pelas democracias ocidentais e pela URSS.

Seja. Mas esta posição louvável do autor aconteceu em 2001 e num par de anos depois... estamos agora em 2017 (data da saída de «El Monarca de las Sombras») e muita água passou debaixo das pontes. Assim, ele que nunca escreveria nada que propusesse alguma condescendência para com o franquismo, viu-se no meio de uma enorme hesitação em escrever, afinal, o que nunca disse que escreveria. Tratava-se da sua família fascista e particularmente de um tio, Manuel Mena, cuja história era contada pela mãe dele, entre sombras e dúvidas, entre silêncios e contradições. Manuel Mena era falangista, um camisa azul (também por lá os havia), seguidor fanático de Primo de Rivera e que tinha as suas contas a tratar com Franco de quem não gostava. Morreu com 19 anos e quando, aos 17. se inscreveu no 3º Batalhão dos Tiradores de Ifni, ainda brincava com a sobrinha mais velha, mãe de Javier Cercas. Eu compreendo a sua necessidade em escrever esta história e lê-la com a atenção devida não indo atrás da porcaria do Best-seller com que os editores afastaram alguns leitores. O homem é mesmo bom escritor, e a história arrebatadora, mas adiante.

Manuel Mena morreu aos 19 anos na Batalha do Ebro que foi o corredor para a tomada final de Barcelona, sendo que Madrid resistia ainda. Essa outra grande batalha pela posse da capital aconteceu após a Batalha de Teruel, onde esteve Manuel Mena na linha da frente, tio-avô, portanto, de Javier Cercas. Foi ferido cinco vezes, três das quais foi hospitalizado por declaração do médico de campanha. As outras duas não se sabe como aguentou. Veio a casa aquando dos ferimentos graves por uma semana. Na última antes do funeral, mostrava-se já farto da guerra e custava-lhe ir outra vez para a frente de combate, sendo ele aos 19 anos um veteraníssimo da guerra e um jovem cansado. Não era por motivos ideológicos, mas familiares como se poderá antever pela leitura do romance.


O labirinto que travava Javier Cercas em busca de uma saída deu-se quando a bisavó de Manuel Mena entendeu queimar todo o espólio dele. Nada restava a não ser um velho retrato com farda de gala de alferes e medalhado com a mais alta condecoração do exército rebelde. É nesse labirinto que nos entranhamos nas sombras que ainda hoje existem em Espanha. Nos inquéritos a várias personagens o silêncio imperava até que na estrada sinuosa dos vários arquivos Javier Cercas foi deslindando, sem que, mesmo nesses documentos os erros de registos de acumulassem. Manuel Mena, falangista, não morreu na Batalha do Ebro como se pensava. Aliás, militares contemporâneos e generais de Franco não entendiam a sua estratégia. As duas Batalhas mais sangrentas de Espanha (Teruel e Ebro) podiam ter sido evitadas poupando a vida a 200 mil homens de ambos os lados, sendo que em Teruel perante um ataque republicano que dividiria o sul franquista em dois, preferiu-se o combate quase corpo a corpo, evitando-se uma retirada e posterior cerco pelo Norte. O mesmo em Ebro: as forças republicanas acantonadas nas margens do Ebro, não barravam o caminho para Barcelona. Bastava rondá-las e entrar por Aragão. Mas não, não era incompetência de Franco, era, antes, a sua política de extermínio total dos inimigos que durou até 1975.  

Javier Cercas quis saber da sua família. Ela aí está neste livro, na aldeia de Iberhando no Distrito de Badajoz, perto de Cáceres e com raízes conservadoras e direitistas profundas. Mas para um leitor comum não deixa de ser literariamente muito forçado para o tentar equiparar a Ulisses ou Aquiles ou mesmo Quixote, buscando citações aqui e ali que demonstram o que «é o Homem». Manuel Mena escolheu o seu lado numa extensa luta de classes, onde os menos pobres dos camponeses se aliaram aos grandes e os mais pobres do pobres viram na República (mesmo com as suas contradições e traições intestinas) uma porta aberta para a dignidade que os operários exigiam há muito. Sim, o Homem é capaz do melhor e do pior, é tão violento como promotor de solidariedades, a guerra é mesmo assim, a banalidade da morte faz-nos anestesiar perante o mal (Javier Cercas chega a nomear Harendt, Ortega y Gasset e Unamuno), mas tanto Humanismo chega! Até porque sabemos que os dois últimos têm telhados de vidro... Mesmo na emoção sentida da mãe de Manuel Mena que no seu funeral sem lágrimas, e com a saudação romana, brada «Arriba España! Querido Manolo. Arriba España!» Um dos amigos de Manuel Mena, que pertencia ao mesmo 3º Batalhão de Tiradores de Ifni desabafou com Javier Cercas: «Una mierda la guerra!». «Como morreu Manuel Mena? Com um tiro de espingarda que lhe entrou pelas costas e alojou-se no peito, num morro que nada tinha de estratégico. Morreu com dores terríveis e a gritar! Quando o levaram ao hospital de Bot, já na Catalunha, não foi logo atendido porque não havia lugar para ele. Os quartos do 1º andar estavam ocupados por majores, tenentes e coronéis, mais altos em graduação mas com ferimentos de menor gravidade do que ele! Manuel Mena não pertencia aos ricos! Esteve duas semanas abandonado, a agonizar, no rés-do-chão.»


Assim morreu Manuel Mena de Iberhando, aos dezanove anos, cinco ferimentos em numerosas batalhas levando possivelmente o fanatismo de Primo de Rivera com ele. Heróis? Há heróis nas guerras?

António Luís Catarino
Delémont, Suíça, 29 de dezembro de 2019

Nota: a edição portuguesa é da Assírio e Alvim.

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Expurgar o revisionismo histórico: o Estado Novo foi fascista


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Depois de ler um autor revisionista da história do Estado Novo imposto pela Ditadura Militar em 1926, depois Ditadura Nacional já com Salazar ministro com plenos poderes e após a Constituição orgânica e corporativa do Estado Novo, em 1933, sendo Salazar presidente do conselho, tenho para mim que o que fiz melhor foi pegar e ler rapidamente o livro de Fernando Rosas «Salazar e os Fascistas». Poderia ter sido outro. Mas este é um livro que deveria ser de leitura obrigatória no Ensino Secundário. Aliás, não entendo como nas disciplinas de Português, Literatura, Inglês, Francês ou Espanhol e Alemão há livros de leitura obrigatória e/ou recomendada e não existem para a História, Filosofia, Física e Química, Artes e Design, etc. Sinceramente, custa-me a entender.

Fernando Rosas (FR) inicia o estudo a elencar as lutas revolucionárias da esquerda logo após a Revolução de Outubro de 1917, todas votadas ao fracasso: em janeiro de 1918, guerra civil na Finlândia, novembro de 1918, revolução conselhista na Alemanha; Greve geral em Portugal e na Suíça; Em 1919: em janeiro insurreição spartakista de Berlim (10 dias); março: nova greve spartakista em Berlim; Comuna da Hungria,com Bèla Kun (4 meses); abril: insurreição comunista na Áustria (1 semana) e República dos Conselhos em Munique (Baviera); junho, segunda insurreição na Áustria; julho: República dos Conselhos na Eslováquia. Ainda no ano de 1919 greves significativas na Catalunha (com ocupações de fábricas e terras), ofensiva grevista que durou até 1920 em Portugal, greves rurais e industriais com ocupações no Norte de Itália e agitação social aguda em França. 1921, tentativa de greve geral na Roménia e mais uma insurreição na Alemanha, agora em Bremen. 1923: insurreição comunista na Bulgária e no Saxe e Turíngia, na Alemanha. 1926: greve geral na Inglaterra e em 1927, choques armados contínuos em Viena de Áustria entre socialistas radicais e polícia com um rasto de 189 mortos.

É possível que todas estas revoltas fracassadas tenham sido da responsabilidade da Internacional Comunista (IC) com a sua visão rígida de exportar a revolução socialista para todo o mundo. Sabe-se, por exemplo, que Zinoviev esteve poucos dias antes na Alemanha a preparar a insurreição e que Rosa Luxemburgo não concordou que houvesse condições objetivas para a desencadear, mas, ainda assim tendo participado nela, o que lhe custou a vida e a Karl Liebneckt da Liga Spartakista. Houve de facto influência nalguns casos, mas a proliferação em toda a Europa em países onde nem sequer havia delegados da IC leva Fernando Rosas a considerar que os operários e trabalhadores se encontravam numa situação precária quer de condições de vida, quer de repressão ativa a qualquer ação associativa, sindical ou política por parte do demo-liberalismo republicano ou monárquico-constitucional. O que se passou na Rússia em 17 terá aumentado o otimismo no seio dos operários e ousarem a insurreições preparativas de revoluções. Depois, recuaram numa atitude defensiva, decapitadas que estavam as suas direções.

Se quisermos ver, cronologicamente, a derrota sangrenta (muitos milhares de mortos, deportados, presos e torturados) na repressão a estes acontecimentos, veremos que se dão antes da ascensão dos movimentos fascistas. Não durante, embora houvesse tentativas de combater o fascismo tranformadas em arruaças e manifestações sem grandes consequências. Portanto, o movimento fascista é epocal e tem traços comuns embora divirjam aqui e ali nos seus objetivos e propósitos, assim como no modo de ação com vista a tomar o poder. Excetuando a Itália que, em 1922, entregou o poder a Mussolini, o combate por este foi mais tarde.  As «leis fascistíssimas» datam de 1928. A época do totalitarismo ronda aos finais dos anos 20, princípios dos 30. O fascismo aliou-se claramente às direitas: integralistas, nacionalistas conservadoras, patronais, tradicionalistas, cristãs ou plebeias e foi dessa fusão, em que não está isento a extinção de movimentos internos «inconvenientes» que o fascismo se reforça. Nunca foi sozinho para o poder. Foi-o acompanhado e afastando sem qualquer rebuço os seus inimigos internos e externos, pretendendo confederar num partido único submetido ao Estado totalitário, regido por um chefe, um fuhrer, um capo, um conductore ou um duce.

Ou seja, o fascismo não chegou ao poder devido às insurreições fracassadas. A esquerda operária e trabalhista já estava derrotada antes pela social-democracia e socialismo reformista que a viam como inimigo a abater. Foi relativamente fácil aos fascistas e aos nazis derrotarem, agora, os democratas já em decadência.

E aqui Fernando Rosas avisa-nos para as taxonomias que limitam a definição de fascismo. Ora uns são autoritários, outros são conservadores católicos, outros tradicionalistas monárquicos, e por aí fora. Se formos utilizar este processo de negação, ou seja, se riscamos destes regimes um só item que classificamos como «fascista» poderemos chegar à conclusão óbvia que só há um: o nazismo antissemita! Os regimes fascistas apresentam diferenças óbvias produzidas pelas condições de acesso ao poder.  Não encontramos milícias em todos, nem sistemas corporativos (aliás, também os houve no demo-liberalismo), tradicionalistas ou católicos, com constituições ou sem elas (Hitler, por exemplo, nunca revogou a constituição de Weimar de 1919. Não necessitava dela para nada!).

Sublinha Fernando Rosas que é esta diversidade que confere exatamente a identidade comum aos regimes fascistas. Não a identificação rígida de cada um como um «caso» externo à extrema-direita.
Pensemos nas vítimas e na política de extermínio lavada a cabo pelos regimes fascistas e nazis, principalmente na Alemanha. Fernando Rosas dá-nos uma visão interessante: a prática do extermínio já vinha de antes do nazismo sem que se tenha levantado um dedo. Vinha dos impérios e das políticas coloniais levadas a cabo, nos finais do século XIX e antes, pelas potências ocidentais. Fernando Rosas lembra-nos, num quadro, em que consistiu esse extermínio tomado como normal nas mentes das elites e populares do ocidente: Sri Lanka, 4 a 10 milhões de pessoas, em 1920 era somente de 1 milhão; Argélia: 3 milhões de pessoas entre 1830 e 70, depois da colonização, 2,3 milhões; Congo: 20 milhões entre 1820 e 1920, no século XX 10 milhões; Costa do Marfim, entre 1900 e 1910 passou de 1,5 milhões para 160 mil pessoas; Sudão: de 9 milhões entre 1882 e 1903 passou para 273 mil. São números brutais. É fácil perceber que, cultural e politicamente, a população europeia e ocidental, no seu conjunto, transporia com alguma facilidade esta ação de extermínio nas colónias para os «diferentes» judeus, negros, ciganos, homossexuais, doentes mentais e físicos na Europa, juntando os opositores políticos elevados a associais.

Diz Fernando Rosas: «O Estado Novo configurou um fascismo conservador, resultante da unificação das direitas autoritárias e antiliberais e das direitas liberais civis e militares, rendidas à fascistização progressiva desse campo político e ideológico que integra subordinadamente o pujante movimento fascista plebeu dos ‘’camisas azuis´´, expurgando este das suas lideranças críticas do «conservadorismo» salazarista. Essa unificação e homogeneização realiza-se em torno da particular e indiscutível chefia carismática de Oliveira Salazar, no quadro de uma ''ditadura de chefe de Governo'' que constrói um regime nacionalista, corporativo, antidemocrático, policial, de características essencialmente fascistas».

O capítulo V «Os desafios do presente» é obrigatório ler. O tom um pouco pessimista de Fernando Rosas perante a vaga de populismos de direita que aí vêm é exposta sob o ponto de vista económico, social e político da época atual  em que a esquerda está nitidamente na defensiva, apesar das enormes manifestações que se podem verificar em todo o mundo. Saibamos aprender com a História.

António Luís Catarino
18 de dezembro de 2019

sexta-feira, dezembro 13, 2019

O estranho caso do Dr. Salazar nos ter salvo do não menos brutal Rolão Preto


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Por incrível que pareça ao ler este «Os Camisas Azuis e Salazar» de António Costa Pinto (ACP), lembrei-me da última endoscopia que me fizeram. Foi tramado. Descobri que na taxonomia do fascismo do autor não cabe a definição do Estado Novo português. Li, repetidamente, «republicanos conservadores» arrependidos, claro, da manhosa e violenta I República que foram o esteio do Salazarismo. Mas atenção. Ter-se-á de ler com muito pormenor o Dr. Costa Pinto: para chegar à Constituição de 1933, «orgânica» e «corporativa», evidentemente, o Dr. Salazar salvou-nos de um caos brutal liderado pelo não menos maléfico Rolão Preto e seus sequazes, fardados a camisa azul e que se autoproclamavam Nacional-Sindicalistas, afinal os verdadeiros fascistas portugueses imbuídos do espírito nacional e imperial e que odiavam o capitalismo especulativo, a burguesia obesa e parasitária, que advogavam a criação de milícias que lutassem contra o comunismo, o socialismo e o republicanismo democrático. Tinham um jornal que titulavam de «Revolução». Segundo ACP, os operários eram maioritários na organização seguido de estudantes universitários. Mas estes dados ter-se-iam de corrigir numa futura investigação, tal como o número de filiados que variavam entre 50 mil a 10 mil. ACP afirma que é melhor ficar pelos 20 mil que seria o número gémeo da recém-criada e balofa União Nacional. Que rigor! De 1931 a 1938 os NS tentaram as suas conspirações anuais através do exército ancorado nos «tenentes» da Liga 28 de Maio. Todos eles vieram do Integralismo Lusitano do famosíssimo António Sardinha que chegou a defender que éramos uma «raça» diferente da dos espanhóis!! Também havia os monárquicos do Paiva Couceiro, um grande militar que falhou todos os golpes em que se meteu. O último, antes de ser desterrado para os Açores fê-lo com Rolão Preto que se safou para Espanha. A PVDE chamava à ideologia NS de «comunismo branco».

António Costa Pinto, afirma em toda a sua obra que se tratava de uma rivalidade furiosa entre os fascistas da NS e do conservador autoritário, Salazar, que, entretanto, se travestiu de Ditador nos anos anteriores e que agora, com o apoio da Igreja insultada com os estatutos do Nacional-Sindicalismo que preconizava um futuro governo revolucionário nacionalista com «ateus e católicos» entre outros. «Balha-nos Deus!», se teria transformado outra vez em conservador mais cauto, mesmo com as instituições de cariz fascista.

A rede de influência de Rolão Preto não era de desdenhar e Salazar foi-se a eles com a UN e a possibilidade de quem se increvesse ter um empregozito. Foi, pois, a primeira cisão. A segunda deu-se quando de dentro do NS houve quem propusesse a integração plena no salazarismo, não na UN que era para os parolos e pessoal da administração local. Quem propôs? Nada mais do que o «Grupo dos lentes», de Coimbra, claro está. Chegaram a sondar Cabral Moncada para o Chefe, substituindo o bigodinho hitleriano de Preto. Até 1938 os arruaceiros e violentos NS definharam com os fiéis Dutra Faria, Barradas d’Oliveira, António Ferro, Manuel Múrias e outros que entretanto se passaram individualmente para o Estado Novo. Salazar, contudo, enquanto prendia e desterrava alguns da elite da NS  (ACP fica horrorizado quando não consta no «Livro Negro da Fascismo» os nomes da elite que então foram presos) como Alberto de Monsarraz que penou um único dia na prisão, enquanto outros sofriam horrores de duas semanas encarcerados.

Agora, destruídos os inimigos de Salazar e chamados ao «conservadorismo autoritário» foi criada a AEV (Ação de Estudantes Vanguarda) que teve vida efémera tal a quantidade de ex-NS que lá andavam à pancada principalmente com a FJCP, organização de juventude do PCP, e com os anarco-sindicalistas que, pelo que li deram mais porrada do que receberam. Aliás, o episódio da pancadaria de Coimbra em que 300 camisas azuis marcharam com estandartes pela Baixa, fez vários feridos entre os NS e o resto teve de refugiar-se no Hotel Avenida. Já os tiros que foram disparados contra o comboio que os levava a Braga para comemorarem o 28 de Maio foi reivindicado pela FJCP enquanto ferroviários anarco-sindicalistas tentaram descarrilar o comboio. A chegada a Braga foi um balbúrrio de chapadaria com mais feridos por parte dos «pretistas».

António Ferro, como se sabe, tornou-se o ministro da Propaganda de Salazar e por ele foram criadas as estruturas corporativas do Estado Novo e as organizações totalitárias de enquadramento da população como a Mocidade Portuguesa, a Legião Portuguesa (plena de lumpen dos NS), as Casas do Povo e festa, muita festa... e muitas prisões, torturas e mortes por parte da polícia política. Em nome do conservadorismo autoritário do Chefe (Quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!). «Não se discute Deus, A Família e a Pátria». A Autoridade vinha a seguir a estas palavras do discurso, mas não vingou na História. Isto não é fascismo, quiçá, baseado no mussolinismo que Salazar nunca condenou?

Nos anos 90 era assim: devemos a António Costa Pinto, a Rui Ramos e a um tal Filipe Menezes, o revisionismo histórico de não chamarem de fascista a quem o foi. Ao menos conservem o respeito que têm pelo homem, caramba! Mas em relação a «Os camisas Azuis e Salazar» lê-se um pouco demais para um livro de estudo «será necessário, no futuro, uma investigação mais profunda» em quase todos os capítulos. E os acrónimos, Dr.? Nós não somos bruxos, que eu saiba. Se não começo a inventá-los, para meu prazer. A revisão do livro é muito má.

António Luís Catarino
Dezembro, 13 de dezembro de 2019

segunda-feira, dezembro 02, 2019

O estado morreu, o cristianismo também, a ciência finge e Onfray não se sente lá muito bem.


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O estado morreu, o cristianismo também, a ciência finge e Onfray não se sente lá muito bem.

«Decadência – O declínio do Ocidente», de Michel Onfray

Que têm a ver as matérias fecais elevadas a arte de Piero Manzoni, farto de ser desconhecido, e que em 1961 as colocou à venda em latas de conserva numeradas e assinadas, que repentinamente tiveram um êxito absoluto e sendo hoje vendidas por colecionadores particulares a centenas de milhar de euros, com a possível beatização de S. Cirilo proposta por Bento XVI? E com a decapitação de Luís XVI e Maria Antonieta?

Aparentemente, nada. Mas na perspetiva da decadência ocidental de Onfray, tem. Arte, Filosofia e Política. Manzoni, após as declarações de morte da Arte nos finais do século XIX e inícios do século XX e mesmo que excreções humanas já tivessem sido usadas em quadros, arrisca-se a vender a sua merda por uns trocos (e que trocos!), S. Cirilo, bispo de Alexandria manda assassinar Hipatia em março de 415, destruindo uma biblioteca plena de textos clássicos e é em 2015 que Bento XVI propõe a beatificação desse grande bispo. A decapitação de Luís XVI inicia a descristianização e a degenerescência do próprio estado ocidental. A partir daí, tudo será possível em termos de autoritarismo legitimado pelo Iluminismo e pelo Humanismo. Hoje, nada nos dizem os conceitos de Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Portanto, advém igualmente a morte das Luzes. Hoje impera o vazio, o consumismo capitalista, o hedonismo serôdio, o egoísmo, as catedrais do dinheiro a criação propositada de crises sucessivas, a economia do desperdício. Mas nunca o fim da História segundo Fukuyama. A História é real, não a significação nem a simbologia do real. As ideias, porque inócuas hoje a Ocidente, submetem-se a outras realidades bem visíveis. A vitalidade ocidental está numa crise sem solução. Outras civilizações (Huntigton) estão num processo de grande vitalidade, nomeadamente os islâmicos, os chineses e os hindus. Substituir-nos, provavelmente sem darmos por isso, é exatamente o que fizemos ao longo dos tempos em que os Estados de Constantino e Teodósio se abraçaram ao Cristianismo de S. Paulo (que efetivamente se afasta dos Evangelhos e constrói uma igreja dominadora, inquisitorial e assexuada) a 3 séculos de distância da morte de Jesus. Foram dois mil anos de imperialismo, de submissão de povos, de massacres e guerras sem fim que culminam num século XX de horror nunca antes visto.

Não pensem que Onfray cai na ratoeira do alemão Oswald Spengler autor que, nos anos vinte, nos brindou com «O Declínio do Ocidente», embora o nosso autor nos consiga dar uma perspetiva clara e quase asfixiante dessa mesma decadência. Aliás, a sua tese de doutoramento foi exatamente sobre Spengler, mas recusa-o, obviamente, por este ser uma das bases filosóficas de sustentação do nacional-socialismo alemão. Declara o seu interesse por Samuel Huntigton em «O Choque das Civilizações» e em outras obras citadas abundantemente desde há mais de 2000 anos, não escondendo a sua simpatia por Epicuro e Lucrécio. Embora haja mais. Mesmo de livros clássicos que nunca tínhamos pensado existir.

As 624 páginas do livro não devem demover-vos de o ler. Aliás, se se começa não se consegue travar a fluidez do discurso e do pensamento de Onfray. Estejamos ou não de acordo com ele e várias vezes estive em desacordo. Onfray não é um filósofo no sentido clássico do termo (aliás, a filosofia ocidental morreu com o estruturalismo, segundo ele). É, antes demais, um pensador, mas um pensador rigoroso, um historiador genealógico, que demonstra o seu pessimismo através de factos e do estudo de leituras. O fim próximo que ele vê é o transhumanismo, purgante para uma visão não condizente com o otimismo ainda reinante que leva os tolos a dizerem que tudo se resolve com a Ciência, por futuros radiosos em que só se morre por acidente e em que não há trabalho, mas riqueza distribuída igualitariamente.

Palavras de Michel Onfray: «A Europa está para oferta ou para venda.Nem eu nem o meu leitor contemporâneo veremos quem a tomará e a quem esta velha coisa será vendida. No entanto, vários pretendentes parecem hoje notáveis. O judaico-cristianismo está esgotado; é um poder cujo tempo já passou. A estrela cadente volta a cair, faz parte da ordem do seu ser. A demografia testemunha o movimento das coisas, mas é uma disciplina de que os navegadores do real não querem ouvir falar: com efeito, é a atividade que produz imagens fiéis da realidade, mas é uma ofensa intelectual aos olhos dos que pensam que a realidade não existe e que, sobretudo, não querem que exista.  Contraria demasiado as suas ideias e preferem as ficções que os tranquilizam nas verdades que os inquietam.»

Mas isto lê-se na pág. 558. Terão de ler as anteriores se querem fruir este livro efetivamente bom.

António Luís Catarino
Coimbra, 2 de dezembro de 2019

terça-feira, novembro 26, 2019

José Mário Branco - FMI


Eu sei, José Mário, que abjuraste este disco. Mas arrepiei-me a primeira vez que te ouvi a dizê-lo, a cantá-lo, a emocionar-te e a nós, a rasgar a nossa pele e a vergonha de não nos inquietarmos o suficiente. Hoje isto está uma pasmaceira, uma pulhice de primeira água. Tinhas razão, sim.

José Mário Branco - "Queixa das almas jovens censuradas" do disco "Ser S...

Herberto Helder dito por Luis Miguel Cintra



Deve haver poucos a dizerem a poesia de Herberto Helder como ele, Luís Miguel Cintra. É um prazer nosso ouvi-lo.

domingo, novembro 10, 2019

George Steiner e a tristeza do pensamento

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Foto: Relógio D'Água

A questão é esta: como é que um livro de 40 páginas nos pode, através de um poder de síntese notável e que só os melhores dispõem, agarrar de tal modo? George Steiner tem esse dom. Quando li o último livro de Rui Pereira «Pensar em tempos de não-pensamento», cuja ficha de leitura se encontra neste blogue em http://derivadaspalavras.blogspot.com/2019/10/foto-rui-gracio-editor-rui-pereira-tem.html tive a feliz ideia, na esteira das questões levantadas pelo Rui, ler, logo de seguida, este «Dez razões (possíveis) para a tristeza do Pensamento». Parece-me, pois, que, na prática objetiva do ato de pensar, existe um lado solar e um lado lunar. Isto porque o ato de pensar não conduz necessariamente à tristeza. No entanto, o estudo de Steiner é demasiado claro para o pormos de lado. 

Steiner inicia o livro com uma citação de Shelling, em «Da essência da liberdade humana», quando escreve:

Tal é a tristeza inseparável de toda a vida finita, uma tristeza, porém, que nunca se torna realidade e serve tão-só para dar alegria eterna de a superar. Dela vem o véu de pesar que se estende sobre toda a natureza, a melancolia profunda e indestrutível de toda a vida
Apenas na personalidade há vida; e toda a personalidade assenta num fundamento sombrio, que, não obstante, tem também de servir de fundamento ao conhecimento.

E Steiner regressa a Shelling para nos avisar:

(...) e à asserção de que uma tristeza necessária, um véu de melancolia, se associa ao próprio processo de pensamento à perceção cognitiva. Poderemos nós tentar esclarecer algumas razões para tal? Teremos nós o direito de perguntar por que não deverá o pensamento humano  ser alegre?

Após esta introdução/aviso ao leitor, Steiner evolui paulatinamente e clareza  para os dez pontos sobre a possível tristeza no pensamento. Fastidioso era se eu as fosse enumerar todas, mas partilho convosco algumas afirmações de George Steiner:

·         A infinitude do pensamento é também uma «infinitude incompleta». Está sujeita a uma contradição interna para o qual não poderá haver qualquer solução. E continua, afirmando que essa contradição interna (aporia), esta inevitável ambiguidade, é inerente em todos os atos do pensamento, em todas as conceptualizações e intuições. Experimentem, provoca Steiner, escutar atentamente a torrente do pensamento e, no seu centro inviolável, irão ouvir dúvida e frustração. Não será necessário «pensar» muito para ver que sim, que é verdade. Não me atrevo aqui a dizer que eu sou um exemplo vivo..

·         A concentração completa não existe. Ela produz exaustão temporária, ou permanente, como acontece a certos jogadores de xadrez ou matemáticos do ramo da lógica. Eu acrescentaria outros, mas como se entende que esta concentração de que Steiner nos apresenta é provocada, torna-se evidente que o pensamento corrente, ou mesmo o de quando dormimos, é uma salvaguarda para a exaustão.

·         A originalidade no pensamento existe mesmo? Ou estamos somente no campo da retórica? Proponho: vamos pensar a utopia? Há quantos milénios o fazemos mudando apenas alguns pressupostos? Acreditem que só de ouvir falar em utopia já me sinto exausto, tal o número de variantes possíveis de construção.

E as palavras, o nosso pensamento, as ideias, as comparações tentadoras, as metáforas e analogias fluem neste livro incomum.

Steiner será um mestre em desfazer mitos de que somos tão carentes. Mas também, segundo ele, novos mitos levantar-se-ão, como quem repete de uma forma interminável, «novos» pensamentos.

Conclusão?

Entretanto, não é a discussão teológica ou filosófica que conduz o pensamento aos limites dos seus indispensáveis e sempre repetidos impasses. É, creio eu, a música, esse meio tantalizante de intuição revelada para lá das palavras, para lá do bem e do mal, em que o papel do pensamento, tal como o conseguimos captar, permanece profundamente fugidio. Os pensamentos demasiado profundos, não tanto pelas lágrimas como pelo próprio pensamento.
Pode muito bem que Sófocles tenha dito tudo na ode coral sobre o homem em «Antígona». O domínio do pensamento, da inquitante velocidade do pensamento exalta o homem acima de todos os seres vivos. No entanto, ele torna-o um estranho em relação a si mesmo e à enormidade do mundo.

Falta, propositadamente aqui, a exposição de Steiner de como o «pensamento» pode influenciar a «originalidade» e a chamada criatividade na arte, ou de como se os nossos neurónios não estivessem ligados química e eletricamente. Teremos nós o estudo da técnica, é certo, mas há gestos e «saltos» que o próprio criador desconhece.

António Luís Catarino
Coimbra 9 de novembro de 2019

«Schneller! Schneller!» ou uma flor amarela para Charlotte Delbo

Charlotte Delbo. Resistente das Juventudes Comunistas,
foi das poucas mulheres não-judias presa em Auschwitz
Foto: Club Editor


Livro estranho este. Pode um livro sobre Auschwitz, ser mais um livro sobre Auschwitz? Daqueles que inundam as livrarias para oferta do Natal que se aproxima e serão best-sellers garantidos? «Auschwitz e depois» de Charlotte Delbo é um livro diferente sobre o horror do programa nazi. Mas não só. Vêm lá todas as descrições consistentes e inequívocas dos campos de concentração, entre eles Auschwitz, somando o de Birkenau, campo da morte de onde ela pensava não poder sair e de Ravensbrück, campo só para mulheres, onde a autora também esteve; aliás, o seu último, antes da sobrevivência para a liberdade. Charlotte conta-nos o que já todos pensamos saber. O «Schnell! Schnell!» repetido e gritado constantemente aos seus ouvidos, sentir  e tentar ignorar os espancamentos das kapos judias, as horas intermináveis na neve, para a «chamada» dos e das SS, as trocas de rações miseráveis, o esgotamento físico e psicológico, por fim a morte, nalguns casos, salvadora. As descrições são-nos transmitidas com um profundo amor pelas companheiras, as que pereceram e as que se salvaram com ela. A sua escrita é de uma doçura paradoxal. Nada acomete a uma eventual e legítima raiva. Compreenderíamos. Vê uma flor amarela e isso vale como um raio de enorme felicidade. Na trilogia da sua obra «Nenhuma de nós há-de voltar» (Livro I), nos seus primeiros apontamentos, não aflora nenhuma fúria. Simplesmente não vê. Olha para o lado quando vê um monte de cadáveres nus com a tatuagem de um número que ela também tem no braço. Não olha para a fila de mulheres «inúteis», escolhidas pelos SS, que esperam a sua vez no laboratório, antes do block 25, o dos gaseamentos. Ajuda como pode as vivas, sente-se culpada pelas mortes das mais frágeis que ela. A sua irmã morre no campo, ao seu lado e ela pergunta-se o que dirás aos pais, sendo que Charlotte não a impediu de morrer. Não a protegeu como devia. A culpa advem-lhe, arrasadora, talvez pior do que as torturas praticadas nos campos.

O Livro II, «Um conhecimento inútil» e o III «Medida dos nossos dias» são espantosos e talvez raros, neste tipo de literatura, na sua descrição desiludida. É o «depois» aposto no título da trilogia. Após ser libertada pela Cruz Vermelha e aceite como refugiada pelos suecos foi repatriada para Paris onde, outrora, tinha sido presa pela Gestapo, como resistente. Após três anos, não se habitua à vida «cá fora». Acorda às 3 da manhã para a chamada e não mais adormece. Repete-se o  schnell, schnell, papéis, papéis, contagens, burocracias infinitas para quem não tem já forças. A família que a afasta por estar «desequilibrada». A luta pela herança do pai e o ataque jurídico da madastra. Cansa-a como nunca. Cá fora é tudo schnell, schnell...é internada, casa-se, divorcia-se, tem uma filha, quer estudar, tem de fazer a estúpida contabilidade do pequeno hotel  herdado. Consegue, todavia, estudar e ainda juntar-se com as antigas companheiras de Auschwitz...nos funerais de alguma delas. Todas riem e contam histórias do campo. 

Nascida em 1913, sai de uma insuportável  França rendida aos fuzilamentos dos colaboracionistas e desconfianças para com alguns resistentes. Ajuda ainda um que consegue provar a sua inocência. Vai para a Suíça. Consegue trabalho na ONU e, passados muitos anos, volta para Paris onde foi assistente de Henri Lefevre. Morre em 1985. Nunca se habituou, creio, ao quotidiano.

Deixo-vos um extrato de um dos seus últimos poemas:

(...)
«Regressar não é tudo
É regressar para nos voltarmos a pôr a viver
A viver todos os dias
A trabalhar e a ter dívidas
A poupar para pagar as dívidas
A vender sabão
Porque não sabemos fazer outra coisa
A voltar para o escritório
Porque não sabemos fazer outra coisa
Na vida de todos os dias a procurar onde morar
Porque não se pode viver de outro modo
A estar a horas
Porque no trabalho é preciso estar a horas

De que vos queixáis?
A vida é a vida com que sonháveis lá?
(...)»

Creio que todos nós entendemos a analogia de Charlotte Delbo neste poema. Mas só uma leitura completa dará a verdadeira dimensão desta grande escritora, para muitos desconhecida. Os seus livros foram escritos em 1961 mas só publicados em 1970-71, porque entendia que a sua escrita não refletia completamente o terror passado nos campos.

A edição é da BCF Editores, apoiada pelo Centre National du Livre francês.

António Luís Catarino
Coimbra, 10 de novembro de 2019

domingo, outubro 27, 2019

Uma viagem ao inferno de Jonathan Littell

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Uma História AntigaNova Versão, de Jonathan Littell é um círculo vicioso. Ou pode ser uma história que cresce de uma forma helicoidal, como uma mola em hélice, mas sem clímax. Ou nem sequer pode ser uma história. Não há, de facto, uma história, nem personagens descritas psicologicamente, ou uma identificação que seja, um nome, ou uma imagem, um ícone. Nada. Portanto, sentir-te-ás seguro de poder identificar-te com todas elas. Há, contudo sequências narrativas em catadupa. Em capítulos e entre capítulos. É uma verdadeira viagem aos infernos criado por Littell, após um outro inferno que foram as suas As Benevolentes escritos já há doze anos.

Na leitura de Uma História Antiga podes progredir em corredores estreitos, quase sempre escuros. Estás vestido/a com um fato de treino cinzento, cómodo. Encontras sempre uma maçaneta metálica que dás por acaso em labirintos em Y ou V. Após passares um umbral, encontras uma piscina onde te banhas e ouves sussuros, gritos de crianças e adultos que riem para, depois, entrares em quartos, em bosques ou quintais. Os quartos têm quase sempre edredãos, cobertores ou cortinas com flores verdes cosidas num fundo dourado. Os tapetes são vermelho sangue. Aí tudo pode acontecer num frenetismo de quase 400 páginas. Podes ser um pai de família que se entedia com o seu filho e as sua mulher, louros e belos. Podes ter mulheres igualmente louras e belas com um «carrapito meticulosamente penteado», mulheres matadoras e homens gentis, homens brutos que te violam ou são submissos e meigos e tu transformas-te num sádico. O sexo nunca é recusado; é, antes, uma vertigem necessária. Seja ele de que tipo for: em orgias dionisíacas, transformando-te em mulher, lésbica dominadora ou dominada, homossexual, trans, travesti, bissexual ou heterossexual, vendo crianças em jogos íntimos com os sentidos sexuais a aflorarem à pele, um tema quase tabu. Isto pode não ser o inferno. Ainda não o é completamente, embora algumas cenas desemboquem em violência pura e dura. Pelo meio, duas obsessões: o quadro da Rapariga com Arminho de Leonardo, as sonatas para piano e trechos da ópera Don Giovanni de Mozart.

O que te perturba verdadeiramente na leitura deste livro é a violência da guerra e como ela é descrita, com os horrores que nos entram sem pedir licença. Estas cenas são apostas entre os capítulos e sem esperares estás a ler o inferno descrito em Gaza, na Tchetchénia, num país em guerra civil em África, na América do Sul, na miséria absoluta na Europa ou seres amante de um chefe de um bando criminoso que controla a polícia. Joanhatan Littell, soube há pouco, esteve e está amiúde em teatros de guerra. Ele sabe do que fala e descreve como ninguém o que viu, o que presenciou, o nojo e o asco que sentiu. Filmou tudo o que pôde pelo telemóvel, parece-me. Mas atreve-se a ser um perpetrador de um massacre e relata o gosto que isso lhe dá. Nós, tu e eu, não damos importância nenhuma à guerra. Vemos bombas e tiros. Nunca vimos cadáveres disformes, nem nunca lhes sentimos o cheiro. Até porque jantamos cedo. Ela está tão longe que não pressentimos do que o Homem é capaz. Do mais aviltante e inumano, até ao saber infligir o cúmulo da dor ao outro.

O autor já ameaçou de pancada vários jornalistas e é esquivo o suficiente para não o encontrarmos e fazer-lhes as perguntas necessárias. Provavelmente, a sua irritação terá a ver com isso mesmo: ninguém ainda teve a coragem ou sabe a pergunta que quer que lhe façam ou que repitam sempre as mesmas. No entanto, ele aí está, premiado e procurado pelos media que, entretanto, se borrifam. Ele está sempre em fuga. Penso que se vivesse no século XVIII seria Sade e a sua premência de liberdade individual e política contra os fortes ou, mais tarde, poderia ser Sacher Masoch. Mas não me atrevo a classificar Jonathan Littell de quem nunca falhei um livro. Fiquemos talvez por Nietzche. Talvez...

António Luís Catarino
Coimbra, 27 de outubro de 2019

domingo, outubro 20, 2019

Enquanto este esgoto não colapsa

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Foto: Letra Livre e Mapa

O final do título poderia ser um «divertamo-nos todos enquanto isto dá», «carpe diem», «que se lixe, já cá não viverei nesse tempo»...e mais, e mais... dando à vox populi a razão suprema de andar de mãos dadas com o capitalismo, principal responsável do que aí vem, não fosse hoje o mundo um enorme esgoto em que o tornou. Ar, terra, mar poluídos e sempre a eterna esperança que a sacrossanta tecnologia nos salve do colapso.

Por isso ler o livro de Carlos Taibo, «Colapso – Capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo» editado oportunamente pela editora/livraria independente Letra Livre, faz-nos pensar (ou dos poucos que se esforçam por pensar), enquanto ser humanos do ainda Holoceno o que fizemos, ou melhor, o que deixámos fazer a este planeta Terra.

Primeiro choque: as notas de rodapé e a bibliografia do autor. Inegavelmente importantes estas notas de carácter científico, admiramo-nos na leitura e pesquisa que delas fazemos de algumas ideias que o autor sublinha, com cuidado e rigor, venham desde a década de 50! Ou seja, a preocupação por esta eutanásia dolorosa do Planeta vem desde muito cedo. Talvez mesmo do século XIX, razão pela qual a Revolução Industrial foi o início da crise do planeta pelo que não será exagerado ou eivado de falsidade a afirmação que a acumulação de capital e o imperialismo foi a causa última do início da decadência climática e ecológica.

No capítulo I, Carlos Taibo apresenta-nos o conceito de colapso. Talvez o mais interessante do livro seja esta questão. Já assistimos, durante a História, a vários colapsos: a queda dos impérios egípcios e hititas, a do Império Romano com o avanço do que chamamos (mal) de povos bárbaros do oriente muito possivelmente a períodos longos invernosos e verões húmidos e chuvosos, a Peste Negra que varreu da face da Europa três quartos da sua população, e, já mais para os tempos modernos as invasões napoleónicas, a guerra franco-prussiana e as guerras liberais, a I e II Guerras Mundiais com o seu cortejo de milhões de refugiados e de 150 milhões de mortos. Já para não falar da bomba nuclear usada pelos americanos no Japão, na paranóia e o medo permanentes que coisa igual se repita. A Humanidade enfrentou com a adaptação possível viver nessas condições. Embora em colapso.

O conceito de colapso é, também ele, muito variável. Carlos Taibo dá-nos vários exemplos: um vulcão na Islândia nos anos 90 permitiu que, durante 10 dias, os sistemas eléctricos e electrónicos baqueassem totalmente, as rotas de aviação e rodoviárias parassem, a internet funcionasse intermitentemente e que deixassem de existir as trocas de informação, de mercadorias e as bolsas mundiais praticamente não funcionassem. Não se contam aqui os milhares de mortos directos e indirectos da erupção vulcânica e os hospitais a trabalharem sem todos os equipamentos a funcionar. Mas isto aconteceu no Norte rico. Agora tentem falar em colapso a um habitante da faixa de Gaza, da Nigéria, da Síria ou do Iraque! É evidente que esta gente nasceu e já morreu em constante colapso. Sem água, sem luz eléctrica ou sem os cuidados básicos inerentes à sobrevivência, nem digo à vida, porque ela simplesmente não existe. No sul há povos em eterna ruptura, sem instituições, sem dinheiro, sem ajudas. Não perceberão o conceito de colapso, assim como se diz que o Norte colapsou porque se tornou impossível viver sem a TV ou sem rede de telemóvel pela erupção de um vulcão!

Passando a necessidade epistemológica de Taibo (professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid e com bibliografia editada) em explicar o conceito de colapso ao estudar as suas possíveis causas (tão óbvias que não vale a pena reproduzir aqui), desenvolve cenários pós-colapso extremamente audazes, mas com todas as possibilidades em aberto. É o melhor do livro.

Isto tanto pode acabar mal com um ecofascismo ou com a extinção total (o que não acredito, nem o autor), como até pode abrir espaços de liberdade comunitários que não devemos rejeitar como hipótese real, ou ainda mais real coexistirem em luta contínua as duas formas de vida, uma nova luta de classes baseada na teoria de Marx, com o desaparecimento traumático da classe média, do dinheiro e das mercadorias. Imaginemos uma enorme ruptura no campo das energias não renováveis, como aconteceu na URSS em 91 ou em Cuba ou na Venezuela ainda hoje e agora projectem-nas a nível global. Na Rússia tudo se transformou num enorme caos financeiro (de que se aproveitaram alguns oligarcas), na inoperância e desaparecimento do Estado que acabou com os apoios sociais e as reformas, o dinheiro acabou pela queda total do rublo e as mercadorias deixaram de circular. Nunca divulgados pelos media, houve comunidades inteiras que sobreviveram no campo, abandonando as cidades e criando comunidades fortes com democracia directa. Em Cuba, o embargo de petróleo dos EUA, levou a que tivesse importado um enorme volume de bicicletas à China, criando hortas urbanas e criando fortes comunidades no campo. A emissão de CO2 teve uma queda de 26,6%. Na Venezuela, a crise ainda não chegou ao colapso porque as reservas deste país ainda são fortes, mas a contínua baixa de preço do crude e o embargo nas exportações faz com que estas reservas estejam paradas. A necessidade de autoregulação e autogestão longe do poder, tem sido uma prioridade que tem resultado prescindindo de intermediários especuladores e indo à produção directa. Não rejeitemos portanto a necessidade da partilha comum da energia e da própria vida.

Portanto, as coisas não são fáceis de decifrar para um futuro que será tão distópico como utópico. Certezas: nunca iremos alcançar o objectivo de fixação de 2º em 2030. As emissões de CO2 têm aumentado como se fosse uma espécie de estertor do capitalismo que se pode tornar letal, mais do que é hoje. A ONU está descapitalizada e não poderá intervir, assim como a Unicef, ou a Fao. 

Em 2030 atingiremos, a este ritmo de emissões, os 4º graus o que produzirá uma temperatura amena na Europa do Sul, uma vida impossível na zona sul do planeta que originará grandes migrações para norte como aliás já acontece por motivos climáticos a que a guerra estará ligada, o norte da Europa e dos EUA e Canadá descerão de temperatura, principalmente nas regiões influenciadas pela corrente do Golfo que está a desaparecer, enquanto paradoxalmente os gelos do Árctico desaparecerão, abrindo uma corrida às explorações petrolíferas desta região e adiando talvez por mais vinte anos o fim da energia petrolífera. A energia está a esgotar-se. Vai esgotar-se.

Assim, as possibilidades são múltiplas. Ou arranjamos um modo de vida realmente possível de ser vivida, ou viveremos em cidades sem ordem, violentas, onde grupos criminosos e polícias privados (qual a diferença?) mandam a soldo de oligarcas que se pretendem ser uma elite que viverá condicionada a bolhas muralhadas.

Entre a base proudhoniana de comunidade que parece que Taibo abraça, a luta de classes mais aguerrida que nunca, de Marx que o autor também não rejeita, o ecofascismo, ou ainda violenta junção dos dois modelos, as hipóteses são múltiplas. Alguma ganhará. Um apontamento: o ecofascismo que já conhecemos de outras histórias do século XX (o fascismo e o nazismo eram ecológicos, criando até dias e jornadas de defesa da Natureza) pode não ter origem nestes novos pequenos partidos que têm nascido um pouco por toda a parte. O ecofascismo pode ser adoptado pelos partidos do sistemas e tradicionais, obrigando-nos a comportamentos ecológicos, leis severas para quem não cumpre, culpabilizando o infractor particular e, pior, separar o que não é «normal» na Natureza, pelo receio do outro numa época de grandes migrações mundiais. Isto é o ecofascismo. Separar o bom do mau na Natureza pode levar a uma higienização nazi nas pessoas de diferentes etnias, proibindo-as de entrar em terras «limpas».

Caso último que nos fará pensar: um elemento do Grupo de Bilderberg, Susan George, deixou passar uma resolução da sua última reunião. Para que o Holoceno não desapareça e voltemos à situação de antes da Revolução Industrial, será preciso que a população na Terra seja de somente 600 milhões de pessoas. Hoje, somos 7 mil milhões. O programa é de «redução drástica da população». Que terão eles na cabeça para chegar a estas conclusões? Mais epidemias devastadoras como a SIDA e o Ébola, milhares de vezes mais mortíferas? Ou a guerra permanente, sem fim? Também no horror as hipóteses estão em aberto. O que Carlos Taibo nos dá, em contrapartida, é uma luta para uma sociedade solidária, energeticamente sustentável e local. Não estarão longe as opções que teremos de tomar.

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de Outubro de 2019

sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


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Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019

quarta-feira, agosto 21, 2019

De como uma Eva e um Adão derrotam o racismo

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Neandertal: Foto NatNature
Repentinamente, dei-me com o livro da sueca Karin Bojs entre mãos. «A Grande Família Europeia – Os primeiros 54 000 anos».  Não é, como o editor nos quer fazer crer logo na capa, a história do Homo Sapiens na Europa. Acompanhei com alguma simpatia a obsessão da autora em descobrir a sua geneologia que depois passou a linhagem da sua família. A maior parte de quem tenta fazer isto páram todos no século XVII e já é uma sorte se o conseguirem. Pessoalmente, pensando bem, não aconselho ninguém a fazê-lo sem algum aconselhamento prévio: pode haver surpresas e darmos com linhagens esquisitas e estranhas logo em meados do século XX, faço-me entender? Basta um familiar ou amigo mais próximo, tão próximo, que se intrometeu na génese do nosso eventual auto-conhecimento da família para termos um baque no coração. A sério, se o fizerem estejam preparados para tudo!

Entretanto, quanto aos racistas ou racialistas é melhor que não o leiam. Aliás, nem sei se o saberiam interpretar, mas basta analisar as novas experiências e dados confirmados com o ADN e paf! lá se vai a teoria racista de cada povo ter desenvolvido o seu próprio caminho uns com mais inteligência e capacidade de sobrevivência que outros. Chama-se agora a este tipo de «teoria» (desculpem se estou a exagerar!) de «migracionismo» infelizmente muito em voga nos países do grupo de Visegrado e nos EUA. É possível que se espalhe um pouco por toda a Europa dentro de alguns anos, dada a situação política e social que a faz germinar como cogumelos no húmus da terra. (Reparem que eu disse «húmus da terra» para imitar o valter hugo mãe, senão teria dito simplesmente a humidade da terra).
Ora, voltemos a Karin Bojs de quem me esqueci de dizer que não é cientista. Foi simplesmente jornalista, editora-chefe da prestigiada revista científica Dagens Nyheter e mais que premiada no meio, como ser doutora honoris causa da Universidade de Estocolmo.

Vamos a isto: está provado que os neandertais se cruzaram com os humanos modernos há 54 000 anos. Portanto, os genes estão cá nos nossos corpinhos, entre 2% a 6%. Os bandos dos nossos antepassados eram um pouco canhestros, sem muita motricidade fina, musculosos, com o cérebro de grande volume, produtor pouco sofisticado de arte e de instrumentos, tinham pele escura, o pêlo que lhe cobria o corpo era castanho escuro, assim como o cabelo e os olhos escuros. Evitavam os humanos modernos e é possível que estes se tenham afastado moderadamente dos bandos deles, mas não se prova que tenha havido casos de violência constante com os humanos modernos, tendo-se cruzado inclusive e trocado instrumentos e peles. Os humanos modernos, tinham algumas tecnologias de caça, pesca e recoleção e sabiam defender-se melhor do frio da Era Glacial. São estes a quem chamamos de Homo Sapiens Sapiens e produziam arte e música. Faziam enterramentos cultuais e tinham olhos azuis, cabelos castanhos e pele escura, visto que está mais provado que viemos todos de África e aproveitámos uma mudança climática mais suave para nos espalharmos pela Ásia, pelas Américas através dos maciços gelados do Norte e de uma terra hoje desaparecida entre a Grã-Bretanha e a Suécia – a Doggerland. As águas do mar tinham baixado até ao ponto de permitirem grandes migrações. A Europa foi também ocupada por bandos de Homens e Mulheres com a tal pele escura e olhos azuis, visto que vindo todos de África levou centenas de milhar de anos a mudar a pigmentação da pele para absorverem os poucos raios de sol que existiam. Mas que viemos todos de África os genes estão aí para o comprovar e exigir que afinal se trata de uma só raça que existe – a humana. Embora com um cérebro mais pequeno (o tamanho é irrelevante, neste caso!), éramos mais hábeis a fabricar instrumentos e a viver em grupo, o que nos salvou da extinção. E também é provável que muitos dos nossos antepassados mais espigadotes ou jovens com as hormonas aos saltos tivessem tido relações sexuais com neandertais. Corrijo: não é provável, é certo. O que é mesmo verdadeiro é a extinção dos neandertais, mas ao que se julga agora não foram os humanos modernos que os extinguiram em massa. Foi a inabilidade em utilizar os recursos naturais para a Era Glacial que se aproximava.

Vamos a «Eva». Como sabem, os cientistas são uns brincalhões. Já com a Lucy, deram-lhe o nome por estarem a ouvir o «Lucy in the sky with diamonds (LSD)» dos Beatles. Esta ironia é mais fina. Eva, seguindo o rasto de ADN mitocondrial (que passa das mães para os filhos, sendo por isso uma linhagem feminina), viveu há 200 000 anos e veio a ser a ancestral materna de todos os seres humanos que vivem hoje, Há cerca de 60 000 anos, a linhagem saiu de África e espalhou-se para todo o mundo. Em África corresponde o genoma L. Quando se «saiu» de África os genomas que encontramos são o L3, o M, o D, o N, o R, o RO e o U (que se subdivide em 6 genomas). Na Europa é o genoma U que é preponderante mas não muito mais que os outros genomas todos do mundo onde aparecem igualmente. E nós estamos carregadinhos de todos eles.

No entanto o mais difícil de encontrar, mas também o mais seguro é o cromossoma Y, que passa de pai para filho e que tem mais ADN que as mitocôndrias maternas. É a nossa linha patriarcal a quem os antropólogos e arqueólogos deram o nome de «Adão». Estavam à espera de quê? É lógico que o encontrámos igualmente em África. Alguma vez estes nossos antepassados se uniram e deram origem à humanidade. Para o bem ou para o mal. Segundo a autora, «Acabou-se a discussão. A teoria multirregional estava morta: os humanos anatomicamente modernos têm origem em África».

Antes da forte glaciação de há 54 000 anos atrás, já estávamos espalhados por todo o mundo, embora fôssemos muito, muito poucos. Os bandos que existiam eram constituídos não mais do que umas dezenas e foram os neandertais que nos salvaram antes de se extinguirem. As crianças nascidas desses encontros com os humanos modernos sobreviveram mais porque não tinham consaguinidade. Afinal, os neandertais não se extinguiram completamente: nós somo também eles. Obrigado, portanto, neandertais por uma imunidade bem conseguida.

Quando em 54 000 anos veio a Era Glacial (das quatro existentes na vida da Terra) os nossos antepassados recuaram para sul à procura terras mais amenas, se assim se pode dizer. A Europa do sul e certas zonas do norte poderiam ser habitadas, mas foi o Médio Oriente o mais apetecido. Por lá ficámos, uns recolectores, outros já mais sedentários embora não se possa falar ainda de agricultura ou domesticação de animais. Fomos outra vez para o sul da Europa e Norte de África, américas e Oceania. Não parámos. O Degelo veio e foi uma nova vida. Aumentámos a qualidade da tecnologia, fizémos trocas por trocas, casámo-nos uns com os outros, tornámo-nos mais imunes às doenças e epidemias, aumentámos o tempo médio de vida e aumentámos, por isso, o número de indivíduos. Mas...há 38 500 anos, como prova o Homem de Kostenki descoberto na Rússia, ainda éramos pretos, tínhamos o cabelo encaracolado e castanho escuro e predominavam os tais olhos azuis e claros. Ou seja, fomos ficando mais branquelas para a pigmentação absorver melhor os raios solares. Houve outros que não necessitariam dessa pigmentação, como em África, Oceania e Américas. Mas o livro é riquíssimo em provas sustentadas pelo ADN em Universidades e Institutos de referência em todo o mundo.

Finalmente, o meu espanto: Karin Bojs, agora na reforma e sem a canga formal do jornalismo, fazendo a sua pesquisa científica livremente, falando à vontade com os cientistas que antes tinha entrevistado para a sua revista científica sem as cautelas institucionais a que são obrigados os jornalistas e os cientistas, reparou num incómodo, numa preocupação nunca antes referida: o racismo crescente na comunidade científica e em estudantes principalmente na Europa Central (já nem se fala na América do Norte!). Ela própria assistiu a um boicote a uma conferência sobre apresentação de resultados antropológicos na Universidade de Brno, na República Checa. Foi-lhes dada uma sala pequeníssima onde não cabiam quase 300 pessoas interessadas. Subitamente, entram em cena alguns professores e alunos, arrastando mais cadeiras para a sala de modo a torná-la sufocante, que contestaram abertamente as teorias baseadas em ADN, agora com uma ressalva: sim, houve algumas migrações, mas não tantas que não permitam a defesa da «verdade» deles: que os povos isoladamente desenvolveram-se tendo em conta a inteligência e os laços fortes e comunitários, génese de um povo e de uma nação. Chamam-se a estes senhores fascistas, os «migracionistas» de que falei atrás, cada vez mais e mais interventivos e cujas teorias estão muito longe de qualquer prova mínima que seja. Mas não deixa de ser irónico o nome científico dado à nossa mãe mitocondrial e ao nosso pai cromossomático. Adão e Eva!

Mas o livro não é só isto. Vale mesmo a pena lê-lo. 420 páginas de puro prazer e um enxerto de porrada nos neonazis.

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Agosto de 2019

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A Grande Família Europeia, de Karin Bojs
Ed. Portuguesa Foto: Bertrand Editora