quarta-feira, fevereiro 26, 2020

«O Futuro é para Sempre - experiência, expectativa e práticas possíveis», de Paula Godinho

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Editado em 2017, pela Letra Livre (cada vez melhor) e pela Associação Galega da Língua de Santiago de Compostela, Através, Paula Godinho consolida-se como uma antropóloga de referência em Portugal e provavelmente para lá da nossa raia ou da linha ténue que nos separa da Europa. Não percam este livro.

O livro é formado por uma Introdução, Lides de Rotina (sobre as trabalhadoras têxteis de Verim, na Galiza), Na Penumbra do Poder (sobre o raiano e comunal Couto Misto ou Mixto, como queiram), Ecos Teimosos (sobre o processo de Reforma Agrária no Couço)  e um Tout Ça N'Empêche Pas, Nicolas (este capítulo mais explicativo e da metodologia da Antropologia)

Li-o com crescente interesse, sublinhando aqui e ali partes que me pareceram importantes de referir já que, por coincidência conheço todos os locais que Paula Godinho nomeia. A saber, Verim na Galiza quando editava autores galegos na Deriva e passeava por lá com frequência, o Couço onde me desloquei duas vezes em plena Revolução (PREC com muito orgulho) e o Couto Misto pela mesma razão de Verim. Não sei se é da idade ou não, mas as coisas dão agora para me emocionar. O «Futuro é para Sempre» tem esse condão de me «pregar» na leitura e ver-me a mim com 17 anos no Movimento Alfa, lá referido aliás, em Toulões concelho de Idanha-a-Nova (cujas ocupações são enumeradas em Castelo Branco) e participar na ocupação das terras dos Almeida Garrett e dos Marrocos! Ocupou-se igualmente a casa soberba da herdade e morada dos proprietários absentistas. Vi crescer a creche no 1º andar dessa casa e conseguimos dar aulas de alfabetização na sala de jantar ao lado com candeeiros a petróleo. Também vi, infelizmente, o que a Paula Godinho conta no capítulo sobre as derrotas da RA no que respeita à iminente entrega da UCP aos antigos patrões, com a anuência em contra-corrente do técnico do IRA e algum mal-estar interno com os salários dos operários agrícolas. «Porque o contabilista e o tratorista teriam de ganhar o mesmo, se não trabalhavam na terra?». Coisas assim. Com uma grande diferença. A autora esteve anos estudando e recolhendo provas escritas e orais no terreno acompanhando todos os momentos intensos e significativos de culturas próprias urbanas e rurais sem a irritante imparcialidade de alguns. Paula Godinho põe-se ao lado dos subalternos explorados em várias redes e intensidade pelas classes dominantes e pelo poder.

Logo na Introdução, Paula Godinho diz ao que vem citando Agier: «Vivemos um longo momento de incerteza, com as vidas a tornarem-se precárias por mais tempo e com os seres humanos a habituarem-se a materialidades provisórias, a mobilidades sem ancoramento e sem direção, com 'inovações' constantemente exigidas, nas quais o passado e o futuro são ignorados». Quanto á exigência de inovação lembro-me de memória de uma frase de Debord e o quanto vale esse objetivo, «Quando o patrão exige inovação, o escravo honesto proclama de imediato a sua própria modernidade!». A partir daqui o leitor não deve voltar atrás. Mais a mais com outra citação que Paula Godinho vai buscar a David Harvey «O capitalismo nunca cairá por si. Terá de ser empurrado. A acumulação de capital nunca parará. Terá de ser travada. A classe capitalista nunca abdicará do seu poder. Teremos de lho retirar». Aqui o leitor não pode colocar o livro de lado. Se o fizer vá então ler o Henrique Raposo e o Neves. Ainda é nesta introdução que a autora nos dá uma visão mais clara da metodologia que utiliza quer em trabalho de campo, quer na explanação teórica, com profusão de nomes e referência bibliográficas que nos obrigam a nós, leitores desprevenidos, a pesquisar sobre a obra ou obras deste ou daquele autor citado.

Em Verim explora-se o sobretrabalho, mal pago e sem direitos das costureiras. A lógica do patronato é a deslocalização, falências fraudulentas e salários baixos. Os patrões, posso eu dizê-lo, embora no livro esteja ausente a referência a Zara e outras/os modistas de renome mundial. Voltou-se à exploração do século XIX e com o medo à mistura. Nenhuma costureira quis dar o seu nome nas entrevistas dadas, mas apontando irregularidades várias e violências no que se refere ao trabalho repetitivo e de pura exaustão física quer na oficina, quer em casa (aqui ainda é pior, porque se rompem laços familiares e trabalha-se quase as 24 horas do dia). Caso exemplar testemunhado por vários autores que conheci, e referido por Paula Godinho, é o facto de na Galiza não ter existido a guerra civil de 36/39 mas antes os paseos onde se fuzilavam os suspeitos pela calada da noite. Assim, o poder reivindicativo foi sempre fraco o que levou, durante o franquismo ao abuso das classes dominantes espanholas. Hoje isso aumentou e a autora lembra a deslocalização para o Nepal e os desastres mortíferos de Dacca, sem que nenhuma empresa têxtil multinacional se tenha responsabilizados pelas centenas de vítimas. É a deslocalização...

O Couto Misto já é mítico.. A resistência silenciosa quase aquiescente da população das três aldeias veio dos confins do feudalismo. O comunalismo era praticado às claras, não tinham juízes de fora, não cumpriam serviço militar, eram contrabandistas e era uma zona de refúgio ou zomia (James C. Scott) para os perseguidos pelo poder. Gente boa. Mas extremamente maltratada pelos governos do Estado Espanhol e Português. Paradoxo: os liberais que em 1864 acabaram com o Couto Misto, dividindo-o pelos dois estados, com o argumento que as linhas de fronteira teriam de ser claras, ou melhor, de traços grossos em vez de finos, e acabar com o que restava de vestígios medievais e do enclave que o ligava a Portugal por uma estrada privilegiada. O liberalismo vinha aí com o sempiterno «progresso». Para não me alongar: li das melhores descrições históricas, sociológicas e antropológicas no tratamento do Couto Misto. E no que se tornou hoje.

Quanto à Reforma Agrária, como ela é descrita e contada, não vale a pena alongar-me. Estamos lá. A ver as pessoas. E a ouvi-las. Como num filme.

António Luís Catarino
26 de fevereiro de 2020

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Dois livros de Herta Müller


Creio que já disse por aqui que não sigo os prémios Nobel só porque o são. Alguns são mesmo maus e evito falar deles. Não é o caso de Herta Müller que o ganhou em 2009 e de quem li dois livros. «Tudo o que tenho trago comigo» é mesmo avassalador não só pelo estilo imprimido que capta a atenção contínua do leitor e que se repete em «Hoje preferia não me ter encontrado» título mais bem escolhido que o francês «La convocation».

«Tudo o que tenho trago comigo» é uma história verdadeira mas pouco conhecida entre nós, ocidentais ganhadores de guerras e de vitórias várias e por vezes vãs contra outros povos. Adiante. Pouco conhecemos do pós-45 para a minoria alemã da Roménia (mas pressente-se o mesmo de outras minorias alemãs em países do Leste), donde é oriunda Herta Müller. Lê-se na página 14 a ironia fina da sua condição no pensamento da personagem central da narrativa, : «A minha mãe e especialmente o meu pai acreditavam, como todos os alemães na cidade de província, na beleza das tranças louras e das meias brancas até ao joelho. No quadrado negro do bigode de Hitler e em nós, saxónios da Transilvânia, que éramos membros da ariana raça. O meu segredo era já, sob o mero ponto de vista físico, a maior monstruosidade. E, sendo romeno, acrescenta-lhe ainda crime contra a raça». Oskar Pastior será um jovem membro de uma família alemã que terá de reconstruir a URSS devastada pela guerra. Aliás, todas as famílias das minorias alemãs terão de entregar um membro (geralmente o mais novo e com mais força) para essa mesma reconstrução. Foi o que aconteceu a Oskar que passa 5 dos seus anos num campo de trabalho. Da descrição desse campo no meio de nada, passa-se fome e como a fome é descrita! O «Anjo da Fome» acompanha-o sempre nesses 5 anos e nem sempre é bom e lhe dá bons conselhos. No campo vive-se o tédio dos gestos repetidos «Tenho medo que se morra de tédio quando se está morto» diz Bea Zakel, um amigo. Sobreviveu e encontrou-se com Herta Müller, 60 anos depois, onde nem a família já o quis: «Ninguém me quer cá e eu de forma alguma posso partir» ou ainda esta declaração confrangedora, «Se, nesta vida, me quisessem de novo deportar, uma coisa eu saberia: há coisas primeiras que já querem as segundas, mesmo contra o nosso querer. O que é que me compele a manter essas ligações. Porque quero eu, à noite, ter direito à minha miséria. Porque não consigo ser livre. Porque obrigo o campo de trabalho a obedecer-me. Saudades de casa. Como se eu precisasse.»

Quanto ao segundo livro aqui citado de Herta Müller «Hoje preferia não me ter encontrado» é uma descrição realista da Roménia de Ceausescu. Um livro abafado, preso, sufocado pela ideia da fuga e da convocação iminente da Securitate. Mas houve a transgressão da mulher a quem a escritora dá vida. Na fábrica de confeções onde trabalhava, em jeito de brincadeira ou talvez algo mais sério, enviava nos bolsos das calças para onde eram exportadas para Itália pequenos papéis com o seu nome e morada na esperança de um italiano a procurar e levá-la. As intimações tornaram-se regulares e é neste clima que tudo se passa. O medo, a superstição contra os medos, os temores à noite, a transpiração contínua antes de cada interrogatório. Além disso os dois casamentos falhados. O primeiro marido, operário como ela, foi o seu denunciante à polícia; o segundo, alcoólico tratava de espiar os outros. Talvez a ela própria. O romance termina rapidamente com a descida abrupta do elétrico em que viajava. Cortou com tudo, ao que parece. Mas como se pode cortar com tudo numa sociedade que ela própria cortou com os laços entre as pessoas?

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de fevereiro de 2020

Um poema de 1981 de Luís Nogueira encontrado em alfarrabista


31 de janeiro deste ano. Pelas 11:00 entro na Sá da Costa, em Lisboa, transformada agora num enorme alfarrabista. Demorei-me bastante até encontrar uma pérola de Luís Nogueira de poema feito. Dirijo-me à menina da caixa com outros livros na mão e este que não era mais que um suplemento da Fenda Edições de Coimbra, talvez o seu número 4. Ainda hoje tenho a revista, mas não este suplemento de julho de 1981. O preço pedido era absolutamente incrível. Obsceno. Disse-lhe isso mesmo, mas que o levava porque o poeta foi meu amigo. Acrescentei que não poderia ser vendido sem a respetiva revista e que estavam a truncá-la. A menina vai lá dentro ao patrão e fez-me um desconto de...75%. O que tornou impossível a minha estadia mais que uns segundos para receber o troco.
Dedicado a Isabel Maria, fica aqui parte de «5 poemas & 1 envio (1975-1979)» em memória do Luís:

Devia trabalhar em silêncio, des-
palavrar máscara após máscara
até ao rosto febril
este remorso que se fez comigo
e povoa de espingardas voadoras
os degraus tépidos do sono;

chegar aos olhos
e vestido para tudo: dias tranquilos,
fúrias atlânticas, primaveras macias, indecisas.

Devia trabalhar o tempo todo
sentado à mesa da noite
e com a garantia das lágrimas;

deixar que os rios,
a premeditada inconstância das chuvas
e algum mar
alisassem por sua conta o trilho
por onde a memória trilha
tantos dias perdulários.

Ou então esquecer:
para as urnas douradas, o quinhão da insónia
como herança:
os limites prosperados da lembrança...

(...)

Luís Nogueira
julho de 1981

segunda-feira, janeiro 27, 2020

«Uma Solidão Demasiado Ruidosa», de Bohumil Hrabal

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Editada em Portugal pela Antígona em setembro de 2019 e traduzida diretamente do checo por Ludmila Dismanová, a obra «Uma Solidão Demasiado Ruidosa» (1976), de Bohumil Hrabal foi censurada e publicada em samizdat na antiga Checoslováquia. Nascido a 1914, viveu a ocupação nazi e viu erguer-se um país socialista pertencente ao bloco de Leste. Em 1965, editou «Comboios Rigorosamente Vigiados», em 1965, «Eu que servi o Rei de Inglaterra» peça teatral que tive a sorte de ver no Teatro do Campo Alegre no Porto e «Terno Bárbaro» (1973). Morre em 1997,num hospício onde caiu, diz-se, de uma janela ao dar de comida aos pombos. Foi um homem dos sete ofícios, desde funcionário dos caminhos de ferro até prensador de livros. Foi este último ofício que o fez escrever este livro.

Gostava, antes de vos descrever sucintamente a obra e tendo o cuidado de não revelar tudo, que estivesse na cabeça do censor que proibiu este livro. Infelizmente, Portugal teve essa experiência notável de ver coronéis na reforma a censurar obras sem entenderem nada do que liam. Muitos autores portugueses sabem pelo que passaram, não sem que alguns casos fosse motivo de riso, tal como um livreiro que me contou que uma brigada da PIDE acompanhada por um desses coronéis, levou apreendidas «A Capital» de Eça de Queirós e um manual das antigas escolas técnicas e industriais para a construção civil titulado de «Novas Estruturas do Betão Armado»!! Consigo perceber o censor: «’pera aí! ‘’Novas Estruturas’’? ‘’Armado’’? Querem enganar quem?».

Mas este censor de «Uma Solidão Demasiado Ruidosa» deveria ser muito rebuscado. A história trata de um prensador de papel (Bohumil Hrabal, certamente) que vai salvando livros do ostracismo absoluto a que o Estado quer remetê-los. O velho Haňta é conscensioso do seu trabalho, embora esconda o que faz. Não tem mal nenhum: salva Kant, Hegel, Camus, Novalis e Lao-Tsé, entre outros, muitos outros. É Haňta que diz: «(...) de modo que é em vão que todos os inquisidores do mundo queimam livros, pois quando um deles contém algo de válido, o seu riso silencioso persiste mesmo no meio das chamas, porque o significado de um livro verdadeiro vai sempre para além dele.».

Ou a sua declaração inicial: «Há trinta e cinco anos que embalo livros e papel velho, e vivo num país que sabe ler e escrever há quinze gerações; habito um antigo reino onde houve e continua a haver o hábito e a obsessão de prensar pacientemente ideias e imagens na cabeça de todos, dando-lhes assim um prazer indescritível e uma mágoa ainda maior, vivo entre pessoas que dariam a própria vida por um pacote de ideias prensadas.»

Haňta, vivia para prensar, esmagar e com esta atividade esmagava igualmente ratos da velha oficina, besouros, insetos vários... a namorada tinha sido cremada em Majdanek ou Auschwitz e ele começou a beber muita cerveja. Era um solitário, tendo dificuldade em falar com pessoas, menos com uma pequena cigana que compartilhava o seu apartamento coberto perigosamente de várias toneladas de livros, prestes a esboroarem-se em cima dele e matá-lo. Todos salvos da prensa. Mas o que lhe dava mais prazer era esmagar e prensar livros e fotografias de Hitler em delírio, de soldados SS em delírio, de prisioneiros em delírio, de guardas em delírio, de massas de homens castanhos em delírio.

Por que foi censurado Bohumil Hrabal? Que mal tinha o seu livro? Como gostava eu de me colocar no «pensamento» (um exagero, claro) de um censor! O que ele veria escondidas nestas palavras?

Haňta vê-se então confrontado com o seu censor, mesmo que assuma a dialética como lógica: «(...) e tudo o que é vivo no mundo, para que, através da luta, o movimento vital recupere; depois, o desejo de equilibrar os contrários leva a que se atinja progressivamente a harmonia e a que o mundo, no seu todo, nunca coxeie. Foi então que compreendi a justeza do poema de Rimbaud segundo o qual a luta do espírito é tão terrível como qualquer outra guerra, e entendi a frase cruel de Cristo: ‘’Não vim trazer a paz, mas a espada.»

Belas palavras do velho Haňta. O censor ter-se-á incomodado com a palavra Cristo? Com a dialética exposta? Com Rimbaud? Com a recupearção «movimento vital»?

Creio que sim, foi esta a expressão, «movimento vital» que lhe fez o curto-circuito no frágil cérebro do censor. De qualquer censor em que o pensamento pode tornar-se um perigo mortal. Eles preferem a morte.

António Luís Catarino
Coimbra, 27 de janeiro de 2020

domingo, janeiro 26, 2020

Pascal Quignard e «A Ocupação Americana»

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Pascal Quignard é um autor francês ainda pouco conhecido em Portugal. A Deriva editou-o, em 2013, com «Um incómodo técnico em relação aos fragmentos» traduzido por Pedro Eiras. É um autor desconcertante no sentido em que, dele, é melhor não esperarmos a «ordem natural das coisas» de um romance comum. De facto, fragmenta-o em relações, em épocas, em idades dos protagonistas, enquanto nas poucas páginas do livro se vão desenvolvendo atitudes e pensamentos de densidade psicológica óbvia. Pascal Quignard é um grande escritor e mostra-o neste «A Ocupação Americana», numa edição de bolso da Seuil de 1994, que encontrei num alfarrabista e antiquário suíço por um preço incrível. Vim com um saco cheio. Obrigado, Monsieur Bloch.

A França após a guerra de 1945: um período muito pouco conhecido e, talvez, um tema ainda fugidio. Lê-se que foram 75 mil os fuzilados por colaboração com os nazis. A vida quotidiana passava algumas dificuldades normalmente adormecidas pela ajuda do Plano Marshall. Mas ainda assim, a vida era difícil. Os costumes não mudaram muito desde antes de 1939. Os mais velhos e também a sua juventude continuavam, imperturbáveis, o seu quotidiano. Mantinham-se com os mesmos temas escolares, com a religião presente em todas as famílias, a cultura francesa dos liceus e faculdades não tinha sido esquecida e continuava-se a apresentar os mesmos autores de sempre, quer na literatura, quer na canção ou teatro.

Dois jovens, Patrick e Marie-José, estão ligados desde a sua infância mais remota. A amizade junta-os naturalmente, até à descoberta gradual do corpo de cada um com um primeiro beijo na boca, com umas festas mais arrojadas, e mais tarde, na adolescência e no liceu, com a necessidade premente de sexo.

Entretanto, os americanos assentam arraiais na base militar de Meung onde vivem os jovens. Os americanos chegam com o jazz, com as Levi´s, as Coca-Colas, os grandes Thumderbirds, Buicks, blusões pretos e costumes sexuais demasiado abertos para a velha vila francesa, bem espelhados no comportamento das filhas dos oficiais americanos da base. Os cafés aderem aos hambúrgueres e ao whisky bourbon. A cerveja Budweiser corre. Mas o racismo e refregas entre soldados brancos e negros não passam despercebidos. A segregação não é de imediato compreendida na pacata cidade francesa, mais até pelos jovens franceses que aderem vorazmente ao jazz onde tocam militares negros e que se tornam amigos. Frequentes vezes os negros são expulsos nos lugares mais centrais da cidade, por militares brancos alcoolizados.

Marie-José quer o corpo de Patrick, mas o medo de engravidar é maior que dar início a uma experiência sexual total. Vai recusando a formas mais «seguras» de contacto sexual o que os desagrada sobremaneira. Procura um médico fora da cidade que, ao saber para que fim se destinava a consulta tenta abusá-la não o conseguindo, mas, ainda assim, recomenda-lhe o método falível da temperatura.A França em pequenino.  O envolvimento com Patrick degrada-se cada vez mais. Patrick adere a um grupo misto de jazz com a sua bateria dada por um sargento americano, Wadd, através de um mercado negro florescente da base para as vilas e cidades próximas. Wadd inicia uma relação com Marie-José que pensa, assim, fugir aos estereótipos franceses, enquanto adere lentamente ao estereótipo americano. Ambos, Patrick e Marie-José, faltam às aulas e confrontam a vida dos pais que não querem ver repetidas nas suas. Patrick envolve-se com Trudy, filha de um tenente da base americana. Os jovens amigos franceses deixaram de se falar ou sequer olhar-se entre os dezasseis e o princípio dos seus dezoito anos. Ignoram-se, dentro da sua fé americana.

Começam a iniciar-se no haxixe, na música e no mercado da base através de um amigo, François-Marie Ridelsky, que muda o seu nome para Rydell. Creio que é uma personagem importante na história de Quignard: frequentemente bêbado, meio louco, hiperativo, empenhado em experimentar a cultura americana até ao limite é, contudo, ele que a desmonta quando começa a perceber o vazio daquelas personagens que povoam as várias (não foram tão poucas assim) cidades francesas sob a administração militar americana. O PCF, forte, na ocasião, segrega igualmente estes jovens, enquanto faz uma campanha cerrada de US Go Home, lida por todo o lado.

Diz Rydell, a uma certa altura, tal como um xamã: «Tudo está perdido! Tudo desapareceu como uma gota de água na imensidão do mar. Entre a alucinação e o caos, o real ergue-se e respira como uma vaga de nascimento e morte. Mostra-se tão caprichoso, nas suas consequências, que se torna imaginária, na sua perceção. A trama e a cadeia de gerações e de metamorfoses prosseguirão no mesmo desenho impaciente, mortífero e inexplicável. Os sexos ardem. Tudo é fogo, tudo é desejo de satisfação. Tudo é vontade de encontrar o prazer. Tudo é desejo de morte. Os nossos olhos nos sonhos, como os nossos olhos na vida de todos os dias, têm sede. Sede de imagens de sereias que são regadas com a morte que subjugam. Tudo é ódio na vida, servilismo, pesadelo.»

De novo Rydell, que se afasta cada vez mais da cultura americana, sem todavia, deixar o mercado negro da base militar, uma verdadeira caverna de Ali-Baba, para Patrick: «Eles (os americanos) são desprezíveis. São racistas. São a desonra do planeta. Olha para eles. Eles não compreendem, nem mesmo a música que permitem difundir num continente inteiro. Como sonhar sequer com uma arte numa sociedade assim tão podre? São fantasmas que nós servimos. Ectoplasmas de páginas publicitárias, jornalísticas, com ordens de compra. Não compreendo que estejas apaixonado por Wilbur, de True, dessa banda de miseráveis. Todos esses brancos que nos roubam e que nos enchem de vergonha. Os verdadeiros são os negros. Eles, os brancos, são falsos. Olha! São fantasmas rosados. Deixa-me. Vai à procura de Brenda Lee!»

Rydell clama e todos deixam de o ouvir. Pensam-no louco. Mas, em breve, os factos extraordinários que vamos ler em «A Ocupação Americana» dar-lhe-ão razão. Em 1949, tudo caminha para um abismo sem sentido. Na despedida dos americanos quando a base é levantada, o sargento Wadd, despede-se, ironizando: «Vamos go home! Agora, aguentem com os Russos.» Ainda se pensava que Estaline avançaria para oeste, mas como diria o padre de Meung: «Alemães, Americanos e agora Russos? Não há cidade que aguente.» 

Um livro essencial em todos os aspetos, porque pode ser lido de vários ângulos. Mas o abismo e a solidão de uma juventude dividida nos anos pós-45 pressentem-se em cada página da obra.

António Luís Catarino
Coimbra, 26 de janeiro de 2020

quinta-feira, janeiro 23, 2020

«Portugal e a União Europeia». Textos de João Martins Pereira, selecionados por João Moreira.


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Livro mais que importante, este, a que João Moreira deu vida escrevendo o prefácio. O posfácio é de Rui Bebiano. João Martins Pereira (JMP) é um pensador incontornável e um homem de ação, talvez a diferença maior entre outros pensadores portugueses como José Gil ou Eduardo Lourenço.

Façamos uma breve pausa para conhecermos o autor, até porque o academismo e media oficiais teimam em esquecê-lo. Nasce em 1932 em Lisboa. No país que tínhamos, acha melhor por-se ao fresco para Paris entre 1963 e 64. Entra na Seara Nova até 1968 e a partir de 69 entra na revista O Tempo e o Modo onde é expulso pelo MRPP em 1971 numa tentativa, infelizmente vencedora, de controlar totalmente a revista, até aí nas mãos de católicos de esquerda e revolucionários. Publica vária bibliografia e em 1975 entra para o IV Governo Provisório como secretário de Estado da Indústria e Tecnologia o que lhe devia ter dado um grande gozo, visto que o colocaram à frente das nacionalizações das indústria e banca dos grandes grupos económicos que tiveram um valente susto no PREC. Entra para a redação do Jornal Combate do PSR entre 1987 e 2003. Morre em 2008.

O prefácio de João Moreira é esclarecedor fazendo uma ponte entre o pensamento e prática de João Martins Pereira para os dias de hoje onde «partidos nacionalistas e ultra conservadores» ganham um «avanço galopante.» Não deixa de ser interessante João Moreira realçar um ponto que era caro a JMP sobre a esquerda de cariz marxista – o da tibieza, timidez e ambiguidade que esta apresenta face à «questão europeia». João Moreira avisa-nos: a desconstrução do «mito da CEE» promovido pela «burguesia lusa». Quase tudo o que JMP escreve veio a dar-se em Portugal desde a nossa adesão à CEE, e após esta, à UE. Não é poder divinatório do autor é, antes, uma profunda análise política de base marxista que pôde sequenciar de uma forma lúcida o que – desgraçadamente – veio a acontecer.

Os escritos de JMP, e escolhidos para este livro, iniciam-se em 1969 e espelha já a burguesia que temos no movimento de 1820. Uma burguesia não revolucionária, ligada às ideias puras que gerou este movimento, mas longe da sua prática o que ajuda à existência de uma estrutura político-jurídica, mas longe da de uma relação forte com a estrutura sócio-económica ao longo do século XIX. O ideal republicano seria então uma continuidade renovada do falhanço das práticas burguesas parlamentares que vinha da frágil monarquia constitucional. Ambas parlamentares e censitárias, como faz notar JMP, citando Jacinto Baptista. 

A aventura golpista de 1926 veio pôr em ordem a chamada estrutura político-jurídica já há muito em decadência, principalmente desde a participação portuguesa na guerra entre 1916-18, mas o que se veio a verificar mais tarde, através da Lei do Condicionamento Industrial (1931) foi a ascensão política da burguesia dos grandes agrários que tornou Portugal um dos países mais pobres da Europa à imagem da política salazarista. Ou seja, conjuntamente com a estrutura agrária consolidada no tecido económico do país e face ao condicionamento industrial, veio também a impor-se uma diminuta burguesia financeira, comercial e industrial altamente especulativa o que impedia a acumulação de capital, necessária ao investimento. A nossa burguesia surgia sempre «colada» ao Estado, baseada na repressão brutal aos camponeses, aos operários e com baixíssimos salários. A ordem estava estabelecida, mesmo com o protesto de «modernização rápida» de alguns visionários do Antigo Regime que apelavam cautelosamente na Assembleia Nacional por essa mesma modernização. Mesmo tendo este grupo algumas vitórias criando algumas infraestruturas que apontavam para o reforço da indústria, encarava-se como «um mal necessário». De facto, JMP situa o desaparecimento desta ambiguidade no ano de 1949, o que se compreende. Os trinta gloriosos anos estavam à porta e para sossegar as gentes democratas estrangeiras lança-se a Lei 2005 de incremento da indústria. 

No entanto, é a Banca a sempiterna Banca, que ganha mais com esta política que continuava especulativa. Os industriais continuavam gastadores dos lucros obtidos na atividade e os grandes agrários tornaram-se absentistas e com uma grande margem de lucro, devido à repressão e baixos salários.  Ora, as décadas de 50 e 60 tornam-se fulcrais para uma espécie de internacionalização do capital através de uma aproximação europeia. Tarde demais. A nossa burguesia continuava com uma imagem pouco esclarecida que se «meteu» num processo de integração europeia sem perceber os custos ou sequer as consequências, inclusive para o Império.

Citando JMP: « (...) Em resumo, à medida que se aproxima o dia em que a economia portuguesa se verá desamparada diante de uma Europa pouco dada a sentimentalismos (e isso será em 1980, na melhor das hipóteses) o processo de desenvolvimento industrial, em lugar de intensificar as suas taxas de crescimento e proceder a uma ‘’reorganização’’ de estruturas indispensável, vê-se travado por um tipo de intervencionismo de Estado que já não é aquele que as novas circunstâncias exigiriam. A grande burguesia industrial e financeira compreende que, a longo prazo, a opção europeia é a que mais lhe convém.»

A partir daqui, não esquecendo que isto foi escrito em 1969, a radiografia que JMP faz da nossa burguesia que se quer (ou é obrigada) a integrar na Europa, é a de uma classe que nunca sendo liberal, também já não o poderia ser, nos anos de Marcello Caetano. Assim, a burguesia nacional encaminhar-se-ia para novas formas de neo-capitalismo autoritário.

Em 1971, no «Comércio do Funchal» jornal da oposição marcelista e de esquerda, JMP chega a dizer: «a integração de Portugal na Europa é um assunto a tratar entre os representantes das classes dominantes nos respetivos países, que acabarão por se entender numa bela madrugada em Bruxelas, e festejarão o acontecimento, esgotados mas ainda com forças para beber um cordial whiky que apagará todos os ressentimentos. A História não é feita apenas por esses senhores e, portanto, os esquemas que elaboramos virão a ser submetidos à prova dos conflitos que eles próprios terão gerado ou acentuado». Quem é que em 2020 não assinaria por baixo estas mesmas considerações?

Em 1997, no Combate e publicado em Papéis 97 de Francisco Louçã e J.P.Cotrim, João Martins Pereira, perante a violência do ultra-liberalismo da CEE/UE que ele já aponta nos idos de 1969 e 1971, escreve: «como forçar os povos europeus a essa violência, que será feita, ninguém duvida, de elevadíssimos custos sociais (desemprego, precariedade do trabalho, desmantelamento/privatização dos sistemas de Segurança Social, acentuação das desigualdades, exclusão, insegurança quanto ao futuro) e políticos (erosão dos mecanismos democráticos, por imperfeitos que sejam)?». Até pela premonição de JMP: «Até um belo dia a Europa inteira estar na rua.» Já faltou mais...

Um livro a não perder que servirá, certamente, para conhecermos mais a fundo o pensamento de João Martins Pereira. Já agora uma questão: a sua obra está recolhida pela Imprensa Nacional? Não seria interessante publicá-la agora? 

António Luís Catarino

Coimbra, 23 de janeiro de 2020

«Classico», de José Ricardo Nunes


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«Classico» é o último livro de José Ricardo Nunes, um poeta que sigo com cada vez mais interesse. Conheço-o como excelente pessoa e é inquestionável que temos diante de nós um grande poeta. O seu percurso é singular pela coerência formal, pela diversidade dos temas, por uma ironia desoladora e tão inquietante que nos leva a interrogar-nos, não sobre o que o poeta escreve, mas sim pelo efeito que produz em nós.

Não, não foi uma desatenção. O título é mesmo «Classico». Sem acentuação, o que me levou a investigar o étimo da palavra. Deparei-me com o latino classĭcus com várias definições, sendo que a mais natural e consultando o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa é tudo o que não se afasta das regras estabelecidas; que segue os usos, os costumes ou que adquiriu o valor de norma. Não se trata de eu estar enganado nesta perspetiva, ou não. É mais provável que esteja errado. Mas toda a poesia do livro, dividido em três capítulos nos aponta nesse sentido – o da Norma. Diria, até, eivado de um certo conservadorismo que chama o divisor comum da vida e também da morte. O capítulo I é preenchido com o binómio luz e sombra onde a música também está presente, não sendo a primeira vez na obra já extensa do autor que este a utiliza, com os Nocturnos de Chopin e o BWV 147 de Bach. Tal como uma religiosidade implícita a que só o José Ricardo pode dar voz.

Mas pode não ser nada disto e atermo-nos ao Kaffeehaus Classico de Bremen ou o quarto 53 do hotel homónimo onde provavelmente nasceu esta experiência poética e que vem inscrita logo na página 9 do livro. De qualquer modo juntei as duas hipóteses. Sou um mero leitor, avançando com possibilidades várias.

«(...)
O cigarro tépido no banco do adro,
O desespero e tudo o mais que não tem fim,
Tudo sobre a loucura e a ausência
E a ausência de saudades,
Tudo sobre o amor,
A vida, o desgarrado mundo,
A vida perdida, a vida ainda.»

Nos campos II e III (tal como nalguns versos do I capítulo) podemos sentir a memória e o futuro, o passado e o presente, quase sempre o futuro em que já vivemos projetado nas palavras e uma memória que nos remete para um registo poético da infância e da adolescência do autor, e tentar o futuro em transubstanciação:

«(...)
Foi o corpo dar o corpo a comer à alma
E a alma dar a alma a comer o corpo.
E depois, não sei muito bem porquê,
Associei tuso isto ao amor.»

Este livro é uma relíquia.

Editora Companhia das Ilhas
Pedidos a companhiadasilhas.pt
Tiragem: 100 exemplares

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de janeiro de 2020

sexta-feira, janeiro 17, 2020

«Do Fascismo ao Populismo na História», de Federico Finchelstein

«Os ‘’Antifa’’ é melhor esperarem que o outro lado
não se mobilize...porque se virem, o outro lado são
os militares. É a polícia. São montes de pessoas muito
fortes, muito duras. Mais duras do que eles.
E mais espertas do que eles.»
                                                                                                                                                     
Donald Trump, declaração televisiva em 2018

Uma vez, já há alguns anos, um grande amigo ligado à coordenação de uma grande editora hoje ainda em expansão, disse-me «Não edito mais nada sobre globalização. Parecem moscas a editar tudo e o seu contrário sobre a globalização. Já ninguém compra nada que tenha esse nome na capa!». Isto vem ao caso sobre o tema «Populismo». São tantos os livros publicados sobre o populismo de direita e de «esquerda» que nos arriscamos a deixá-lo passar nos nossos dedos por enfarte.

Desta vez li «Do Fascismo ao Populismo na História», de Federico Finchelstein, um professor especializado em história do fascismo e colunista em jornais como o Guardian, Washington Post e New York Times, entre outros... Simpático da parte dele, acrescentar um prefácio à edição portuguesa que data de 6 de janeiro de 2019.

Não creio que o livro seja de rejeitar à partida, principalmente pela esquerda. Primeiro, porque não concorda com Chantall Mouffe e Laclau que defendem claramente o desenvolvimento de um populismo de massas no campo da esquerda, segundo porque conduz-nos a uma leitura mais metodológica da diferença entre fascismo e populismo e terceiro porque engloba o populismo como fenómeno mundial e não eurocêntrico, original da América do Sul e da Índia. Não deixa de ter razão neste perspetiva teimosa do europeu em ver-se a si próprio como protagonista de uma História total que passa necessariamente pela Europa e só na Europa.

Contudo, embora não se opondo totalmente a Enzo Traverso deixa algumas considerações que o afastam dele, talvez pela persistência em analisar populismos de esquerda que situa principalmente no peronismo e no movimento guerrilheiro que lhe deu forma na Argentina: os «Montoneros». Localiza os movimentos populistas de esquerda na Colômbia, no Uruguai, Na Síria e Egito, no Brasil no 2º mandato de Getúlio Vargas (!!), na Venezuela de Chávez e Maduro, na Bolívia de Evo Morales (o livro foi editado antes do golpe) e hoje e à direita, claro, no Brasil de Bolsonaro, nas Filipinas de Duterte, no Trumpismo americano (identificando vários populismos antes dele, como George Wallace, Ross Perrot, por ex.).

Na Europa, não há um único governo fascista com esse nome, segundo Finchelstein, porque os movimentos fascistas se transviaram em populismos quando estão no governo ou perto dele, como na Polónia, na Itália de Fini, Salvini e, antes, de Berlusconi, na Hungria de Victor Órban, na Holanda, na Suécia, na Finlândia, na Grécia (o único populismo de esquerda que ele identifica com o renovado Sirysa), Boris Jonhson, na Grâ-Bretanha e por aí fora.

Concordamos que o título do livro está longe de nos dar uma visão pormenorizada da História do populismo (teríamos de ir a Péricles e a César, não?). Seriam precisos muitos volumes e é com imensa pena que digo que o autor não peca por ser sintético, antes pelo contrário, repete até à exaustão ideias e conceitos que cansam quando o lemos. Vale também pela apresentação de uma bibliografia exaustiva sobre o tema. São dezenas e dezenas de páginas. Mas vale por colocar a limpo certos conceitos com os quais os leitores podem concordar ou não. O que liga, então, o populismo de esquerda e o de direita, qual ou quais os fatores comuns de um e de outro? Vejamos o quadro que nos apresenta Finchelstein:

1.    Uma ligação a uma democracia antiliberal, eleitoral e autoritária que rejeita na prática a ditadura (diferente do fascismo)
2.       Uma forma extrema de religião política (apresenta o caso dos Kirchner, de Eva e Péron e de Chávez)
3.       Uma visão apocalíptica da política que apresenta os sucessos eleitorais e as transformações que esses sucessos transitórios permitem como momentos revolucionários na fundação e refundação da sociedade
4.       Uma teologia política fundada por um líder do povo messiânico e carismático
5.       A perceção dos antagonistas políticos como o antipovo – isto é, como inimigos do povo e traidores da nação
6.       Um fraco entendimento do Estado de direito e de separação dos poderes
7.       Um nacionalismo radical
8.       Uma ideia do líder como a personificação do povo
9.      Uma identificação do movimento e dos líderes com o povo como um todo
1.   A afirmação da antipolítica
1.   O ato de falar em nome do povo e contra as elites dirigentes
     A autoapresentação da defesa da verdadeira democracia e a oposição a formas imaginárias ou reais de ditadura e tirania (UE, o Império, o cosmopolitismo, a globalização, etc...)
1.   A visão de um povo como entidade única que, após se tornar regime é equiparada a maiorias eleitorais
1.   Um profundo antagonismo ao jornalismo independente
1.   Uma aversão ao pluralismo e à tolerância política
1. A insistência à cultura popular e até em muitos casos, no mundo do entretenimento como representações de tradições nacionais

Depois desta exaustiva apresentação do divisor comum dos populismo de direita e esquerda o autor avisa-nos, entretanto, que o populismo pode não nascer fascista, mas que, invariavelmente, o populismo tornar-se-á fascista no futuro. Seja orgânico ou protecionista, corporativo ou neoliberal, pouco importa. O papel que cabe à violência é outro dos casos em que me interrogo sobre esta questão. O fascismo que se formou pela violência das suas hordas na rua é recusado pelos populistas, mas não quer dizer que não o aplique pelas massas, pela legislação teleguiada para dar plenos poderes ao justicialismo, à polícia ou ao exército, pelos media, pelo incentivo dos jornais de estado, pela educação, as novas hordas engravatadas do futuro tecnológico que não rejeitam desde que estejam controladas pelos governos populistas ou fascistas, pós-populistas.

Relembro a citação de Trump no início deste artigo e vejam se o populismo recusa a violência, a prisão, o assassínio (Putin é um ás, neste particular), ou o recurso ao exército para reprimir a população que diz defender...como um todo.

António Luís Catarino
Coimbra, 17 de janeiro de 2020

domingo, janeiro 12, 2020

Rosa Montero ou la ridícula idea de volverte a leer


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Ou de como, facilmente, se conseguem «best sellers» em literatura. Prometi, a mim próprio, não colocar aqui qualquer ficha de leitura que dissesse algo de negativo. Do imprestável, não escrevo. Abro, portanto, uma exceção, porque esta senhora merece-o. Desta vez, li «La ridícula idea de no volver a verte», de Rosa Montero, um livro de 2013. Nestes entretantos, Rosa Montero escreveu «Lágrimas na Chuva» que se multiplicava em edições entre 2011 e 2015. Interessei-me por este último porque pensei que seria uma continuação livre de «Blade Runner», filme que me marcou positivamente, ou talvez mais que isso: continuarei, de tempos a tempos, a vê-lo sem me cansar. Não aconteceu isso com «Lágrimas na Chuva». Parei a meio da leitura, coisa rara em mim, e fechei-o para sempre. Acho que o despachei para alguém que gostava muito dela. Aquilo nada tinha a ver com o «Blade Runner», nem com «Do Androids Dream of Electric Sheep?» de Philip K. Dick. O que eu li, de Montero, foi um embuste, muito bem embrulhado numa capa sugestiva dirigida ao filme e que supostamente lhe dava continuidade.

Há dois meses caí novamente na esparrela: comprei outro livro de Rosa Montero titulado «La ridícula idea de no volver a verte». Bom, só o título cheirava a qualquer romance de amor, daqueles que estão à venda nas tabacarias de bairro, junto aos maços de tabaco com fotos de moribundos, pulmões desfeitos, cicatrizes enviesadas, olhos cegos e impotências garantidas pelo uso abusivo da nicotina. Mas, por dois euros e meio, comprei o original em edição de «bolsillo» com a capa que podem ver em cima, com uma mulher que voa desbragada por uma Nova Iorque (porque Nova Iorque, não se sabe) com saia larga que lhe permite voar e um soutien aerodinâmico.

O livro tem receita e, mais uma vez, enganou-me. Não chorei completamente visto ter dado somente 2,5 euros por ele, já manuseado. Trata-se da vida e da morte dos Curie, Pierre e Marie, incluindo a filha Irène que não sobreviveu igualmente devido à radioactividade do urânio e do plutónio que manipulavam sem se protegerem. Morreram todos antes dos 60. Estoicamente, iniciei a leitura e desta vez não o coloquei de lado.

1 - Primeiro engano: não se tratava de uma investigação autoral sobre a vida dos Curie. Rosa Montero estava à beira da depressão, há quase um ano e a sua editora mai-la contabilidade, pediu-lhe um novo romance, desta vez com uma proposta que se baseava nos Curie. Isto salvou-a da depressão, claro está, e foi uma boa ideia, sim senhor. Deram-lhe sete biografias de diferentes origens e diários dos Curie e ela aqui e ali foi retirando o «estudo» da família. Claro, que retirou o que quis. Não houve, portanto, investigação da autora.

2 – Outro preceito para a leveza da sua escrita e que leva à aquisição de milhares de livros: as fotos que povoam o livro que vão desde o espião Litvinenko assassinado pelos russos através de doses de plutónio «en su lecho de muerte», passando por uma gravura da Papisa Joana, por um quadro da Paula Rego, pela calvície da Isabel I de Inglaterra (culpado: o chumbo que usavam para branquear a pele), por uma foto de uma Nossa Senhora de Fátima comprada por 6,70 euros na localidade e cujo efeito luminoso, pela noite, pode ser de radioactividade mortal! Pior: pode-se comprar estas estatuetas da Nossa Senhora pela net! Relações entre as fotos e o texto são completamente pueris.

3 – Mais modernaça do que nunca, Rosa Montero utiliza os hastags para que os leitores não se percam ou se desliguem da internet. Vejam o que é ler assim: «Y aquí hay que hacer un punto y aparte para hablar de la #DebilidadDeLosHombres, ou ... #CoincÍdencia, ... #Lugar, etc... dá uma fluência de leitura que nem queiram saber!

4 – A fragilidade da mulher e, aqui, Rosa Montero, aparentemente feminista, deixa cair muitas contradições que não vale a pena esmiuçar. Constatar-se-iam por uma foto aposta por ela do assassino de Milwaukee, Jeffrey Dahmer, que mutilou, torturou, matou e canibalizou as suas vítimas, dezassete ao todo, fora os que não foram descobertos, com a seguinte questão: «Mira este rostro, por ejemplo: no crees que augura un temperamento dulce y delicado?». Após o identificar, remata: «Creo que estos excesos de idealización los padecemos sobre todo las mujeres, que mostramos una desmesurada facilidad para inventarnos al amado.» Mau gosto e submissão é dizer pouco.

5 – Mas o mau gosto e a vaidade vão mais longe. É certo que, Rosa Montero explora até ao limite a vida íntima e os «escândalos» de Marie Curie (porque não a de Pierre?) e até de Irène Curie através do estudo enviesado das sete biografias e dos diários que são revelados de Marie, mas escusava de a comparar com a sua própria vida e aqui o caso é mais sério, razão pela qual me debruço sobre este livro de que não gosto. Rosa Montero estava com uma depressão. Marie Curie teve várias. Rosa Montero foi convidada pela editora a «trabalhar» os Curie. Rosa Montero, de facto, leu as biografias de outros. Pierre Curie morreu atropelado por uma carruagem. Segundo ela, não foi a carruagem que o matou, mas sim a radioactividade que o enfraqueceu ao ponto de perder os vários sentidos. Marie enviuvou guardando para si um pouco de osso do crânio e algum cérebro de Pierre. Rosa enviuvou de Pablo que morreu de cancro há quase 20 anos. Guardaram ambas recordações e memórias dos seus amados. Conclusão óbvia: como são parecidas Marie e Rosa!

6 – Preceitos, portanto, para um êxito literário contemporâneo de grandes vendas: morbidez, desgraça, citações (Pessoa calhou bem), vulgaridade, fotos e hastags em catadupa, escândalos assassínios e cancros. Depressões e ultrapassagens heroicas do estado de limbo em que se encontram as personagens. Banalidades e assunção da banalidade enquanto tal «Ah, cuánta, cuantísima # Intimidad hay en estas líneas! La vida real, la mas verdadera y más profunda, está hecha de estas pequeñas banalidades. Marie le hizo las natillas que le gustaban.»

7 – Não caio noutra.

António Luís Catarino
Coimbra, 12 de janeiro de 2020

terça-feira, dezembro 31, 2019

Dora Bruder, de Patrick Modiano


Dora Bruder
Patrick Modiano é um dos melhores escritores contemporâneos. O espírito de síntese nele é admirável, expurgando e limitando o adjetivo, a frase bombástica, o espírito doutoral de nos dar lições, a frase idiomática, o intrincado pensamento de uma situação ou de uma emoção que só quem escreveu conhece...daí, uma escrita límpida e limpa, escorreita, cujos factos falam por si e, se quisermos, vêmo-nos a pensar neles profundamente . Quase sempre o queremos, garanto. Dele ainda li muito pouco: «La Place d’Etoile» que foi o seu primeiro livro, «Dans le café de la Jeunesse Perdu», «Pour que tu ne perdes pas dans le Quartier» e, agora «Dora Bruder» que o escreveu em 1997, na Gallimard. É deste último que vos quero falar. Talvez um dia deixe registos dos outros. Ameaço, sim.

Dora Bruder, não está presente. Ou melhor, não existe fisicamente, mas toda a linha de narrativa a vai encontrar. No entanto, Patrick Modiano segue-lhe o rasto desde que, ocasionalmente, lê um anúncio no Le Soir de 1942. Alguém que procura uma menina, Dora Bruder, porque necessitam de saber o seu paradeiro urgentemente. O seu remetente é um pequeno hotel, em Paris, onde vivem os seus pais. O pai, 100% de incapacidade, gaseado na I Guerra Mundial, não se sabe a sua profissão. A mãe, costureira, é doente e francesa «ariana» tal como a polícia da ocupação a regista, por imposição alemã. Primeira interrogação: o que leva, em 1942, ano de terror total por parte das gendarmeries para com os judeus franceses que eram entregues no campo de Tourelles, depois na prisão de Drancy com destino a Auschewitz e Dachau, a publicar um anúncio desesperado por uma jovem judia de 18 anos, não reconhecendo o perigo de ser toda a família descoberta pela Brigada de Tratamento dos Judeus Franceses? Bom, o resultado foi a prisão do pai, o enfranquecimento físico e psicológico contínuo da sua mãe e, como «amiga» de judeus, deportada igualmente para Auschwitz mais tarde, quando as leis nazis começaram a apertar ainda mais. Mas ainda vê a filha em Paris.

Dora Bruder não aparece em fotos ou fisicamente como se disse atrás. Se Patrick Modiano o fizesse ou conseguisse entrevistá-la em 1997 teria ela 90 anos. Foi possível falar com algumas amigas que estiveram no campo de Tourelles, depois em Drancy e fim da viagem em Auschewitz. Foi este o roteiro. Antes, Dora Bruder passou por um reformatório de freiras, durante 8 anos, portanto, desde os dez. Pensaria o pai que assim a protegeria? Segundo a madre superiora ela era uma rapariga rebelde, independente, amada pelas colegas, agreste para com as freiras e registada a sua fuga definitiva em 1942 (houve várias anteriores). Esteve meses escondida. Onde? Quando foi apanhada sem a braçadeira amarela de judia foi imediatamente presa na casa dos pais, denunciada pelos vizinhos que ainda afirmaram aos gendarmes que era habitual Dora Bruder andar na rua sem a estrela de David (alguns judeus tentaram assim escapar sem sucesso). O nojo sobe-nos à boca! Com ela foram presas mais cinco judias, devidamente registadas nos arquivos de hoje, sendo a acusação mais comum não usarem a braçadeira identificadora. A seguir vinha a tentativa de fuga para a «zona livre» de França. Nunca mais sairam da prisão. É por aqui que Patrick Modiano sabe mais de Dora Bruder por depoimentos que ouviu de companheiras dela e nos registos encontrados nos campos e prisões. No fim da leitura do livro, sentimo-nos com emoções desencontradas. Não é só o genocídio nazi. É a submissão total aos totalitaristas alemães de alguns (muitos) franceses e insituições francesas que faziam o trabalho sujo de denúncia, prisão e entrega aos esbirros das SS. Também nos interrogamos que vida viveu Dora Bruder, esta jovem cuja liberdade foi refreada anos a fio desde Paris até à sua morte em Auschewitz. E nos outros países ocupados pelos alemães, como foi?

Mas houve quem se revoltasse para além da Resistência organizada. Pessoas que se solidarizaram com os judeus e contra a ocupação. Assumo toda a responsabilidade da rápida tradução de Modiano:

Sobre a solidariedade para com os judeus: «Entre as mulheres que Dora pôde conhecer em Tourelles encontravam-se aquelas a quem os alemães apelidavam ‘’amigas de judeus’’: uma dezena de Francesas ‘’arianas’’ que tiveram a coragem de, em junho [de 1942], no primeiro dia em que os judeus deveriam usar a estrela amarela, as trazerem no braço em sinal de solidariedade, mas de um modo fantasista e insolente para com as autoridades de ocupação. Uma delas colocou uma estrela no pescoço do seu cão. Uma outra, bordou por cima da estrela a palavra Papou. Outra: Jenny. Outra ainda coseu oito estrelas à cintura e em cada uma figurava a palavra Victoire. (...) Presas em Drancy, exerciam as seguintes profissões: dactilógrafa. Empregada de uma papelaria. Vendedora de jornais. Mulher de limpezas. Empregada dos PTT. Estudantes.»

Sobre a ação da Polícia Juciária e Polícia Municipal Francesas  nas leis antijudaicas: «I-Judeus - homens de 18 anos ou mais: Todo o judeu  em infração será enviado para a prisão sob a responsabilidade de um comissário municipal com a ordem de envio especial e individual estabelecida em dois exemplares (a cópia é destinada a M. Roux, comissário divisionário, chefe das companhias de circulação – secção prisão (...) 2 – Menores dos dois sexos entre 16 e 18 anos e mulheres judias: serão igualmente enviados para a prisão sob a responsabilidade dos comissários municipais seguindo os modelos já descritos [eram procedimentos administrativos pormenorizados sobre a situação pessoal, profissional, económica, etc. de cada judeu]. A permanência na prisão dependerá dos documentos registados e o envio dos originais à Direção de Estrangeiros e das Questões Judaicas, a quem, depois do parecer da autoridade alemã, decidirá sobre o seu caso. Nenhuma iniciativa será efetuada sem uma ordem escrita desta Direção». Para que fique registado o nome da Direção da Polícia Judiciária era um simples Tanguy, assim como da Direção da Polícia Municipal era um não menos ambíguo Hennequin!

Sobre os regimes de internato jovem, Modiano conta a sua própria experiência de fuga que transporta para o colégio interno onde esteve Dora Bruder perto de 10 anos: «Lembro-me a forte impressão que tive após a minha fuga de janeiro de 1960 – tão forte que creio nunca ter conhecido sensações semelhantes. Foi a bebedeira de cortar, de um só golpe, todos os laços: rutura brutal e voluntária com a disciplina que se nos impõe, o colégio, os professores, os companheiros de sala de aula. Decididamente, não conseguirão fazer nada com este tipo de gente; rutura com os pais que não souberam amar-nos e em que se afirma que nunca deverão esperar algum futuro de nós; sentimentos de revolta e solidão presentes na incandescência e que nos corta a respiração e nos coloca no vazio. Uma das raras ocasiões da minha vida, sem dúvida, onde fui verdadeiramente eu e onde caminhei com o meu próprio passo.
Este extâse não poderia durar muito tempo. Não teria nenhum futuro. Mais depressa do que julgamos somos quebrados pela nossa situação.

A fuga – parece-me – é um apelo de ajuda e muitas vezes em forma de suicídio. Provam, até, um breve sentimento de eternidade. Não cortaram somente as ligações com o mundo, mas igualmente com o tempo. Ele chega ao fim de uma manhã, o céu de um ligeiro azul e que niguém nos pesa com a sua presença. Os ponteiros do relógio do Jardim das Tulherias estão imóveis para sempre. Uma formiga não chega a atravessar a largura do sol.»

Dora Bruder, sentir-se-ia assim quando da última fuga. É possível, segundo Modiano, que estivesse na casa da mãe onde foi presa, na casa de amigos, na casa de «amigos de judeus» ou simplesmente na casa de 5 jovens judeus escondidos nas águas-furtadas de um prédio no próprio boulevard onde a mãe habitava. A questão não é contudo só essa. É que todos somos Dora Bruder, se a banalização desta frase hoje não tivesse o sentido que na França de 42 se dava num sentido mais vital. Lá, era a vida ou a morte. Com todos a contemplar e a trair. Provavelmente, cidadãos imaculados de qualquer crime e de não quererem interiorizar que os cometeram. Escondidos, atrás das cortinas.

António Luís Catarino
Delémont, Suiça, 31 de dezembro de 2019

domingo, dezembro 29, 2019

O Labirinto espanhol de Javier Cercas

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Javier Cercas é um «escritor de sucesso», seja lá o que for que isso signifique. Para esse epíteto é necessário que o autor seja reconhecido com mais de 30 prémios nacionais e internacionais (lá se encontram os jogos florais de escritores que dão pelo nome de Correntes d’Escrita), seja traduzido pelo menos por cinco línguas estrangeiras e seja considerado como possível Nobel. Ele tem tudo isso e até mais. A capa do livro que eu li «El Monarca de las Sombras» tem «Best Seller!» lá inscrito. Ainda tentei com a unha do polegar direito descolá-lo, mas não, era mesmo uma inscrição na capa. Certezas de editor, digo eu!




O autor escreveu antes, em 2001, «Os Soldados de Salamina» que descrevia o combate de um republicano que, com a sua coluna, combatia os fascistas, falangistas e destacamentos «mouros», sendo que o herói era aquele. Estava escrito, escrito estava. Nada a fazer perante uma sociedade ainda hoje dividida em dois e cujos direitistas o recriminaram por passar uma esponja sobre os crimes levados a cabo pelos voluntários da II República, destacando os massacres perpetrados pelos franquistas, exagerando-os. Javier Cercas prometeu a si próprio nunca escrever um livro que «anulasse», pela ambiguidade ou suposta imparcialidade, que aliás ele sempre recusou para com Franco, a mensagem de que a razão estava do lado da República, fossem eles socialistas, comunistas, republicanos radicais, anarquistas e os brigadistas internacionais abandonados mais tarde pelas democracias ocidentais e pela URSS.

Seja. Mas esta posição louvável do autor aconteceu em 2001 e num par de anos depois... estamos agora em 2017 (data da saída de «El Monarca de las Sombras») e muita água passou debaixo das pontes. Assim, ele que nunca escreveria nada que propusesse alguma condescendência para com o franquismo, viu-se no meio de uma enorme hesitação em escrever, afinal, o que nunca disse que escreveria. Tratava-se da sua família fascista e particularmente de um tio, Manuel Mena, cuja história era contada pela mãe dele, entre sombras e dúvidas, entre silêncios e contradições. Manuel Mena era falangista, um camisa azul (também por lá os havia), seguidor fanático de Primo de Rivera e que tinha as suas contas a tratar com Franco de quem não gostava. Morreu com 19 anos e quando, aos 17. se inscreveu no 3º Batalhão dos Tiradores de Ifni, ainda brincava com a sobrinha mais velha, mãe de Javier Cercas. Eu compreendo a sua necessidade em escrever esta história e lê-la com a atenção devida não indo atrás da porcaria do Best-seller com que os editores afastaram alguns leitores. O homem é mesmo bom escritor, e a história arrebatadora, mas adiante.

Manuel Mena morreu aos 19 anos na Batalha do Ebro que foi o corredor para a tomada final de Barcelona, sendo que Madrid resistia ainda. Essa outra grande batalha pela posse da capital aconteceu após a Batalha de Teruel, onde esteve Manuel Mena na linha da frente, tio-avô, portanto, de Javier Cercas. Foi ferido cinco vezes, três das quais foi hospitalizado por declaração do médico de campanha. As outras duas não se sabe como aguentou. Veio a casa aquando dos ferimentos graves por uma semana. Na última antes do funeral, mostrava-se já farto da guerra e custava-lhe ir outra vez para a frente de combate, sendo ele aos 19 anos um veteraníssimo da guerra e um jovem cansado. Não era por motivos ideológicos, mas familiares como se poderá antever pela leitura do romance.


O labirinto que travava Javier Cercas em busca de uma saída deu-se quando a bisavó de Manuel Mena entendeu queimar todo o espólio dele. Nada restava a não ser um velho retrato com farda de gala de alferes e medalhado com a mais alta condecoração do exército rebelde. É nesse labirinto que nos entranhamos nas sombras que ainda hoje existem em Espanha. Nos inquéritos a várias personagens o silêncio imperava até que na estrada sinuosa dos vários arquivos Javier Cercas foi deslindando, sem que, mesmo nesses documentos os erros de registos de acumulassem. Manuel Mena, falangista, não morreu na Batalha do Ebro como se pensava. Aliás, militares contemporâneos e generais de Franco não entendiam a sua estratégia. As duas Batalhas mais sangrentas de Espanha (Teruel e Ebro) podiam ter sido evitadas poupando a vida a 200 mil homens de ambos os lados, sendo que em Teruel perante um ataque republicano que dividiria o sul franquista em dois, preferiu-se o combate quase corpo a corpo, evitando-se uma retirada e posterior cerco pelo Norte. O mesmo em Ebro: as forças republicanas acantonadas nas margens do Ebro, não barravam o caminho para Barcelona. Bastava rondá-las e entrar por Aragão. Mas não, não era incompetência de Franco, era, antes, a sua política de extermínio total dos inimigos que durou até 1975.  

Javier Cercas quis saber da sua família. Ela aí está neste livro, na aldeia de Iberhando no Distrito de Badajoz, perto de Cáceres e com raízes conservadoras e direitistas profundas. Mas para um leitor comum não deixa de ser literariamente muito forçado para o tentar equiparar a Ulisses ou Aquiles ou mesmo Quixote, buscando citações aqui e ali que demonstram o que «é o Homem». Manuel Mena escolheu o seu lado numa extensa luta de classes, onde os menos pobres dos camponeses se aliaram aos grandes e os mais pobres do pobres viram na República (mesmo com as suas contradições e traições intestinas) uma porta aberta para a dignidade que os operários exigiam há muito. Sim, o Homem é capaz do melhor e do pior, é tão violento como promotor de solidariedades, a guerra é mesmo assim, a banalidade da morte faz-nos anestesiar perante o mal (Javier Cercas chega a nomear Harendt, Ortega y Gasset e Unamuno), mas tanto Humanismo chega! Até porque sabemos que os dois últimos têm telhados de vidro... Mesmo na emoção sentida da mãe de Manuel Mena que no seu funeral sem lágrimas, e com a saudação romana, brada «Arriba España! Querido Manolo. Arriba España!» Um dos amigos de Manuel Mena, que pertencia ao mesmo 3º Batalhão de Tiradores de Ifni desabafou com Javier Cercas: «Una mierda la guerra!». «Como morreu Manuel Mena? Com um tiro de espingarda que lhe entrou pelas costas e alojou-se no peito, num morro que nada tinha de estratégico. Morreu com dores terríveis e a gritar! Quando o levaram ao hospital de Bot, já na Catalunha, não foi logo atendido porque não havia lugar para ele. Os quartos do 1º andar estavam ocupados por majores, tenentes e coronéis, mais altos em graduação mas com ferimentos de menor gravidade do que ele! Manuel Mena não pertencia aos ricos! Esteve duas semanas abandonado, a agonizar, no rés-do-chão.»


Assim morreu Manuel Mena de Iberhando, aos dezanove anos, cinco ferimentos em numerosas batalhas levando possivelmente o fanatismo de Primo de Rivera com ele. Heróis? Há heróis nas guerras?

António Luís Catarino
Delémont, Suíça, 29 de dezembro de 2019

Nota: a edição portuguesa é da Assírio e Alvim.

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Expurgar o revisionismo histórico: o Estado Novo foi fascista


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Depois de ler um autor revisionista da história do Estado Novo imposto pela Ditadura Militar em 1926, depois Ditadura Nacional já com Salazar ministro com plenos poderes e após a Constituição orgânica e corporativa do Estado Novo, em 1933, sendo Salazar presidente do conselho, tenho para mim que o que fiz melhor foi pegar e ler rapidamente o livro de Fernando Rosas «Salazar e os Fascistas». Poderia ter sido outro. Mas este é um livro que deveria ser de leitura obrigatória no Ensino Secundário. Aliás, não entendo como nas disciplinas de Português, Literatura, Inglês, Francês ou Espanhol e Alemão há livros de leitura obrigatória e/ou recomendada e não existem para a História, Filosofia, Física e Química, Artes e Design, etc. Sinceramente, custa-me a entender.

Fernando Rosas (FR) inicia o estudo a elencar as lutas revolucionárias da esquerda logo após a Revolução de Outubro de 1917, todas votadas ao fracasso: em janeiro de 1918, guerra civil na Finlândia, novembro de 1918, revolução conselhista na Alemanha; Greve geral em Portugal e na Suíça; Em 1919: em janeiro insurreição spartakista de Berlim (10 dias); março: nova greve spartakista em Berlim; Comuna da Hungria,com Bèla Kun (4 meses); abril: insurreição comunista na Áustria (1 semana) e República dos Conselhos em Munique (Baviera); junho, segunda insurreição na Áustria; julho: República dos Conselhos na Eslováquia. Ainda no ano de 1919 greves significativas na Catalunha (com ocupações de fábricas e terras), ofensiva grevista que durou até 1920 em Portugal, greves rurais e industriais com ocupações no Norte de Itália e agitação social aguda em França. 1921, tentativa de greve geral na Roménia e mais uma insurreição na Alemanha, agora em Bremen. 1923: insurreição comunista na Bulgária e no Saxe e Turíngia, na Alemanha. 1926: greve geral na Inglaterra e em 1927, choques armados contínuos em Viena de Áustria entre socialistas radicais e polícia com um rasto de 189 mortos.

É possível que todas estas revoltas fracassadas tenham sido da responsabilidade da Internacional Comunista (IC) com a sua visão rígida de exportar a revolução socialista para todo o mundo. Sabe-se, por exemplo, que Zinoviev esteve poucos dias antes na Alemanha a preparar a insurreição e que Rosa Luxemburgo não concordou que houvesse condições objetivas para a desencadear, mas, ainda assim tendo participado nela, o que lhe custou a vida e a Karl Liebneckt da Liga Spartakista. Houve de facto influência nalguns casos, mas a proliferação em toda a Europa em países onde nem sequer havia delegados da IC leva Fernando Rosas a considerar que os operários e trabalhadores se encontravam numa situação precária quer de condições de vida, quer de repressão ativa a qualquer ação associativa, sindical ou política por parte do demo-liberalismo republicano ou monárquico-constitucional. O que se passou na Rússia em 17 terá aumentado o otimismo no seio dos operários e ousarem a insurreições preparativas de revoluções. Depois, recuaram numa atitude defensiva, decapitadas que estavam as suas direções.

Se quisermos ver, cronologicamente, a derrota sangrenta (muitos milhares de mortos, deportados, presos e torturados) na repressão a estes acontecimentos, veremos que se dão antes da ascensão dos movimentos fascistas. Não durante, embora houvesse tentativas de combater o fascismo tranformadas em arruaças e manifestações sem grandes consequências. Portanto, o movimento fascista é epocal e tem traços comuns embora divirjam aqui e ali nos seus objetivos e propósitos, assim como no modo de ação com vista a tomar o poder. Excetuando a Itália que, em 1922, entregou o poder a Mussolini, o combate por este foi mais tarde.  As «leis fascistíssimas» datam de 1928. A época do totalitarismo ronda aos finais dos anos 20, princípios dos 30. O fascismo aliou-se claramente às direitas: integralistas, nacionalistas conservadoras, patronais, tradicionalistas, cristãs ou plebeias e foi dessa fusão, em que não está isento a extinção de movimentos internos «inconvenientes» que o fascismo se reforça. Nunca foi sozinho para o poder. Foi-o acompanhado e afastando sem qualquer rebuço os seus inimigos internos e externos, pretendendo confederar num partido único submetido ao Estado totalitário, regido por um chefe, um fuhrer, um capo, um conductore ou um duce.

Ou seja, o fascismo não chegou ao poder devido às insurreições fracassadas. A esquerda operária e trabalhista já estava derrotada antes pela social-democracia e socialismo reformista que a viam como inimigo a abater. Foi relativamente fácil aos fascistas e aos nazis derrotarem, agora, os democratas já em decadência.

E aqui Fernando Rosas avisa-nos para as taxonomias que limitam a definição de fascismo. Ora uns são autoritários, outros são conservadores católicos, outros tradicionalistas monárquicos, e por aí fora. Se formos utilizar este processo de negação, ou seja, se riscamos destes regimes um só item que classificamos como «fascista» poderemos chegar à conclusão óbvia que só há um: o nazismo antissemita! Os regimes fascistas apresentam diferenças óbvias produzidas pelas condições de acesso ao poder.  Não encontramos milícias em todos, nem sistemas corporativos (aliás, também os houve no demo-liberalismo), tradicionalistas ou católicos, com constituições ou sem elas (Hitler, por exemplo, nunca revogou a constituição de Weimar de 1919. Não necessitava dela para nada!).

Sublinha Fernando Rosas que é esta diversidade que confere exatamente a identidade comum aos regimes fascistas. Não a identificação rígida de cada um como um «caso» externo à extrema-direita.
Pensemos nas vítimas e na política de extermínio lavada a cabo pelos regimes fascistas e nazis, principalmente na Alemanha. Fernando Rosas dá-nos uma visão interessante: a prática do extermínio já vinha de antes do nazismo sem que se tenha levantado um dedo. Vinha dos impérios e das políticas coloniais levadas a cabo, nos finais do século XIX e antes, pelas potências ocidentais. Fernando Rosas lembra-nos, num quadro, em que consistiu esse extermínio tomado como normal nas mentes das elites e populares do ocidente: Sri Lanka, 4 a 10 milhões de pessoas, em 1920 era somente de 1 milhão; Argélia: 3 milhões de pessoas entre 1830 e 70, depois da colonização, 2,3 milhões; Congo: 20 milhões entre 1820 e 1920, no século XX 10 milhões; Costa do Marfim, entre 1900 e 1910 passou de 1,5 milhões para 160 mil pessoas; Sudão: de 9 milhões entre 1882 e 1903 passou para 273 mil. São números brutais. É fácil perceber que, cultural e politicamente, a população europeia e ocidental, no seu conjunto, transporia com alguma facilidade esta ação de extermínio nas colónias para os «diferentes» judeus, negros, ciganos, homossexuais, doentes mentais e físicos na Europa, juntando os opositores políticos elevados a associais.

Diz Fernando Rosas: «O Estado Novo configurou um fascismo conservador, resultante da unificação das direitas autoritárias e antiliberais e das direitas liberais civis e militares, rendidas à fascistização progressiva desse campo político e ideológico que integra subordinadamente o pujante movimento fascista plebeu dos ‘’camisas azuis´´, expurgando este das suas lideranças críticas do «conservadorismo» salazarista. Essa unificação e homogeneização realiza-se em torno da particular e indiscutível chefia carismática de Oliveira Salazar, no quadro de uma ''ditadura de chefe de Governo'' que constrói um regime nacionalista, corporativo, antidemocrático, policial, de características essencialmente fascistas».

O capítulo V «Os desafios do presente» é obrigatório ler. O tom um pouco pessimista de Fernando Rosas perante a vaga de populismos de direita que aí vêm é exposta sob o ponto de vista económico, social e político da época atual  em que a esquerda está nitidamente na defensiva, apesar das enormes manifestações que se podem verificar em todo o mundo. Saibamos aprender com a História.

António Luís Catarino
18 de dezembro de 2019