segunda-feira, dezembro 05, 2016

Apresentação de «Trabalhos em Curso» no Instituto de Sociologia da FLUP

Da esquerda para a direita: António Luís Catarino (Deriva Editores), José Luís Carneiro, secretário de estado das Comunidades Portuguesas, Bruno Monteiro, Prof. José Madureira Pinto e João Queirós.

5 de Dezembro, sala 201 da FLUP inserido no Projecto: «Dinâmicas recentes dos movimentos migratórios no noroeste português: o caso dos trabalhadores da construção civil». Apresentação de «Trabalhos em Curso» de Bruno Monteiro e João Queirós.

A Deriva agradece o convite formulado para estar presente neste projecto que revela claramente a relevância, actualidade e seriedade com que o Instituto de Sociologia e a FLUP mostram ter. Neste campo em particular e no caso da edição de «Trabalhos em Curso – Etnografia de operários portugueses da construção civil em Espanha», a Deriva agradece aos autores João Queirós e ao incansável Bruno Monteiro cujo trabalho se tem vindo a revelar de uma importância fundamental no que à sociologia, e não só, diz respeito. Para além destes autores, os agradecimentos estendem-se aos colaboradores desta publicação como Jorge Arroteia, Lorenzo López Trigal e a jornalista e escritora Ana Cristina Pereira.
A parceria Deriva Editores, uma editora independente do Porto, com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique mais uma vez se mostrou um êxito, pela divulgação muito mais abrangente, em todo o país, desta mesma publicação, mas também porque a independência da Editora e talvez o seu carácter alternativo não nos permite ser neutrais perante as injustiças e as desigualdades. A linha está, pois, marcada nos tempos interessantes (como diria Hobsbawm), mas perigosos, em que vivemos.
Contam-se, nesta colecção que mantemos com o LMD, três livros, quatro com este, que se relacionam com a identidade operária o que significa, segundo a minha leitura, que esta é, e tudo indica que continuará a ser, objecto de estudo académico. Neste caso em particular, «Trabalhos em Curso» debruça-se sobre a emigração de operários portugueses para o Estado Espanhol e mais concretamente para a Galiza e zonas fronteiriças do país vizinho.
Mas este trabalho excelentemente apresentado fez-me procurar outros dados e factos que levaram a classe operária a emigrar, uma constante de ciclos longos com poucas variáveis. Para além de um século XIX, onde o liberalismo mais selvagem foi vitorioso com o seu rasto de miséria criminosa para a classe operária, as migrações internas, em quase toda a Europa, foram quase a única alternativa para a sua sobrevivência. Assim, era este enxame de camponeses despojados das terras que exigia a concentração agrícola e que suportava a revolução industrial que se proletarizou nas minas, nas indústrias têxteis, na construção civil, no comércio ou no serviço doméstico. A classe operária nascente era sujeita a todos os abusos, desde o trabalho infantil, à sobre-exploração do trabalho feminino e à retirada de todos os direitos políticos aos trabalhadores.
As crises económicas cíclicas, cujas consequências desastrosas para os mais fracos, mas justificada pela mão invisível do liberalismo, obrigava a mais emigrações maciças agora para países como os Estados Unidos, a Argentina, o Brasil ou para os diversos domínios coloniais do imperialismo europeu. Os portugueses não estavam ausentes destes grandes movimentos migratórios. Julgam-se que foram 20 milhões de europeus que desde 1884 a 1914 se deslocaram, tendo a emigração portuguesa aumentado sistematicamente pelo menos até ao ano de 1900. No século XX, em quase todo o século XX, a emigração portuguesa foi uma realidade, dizem os diversos estudos. A fome e a pobreza grassavam em Portugal, quer nos anos da República que virou as costas às reivindicações operárias e uma das causas da sua decadência precoce, quer nos anos da guerra que entre 1916 e 1918 levou para a matança dos imperialismos dezenas de milhar de operários e camponeses portugueses em La Lys. Depois, sabemos demasiado bem a que levou a ditadura salazarista no que a este campo diz respeito. Levados a uma austeridade e pobrezas absurdas e vendendo a «alegria no trabalho» decalcado do mussolinista «Doppo Lavoro», obrigados ao respeitinho, às humilhações contínuas, à falta de liberdade, às Casas do Povo e aos sindicados nacionais, à Sopa dos Pobres e ao medo instituído pela repressão e à guerra colonial, foi evidente o impulso migratório de sucessivas levas de portugueses em quase todo o século passado realçando-se a explosão de emigração clandestina e «legal» na década de 60, só diminuindo significativamente nos anos 70, exactamente quando houve melhores condições de vida, ganhos no PREC.
Hoje, «Trabalhos em Curso» leva-nos a uma nova perspectiva sobre a emigração portuguesa. Ao discurso oficial da emigração «talvez a mais qualificada» que tivemos para os países europeus, contrapõe-se a emigração de operários portugueses principalmente para Espanha. No conjunto, entre 2002 e 2008, e apresentado por João Queirós, na Tabela 1, são 135 mil os residentes de trabalhadores portugueses registados em que o sector da agricultura, da construção e da indústria supera, em muito, o sector dos serviços.
Mais uma vez, Portugal assiste, não sem alguns falsos argumentos aduzidos por más consciências políticas, a um processo de exportação de trabalho barato que produz a rarefacção da classe operária e ao declínio da acção política reivindicativa, de uma crise de reforço sindical e igualmente de uma ténue consciência de classe. O processo de recuperação neoliberal que se está a verificar desde a crise de 2008, ou muito antes, se quisermos relembrar os anos 80 nos EUA e Grã-Bretanha,  passa por uma deslocalização das empresas multinacionais, por despedimentos em massa, pela chamada «flexibilização das leis laborais» e pela desmontagem das indústrias tradicionais através da robotização, sem que tudo isto seja acompanhado pela atribuição de novos direitos que apontem para vivências mais democráticas, fruto, em grande parte, senão na sua maior parte, pela luta secular dos operários e fundamentais para uma vida digna de que estamos ainda a usufruir. Lembremos que o movimento operário mundial foi portador de uma modernidade e de iniciativas de liberdade ímpares e que lhe devemos os juros dessa luta. É evidente que também levaram com as ilusões perdidas em utopias e em revoluções fracassadas, mas nunca poderemos negar os direitos que fomos adquirindo por essas lutas feitas a ferro e fogo. Daí, a importância do conhecimento das lutas operárias e do seu estudo contínuo e do valor do trabalho como parte de uma sociedade que se quer solidária.
Neste «Trabalhos em Curso» a existência de uma vida virada para a sobrevivência ou para sobrevida do quotidiano dos operários emigrantes não está só espelhada pelas entrevistas do Bruno ou de Ana Cristina Pereira. A pobre sobrevivência dos operários emigrantes está bem viva num simples quadro no artigo de Bruno Monteiro, na página 146 do livro. Chama-se «Entre cá e lá». Diz, infelizmente, tudo sobre a afronta a que estes homens estão sujeitos. Uma vida contada euro a euro, à espera de boleias em estradas perigosas, em mediáticos acidentes de trabalho, em condições de habitabilidade improváveis, em horas de trabalho sem fim. Creio sinceramente que o silêncio sobre este estado de coisas é tão criminoso como a acção das redes mafiosas que manobram às claras. Este livro é, por isso, fundamental.
O meu obrigado a todos. 

António Luís Catarino. 5 de Dezembro de 2016

sábado, dezembro 03, 2016

Foto da apresentação de «A Vida entre Nós» na Unicepe a 25 de novembro

Que fique registado o momento: António Luís Catarino, (Deriva Editores) no uso da palavra, Lígia Ferro, João Teixeira Lopes, Sofia Lai Amândio e o responsável pela Unicepe. «A Vida entre Nós - Sociologia em Carne Viva» conta com 17 participações maioritariamente de sociólogos.

quinta-feira, novembro 17, 2016

Apresentação de «Trabalhos em Curso» em Lisboa. Dia 21 de Novembro, 17:00 na Sala de Conferências do Inst. de Geografia da Universidade de Lisboa (Cidade Universitária)

Gostaríamos que estivesse presente na apresentação do livro Trabalhos em Curso. Etnografia de Operários portugueses da Construção Civil em Espanha, a realizar-se dia 21 de novembro, às 17:00, na Sala de Conferências do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, na Rua Branca Edmée Marques, Cidade Universitária.
Com
Jorge Malheiros (CEG, IGOT, UL)
José Manuel Sobral (ICS; UL)
João Queirós (ESE-Porto, IS-UP e organizador do livro)
Bruno Monteiro (IS-UP e organizador do livro)

Outro Modo
Le Monde Diplomatique
Deriva Editores

terça-feira, novembro 15, 2016

Apresentação no Porto de «A Vida entre Nós». Unicepe, sexta, 25 de novembro pelas 18:00. Com Lígia Ferro, Sofia Lai Amândio, João Teixeira Lopes e Pedro Abrantes


À venda com a edição do jornal Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, de Novembro. Trabalhos em Curso, de João Queirós e Bruno Monteiro

TÍTULO: TRABALHOS EM CURSO - ETNOGRAFIA DE OPERÁRIOS PORTUGUESES DA CONSTRUÇÃO CIVIL EM ESPANHA
ORGANIZADORES: JOÃO QUEIRÓS E BRUNO MONTEIRO
AUTORES: JOÃO QUEIRÓS, BRUNO MONTEIRO, JORGE ARROTEIA, LORENZO LÓPEZ TRIGAL
E ANA CRISTINA PEREIRA

Sinopse
No pico da crise em Portugal, milhares de trabalhadores partiam, pela estrada fora, em busca de trabalho nas obras do país vizinho.
Este livro reproduz parte dos resultados de uma investigação sobre este fenómeno realizada no âmbito do projeto “Dinâmicas recentes dos movimentos emigratórios no Noroeste português: o caso dos trabalhadores da construção civil”, financiado pela Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas e sediado no Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Para além de apresentar elementos decorrentes das pesquisas etnográficas realizadas pelos organizadores do volume entre 2008 e 2013
– que permitiram conhecer aspetos dos quotidianos de operários portugueses da construção civil nos seus locais de habitação no Vale do Sousa e nos seus locais de trabalho na Galiza –, o livro reúne outras contribuições (Jorge Arroteia, Lorenzo López Trigal, Ana Cristina Pereira) que complementam e ampliam o ponto de vista proposto.


Índice

Uma etnografi a pendular da emigração para Espanha
João Queirós e Bruno Monteiro
Espanha enquanto horizonte de emigração operária portuguesa: elementos de enquadramento histórico e sociológico
João Queirós
A emigração portuguesa para Espanha: retalhos de investigação
Jorge Arroteia
Las comunidades extranjeras, particularmente portuguesa, en España y su repercusión espacial y demográfi ca: una revisión desde el propio curriculum investigador
Lorenzo López Trigal
“Sentes-te deslocalizado!”: as mudanças do campo económico transnacional da construção e a experiência vivida dos trabalhadores portugueses em Espanha (2008-2013)
Bruno Monteiro
-Apêndice: Objetivação do encontro entre disposições interiorizadas e estruturas de oportunidades por via de um
“modelo didático”
De viva voz:
-Entrevistas com dirigentes sindicais em Portugal e Espanha
Realizadas por João Queirós e Bruno Monteiro
-Entrevista com um trabalhador português da construção
civil em Espanha
Realizada por Bruno Monteiro
-Entrevista com um patrão da construção civil a operar em
Espanha
Realizada por Bruno Monteiro
Crianças que ficam para trás
Ana Cristina Pereira

ISBN: 978-989-8701-25-1
REFERÊNCIA: 1510007
FORMATO: 12x19 cm
1ª EDIÇÃO: NOVEMBRO 2016
PAG.  140
Preço: 10,50 euros

A Vida entre Nós, Sociologia em Carne Viva, coord. Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes e João Teixeira Lopes

Sinopse
Animados pela convicção de que a sociologia existe para os cidadãos, os autores deste livro direcionam esta disciplina para os seus sujeitos de estudo, e trazem até si a matéria prima utilizada pelo método biográfico: a voz dos entrevistados.
Cada um dos 17 capítulos, aqui contidos, folheia uma história de vida e veicula a ideia refrescante – que tanto enriquece os indivíduos e que tanto tem ocupado os sociólogos – de que numa pessoa habitam multidões.
As entrevistas foram realizadas entre 2008 e 2015 e abarcam o início da Grande Recessão. Vários anos volvidos de reflexividade, resistência e coragem recobrem temas centrais à nossa sociedade contemporânea como as desigualdades sociais, a integração e a exclusão social, a educação e a literacia, o trabalho, o emprego e as profissões, a cultura, a arte e a música, a religião, as migrações e a linguagem, os movimentos sociais e o associativismo, a economia e a gestão.
Nos modos de recolha contam-se a entrevista biográfica, o relato autobiográfico, o filme, a fotografia e o diário de campo. Os dados foram editados em prosa, em verso e mesmo em guião cinematográfico.
Se se deixar seduzir por esta romaria, a nossa convicção é que o leitor irá encontrar elementos que não conhecia da vida na sociedade em que vivemos e que poderão impulsionar programas de transformação, rumo a um mundo mais rico, plural e justo.


ANO DE EDIÇÃO: 2016
NÚMERO PÁGINAS: 256
COLECÇÃO: Sociologia
FORMATO: 14,5 x 21 cm
PESO: 978-989-8701-24-4
PVP C/ IVA: 16,00 Euros


PEDIDOS A: infoderivaeditores@gmail.com COM INDICAÇÃO DE NOME E MORADA. 

quinta-feira, outubro 06, 2016

Ir à Folio em Óbidos





É excelente quando o nosso trabalho é reconhecido. Para nós, Deriva, foi muito gratificante encontrarmos todos os nossos livros num local maravilhoso como é o espaço livre de uma igreja, transformada em passos perdidos. O Zé Pinho, da Ler Devagar e um organizador muito peculiar no que hoje se tornou aquela vila, sabe o que faz e sabe que, na maioria dos casos das editoras independentes, formar um stock é ajudar a compreender uma coerência editorial que as grandes editoras não têm. Assim, foi possível ler, comprar livros que não os via há muito. Tanta coisa boa...e mais bom teatro, música popular portuguesa e contemporânea, jazz, debates. Estar lá dois dias foi pouco. Não fosse a ginginha e os bolos a dar-nos ainda mais alento entre amigos. Não falho para o ano, acreditem. 

quarta-feira, setembro 28, 2016

A Vida entre Nós - Sociologia em Carne Viva. Apresentação do livro na FNAC Chiado, 12 de outubro pelas 18:30


O livro sairá dentro de momentos. Para já o convite. Coordenadores do projecto: Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes e João Teixeira Lopes

A quinta edição (nº4) de Ensaios de Teatro já à venda. Da TEatroensaio com o apoio da Deriva Editores

A revista "Ensaios de Teatro" vai na sua quinta edição (o número quatro).

Há  cinco anos lançámos, numa aventura concretizada, o número zero, com  a  esperança de não ser unicamente experimental e de não ficarmos por  aquele, não ficámos! Temos tido o prazer de, ao longo destes cinco anos de  "Ensaios de Teatro", ter trabalhado (e de trabalhar) com colaboradores de  várias nacionalidades, áreas, que com o seu conhecimento têm vindo a  mostrar novas ideias, caminhos! Nesta edição de 2015 contamos com a  colaboração de Salvador Santos, Marco Paiva, Rui Pina Coelho, Gil Costa  Santos, António Durães, entre outros. É também publicado o texto vencedor do DramaTEns 2015: Sopros de Paz e Guerra" de Odir Ramos da Costa.

O TEatroensaio tem, desde o número  zero, como parceiros na edição a Deriva Editores e no acolhimento o TNSJ.  Desejamos uma boa leitura.

A Publicação Anual “Ensaios de Teatro” procura contribuir para a divulgação do Teatro e da Dramaturgia em português. Conta com textos sobre os autores e peças apresentadas pela companhia, a publicação do texto vencedor do Concurso Anual de Dramaturgia e a secção EntreEnsaios, com temas mais abrangentes que promovam o pensamento e a criação artística. Em edições anterior contou com textos de: Afonso Cruz, Alain Maillard, Alberto Medalla, Ana da Palma, Ana Maria Ribeiro, António Durães, Carla Morgado, Cátia Terrinca, Eduardo Baltar Soares, Eduardo Morais, Gil Costa Santos, Graça dos Santos, Gustavo Guerra, Günter Heeg, Honorato Esteves, Inês Leite, Isabel de Sena, Jaime Froufe Andrade, Jorge Deserto, José Leitão, José Russo, Márcio Boaro, Miriam Halfim, Paulo Barrosa, Pedro Estorninho, Pedro Sobrado, Ricardo Boléo, Sérgio Lopes, Victor Pinto, Zeferino Mota.

Editor Pedro Estorninho 
Redacção Inês Leite e Pedro Ferreira 
Design Gráfico Augusto Pires 
Makeup design Coprodução:  TEatroensaio / Deriva Editores

Parcerias: TNSJ, Moagem Ceres S. A., IEFP,IP – Cace Cultural do Porto, Deriva Editores, Esmae-IPP, Teatro Art´Imagem, Cinanima, Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, APELGA

quarta-feira, setembro 21, 2016

Sofia Miguens, do Departamento e Instituto de Filosofia da U. Porto, escreve sobre Wittgenstein e de «Observações sobre o ramo Dourado de Frazer», iniciativa de Bruno Monteiro e editado pela Deriva

WITTGENSTEIN, Ludwig, Observações sobre o Ramo Dourado de Frazer, Edição, tradução e notas de João José de Almeida, Introdução e revisão da tradução de Nuno Venturinha, Coordenação de Bruno Monteiro, Deriva Editores, Porto 2011. 116 pp.; ISBN: 9789729250859. 

A estranheza do comum 

O ano de 2011 marca os sessenta anos da morte de Ludwig Wittgenstein; esta publicação das Observações sobre «O Ramo Dourado» de Frazer (Bemerkungen über Frazers Golden Bough), devida à iniciativa de Bruno Monteiro, sociólogo do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto e coordenador do volume, assinala a data. A tradução do alemão é da autoria de João José de Almeida, a partir dos manuscritos e dactiloscritos editados pelo Arquivo Wittgenstein na Universidade de Bergen. A introdução e a revisão da tradução são da autoria de Nuno Venturinha, reconhecido especialista, a nível internacional, no Nachlass wittgensteiniano. Não se poderia esperar mais da qualidade da edição. Para quem, como eu, estuda e ensina Wittgenstein, sobretudo a partir da filosofia da mente e da linguagem, e portanto sobretudo a partir do Tractatus e das Investigações Filosóficas, este livro Observações sobre o Ramo Dourado de Frazer (que aliás não foi escrito como um livro) é quase um objecto estranho. Mas, por isso mesmo, é um objecto muito interessante e muito revelador dos muitos usos de Wittgenstein para pensar sobre o pensamento – desde pensar sobre o que estamos a fazer quando fazemos lógica até pensar sobre o que estamos a fazer quando fazemos antropologia. Aliás, Wittgenstein pode ser útil até para pensar sobre pensamento social e político: foi muito interessante saber que Bruno Monteiro, o grande motor por trás desta publicação, foi levado pelo seu tópico de investigação – os grupos políticos dos extremos do espectro, cujas propostas se afastam do ‘centro’ por dependerem de nuances – a interessar-se por Wittgenstein. Interessava-lhe a percepção e a discriminação, no sentido de identificação minuciosa. Portanto (para falar a linguagem de Wittgenstein) interessavam-lhe os fenómenos do ver-como, dos aspectos, e assim foi levado às Investigações e aos escritos sobre cores. Em suma, também para pensar sobre fenómenos de percepção social mais ou menos detalhadamente discriminativa interessa compreender como se pode ver mais ou menos olhando para o ‘mesmo’. Mas aqui importa não tanto a percepção política na nossa sociedade e sim a antropologia: Sir James George Frazer, o autor de The Golden Bough – a study in magic and religion, o livro que Wittgenstein comenta nestas observações, e que influenciou tanta gente, desde B. Malinowski, até S. Freud, James Joyce, Ezra Pound ou T. S. Elliot, foi um antropólogo escocês que estudou práticas religiosas ‘primitivas’, nomeadamente sacrificiais, anteriores às religiões monoteístas organizadas e que no tempo em que publicou The Golden Bough indignou muita gente por olhar de forma comparativa para a religião e para a magia. Mas se alguns contemporâneos puderam indignar-se com Frazer por causa de algo como uma conclusão não explícita, que era a persistência no cristinianismo de ritos e superstições de práticas protoreligiosas, ou mágicas, primitivas, Wittgenstein aborda-o 250 Revista da Faculdade de Letras – Série de Filosofia, 27-28 (2010/2011) 239-253 quase do ângulo contrário: uma importância mais imediata destas Observações Sobre o Ramo Dourado de Frazer é o facto de elas contestarem uma certa forma racionalista- ‘progressista’ (hoje diríamos ocidentalocêntrica) de fazer antropologia, de olhar para práticas sociais muito diferentes das nossas. O que perturba Wittgenstein é isto: o que estamos nós a fazer quando vemos povos e práticas como primitivos e, por serem primitivos, alien? (estranhos, demasiado estranhos, muito diferentes de nós, este ‘nós’ dito de forma normativa). Porque é que Wittgenstein diz com todas as letras que o antropólogo escocês James G. Frazer é ‘mais selvagem do que os selvagens de que fala em The Golden Bough’? Devo dizer que fui atrás do “Ramo Dourado” e o livro não é à primeira vista tão absurdo como Wittgenstein nos faz pensar – é um livro de descrições de práticas mágico-religiosas, e quem o escreveu pensava pelo menos que valia a pena escrever sobre essas práticas: sobre o rei dos bosques, o rei-sacerdote, a magia simpática, o totemismo, o tabu, práticas em partes diferentes do globo e de épocas muito distantes entre si, desde povos que antecederam os Romanos na actual Itália, até esquimós e nativos australianos. Para responder a esta questão (Porque é que Wittgenstein diz com todas as letras que o antropólogo escocês James G. Frazer é ‘mais selvagem do que os selvagens de que fala em The Golden Bough’?) de forma mais aprofundada teríamos que falar de muitas coisas. Seria importante, nomeadamente, compreender, além das ideias de Wittgenstein sobre lógica, linguagem e pensamento, as suas ideias acerca de progresso, acerca de moralidade, de religião e de ciência. Um ponto de partida aqui seria a célebre citação de Nestroy que aparece em epígrafe nas Investigações. ‘O progresso é sempre menos do que imaginamos’ (Überhaupt hat der Fortschritt das an sich, dass er viel grösser ausschaut, als er wirklich ist. / O progresso tem isto em si, que parece sempre muito maior do que aquilo que realmente é). A citação é de Nestroy, um cantor, actor e dramaturgo austríaco do século XIX. Ou então a sua impaciência perante, por exemplo, a filosofia utilitarista, que via como um bla bla bla racionalista em ética. As referências permitir-nos-iam compreender melhor a sua dúvida enorme perante a ideia de uma progressão mito-religião-ciência como constituindo um progresso não problemático das formas de vida e pensamento humano. Vou propor aqui uma chave: uma coisa que temos de saber sobre Wittgenstein para percebermos o incómodo perante Frazer que estas Observações expressam é que Wittgenstein vê o olhar do filósofo sobre as nossas próprias formas de vida como o olhar de um antropólogo. Noutras palavras, também em filosofia se analisa e descreve práticas e a estranheza não começa lá fora, com outros povos e outros tempos, antes começa nas nossas próprias práticas – o filósofo americano Stanley Cavell, fala da descoberta wittgensteiniana da ‘estranheza do comum’. É esse o objecto do olhar do filó- sofo – pensemos por exemplo em nós próprios, aqui e agora, ordeiramente reunidos, sentados, com o pretexto da apresentação de um livro [este texto foi originalmente escrito para o lançamento da tradução do livro], no contexto de um ritual de universidade. Invertendo o famoso motto de Marx (que é aliás de Terêncio), tudo o que é humano (me) é estranho, poderíamos pensar. Como Cavell gosta de sublinhar, a imagem wittgensteiniana do filósofo é a de um explorador de uma tribo desconhecida – só que essa tribo somos nós, forasteiros e estranhos a nós próprios. Mas em que sentido é que tudo o que é humano é estranho? Stanley Cavell, em The Claim of Reason, fala da ‘descoberta de Witttgenstein’: essa descoberta é a convencionalidade da natureza humana ela própria, a convencionalidade daquilo que faz de nós humanos. Esta intersecção do famiRevista da Faculdade de Letras – Série de Filosofia, 27-28 (2010/2011) 239-253 251 liar e do estranho, partilhada pela antropologia, pela psicanálise, pela filosofia, é o lugar do comum. Ver o comum como estranho – a Unheimlichkeit freudiana – é perfeitamente possível. Não são só os aliens que são estranhos: nós somos estranhos, a cada instante podemos sentir-nos perplexos com aquilo que os humanos dizem e fazem enquanto humanos. Frazer não vê isto e é isso que incomoda Wittgenstein. Ele pensa que o nosso comum é normal mas o comum do povo do sacerdote de Nemi é estranho. Frazer tem uma visão teleológica à la Hegel (aliás Hegel aparece no fim do Ramo Dourado, mais especificamente as passagens sobre religião das suas Lições sobre a Filosofia da História). É isto que Hegel simboliza em filosofia, a visão da história como teleologia: um povo levando o facho da história, depois decaindo e passando o facho a outro – e quem não está a levar o facho da história é secundário ou despiciendo. Hegel pôde dizer, no seu tempo, ‘eu vi o Espírito do Mundo entrar a cavalo na cidade’ – era Napoleão, como antes tinham sido os Gregos, os Romanos, ou o Cristianismo, mas certamente não todos os povos contemporâneos destes povos, não todos os movimentos contemporâneos desse movimentos, pois não ‘transportavam a luz’. É isto que Wittgenstein não aceita: «A apresentação de Frazer das concepções mágicas e religiosas dos homens é insatisfatória: ela faz com que essas concepções apareçam como erros». «Estava então Agostinho errado quando evocava Deus em cada página das Confissões? Mas – pode-se dizer – se ele não estava errado então quem estava era o santo budista – ou outro qualquer – cuja religião expressa concepções completamente diferentes. Mas nenhum deles estava errado. Excepto quando afirmava uma teoria» (p. 29) «A ideia de explicar um costume (porventura a morte do rei-sacerdote) parece-me equivocada (aqui só se pode dizer e descrever: a vida humana é assim)» (p. 31). O que é o isto ser assim que só se pode descrever? Um princípio de resposta poderia ser encontrado em Wittgenstein e na forma como Wittgenstein fala de ‘acordo na linguagem’ para falar daquilo a que acima chamei o comum: este acordo não é um acordo quanto a opiniões (falamos, discutimos explicitamente, argumentamos) mas um acordo na linguagem e em formas de vida (estamos aqui sentados, vestidos, calados, circunspectos, num lugar que concebemos como de saber, pensando nestes sons que emitimos como tendo significados – nada disso nós discutimos explicitamente – não é uma questão de opiniões, mas de formas de vida). Não sei se estão aqui muitos filósofos, no entanto queria dizer uma palavra para filósofos: que esta dimensão de acordo e convencionalidade, que está em causa quando se pensa na filosofia como visando práticas, é algo de importante de um ponto de vista filósofico. É importante de um ponto de vista filosófico porque é importante para pensarmos sobre método – para pensarmos sobre o que estamos a fazer quando pensamos sobre a nossa forma de pensar, desde a lógica até à ética e à estética. Quando se fala em Wittgenstein como mostrando a importância do comum para a filosofia isto, na história da filosofia do século xx, significa por exemplo uma oposição à ideia de que linguagens formais revelam a essência da linguagem e uma natureza ontológica última da realidade. Não é que haja problemas com fazer lógica, analisar a linguagem, fazer investigações ontológicas – os filósofos fazem tudo isto constantemente. A questão é que as coisas são mais complicadas do que simplesmente descobrir o esqueleto por detrás da aparência, por exemplo usar linguagens formais para analisar a linguagem comum. Isto foi muito importante na filosofia do século XX, sob o impacto da lógica formal e 252 Revista da Faculdade de Letras – Série de Filosofia, 27-28 (2010/2011) 239-253 Wittgenstein não acredita nisso, da mesma forma que não adere a Frazer – nem essência, nem finalidade. Por vezes diz-se que Wittgenstein era um anti-modernista – tivemos ainda há bem pouco tempo aqui na FLUP um filósofo australiano de Sydney, David Macarthur, que, para além de ter vindo falar-nos sobre a natureza dos juízos estéticos, fez uma conferência sobre a casa de Wittgenstein (a casa que ele construiu em Viena, na Kundmangasse, para a sua irmã, a socialite vienense Margarethe Stonborough). Sem entrarmos na discussão dos gostos artísticos de Wittgenstein, podemos dizer no mínimo que ele era um céptico quanto a progresso – basicamente ‘O progresso é sempre muito menos do que aquilo que pensamos’, como disse Nestroy. O que procurei aqui explicar foi que a reac- ção a Frazer que está nestas Observações vem em parte daí, e também da ideia de que quando descrevemos práticas humanas o nosso objecto é o acordo em formas de vida, e não em juízos ou opiniões conscientes e explícitos. Fundamentalmente, nós não somos o pináculo de uma progressão, nem o único ponto de vista sem ponto de vista. E Frazer está, segundo Wittgenstein, demasiado próximo de pensar que somos.* 

Sofia Miguens (Departamento de Filosofia e Instituto de Filosofia da Universidade do Porto)

quinta-feira, setembro 15, 2016

Deriva Editores.É bom ir à Feira do Livro do Porto. Melhor ainda é ir ao Pavilhão 129/131 da Companhia das Artes procurar os livros da Deriva


Pavilhão 129 a 131, logo em frente ao parque de estacionamento do Pavilhão Rosa Mota. Espaço sempre agradável na Feira do Livro do Porto. Para encontrar os livros da Deriva basta dirigir-se ao Pavilhão da Companhia das Artes. Almoça-se e janta-se bem e por pouco, mesmo ao lado. Ouve-se música. Há árvores e pássaros. É bom lá ir.

Último Le Monde Diplomatique (ed. portuguesa) de setembro

Neste mês de Setembro propomos vários destaques na componente nacional do jornal: a miséria do jornalismo económico sobre a crise, de 2010 a 2016, é o tema de "O cão que corre atrás da própria cauda" (João Ramos de Almeida); o filme "Cartas da Guerra", de Ivo Ferreira, é analisado na perspectiva das memórias coloniais (Miguel Cardina) e no contexto do cinema português (Tiago Baptista); o ensino especializado da Música é tratado a partir dos problemas, laborais e outros, que nele persistem (Diana Luís Antunes e Rita Namorado); e a abstenção eleitoral é abordada a partir dos modos sociais da sua produção (Bruno Monteiro).
No internacional, chamamos a atenção para a urgência de transformar os dados pessoais numa questão política; para o facto de estarem a ser criados, em Washington, Moscovo e Pequim, os cenários de um conflito de grande dimensão; para as eleições presidenciais nos Estados Unidos, entre "um multimilionário de colarinho azul" e uma "santa virtuosa"; para a história e as linhas de evolução do islão mais velho da Europa, nos Balcãs; para o (pouco) que resta do sandinismo na Nicarágua; para os conflitos regionais no Corno de África, de onde vêm parte importante dos refugiados em Portugal; para a street arte entre subversão e recuperação, a "encantar a realidade vulgar"... e para muito mais.
Boas leituras!

quarta-feira, agosto 24, 2016

Da poesia como o grito insubmisso: Ricardo Gil Soeiro. Por Maria João Cantinho. Na Caliban.


A literatura poder ser fulgor e ferida, grito insubmisso ou iluminada solidão. Mas ela será sempre lucidez e desmesura, poderosa e subtil máquina de interrogar. Poeta e ensaísta, Ricardo Gil Soeiro (1981) aproxima-se da escrita como se de um alfabeto luminoso se tratasse, plasmado numa obra em que se entrelaçam, em mútua ressonância, poesia e ensaio. No domínio do ensaio tem vários livros publicados, entre os quais Iminência do Encontro (2009, Prémio Pen Clube-Primeira Obra), Gramática da Esperança (2009) e, mais recentemente, A Sabedoria da Incerteza (2015). No domínio da poesia tem revelado um percurso singular e coerente que integra obras como Labor Inquieto (2011) ou Palimpsesto (2016), uma tetralogia que lhe ocupou os últimos anos de escrita. Assumindo-se como aprendiz de enigmas, a sua poesia fala-nos do amor e do tempo, da morte e da metamorfose. Marionetas, anjos necessários, Bartlebys: afinal, máscaras plurais em que se oculta e se revela o pendor reflexivo de um lirismo eminentemente dialógico. É a partir dessa polifonia que ergue a sua partitura inquieta, dilacerada entre a sedução do segredo e o apelo do encontro.

Comecemos pelo teu último livro de poesia “Palimpesto” (Deriva, 2016). A ideia ou a imagem da escrita sobre a escrita é uma das metáforas privilegiadas da tua oficina poética, como outras que estão patentes em alguns títulos teus, como “Alfabeto dos Astros”, “Caligraphia do Espanto”, etc. A que obedece este teu ímpeto da poesia: à escrita ou à leitura?

Creio que é na História Universal da Infâmia que Jorge Luis Borges define a leitura como uma actividade posterior à de escrever: mais resignada, mais cortês, mais intelectual. Concordo em absoluto e, como vês, inicio a minha resposta com uma citação e isso é em si um gesto sintomático. Assumo, sem complexos, essa presença de uma profunda alteridade. A verdade é que só temos as palavras da tribo, a língua dos outros, a língua do universel reportage de que falara Mallarmé. O máximo a que podemos aspirar, parece-me, é fazer estremecer a linguagem: abrir aqui uma brecha, acender ali uma imagem, desencadear acolá um novo ritmo. Como que semeando uma fecunda discórdia no seio da própria língua. Para mim, a poesia nasce dessa aporia: começa a partir da sua própria impossibilidade. É a partir dessa multiplicidade de vozes que, de facto, se inicia o enigma e a singularidade do sentido. É uma alteridade, frágil e incomensurável, que irrompe e que assombra quem escreve. Na procura de uma voz própria influem outros discursos e outras referências que vão esculpindo e continuamente reconfigurando novos modos de declinar o mundo. A noção de “palimpsesto” obedece justamente a esta ideia da escrita sobre escrita e da vibração plural do sentido.


Curioso teres começado pelo Jorge Luís Borges, um autor que cultivava a escrita como palimpsesto no seu sentido mais pleno. Lembro-me, por exemplo, das obras sem autor ou da forma como ele trabalhava permanentemente o enigma da literatura. O poeta é atravessado por muitas vozes e isso é uma condição inevitável, mas também é irrecusável, não achas? É porque há quem queira ser original a qualquer preço e há até quem não leia enquanto escreve. Também o fazes?


Concordo que é inevitável. Não há texto que não brote de outros textos, a escrita é visitação, reverberação. Borges sabia-o como poucos. Negá-lo é não só ingénuo, mas simplesmente impossível. Isto não significa que ao rumor colectivo da língua e da memória literária o poema não procure responder com a inscrição de uma assinatura, a irredutibilidade de um estilo, uma linha de fuga. É a isso, aliás, que o poema almeja, o absolutamente singular. Herberto Helder exprime com o fulgor que o caracteriza este desejo impossível, quando diz em Servidões: “quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,/e falar nela de tudo o que não faz sentido/nem se pode traduzir no pânico de outras línguas.” É exactamente isto. Através de palavras que são as palavras de todos imprimir um cunho pessoal, perpetuar a nossa impressão digital. Manuel Gusmão escreveu páginas luminosas a este respeito, quando se reporta ao imperativo de “reinventar uma coralidade para a poesia”, nela singularizando uma voz, respondendo à invenção com invenção. Gusmão di-lo num poema de um modo admirável: “corta a minha mão e escreve com ela um poema que seja teu.” A escrita, parece-me, progride através deste equilíbrio sempre precário entre continuidade e ruptura, entre tradição e talento individual (para utilizar a terminologia de Eliot). Repara que a célebre injunção poundiana do make it new parte justamente de um mestre da colagem e da citação. Quanto à segunda questão: depende muito das circunstâncias. Na maior parte das vezes, leio constantemente. Poesia e ensaio, fundamentalmente. Mas quando estou imerso num dado projecto poético, numa fase já mais adiantada, preciso de estar a só com os poemas. É uma fase de absoluta concentração e obsessão. Pressupõe recolhimento, lentidão. Auscultação e apuramento. A tal espera vigilante… Tomo notas, levo-as comigo para todo o lado. Mobilizam-me por completo. E depois é rever, rever.


O que fazemos com os autores que amamos ler é o que interessa, justamente. Não é tanto o que lemos, mas sobretudo como lemos, por irmos ao encontro do que queremos ler. Na tua obra Espera Vigilante, publicada em 2011, podemos encontrar a forma como entendes o gesto poético, essa auscultação de que falas e, num texto de João Amadeu Oliveira da Silva sobre a tua poesia, em “Salvar a imperfeição das coisas”, ele fala em enigma e em promessa…é disso que se trata? A promessa da linguagem enquanto possibilidade, não só da linguagem, como da própria comunidade?


Sim, eu diria que essas são duas linhas fortes da minha escrita. Somos seres em fuga, espíritos errantes perdidos no labirinto do tempo. A poesia procura dar conta dessa travessia enigmática, mas fá-lo sempre de um modo turvo, encenado e visceral. É um testemunho do nosso espanto perante as coisas. O poema sedutor é aquele que guarda uma margem de indecidibilidade e de segredo, que insinua mais do que explicita, que deixa entrever mais do que postula. O mistério permanece, assim, intacto. Todos estes fios se entrelaçam na ideia de comunidade com que me interpelas. Como sabes, sempre privilegiei essa vertente ética, pois considero-a vital. Gostaria de pensar que a poesia participa de forma decisiva nessa construção antropológica de sentido, que assume o mundo como a nossa tarefa, como diria o Benjamin. A ideia de que, através da linguagem, um humano se dirige a um outro humano, conseguindo interromper por breves instantes a sua solidão irredutível.


A ideia da poesia ou da própria linguagem como tarefa remete-me sempre para a poesia de Paul Celan, sobre o qual tens escrito textos ensaísticos. Onde reforças precisamente a dimensão ética da poesia. Estudar autores como George Steiner, Walter Benjamin, Levinas, Derrida, entre outros, não tem sido para ti uma fonte de inspiração poética? E como convives com essa dimensão ensaística na tua poesia? Elas entram em conflito?


Sem dúvida, o ensaio encontra-se em permanente diálogo com a poesia, mas não exactamente em termos de transposição directa, o que seria vão e fútil. Confesso que, quando escrevo, não penso muito nesses termos. Mas agora que colocas a questão é interessante notar que o ensaio (literário e filosófico) consegue suscitar um tipo de reflexão diferente daquela que outro tipo de texto proporciona. Eu diria que, por vezes, há naturalmente uma confluência nas obsessões e nas preocupações dos dois registos. Obviamente que há vasos comunicantes entre o discurso poético e o discurso ensaístico, mas creio que ambos divergem quanto aos seus propósitos e processos. Como te disse há pouco, o poema não postula, é a multiplicação de várias alucinações. Claro que o ensaio genuíno é também inventividade, aventura e risco. É poiesis e não somente techné. Se quiseres, o ensaio é razão apaixonada e a poesia é também pensamento. São dois tipos de lucidez e de rigor. Ambos são criação. É difícil dizer mais do que isto. Porventura, haverá uma voracidade muito própria da poesia, o poema é omnívoro, alimenta-se do mais ínfimo detalhe, da mais incoativa imagem interior. Depois impõe a justeza da palavra exacta, a síntese, a condensação. O ensaio, por sua vez, será talvez mais rígido em termos formais. Mas os dois discursos coabitam em mim sem qualquer drama.

A tua obra “A iminência do Encontro” resulta de uma investigação profunda e um diálogo intenso com George Steiner, onde exploras a ideia de “leitura responsável”. De que leitura é esta que falas, de um acto ético de interpretação do mundo e da própria literatura?

Há uma imagem célebre de Kafka (que Steiner gosta muito de citar) que diz que “um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.” Esta imagem é muito feliz justamente porque espelha a intensidade ontológica que deve presidir ao acto de leitura. Há ali um tom de urgência. A reivindicação de algo absolutamente inadiável. A vivência autêntica de que falava Proust. A ideia de que todo o leitor é leitor de si mesmo. A leitura responsável que anima Steiner é a apologia da compreensão enquanto acto moral. O conceito está plasmado na sua obra Presenças Reais e o termo que ele utiliza é answerability, que encerra a tripla vertente de “responder por”, “responder a” e “responder perante”. Claro que a poética do sentido, perfilhada por Steiner, encerra um conjunto complexo de temáticas que nascem do diálogo que ele estabelece com outros autores. Heidegger, Derrida, Bloch, Celan, Broch e tantos outros… Nem sempre esse diálogo está isento de polémica e de perplexidades. Mas é por isso mesmo que o seu pensamento é tão fascinante.


Tens uma obra vasta e intensa, sobretudo quando pensamos na tua juventude. Há todo um lado programático na tua obra que é visível, sobretudo na poesia. Não te vou perguntar se escreves muito porque isso já o sei (risos), mas se, quando escreves, tens sempre presente uma linha estrutural ou se esse aspecto programático é inconsciente e te limitas a segui-lo…


Tens razão. A ideia da estrutura e da arquitectura do livro é muito importante para mim. Tenho tentado, não sei se com sucesso, que cada volume se assuma como um objecto autónomo e não se resuma a uma mera recolha de poemas, mais ou menos arbitrária. O José Ángel Cilleruelo assinala isso mesmo num magnífico texto sobre o meu livro A Rosa de Paracelso, intitulado “A Exacta Densidade da Escuridão.” O que não quer dizer que os contornos da estrutura estejam perfeitamente determinados à partida. Os próprios poemas encarregam-se de ditar o ritmo. Há poemas que se atraem mutuamente e isso tem implicações ao nível da composição. Há avanços e recuos. É um processo contínuo. Encaro um livro como a hipótese privilegiada para explorar determinados cenários, certos estilhaços de sentido. Cada volume deve acolher a diversidade de registos e promover a plasticidade de diferentes linguagens e de diferentes vozes. Essa ideia de uma polifonia dramática, de uma encenação textual, é determinante. Mas um livro deve também ter uma identidade própria. É como se cada volume fosse palco experimental para a articulação de certas imagens, cenas ou cintilações. Claro que se os poemas individualmente soçobrarem, o enquadramento estrutural esboroa-se e não conseguirá sustentar as parcelas que conferem densidade ao conjunto. O poema individual deve valer por si mesmo, deve poder ser lido à margem do horizonte mais amplo que o enquadra; mas, se lido à luz dos alicerces que lhe conferem consistência e unidade, ele sairá decerto enriquecido pela teia de reenvios e de ecos que, entretanto, se gerará. Repara que, quando falo da ideia de livro, não me estou a reportar à concepção onto-teológica do livro (de que fala Derrida) que caracteriza muito do que hoje passa por literatura; refiro-me, isso sim, àqueles livros que revelam uma complexidade desarmante e que, assim, procuram minar o princípio da identidade. São esses os livros que me interessam.
A nossa sociedade, de ideologias moribundas e refém de uma visão digestiva da literatura, em que os escritores mais lidos são pivots das televisões, precisa de poetas e de poesia ou isso é um luxo?
Essa é uma questão imensa a que eu, decerto, não conseguirei responder convenientemente. Sabemos da gloriosa inutilidade da poesia. É porque se situa à margem da lógica do calculável e do quantificável que a poesia se torna indispensável a quem deseja criar para si mesmo um espaço de silêncio e de instrospecção. É um espaço de desaceleração, de uma lentidão essencial que resiste à cultura reinante do ruído e do espectáculo. É portadora de uma incondicionalidade irredutível, reivindica para si uma singularidade absoluta e, portanto, parece-me que nunca terá muitos leitores, embora, idealmente, fosse desejável que chegasse ao maior número de pessoas possível. Justamente porque ela luta contra a massificação, contra a padronização, contra as bestas céleres (O’Neill). Estará sempre em dissonância com o servilismo mercantilista que caracteriza boa parte das nossas sociedades tardo-capitalistas. Em todo o caso, ela persistirá, ela resistirá, exercendo o seu papel de permanente vigilância sobre a linguagem, uma linguagem que se faz inquietude e assombro. É esse o seu papel intempestivo, creio. Embora ela também seja interpelação do agora. Respondendo concretamente à tua pergunta, diria que a poesia é um luxo profundamente necessário. Porque opera uma essencial problematização da linguagem, porque cultiva a incandescência da pergunta, porque, enfim, nos torna mais inteiros e humanos, mesmo quando nos fala de uma beleza convulsa e atormentada.


A minha pergunta é um teste à tua paciência: achas que os teus poemas são atormentados ou é a própria poesia que não pode deixar de sê-lo? Falo da “ferida” e lembro-me do livro de Ramos Rosa, como esse belíssimo título “A intacta ferida”. Há um poema em que ele diz: “Não tenho lágrimas/estou mais baixo/junto à cal”. Há nisto uma melancolia, enigmática certamente, que nos deixa de lábios colados ao silêncio. É este o limbo que cabe ao poeta?


Essa última imagem que utilizas é magnífica! De facto, escrevemos sempre às escuras. Não sabemos muito bem porquê. Cioran, intransigente e clarividente como só ele soube ser, disse uma vez que escrever literalmente salvou-o. Sabemos como essa ideia da escrita como salvação caiu em descrédito, e talvez com razão. Por ser demasiado solene e grandiloquente. Mas Cioran, o mais corrosivo de todos os pensadores, não hesitou em afirmá-lo. O reconhecimento de que, se não fosse a escrita, teria provavelmente cometido suicídio. Por muito sombria que fosse a sua visão da existência, o facto de poder verbalizá-la através da escrita tornava mais tolerável essa ausência de sentido. Não trazia propriamente redenção. Mas é a ideia de que formular o desastre e o absurdo de algum modo mitiga e confere algum tipo de sentido a esse desastre, ao naufrágio da nossa condição. Há como que um júbilo na nobreza de reconhecer a incomensurabilidade das nossas vidas, a visceral estranheza das coisas. A poesia, tal como eu a entendo, debate-se com todas estas questões. Demora-se nelas: detém-se nas feridas, nas fendas, nas fissuras. Namora com o absoluto de que nos sentimos desamparados, seres cindidos que somos. E daí essa melancolia sem cura, oblíqua e perene, “que nos deixa de lábios colados ao silêncio.”


Como é que olhas para a poesia contemporânea? Como dialogas com ela? Ou não pensas nisso e segues o teu instinto, a tua voz?


Olho com grande entusiasmo! Basta olhar para os jovens poetas que têm despontado no último decénio: sobretudo para a diversidade das suas propostas estéticas. Sigo com muitíssimo interesse praticamente tudo o que se vai publicando. Há coisas realmente muito boas! Totalmente díspares, mas a maior parte delas muito estimulantes. Há um diálogo muito frutuoso entre os poetas da minha geração, embora também se verifique, por vezes, um acantonamento em capelas literárias mais ou menos dogmáticas. Talvez isso seja inevitável. É pena a dificuldade de publicação, especialmente por parte das editoras de referência. Algumas delas demitiram-se, pura e simplesmente, de publicar jovens autores. Na poesia, isso é particularmente nefasto. Mas as pequenas editoras têm feito um trabalho absolutamente extraordinário. Sem esse trabalho subterrâneo, algumas das mais surpreendentes revelações dos últimos anos teriam sido adiadas. Creio que todos nós, enquanto leitores, lhes devemos estar gratos: pela sua obstinação e pela sua generosidade.

Maria João Cantinho
Autora, ensaísta e poeta. Crítica literária e professora.

terça-feira, agosto 16, 2016

Los dáimones tatuados de Ricardo Gil Soeiro. Leitura do filósofo Armando Pego da Universitat Ramon Llull

Los dáimones tatuados de Ricardo Gil Soeiro.




Angelus Novus,
Paul Klee (1920)

Hace un par de años reseñaba en este espacio los dos primeros volúmenes poéticos de la Tetralogía palimpséstica que mi desconocido amigo Ricardo Gil Soeiro había publicado entre 2012 y 2013 con los títulos de Da vida das Marionetas y Bartlebys reunidos. Como una amistad literaria, por definición, está tejida de la materia del olvido, la ausencia de sus noticias me aseguraba que un proyecto poético tan ambicioso no sólo se culminaría, sino que habría de volver a encontrarlo ya terminado. A fin de cuentas, una lección de la poesía moderna consiste en que no hay más lector que el que llega, hipócrita y semejante, demasiado tarde. Me encuentro así por fin con otro volumen que recoge la tetralogía al completo, con los dos libros que faltaban entonces, Comércio com Fantasmas (2014) y Anjos Necessários (2015), bajo el título general de Palimpsesto (Oporto, 2016).

Gil Soeiro deja claro desde el prólogo, bajo la significativa rúbrica de Tesis para una Poética Palimpséstica, que su planteamiento bebe, formal y materialmente, de la melancolía de Walter Benjamin sobre las ruinas de un origen que, en un sentido muy amplio, el pensamiento postestructuralista -más derrideano que foucaultiano en este caso- ha dejado desmantelado.

La poética de Soeiro no es escéptica ni desesperada. Más bien, ensaya bucles rítmicos y estructuras férreamente rizomáticas -como los 120 poemas del conjunto, divididos en treinta por cada libro- entre los dos pronombres personales que me atrevería calificar en su caso de im-propios: yo y tú. La base de su diálogo radial es, pues, hermenéutica. En él resuenan ecos celanianos, más próximos a P. Szondi que a H. G. Gadamer. ¿Qué queda tras la inscripción en el discurso de una voz que, al enunciar, traza su ausencia?: “Toda palabra es ya un inicio tardío. Escribir es desmantelar la quimera del origen, desenmascarar la fábula de lo inaugural”.

Me propongo, pues, adentrarme brevemente en esta dialéctica de imposible potencia por un sendero secundario que remite, paradójicamente, a otro origen que no es el de la (post)modernidad con el que continuamente sus poemas dialogan en un tenso contrapunto: de F. Pessoa a T. S. Eliot, entre P. Klee y M. Chagall. Me refiero al mundo clásico que, expropiado, regresa fantasmal para exigir el rescate -la venganza desposeída- de su olvido.

El poeta, como un Odiseo órfico, se aventura tras la máscara del decir donde a la fábula de un deseo ausente se opone una resistencia que abre una reescritura que, en ruinas aunque no inacabada, no se da por vencida. Soeiro define con exactitud este movimiento: “El sentido no tiene fin. Porque en el comienzo está la ruina, el sentido está siempre por venir”. A lo lejos oigo la respiración de M. Blanchot como un Bóreas victoriosamente derrotado: “La esencia de la literatura es escapar a toda determinación esencial, a toda afirmación que la estabiliza o incluso la realiza; no está jamás ya allá, está siempre por reencontrar o por reinventar”.

La lectura de Comércio com Fantasmas me ha dejado un sabor a palimpsesto de literatura latina. La lección de Ovidio, que ya señalaba en mi reseña a Bartlebys reunidos, se me hace más perentoria en estos poemas que intentan tejer, como indica el subtítulo, una epistolografía espectral. No me refiero tanto a las Heroidas como a ese libro extrañamente ausente, que no desaparecido, de los gustos actuales como es Tristia, que es un epistolario de destinatario incierto, en domicilio fugaz. En él el amor y el exilio conjugan una cópula que se consuma interrumpida.

El género de la carta abre un espacio, que más allá de su temática sobre el amor y la amistad, ensaya la capacidad de la palabra poética por saltar sobre el discurso de la identidad del emisor y su destinatario, que es como el mar que separa el inhóspito Ponto de la perdida Roma. Radicalizada, cada carta es el esbozo de unos rostros que se disuelven en la gramática de las caricias evaporadas por la mano que tinta – que mancha- el mapa de sus sentidos por venir.

Incipit

De fantasma para fantasma,
escribo para decirte que hay
palabras mudas que nos desnudan.
Secretos que permanecerán entre nosotros.
Entretanto, quizás la vaga certeza de
que no existimos llegue a compensar
el miedo de cambiarnos en desiertos de luz.
Quedaremos en espera uno del otro:
murmurando confidencias y mintiendo
absoluciones como quien ofrece al viento
la eternidad de incontables cartas vacías.
Cartas como besos escritos que jamás
llegarán al abrigo de su puerto.
Me quedo aquí, en este pedazo de papel,
aguardando, como si fueses camino.

(Ricardo Gil Soeiro, Comércio com Fantasmas)


Desde este punto de partida, el lector, amante espectral, acaba sobrescribiendo su nombre sobre la interrogación que el poema cierra a tientas, entre los paréntesis que se desbordan incluso en una escritura poemática. A diferencia de F. Pessoa, no es sólo el poeta sino el lector quien finge en su silencio el silencio que, dolorido, no guarda aquel: “Bien vistas las cosas, es muy parecida a la poesía el arte epistolar: la pasión por el vacío, la propensión a las palabras que encienden soledades, la puesta en escena de una siempre inacabada conversación entre fantasmas”.

La naturaleza de estos fantasmas es, en último término, angélica. El ángel de Gil Soeiro tutela el comercio espectral de unas marionetas que se abstienen de ser y que, por ello mismo, inscriben de nuevo las letras de posibles sentidos sobre aquello -el poema- que, inanimado, queda como huella de una epístola errante. Repito que su ángel no es rilkeano sino que conjura, melancólico, el apocalipsis inmanente de Benjamin.

Es constante, en su imaginería y hasta en el moldeado de sus reflexiones en prosa, la remisión a las Tesis sobre la historia, entre las que sobresale, además del famoso comentario dedicado al ángelus novus de Klee, su comienzo con la figura de un autómata movido escondidamente por un enano jorobado que era maestro en ajedrez. Si el mesianismo de Benjamin alegorizaba la teología proscrita del materialismo histórico, Gil Soeiro interroga entre los restos del siglo XX las posibilidades apenas afloradas del “tiempo del ahora”.

En la figura del ángel, como el eclipse de la imaginación solar de Occidente, puede acaso, finalmente, explicarse la ausencia de las trazas daimónicas de Grecia: “Simplemente amo todo lo que / jamás me podrá pertenecer. / Digo amor porque no conozco / otra palabra para belleza”. A la belleza terrible que intuyen estos poemas, que bucean en E. A. Poe y Wallace Steven o en Heiner Müller o Wim Wenders, de alguna manera estremecedora podrían aplicarse, como un epitafio, las palabras con que Allan Bloom define la vida filosófica de Sócrates: “puede contener todas las formas de vida, pero en un sentido que es totalmente ajeno a quienes la llevan. Es justicia sin la ciudad, piedad sin dioses, Eros sin cópula ni reciprocidad”.

La Chute de l’Ange, 1941: Marc Chagall

Caemos una y otra vez.
Somos la propia caída en estado puro.
Y si acaso llegamos a volar muy alto,
luego regresamos al caos del mundo,
donde escenificamos, sin ingenio, el infeliz
destino de un Ícaro demasiado soñador.
Guardamos dentro de las venas el vago
recuerdo de un paraíso perdido.
Nos persigue la desnudez de la nostalgia,
la oscuridad de una insoportable tristeza.
Caemos siempre.
Una y otra vez.

(Ricardo Gil Soeiro, Anjos necessários)



Sin orígenes, la conjetura de la caída es abismal.

domingo, julho 24, 2016

Intervenção de António Luís Catarino em «Cidades Materiais», de António Alves Martins, a 15 de Julho. Teatro da Cerca. Coimbra

Nos catorze anos que já leva a Deriva e após inúmeras apresentações públicas (talvez de mais), esta é, sem dúvida, a que mais dificuldade tive em fazê-la. Liga-me uma amizade de dezenas de anos ao Tó Martins e projectos em comum, ideias partilhadas, outras nem por isso, grandes hiatos e ausências, pedidos de informações sobre a vida um do outro, a existência de grandes amigos presentes aqui e uma que não posso deixar de referir, o Francisco Pedroso Lima, infelizmente impedido de estar aqui presente, hoje, por motivos particulares.
Cidades Materiais impressionou-me. Nas suas várias releituras emergiam situações, diálogos, descrições a que não me pude furtar, parecendo-as viver, ou tê-las vivido de uma outra maneira e atacando-me sobremaneira nomes, vivências e fisionomias, sendo isto um direito de leitor, e nomes com os quais me identifiquei tais como William Morris pela natureza e pela ligação ao Homem, Stevenson e Lafargue pela presença límpida do ócio, Thoreau pela contemplação activa, Corto Maltese pela ambivalência de um espírito livre, Burroughs e a sua procura incessante do humano e do amor.
Para mim, esta dificuldade reside no tema incontornável que levou à edição deste livro. Cidades Materiais poderiam ter sido ao mesmo tempo imateriais, tais como as personagens que as habitam, ou talvez não, e por conhecer o autor num tempo já longínquo. Veremos. Resta-me, e não é pouco, acreditem, falar no autor e na realidade que nos cercou durante anos. Só me resta isto, recusando qualquer veleidade crítica ao livro. Se o farei aqui e ali é somente para sublinhar uma experiência vivida em comum, com outros companheiros. Aqui vai um conjunto de impressões que partilho convosco:
Primeira impressão –Antero. Em meados dos anos 80, tínhamos todos 20 e tal anos. Miúdos da Faculdade de Letras que dizíamos abominar, sob a fórmula de palavrosas parábolas coimbrãs: «faça-se luz, incendeie-se a universidade!». Não desgostávamos assim tanto da faculdade, mas a verdade é que nos foi ensinado muito mais nos cafés adjacentes à Praça da República onde o prazer de falar, de conhecer e de debater era superior a tudo. Com algumas substâncias e segmentos aditivos que o facto de já terem prescrito, e apesar de uma louvável loucura que contrastava por vezes com imprevisíveis depressões, não me fazem aqui desenvolver e muito menos pormenorizar, por irrelevante. O agir concreto apareceu com o convite para fazer parte de um colectivo editorial da Centelha, e mais tarde Fora do Texto, então e segundo palavras de Soveral Martins, estando em plena crise de criatividade. Contactei o Tó e durante alguns anos a coisa rolou editando alguns livros a que já se referiu na sua descrição biobibliográfica.
Segunda impressão – o espírito da revolta. In girum imus nocte et consumimur igni, o último filme de Debord realizado em 1978 e editado finalmente em 1981, com peripécias várias que, mais tarde, inclusive, levaram ao assassinato do editor da Champ Libre, Gerard Levobici (e não foi o único), constrói a ideia do consumo e da alienação como alfa e ómega do capitalismo em fase de mutação para a pós-modernidade. Esta frase latina atribuída a Virgílio é a descrição real do que nos levou à deriva nocturna e à necessidade imperiosa de lutar contra a alienação do público que nos olhava de soslaio. Consumimos a noite e pegávamos-lhe fogo mesmo com acendalhas já usadas por outros. Creio não me enganar que entre blusões negros e echarpes negras ou canadianas verdes militares, construímos à nossa maneira um fogo permanente que nos devorou igualmente na ânsia da revolta e na dramatização do sem sentido de uma vida quotidiana que negávamos. Recusávamos o tédio. Recusávamos a mercadoria, recusávamos qualquer valor de troca. Preferíamos a poesia e o pensamento como as únicas vertentes que não se podem domar. E o amor. Esse, sempre presente no fogo quotidiano em que geríamos a noite em chamas. As chamas, essas, devoraram-nos? É possível, mas nas regras do Potlacht primitivo, este com coincidências inquietantes com o cristianismo também ele primitivo, quem perde ganha, quem ganha, perde. A noite consumiu-nos, sim, mas com a voragem da revolta romântica.
Terceira impressão – «Numa sociedade invertida, o verdadeiro é o momento do falso». Isto foi dito em 1967 e corresponde a uma realidade já indesmentível e com contornos que o seu autor, Debord, provavelmente, não imaginaria na enorme dimensão espectacular que nos rodeia hoje. Assim, se nenhum movimento reivindicativo da arte revolucionária foi superado desde 1916 com Dada, esta tornou-se uma mera mercadoria, que vale o que vale consoante o valor das trocas. Assim, o livro do Tó adquire a faceta da verdade, num mundo realmente invertido. Porque utiliza as palavras certas nos lugares mais recônditos e os que estão mesmo juntos a nós, no prazer da viagem e da aventura e na própria visão do amor, a única realidade impossível de subverter. Talvez por isso, quase de certeza por isso, na Centelha, ainda antes de haver a internet e as redes sociais foi formada uma verdadeira rede (net) em forma de papel com todos os movimentos alternativos europeus dignos desse nome, da América e Canadá, passando por Seul e Tóquio onde então a luta antinuclear e libertária começava a fervilhar. Era a Ekomedia a que demos corpo, denunciando, partilhando experiências e informação de revolta internacionalistas e cujo símbolo era um gato preto assanhado. Nessa ocasião, editámos Os Novos Espaços de Liberdade na Europa, de Félix Guattari e de Toni Negri, preso na Itália e que hoje toma o seu rumo de vedeta antiglobalização com o nome de Antonio Negri que juntamente com Michael Hardt editou o best seller Império. O Tó Martins, enveredou por Ramos Rosa, com As Mãos de Água e as Mãos de Fogo, com os Pés Luminosos de Jorge de Sousa Braga, de Gil de Carvalho, Constantin Kavafy e Philip Larkin. O lado lunar e o lado solar da Centelha e da Fora do Texto. Adivinhem agora quem foi quem.
Quarta impressão – A Deriva
Nos anos 80, vivia-se por toda a Europa a ressaca dos anos de chumbo criados por Andreas Baader e Ulrike Meinhof que proclamava em livro «vocês falam do tempo, nós não!» e pelas Brigadas Vermelhas de Renato Curccio na Itália, estas últimas teleguiadas, como se soube, pela polícia secreta. Tudo isto gerou uma impossibilidade poética, uma forma de ver a política e de destinar uma vida quotidiana não marcada pelo tédio e pelo aborrecimento, ou, se quiserem, pelas cadeias infernais do trabalho. Mas como promover isto mesmo numa sociedade alienada pelo medo, pela vingança dos anos pós-prec e pelo espartilho terrorista no Portugal mesquinho dos anos 80 e da recuperação yuppie? Foi a altura também dos anos criadores e libertadores do rock com o aparecimento de Johnny Rotten, dos Clash, de um Lou Reed já sem os Velvet Underground, do Bowie tornado pop, de Ian Curtis dos Joy Division e depois com os New Order, de Iggy Pop, de trautearmos Jim Morrison pelas ruas desertas de Coimbra e aclamando o Jazz, recuperando para nós o be-bop e o free como forma de dizermos: «Falem do tempo, falem do tempo, nada temos a ver com vocês!» Aderimos à arte contemporânea e às possibilidades do vídeo, do teatro e da performance sendo que estas foram, exceptuando alguns, poucos, casos, rapidamente recuperados. Identificávamo-nos pela música e pela deriva. A deriva consubstanciada todos os dias numa cidade que cada vez mais se tornava um labirinto de cimento corbusiano. A deriva que aqui se fala é a de Thomas de Quincey que, nas suas «Confissões de um Opiómano Inglês», tradução forçada, diga-se, afirmava haver uma rede subterrânea, marginal, na cidade de Londres, não cartografada pela polícia e pelas instituições políticas. Era terreno livre. Os dadaístas, os letristas e os surrealistas e muito mais tarde os situacionistas praticaram-na na forma de desconstrução da palavra e da deambulação livre em corredores libertários. Na construção de situações irreversíveis. Mas sem se superarem. Precisamente: o verdadeiro aqui, não superou o falso. Assim, toda a deriva que realizámos, muitas vezes sem sentido, nas ruas e becos nocturnos, só teve consequências na construção de mercadorias irrevogáveis: os livros e as ideias que eles trazem. O teor do que são feitos. A forma. A cadência e a recusa da «inovação». Até porque, sabemo-lo, quando o patrão exige inovação, o escravo honesto é o primeiro a proclamá-la. Por isso também, Tó, o teu livro tem um valor imenso. Por isso a nossa deriva teve consequências até no envelhecimento de cada um. Mas, pelo menos, fomos coerentes.
Quinta impressão – a sociedade do cansaço ou o tardomodernismo
No ano passado, editámos, no Porto, um livro apresentado por Rosa Maria Martelo e a autora de Calma é apenas um pouco tarde - A Resistência na Poesia portuguesa contemporânea, de Maria Leonor C. Figueiredo. Falavam no leitmotiv da poesia e da literatura tardomoderna, isto é, pós-pós-modernista e, recusando todo o aspecto político e partidário da resistência «poética e literária» que pouco, ou mesmo nada, terá a ver com isso; baseavam-se num autor até aí desconhecido para mim. Era Byung-Chul Han que publicou A Sociedade do cansaço. Era, segundo essas autoras um dos principais campos de intervenção da poesia e literatura actuais. Vale a pena citá-lo um pouco porque o ritmo ritualizado do livro do Tó (e também o meu, o nosso, cansaço, ou o actual e colectivo burnout) vai nesse preciso sentido. Diz Han: «a sociedade disciplinar, tal como Foucault a concebe, formada por hospitais, manicómios, prisões, quartéis e fábricas, [e como contra elas nos batemos nos anos 80, digo eu!] já não corresponde à sociedade dos nossos dias. Há muito tempo que ela foi substituída por uma sociedade completamente distinta de ginásios, torres de escritórios, bancos, aeroportos, centros comerciais e laboratórios genéticos. A sociedade do século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas, sim, uma sociedade de produção. (…) A sociedade disciplinar é uma sociedade de negatividade. Ela é determinada pela negatividade da proibição. O verbo negativo que a domina é o “não poder”. Ou seja, até a palavra de ordem “é proibido proibir” foi absorvida pelo sistema (…) A vida cultural da humanidade, na qual se inclui também a actividade filosófica, só é possível e só se desenvolve quando existe uma atenção profunda e contemplativa. A atenção profunda tem vindo a ser cada vez mais suplantada por um tipo de atenção completamente diferente – a hiperatenção, dispersa e distraída caracterizada pela mudança brusca do foco da questão, pela alternância constante das tarefas, fontes de informação e processos. A tolerância ao tédio é bastante limitada e acaba por não deixar muito espaço livre àquele tédio profundo propiciador do processo criativo. É precisamente este tédio profundo [um outro tipo de tédio que abominávamos nos anos 70 e 80 na esteira política dos anos sessenta, mas que hoje tem este sentido que lhe dá Han] que Walter Benjamin descreve “a ave do sonho que choca o ovo da experiência”». Por isso o animal laborans da sociedade tardomoderna é hiperactivo e hiperneurótico, nervoso, odeia o silêncio e vem em sentido completamente contrário às personagens que dão vida ao livro do Tó Martins que segundo a minha opinião reivindicam a vida humana total. Talvez Nietzche, um filósofo a que demos sempre muita atenção nas nossas derivas filosóficas dos anos 80, tenha resumido tudo isto neste aforismo: «Ao homem activo falta, regra geral, a actividade superior, o que faz dele, sob este ponto de vista, um homem preguiçoso. Tal como a pedra, o homem activo rebola ao sabor da estupidez da mecânica». Para que não haja dúvidas, escreveu-o ele no Humano, Demasiado Humano.
Esta foi sem dúvida a grande aventura do pensamento que um grupo de jovens dos anos 80 e inícios dos anos 90 e dos quais quase nenhum, hoje, se encontra radicado em Coimbra, realizou. Tentámos o impossível. Lutar contra a opacidade que então já se elevava na sociedade circundante e que varreu o mundo, tal como é definida, hoje por Steiner, pelo facto de hoje sermos incapazes de saber, ou querer saber, o que o outro ser humano está a pensar. Não prestamos atenção suficiente ao outro. Ora, o Tó Martins, teve a coragem de fazer-se ouvir, pensando Outro, onde as tonalidades da mentira são inúmeras, na tal sociedade invertida, onde o verdadeiro é somente o momento do falso.

Sexta e última impressão – Volliamo Tutti, foi o grito de guerra dos operários e estudantes de Bolonha que queriam simplesmente tudo, tal como os comunnards franceses de 1871, ou os estudantes de 68 e os mais radicais de 69 em Coimbra, cidade que, vejam, foi referida, num posfácio, por Vaneigem no seu livro icónico A Arte de Viver da Geração Nova. Nunca foi compreendido em toda a sua extensão esta reivindicação tão simples. Foi-o por nós. Disse ele: «Aqueles que falam de revolução e de luta de classes sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa de coacções, esses têm na boca um cadáver»; mesmo dentro da experiência editorial que partilhámos os dois, juntamente com outros companheiros, isto nunca foi compreendido nos anos 80 e nos que se seguiram. Tratava-se de ligar um movimento alternativo e libertário à arte e à cultura ou que existe ainda dela. Entre o niilismo terrorista dos anos de chumbo por que passámos nos anos 80, não houve espaço para demonstrar a equivalência e a necessidade das duas reivindicações. Não há verdadeira política sem arte, não há arte sem polis ou na poesis. Fomos, então, à nossa vida. Nenhum de nós ficou cá. Acompanhados pelos anjos da impotência de Klee, o seu Angelus Novus, ou dos de Walter Benjamim, ou os anjos do desespero de Heiner Muller, talvez ainda com os de Wim Wenders, que hesitam entre a queda e o voo. Porque já não acreditam nas suas próprias asas ou vivem aterrorizados, perante o mal de Arendt, construído por funcionários subalternos ou pelos burocratas de Kafka. A guerra, essa, instalou-se no nosso campo. O livro do Tó é o verdadeiro que se arremete contra o falso. Tem asas. Oxalá voe. «Restam, portanto, os irrecuperáveis, aqueles que recusam os personagens, aqueles que elaboram a teoria e a prática dessa recusa». É nessa inadaptação à sociedade do espectáculo, ou tardomoderna, que virá a poesia do vivido, uma reinvenção da vida. O que foi realizado em Cidades Materiais ou nos que o Tó ajudou a editar pela sua vida fora e em diferentes situações. Aqui, e com ele, cantam os «anjos da pureza» de Mallarmé. É assim que eu o vejo. Ao teu livro, Tó. Ele voa. E como dizes, em completa consonância, julgo eu, do que aqui disse e que partilharei convosco:
«Quero acreditar que no choque dos contrários, nessa violência que habita a ambivalência, é possível um movimento de descanso do olhar, de tranquilo desejo, de pasmo e de alucinação sublime, de descoberta, de risco. Talvez assim a vida sobreviva, talvez…»


António Luís Catarino, Porto/Coimbra, Julho de 2016