sábado, abril 25, 2026

"Autobiografia e Poemas", Maiakovski

 

Presença, col. Forma. Janeiro de 1974. Tradução de Carlos Grifo
Surrado, páginas amareladas, capa desgastada pelo folheio de anos a fio. Igualmente algumas gralhas arreliadoras. Comprei-o, por 20 escudos, na data de edição, ainda em ditadura. Faltavam três meses para o seu fim. Era o número dois da colecção Forma, da Presença, iniciada com «A Invenção do Amor», de Daniel Filipe e lio-o todo nessa mesma tarde e noite. Fiz hoje, de 24 para 25 de Abril o mesmo, recordando a rebeldia anti-burocrática e revolucionária de Maiakovski que hoje me parece mais distante, desenquadrada e, no entanto, necessária. Permanece comigo por teimosia evidente, por uma construção de uma outra realidade urgente, antes que nos levem para um abismo de que não saiamos livres e ilesos.

alc

quinta-feira, abril 23, 2026

"Les Vies Secrétes ds Vladimir Maiakovski", Yoann Iacono

 

Edições "J'ai Lu", 2025.
Dizia Boris Pasternak, que conviveu com Maiakovski nos seus tempos de grande boémia moscovita logo após a revolução de 1917, que havia tantas versões da vida do poeta quanto havia de russos. Provavelmente até poderá ter um fundo de verdade, salve o evidente exagero e ironia, mas talvez instigada pelo próprio Maiakovski muito pouco atreito a divulgar traços da sua vida privada, mesmo depois de se tornar uma lenda viva até à sua morte e que esta se tenha igualmente transformado numa questão política por gerações.

Não deixa de ser interessante verificar que um livro comprado à pressa numa livraria de aeroporto, de um «jovem» autor desconhecido e que continuará a sê-lo porque não me seduziu, se tenha focado na vida de Maiakovski, um futurista revolucionário de quem nunca me separei nos anos setenta e de que guardo os seus livros de poemas até hoje. A vida deste poeta daria sempre pano para mangas e assim se meteu à obra o autor do livro, não sem algumas contrariedades evidentes: não me parece que o manifesto futurista italiano de Marinetti, afirmando que um automóvel «era mais belo que a Vitória de Samotrácia», tenha ver com o futurismo russo, claramente construtivista e socialista, ou sequer que tenha havido contactos entre eles, mas enfim... igualmente para a vertente antimilitarista e antiguerra do futurismo russo bem diferente do do italiano que via no combate fascista um renascer do culto guerreiro. Nos antípodas políticos dos russos, bem-entendido. Mas a honestidade do autor está a salvo: ele avisa-nos, em nota inicial, que tudo é fruto da sua imaginação, embora no final seja publicada uma bibliografia utilizada na «pesquisa». Ficamos confusos, mas como é coisa para duas horas de leitura, siga viagem!

A receita é simples e é seguida por múltiplos «novos» autores: juntam-se dados biográficos a rodos, aumentam-se dados picarescos, inventam-se outros, deduz-se sem entraves, desde que seja referido o carácter ditatorial e sangrento de uma revolução que levou à potencial loucura de Maiakovski, já possuído por uma aura depressiva e até anti-social desde a infância; e que se reflectiu, logicamente, na posterior purga silenciosa exercida por Estaline e pelos bolcheviques que só o esconjuraram porque Lenine já teria apontado esse caminho aos futuristas russos - prisão, suicídio, assassínio, esquecimento e, se tivessem sorte, exílio. O resto é o costume para vender: sangue revolucionário aos borbotões, prisões arbitrárias em catadupa, sexo livre imposto pelos comunistas como forma de destruir a família burguesa, amores incompreendidos e um título (não esquecer o título chamativo) que aponta para vícios «secretos» nunca antes divulgados. 

É o que está a dar na literatura aeroportuária.

alc

segunda-feira, abril 20, 2026

"Poesia Quase Toda", Zbigniew Herbert

 

Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz 
Pode ser tudo o que entenderem, mas Zbigniew Herbert não poderá ser encarado como um poeta obscuro. A sua poesia aqui exposta é aberta, límpida, sem objecções do autor em dar-se a conhecer. De 1956, ano do seu primeiro livro, a 1998, data da sua morte, acompanhamo-lo nas suas palavras e descodificamos os seus poemas através da História não só da Polónia de que nunca se separou, mesmo sendo rechaçado pela burocrática União de Escritores, mas igualmente de um mundo em reconstrução dolorosa após uma guerra, mais uma, humanamente fratricida; dizem que foi a segunda, por uma questão de método, mas somam-se milhares delas e o poeta sabe-o. E é exactamente como exigência da reconstrução do humano que o vemos a discordar de Adorno quando este diz, a respeito da evidente desumanidade e crimes de Auschwitz, a impossibilidade da existência de poesia após 1945. Para Herbert, que num poema chama a Adorno de trágico, a poesia terá de existir sempre porque é expressa pelo Homem em quaisquer condições. Em «Aos Portões do Vale» (1957) poderemos ler:

«Depois da chuva de estrelas
no prado das cinzas
reuniram-se todos sob a guarda dos anjos
(...)
depois do assobio da explosão
depois do assobio do silêncio
uma voz ressoa como fonte de água viva

é conforme nos explicam
o grito das mães a quem tiram os filhos
pelos vistos
seremos salvos individualmente

os anjos da guarda são implacáveis
e reconheça-se têm uma árdua tarefa
(...)» 
(pág.67/68)

A sua poesia é plena de anjos que tomam as variadas formas, numa permanente metamorfose, sejam eles homens, mulheres, guardiães de uma qualquer ordem ou vítimas dessa mesma ordem, adejam para nos avisar do efémero, do indizível, da possível beleza do mundo ou da sua face mais horrível, como a guerra ou a tortura. Se não são anjos, estes pessoalizam-se em heróis gregos, em filósofos latinos ou etruscos porque todos os clássicos nos têm coisas para dizer, mesmo que o poeta não se lembre do nome de um que lhe diziam que a sua leitura lhe mudaria a vida; afinal não mudou nada, expressão máxima da inutilidade da literatura e da poesia, contudo sempre necessária. E subsiste candidamente numa memória vã que depressa esquecemos, como nos avisa Herbert quando se aproxima do fim e lhe invadem o corpo em humilhação de que já nem sente vergonha íntima como expõe dolorosamente nos seus inesquecíveis «breviários», em «Epílogos da Tempestade», de 1998.

O alter ego de Zbigniew Herbert é o Senhor Cogito que encarna várias personagens em diferentes situações. Em «O Jogo do Senhor Cogito» o poeta esclarece-nos com uma notável clarividência a sua posição face a qualquer poder:

«1
A brincadeira preferida
do Senhor Cogito
é o jogo Kropotkin

o jogo Kropotkin
tem muitas vantagens

dá asas à imaginação histórica
ao sentimento de solidariedade
joga-se ao ar livre
abunda em episódios dramáticos
suas regras são nobres
o despotismo perde sempre

no grande tabuleiro da imaginação
o Senhor Cogito dispõe as peças

(...)»
(pág.213)

O despotismo perde sempre num jogo em que as peças são dispostas por um ser livre, um «príncipe dos anarquistas» como é nomeado por Herbert e onde se pode compreender mais claramente a sua ânsia de liberdade que não se compadece com qualquer ordem, seja despótica ou nem tanto. De qualquer modo, não acredita na História, nos monstros que ela criou, posição bem expressa no poema «Elegia para a partida da caneta da tinta lamparina», e 1990: 

«(...)
3
Nunca acreditei no espírito da história
monstro inventado com olhar de assassino
besta dialéctica na trela dos carrascos

nem em vós - quatro cavaleiros do Apocalipse
Hunos do progresso a galope pelas estepes do céu e da terra
destruindo pelo caminho tudo o que era respeitável antigo e indefeso

passei anos a conhecer os motores simplistas da história
procissão monótona luta desigual
de bandidos à cabeça de turbas estupidificadas
contra um punhado de gente recta e sensata
pouco me resta
aliás muito pouco

(...)»
(pág.308)

Mesmo no final do século XX, um dos piores séculos que a história conheceu (a da tal dialéctica científica ou de outra qualquer), Herbert demonstra a sua esperança, um fio ténue que pode sempre partir, perante a brutalidade do Apocalipse, os tais «hunos do progresso» que se movem dentro de «turbas estupidificadas» que têm sempre apoio nos «motores simplistas da história». Com Herbert não sentimos a necessidade de (sobre)viver em tirania para saber o valor da liberdade, ou da vacuidade social de uma opinião burocrática. Intuímos certamente do que os poderosos são capazes para nos reduzir a escombros humanos. Desconfiemos pois dos arautos do progresso e retiremos lições sobre a necessidade imperiosa de ser poder. 

Uma poesia livre. Um poeta livre.

alc

terça-feira, abril 14, 2026

"O Tango de Satanás", László Krasznahorkai

 

Cavalo de Ferro, 2026 (1ªed.1985, Antígona). Tradução de Ernesto Rodrigues
Este tango poderia ser transformado numa peça do absurdo, do grotesco. «O Tango de Satanás» é, sem dúvida, um grande obra do húngaro László Krasznahorkai, embora difícil de ler principalmente quando iniciamos o primeiro contacto. Finalmente, quando entramos na cadência da sua leitura, as imagens, diálogos e situações sucedem-se a um ritmo vertiginoso, quase sempre com consequências inesperadas ou até pela ausência de qualquer resultado após uma acção descrita. As situações surgem desgarradas, sem ligações óbvias entre si. É inegável a existência de uma sociedade estagnada, desesperançada, onde se arrasta um quotidiano miserável, em que as personagens se agridem, se convocam e aproximam como um exercício de quem quer provar que estão efectivamente vivas. Não conseguimos ver um objectivo claro, a não ser a da pura sobrevivência numa existência tornada ferozmente individualista, mesmo se a ordem social seja imposta por uma espécie de «cooperativa» em que nada funciona, ou melhor, o que ainda se move com todo o seu cortejo de absurdos e despautérios é a sempre presente burocracia. Se há um vislumbre de revolta, ela é inconsequente, contraditória, sem qualquer lampejo de substituição porque as personagens que a iniciam são desprovidas de vigor humano, estão exaustas. Essa revolta é protagonizada por uma personagem estranha, Irimiás, cujo nome lembra a sonoridade de um profeta do Antigo Testamento, mas é igualmente um misto de aldrabão, de burlão, de um violento trapaceiro que vende simultaneamente liberdade, armas e empregos. Ele é um «homem das situações desesperadas e pastor de homens sem esperança» (pág.154) que aparece e desaparece, que está prestes a resolver todos os problemas ou se afasta deles impetuosamente, castigando ou favorecendo sem que se perceba a sua lógica. Essa ausência de esperança nas personagens que povoam a história é singularmente exposta no capítulo VI, «O Trabalho da Aranha II - Seios diabólicos, Tango de Satanás» na pág. 136. Dou-vos em extracto:

«Futaki estava convencido de que os fracassos, semana após semana, mês após mês, os projectos cada vez mais confusos, logo abortados, essa dolorosa sede de liberdade, não representavam uma ameaça real; eram, sim, o que os mantinha unidos, porque, entre má sorte e a aniquilação, a estrada era longa, mas aqui, no fim do caminho, já se não podia sucumbir. A verdadeira ameaça parecia ser subterrânea, mas a sua fonte era incerta: irrompia, de súbito, um silêncio assustador, e não nos mexemos mais, enrolamo-nos num canto, à espera de protecção, mastigar é uma tortura, salivar, um sofrimento, e ninguém se apercebe já que o tempo desacelera, que o espaço se estreita ao redor de si mesmo, e neste dobrar-se é que ocorre a coisa mais terrível: a inércia.» (pág.138) 
Segue-se, neste mesmo capítulo, uma das mais poderosas descrições de uma orgia burlesca, numa taberna soturna e miserável, desses desesperançados. Só por si, justifica a leitura atenta deste livro.

alc

domingo, abril 05, 2026

"Confissões de um Opiómano Inglês", Thomas de Quincey

 

Contexto, 1989. Tradução de Manuel João Gomes 
Nos tempos que correm voltar a este título é uma benção laica. Nas «Confissões preliminares» Thomas de Quincey avisa-nos, logo de início, que «se um homem ''que só sabe falar de bois'' se tornar opiómano - e não for tão bronco que seja incapaz de sonhar - o mais provável é que passe a sonhar com bois; no presente caso, o leitor há-de ver que o opiómano se ufana de ser filósofo e que, por consequência, a fantasmagoria dos seus sonhos (desperto ou dormindo, de dia ou de noite) é a de alguém que ''humani nihil a se alienum putat'' [não considera estranho nada do que seja humano]» (pág.16). Apoiado nesta frase do latino Terêncio desenvolve a partir desta ideia, repescada por Marx mais tarde, aspectos da sua vida que foi preenchida quase totalmente pela dependência do ópio. Droga essa que era de venda livre nas boticas londrinas quer em forma de pequenos grãos ou em frascos de láudano, sendo o único entrave o seu alto preço, quase proibitivo para a magra bolsa do poeta e gentleman. Essa foi igualmente a razão de ele ter escrito estas «Confissões» editadas em pequenos episódios num jornal inglês. Mesmo que Thomas de Quincey esteja muito longe de pensar somente em bois é plausível que por vezes, até mesmo esses, pudessem aparecer-lhe nos sonhos que lhe afloravam em estado de alucinação e de profunda plenitude que lhe durava entre oito a dez horas. Acredito que os que pensam essencialmente em bois têm crescido exponencialmente na nossa triste época em que as drogas são alvo de perseguição contínua, sem que as mais perigosas como a televisão, os meios de comunicação social, os discursos evangélicos ou os identitários, sejam alvo de qualquer repressão. Essas drogas são de venda livre e recomendados por verdadeiros traficantes na pele de comentadores televisivos. Desses, ainda não constam em Thomas de Quincey, mas para nosso contentamento e esperança de que as coisas foram sempre assim e alimentando a nossa boa consciência, ele apontou outros, nomeadamente médicos e professores universitários, demasiado rápidos a culparem o ópio do mal da sociedade inglesa do século XIX. 

Há, no entanto, neste livro um trecho a que volto quase sempre. Trata-se de uma sequência da vida de Thomas de Quincey que ele nos conta: procurando obcecadamente uma rapariga de quem gostava muito, Ann de seu nome, e envolto nos eflúvios do ópio durante dias seguidos, ele encontra uma Londres desconhecida. Essa autêntica deriva experimentada pelo poeta veio a ser referida e replicada por Guy Debord e pelos situacionistas, logo no primeiro número da revista da IS em 1959, quase 100 anos após a publicação das «Confissões», publicada em 1856. Nascia a «Teoria da Deriva». Esteve igualmente na base do nome escolhido para a Deriva Editores em 2003. Vale a pena colocar aqui esse trecho que se encontra nesta edição da Contexto, na página 83:
«Algumas daquelas minhas andanças levaram-me muito longe, até porque todo o opiómano rejubila quando vê o tempo a fugir. E, muitas vezes, ao tentar regressar a casa, de olhos postos na estrela polar, como ensinam as leis náuticas, procurando ambiciosamente a passagem do Noroeste, evitando dobrar de novo todos os cabos e promontórios já por mim descobertos numa primeira vez, via-me de repente perdido em vielas labirínticas, becos enigmáticos, esfíngicas ruas sem saída, feitas (parecia-me) para pôr à prova a audácia dos carregadores e confundir a inteligência dos cocheiros. Mais de uma vez me convenci de que era eu o descobridor de algumas daquelas terrae incognitae e duvidava que elas estivessem assinaladas nas modernas plantas de Londres.»

No final do livro, as últimas impressões de Quincey tornam-se extremamente humanas. Em «Os Tormentos do Ópio» escreve que um leitor atento deve centrar os pensamentos explanados não no opiómano, mas sim no ópio que se transforma no verdadeiro herói da história. Sabe por que razão pára de se drogar: «...vi então que morreria se continuasse a tomar ópio; decidi por isso que, se necessário, morreria, mas só depois de me livrar dele.» (pág.133)

alc