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terça-feira, fevereiro 13, 2024

«A Porta dos Traidores», Jeffrey Archer

 

Bertrand, 2023
Nada a dizer de extraordinário. Mais um livro de um antigo deputado conservador de que já falámos aqui e que também conheceu a prisão. Conhecedor dos meandros da política e da polícia de Sua Majestade Isabel II que entretanto se foi deste mundo cor-de-rosa ou nem tanto assim quando se trata de um império feito a ferros e a sangue, como sabemos. Mas a narrativa policial tem essa garantia - a de saber-se do que fala e, nos tempos que correm, é uma mais-valia literária nada negligenciável. Por sinal, trata-se de gizar um roubo das jóias da coroa britânica coisa que só o Capitão Blood conseguiu na data de 1667! Consegue-se, mas nem tudo o que parece é e nos policiais isso é matéria importante e decisiva. Dá verdadeiro gozo ver como seria o tal roubo pensado ao milímetro e que foi posto em prática com sucesso. De tal maneira que o final do livro é verdadeiramente frenético, contado ao minuto. 

Mas compreendemos o marketing literário de Jeffrey Archer já multimilionário com as vendas mundiais dos seus livros. Está lá tudo para a continuação da saga e para possível adaptação cinematográfica. É antes que tudo um guião fabuloso que não necessitaria sequer de adaptação e, muito melhor do que isso na perspectiva monetária do lucro, prepara-se para, deste livro, surgirem não um, não dois, não três, mas muitos mais livros que continuarão a narrativa baseada na vingança dos maus contra os bons. É o cânone policial. Mas melhor do que para aí se faz neste campo.

segunda-feira, janeiro 30, 2023

«Só o Tempo Dirá», de Jeffrey Archer

 

Livrinho de bolso, como se requer a um policial. Jeffrey Archer tem um condão não só de escrita, mas também, como convém a qualquer boa história, de saber do que fala. E para além da sua experiência de vida em confronto com a justiça que conhece bem, visto que esteve preso por fuga aos impostos, ainda por cima como deputado conservador, descreve com verosimilhança todas as tramas que nos descreve.
Como conservador, acredita que o mérito pode ser o impulsionador do elevador social, mas também sabe que não somos parvos ao ponto de acreditar totalmente nisso. Portanto, os livros de Archer devem ser lidos como minitratados de luta de classes, mas ao contrário. Daí a importância de o ler. Não só por isso, porque é inegável a qualidade da sua escrita e do suspense que suscita, mas também por isso.

Bertrand, col. 11/17 de bolso.
Tradução de Fernanda Oliveira
2018

quinta-feira, agosto 18, 2022

4 policiais 4. O mundo mudou e o policial também

 


Gosto de policiais e se forem de bolso melhor ainda. Não gasto muito dinheiro, podemos tratá-los mal e lê-los de uma assentada sem grandes preocupações que a escrita dita literária obriga. 

Neste Agosto, contudo, observei uma regra: em dez dias levei para férias dois autores considerados antigos e dois «novos»; destes últimos só conhecia toda a saga dos «Homens que odeiam as mulheres» de Stieg Larsson e um de Camilla Läckberg de que já não me lembra o nome.

Os da conhecidíssima coleção Vampiro, agora nas mãos da Porto Editora, temos boas traduções e são bem revistos, coisa que não acontecia no passado. Li E.C.Bentley com agrado. Claramente socialista, o livro escrito em 1913, logo antes da guerra retrata como ninguém a voragem que já se fazia sentir em Wall Street por «capitalistas sem escrúpulos» cujo assassinato de um deles terá sido obra de um sindicato vingativo e arquivado pela polícia. Com alguma simpatia, dá-nos a verdadeira razão desse crime, mesmo que o relatório do detective esteja completamente errado. Por isso, acaba com a sua profissão num belo jantar com o verdadeiro homicida. Lindo! Psicologicamente algo denso, a trama é extremamente bem feita e obriga-nos a pensar, mas isso são contas de outro rosário. O Último Caso de Trent foi adaptado ao cinema nos anos 30 o que o obrigou a ressuscitar a personagem. 

Dashiell Hammett é outro que tal: membro do Partido Comunista Americano, nem por isso se deixa acometer por algum racismo em relação aos negros e «mulatos» como lhes chama... mas a história deixa antever os ricos como os maus da fita, tipos vulgares, odiosos, que não se detêm perante nada, passando por cima de tudo e todos. Assassinos com fartura e sangue aos borbotões. Mas ainda assim é um gosto ler Hammett e vê-lo no cinema com um Bogart a fazer de Marlowe. A Maldição dos Dain foi igualmente levado ao cinema nos anos 30, claro.

Jeffrey Archer pia mais fininho com um livro de 2019, não fosse ele um ex-vice-presidente do grupo parlamentar torie, dos conservadores, para os mais desatentos. Atenção que isto não é uma história inventada. Faz parte da autobiografia do autor: apanhado nas teias da bolsa de Londres, o tipo fica a dever meio milhão de libras a uma data de gente e indo a tribunal cometeu perjúrio o que lhe valeu 4 anos de prisão onde escreveu, em 3 volumes, os Diários da Prisão, pois claro! Hoje voltou à política, pagou as suas dívidas e é um milionário por vende 250 milhões de livros em 37 países. Portanto, o livro que li titula-se Quem Não Arrisca... caso para dizer que sabe-la toda, o homem!

John Grisham, escreveu o manuscrito e é outro que tal: é lido aos milhões pelo universo conhecido, mas é honesto pelo que se sabe. Escreveu O Manuscrito e pode dizer-se que é um bom escritor. A história envolvem milhões de dólares e são fruto da especulação alfarrabista (!?) de 1ª edições assinadas. Sendo o livro um objeto mais apetecível que o ouro, acções da bolsa ou mesmo os dólares, dá que pensar ao amante de livros que se viu sempre rodeado deles, certamente. Que sejam objecto de especulação nos States é de abrir a boca de espanto. Mas estamos aqui para aprender sempre.

Qual a diferença entre os «novos» e os «velhos» policiais? É que, nestes, os criminosos geralmente pagam sempre os seus crimes hediondos ou talvez nem tanto, conforme a moral e a ética de quem os escreve. Quem com ferro mata, com ferro morre é o bíblico refrão que se aplica aqui. A trama policial é composta pelo desenrolar de mentes inteligentes o que obriga a equacionarmos possíveis soluções à medida que as páginas avançam. Há tiros a rodos e frieza dos detectives que prendem belas mulheres e homens de fora de qualquer suspeita social. A polícia científica é a de laboratório de vão de escada. Lá ajudar, ajuda, mas pouco. A mente é que descobre, desfaz a teia construída com denodo pelos criminosos e somos convidados a participar na descoberta da coisa.

Já com os «novos» não se vislumbra castigo nenhum para os criminosos. Antes pelo contrário. É tipo «Ocean's Eleven», topam? Os ambiciosos se forem espertos continuam as suas actividades com ambição e inteligência. A polícia científica toma o lugar da dedução ou indução do leitor. As câmaras de vigilância sabem tudo. A mínima lã deixada numa carpete é caso para levar um tipo 30 anos para a prisão. A marca de batom nos cigarros é mentira porque já ninguém fuma.  A observação mórbida dos cadáveres dizem mais do que os desgraçados que são abertos ao ritmo das anedotas dos médicos legais que é para descontrair! Os dólares já não são o objetivo, nem os milhões ou ouro, mas sim a arte e os manuscritos e 1ª edições valiosos que sempre valorizam a cada dia que passa. Livros e quadros? Museus a serem assaltados? É claro como água e todos os que se arrebanharam à grande contra os bens públicos têm a medalha dos bons e intocáveis. «Quem não arrisca...», não é? Mesmo assim, a polícia perde sempre. Sim, os policiais mudaram muito, mesmo com as câmaras de vigilância e a chafurdice nos cadáveres que nos permitem preguiçar na solução dos crimes. Querem alimentar a mente? Joguem xadrez!