quarta-feira, fevereiro 24, 2021

Dos tempos que correm: «Viagem à roda do meu quarto», de Xavier de Maistre


Calma gentes!, De Maistre, Xavier de seu nome, que, previdente nas suas primeiras edições assinava somente com X, é irmão de Joseph, o tal de má companhia e péssimos pensamentos, da índole de um Bossuet mas para pior... Este senhor é somente um romântico empedernido, com vida complicada, fora do penico institucional, marcado por alguma libertinagem, combates nas guerras europeias e algo errante, o que desdiz a obra que o marcou: «Viagem à roda do meu quarto», de 1795.

Quis a época e o estado lastimoso do confinamento perpétuo que eu me dedicasse um pouco a este livrinho esgotado, tão bem elaborado que dá gosto tocar nele, embora exista outro da Tinta-da-China que ainda se vende por aí. Este, uma edição belíssima, encontra-se esgotado.

Comecemos a viagem então. Analisemos as causas do périplo e o aviso sensato do autor: «Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. (...) Sente o meu coração uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um meio garantido contra o tédio e um alívio para os males de que sofrem. O prazer que se encontra ao viajar no próprio quarto está ao abrigo da inquieta inveja dos homens; é independente da fortuna.» 

Nós, hoje, cidadãos do século XXI, enclausurados contra vontade sabemo-lo bem, quer pelas viagens intermináveis que poderão não serem apenas num pequeno quarto ou numa casa inteira, quer também pela ultrapassagem miserável dos quarenta e dois dias enfiados entre paredes. Onde já vão os quarenta e dois dias? Meses de confinamento dão para sentirmo-nos verdadeiramente incomodados e aterrados ao sairmos, fugindo à polícia, para respirarmos o ar do mar e do verde de um parque. Já conseguimos ser felizes dentro dos nossos quartos! Grande De Maistre!

Será possível esquadrinhar a topografia de um quarto? Principalmente quando se permanece nele quarenta e dois dias? Para De Maistre, é! Vejamos: «O meu quarto situa-se a quarenta e cinco graus de latitude, segundo as medições do Padre Beccaria; está orientado na direcção levante-poente; forma um quadrilongo de trinta e seis passos em volta, bem rentes à parede. A minha viagem, todavia, comportará mais, pois irei atravessá-lo muitas vezes de um lado ao outro, ou então diagonalmente, sem seguir regra ou método. - Farei mesmo ziguezagues e todas as linhas possíveis em geometria, se necessidade houver.» E depois perora sobre a infelicidade das pessoas que são muito donas dos seus passos e das suas ideias e que promovem planos rígidos das tarefas diárias. Não, De Maistre, homem moderno do início do século XIX, vê, com grande entusiasmo, a liberdade irónica aposta num simples quarto.

Depois de alguns voos metafísicos de quem não esquece os tempos passados na cama, as recordações que trazem à memória e testemunha (a cama) dos mais elevados estados de espírito, tantos quantos os momentos de depressão, lembra-nos que a obra versa sobre um périplo à volta do quarto, não sendo um mero exercício de solidão. Portanto, é com gosto que vemos passar à nossa frente e pelos nossos olhos a Madame de Hautcastel, a musa do escritor que se lhe refere, através do retrato, deste modo: «Ali, a minha mão tinha-se apoderado maquinalmente do retrato da Sra. de Hautcastel, e o outro (Xavier De Maistre, caracteriza-se como sendo duplo: um ser pensante e o animal) divertia-se a limpar o pó que o cobria. - Tal ocupação proporcionava-lhe um prazer tranquilo, que se fazia sentir na minha alma, muito embora esta estivesse perdida nas vastas planícies do céu.» Lembrem-se que ele era um romântico! Agora vem aí o animal, o tal outro, em cadência acelerada: «(...)interessando-se sempre mais pelo trabalho, pensou em pegar numa esponja molhada posta à sua disposição e em passá-la subitamente sobre as sobrancelhas e os olhos, - sobre o nariz, - sobre as faces, - sobre aquela boca; ah, meu Deus! o coração bate-me: sobre o queixo, sobre o peito: foi questão de um instante; todo o rosto pareceu renascer e sair do nada. - A minha alma precipitou-se do céu como uma estrela cadente; encontrou o outro num êxtase arrebatado que conseguiu aumentar, partilhando-o.» 

Digam agora que Xavier De Maistre era um romântico! Por testemunhas destes devaneios no quarto ainda estavam presentes Joannetti, um criado cujas humilhações o autor não compreende como as suporta, mesmo sendo ele a cometê-las, e a sua cadela Rosine, muito mais bem tratada que o primeiro, diga-se. 

E mais não escrevo, que isto de estar confinado no início século XIX era bem mais perigoso do que se pensa. Um clássico a ler nos tempos que correm. Um verdadeiro mapa de passos confinados.

Editora &etc, Maio de 2002
Esgotado

António Luís Catarino
24 de Março de 2021


sábado, fevereiro 20, 2021

Os buxos do império para onde merecem!

 

E Portugal continua, imparável, na senda da defesa dos buxos do Império! 
Pessoalmente tenho uma vaga ideia onde poderão enfiar os ditos buxos.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

A «culpa» de Mamadou Ba e os intelectuais indignados

Não vou falar da minha repugnância em observar a subida de Marcelino da Mata a um qualquer panteão onde o querem colocar. Tinha eu 14 ou 15 anos e já ouvia falar das façanhas «heróicas» deste indivíduo em pleno conflito na Guiné. Se o TPI, consequência institucional do Estatuto de Roma de 1998, tivesse existido durante a guerra colonial Marcelino da Mata iria lá parar, possivelmente com pena perpétua. Mas o fascismo encobriu-o com o alto patrocínio da PIDE e de Salazar, mesmo contra a opinião de membros do exército colonial enojados com os relatórios das suas acções criminosas. 

Mas a caixa de Pandora abriu-se e agora Mamadou Ba vê-se na contingência de ser insultado como nunca antes o fora (e foi muitas vezes) por uma miríade de fascistas, grunhos, racistas, ignorantes e imbecis que serão à volta de, a esta altura, vinte mil. Sejam quinhentos mil e continuarão tão estúpidos quantos os que assinaram uma petição mal escrita, em português sofrível, mas cujos intuitos são claros: a deportação de um cidadão português de origem senegalesa, juntando assim a anterior tentativa de igual deportação de Joacine Katar Moreira, outra portuguesa de origem guineense. 

O delito é não só de opinião e poder-nos-emos interrogar se é de facto isso que move aquela gente. O delito de Mamadou Ba é ser negro. E de citar Frantz Fanon. E de colocar o colonialismo, as suas raízes e o seu ramos subliminares no comportamento das sociedades europeias, no centro da sua acção política. Portugal é tão racista como os outros racistas. Gilberto Freire e a bonomia do seu luso-tropicalismo ficou e permaneceu num país demasiado tempo fascista e corporativista. Por causa desta teoria, este país fez a triste figura de ver cair o último império da Terra sem grandeza ou orgulho como nos querem fazer passar a mensagem. Sem contar com o genocídio inquisitorial secular. Ou como Ramalho Eanes que há dias declarou, melancólico, que sem o império seríamos uma Catalunha qualquer! Pois não somos, não. Mamadou Ba pôs o dedo nas feridas ainda abertas do domínio ocidental nas colónias portuguesas. E sentimo-nos incomodados com o que diz, embora, para mim, isso seja salutar como forma de encontrarmo-nos como povo duas vezes violentado. Pelo fascismo elevado a estado durante 48 anos com o seu rol de arbitrariedades e de violências cobardes de quem dispõe de força bruta e a usa sem grandes problemas de ética cristã e igualmente por um império de papel em que outros, mais fortes, tiravam todo o proveito. 

Não se admirem de ver intelectuais «de esquerda» nesta onda racista contra Mamadou Ba. Eles existem e estão por aí, abrindo, ou melhor, escancarando portas para o ataque violentíssimo ao responsável do SOS Racismo pela direita, quer seja ela «civilizada» ou ultra. E não falo de Fátima Bonifácio, José Manuel Fernandes, Rui Ramos, João Miguel Tavares ou outros, mais soturnos, que vão subindo a escada universitária pela Nova Portugalidade muito mais perigosa que os «chegas» deste país. 

Estou a referir-me a um indivíduo em particular: a Guilherme Valente que fez um dos libelos anti-Mamadou mais violentos que alguma vez eu li, com ampla mediatização pelo Expresso e sem possibilidade de este se defender. Isto logo em 22 de Dezembro de 2020! Um editor, dito amante da cultura, dito antifascista e anti-racista, editor da Gradiva, auto-denominado igualmente de «ser humano» e com «amigos de origem africana» (claro!) afirma nesse artigo coisas destas: «O Senhor Mamadou Ba é um perigo público. Um racista à solta que as autoridades fingem ignorar e a justiça e as leis deixam impune. Racista desde logo porque para ele só há racismo ''branco''.» E continua imparável: «O racista (já expliquei porquê) Mamadou Ba volta a chamar racistas às nossas instituições, as nossas leis, aos portugueses. Continuarão em silêncio os ''racistas'' PGR, ministra da Justiça, primeiro-ministro, deputados da AR, Presidente da República?». Mas Guilherme Valente não tem medo: «A mim não me dividirá Mamadou Ba: estou ao lado dos meus compatriotas e amigos Portugueses de origem africana.» Certamente contará com a presença do espírito de Marcelino da Mata! E o excelso editor, magoado, pela não deportação de Mamadou e possivelmente de Joacine, remata: «Pode agora o Senhor Mamadou Ba afirmar-se perseguido e mártir, como já começou a fazer, mas essa treta não pegará. Se quer passar por mártir e herói vá para África ou para o Médio Oriente (...)».

Querem mais exemplos de como construir um clima de ódio e perseguição a uma pessoa como Mamadou Ba? Assim se abrem portas para «Preto, vai para a tua terra!» e nos mostramos em toda o esplendor imperial e colonial que povoam muitas cabeças. E pretensiosamente pensantes. È deles que eu tenho receio. 

António Luís Catarino

18 de Fevereiro de 2021


sábado, fevereiro 13, 2021

Centro histórico de Bergen, Noruega. Scketchbook a preto e branco.

 

Bergen, uma cidade da Noruega de que gostei muito, desenhado e aguarelado em preto e branco, por mim. É o seu centro histórico. Tudo o que se vê, tal como em desenhos anteriores que publiquei aqui, foi bombardeado pelos nazis em 1943, segundo me disseram. Só restaram duas casas de madeira do século XVI da velha Hansa e que eu visitei igualmente.

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Bergen, Noruega. Aguarela

 


Aguarela de Bergen, Noruega. Centro histórico em Junho 2018

Feito em 6 de Fevereiro de 2021

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

«O Eclipse da Razão», de Max Horkheimer

 

Antígona, 2015. Tradução de João Tiago Proença

Livro datado no tempo, mas ainda assim actual. No sentido em que a análise que faz da sociedade capitalista e do seu sistema de produção provoca o aparecimento da alienação. A Razão, quer objectiva, quer subjectiva não produz nenhuma superação da democracia por uma incapacidade teórica baseada nos pressupostos da Revolução Francesa e, antes, pelo sistema iluminista que a provocou, provavelmente sem a querer.

Assim, o ideal tão hipócrita da Igualdade, Liberdade e Fraternidade soçobrou perante a avidez liberal-capitalista responsável pela destruição da Natureza e, por consequência, do próprio ser humano. A Razão alcandorou-se no pragmatismo e no bom-senso desígnios tão burgueses, quanto dominadores. Sem compreenderem, porém, que estes mesmo valores são causas da sua própria destruição, porque incitam a Razão à democracia e à sua perversão, ou seja ao campo totalitário e fascista-nazi. Todo o democrata que provoca guerras (e continuam a ser constantes pelo domínio imperial-capitalista) tem igual razão convocada em nome da verdade, como o nazi que estabelece e coordena o holocausto, a guerra genocida e o horror em nome da mesma verdade e objectivo racional.

O pragmatismo, contudo, nem só dos sistemas políticos vive. Igualmente terá os seus dias contados a religião que à custa de ser pragmática e utilizando o bom senso no decorrer de 2000 anos, vê os seus crentes boquiabertos, ao verem o que eram verdadeiras heresias ainda há poucos anos serem transformadas em encíclicas papais. A modernidade oblige. Tal como os ateus que, acreditando num ser supremo, como Voltaire, ele próprio um papa do Iluminismo, também ele um pragmático que se socorria de dar a Razão aos iluminados nobres e burgueses, retirando essa prebenda ao povo. Infelizmente os seus seguidores tiveram de aceitar por meio de revoltas irreversíveis a ascensão popular e o voto universal. 

Hoje, não se fez ainda a superação da democracia racional e iluminada, nem do capitalismo e dos meios de produção que recorre através da alienação. No entanto, Horkheimer não transforma, não propõe, até resiste ao activismo, opondo-se ao «velho» Marx que rogava, e até certo ponto construiu, uma filosofia transformadora, portanto, não contemplativa como até aí. Percebe-se até certo ponto. O filósofo da Escola de Frankfurt pretende voltar à filosofia como um sistema de pensamento especulativo, germinal que vele pelas aspirações livres da humanidade e do indivíduo. Por isso, ou talvez por isso, confronta o anti-intelectualismo e ignorância bem presente tanto na cultura de massas como à brutalidade fascista inerente. 

Falecido em 1973, como veria ele hoje, que tanto criticou, já em 1946, o domínio e alienação do Homem pela tecnologia, a sociedade contemporânea? Sociedade essa que colocou panópticos em satélites que podem vasculhar (e vasculham mesmo) a nossa vida mais recôndita? 

António Luís Catarino

«Paraíso e Inferno», de Jón Kalman Stefánsson

 

Edição da Cavalo de Ferro, 2013

Frio como tudo, não fosse Bárdur a personagem primeira do livro de Jón Stefánsson ter morrido de hipotermia no mar revolto do Ártico. Estamos na Islândia do século XIX e acompanha-nos esse clima gelado, mesmo quando desponta a primavera, e um amigo, Gúdrun, ou «o rapaz», como lhe passou a chamar o autor, desse pescador morto tragicamente porque se esqueceu de um simples impermeável na faina, se dispõe a atravessar montanhas geladas para devolver «O Paraíso Perdido», de Milton, a Holsteinn, um alemão cego (tal como Milton) e que este tinha emprestado a Bárdur. A errância de um local para outro é tão soturna quanto aos lugares que vai habitando. As personagens seguem-se num ritmo lesto, como quem bate os pés na neve para os não deixar frios ou mexermo-nos constantemente de modo a fazer circular o sangue. E a cerveja mais o vinho que correm nas tabernas. Mas é um livro triste, sem esperança. Só aparece algum conforto com mulheres de estranhos nomes, sardentas, louras ou de cabelos negros. Geirprúdur, Helga, Andrea, Gíslí, Torfhildur ou Ólafía esperam pelos homens que se afogam amiúde e recebem maridos como quem colecciona arenques ou bacalhaus. Talvez o autor queira insinuar uma sociedade matriarcal. E fala-se da morte como uma espécie de companhia permanente desses ilhéus viquingues. E de palavras também. Regista-se:
«As palavras são flechas, balas, pássaros mitológicos que perseguem deuses, as palavras são peixes com muitos milhares de anos que descobrem algo terrível nas profundezas, são redes suficientemente vastas para prenderem o mundo e também o céu, mas, por vezes, as palavras não são nada, roupa rasgada que o frio penetra, uma ameia desmoronada por cima da qual saltam ligeiramente a morte e a infelicidade.» (pág. 163)
Embora o Atlântico que banha o meu país, seja a continuidade sul do Ártico, juro que nunca tinha percebido as palavras desta maneira.

Sendo este o primeiro romance de Stefánsson e editado em 2013 em Portugal continuaremos a saga com «A Tristeza dos Anjos» já nas nossas mãos. Mas comparar este romance com «Moby Dick» ou «O Velho e o Mar», como fazem realçar os editores na badana da capa, não será um pouco exagerado?

António Luís Catarino

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Carta entreaberta aos jovens antifa

Porto, na Gato Vadio
À malta mais nova antifa: tenho 64 anos e já vi o suficiente para dar-vos um conselho sem qualquer paternalismo já que devem estar fartos dessas elucubrações de tipos obesos de tanto «achismo». A direita, junto com o PS, entendeu desmantelar, em décadas, o SNS, a educação pública, a habitação social, degradar salários e carreiras, impedir o acesso à justiça (claramente parcial), favorecer e fortalecer até ao inacreditável as multinacionais. Aceitou o Tratado de Lisboa e foi o melhor aluno da Europa no desmantelamento do tecido produtivo do país; apostou em dar cabo dos agricultores e dos pescadores com grande violência para o seu património; encolheu os ombros à floresta a arder; recebeu a troika. contente, radiante e humilhou-vos, mais a nós e aos reformados. Obrigou-vos à emigração. Escarneceu da cultura e do pensamento. Abocanhou a comunicação social. Riu-se da Constituição não a cumprindo nos seus valores mais solidários e sociais. Privatizou à bruta, retirando do interior do país os correios, as escolas, os centros de saúde, os bancos, os comboios e reduziu a circulação dos habitantes do interior até às cidades. Entretanto, o PS, o PSD e o CDS, há décadas no poder, aceitaram, ou na melhor das hipóteses, esconderam a corrupção larvar, a boçalidade política de quem tem lugares assegurados e o compadrio político das jotas e do centrão. Percebem de onde vem a revolta?

Isto não tem nada a ver convosco, nem connosco, nem com os mais velhos e muito menos com as crianças deste país. A esquerda, que agora se apoda na comunicação social, de «extrema», sempre defendeu outras políticas. Sempre resistiu e esteve ao lado dos desfavorecidos, culpados por esta gente de direita de serem pobres. E já passámos bem pior, por muito pior no plano político. Os resultados, são resultados eleitorais. De nada valem se não tiverem continuidade na análise atenta do aproveitamento que o fascismo faz deste lindo trabalho de anos seguidos. A luta far-se-á por todo o lado e principalmente onde estudamos, onde aprendemos sempre, onde trabalhamos e na rua, associando-nos fortemente e levando mais a sério uma coisa que os gregos, avisados, inventaram: a política. E, já agora, o ostracismo para quem atentava contra a democracia. Abraço forte, mas a política não se faz aqui no facebook. Dá-nos, propositadamente e com um forte controlo das nossas vidas,, uma perspectiva completamente errada da realidade. Isso também se aprende depressa.

António Luís Catarino
25 de janeiro de 2021 (um dia após as eleições presidenciais que deu o 3º lugar a André Ventura, atrás de Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa e publicada no facebook)

sexta-feira, janeiro 22, 2021

Escritório em ponto de fuga (contínua)


O escritório onde trabalho, onde leio naquele sofá ao fundo, a minha escrivaninha que me acompanha desde miúdo e que não sei como sobreviveu às inúmeras mudanças da vida, onde ouço o meu jazz, a minha música clássica ou o Bowie e Springsteen quando me dá na gana. Os livros estão também comigo, são a minha companhia, se não for demasiado piegas dizê-lo aqui. Os meus desenhos igualmente em gavetas e armários, quase escondidos como alguns desenhos expostos e que ninguém os quis. O desenho foi fruto igualmente do mesmo curso online em que um professor sueco (isto não é para todos!), Mathias Adolfsson de seu nome e que nunca se ri, me ensinou e encomendou este trabalho sobre o ponto de fuga. Avaliou-o em «muito agradável e com ótima profundidade». Não era isso o que se queria com um ponto de fuga? Que ela, a fuga, fosse agradável e profunda?

Uma cidade numa perspectiva isométrica


Quando me inscrevi num curso de desenho online, foi também pelo primeiro confinamento em Março de 2020. Sempre desenhei, mas também fui sendo ciente das minhas limitações técnicas. Desenhar benzinho nunca foi um objectivo meu. Fiquei, portanto, admirado e agradavelmente surpreendido com o desenho de uma cidade isometricamente planificada, se é que se pode dizer assim. As coisas estavam todas no seu lugar, o caos deu lugar à ordem. O que me saía, saía, sem grandes motivos razoáveis ou de grandes arroubos explicativos. Uma casa e um símbolo religioso, um lápis com vida, uma equilibrista sem rumo (talvez um déjà-vu), uma cafeteira automobilizada, um cão que persegue alguém vestido de preto (um assaltante?), um autocarro de anda às voltas... é uma cidade. Minha. Mas de planificação isométrica, não vá o meu professor nórdico zangar-se.

terça-feira, janeiro 19, 2021

«Internacional Letrista, Potlatch nº5 - Que sentido dá à palavras poesia?»

 

Resposta a um inquérito do Grupo Surrealista Belga:

Que sentido dá à palavra poesia?

A poesia esgotou os seus últimos prestígios formais. Para além da estética, está inteiramente no poder dos homens sobre as sua aventuras. A poesia lê-se nos rostos. É por isso urgente criar novos rostos. A poesia está na forma das cidades. Por isso vamos construí-las transformadoras. A beleza nova será DE SITUAÇÃO, quer dizer provisória e vivida.

    As últimas variações artísticas interessam-nos apenas pela força influencial que nelas possamos pôr ou descobrir. A poesia para nós não significa senão a elaboração de comportamentos absolutamente novos e dos meios de nos apaixonarmos por eles.

Internacional Letrista (texto publicado no número especial

de 'La Carte d'après Nature', Bruxelas, Janeiro de 1954

POTLATCH, nº5, tradução de Leonel Moura. Edição portuguesa de Fenda Edições.

domingo, janeiro 17, 2021

«Negreiros-Dantas. Coimbra Manifesto 1925», de Rita Marnoto. Ou de como os «palermas de Coimbra» ousaram lutar contra a Santa Pasmaceira

 

«Negreiros- Dantas. Coimbra, Manifesto 1925», de Rita Marnoto. Capa: João Bicker. Fenda. 2009
Ou os «palermas» de Coimbra lutando na Santa Pasmaceira universitária!

Este livro de Rita Marnoto, editado na Fenda em 2009, levanta questões inauditas sobre o movimento futurista em Portugal. Sabemos que este movimento, cuja figura mais proeminente foi Almada, nunca foi muito homogéneo, mas torna-se mais interessante quando percebemos que em Coimbra se afirmou um fulgor de índole futurista que se opôs, em parte e pela mão do estudante Francisco Levita, contra Almada Negreiros. É Rita Marnoto que nos diz: «A desafiar Almada Negreiros houve muitos, mas a fazê-lo como futurista, Levita teria sido um dos poucos». Antes de apresentar-vos aqui algumas descrições do livro valerá a pena referir Petrus. Não fosse este editor ter arrolado, em enciclopédia, múltiplos manifestos, poemas soltos, livros, panfletos, volantes e papéis de todos os feitios dos movimentos modernistas e de vanguarda, teríamos perdido para sempre um espólio de grande riqueza que fará, certamente, retratar um país um pouco menos parolo e tão sonolentamente académico como o foi no século passado.

Fixemo-nos em Francisco Levita, estudante da Universidade de Coimbra em Direito, menino com posses, vindo de Portalegre, e dado à tão falada coboiada noctívaga da cidade. Também amante da «photographia». Dele, sabemos o que outros deixaram em memórias e está devidamente registado o escândalo no Hotel Palace do Bussaco em que exigiu uma ementa futurista de frango com chocolate e omelete de pêssegos, regado a champanhe o que os fez vomitar na volta da brincadeira, além de uma interrupção abrupta, na Sala dos Capelos, a um famoso lente, logo após a instauração da República que o futurista apoiava. Suicidou-se em 1924, um ano antes do manifesto futurista de Coimbra. Levita não era mau poeta e os seus poemas são claramente futuristas, com onomatopeias, monossílabos ou caracteres tipográficos identificadores da corrente. Aliás, a autora conseguiu resgatar, na biblioteca de Portalegre, outros livros dele que não o manifesto de 1916 que deu mais brado. Falamos do que se opôs a Almada Negreiros.

Não é de todo impossível que Levita tenha conhecido Almada Negreiros quando este último deambulava também por Coimbra, sendo expulso pelo senhorio que era amigo de seu pai. Talvez por se portar bem e ter reprovado por faltas... digo eu. O último verso do manifesto «Negreiros-Dantas» não clarifica se o conheceu ou  não «Este Sterico que eu já vi fazer de gaivota, bailando em noites de podridão, classificou-se agora, é o DANTAS nº2». Ora, noites de podridão, dá-me a ligeira ideia que se trata de Coimbra! Já bailar como uma gaivota, não conhecemos na dramaturgia ou conferências de Almada, tal feito. O que o leva Levita a atacar este? O Manifesto Anti-Dantas é de 1915, um ano antes de «Negreiros-Dantas» e produziu o baque conhecido, maioritariamente pelos saudosistas e naturalistas. Mas por um futurista de Coimbra? «(...) Os meus pensares confirmaram-se quando o pateta que se diz Futurista e Tudo, lançou praï um manifesto em prosa de algodão, tratando de um outro imbecil: o Sr. de Dantas!!,,, Ja é preciso ser Rasco em literatura pra se prender com tal banalidade!!! E' necessario serse idiota ou burro, tarado ou imbecil, ou Dantas, ou cretino ou Almada Negreiros!!!»

Já o Manifesto de 1925 levanta outras questões e a análise torna-se mais atenta porque se trata de um grupo coeso e literariamente mais estruturado. Por isso igualmente mais divulgado tanto no Diário de Lisboa como no Diário de Notícias. Nenhum era natural de Coimbra. Falamos de Mário Coutinho, das Caldas da Rainha, de Abel Almada, de Santana, Madeira, João Carlos, de Ílhavo e António de Navarro, de Nelas. Claramente perfilhados com Marinetti, que o conhecem e lhe leem os manifestos saídos em 1909, no Figaro e em 1912 o  Manifesto técnico da literatura futurista onde advoga «a abolição do advérbio e do adjectivo e o uso de pares de substantivos» como nos diz Rita Marnoto.

Na entrevista que Mário Coutinho dá ao Diário de Lisboa, num quarto da Alta, mais propriamente na Rua das Almas, afirma «Queremos mostrar que Coimbra não morreu, que ainda é um centro artístico, onde há vida, aspirações e gente que sabe o que quer, que tem um fim. Há dez anos, pouco mais ou menos, não sai de cá uma obra que fique, que marque. Nós pretendemos construir essa obra.» 

Mas é António de Navarro que parece ser o mais esclarecido, tendo levado esta gente a organizar-se em torno de duas revistas antes da publicação do Coimbra Manifesto de 1925 - a Bysancio e a Triptico. Esta última aliás recebe directamente de Marinetti os seus manifestos, poemas e opúsculos da Corso Venezia, 61, Milano, pelo que não nos admiramos de ter havido contactos directos entre os futuristas conimbricenses e o papa do Futurismo. O arrojo e a violência verbal (a física nunca foi afirmada pela corrente portuguesa) teve um episódio bem sugestivo: a 17 de Março de 1925, António de Navarro e os seus amigos, promovem um happening futurista no Teatro Sousa Bastos que acabou com uma agulheta de incêndio a encharcar o palco e os conferencistas que, mesmo assim, não paravam de invectivar o público estudantil e, a bem dizer, algo morcão.

Nesta onda, José Régio, que nunca foi um «convicto» do movimento, abordando-o contudo, afirma sobre o movimento futurista de Coimbra num manuscrito inédito e que Rita Marnoto nos apresenta: «Com a intenção de lhe arrancar informações sobre o movimento literário que presentemente arranha a Senhora Pasmaceira de Coimbra, trago até ao quarto andar em que moro o meu amigo António de Navarro» e num diálogo ao que se julga nesse mesmo quarto, onde via Coimbra «lá em baixo», transcreve um diálogo em que António de Navarro lhe confia: « - Ah, meu amigo! Coimbra tem vivido, ultimamente, num verdadeiro estagnamento. Nós pretendemos abrir brecha, despertando energias e desempoeirando o sentido da arte. Que cada um de nós conquiste a sua própria sensibilidade, desprezando os dogmas, as algemas, a galeria - tudo o que possa atirar poeira e nevoeiros aos nossos olhos - Nós queremos Sol e Ar Livre!»

Bom, foi Eduardo Lourenço que nos disse que toda esta energia acabou na Presença, uma moderação dos sentidos e de rupturas, mesmo que mais tarde se tivesse arrependido de o ter dito. O fascismo de 1926 não explica tudo, nem a Santa Pasmaceira de Coimbra. Chega a ser comovedor este livro publicado pela Rita Marnoto. Eis os ditos «palermas de Coimbra». Ou talvez não. Acabaram (quase) todos no esquecimento e no silêncio.

E a pasmaceira continua, agora que veio para ficar, digo, mais uma vez, eu! 

            Fac-simile de «Negreiros-Dantas», de Francisco Levita, de 1916, resgatado por Rita Marnoto

António Luís Catarino
Santa Pasmaceira, 17 de Janeiro de 2021


quarta-feira, janeiro 13, 2021

«As Cidades Invisíveis», de Italo Calvino

 


«(...)Uma a uma, as espécies inconciliáveis com a cidade tiveram de sucumbir e extinguiram-se. À força de dilacerar escamas e carapaças, de extirpar élitros e penas, os homens deram a Teodora a exclusiva imagem de cidade humana que ainda a distingue.
    Mas antes, durante longos anos, ficou incerto se a vitória final não seria da última espécie que resta a disputar aos homens a posse da cidade: os ratos. De cada geração de roedores que os homens conseguiam exterminar, os poucos sobreviventes davam à luz uma prole mais aguerrida, invulnerável às ratoeiras e refractária a todos os venenos. No decorrer de poucas semanas, os subterrâneos de Teodora repovoavam-se de hordas de ratos invasores. Finalmente, com uma extrema hecatombe, o engenho mortífero e versátil dos homens venceu as abusadoras atitudes vitais dos inimigos.(...).»

As Cidades Invisíveis, em As Cidades Ocultas.4. Italo Calvino

quinta-feira, janeiro 07, 2021

«Florinhas de Soror Nada», de Luísa Costa Gomes

 

Ou a vida de uma Não-Santa, como consta do subtítulo. Um guia completo de como se perde a fé quando esta se instala forte e precocemente numa alma inquieta e insubmissa como parece ser Teresa. Desconfio que aqui há qualquer coisa de autobiográfico, embora isso seja de pouca importância para o caso. Afirmo-o porque Luísa Costa Gomes dá a conhecer o processo lento e doloroso da perda de fé que equivale a encontrar-se com o vazio de um mundo estranho, esse que se faz sem Deus, mas igualmente pelo ambiente claustrofóbico e violento de um colégio interno, de uma fuga de casa ou da vivência muito particular de uma família portuguesa dos anos sessenta. A religião católica presente na educação de uma jovem, em que os sentidos e as dúvidas estão mais que nunca presentes e que nos queimam a carne e o espírito. Muita gente da idade da autora sentiu a solidão, e por vezes o desespero, que comporta esse processo. Não é tanto o medo que um(a) jovem pode sentir ao abandonar os predicados religiosos, mas a estranha sensação de estarmos perante o nada, o desconhecido, ou pior, a traição que cometemos quando nos confrontamos com a expulsão dos santos que julgamos mártires por nós. 

E a nossa fuga do mais mártir de todos, Jesus em Golgotá, ele próprio, que falou a Maria que já não era sua mãe. O enorme leque católico de santos e anjos, encontram-se ao lado de Teresa, a protagonista de «Florinhas de Soror Nada», glosa de outras santas florinhas: as de S. Francisco de Assis mais propriamente, mas também as de São João da Cruz, de Teresa de Ávila, de Santa Joana, do jejum de Simeão, da mártir Catarina de Siena e de Santa Clara. A intenção de dar tudo aos pobres, ao despojamento total, permite-nos ler uma das mais significativas (e desconcertantes) passagens do livro:

«(...) Mas dava-se aos pobres, para os pobrezinhos era a fartura. Acabava num ciciar cuspinhado que lhe deixava manchas aos cantos da boca. Teresa sofria em silêncio, ostensiva, e depunha dois ovos em cima do todo. Deveriam ser idealmente ovos de pomba, mas os pobres entendiam a alusão. A mãe dizia: «Que desordem, Teresa! Olha para essa confusão! É assim que fazes o trabalho do Senhor?» Ela desdobrava o pano bordado, engomado e teso e tapava a obra. Era dos três o cabaz mais reflectido, e logo aquele a merecer censura. Coberto, o estandarte do sagrado coração de Maria punha no cesto dela uma erecção obscena. A catequista avisava contra esta prevalência de objectos sobre o comprido, oblongos, cilíndricos, prismáticos, oblíquos, verticais, horizontais, que sugerissem excrescências. (...)»

E quando Teresa, seráfica e decidida, dá aos pobres nesse caminho de santidade não espera por compreensão, tal como os santos não esperavam, no seu martírio, a redenção pelos mortais: ««Trazes aí o quê?», perguntou um. E a mulher, sentada à soleira da porta com o infalível infante adormecido à mama: «É feijão de rabisco, que a gente chama feijão-de-peido, o que há-de ser?, e logo outra, rindo, mais bem treinada: «A menina desculpe, ela não diz por mal, a gente agradece à menina.» Teresa pestanejara à desconsideração, tinha sensibilidade à desconsideração. «Desculpe, sim, mas é que o feijão a mim...» «Dá caganeira.»»

De facto, não há quem aguente as sevícias produzidas pela fé profunda e Teresa, enquanto se recorda da hagiografia de Teresa de Ávila, ascende-se aos céus pelo baloiço libertador, nesta prosa que só Luísa Costa Gomes tem o condão de nos oferecer: 

«(...) Partilha da agonia do amor a ascensão de Teresa no baloiço; perdida e anulada a gravidade do pecado, o escrutínio dos exames de consciência, o cálculo das confissões, a inutilidade dos sacrifícios; na graça do voo em que se lança finalmente, do ponto mais alto das correntes, vai leve e renascida, ao desamparo do ar livre.» 

Ao ler este trecho de «Florinhas de Soror Nada» lembrei-me de alguma lírica de Camões, desses sonetos belíssimos a que a autora deu o ritmo certo em prosa; repita-se: «...na graça do voo em que se lança finalmente, do ponto mais alto das correntes, vai leve e renascida, ao desamparo do ar livre.» A obra de Luísa Costa Gomes surpreende-nos muitas vezes pelo desvio, pelos caminhos laterais da leitura. Por vezes numa cadência de uma falsa lentidão, para um arrebatamento poético de odes perfeitas. E subitamente me dou conta que foi autora igualmente de libretos para ópera e escrita para teatro. Não sei se isto está tudo ligado, como soe dizer-se, mas que existe qualquer coisa de notável e de óbvio na musicalidade da sua escrita que nos envolve de mansinho é uma constatação que se sente. Provavelmente muito minha, mas eu não sou crítico de coisa alguma.

O final do livro é comovedor, não porque puxe à lágrima fácil, mas pela violência marcada de uma vida toda. Afinal, Teresa cresceu como era natural. O que não esperamos são as  cicatrizes, literais ou intangíveis, que acompanham a personagem até ao seu final demente num lar, sem casa, porque vendida pelos filhos para pagar a clínica, com a alegria forçada das voluntárias de hospital e de palhaços de feira dos lares de velhos. Teresa foge do lar como antes, jovem, fugiu do colégio de freiras. Mas a fuga é sem sentido e tem sempre uma lógica: a permanência. A estabilidade de um namorado, ou o encontro de um casamento não propriamente feliz, mas sólido. A cena em que Teresa, já nos oitenta, afirma à neta que teve um encontro com a sua mãe é inesquecível. Apercebemo-nos, no final, que a Soror Nada somos todos. Isto é tudo demasiado frágil e a caminho alegremente do Nada. 

Não deixem a sós este livro. 

António Luís Catarino
7 de Janeiro de 2021


quarta-feira, dezembro 30, 2020

«Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano», de Filipa Leal

 

Foto: Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (FLUP)

Literalmente: uma folha deste livro fez-me um corte no dedo. Não chegarei ao ponto de o mostrar, mas será uma boa metáfora da última poesia de Filipa Leal. De livro para livro a poeta vai avisando da explosão iminente, da ira contida. Desde, pelo menos (e sublinho, com dúvida), do «Vem à Quinta-feira» que se nota uma contenção, uma contenda íntima que a sua escrita não esconde. Portanto, a sua poesia torna-se perigosa no sentido em que nos podemos ferir seriamente. Não será esse o desígnio último da poesia? Encontrarmo-nos violentamente com as sensações? 

Desde 2015, ano fatídico deste país, que assistiu impávido e impotente aos seus filhos emigrarem para sobreviver, que Filipa Leal se rebelou com o já conhecidíssimo «Europa» e a sua continuidade com «Europa, segunda carta», em 2019, até este tão excelente como indefinível «Fósforos e Metal sobre Imitação de ser Humano». Filipa senta a Europa no seu colo e diz-lhe, tão baixinho que nos esforçamos para ouvir, «Europa, senta-te aqui. Vamos conversar, vamos fazer terapia de casal.(...)» e adivinhamos o seu esgar de desprezo para uma entidade que tem tanto de falsa como de fraca, mas que ainda assim lhe levou amigos e talvez dos nossos melhores filhos. Europa que, na mitologia grega, era raptada e seduzida por Zeus, é hoje completamente livre na sua arrogância? Somos nós?

A Filipa Leal que nos diz que «dificilmente viverei na absurda arrumação dos quartos, dos livros dos deuses. A cabeça é como a casa que se limpa quando a memória instala o caos. (...)» é a que igualmente nos atira à cara «Eu hei-de ser galega, portugueses, meus irmãos,/e por elas hei-de me calar, calar-me definitivamente,/salvando-me tanto mais assim, e às cabras, lendo bem,/lendo cada vez melhor o manual de intervenção cirúrgica/fundamental para salvar cabras de pessoas como eu». O recorrer a um silêncio tornado ruidoso. Demasiado ruidoso, este calar auto infligido? Não pressentem, pois, a explosão?

A poeta que aqui se apresenta quis esculpir o poema em forma de epílogo: «No princípio, até correu bem. Trabalhava contente no meu atelier imaginário. Depois, houve um problema. O problema eram as mãos perfeitamente limpas sobre o teclado. Não é o que se espera de um escultor».

E a contenção, o refreamento que antecede a ferida nas nossas mãos (possivelmente nada limpas): «Uma pessoa promete calar e até cala/mas depois há a segunda e a terceira tinta./Somos cada vez mais grisalhos com cabelo cada vez/mais escuro. Escuro como tudo».

Não pressentem pois a explosão?
António Luís Catarino
30 de Dezembro de 2020


«Acidentes», de Hélia Correia

Foto Jornal «Sol»
                                                                    Foto: Jornal «Sol»

Li o desencanto e o desânimo de Hélia Correia em «Acidentes» acompanhando-a no que pude: sublinhando o escorraçar das palavras, obra de homens que as submetem ao risível. «Deixai, deixai cair uma palavra,/e outra, e outra,/os ossos do banquete,/para que me roje e as apanhe com a boca,/(...)» e, em «Distracção», o desbaste contínuo e assassino da Natureza em consonância com a ideia «(...) dessa coisa a que chamam utopia/porque não tem lugar na natureza,/e que, por falta de raiz, não dura/muito mais que um insecto luminoso.(...)»; e Hélia Correia volta novamente à palavra para nos avisar que a poesia tem longo trato (viciante) com as metáforas, tornando os lobos na imagem-lugar-comum do mal. Mas «(...) Eles matarão/somente porque existe um pensamento,/como um tumor,/ naquilo que os constitui. (...)»; a desconfiança na ciência cria uma atitude poética de fusão para com ela, visto que «passado o espanto fundador» tudo é possível porque os Mestres, a humanidade, domesticou tudo, desenhou tudo nos mapas, trouxe tudo para casa e desenhou igualmente o extermínio. Como se desvendou tudo haverá então espaço para a poesia? «Vindo o momento, tudo aquilo que separou/ciência e poesia deixará/de existir sobre a terra.» O mistério da respiração, pela mão de Hélia Correia, é desde sempre um mistério. Os pulmões que pulsam a vida, a transformação do ar no corpo, não é explicável pelo movimento das células e do sangue. Só pela poesia se consegue sentir esse pulsar, essa transformação vital.

Não é a primeira vez que Hélia Correia me coloca na situação de espanto perante as suas palavras: aconteceu com «Adoecer» e agora com «Acidentes», embora em registos diferentes. Tenho acompanhado os seus livros desde sempre e também por causa da Grécia, bem presente neste último livro de poesia. Soube, pelo livro, que o poema dedicado a Maria Helena da Rocha Pereira, que foi minha professora de Cultura Clássica durante dois anos na FLUC, já teria sido publicado no JL. Constituiu uma surpresa comovedora incluir este longo poema num ciclo helénico, diria eu, dedicado a Safo e a Cleïs. 

António Luís Catarino

30 de Dezembro de 2020.

sexta-feira, dezembro 25, 2020

Natal de poesia feito 2

Por vezes dá-me a febre da poesia. É por ondas. Por impulsos. Na verdade, a poesia também ela é impulso e perseverança. Encontrar a palavra, a ideia certa, é quase doloroso. As palavras quando juntas pelos poetas adquirem uma lógica que por vezes não encontramos cá fora, não sabemos como dizer e lá está ela sob os nosso olhar. Que entra em nós e permanece, num caminho permanente.

quarta-feira, dezembro 23, 2020

Natal de poesia feito

No Natal há demasiados ruídos, solicitações, companhias que dificultam muito a concentração que é obrigatória na leitura. Um poema. Um simples poema pode ajudar-nos a centrar a beleza inerente à palavra e à sua conjunção. Como os planetas em linha que permitem ver o brilho de uma estrela longínqua. É nisto que me refugio durante o Natal. 

António Luís Catarino

23 de Dezembro de 2020.

terça-feira, dezembro 22, 2020

«A Ladra da Fruta», de Peter Handke


Já me tem acontecido na leitura de um livro, mas as primeiras palavras desta ficha de leitura vão, directas, para o trabalho de Helena Topa nesta tradução de «A Ladra da Fruta», de Peter Handke. É um trabalho excepcional e não queria (nem poderia) estar na sua pele a traduzir do alemão palavras, expressões, referências literárias inesperadas mas ganhando todo o sentido ao serem explicadas no final do livro por Helena Topa. Palavras e frases que o próprio Handke afirma, no decorrer da história, serem intraduzíveis alternando com expressões em alemão (a certa altura até faz um elogio à sua língua que, cá por mim, até corroboraria se não fossem as palavras de 23 letras!), francês e espanhol. Nada que não se esperasse de um livro da Relógio d'Água, mas este trabalho de tradução é mesmo de registar.

Quanto ao livro em si, lê-se de um fôlego. Não tendo capítulos ou espaços em branco para respirarmos, a cadência que nos transmite faz a leitura discorrer sem grandes problemas de fadiga. O facto estará, creio, no acompanhamento que queremos fazer com Alexia, mais tarde também com Valter, cuja viagem em espiral dura três dias. O motivo aparente, se é que é necessário um motivo, é uma caminhada pelas estradas, bosques, rios, na Picardia francesa em busca da mãe e de um irmão que não vê há muito. Alexia é siberiana e viaja em diversas situações quase surrealistas se não tivéssemos a certeza que a realidade ultrapassa em muito a ficção, tornando a deriva de Alexia verosímil. 

Utilizei o termo «deriva» porque é mesmo o que acontece nesta viagem. Se isto não é uma deriva, então o que é a busca de Alexia? Se atentarmos em Thomas de Quincey que afirmava em «Confissões de um Opiómano inglês» que Londres era uma cidade onde existiam quadrículas desconhecidas ou mapas não registados oficialmente pela polícia, onde se errava em liberdade e perigosamente, então temos uma Alexia em deriva constante. Se quisermos até chamar a psicogeografia, teremos igualmente uma Alexia em busca permanente de uma identidade e de um lugar onde se identifique com ela própria. Por isso move-se em espiral, como nos informa Handke. Porque se encontra com lugares, pessoas e animais que lhe dizem quem é, mas que ela abandona de seguida - em espiral, para nunca se repetir o encontro, tal como a História, em Mircea Eliade. Esta nunca se repete se bem que os lugares-comuns, muitos deles assinalados pelo autor na obra, o repitam até ao enjoo. Não, a História não se repete. Toca-se em espiral, num movimento helicoidal, como as molas dos nossos automóveis. 

E, se para esta obra excepcional, fosse necessário mostrar um epílogo, de tantos que tem, visto que a deriva de Alexia, tal como qualquer deriva, não tem fim, eu escolheria este discurso do pai:« «Nós, os que não temos Estado, aqui e hoje livres do Estado, inatingíveis pelo Estado. Tudo se converteu em seitas, Estados e Igrejas e...e...E nós? Fugitivos do tempo, heróis da fuga. Nós, que não temos um papel, enquanto os homens do Estado continuam, imperturbáveis, nos seus papéis. Nós, os eternos destemidos cheios de temor. Os eternos hesitantes e procrastinadores. Os que escolhemos os desvios. Os que andamos em círculos e espirais. Os-que-olhamos-por-cima-do-ombro para o vazio. Os herdeiros da culpa. Os amantes do amargo. Nós, os prestáveis, dinastia de serviçais, nobreza hereditária de obsequiosos. Nós, os rotos, marquesas e condes hereditários ''von Roto''. Nós, as figuras marginais! (Exclamação: «Viva o roto! Vivam as figuras marginais!») «Nós, os ilegais e os desesperados. Que temos, contudo, uma lei. Nós, os lutadores de causas perdidas.» (Exclamação: «Vida longa aos que lutam por causas perdidas!»).»»

Sois dados a serem prestáveis, pertencerem a uma dinastia de serviçais ou, ainda, eternos obsequiosos? Então não leiam este livro. Mas sereis agradavelmente surpreendidos se forem permanentes lutadores de causas perdidas.

António Luís Catarino. 

22 de Dezembro de 2020

quinta-feira, dezembro 10, 2020

A ignorância ao serviço do nazismo



Eu sei que o texto é longo, mas por vezes é necessário desconstruir o negócio em torno de Auschwitz. Porque não é só o negócio. É também a ideologia que lhe está subjacente. O horror pode ser banalizado por um idiota útil do nazismo. É o caso, não único, de José Rodrigues dos Santos. Percam cinco minutos a ler esta denúncia. Talvez seja importante.

Começo por agradecer o alerta à Irene Pimentel – com quem continuo a aprender - e junto-me ao seu protesto.
A verdade é que perdi a conta aos livros que li, desde os já longínquos tempos da faculdade, sobre a perseguição aos judeus na Europa durante o séc. XX. Entre eles, apenas um romance – As Benevolentes, com que Jonathan Littell ganhou o Goncourt e o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa. Esta minha aversão pela ficção em torno de uma matéria tão sensível raia o paradoxo, já que foi o género que escolhi para falar do assunto nos três livros que escrevi. A explicação é simples: sempre receei a falta de rigor, mesmo tendo sido injusto com alguns ficcionistas que sabiam o que diziam. Até os livros académicos foram escolhidos a dedo, uma obsessão que se afirmava cada vez que conversava com algum sobrevivente. Quando me falavam da sua vida no campo, contavam que, ao acordarem – às 4h30, no verão; uma hora mais tarde, no inverno –, deparavam muitas vezes com mortos e quase mortos prostrados nos beliches, pois nem todos resistiam às noites geladas de Auschwitz em barracões com lareiras que nunca eram acesas. Se fossem a tempo, ainda se aproximavam do companheiro que agonizava, ajoelhavam-se e davam-lhe a mão para que não morresse só. Sobrassem forças para dizer alguma coisa, o moribundo despedia-se da vida com um pedido: as últimas palavras reservadas para implorar a sobrevivência de quem lhe segurava a mão. Para quê? Para que contasse o que se passava ali. Ninguém suportava morrer, permitindo que a mentira lhe sobrevivesse.
Eu disse pedido? Era mais do que isso: era uma sentença de testemunho. Então, e só então, soube o que me faltava para escrever sobre Auschwitz, Jedwabne ou qualquer aldeia toscana devassada pelos nazis. Alguém imagina que valor dá à Verdade quem ouve uma história destas?
E é também por isso que vos falo do Rodrigues dos Santos. Não dos livros – que não li -, mas da entrevista recentemente dada à RTP.
Cito-o:
«A minha ideia era transportar o leitor de Portugal, em 2020, para Auschwitz, em 1944. De tal maneira que as pessoas estão a ler o romance e a certa altura já não estão aqui, estão lá, naquele tempo. Estão a sentir os cheiros, as cores, a visão, as emoções, como se estivessem lá.»
Uma proeza para qualquer autor, mais ainda nunca lá tendo estado. Censuro-o por isso? Essa agora! Mas estranho como suportou não fazer essa visita.
Já eu não sosseguei enquanto não fiz a viagem. E mesmo tendo lá ido quatro vezes, de ter passado dias a fio a trabalhar nos antigos campos, de atravessar sem pressas a mata de bétulas de Birkenau, ou de caminhar, por vezes à noite e quase sempre sozinho, entre os barracões do Stammlager, nunca concebi os cheiros ou as emoções de quem lá sobreviveu ou fez tudo por isso. Muito menos tentei descrevê-los. Mas cada um faz o que pode e, sobre isso, nada a dizer.
Igualmente não censuro JRS por dizer que nenhum autor português escreveu sobre o assunto, muito menos que se esqueça das perguntas que me fez quando me entrevistou num Telejornal em outubro de 2017 - pelo que vejo agora, apenas quatro dias antes da epifania que o levou a escrever os dois romances sobre Auschwitz. Também não o critico pelas gafes – logo eu, que me espalho tantas vezes-, mesmo quando nos diz:
«Os nazis tinham 50 campos de concentração, que é uma coisa gigantesca, e os comunistas, na Rússia, tinham 500! Eram dez vezes mais.”
Classificar Auschwitz como um campo de concentração é uma imprecisão muito mais comum do que afirmar que os nazis tinham 50 campos. Infelizmente o número foi superior, dolorosamente superior: mais de 44.000, somados os campos de concentração e guetos, campos de trabalho, de trânsito, de extermínio, etc.
De regresso à entrevista, ouvimo-lo dizer o seguinte:
«A certa altura, há alguém que diz: - Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?»
Não sei até que ponto JRS está a par do debate académico sobre as origens do genocídio nazi, nem se conhece os conceitos de Funcionalismo e Intencionalismo que têm dividido os historiadores nas últimas décadas. De uma coisa tenho a certeza: não vai encontrar nenhum académico respeitado que alegue razões humanitárias para justificar os gaseamentos. A não ser, claro, que essas razões recaiam sobre os próprios alemães, membros dos einzatsgruppen que fuzilaram multidões de judeus durante a invasão da União Soviética e que apresentaram sinais compreensíveis de fadiga e distúrbio psicológico, após dispararem a eito sobre milhares de mulheres e crianças indefesas. Andava eu convencido de que os primeiros camiões de gás tinham surgido para agilizar as mortes e torná-las mais “limpas”; oiço agora que foi por piedade pelas vítimas.
Aberrante? Há mais e há pior. Atente-se:
«Nós vemos no livro que há ali uma máquina que está montada e que é quase como quem vai para o trabalho. Aquilo é um trabalho, portanto, eles vão lá fazer um trabalho. (…) Chegou ao ponto de terem um bordel no campo para os prisioneiros (…) tinham uma piscina para os prisioneiros, (…) tinham uma escola para as crianças judias no Familienlager, em Birkenau. Por outro lado, o ser humano tem uma enorme capacidade de se adaptar às situações.»
Adaptar a quê? A Auschwitz? Terá JRS lido Primo Levi? No lager, a única adaptação possível é a abreviatura da morte, os Muselmänner.
Não. Eles não vão lá fazer um trabalho, vão lá para morrer. Por cada transporte que chegava a Birkenau, a maior parte era imediatamente conduzida para as câmaras de gás. Os que ficavam trabalhavam como escravos até morrerem também. Não iam para a piscina e mesmo os bordéis criados nalguns campos para “premiar” os mais produtivos não passavam de um embuste, um lugar de humilhação para os prisioneiros, ou mais um exemplo do cinismo e crueldade dos nazis. Oiçam-se as vítimas, pela voz de uma de muitas - Jozef Szajna: «Os bordéis eram apenas mais uma forma de os SS atormentarem os prisioneiros. Todos os que pensam que o bloco 24 era uma espécie de prenda para os prisioneiros, não fazem a mínima ideia do que foi Auschwitz.»
O exemplo descontextualizado da escola do Familienlager, a extensão propagandística do campo/gueto de Theresienstadt situada em Birkenau, também é pernicioso. Essa escola destinava-se às crianças vindas de Terezin e, assim como as condições dadas aos restantes prisioneiros desse setor do campo – ligeiramente mais favoráveis do que as concedidas aos demais – mantinha o propósito ardiloso do campo de origem. É uma ilha irrisória nos 150 hectares de Auschwitz II e, sem ser o facto de menos de 1 em cada dez deportados ter sobrevivido, não representa o que se passou ao redor.
É esse o problema do discurso de JRS. Desdenha as obras de ficção que falam da Shoah por «suavizarem a realidade», mas doura a pílula e confunde tudo. Pior: sobram-lhe certezas onde falta a perplexidade; e só ficciona sobre Auschwitz quem desistir das respostas – sempre pequenas para tão grandes perguntas, como lembrou Raul Hilberg. Sem querer, cai naquilo que Deborah Lipstadt apelida de «soft core denial». Exagero? Então leiam:
«Os nazis acreditavam que faziam isto para um bem superior, que eles iam salvar a humanidade. Nós encontramos este raciocínio na Inquisição, quando está a queimar as bruxas, a matar os judeus, a torturar as pessoas, acreditando que aquilo é para as salvar, para que encontrem o caminho de Deus.»
Não comento. Apenas lamento esta entrevista. Lamento que JRS não usasse melhor os 23 minutos que o canal PÚBLICO onde trabalha lhe ofereceu para publicitar o romance. Mas também me lembro das horas que passei a falar destas coisas a muitos jovens deste país, mais de 100 sessões escolares em que pesei cada palavra para não dizer asneiras, ou mesmo dos 20 anos que esperei para me atrever a escrever sobre Auschwitz e o grande desastre humano.

Lenine e Nós, de Boaventura de Sousa Santos



O facto de Boaventura de Sousa Santos escrever sobre Lenine, já por si, é uma notícia. Mais notícia será se nos ativermos às posições políticas do sociólogo que está longe de estar em consonância com o PCP. Tal como disse há uns tempos por aqui, o BE irá ser penalizado pela posição que tomou relativamente ao fim da negociação na especialidade do Orçamento para 2021 com o Governo, votando contra. Sei que alguns companheiros do BE estão zangados com as medidas do PS e do Governo no campo do trabalho, da precariedade e da saúde que não são uma novidade, nem apontam para uma flexão (mais) à direita. Porque já estariam nos orçamentos anteriores que foram votados com abstenções da esquerda parlamentar. Qual, então, a importância deste artigo de BSS? É que a sua análise à posição do Bloco vem de encontro ao que já aqui dissemos repetidamente sobre o seu vazio ideológico muito mais permeável a incompreensões sociológicas e erros políticos, que o impedem de uma compreensão global sobre o querer e a sensibilidade políticas do «povo de esquerda». Apresentar um artigo desta importância tendo como base «O Esquerdismo doença infantil do Comunismo», de Lenine, nem em sonhos eu era capaz de o pensar e muito menos de o fazer (então aqui, no FB!). Mas Boaventura fá-lo com a elegância e a síntese que lhe são atribuídas por muitos. Outros, também muitos, nunca o diriam assim. Não tenho para mim que o BE seja esquerdista e, segundo compreendo, nem BSS o acha, senão entraria em contradição com a acusação de vazio ideológico do BE. A análise recai sobre a estratégia do BE e do PCP que apoiaram a Geringonça. Estratégias díspares, mas valorizando a do PCP. A análise vale por isso mesmo. O ataque concertado ao PCP também é visto como parte integrante da estratégia da direita que absorve as críticas ao Governo pela esquerda. A direita sabe muito bem o que faz. E, prova disso mesmo é que logo após a publicação deste artigo, o ataque de toda a direita se faz a BSS por causa da chamada de Lenine à colação. Compreende-se a proscrição do revolucionário russo por antinomia, mas é inegável o apoio implícito ou explícito de largas franjas da esquerda a esta figura que Boaventura corajosamente foi chamar. Um texto a ler e a (re)pensar. Antes que a direita e a extrema-direita toquem as trombetas do triunfo.

O artigo de Boaventura de Sousa Santos é este:

https://www.publico.pt/2020/12/07/opiniao/opiniao/lenine-1941149?fbclid=IwAR10lSJtdmscoOUXd0csPWUwz5elHQ_MNnu9RRVQKyG46dj10S-0PRk0Lfw

António Luís Catarino

7 de Dezembro de 2020

terça-feira, dezembro 01, 2020

Últimos exemplares de «Anjos do Desespero»

 

Últimos exemplares de «Anjos do Desespero».

Aproximamo-nos do final da promoção do livro/catálogo Anjos do Desespero baseado na exposição homónima que teve lugar em Coimbra, no Liquidâmbar. Referências poéticas e personagens que vos mostro juntamente com o prazer do desenho, da colagem e da recolha. Foi uma edição de autor, com a chancela da Artes Breves e composta por António Alves Martins. Tiragem pequena, permito-me informar que já existem poucos livros para venda restrita e simbólica de 12 euros. Um abraço de obrigado a quem já adquiriu o livro, todos autografados. Um agradecimento aos espaços que aceitaram expô-lo: Letra Livre em Lisboa, Utopia no Porto, Miguel de Carvalho na Figueira da Foz e Liquidâmbar em Coimbra. Uma grande cumplicidade aos que leram os textos na exposição e presentes no livro. E um obrigado igualmente aos que o vão ainda adquirir, neste fim de ciclo a que me propus. O contacto aqui vai, e a tempo, por causa do tempo: alcatarino3@gmail.com

António Luís Catarino

1 de Dezembro de 2020

domingo, novembro 29, 2020

«Do Desaparecimento dos Rituais», de Byung-Chul Han

 

Por vezes há autores que nos desiludem. Mas creio que isso fará parte de quem segue desde há anos o percurso singular do filósofo coreano Byung-Chul Han, como é o caso. Não exijo que todos os filósofos contemporâneos deixem de interpretar o mundo e comecem a querer transformá-lo, mas há pequenas nuances que gostaria de maior clarificação. O título do livro leva-nos à questão central: serão os rituais necessários perante uma sociedade que rapidamente os está a esquecer? Depois de um ataque ao ritmo neoliberal e ao trabalho/descanso da contemporaneidade como facto maior da alienação, o autor define rituais como actos simbólicos que transmitem e representam os «valores e os regimes que tornam coesa uma comunidade» gerando uma comunidade sem comunicação, enquanto que hoje, o que existe é uma comunicação sem comunidade. Parece-nos pois natural que o filósofo parta para a crítica aberta e, por vezes, violenta à mercadoria. Essa mercadoria, que foi classificada por Marx como fétiche, como alienação do capitalismo é, todavia, objecto de crítica ao neoliberalismo, pelo autor. A diferença é clara e entendida por todos nós: o capitalismo não é colocado em causa como sistema, mas sim os regimes que dele transpiram como o neoliberalismo culpado de todos os exageros e exploração desenfreada, tal como o capital e o dinheiro. Até aqui tudo conforme, embora já duvidoso. Mas Byung-Chul Han inicia pois o seu ataque concertado, e até certo ponto sintetizado e estruturado, ao smartphone, ao pensamento dático (baseado na quantidade de dados), à deslocalização - a ausência de lugar fruto da falta de identidade de um ritual que nos coloca no mundo - , à emocionalização da mercadoria e à estetização ligada a esta que obriga a um consumo de produção que coloniza o ego cada vez mais narcisista e, por isso, fora da comunidade. As pessoas, por isso, isolam-se, como nas redes sociais, mas construindo um ego em comunicação constante, falando para si próprias. A palavra «ritual», hoje, é vista com repugnância porque está ligada ao silêncio - cada vez mais impossível de atingir -, ao lugar, à pertença a um comum, à reflexão. O narcisismo e o egotismo estará assim associado à ausência de conclusões, ou da procura da verdade assente em factos observáveis, mas num continuum de updates, que nos desligam (relegere) do mundo sensível e nos fazem entrar numa roda de hiperactividade e de défice de atenção. Mais do que o conteúdo de um post necessitamos de likes, friends e followers como um campo de ressonância. O eco do eu. Leiamos o filósofo: 

«Na busca de novos estímulos, excitações e experiências, hoje perdemos a capacidade de repetição. É intrínseco aos dispositivos neoliberais, tais como a autenticidade, a inovação ou a criatividade, coagirem-nos permanente ao novo. Mas, no final de contas, a única coisa que geram são variações do mesmo. O antigo, o passado, o que permite uma repetição satisfatória, é eliminado, porque se opõe à lógica de aumento de produção. No entanto, as repetições dão estabilidade à vida. A sua característica é a sua capacidade para nos instalarmos num lugar».

Para o pensador coreano a autenticidade é inimiga da comunidade porque narcisista. A partir daqui inicia a crítica à produção neoliberal, visto que a pessoa passa a ser um produto, uma mercadoria, tal como o tempo de trabalho e de descanso que faz parte do ritmo produtivo. A teoria de alienação de Marx? Não. Byung-Chul Han passa não só para a crítica de Marx, como para o seu antecessor Hegel, enquanto ao mesmo tempo abre uma nesga de crítica ao capitalismo como fenómeno contrário a um outro fenómeno: o da religião (a tal relegere) porque este sistema económico impede a ligação comunitária, entrando e promovendo um inferno do igual porque tudo (as mercadorias como objectos e como pessoas, dizemos nós) pode ser comparável em dados. É a ditadura dática. 

Mas porque Byung-Chul Han critica, então Hegel? Porque na sua dialéctica opta pelo servo e não pelo senhor. Decide-se não pelo ócio do senhor, mas pelo trabalho do servo. A sobrevivência contra a vida! Ou seja, Hegel seria incapaz de entender o ponto de vista do jogador, do ócio, do amante da vida. E nessa esteira de pensamento, leva-nos à negação de Marx, cuja filosofia e teoria se centra no trabalho, louvando, um tanto puerilmente, o seu genro Paul Lafargue que escreveu o famoso «O Direito à Preguiça». Sabemos que Marx centrou toda a sua filosofia no trabalho, para o desconstruir  como trabalho assalariado e alienante no capitalismo, decompondo o valor da mercadoria e explicando o valor do trabalho e principalmente da força de trabalho. Não irei ao ponto de sugerir que na Coreia não haja uma tradução de «O Capital», embora o coreano viva na Alemanha e saiba correntemente o alemão, o que lhe permitiria ir à fonte...

A dúvida adensa-se quando se começa a entrar por caminhos estranhos na leitura de «Do Desaparecimento dos Rituais»: o Japão como futuro dessacralizado do capitalismo, pela imposição de signos e território ritualizado do capitalismo? A mercadoria no Japão perde o seu real valor pela importância do invólucro, muitas vezes mais rentável que a mercadoria em si? E a superação da guerra inumana de drones ou pela internet, dando primazia ao jogo da guerra de olhos nos olhos, no duelo entre pares? Outra vez os samurais de Mishima? 

Isto tudo poderia ser uma leitura interessante se não estivéssemos atentos às «pequenas» pesquisas de Byung-Chul Han. Não é só a tentativa (falhada quanto a nós) de superação de Hegel e  Marx - e logo, neste, pelo valor das mercadorias! - nem também pelos laivos situacionistas e libertários de quando fala do ócio/trabalho ou da crítica ao digital e ao poder dático, mas já nos causa perplexidade a utilização e referência do nazi Carl Schmitt para a superação da guerra digital online, ou pela superação do Iluminismo através da assunção de sociedades ritualizadas pelo sentido comunitário dando o exemplo do Japão. 

Como gostaria de estar errado sobre ele. Sim, o Iluminismo morreu, mas não creio que seja pela perspectiva do devir filosófico de Byung-Chul Han. Fico-me cá pelo Adorno e basta!

António Luís Catarino

29 de Novembro de 2020

«Imagine: Reflections on Peace»

 

Foto de Ron Haviv: os Tigres de Arkan em acção na Bósnia Herzegovina


Um livro sobre a paz mostrando-nos a guerra. Fotos duras estas, como a que escolhi para ilustrar a brutalidade e a desumanidade, mas imperioso conhecê-las. Nesta, um «arkan» sérvio pontapeia uma mulher bósnia prostrada junto a dois cadáveres, um dos quais teria sido atirado de uma janela de interrogatórios em andares superiores do edifício. Nada que o paramilitar que a agride na cabeça o faça sequer apagar o cigarro que segura na mão esquerda. Um pequeno pormenor que nos transmite o horrível da situação. Ao lado, nenhum dos outros dois se vira para observar a cena. Possivelmente saberão o epílogo do que vai seguir-se que é a morte certa das vítimas. Este livro Reflections on Peace é por isso feroz, mas não só. Ajuda-nos a perpectivar uma paz necessária em todo o mundo onde ela não existe ainda. A construção da paz é muito mais honrosa e difícil do que a cobardia da guerra. Bater em mais fracos não segura a mão vitoriosa de quem se julga forte. Neste livro viajamos pelo Líbano, Camboja, Ruanda, Bósnia, Irlanda do Norte, Colômbia, Iraque e Síria regiões martirizadas pelo poder do dinheiro, da ganância, do capitalismo neoliberal e do imperialismo, mas que teima em atingir uma vida digna de ser vivida.