domingo, outubro 20, 2019

Enquanto este esgoto não colapsa

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Foto: Letra Livre e Mapa

O final do título poderia ser um «divertamo-nos todos enquanto isto dá», «carpe diem», «que se lixe, já cá não viverei nesse tempo»...e mais, e mais... dando à vox populi a razão suprema de andar de mãos dadas com o capitalismo, principal responsável do que aí vem, não fosse hoje o mundo um enorme esgoto em que o tornou. Ar, terra, mar poluídos e sempre a eterna esperança que a sacrossanta tecnologia nos salve do colapso.

Por isso ler o livro de Carlos Taibo, «Colapso – Capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo» editado oportunamente pela editora/livraria independente Letra Livre, faz-nos pensar (ou dos poucos que se esforçam por pensar), enquanto ser humanos do ainda Holoceno o que fizemos, ou melhor, o que deixámos fazer a este planeta Terra.

Primeiro choque: as notas de rodapé e a bibliografia do autor. Inegavelmente importantes estas notas de carácter científico, admiramo-nos na leitura e pesquisa que delas fazemos de algumas ideias que o autor sublinha, com cuidado e rigor, venham desde a década de 50! Ou seja, a preocupação por esta eutanásia dolorosa do Planeta vem desde muito cedo. Talvez mesmo do século XIX, razão pela qual a Revolução Industrial foi o início da crise do planeta pelo que não será exagerado ou eivado de falsidade a afirmação que a acumulação de capital e o imperialismo foi a causa última do início da decadência climática e ecológica.

No capítulo I, Carlos Taibo apresenta-nos o conceito de colapso. Talvez o mais interessante do livro seja esta questão. Já assistimos, durante a História, a vários colapsos: a queda dos impérios egípcios e hititas, a do Império Romano com o avanço do que chamamos (mal) de povos bárbaros do oriente muito possivelmente a períodos longos invernosos e verões húmidos e chuvosos, a Peste Negra que varreu da face da Europa três quartos da sua população, e, já mais para os tempos modernos as invasões napoleónicas, a guerra franco-prussiana e as guerras liberais, a I e II Guerras Mundiais com o seu cortejo de milhões de refugiados e de 150 milhões de mortos. Já para não falar da bomba nuclear usada pelos americanos no Japão, na paranóia e o medo permanentes que coisa igual se repita. A Humanidade enfrentou com a adaptação possível viver nessas condições. Embora em colapso.

O conceito de colapso é, também ele, muito variável. Carlos Taibo dá-nos vários exemplos: um vulcão na Islândia nos anos 90 permitiu que, durante 10 dias, os sistemas eléctricos e electrónicos baqueassem totalmente, as rotas de aviação e rodoviárias parassem, a internet funcionasse intermitentemente e que deixassem de existir as trocas de informação, de mercadorias e as bolsas mundiais praticamente não funcionassem. Não se contam aqui os milhares de mortos directos e indirectos da erupção vulcânica e os hospitais a trabalharem sem todos os equipamentos a funcionar. Mas isto aconteceu no Norte rico. Agora tentem falar em colapso a um habitante da faixa de Gaza, da Nigéria, da Síria ou do Iraque! É evidente que esta gente nasceu e já morreu em constante colapso. Sem água, sem luz eléctrica ou sem os cuidados básicos inerentes à sobrevivência, nem digo à vida, porque ela simplesmente não existe. No sul há povos em eterna ruptura, sem instituições, sem dinheiro, sem ajudas. Não perceberão o conceito de colapso, assim como se diz que o Norte colapsou porque se tornou impossível viver sem a TV ou sem rede de telemóvel pela erupção de um vulcão!

Passando a necessidade epistemológica de Taibo (professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid e com bibliografia editada) em explicar o conceito de colapso ao estudar as suas possíveis causas (tão óbvias que não vale a pena reproduzir aqui), desenvolve cenários pós-colapso extremamente audazes, mas com todas as possibilidades em aberto. É o melhor do livro.

Isto tanto pode acabar mal com um ecofascismo ou com a extinção total (o que não acredito, nem o autor), como até pode abrir espaços de liberdade comunitários que não devemos rejeitar como hipótese real, ou ainda mais real coexistirem em luta contínua as duas formas de vida, uma nova luta de classes baseada na teoria de Marx, com o desaparecimento traumático da classe média, do dinheiro e das mercadorias. Imaginemos uma enorme ruptura no campo das energias não renováveis, como aconteceu na URSS em 91 ou em Cuba ou na Venezuela ainda hoje e agora projectem-nas a nível global. Na Rússia tudo se transformou num enorme caos financeiro (de que se aproveitaram alguns oligarcas), na inoperância e desaparecimento do Estado que acabou com os apoios sociais e as reformas, o dinheiro acabou pela queda total do rublo e as mercadorias deixaram de circular. Nunca divulgados pelos media, houve comunidades inteiras que sobreviveram no campo, abandonando as cidades e criando comunidades fortes com democracia directa. Em Cuba, o embargo de petróleo dos EUA, levou a que tivesse importado um enorme volume de bicicletas à China, criando hortas urbanas e criando fortes comunidades no campo. A emissão de CO2 teve uma queda de 26,6%. Na Venezuela, a crise ainda não chegou ao colapso porque as reservas deste país ainda são fortes, mas a contínua baixa de preço do crude e o embargo nas exportações faz com que estas reservas estejam paradas. A necessidade de autoregulação e autogestão longe do poder, tem sido uma prioridade que tem resultado prescindindo de intermediários especuladores e indo à produção directa. Não rejeitemos portanto a necessidade da partilha comum da energia e da própria vida.

Portanto, as coisas não são fáceis de decifrar para um futuro que será tão distópico como utópico. Certezas: nunca iremos alcançar o objectivo de fixação de 2º em 2030. As emissões de CO2 têm aumentado como se fosse uma espécie de estertor do capitalismo que se pode tornar letal, mais do que é hoje. A ONU está descapitalizada e não poderá intervir, assim como a Unicef, ou a Fao. 

Em 2030 atingiremos, a este ritmo de emissões, os 4º graus o que produzirá uma temperatura amena na Europa do Sul, uma vida impossível na zona sul do planeta que originará grandes migrações para norte como aliás já acontece por motivos climáticos a que a guerra estará ligada, o norte da Europa e dos EUA e Canadá descerão de temperatura, principalmente nas regiões influenciadas pela corrente do Golfo que está a desaparecer, enquanto paradoxalmente os gelos do Árctico desaparecerão, abrindo uma corrida às explorações petrolíferas desta região e adiando talvez por mais vinte anos o fim da energia petrolífera. A energia está a esgotar-se. Vai esgotar-se.

Assim, as possibilidades são múltiplas. Ou arranjamos um modo de vida realmente possível de ser vivida, ou viveremos em cidades sem ordem, violentas, onde grupos criminosos e polícias privados (qual a diferença?) mandam a soldo de oligarcas que se pretendem ser uma elite que viverá condicionada a bolhas muralhadas.

Entre a base proudhoniana de comunidade que parece que Taibo abraça, a luta de classes mais aguerrida que nunca, de Marx que o autor também não rejeita, o ecofascismo, ou ainda violenta junção dos dois modelos, as hipóteses são múltiplas. Alguma ganhará. Um apontamento: o ecofascismo que já conhecemos de outras histórias do século XX (o fascismo e o nazismo eram ecológicos, criando até dias e jornadas de defesa da Natureza) pode não ter origem nestes novos pequenos partidos que têm nascido um pouco por toda a parte. O ecofascismo pode ser adoptado pelos partidos do sistemas e tradicionais, obrigando-nos a comportamentos ecológicos, leis severas para quem não cumpre, culpabilizando o infractor particular e, pior, separar o que não é «normal» na Natureza, pelo receio do outro numa época de grandes migrações mundiais. Isto é o ecofascismo. Separar o bom do mau na Natureza pode levar a uma higienização nazi nas pessoas de diferentes etnias, proibindo-as de entrar em terras «limpas».

Caso último que nos fará pensar: um elemento do Grupo de Bilderberg, Susan George, deixou passar uma resolução da sua última reunião. Para que o Holoceno não desapareça e voltemos à situação de antes da Revolução Industrial, será preciso que a população na Terra seja de somente 600 milhões de pessoas. Hoje, somos 7 mil milhões. O programa é de «redução drástica da população». Que terão eles na cabeça para chegar a estas conclusões? Mais epidemias devastadoras como a SIDA e o Ébola, milhares de vezes mais mortíferas? Ou a guerra permanente, sem fim? Também no horror as hipóteses estão em aberto. O que Carlos Taibo nos dá, em contrapartida, é uma luta para uma sociedade solidária, energeticamente sustentável e local. Não estarão longe as opções que teremos de tomar.

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de Outubro de 2019

sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


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Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019

quarta-feira, agosto 21, 2019

De como uma Eva e um Adão derrotam o racismo

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Neandertal: Foto NatNature
Repentinamente, dei-me com o livro da sueca Karin Bojs entre mãos. «A Grande Família Europeia – Os primeiros 54 000 anos».  Não é, como o editor nos quer fazer crer logo na capa, a história do Homo Sapiens na Europa. Acompanhei com alguma simpatia a obsessão da autora em descobrir a sua geneologia que depois passou a linhagem da sua família. A maior parte de quem tenta fazer isto páram todos no século XVII e já é uma sorte se o conseguirem. Pessoalmente, pensando bem, não aconselho ninguém a fazê-lo sem algum aconselhamento prévio: pode haver surpresas e darmos com linhagens esquisitas e estranhas logo em meados do século XX, faço-me entender? Basta um familiar ou amigo mais próximo, tão próximo, que se intrometeu na génese do nosso eventual auto-conhecimento da família para termos um baque no coração. A sério, se o fizerem estejam preparados para tudo!

Entretanto, quanto aos racistas ou racialistas é melhor que não o leiam. Aliás, nem sei se o saberiam interpretar, mas basta analisar as novas experiências e dados confirmados com o ADN e paf! lá se vai a teoria racista de cada povo ter desenvolvido o seu próprio caminho uns com mais inteligência e capacidade de sobrevivência que outros. Chama-se agora a este tipo de «teoria» (desculpem se estou a exagerar!) de «migracionismo» infelizmente muito em voga nos países do grupo de Visegrado e nos EUA. É possível que se espalhe um pouco por toda a Europa dentro de alguns anos, dada a situação política e social que a faz germinar como cogumelos no húmus da terra. (Reparem que eu disse «húmus da terra» para imitar o valter hugo mãe, senão teria dito simplesmente a humidade da terra).
Ora, voltemos a Karin Bojs de quem me esqueci de dizer que não é cientista. Foi simplesmente jornalista, editora-chefe da prestigiada revista científica Dagens Nyheter e mais que premiada no meio, como ser doutora honoris causa da Universidade de Estocolmo.

Vamos a isto: está provado que os neandertais se cruzaram com os humanos modernos há 54 000 anos. Portanto, os genes estão cá nos nossos corpinhos, entre 2% a 6%. Os bandos dos nossos antepassados eram um pouco canhestros, sem muita motricidade fina, musculosos, com o cérebro de grande volume, produtor pouco sofisticado de arte e de instrumentos, tinham pele escura, o pêlo que lhe cobria o corpo era castanho escuro, assim como o cabelo e os olhos escuros. Evitavam os humanos modernos e é possível que estes se tenham afastado moderadamente dos bandos deles, mas não se prova que tenha havido casos de violência constante com os humanos modernos, tendo-se cruzado inclusive e trocado instrumentos e peles. Os humanos modernos, tinham algumas tecnologias de caça, pesca e recoleção e sabiam defender-se melhor do frio da Era Glacial. São estes a quem chamamos de Homo Sapiens Sapiens e produziam arte e música. Faziam enterramentos cultuais e tinham olhos azuis, cabelos castanhos e pele escura, visto que está mais provado que viemos todos de África e aproveitámos uma mudança climática mais suave para nos espalharmos pela Ásia, pelas Américas através dos maciços gelados do Norte e de uma terra hoje desaparecida entre a Grã-Bretanha e a Suécia – a Doggerland. As águas do mar tinham baixado até ao ponto de permitirem grandes migrações. A Europa foi também ocupada por bandos de Homens e Mulheres com a tal pele escura e olhos azuis, visto que vindo todos de África levou centenas de milhar de anos a mudar a pigmentação da pele para absorverem os poucos raios de sol que existiam. Mas que viemos todos de África os genes estão aí para o comprovar e exigir que afinal se trata de uma só raça que existe – a humana. Embora com um cérebro mais pequeno (o tamanho é irrelevante, neste caso!), éramos mais hábeis a fabricar instrumentos e a viver em grupo, o que nos salvou da extinção. E também é provável que muitos dos nossos antepassados mais espigadotes ou jovens com as hormonas aos saltos tivessem tido relações sexuais com neandertais. Corrijo: não é provável, é certo. O que é mesmo verdadeiro é a extinção dos neandertais, mas ao que se julga agora não foram os humanos modernos que os extinguiram em massa. Foi a inabilidade em utilizar os recursos naturais para a Era Glacial que se aproximava.

Vamos a «Eva». Como sabem, os cientistas são uns brincalhões. Já com a Lucy, deram-lhe o nome por estarem a ouvir o «Lucy in the sky with diamonds (LSD)» dos Beatles. Esta ironia é mais fina. Eva, seguindo o rasto de ADN mitocondrial (que passa das mães para os filhos, sendo por isso uma linhagem feminina), viveu há 200 000 anos e veio a ser a ancestral materna de todos os seres humanos que vivem hoje, Há cerca de 60 000 anos, a linhagem saiu de África e espalhou-se para todo o mundo. Em África corresponde o genoma L. Quando se «saiu» de África os genomas que encontramos são o L3, o M, o D, o N, o R, o RO e o U (que se subdivide em 6 genomas). Na Europa é o genoma U que é preponderante mas não muito mais que os outros genomas todos do mundo onde aparecem igualmente. E nós estamos carregadinhos de todos eles.

No entanto o mais difícil de encontrar, mas também o mais seguro é o cromossoma Y, que passa de pai para filho e que tem mais ADN que as mitocôndrias maternas. É a nossa linha patriarcal a quem os antropólogos e arqueólogos deram o nome de «Adão». Estavam à espera de quê? É lógico que o encontrámos igualmente em África. Alguma vez estes nossos antepassados se uniram e deram origem à humanidade. Para o bem ou para o mal. Segundo a autora, «Acabou-se a discussão. A teoria multirregional estava morta: os humanos anatomicamente modernos têm origem em África».

Antes da forte glaciação de há 54 000 anos atrás, já estávamos espalhados por todo o mundo, embora fôssemos muito, muito poucos. Os bandos que existiam eram constituídos não mais do que umas dezenas e foram os neandertais que nos salvaram antes de se extinguirem. As crianças nascidas desses encontros com os humanos modernos sobreviveram mais porque não tinham consaguinidade. Afinal, os neandertais não se extinguiram completamente: nós somo também eles. Obrigado, portanto, neandertais por uma imunidade bem conseguida.

Quando em 54 000 anos veio a Era Glacial (das quatro existentes na vida da Terra) os nossos antepassados recuaram para sul à procura terras mais amenas, se assim se pode dizer. A Europa do sul e certas zonas do norte poderiam ser habitadas, mas foi o Médio Oriente o mais apetecido. Por lá ficámos, uns recolectores, outros já mais sedentários embora não se possa falar ainda de agricultura ou domesticação de animais. Fomos outra vez para o sul da Europa e Norte de África, américas e Oceania. Não parámos. O Degelo veio e foi uma nova vida. Aumentámos a qualidade da tecnologia, fizémos trocas por trocas, casámo-nos uns com os outros, tornámo-nos mais imunes às doenças e epidemias, aumentámos o tempo médio de vida e aumentámos, por isso, o número de indivíduos. Mas...há 38 500 anos, como prova o Homem de Kostenki descoberto na Rússia, ainda éramos pretos, tínhamos o cabelo encaracolado e castanho escuro e predominavam os tais olhos azuis e claros. Ou seja, fomos ficando mais branquelas para a pigmentação absorver melhor os raios solares. Houve outros que não necessitariam dessa pigmentação, como em África, Oceania e Américas. Mas o livro é riquíssimo em provas sustentadas pelo ADN em Universidades e Institutos de referência em todo o mundo.

Finalmente, o meu espanto: Karin Bojs, agora na reforma e sem a canga formal do jornalismo, fazendo a sua pesquisa científica livremente, falando à vontade com os cientistas que antes tinha entrevistado para a sua revista científica sem as cautelas institucionais a que são obrigados os jornalistas e os cientistas, reparou num incómodo, numa preocupação nunca antes referida: o racismo crescente na comunidade científica e em estudantes principalmente na Europa Central (já nem se fala na América do Norte!). Ela própria assistiu a um boicote a uma conferência sobre apresentação de resultados antropológicos na Universidade de Brno, na República Checa. Foi-lhes dada uma sala pequeníssima onde não cabiam quase 300 pessoas interessadas. Subitamente, entram em cena alguns professores e alunos, arrastando mais cadeiras para a sala de modo a torná-la sufocante, que contestaram abertamente as teorias baseadas em ADN, agora com uma ressalva: sim, houve algumas migrações, mas não tantas que não permitam a defesa da «verdade» deles: que os povos isoladamente desenvolveram-se tendo em conta a inteligência e os laços fortes e comunitários, génese de um povo e de uma nação. Chamam-se a estes senhores fascistas, os «migracionistas» de que falei atrás, cada vez mais e mais interventivos e cujas teorias estão muito longe de qualquer prova mínima que seja. Mas não deixa de ser irónico o nome científico dado à nossa mãe mitocondrial e ao nosso pai cromossomático. Adão e Eva!

Mas o livro não é só isto. Vale mesmo a pena lê-lo. 420 páginas de puro prazer e um enxerto de porrada nos neonazis.

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Agosto de 2019

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A Grande Família Europeia, de Karin Bojs
Ed. Portuguesa Foto: Bertrand Editora

sexta-feira, julho 26, 2019

Kenneth White e a Geopoética: a descoberta do Mundo Branco.

Kenneth White, autor de O Espírito Nómada, editado pela Deriva Editores em 2008
Foto Revista Caliban
Publicámos «O Espírito Nómada» de Kenneth White em 2008, na Deriva Editores, e com tradução de Luís Nogueira, pelo que este artigo é também uma lembrança feliz deste último, já desaparecido. O primeiro editou-o a Relógio d´Água em 1987, com tradução de Maria Regina Louro. Desde logo nos pareceu um autor peculiar e inovador na abordagem à poesia, dando-lhe novas formas e modificando-lhe o conceito habitual entre nós «os contemporâneos». Não deixa de ser paradoxal que em Portugal só se tenha publicado dois livros dele, quando se conhece a enorme bibliografia de Kenneth White, entre poesia, ensaios e prosa e acompanhado igualmente por um reconhecimento internacional, sendo professor de Poética em várias universidades. Sendo escocês das Terras Altas e crescendo nas suas costas foi, contudo, no rude noroeste da Bretanha onde se fixou permanentemente. Fundou, em 1989, o «International Institute of Geopoetics» http://institut-geopoetique.org/en/ (o seu site está em várias línguas entre as quais o português). Neste momento está ao dispor dos interessados um trabalho muito profundo e sério deste autor, também entrevistado, na revista «Flauta de Luz», nº6, (flautadeluz1@gmail.com) e sob a responsabilidade de Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques. Esteve entre nós, sem grande publicidade, num colóquio organizado pela FLUL entre 21 e 22 de Maio de 2019.

Kenneth White procura então o mundo branco que estando à nossa frente, não o procuramos mais virados que estamos para a tecnologia e para o consumo desenfreado aceitando «bovinamente» um falso bem-estar e as propostas ditas literárias e poéticas das grandes empresas editoriais. Tentaremos chegar a esse mundo através das poucas linhas deste artigo e sobretudo pelas palavras do próprio. Diz K.W.: «Desde há anos, se me acontece passar pelas cidades, frequento sobretudo as costas…Ao mesmo tempo limite e abertura, área de resistência e de dissipação, linha definidora e convite ao vazio, a costa é sem dúvida o lugar por excelência de uma poética de energia, de uma cosmografia em acção, de uma meditação movente» (Les Rives du Silence, p.7).Promove assim um método: o do nomadismo intelectual, tanto no espaço como no tempo e acrescenta que não há nele qualquer diletantismo, antes uma prática na qual «viagem e visão seguem juntas». Avisa, todavia: «não se trata de uma simples aventura, nem de uma simples expedição científica. O seu plano de trabalho comporta diversos estratos, está aberto a configurações inéditas. No seu cume, encontramos uma concepção de harmonia, uma estética (…)» Ou seja, promove uma ligação íntima entre a arte poética e a arte de viver, que, desde o fim dos tempos e a partir de meados do século XX passou a ser uma emergência.

Numa Carta a Portugal a propósito da Geopoética que faz parte da Flauta de Luz, nº6 (mereceríamos nós que ele se mexesse para nos enviar uma carta?) remete-nos para o «nosso» Espírito Nómada, em cuja terceira parte do livro, Poética do Mundo, trata dos Elementos da Geopoética. A sua leitura tornar-se-á mais clara. Quem quiser adquirir o livro nas livrarias já vem tarde. Agora só nos alfarrabistas ou pedindo à distribuidora da Deriva. Talvez haja por lá alguns. Os autores que mais lhe chamaram a atenção não deixa de ser singular: Fernando Pessoa no seu Ultimatum, o seu poema mais nietzscheniano e Miguel Torga. A este último dedica-lhe estas palavras: «a região natal de Torga foi o Nordeste, em Trás-os-Montes. Mas os trabalhos que dedicou a este território vão muito mais além de qualquer nostalgia localista». Para ele Torga é um proto-geopoetista.

Na excelente entrevista que Kenneth White dá a Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques paremos neste trecho: «O ‘’nómada intelectual’’ que eu sou, e que desenvolveu, com comprovados exemplos, a teoria prática do nomadismo intelectual no livro O Espírito Nómada, atravessa territórios e culturas em busca de elementos susceptíveis de ser incluídos numa possível cultura mundial. Situado no extremo limite crítico da sua ‘’própria’’ civilização, este nómada abre um caminho explorando margens de pensamento e de experiências esquecidas. Lucidamente. Sem se converter seja ao que for. Sem esperança. E por viver sem esperanças, nunca posso sentir-me desesperado». Kenneth White lançou aqui uma abertura para o que considera ser o «mundo branco». Ele define-se atrás como anarco-arcaico e será necessário lembrar este aspecto para que ele surja logicamente como um inimigo confesso do trans-humanismo que «acompanhado de robotização e de inteligência artificial, (…) é preciso resistência. Mais do que resistência, o desenvolvimento de um pensamento outro.» Mais do que voltar a um humanismo coagulado, construir um humanismo que rejeite o robô. Mais à frente, para que não permaneçam dúvidas sobre o humanismo que o autor pretende, ele explica melhor: «Enquanto isso [a adesão acéfala ao cientismo, à mitologia, ao misticismo, à religiosidade ou à espiritualidade, ou pior ainda, à má literatura], os inquisidores vigiam, os guardiães da fé antropocêntrica afiam as armas, os defensores de um humanismo míope, incapazes de conceber uma evolução fora dos sistemas conhecidos e que têm acumulados danos, estão prontos a asfixiar o planeta e a humanidade inteira em nome dos princípios que se pretendam humanistas, humanitários

Rui Bebiano, numa recensão ao livro na Ler, nº73, em 2008 o seguinte sobre Kenneth White e O Espírito Nómada:
«White prefere associar a erudição à forma de errância que alarga a leitura do mundo e, através de «universos de substituição», liberta o humano do «universo concentracionários das civilizações». Neste livro, escrito há duas décadas, enunciam-se alguns dos caminhos que essa escolha poderá abrir. Atravessando múltiplos saberes, o autor procura conduzir o leitor até esse território radical, que chama de geopoética dentro do qual pretende unir a presença no mundo a uma estética que seja poderosa, comevedora e bela. Se o prestígio do «nomadismo intelectual» se afirmou pelo menos desde os românticos, Kenneth White é dos primeiros a conferir-lhe uma base teórica. (...)»

Da Deriva Editores, escrevemos na contracapa de O Espírito nómada este trecho de Kenneth White:
«Desde há alguns anos para cá, a palavra “nómada” anda no ar. De um modo vago e que necessita apenas de tornar-se preciso, designa o movimento que se esboça no sentido de um novo espaço intelectual e cultural. Mas nas nossas culturas mediatizadas, cada palavra, de imediato sub-traduzida torna-se pretexto para uma moda. Do que aqui se trata não é de um assunto de moda mas de mundo.»
«O nómada que existe em cada um de nós como uma nostalgia, como uma potencialidade, não tem a noção de identidade pessoal, a «consciência de si» é-lhe estranha. Sem dizer «penso» ou «sou», põe-se em movimento e a caminho faz melhor do que «pensar», no sentido denso da palavra, enuncia, articula um espaço-tempo de múltiplas focalizações que é como que um esboço do mundo.
O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes.
Neste livro onde se encontrarão portanto mais peregrinações que problematizações, mais mapas que retratos, o prazer de peregrinar acaba por levar a melhor sobre o desejo de saber (aumentar e renovar o campo do saber) e no final da viagem será menos importante a questão de saber do a de ver no vazio.»

Para ver mais sobre a Deriva Editores e o autor

http://derivadaspalavras.blogspot.com/search/label/Kenneth%20White ou no marcador Kenneth White em baixo

De qualquer modo o pensamento de Kenneth White e a sua geopoética não se afasta muito da deriva que sempre propusemos nos 15 anos em que editámos. Foi dos melhores livros publicados, daqueles que nos orgulharemos sempre.

António Luís Catarino
Coimbra, 26 de Julho de 2019 (onze anos depois)

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Capa da edição de O Espírito Nómada de Kenneth White pela Deriva Editores
Autor da capa: Gémeo Luís

quarta-feira, julho 17, 2019

Série, a morte fica-vos tão bem: 1. Yukio Mishima

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25 de Novembro de 1970: Yukio Mishima apela à insurreição militar
antes de pôr termo à vida através de seppuku

Li Mishima muito novo. Se eu vos dissesse demasiado novo seria o argumento que Mishima utilizou para explicar o monte de livros que leu na infância e que o levou à melancolia que por vezes assolava a sua vida. Para mim e para os que me rodeavam, nos anos 70, o autor aparecia-nos como uma espécie de herói maldito, incompreendido, solitário e encontrava-se no panteão dos melhores escritores. Defendíamo-lo do facto de ser de extrema-direita porque esse rótulo era demasiado redutor para um tipo da sua estirpe. Bastava ser um excelente escritor que reflectia igualmente as nossas preocupações, frustrações e caminhava connosco na recusa total ao capitalismo que tudo subtrai à autenticidade e soma em voragem de espíritos livres. Bastava-nos isso e o seu visível niilismo. 

A sua morte deu-se a 25 de novembro de 1970 tentando um golpe de estado que fracassou num Japão já rendido ao esquecimento dos valores tradicionais samurais e da mística imperial. Agora pontificava o imperialismo americano. Asseguro-vos que tanto eu como os meus amigos pouco falámos então desse seppuku, ação que nos pareceu óbvia em Mishima, mas que contudo não a compreendíamos por completo. Li, na ocasião, O Marinheiro que perdeu as graças do mar e O Tumulto das ondas. Foi com alguma sensação de desconforto que vi as imagens de uma sessão de Yukio  Mishima na Universidade de Tóquio efervescente, em 1968, onde vários estudantes de capacete militar e em atitude agressiva o insultavam e não deixavam ouvi-lo. Recusou então protecção policial e clamava pelo que então, pensava, os unia: a sociedade moderna, o capitalismo, o consumo desenfreado e a tecnologia. Não suportava um exército japonês sem armas e o fim do culto ao imperador, factos que não podiam ser aceites pela esquerda. Nunca o poderiam ser.

Dois anos depois, faz outro discurso agora na parada de um quartel: sequestrou o ministro da defesa e ele mais seis seguidores com as tiras de kamikase na cabeça e fardados proclamam um novo Japão e apelam aos soldados que se revoltem e assumam o poder. Ridicularizaram-no e riram-se dele na parada do quartel enquanto as forças especiais entravam de rompante nas salas procurando o grupo de Mishima. Antes, porém, libertando quatro jovens seguidores pede ao seu braço direito que o ajude a fazer o seppuku. Ajoelhando-se com as pernas em cruz, usa um pequeno punhal para esventrar-se, enquanto o seu companheiro lhe corta a cabeça com um sabre. Depois, este último, mata-se.

Quando, nestes dias passei por uma livraria, vi um livro de Yukio Mishima que não sabia que existia. Vida à venda editado pela Livros do Brasil e com tradução de Hélder Moura Pereira. Levou 51 anos a chegar a Portugal. É evidente que não o li da mesma maneira que o lia quando tinha 16 ou 17 anos, mas a minha emoção foi a mesma. E relaciono-me, por vezes mal, comigo e com o mundo, porque sei no que ele se tornou e no pesadelo que poderá vir a tornar-se. O seu acto foi, até certo ponto, um mau presságio. Mishima era um soldado aristocrata adepto das artes marciais e obcecado pelo corpo. Escrevia dando asas à melancolia já citada e à raiva e mesmo ódio que sentia pelas baratas, ou picles avinagrados, que equiparava às pessoas com quem se cruzava na rua. Tentava extirpar a sua consciência provavelmente para se sentir num eterno vazio que só conquistou com a sua morte. Também via baratas a saírem das letras de jornal, metáfora para a manipulação das ideias e dos espíritos, através da conspiração universal que destruiria a heterogeneidade dos povos e particularmente a cultura japonesa.

Partilho convosco algumas dos trechos que sublinhei tentando entendê-lo melhor dois anos antes da sua morte, visto que este livro foi escrito em 1968:

«(…) – Sim – respondeu calmamente Hanio. – Porquê a surpresa? Já toda a gente percebeu que a vida humana não tem qualquer sentido e que as pessoas não passam de meras marionetas. Portanto, porquê tanta admiração?»

«(…) Agora, deve ser capaz de alcançar com os dedos o objeto duro e negro que está em cima da mesa. Segure-o bem. Isso mesmo. Mas não toque ainda no gatilho. Leve-o agora devagar até junto da cabeça. Tenha calma e relaxe os ombros. Sente-se melhor assim, de certeza. Pressione o cano contra a têmpora. Deve estar um pouco frio, mas agradável, não é? Transmite uma certa sensação de frescura, não acha? E também de alívio, como quando se tem febre e se aplica uma pacho de água fria na testa. Agora, com cuidado, ponha o indicador no gatilho…»

«(…) Pensando bem, é a primeira vez que olho de perto para um corpo sem vida. Nem os corpos da minha mãe e do meu pai cheguei a ver assim. Um corpo morto faz-me lembrar uma garrafa de uísque. Quando se pega nela e cai, o conteúdo derrama-se. Nada mais natural.»

«(…) Pensou em si como já tivesse morrido. A moral, as emoções, tudo o resto – nada fazia sentido. Estava completamente livre. E, no entanto, o amor que acabada de morrer sentira por ele continuava a pesar-lhe na consciência. Não chegara à conclusão de que outras pessoas não representavam para ele mais do que baratas?»

«(…) Há já muito tempo que Hanio não ia à cidade. Não se via qualquer indício de morte. As pessoas estavam metidas até ao pescoço na sua vida quotidiana. Pareciam caminhar como se fossem picles humanos.»

E é com estas expressões e outras bem mais violentas que um tipo como Mishima na voracidade de se eximir a qualquer emoção para sentir-se livre, cai. 

António Luís Catarino
17 de Julho de 2019

sexta-feira, julho 12, 2019

Populismo à esquerda, precisa-se. Ou talvez não

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Não se admirem com o título. Chantal Mouffe defende mesmo isso no seu livro Por um populismo de esquerda (Gradiva, 2019). José Neves, que leio sempre com agrado, prefaciou-o não sem, contudo, nos avisar que num momento de aumento do populismo de extrema-direita e de direita nacionalista esta hipótese não deve ser descartada pela esquerda. Neste campo, tal como a autora, coloca o Die Linke, o Podemos, o Syrisa, o Bloco de Esquerda, La France Insoumise de Mélenchon e Jeremy Corbin do Labour (lá mais para a frente, Chantal Mouffe cita igualmente Bernie Sanders) como um exemplo de uma identidade populista de esquerda. Sintomático é referir que a autora, só de raspão, analisa os regimes populistas da América do Sul que poderão, com algum esforço, ser considerados de «esquerda».

Não sei se é forçado colocar alguns destes partidos referidos atrás na área «populista de esquerda». Comecemos por analisar o conceito de «populismo». Um partido populista é definido pela sua demagogia, pelo carisma de um chefe ou líder, e promove um conjunto de propostas demasiado fáceis de entender pelo «povo». No fundo propõe o que se quer ouvir pelos descontentes. Utiliza igualmente uma linguagem simples, rasteira, contra as «elites» e utiliza a propaganda e os media com as suas «verdades irrefutáveis», mesmo que estas não se possam provar.

Chantal Mouffe (C.M.) diz-se gramsciana. Vai a Antonio Gramsci encontrar os argumentos para propôr a construção de um populismo de esquerda contraposto ao populismo de direita e de extrema-direita. Refuta o que ela chama de «essencialismo» na área da esquerda, reconhecendo nesse tal essencialismo um obstáculo sério à refundação da esquerda visto que esta se encontra amarrada a conceitos rígidos de «classe» e de uma suposta luta entre «capital e trabalho». Inclui-se no pós-marxismo. A Gramsci vai «captar a multiplicidade de formas de combate a diferentes tipos de dominação». C.M. redefine este projecto como de «radicalização da democracia» perante a existência de uma «cadeia de equivalências» numa sociedade plural que articulasse as exigências da classe trabalhadora com os novos (já não são assim tão novos, digo eu) movimentos sociais emergentes de modo a realizar um «querer comum» processo que desembocaria numa «hegemonia expansiva», sendo que esta última expressão é de Antonio Gramsci, de novo. O povo passaria então a ser um sujeito político.

Nada a opor, se não a sua inexequibilidade. Um dos companheiros de C.M. foi Ernesto Laclau que define populismo como a construção de uma barreira entre dois campos: os «miseráveis» e «os que estão no poder». Recusa a ideologia. Aponta para a construção de um regime político que pode assumir variadas formas e com vários enquadramentos sociais. Não pormenoriza ou exemplifica, nem C.M. se dá ao trabalho de o fazer.

Depois de elaborar um historial da vitória do neoliberalismo agressivo de Tatcher dos anos 80, tenta conjugar vários filófosos citando Habermas, Crouch, Rancière e Carl Schmitt (sem dizer donde este vem e que filósofo e jurista foi e ao serviço de quem!) que opõe democracia ao liberalismo e a possibilidade de uma oposição entre igualdade e liberdade. Aqui vem o populismo proposto: a diferença entre «nós» e «eles» que deve ser o alfa e ómega de toda a actividade do populismo de esquerda. Creio que Mouffe tem razão ao apresentar a raíz da radicalização da esquerda nos anos 90 e princípio do século XXI naquilo a que chama de «movimento das praças» onde coloca o Occuppy, os Indignados de Espanha e as múltiplas manifestações de protesto que assolaram toda a Europa. Agora o que vem depois, as perspectivas que coloca aos movimentos sociais e aos partidos da esquerda é o mais problemático. Mas, por defeito, não descartemos a hipótese que ela propõe: diálogo com os movimentos populistas de direita de modo a influenciar os apoiantes que embora incomodados com a presença da extrema-direita, estarão lá só pelos protestos quase sempre legítimos. Apresenta números com Corbyn a chamar gente do UKIP para o Labour e Meléchon a retirar perto de 16% de votos directamente à FN de Le Pen.

Penso que aqui tocou na ferida dos «essencialistas» pelo que explica adiante as «diferenças» destes populismos, os de direita e os de esquerda. Os primeiros, têm o sentido de nacionalismo, da identidade, da força e são claramente neoliberais, talvez mais agressivos que os ditos liberais, eles mesmos. Não acreditam na igualdade e são ferozmente individualistas. O populismo de esquerda traduz-se num aprofundamento e alargamento da democracia radical, que recusa ser directa, por sorteio (David van Reybrouk defende o sorteio contra as eleições num livro que me veio parar às mãos e citado pela autora) ou somente representativa, embora reconheça um papel importante a esta última. O que ela chama de um programa «agónico» (ou marcial e heróico?) não será mais do que a construção de um «povo» que entende o seu inimigo como a «oligarquia». Não rejeita traços afectivos (?) de nacionalismo, nem uma liderança, bem diferente de um chefe ou de um líder incontestado. Para isso não poderemos contar só com a classe trabalhadora. Temos de contar com uma «cadeia de equivalências» sempre em contacto plural com o movimento LGBTI, feministas, imigrantes, classe média em situação precária, movimentos ambientalistas e ecologistas, etc. O objectivo é criar uma situação que leve a uma «nova hegemonia que permita a radicalização da democracia».

Insurreição e revolução são alternativas fora do baralho de Chantal Mouffe. Afirma não precisar, a esquerda, de um corte revolucionário, mas sim de uma espécie de dètournement do regime liberal-democrático! Portanto, os dados estão lançados: trata-se de aprofundar uma «democracia radical e plural», influenciando e transformando as instituições democráticas existentes.

C.M. defende que, para atingir a formação hegemónica do populismo de esquerda, dever-se-á colocar em causa o campo económico «essencialista». Junta a esse campo a natureza cultural, política e jurídica, numa articulação de «senso comum» no quadro normativo de uma dada sociedade. Nem mais! ... Venha daí o «senso comum» para ajudar à festa! E eu que pensava num esqueleto jurídico forte que evitasse esse senso comum, expressão tão liberal que é. Ora, recusando a extrema-esquerda (ainda há pouco uma polémica no Bloco de Esquerda levantou-se quando Catarina Martins, numa entrevista, recusou esta matriz para o Bloco, substituindo-o por «radical») Chantal Mouffe apresenta-nos três tipos de política à esquerda:

«Reformismo puro» que aceita os princípios da formação social neoliberal.

«Reformismo Radical» que aceitando os princípios da ordem liberal, procura pôr em prática uma formação diferente.

«Política revolucionária» que exige uma ruptura total com a ordem social e política existente. São os nefastos marxistas-leninistas-trotskistas, bem como os anarquistas.

Como já devem ter reparado a autora pertence à segunda opção enquanto que os outros são os essencialistas (mesmo os que defendem hoje os princípios fundadores da social-democracia) que recusam ver o Estado como um campo neutro como os reformistas radicais o querem construir. Ou seja, o objectivo não é tomar o poder do Estado como diz Marx, mas «tornar-se Estado» como ela diz que disse Gramsci (em que conjuntura, pergunto eu?).

Reivindica, a autora, uma dimensão de luta anticapitalista, mas não dá essa hegemonia à classe trabalhadora. Hoje, segundo C.M. (e eu concordo) há cada vez mais um discurso anticapitalista em vastos sectores da população, mas não necessariamente de esquerda. Se assim é, só o reformismo radical está em condições de o captar. O que eu não consigo concordar é a aparente desvalorização do trabalho que parece emergir aqui.

Finalizando: depois de Marx, Bakunine, levarem das boas neste livro, nem Hardt e Negri estão a salvo. Defendendo a democracia representativa, Chantal Mouffe, ataca estes últimos autores por causa da sua estratégia de renúncia, deserção e êxodo para que se crie uma alternativa anticapitalista com a inevitabilidade de tomar o poder com uma imensa multidão (os 99%?) e apta a conquistar os meios de produção. É lógico, que tanto Hardt como Negri defendem a estratégia do «comum» que não existe em nenhuma Constituição iluminista. A propriedade ou é privada, pública, cooperativa, mas «comum» está quieto!... Mouffe chega ao ponto de não rejeitar os partidos políticos e os parlamentos actuais que ainda desempenham, com todas as maleitas, um papel simbólico. Pergunta-se, humildemente, de quê? Conclui, Chantal Mouffe, afirmando entre outras coisas, a inadequação da palavra «comum» e a crítica à crítica da democracia parlamentar, ainda fogosa, não fossem os reformistas radicais propor torná-la ainda mais representativa.

António Luís Catarino
12 de julho de 2019

segunda-feira, julho 08, 2019

21 lições para prevenir a catástrofe, contemplando-a


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Yuval Noah Harari

Gostei de ler Yuval Noah Harari e a sua trilogia de «Sapiens», «Homo Deus» e «21 Lições para o Séc. XXI».  O primeiro é o mais conseguido no âmbito da História e da Antropologia, embora a sua posição sobre a obra do Sapiens não seja nova. Lembro-me da Deriva Editores ter publicado o livro de John Zerzan, autor que esteve na organização das grandes jornadas de luta anticapitalista de Seattle, intitulado «Futuro Primitivo» que defendia uma tese ligeiramente diferente da de Harari. Para o primeiro, o Sapiens esteve dezenas de milhar de anos sem querer adoptar a agricultura e a domesticação confinando-se ao orgulho da caça e recolecção. Já para Harari as coisas não se passaram bem assim, tendo o homem tido todo o empenho em demonstrar as novidades técnicas e produtivas na agricultura e na domesticação de animais, destruindo a Natureza a partir desse momento. A base da desigualdade, concordam os dois, foi na apropriação dos meios de produção de uma elite política e religiosa assente no esclavagismo e na desigualdade de distribuição da produção com a respectiva acumulação de riqueza...até hoje. Bom, Engels já tinha aflorado e aprofundado o caso com os dados que tinha no séc. XIX, mas adiante.
Ora, com as duas últimas distopias de Harari, porque da construção de futuros sombrios se trata, saímos incomodados para não dizer pior - aterrorizados. O nosso autor é talvez a coqueluche do Facebook, Amazon, Google e de todas as companhias que laboram em Sillicon Valley, mas não deixa de nos avisar dos perigos da tecnologia que aí vem, pondo em causa a continuação da nossa espécie, tal como a vimos hoje. Vale a pena lê-lo por isso mesmo.

Quanto ao desafio tecnológico será muito difícil não concordar com ele na construção do futuro que aí vem: o nosso corpo não vai mais pertencer-nos. A biotecnologia, a nanobiologia e os algoritmos vão dizer o que é bom para nós. Aceitaremos, de bom grado, que nanopartículas naveguem alegres pela nossa corrente sanguínea e libertem através do controlo do nosso smartphone, um pouco de paracetamol para nos sentirmos menos febris, ou qualquer droga legal que compraremos na Google Store para nos sentirmos eufóricos. Se fumarmos um cigarro, o telemóvel avisa-nos que as nanopartículas detectaram, no pulmão esquerdo, 17 substâncias cancerígenas pelo que irão atacá-las de imediato. Se comermos uma chanfana, avisa-nos do alto colestrol no corpo, libertando a sinvastatina necessária. Ou seja, ficaremos num estado de doença permanente. Estaremos assim, com a biotecnologia pronta a funcionar com mais chip, menos chip no nosso corpo como quem faz um jogo electrónico conforme o dinheiro que dermos por eles. Tenhamos nós emprego ou trabalho, porque a robótica vai-nos tirar muitos, muitos empregos.

Vamos portanto ser imortais se assim tivermos milhões de dólares para o ser. Atenção: Harari não fala em imortalidade, antes em amortalidade, o que é diferente. Poderemos gastar milhões em biotecnologia e mudar partes do nosso corpo, mas se um veículo autogovernado de baixo custo (um Fiat Punto, modelo de 2052, por exemplo) não nos vir na passadeira, splash! lá vai a imortalidade e os milhões para o caneco.

Desta vez, isto não é como nas revoluções tecnológicas anteriores, não pensem nisso. Mais de metade da Humanidade ou ciborgs parciais que é o que seremos e que partilharemos o mundo com ciborgs totais, não terão nada para fazer e para não dar origem a revoluções, o melhor é, segundo Harari, dar aos excluídos e precários um Rendimento Mínimo Garantido. Onde vamos buscar o dinheiro? Simples: impostos substanciais sobre as indústrias informáticas, de robótica e farmacêuticas. Eles darão com todo o gosto, certezinha! Os robôs pagarão então as nossas necessidades básicas, seja lá o que isso for. As desigualdades serão enormes, com 1% da população mais rica a dominar mais de metade do PIB mundial e a viver em bolhas climáticas purificadas nas cidades muralhadas, enquanto que nós aguentaremos com o sol tórrido e o charco de águas do mar que invadirão as cidades costeiras. Claro que o algoritmo não pode prever as mudanças climáticas (nem isso o deve incomodar sobremaneira) pelo que as migrações serão bíblicas. Para onde, não se sabe ainda bem.

Por falar em Bíblia, encontramos, segundo a minha opinião, a grande contradição de Yuval Noah Harari. Segundo ele, os futuros algoritmos que estarão em permanência ligados ao nosso cérebro, vão dar-nos o que desejamos, como já se disse acima, e, dar-nos-ão, para além do electrodoméstico ideal, o melhor político populista, sustentado nas fake news, segundo o nosso perfil e escolhas nas redes sociais e teremos acesso ao nosso padre, pastor, mesmo um emir ou um lama. As religiões decairão como nunca e o Iluminismo e a democracia serão obsoletos. Dei comigo a pensar exactamente o contrário, mesmo que o Iluminismo esteja moribundo. Harari não fala em Resistentes, em Replicants como em Blade Runner ou como no Manifesto Comunista, embora defenda que o futuro tenha mais a ver com Marx do que com Spielberg.

Haverá sempre resistência e construção política contra a nova «humanidade baseada na robótica e na biotecnologia» que não é muito aprofundada em Harari. Ou seja, o desaparecimento da conjunção inteligência/consciência, sendo que a primeira ganhará no futuro separando-se irremediavelmente da segunda. Não será assim, porque o Homem não abandonará a consciência e essa vem do socius, da vida em comum, da necessária reaproximação à religião e ao político. Por mim, que me religuei ao catolicismo de que estava afastado há muito, não penso deixar a Humanidade entregue a si própria e penso lutar contra o tecnofascismo através da resistência/inteligência/consciência

Se essa consciência se perder, não teremos nunca dor, não amaremos (não acredito no algoritmo para este particular), não nos indignaremos, não nos emocionaremos, não ajudaremos o outro, não resistiremos, nem construiremos o político, nem a utopia. Quereriam viver num mundo assim?

Por fim, a lição 20 e 21 de Harari, sofre de um enigma que ele próprio levantou: sendo budista, não interferir será a solução lógica para ele. A pura contemplação e o pacifismo pode ser a travagem deste autêntico ataque à Humanidade sendo que deveremos estar atentos à acumulação de poder e riqueza dessas supercompanhias com que o mundo nunca sonhou. Creio resolutamente que estar atento não basta.

António Luís Catarino
8 de Julho de 2019


terça-feira, junho 25, 2019

Livros usados: algumas inquietações


Gosto de comprar livros em 2ª mão. Agora começam a aparecer nos alfarrabistas os do meu tempo de juventude que, por uma razão ou outra, deixei de ter. Compro-os pouco a pouco. Algo estragados, com folhas dobradas, páginas já amarelecidas e sublinhadas. Não me importo. Quando aparece um sublinhado num verso, ou em dois, tento perceber a mensagem (se o era) que o antigo leitor ou leitora deixaram. Neste «Signe Ascendant» uma tal Isabel C. deixou-me que eu lesse o seu:

Qui n'a rien de plus pressé
Que de se lacérer lui-même

Mais inquietante que a poesia de Breton.

sábado, junho 22, 2019

Há as palavras cruzadas, o sudoku e o assassínio de Olof Palme

Organigrama dos nomes envolvidos no assassinato de Olof Palme segundo Jan Stocklassa
e baseado no arquivo de Stieg Larsson. Do livro «Stieg Larsson», saído há pouco.
Nestas ocasiões em que o trabalho aperta em burocracias dementes e sem sentido, deu-me para comprar o livro de Jan Stocklassa titulado de «Stieg Larsson», na esperança de me encontrar com alguma paz, sem que me desse ao trabalho de pensar muito. O policial não é bem o meu género, mas li toda a saga (3 volumes mais 2 que foram editados após a sua morte prematura) de «Milennium» deste jornalista sueco. Também vi o filme homónimo com Craig como ator. O que Jan Stocklassa, outro jornalista de investigação sueco, faz é em si muito simples. Conseguiu ter acesso aos arquivos de Larsson sobre o assassínio de Olof Palme nunca resolvido pela SAPO ou pela polícia sueca. Houve vários acusados, mas posteriormente libertados...alguns para morrerem em seguida, em acidentes de automóvel, com overdoses, etc. As testemunhas eram contraditórias, em particular a de Lisbeth Palme que se feriu levemente com um segundo tiro. A pista de Larsson apontava para a extrema-direita. A de Stocklassa, além de concordar com ele, acrescenta mais conexões. E que conexões! Tive o cuidado de dar a Vossas Excelências que me lêem (estou a atingir mínimos históricos no Facebook!) o organigrama que ele fez com alguns dos nomes que estão claramente ligados ao assassínio e nunca verdadeiramente interrogados por quem o deveria ter feito. Além disso, foram relativamente fáceis de encontrar pelo jornalista. A verdadeira teia vai desde a extrema-direita sueca (que fez o papel de autêntica papalva como de uma fantoche se tratasse, só se dando conta disso tarde demais), a CIA, O MI6 inglês, a Coordenação superior da SAPO, o almirantado, os ricos aristocratas industriais suecos que dão dinheiro a rodos para a extrema-direita, a Mafia italiana, a conexão internacional da venda de armas para a guerra entre o Iraque-Irão (lembram-se do papel de Portugal nisto?), a UNITA com um nome que não vem no organigrama mas que se chama Luís Albuquerque representante do movimento na Suécia, a Polícia Política sul-africana do apartheid com Pik Botha à cabeça e a DINA chilena. Ora, o meu cuidado foi pôr a vermelho os que sofreram «acidentes» fatais na Suécia ou os agentes que estavam para depor na Comissão Verdade e Reconciliação na África do Sul já então de Nelson Mandela, acidentes esses tão brutais como brutal era a polícia branca e fascista de Botha. Todos eles morreram e alguns com as suas famílias, como era comum no modus operandi desta polícia. Mas sul-africanos, suecos ou de outras nacionalidades nenhum morreu na cama! A amarelo coloquei os que sabiam com antecedência e que terão promovido e ajudado material e logisticamente ao assassínio de Palme. Hoje alguns estarão vivos.

Mas porquê a morte Palme? Ora, sabe-se que ele estava nas vésperas de denunciar a conexão da venda de armas sueca que passava pela África do Sul, Chile, Chipre, Seichelles, etc...Alguns empresários milionários chegaram a estar detidos pelo Departamento de Finanças e estavam prontos a falar. Por outro lado estaria em preparação uma limpeza da extrema-direita nos quadros superiores da SAPO e Marinha suecas. O apoio À SWAPO, ao ANC e igualmente à Frelimo e a Moçambique, tal como à Namíbia, também não passava despercebido pela polícia sul-africana que matou a mulher de Joe Slovo e o secretário-geral do PC, Kani, entre muitos outras vítimas, quer à metralhadora, quer com cartas-bomba. Os refugiados chilenos de Pinochet eram aos milhares na Suécia o que deveria irritar a DINA. Mas adiante que vão conhecer alguns nomes:

No centro de tudo, ou seja, o cérebro operacional da operação, está um indivíduo perigoso que se move particularmente bem nos movimentos mundiais da extrema-direita:

Bertil Wedin, que Stocklassa entrevistou em 2016 já velho e no Chipre turco, onde não há tratados de extradição para nenhum país. Viveu sempre lá e de lá vieram algumas das diretivas mais importantes deste caso. Simpático, não negou nenhum dos crimes de morte, que foram vários. Chegando ao caso Palme, foi propositadamente vago. Mas afirmou que sabia de antemão o que se preparava. Agora reparem nas linhas esquerda e direita ao lado deste nome:

Craig Williamson – MI6
Pik Botha – Ministro dos Negócios Estrangeiros do apartheid sul-africano.
Alf Enerstom – Perigoso e assassino operacional. Matou várias pessoas fora da Suécia, por encomenda. Liderou e uniu vários movimentos de extrema-direita. Tinha sempre muito dinheiro disponível. Entrevistado por Stocklassa disse conhecer antecipadamente o atentado. Esteve presente no local. Ainda vive, hoje está num hospício, mas mesmo assim acompanhado por um «secretário» que não o deixa falar demais.
Jacob Thedelin – Presente no local do assassinato. Judeu, foi dos poucos que teve, rapidamente e após o crime, direito ao difícil visto de residência permanente em Israel. Nunca mais saiu de lá o que poderá colocar a Mossad no terreno. Provavelmente foi o que carregou no gatilho, de um modo canhestro, de amador. Perfeito para ser um «bode expiatório». Ligado à extrema-direita dos Democratas Suecos, hoje representados no parlamento e no governo.
Eugene de Kock – Operacional da polícia sul-africana. Estava na Suécia na altura do atentado. Pensa-se que nas imediações do local. Acompanhado por mais quatro agentes, saem da Suécia no dia seguinte, sem quaisquer problemas.
William Casey – Não o  conhecem? Chefe da CIA na época Reagan. Provou-se contactos com Bertil Wedin e com ligações fortes à conexão da venda de armas americanas (ver em baixo Oliver North).
Mario Ricci – Ligações à Máfia italiana e vendedor internacional de armas. Joavan von Birchan era o seu contacto na Suécia. Vendiam principalmente para o Irão através de navios que faziam escala na África do Sul para outros barcos. Quando Olof Palme tentou barrar este negócio, os aviões da CIA fizeram o resto, com Oliver North à cabeça. Lembram-se do seu silêncio e do «julgamento» dele? Há muito que está em liberdade. Considerado um herói pelos republicanos e democratas americanos.

É preferível ficar por aqui. Ainda há quem queira ou quem possa falar, mas por que o haveria de fazer passados 30 anos do assassínio (foi em 1986) e correndo o risco de cair no ridículo ou, pior, um maluquinho que acredita em teorias da conspiração? Seria, quiçá, mais uma fake news?

Lindo, para quem quer um livro para não pensar muito, somente para apaziguar o trabalho.

António Luís Catarino
Coimbra, 22 de junho de 2019

quarta-feira, junho 19, 2019

«Quimeras», ou as crisálidas de Cristo de Sanmartino

Quimeras
«Quimeras». Foto: Teatro Nacional S. João
Entrar no claustro de S. Bento da Vitória no Porto e sair de lá sem poder expressar uma só palavra que destruiria toda a emoção criada com o espetáculo único do TNSJ e da Karnart. Recuperar mais tarde. Sentir mais tarde. Compreender a transformação dos corpos, mais tarde. Não há lugares sentados. Deambulamos pelo claustro agora fechado por entre corpos femininos fechados sobre si próprios e uma luz contrastante. No meio do claustro, uma cama funerária com um corpo masculino nu envolto num sudário transparente branco e uma rede negra. Luís Castro e Vel Z lembram, na apresentação escrita do projeto, que é uma reconstituição vívida do Cristo jacente de Giuseppe de Sanmartino, de Nápoles. À sua volta os corpos femininos envoltos igualmente num tecido branco transparente. Os seus olhos têm uma íris branca, num ricto imperscrutável. Ouve-se uma música longínqua. Num dos cantos do quadrado formado pelas mulheres, logo atrás do Cristo jacente, uma figura diferente, a rainha das crisálidas, vestida de negro e máscara de luz, aquela que ao som da música observa os corpos das servas a elevarem-se até estarem erectos. Leva uma hora os seus nascimentos. As crisálidas estão prontas e juntam-se, leves e ondulantes, à cama funerária de Cristo. A rainha negra gira o sudário negro no seu corpo, rodando em si própria até que o destapa totalmente. A música barroca e a luz atingem o seu auge. As crisálidas dão vida à vida numa ressurreição subentendida. Os autores chamam a este exercício de perfinst ou body art. Sim, mas eu chamei-lhe na ocasião, uma experiência plástica, musical e teatral entre o maravilhoso ou a pura e crua beleza.

António Luís Catarino
14 de junho de 2019

segunda-feira, junho 17, 2019

Tamila Kharambura e Pinho Vargas. Na Orquestra Sinfónica do Porto

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Tamila Kharambura
Foto: Casa da Música


Sempre me habituei a ouvir a Orquestra Sinfónica do Porto e digo-vos que vale a pena ir ouvi-la na Casa da Música sempre que puderem. Os músicos mudam, os maestros também, mas consolida-se uma opção clara pela qualidade e pela fuga ao facilitismo. Parece que cada maestro que vai, deixa um rasto inesquecível. Lembro-me de alguns.

A última vez que a vi (e ouvi) foi há pouco tempo. Dirigida pelo maestro Pedro Neves, ouvimos as composições de Pedro Amaral, de Clotilde Rosa e de António Pinho Vargas. Se o primeiro se ouviu com prazer, a segunda levanta-me já algumas questões que possivelmente, para um leigo como eu, nada tem a ver com a harpista/compositora tardia. Segundo o que se percebeu Clotilde Rosa, que nos deixou em 2017, pertenceu ao ensemble de Jorge Peixinho que nos anos 70 os provoca desta maneira: cada um dos músicos comporia uma peça que, no final, se uniam numa única composição. Desafio aceite e Clotilde Rosa não mais parou com o «bichinho » da composição. Atenção que não era qualquer músico que tocava com Peixinho, portanto a qualidade da música/compositora é inquestionável, lembrando igualmente que a sua formação foi construída no Grupo de Darmstadt, com Boulez, Stockhausen e Ligeti antes de Peixinho. Portanto, mal de mim vir para aqui analisar isto ou aquilo. Falo, por isso, de emoções que a música me cria e particularmente a música concreta e contemporânea que sigo com alguma regularidade. Ouvir Clotilde Rosa foi bom, mas custa-me enquadrá-la na música concreta. São demasiados bombos, metais e tímbales que exportam a euforia da autora. É possível que nos anos 70 a alegria fosse a regra (foi e eu vivia-a) e as composições de Rosa tenham essa impressão. Ou seja, a harmonia está muito presente o que me fez interrogar e achá-las deslocalizadas. Só ultrapassei esse desconforto com a última composição (foram apresentadas três sem título) quando entrou o piano de Jonathan Ayerst. Mas aparte disto há uma terrível injustiça para com Clotilde Rosa. A Secretaria de Estado da Cultura encomendou-lhe desde 2007 várias obras que ela transformou em longas composições e óperas...nunca ouvidas! Só a Orquestra Sinfónica do Porto pela mão de Pedro Neves inaugurou este trecho. Uma vergonha, portanto, não sabermos mais sobre ela e principalmente as últimas composições.

António Pinho Vargas estava presente na Casa da Música e teve uma enorme ovação merecida com o seu Concerto para violino in memoriam de Gareguin Aroutionian cuja estreia foi a 7 de fevereiro de 2016 com a Orquestra Metropolitana de Lisboa no CCB. Pinho Vargas foi, é, e será sempre um compositor extraordinário. Dos poucos que já nos restam dessa geração. A ovação foi também por isso e ele sentiu-o. A surpresa final foi a apresentação de uma violinista do outro mundo: a ucraniana Tamila Kharambura. Não esqueçam este nome. Extraordinária. Eleva-nos sei lá para onde. Se não a conseguirem vê-la e ouvi-la ao vivo (vive em Lisboa de tempos a tempos), há um CD da sua estreia editado pela mpmp em 2017.

António Luís Catarino
Coimbra, 14 de junho de 2019

terça-feira, junho 11, 2019

Sheila Fitzpatrick e «A Revolução Russa»

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Sheila Fitzpatrick, autora de «A Revolução Russa» (Tinta da China)

Dois anos após o centenário da Revolução Russa a literatura é vasta e ainda a procissão laica vai no adro. Sheila Fitzpatrick editou «A Revolução Russa» e, se esperavam algum tema novo, alguma nova tese, algum documento inédito, relatórios intermináveis das catacumbas da Tcheka, da GPU ou do KGB, ou do PCUS, desenganem-se. É cansativo ler mais um livro sem que haja uma simples mais-valia sob o tema. Se Lenine se apoiou em Estaline para afastar a Oposição Operária, ou não. Se o seu testamento ordenou o afastamento de secretário-geral do Partido Bolchevique por ter sido «rude» com Kupriskaya e não serviria para as pontes que teriam de ser (ou não) construídas entre as várias sensibilidades comunistas no partido, ou com os socialistas revolucionárias de esquerda e mesmo com mencheviques. Se Molotov afirmou que Lenine era mais inflexível que Estaline (sendo ele um homem de mão deste último). Se o «terror» foi engendrado já no tempo de Lenine e se o Exército Vermelho e os bolcheviques se basearam ou não na Guerra Civil, ou cimentaram as expropriações da terra e das indústrias. E Lenine estaria de acordo com as perspetivas da NEP, apoiando a sua continuidade e esclarecendo (coisa que nunca o fez) que o verdadeiro socialismo residiria nesta solução? E Bukarine, o tal da Oposição de direita reuniu-se ou não em segredo com a nova troika de Trotsky, Zinoviev e Kamenev, antes desavindos? Quereria o partido bolchevique imitar o Terror de 1793/94 francês? E o medo do Termidor levou-os às execuções em massa? E a relação muito discutível com os camponeses e com os Kulaks seria uma forma de criar uma proletarização rápida nas cidades? E a Grande Fome foi provocada deliberadamente, para que houvesse um êxodo rural igual ao movimento das enclosures britânicas? Teriam as massas não compreendido totalmente as reivindicações de Trotsky e da Oposição de esquerda, ostracizando-as não pelo medo, mas remetendo-as para o «caixote de lixo da história» termo paradoxalmente dito por este? Estaline defendeu com unhas e principalmente com os dentes o primeiro plano quinquenal que se baseava na industrialização forçada de ferro e aço, ideia original de Trotsky que o defendeu igualmente, sendo copiado pelo burocrata-mor. Talvez isso explique, segundo alguns historiadores e pela autora, que Trotsky, já depois da «Revolução Traída» e das tarefas de formação da IV Internacional, nunca tenha ousado criticar a dimensão económica da URSS, motivo de querelas dentro do movimento. Este ficou-se somente pela crítica da burocracia que, segundo a autora, seria incompreensível pelas massas revolucionárias russas que viam nesta burocracia a subida de escalão social do proletariado!! Santa ingenuidade.
Esta enorme quantidade de «ses» nunca afirmando ou esclarecendo factos históricos que poderia ter à mão é tão mais estranho porque Sheila Fitzpatrick, professora, teve acesso facilitado e privilegiado a documentos importantes da história soviética chegando mesmo a publicar um livro titulado de «A spy of soviet archives» não traduzido em Portugal. Pois o que encontramos em «A Revolução Russa» (Tinta da China) é mais do mesmo. Violência, a raíz do comportamento humano, as revoluções comem os seus melhores filhos...etc.etc.
O livro lê-se com agrado e com uma facilidade diretamente proporcional às dúvidas alimentadas.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de junho de 2019