sexta-feira, julho 26, 2019

Kenneth White e a Geopoética: a descoberta do Mundo Branco.

Kenneth White, autor de O Espírito Nómada, editado pela Deriva Editores em 2008
Foto Revista Caliban
Publicámos «O Espírito Nómada» de Kenneth White em 2008, na Deriva Editores, e com tradução de Luís Nogueira, pelo que este artigo é também uma lembrança feliz deste último, já desaparecido. O primeiro editou-o a Relógio d´Água em 1987, com tradução de Maria Regina Louro. Desde logo nos pareceu um autor peculiar e inovador na abordagem à poesia, dando-lhe novas formas e modificando-lhe o conceito habitual entre nós «os contemporâneos». Não deixa de ser paradoxal que em Portugal só se tenha publicado dois livros dele, quando se conhece a enorme bibliografia de Kenneth White, entre poesia, ensaios e prosa e acompanhado igualmente por um reconhecimento internacional, sendo professor de Poética em várias universidades. Sendo escocês das Terras Altas e crescendo nas suas costas foi, contudo, no rude noroeste da Bretanha onde se fixou permanentemente. Fundou, em 1989, o «International Institute of Geopoetics» http://institut-geopoetique.org/en/ (o seu site está em várias línguas entre as quais o português). Neste momento está ao dispor dos interessados um trabalho muito profundo e sério deste autor, também entrevistado, na revista «Flauta de Luz», nº6, (flautadeluz1@gmail.com) e sob a responsabilidade de Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques. Esteve entre nós, sem grande publicidade, num colóquio organizado pela FLUL entre 21 e 22 de Maio de 2019.

Kenneth White procura então o mundo branco que estando à nossa frente, não o procuramos mais virados que estamos para a tecnologia e para o consumo desenfreado aceitando «bovinamente» um falso bem-estar e as propostas ditas literárias e poéticas das grandes empresas editoriais. Tentaremos chegar a esse mundo através das poucas linhas deste artigo e sobretudo pelas palavras do próprio. Diz K.W.: «Desde há anos, se me acontece passar pelas cidades, frequento sobretudo as costas…Ao mesmo tempo limite e abertura, área de resistência e de dissipação, linha definidora e convite ao vazio, a costa é sem dúvida o lugar por excelência de uma poética de energia, de uma cosmografia em acção, de uma meditação movente» (Les Rives du Silence, p.7).Promove assim um método: o do nomadismo intelectual, tanto no espaço como no tempo e acrescenta que não há nele qualquer diletantismo, antes uma prática na qual «viagem e visão seguem juntas». Avisa, todavia: «não se trata de uma simples aventura, nem de uma simples expedição científica. O seu plano de trabalho comporta diversos estratos, está aberto a configurações inéditas. No seu cume, encontramos uma concepção de harmonia, uma estética (…)» Ou seja, promove uma ligação íntima entre a arte poética e a arte de viver, que, desde o fim dos tempos e a partir de meados do século XX passou a ser uma emergência.

Numa Carta a Portugal a propósito da Geopoética que faz parte da Flauta de Luz, nº6 (mereceríamos nós que ele se mexesse para nos enviar uma carta?) remete-nos para o «nosso» Espírito Nómada, em cuja terceira parte do livro, Poética do Mundo, trata dos Elementos da Geopoética. A sua leitura tornar-se-á mais clara. Quem quiser adquirir o livro nas livrarias já vem tarde. Agora só nos alfarrabistas ou pedindo à distribuidora da Deriva. Talvez haja por lá alguns. Os autores que mais lhe chamaram a atenção não deixa de ser singular: Fernando Pessoa no seu Ultimatum, o seu poema mais nietzscheniano e Miguel Torga. A este último dedica-lhe estas palavras: «a região natal de Torga foi o Nordeste, em Trás-os-Montes. Mas os trabalhos que dedicou a este território vão muito mais além de qualquer nostalgia localista». Para ele Torga é um proto-geopoetista.

Na excelente entrevista que Kenneth White dá a Jorge Leandro Rosa e Júlio Henriques paremos neste trecho: «O ‘’nómada intelectual’’ que eu sou, e que desenvolveu, com comprovados exemplos, a teoria prática do nomadismo intelectual no livro O Espírito Nómada, atravessa territórios e culturas em busca de elementos susceptíveis de ser incluídos numa possível cultura mundial. Situado no extremo limite crítico da sua ‘’própria’’ civilização, este nómada abre um caminho explorando margens de pensamento e de experiências esquecidas. Lucidamente. Sem se converter seja ao que for. Sem esperança. E por viver sem esperanças, nunca posso sentir-me desesperado». Kenneth White lançou aqui uma abertura para o que considera ser o «mundo branco». Ele define-se atrás como anarco-arcaico e será necessário lembrar este aspecto para que ele surja logicamente como um inimigo confesso do trans-humanismo que «acompanhado de robotização e de inteligência artificial, (…) é preciso resistência. Mais do que resistência, o desenvolvimento de um pensamento outro.» Mais do que voltar a um humanismo coagulado, construir um humanismo que rejeite o robô. Mais à frente, para que não permaneçam dúvidas sobre o humanismo que o autor pretende, ele explica melhor: «Enquanto isso [a adesão acéfala ao cientismo, à mitologia, ao misticismo, à religiosidade ou à espiritualidade, ou pior ainda, à má literatura], os inquisidores vigiam, os guardiães da fé antropocêntrica afiam as armas, os defensores de um humanismo míope, incapazes de conceber uma evolução fora dos sistemas conhecidos e que têm acumulados danos, estão prontos a asfixiar o planeta e a humanidade inteira em nome dos princípios que se pretendam humanistas, humanitários

Rui Bebiano, numa recensão ao livro na Ler, nº73, em 2008 o seguinte sobre Kenneth White e O Espírito Nómada:
«White prefere associar a erudição à forma de errância que alarga a leitura do mundo e, através de «universos de substituição», liberta o humano do «universo concentracionários das civilizações». Neste livro, escrito há duas décadas, enunciam-se alguns dos caminhos que essa escolha poderá abrir. Atravessando múltiplos saberes, o autor procura conduzir o leitor até esse território radical, que chama de geopoética dentro do qual pretende unir a presença no mundo a uma estética que seja poderosa, comevedora e bela. Se o prestígio do «nomadismo intelectual» se afirmou pelo menos desde os românticos, Kenneth White é dos primeiros a conferir-lhe uma base teórica. (...)»

Da Deriva Editores, escrevemos na contracapa de O Espírito nómada este trecho de Kenneth White:
«Desde há alguns anos para cá, a palavra “nómada” anda no ar. De um modo vago e que necessita apenas de tornar-se preciso, designa o movimento que se esboça no sentido de um novo espaço intelectual e cultural. Mas nas nossas culturas mediatizadas, cada palavra, de imediato sub-traduzida torna-se pretexto para uma moda. Do que aqui se trata não é de um assunto de moda mas de mundo.»
«O nómada que existe em cada um de nós como uma nostalgia, como uma potencialidade, não tem a noção de identidade pessoal, a «consciência de si» é-lhe estranha. Sem dizer «penso» ou «sou», põe-se em movimento e a caminho faz melhor do que «pensar», no sentido denso da palavra, enuncia, articula um espaço-tempo de múltiplas focalizações que é como que um esboço do mundo.
O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes.
Neste livro onde se encontrarão portanto mais peregrinações que problematizações, mais mapas que retratos, o prazer de peregrinar acaba por levar a melhor sobre o desejo de saber (aumentar e renovar o campo do saber) e no final da viagem será menos importante a questão de saber do a de ver no vazio.»

Para ver mais sobre a Deriva Editores e o autor

http://derivadaspalavras.blogspot.com/search/label/Kenneth%20White ou no marcador Kenneth White em baixo

De qualquer modo o pensamento de Kenneth White e a sua geopoética não se afasta muito da deriva que sempre propusemos nos 15 anos em que editámos. Foi dos melhores livros publicados, daqueles que nos orgulharemos sempre.

António Luís Catarino
Coimbra, 26 de Julho de 2019 (onze anos depois)

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Capa da edição de O Espírito Nómada de Kenneth White pela Deriva Editores
Autor da capa: Gémeo Luís

quarta-feira, julho 17, 2019

Série, a morte fica-vos tão bem: 1. Yukio Mishima

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25 de Novembro de 1970: Yukio Mishima apela à insurreição militar
antes de pôr termo à vida através de seppuku

Li Mishima muito novo. Se eu vos dissesse demasiado novo seria o argumento que Mishima utilizou para explicar o monte de livros que leu na infância e que o levou à melancolia que por vezes assolava a sua vida. Para mim e para os que me rodeavam, nos anos 70, o autor aparecia-nos como uma espécie de herói maldito, incompreendido, solitário e encontrava-se no panteão dos melhores escritores. Defendíamo-lo do facto de ser de extrema-direita porque esse rótulo era demasiado redutor para um tipo da sua estirpe. Bastava ser um excelente escritor que reflectia igualmente as nossas preocupações, frustrações e caminhava connosco na recusa total ao capitalismo que tudo subtrai à autenticidade e soma em voragem de espíritos livres. Bastava-nos isso e o seu visível niilismo. 

A sua morte deu-se a 25 de novembro de 1970 tentando um golpe de estado que fracassou num Japão já rendido ao esquecimento dos valores tradicionais samurais e da mística imperial. Agora pontificava o imperialismo americano. Asseguro-vos que tanto eu como os meus amigos pouco falámos então desse seppuku, ação que nos pareceu óbvia em Mishima, mas que contudo não a compreendíamos por completo. Li, na ocasião, O Marinheiro que perdeu as graças do mar e O Tumulto das ondas. Foi com alguma sensação de desconforto que vi as imagens de uma sessão de Yukio  Mishima na Universidade de Tóquio efervescente, em 1968, onde vários estudantes de capacete militar e em atitude agressiva o insultavam e não deixavam ouvi-lo. Recusou então protecção policial e clamava pelo que então, pensava, os unia: a sociedade moderna, o capitalismo, o consumo desenfreado e a tecnologia. Não suportava um exército japonês sem armas e o fim do culto ao imperador, factos que não podiam ser aceites pela esquerda. Nunca o poderiam ser.

Dois anos depois, faz outro discurso agora na parada de um quartel: sequestrou o ministro da defesa e ele mais seis seguidores com as tiras de kamikase na cabeça e fardados proclamam um novo Japão e apelam aos soldados que se revoltem e assumam o poder. Ridicularizaram-no e riram-se dele na parada do quartel enquanto as forças especiais entravam de rompante nas salas procurando o grupo de Mishima. Antes, porém, libertando quatro jovens seguidores pede ao seu braço direito que o ajude a fazer o seppuku. Ajoelhando-se com as pernas em cruz, usa um pequeno punhal para esventrar-se, enquanto o seu companheiro lhe corta a cabeça com um sabre. Depois, este último, mata-se.

Quando, nestes dias passei por uma livraria, vi um livro de Yukio Mishima que não sabia que existia. Vida à venda editado pela Livros do Brasil e com tradução de Hélder Moura Pereira. Levou 51 anos a chegar a Portugal. É evidente que não o li da mesma maneira que o lia quando tinha 16 ou 17 anos, mas a minha emoção foi a mesma. E relaciono-me, por vezes mal, comigo e com o mundo, porque sei no que ele se tornou e no pesadelo que poderá vir a tornar-se. O seu acto foi, até certo ponto, um mau presságio. Mishima era um soldado aristocrata adepto das artes marciais e obcecado pelo corpo. Escrevia dando asas à melancolia já citada e à raiva e mesmo ódio que sentia pelas baratas, ou picles avinagrados, que equiparava às pessoas com quem se cruzava na rua. Tentava extirpar a sua consciência provavelmente para se sentir num eterno vazio que só conquistou com a sua morte. Também via baratas a saírem das letras de jornal, metáfora para a manipulação das ideias e dos espíritos, através da conspiração universal que destruiria a heterogeneidade dos povos e particularmente a cultura japonesa.

Partilho convosco algumas dos trechos que sublinhei tentando entendê-lo melhor dois anos antes da sua morte, visto que este livro foi escrito em 1968:

«(…) – Sim – respondeu calmamente Hanio. – Porquê a surpresa? Já toda a gente percebeu que a vida humana não tem qualquer sentido e que as pessoas não passam de meras marionetas. Portanto, porquê tanta admiração?»

«(…) Agora, deve ser capaz de alcançar com os dedos o objeto duro e negro que está em cima da mesa. Segure-o bem. Isso mesmo. Mas não toque ainda no gatilho. Leve-o agora devagar até junto da cabeça. Tenha calma e relaxe os ombros. Sente-se melhor assim, de certeza. Pressione o cano contra a têmpora. Deve estar um pouco frio, mas agradável, não é? Transmite uma certa sensação de frescura, não acha? E também de alívio, como quando se tem febre e se aplica uma pacho de água fria na testa. Agora, com cuidado, ponha o indicador no gatilho…»

«(…) Pensando bem, é a primeira vez que olho de perto para um corpo sem vida. Nem os corpos da minha mãe e do meu pai cheguei a ver assim. Um corpo morto faz-me lembrar uma garrafa de uísque. Quando se pega nela e cai, o conteúdo derrama-se. Nada mais natural.»

«(…) Pensou em si como já tivesse morrido. A moral, as emoções, tudo o resto – nada fazia sentido. Estava completamente livre. E, no entanto, o amor que acabada de morrer sentira por ele continuava a pesar-lhe na consciência. Não chegara à conclusão de que outras pessoas não representavam para ele mais do que baratas?»

«(…) Há já muito tempo que Hanio não ia à cidade. Não se via qualquer indício de morte. As pessoas estavam metidas até ao pescoço na sua vida quotidiana. Pareciam caminhar como se fossem picles humanos.»

E é com estas expressões e outras bem mais violentas que um tipo como Mishima na voracidade de se eximir a qualquer emoção para sentir-se livre, cai. 

António Luís Catarino
17 de Julho de 2019

sexta-feira, julho 12, 2019

Populismo à esquerda, precisa-se. Ou talvez não

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Não se admirem com o título. Chantal Mouffe defende mesmo isso no seu livro Por um populismo de esquerda (Gradiva, 2019). José Neves, que leio sempre com agrado, prefaciou-o não sem, contudo, nos avisar que num momento de aumento do populismo de extrema-direita e de direita nacionalista esta hipótese não deve ser descartada pela esquerda. Neste campo, tal como a autora, coloca o Die Linke, o Podemos, o Syrisa, o Bloco de Esquerda, La France Insoumise de Mélenchon e Jeremy Corbin do Labour (lá mais para a frente, Chantal Mouffe cita igualmente Bernie Sanders) como um exemplo de uma identidade populista de esquerda. Sintomático é referir que a autora, só de raspão, analisa os regimes populistas da América do Sul que poderão, com algum esforço, ser considerados de «esquerda».

Não sei se é forçado colocar alguns destes partidos referidos atrás na área «populista de esquerda». Comecemos por analisar o conceito de «populismo». Um partido populista é definido pela sua demagogia, pelo carisma de um chefe ou líder, e promove um conjunto de propostas demasiado fáceis de entender pelo «povo». No fundo propõe o que se quer ouvir pelos descontentes. Utiliza igualmente uma linguagem simples, rasteira, contra as «elites» e utiliza a propaganda e os media com as suas «verdades irrefutáveis», mesmo que estas não se possam provar.

Chantal Mouffe (C.M.) diz-se gramsciana. Vai a Antonio Gramsci encontrar os argumentos para propôr a construção de um populismo de esquerda contraposto ao populismo de direita e de extrema-direita. Refuta o que ela chama de «essencialismo» na área da esquerda, reconhecendo nesse tal essencialismo um obstáculo sério à refundação da esquerda visto que esta se encontra amarrada a conceitos rígidos de «classe» e de uma suposta luta entre «capital e trabalho». Inclui-se no pós-marxismo. A Gramsci vai «captar a multiplicidade de formas de combate a diferentes tipos de dominação». C.M. redefine este projecto como de «radicalização da democracia» perante a existência de uma «cadeia de equivalências» numa sociedade plural que articulasse as exigências da classe trabalhadora com os novos (já não são assim tão novos, digo eu) movimentos sociais emergentes de modo a realizar um «querer comum» processo que desembocaria numa «hegemonia expansiva», sendo que esta última expressão é de Antonio Gramsci, de novo. O povo passaria então a ser um sujeito político.

Nada a opor, se não a sua inexequibilidade. Um dos companheiros de C.M. foi Ernesto Laclau que define populismo como a construção de uma barreira entre dois campos: os «miseráveis» e «os que estão no poder». Recusa a ideologia. Aponta para a construção de um regime político que pode assumir variadas formas e com vários enquadramentos sociais. Não pormenoriza ou exemplifica, nem C.M. se dá ao trabalho de o fazer.

Depois de elaborar um historial da vitória do neoliberalismo agressivo de Tatcher dos anos 80, tenta conjugar vários filófosos citando Habermas, Crouch, Rancière e Carl Schmitt (sem dizer donde este vem e que filósofo e jurista foi e ao serviço de quem!) que opõe democracia ao liberalismo e a possibilidade de uma oposição entre igualdade e liberdade. Aqui vem o populismo proposto: a diferença entre «nós» e «eles» que deve ser o alfa e ómega de toda a actividade do populismo de esquerda. Creio que Mouffe tem razão ao apresentar a raíz da radicalização da esquerda nos anos 90 e princípio do século XXI naquilo a que chama de «movimento das praças» onde coloca o Occuppy, os Indignados de Espanha e as múltiplas manifestações de protesto que assolaram toda a Europa. Agora o que vem depois, as perspectivas que coloca aos movimentos sociais e aos partidos da esquerda é o mais problemático. Mas, por defeito, não descartemos a hipótese que ela propõe: diálogo com os movimentos populistas de direita de modo a influenciar os apoiantes que embora incomodados com a presença da extrema-direita, estarão lá só pelos protestos quase sempre legítimos. Apresenta números com Corbyn a chamar gente do UKIP para o Labour e Meléchon a retirar perto de 16% de votos directamente à FN de Le Pen.

Penso que aqui tocou na ferida dos «essencialistas» pelo que explica adiante as «diferenças» destes populismos, os de direita e os de esquerda. Os primeiros, têm o sentido de nacionalismo, da identidade, da força e são claramente neoliberais, talvez mais agressivos que os ditos liberais, eles mesmos. Não acreditam na igualdade e são ferozmente individualistas. O populismo de esquerda traduz-se num aprofundamento e alargamento da democracia radical, que recusa ser directa, por sorteio (David van Reybrouk defende o sorteio contra as eleições num livro que me veio parar às mãos e citado pela autora) ou somente representativa, embora reconheça um papel importante a esta última. O que ela chama de um programa «agónico» (ou marcial e heróico?) não será mais do que a construção de um «povo» que entende o seu inimigo como a «oligarquia». Não rejeita traços afectivos (?) de nacionalismo, nem uma liderança, bem diferente de um chefe ou de um líder incontestado. Para isso não poderemos contar só com a classe trabalhadora. Temos de contar com uma «cadeia de equivalências» sempre em contacto plural com o movimento LGBTI, feministas, imigrantes, classe média em situação precária, movimentos ambientalistas e ecologistas, etc. O objectivo é criar uma situação que leve a uma «nova hegemonia que permita a radicalização da democracia».

Insurreição e revolução são alternativas fora do baralho de Chantal Mouffe. Afirma não precisar, a esquerda, de um corte revolucionário, mas sim de uma espécie de dètournement do regime liberal-democrático! Portanto, os dados estão lançados: trata-se de aprofundar uma «democracia radical e plural», influenciando e transformando as instituições democráticas existentes.

C.M. defende que, para atingir a formação hegemónica do populismo de esquerda, dever-se-á colocar em causa o campo económico «essencialista». Junta a esse campo a natureza cultural, política e jurídica, numa articulação de «senso comum» no quadro normativo de uma dada sociedade. Nem mais! ... Venha daí o «senso comum» para ajudar à festa! E eu que pensava num esqueleto jurídico forte que evitasse esse senso comum, expressão tão liberal que é. Ora, recusando a extrema-esquerda (ainda há pouco uma polémica no Bloco de Esquerda levantou-se quando Catarina Martins, numa entrevista, recusou esta matriz para o Bloco, substituindo-o por «radical») Chantal Mouffe apresenta-nos três tipos de política à esquerda:

«Reformismo puro» que aceita os princípios da formação social neoliberal.

«Reformismo Radical» que aceitando os princípios da ordem liberal, procura pôr em prática uma formação diferente.

«Política revolucionária» que exige uma ruptura total com a ordem social e política existente. São os nefastos marxistas-leninistas-trotskistas, bem como os anarquistas.

Como já devem ter reparado a autora pertence à segunda opção enquanto que os outros são os essencialistas (mesmo os que defendem hoje os princípios fundadores da social-democracia) que recusam ver o Estado como um campo neutro como os reformistas radicais o querem construir. Ou seja, o objectivo não é tomar o poder do Estado como diz Marx, mas «tornar-se Estado» como ela diz que disse Gramsci (em que conjuntura, pergunto eu?).

Reivindica, a autora, uma dimensão de luta anticapitalista, mas não dá essa hegemonia à classe trabalhadora. Hoje, segundo C.M. (e eu concordo) há cada vez mais um discurso anticapitalista em vastos sectores da população, mas não necessariamente de esquerda. Se assim é, só o reformismo radical está em condições de o captar. O que eu não consigo concordar é a aparente desvalorização do trabalho que parece emergir aqui.

Finalizando: depois de Marx, Bakunine, levarem das boas neste livro, nem Hardt e Negri estão a salvo. Defendendo a democracia representativa, Chantal Mouffe, ataca estes últimos autores por causa da sua estratégia de renúncia, deserção e êxodo para que se crie uma alternativa anticapitalista com a inevitabilidade de tomar o poder com uma imensa multidão (os 99%?) e apta a conquistar os meios de produção. É lógico, que tanto Hardt como Negri defendem a estratégia do «comum» que não existe em nenhuma Constituição iluminista. A propriedade ou é privada, pública, cooperativa, mas «comum» está quieto!... Mouffe chega ao ponto de não rejeitar os partidos políticos e os parlamentos actuais que ainda desempenham, com todas as maleitas, um papel simbólico. Pergunta-se, humildemente, de quê? Conclui, Chantal Mouffe, afirmando entre outras coisas, a inadequação da palavra «comum» e a crítica à crítica da democracia parlamentar, ainda fogosa, não fossem os reformistas radicais propor torná-la ainda mais representativa.

António Luís Catarino
12 de julho de 2019

segunda-feira, julho 08, 2019

21 lições para prevenir a catástrofe, contemplando-a


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Yuval Noah Harari

Gostei de ler Yuval Noah Harari e a sua trilogia de «Sapiens», «Homo Deus» e «21 Lições para o Séc. XXI».  O primeiro é o mais conseguido no âmbito da História e da Antropologia, embora a sua posição sobre a obra do Sapiens não seja nova. Lembro-me da Deriva Editores ter publicado o livro de John Zerzan, autor que esteve na organização das grandes jornadas de luta anticapitalista de Seattle, intitulado «Futuro Primitivo» que defendia uma tese ligeiramente diferente da de Harari. Para o primeiro, o Sapiens esteve dezenas de milhar de anos sem querer adoptar a agricultura e a domesticação confinando-se ao orgulho da caça e recolecção. Já para Harari as coisas não se passaram bem assim, tendo o homem tido todo o empenho em demonstrar as novidades técnicas e produtivas na agricultura e na domesticação de animais, destruindo a Natureza a partir desse momento. A base da desigualdade, concordam os dois, foi na apropriação dos meios de produção de uma elite política e religiosa assente no esclavagismo e na desigualdade de distribuição da produção com a respectiva acumulação de riqueza...até hoje. Bom, Engels já tinha aflorado e aprofundado o caso com os dados que tinha no séc. XIX, mas adiante.
Ora, com as duas últimas distopias de Harari, porque da construção de futuros sombrios se trata, saímos incomodados para não dizer pior - aterrorizados. O nosso autor é talvez a coqueluche do Facebook, Amazon, Google e de todas as companhias que laboram em Sillicon Valley, mas não deixa de nos avisar dos perigos da tecnologia que aí vem, pondo em causa a continuação da nossa espécie, tal como a vimos hoje. Vale a pena lê-lo por isso mesmo.

Quanto ao desafio tecnológico será muito difícil não concordar com ele na construção do futuro que aí vem: o nosso corpo não vai mais pertencer-nos. A biotecnologia, a nanobiologia e os algoritmos vão dizer o que é bom para nós. Aceitaremos, de bom grado, que nanopartículas naveguem alegres pela nossa corrente sanguínea e libertem através do controlo do nosso smartphone, um pouco de paracetamol para nos sentirmos menos febris, ou qualquer droga legal que compraremos na Google Store para nos sentirmos eufóricos. Se fumarmos um cigarro, o telemóvel avisa-nos que as nanopartículas detectaram, no pulmão esquerdo, 17 substâncias cancerígenas pelo que irão atacá-las de imediato. Se comermos uma chanfana, avisa-nos do alto colestrol no corpo, libertando a sinvastatina necessária. Ou seja, ficaremos num estado de doença permanente. Estaremos assim, com a biotecnologia pronta a funcionar com mais chip, menos chip no nosso corpo como quem faz um jogo electrónico conforme o dinheiro que dermos por eles. Tenhamos nós emprego ou trabalho, porque a robótica vai-nos tirar muitos, muitos empregos.

Vamos portanto ser imortais se assim tivermos milhões de dólares para o ser. Atenção: Harari não fala em imortalidade, antes em amortalidade, o que é diferente. Poderemos gastar milhões em biotecnologia e mudar partes do nosso corpo, mas se um veículo autogovernado de baixo custo (um Fiat Punto, modelo de 2052, por exemplo) não nos vir na passadeira, splash! lá vai a imortalidade e os milhões para o caneco.

Desta vez, isto não é como nas revoluções tecnológicas anteriores, não pensem nisso. Mais de metade da Humanidade ou ciborgs parciais que é o que seremos e que partilharemos o mundo com ciborgs totais, não terão nada para fazer e para não dar origem a revoluções, o melhor é, segundo Harari, dar aos excluídos e precários um Rendimento Mínimo Garantido. Onde vamos buscar o dinheiro? Simples: impostos substanciais sobre as indústrias informáticas, de robótica e farmacêuticas. Eles darão com todo o gosto, certezinha! Os robôs pagarão então as nossas necessidades básicas, seja lá o que isso for. As desigualdades serão enormes, com 1% da população mais rica a dominar mais de metade do PIB mundial e a viver em bolhas climáticas purificadas nas cidades muralhadas, enquanto que nós aguentaremos com o sol tórrido e o charco de águas do mar que invadirão as cidades costeiras. Claro que o algoritmo não pode prever as mudanças climáticas (nem isso o deve incomodar sobremaneira) pelo que as migrações serão bíblicas. Para onde, não se sabe ainda bem.

Por falar em Bíblia, encontramos, segundo a minha opinião, a grande contradição de Yuval Noah Harari. Segundo ele, os futuros algoritmos que estarão em permanência ligados ao nosso cérebro, vão dar-nos o que desejamos, como já se disse acima, e, dar-nos-ão, para além do electrodoméstico ideal, o melhor político populista, sustentado nas fake news, segundo o nosso perfil e escolhas nas redes sociais e teremos acesso ao nosso padre, pastor, mesmo um emir ou um lama. As religiões decairão como nunca e o Iluminismo e a democracia serão obsoletos. Dei comigo a pensar exactamente o contrário, mesmo que o Iluminismo esteja moribundo. Harari não fala em Resistentes, em Replicants como em Blade Runner ou como no Manifesto Comunista, embora defenda que o futuro tenha mais a ver com Marx do que com Spielberg.

Haverá sempre resistência e construção política contra a nova «humanidade baseada na robótica e na biotecnologia» que não é muito aprofundada em Harari. Ou seja, o desaparecimento da conjunção inteligência/consciência, sendo que a primeira ganhará no futuro separando-se irremediavelmente da segunda. Não será assim, porque o Homem não abandonará a consciência e essa vem do socius, da vida em comum, da necessária reaproximação à religião e ao político. Por mim, que me religuei ao catolicismo de que estava afastado há muito, não penso deixar a Humanidade entregue a si própria e penso lutar contra o tecnofascismo através da resistência/inteligência/consciência

Se essa consciência se perder, não teremos nunca dor, não amaremos (não acredito no algoritmo para este particular), não nos indignaremos, não nos emocionaremos, não ajudaremos o outro, não resistiremos, nem construiremos o político, nem a utopia. Quereriam viver num mundo assim?

Por fim, a lição 20 e 21 de Harari, sofre de um enigma que ele próprio levantou: sendo budista, não interferir será a solução lógica para ele. A pura contemplação e o pacifismo pode ser a travagem deste autêntico ataque à Humanidade sendo que deveremos estar atentos à acumulação de poder e riqueza dessas supercompanhias com que o mundo nunca sonhou. Creio resolutamente que estar atento não basta.

António Luís Catarino
8 de Julho de 2019


terça-feira, junho 25, 2019

Livros usados: algumas inquietações


Gosto de comprar livros em 2ª mão. Agora começam a aparecer nos alfarrabistas os do meu tempo de juventude que, por uma razão ou outra, deixei de ter. Compro-os pouco a pouco. Algo estragados, com folhas dobradas, páginas já amarelecidas e sublinhadas. Não me importo. Quando aparece um sublinhado num verso, ou em dois, tento perceber a mensagem (se o era) que o antigo leitor ou leitora deixaram. Neste «Signe Ascendant» uma tal Isabel C. deixou-me que eu lesse o seu:

Qui n'a rien de plus pressé
Que de se lacérer lui-même

Mais inquietante que a poesia de Breton.

sábado, junho 22, 2019

Há as palavras cruzadas, o sudoku e o assassínio de Olof Palme

Organigrama dos nomes envolvidos no assassinato de Olof Palme segundo Jan Stocklassa
e baseado no arquivo de Stieg Larsson. Do livro «Stieg Larsson», saído há pouco.
Nestas ocasiões em que o trabalho aperta em burocracias dementes e sem sentido, deu-me para comprar o livro de Jan Stocklassa titulado de «Stieg Larsson», na esperança de me encontrar com alguma paz, sem que me desse ao trabalho de pensar muito. O policial não é bem o meu género, mas li toda a saga (3 volumes mais 2 que foram editados após a sua morte prematura) de «Milennium» deste jornalista sueco. Também vi o filme homónimo com Craig como ator. O que Jan Stocklassa, outro jornalista de investigação sueco, faz é em si muito simples. Conseguiu ter acesso aos arquivos de Larsson sobre o assassínio de Olof Palme nunca resolvido pela SAPO ou pela polícia sueca. Houve vários acusados, mas posteriormente libertados...alguns para morrerem em seguida, em acidentes de automóvel, com overdoses, etc. As testemunhas eram contraditórias, em particular a de Lisbeth Palme que se feriu levemente com um segundo tiro. A pista de Larsson apontava para a extrema-direita. A de Stocklassa, além de concordar com ele, acrescenta mais conexões. E que conexões! Tive o cuidado de dar a Vossas Excelências que me lêem (estou a atingir mínimos históricos no Facebook!) o organigrama que ele fez com alguns dos nomes que estão claramente ligados ao assassínio e nunca verdadeiramente interrogados por quem o deveria ter feito. Além disso, foram relativamente fáceis de encontrar pelo jornalista. A verdadeira teia vai desde a extrema-direita sueca (que fez o papel de autêntica papalva como de uma fantoche se tratasse, só se dando conta disso tarde demais), a CIA, O MI6 inglês, a Coordenação superior da SAPO, o almirantado, os ricos aristocratas industriais suecos que dão dinheiro a rodos para a extrema-direita, a Mafia italiana, a conexão internacional da venda de armas para a guerra entre o Iraque-Irão (lembram-se do papel de Portugal nisto?), a UNITA com um nome que não vem no organigrama mas que se chama Luís Albuquerque representante do movimento na Suécia, a Polícia Política sul-africana do apartheid com Pik Botha à cabeça e a DINA chilena. Ora, o meu cuidado foi pôr a vermelho os que sofreram «acidentes» fatais na Suécia ou os agentes que estavam para depor na Comissão Verdade e Reconciliação na África do Sul já então de Nelson Mandela, acidentes esses tão brutais como brutal era a polícia branca e fascista de Botha. Todos eles morreram e alguns com as suas famílias, como era comum no modus operandi desta polícia. Mas sul-africanos, suecos ou de outras nacionalidades nenhum morreu na cama! A amarelo coloquei os que sabiam com antecedência e que terão promovido e ajudado material e logisticamente ao assassínio de Palme. Hoje alguns estarão vivos.

Mas porquê a morte Palme? Ora, sabe-se que ele estava nas vésperas de denunciar a conexão da venda de armas sueca que passava pela África do Sul, Chile, Chipre, Seichelles, etc...Alguns empresários milionários chegaram a estar detidos pelo Departamento de Finanças e estavam prontos a falar. Por outro lado estaria em preparação uma limpeza da extrema-direita nos quadros superiores da SAPO e Marinha suecas. O apoio À SWAPO, ao ANC e igualmente à Frelimo e a Moçambique, tal como à Namíbia, também não passava despercebido pela polícia sul-africana que matou a mulher de Joe Slovo e o secretário-geral do PC, Kani, entre muitos outras vítimas, quer à metralhadora, quer com cartas-bomba. Os refugiados chilenos de Pinochet eram aos milhares na Suécia o que deveria irritar a DINA. Mas adiante que vão conhecer alguns nomes:

No centro de tudo, ou seja, o cérebro operacional da operação, está um indivíduo perigoso que se move particularmente bem nos movimentos mundiais da extrema-direita:

Bertil Wedin, que Stocklassa entrevistou em 2016 já velho e no Chipre turco, onde não há tratados de extradição para nenhum país. Viveu sempre lá e de lá vieram algumas das diretivas mais importantes deste caso. Simpático, não negou nenhum dos crimes de morte, que foram vários. Chegando ao caso Palme, foi propositadamente vago. Mas afirmou que sabia de antemão o que se preparava. Agora reparem nas linhas esquerda e direita ao lado deste nome:

Craig Williamson – MI6
Pik Botha – Ministro dos Negócios Estrangeiros do apartheid sul-africano.
Alf Enerstom – Perigoso e assassino operacional. Matou várias pessoas fora da Suécia, por encomenda. Liderou e uniu vários movimentos de extrema-direita. Tinha sempre muito dinheiro disponível. Entrevistado por Stocklassa disse conhecer antecipadamente o atentado. Esteve presente no local. Ainda vive, hoje está num hospício, mas mesmo assim acompanhado por um «secretário» que não o deixa falar demais.
Jacob Thedelin – Presente no local do assassinato. Judeu, foi dos poucos que teve, rapidamente e após o crime, direito ao difícil visto de residência permanente em Israel. Nunca mais saiu de lá o que poderá colocar a Mossad no terreno. Provavelmente foi o que carregou no gatilho, de um modo canhestro, de amador. Perfeito para ser um «bode expiatório». Ligado à extrema-direita dos Democratas Suecos, hoje representados no parlamento e no governo.
Eugene de Kock – Operacional da polícia sul-africana. Estava na Suécia na altura do atentado. Pensa-se que nas imediações do local. Acompanhado por mais quatro agentes, saem da Suécia no dia seguinte, sem quaisquer problemas.
William Casey – Não o  conhecem? Chefe da CIA na época Reagan. Provou-se contactos com Bertil Wedin e com ligações fortes à conexão da venda de armas americanas (ver em baixo Oliver North).
Mario Ricci – Ligações à Máfia italiana e vendedor internacional de armas. Joavan von Birchan era o seu contacto na Suécia. Vendiam principalmente para o Irão através de navios que faziam escala na África do Sul para outros barcos. Quando Olof Palme tentou barrar este negócio, os aviões da CIA fizeram o resto, com Oliver North à cabeça. Lembram-se do seu silêncio e do «julgamento» dele? Há muito que está em liberdade. Considerado um herói pelos republicanos e democratas americanos.

É preferível ficar por aqui. Ainda há quem queira ou quem possa falar, mas por que o haveria de fazer passados 30 anos do assassínio (foi em 1986) e correndo o risco de cair no ridículo ou, pior, um maluquinho que acredita em teorias da conspiração? Seria, quiçá, mais uma fake news?

Lindo, para quem quer um livro para não pensar muito, somente para apaziguar o trabalho.

António Luís Catarino
Coimbra, 22 de junho de 2019

quarta-feira, junho 19, 2019

«Quimeras», ou as crisálidas de Cristo de Sanmartino

Quimeras
«Quimeras». Foto: Teatro Nacional S. João
Entrar no claustro de S. Bento da Vitória no Porto e sair de lá sem poder expressar uma só palavra que destruiria toda a emoção criada com o espetáculo único do TNSJ e da Karnart. Recuperar mais tarde. Sentir mais tarde. Compreender a transformação dos corpos, mais tarde. Não há lugares sentados. Deambulamos pelo claustro agora fechado por entre corpos femininos fechados sobre si próprios e uma luz contrastante. No meio do claustro, uma cama funerária com um corpo masculino nu envolto num sudário transparente branco e uma rede negra. Luís Castro e Vel Z lembram, na apresentação escrita do projeto, que é uma reconstituição vívida do Cristo jacente de Giuseppe de Sanmartino, de Nápoles. À sua volta os corpos femininos envoltos igualmente num tecido branco transparente. Os seus olhos têm uma íris branca, num ricto imperscrutável. Ouve-se uma música longínqua. Num dos cantos do quadrado formado pelas mulheres, logo atrás do Cristo jacente, uma figura diferente, a rainha das crisálidas, vestida de negro e máscara de luz, aquela que ao som da música observa os corpos das servas a elevarem-se até estarem erectos. Leva uma hora os seus nascimentos. As crisálidas estão prontas e juntam-se, leves e ondulantes, à cama funerária de Cristo. A rainha negra gira o sudário negro no seu corpo, rodando em si própria até que o destapa totalmente. A música barroca e a luz atingem o seu auge. As crisálidas dão vida à vida numa ressurreição subentendida. Os autores chamam a este exercício de perfinst ou body art. Sim, mas eu chamei-lhe na ocasião, uma experiência plástica, musical e teatral entre o maravilhoso ou a pura e crua beleza.

António Luís Catarino
14 de junho de 2019

segunda-feira, junho 17, 2019

Tamila Kharambura e Pinho Vargas. Na Orquestra Sinfónica do Porto

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Tamila Kharambura
Foto: Casa da Música


Sempre me habituei a ouvir a Orquestra Sinfónica do Porto e digo-vos que vale a pena ir ouvi-la na Casa da Música sempre que puderem. Os músicos mudam, os maestros também, mas consolida-se uma opção clara pela qualidade e pela fuga ao facilitismo. Parece que cada maestro que vai, deixa um rasto inesquecível. Lembro-me de alguns.

A última vez que a vi (e ouvi) foi há pouco tempo. Dirigida pelo maestro Pedro Neves, ouvimos as composições de Pedro Amaral, de Clotilde Rosa e de António Pinho Vargas. Se o primeiro se ouviu com prazer, a segunda levanta-me já algumas questões que possivelmente, para um leigo como eu, nada tem a ver com a harpista/compositora tardia. Segundo o que se percebeu Clotilde Rosa, que nos deixou em 2017, pertenceu ao ensemble de Jorge Peixinho que nos anos 70 os provoca desta maneira: cada um dos músicos comporia uma peça que, no final, se uniam numa única composição. Desafio aceite e Clotilde Rosa não mais parou com o «bichinho » da composição. Atenção que não era qualquer músico que tocava com Peixinho, portanto a qualidade da música/compositora é inquestionável, lembrando igualmente que a sua formação foi construída no Grupo de Darmstadt, com Boulez, Stockhausen e Ligeti antes de Peixinho. Portanto, mal de mim vir para aqui analisar isto ou aquilo. Falo, por isso, de emoções que a música me cria e particularmente a música concreta e contemporânea que sigo com alguma regularidade. Ouvir Clotilde Rosa foi bom, mas custa-me enquadrá-la na música concreta. São demasiados bombos, metais e tímbales que exportam a euforia da autora. É possível que nos anos 70 a alegria fosse a regra (foi e eu vivia-a) e as composições de Rosa tenham essa impressão. Ou seja, a harmonia está muito presente o que me fez interrogar e achá-las deslocalizadas. Só ultrapassei esse desconforto com a última composição (foram apresentadas três sem título) quando entrou o piano de Jonathan Ayerst. Mas aparte disto há uma terrível injustiça para com Clotilde Rosa. A Secretaria de Estado da Cultura encomendou-lhe desde 2007 várias obras que ela transformou em longas composições e óperas...nunca ouvidas! Só a Orquestra Sinfónica do Porto pela mão de Pedro Neves inaugurou este trecho. Uma vergonha, portanto, não sabermos mais sobre ela e principalmente as últimas composições.

António Pinho Vargas estava presente na Casa da Música e teve uma enorme ovação merecida com o seu Concerto para violino in memoriam de Gareguin Aroutionian cuja estreia foi a 7 de fevereiro de 2016 com a Orquestra Metropolitana de Lisboa no CCB. Pinho Vargas foi, é, e será sempre um compositor extraordinário. Dos poucos que já nos restam dessa geração. A ovação foi também por isso e ele sentiu-o. A surpresa final foi a apresentação de uma violinista do outro mundo: a ucraniana Tamila Kharambura. Não esqueçam este nome. Extraordinária. Eleva-nos sei lá para onde. Se não a conseguirem vê-la e ouvi-la ao vivo (vive em Lisboa de tempos a tempos), há um CD da sua estreia editado pela mpmp em 2017.

António Luís Catarino
Coimbra, 14 de junho de 2019

terça-feira, junho 11, 2019

Sheila Fitzpatrick e «A Revolução Russa»

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Sheila Fitzpatrick, autora de «A Revolução Russa» (Tinta da China)

Dois anos após o centenário da Revolução Russa a literatura é vasta e ainda a procissão laica vai no adro. Sheila Fitzpatrick editou «A Revolução Russa» e, se esperavam algum tema novo, alguma nova tese, algum documento inédito, relatórios intermináveis das catacumbas da Tcheka, da GPU ou do KGB, ou do PCUS, desenganem-se. É cansativo ler mais um livro sem que haja uma simples mais-valia sob o tema. Se Lenine se apoiou em Estaline para afastar a Oposição Operária, ou não. Se o seu testamento ordenou o afastamento de secretário-geral do Partido Bolchevique por ter sido «rude» com Kupriskaya e não serviria para as pontes que teriam de ser (ou não) construídas entre as várias sensibilidades comunistas no partido, ou com os socialistas revolucionárias de esquerda e mesmo com mencheviques. Se Molotov afirmou que Lenine era mais inflexível que Estaline (sendo ele um homem de mão deste último). Se o «terror» foi engendrado já no tempo de Lenine e se o Exército Vermelho e os bolcheviques se basearam ou não na Guerra Civil, ou cimentaram as expropriações da terra e das indústrias. E Lenine estaria de acordo com as perspetivas da NEP, apoiando a sua continuidade e esclarecendo (coisa que nunca o fez) que o verdadeiro socialismo residiria nesta solução? E Bukarine, o tal da Oposição de direita reuniu-se ou não em segredo com a nova troika de Trotsky, Zinoviev e Kamenev, antes desavindos? Quereria o partido bolchevique imitar o Terror de 1793/94 francês? E o medo do Termidor levou-os às execuções em massa? E a relação muito discutível com os camponeses e com os Kulaks seria uma forma de criar uma proletarização rápida nas cidades? E a Grande Fome foi provocada deliberadamente, para que houvesse um êxodo rural igual ao movimento das enclosures britânicas? Teriam as massas não compreendido totalmente as reivindicações de Trotsky e da Oposição de esquerda, ostracizando-as não pelo medo, mas remetendo-as para o «caixote de lixo da história» termo paradoxalmente dito por este? Estaline defendeu com unhas e principalmente com os dentes o primeiro plano quinquenal que se baseava na industrialização forçada de ferro e aço, ideia original de Trotsky que o defendeu igualmente, sendo copiado pelo burocrata-mor. Talvez isso explique, segundo alguns historiadores e pela autora, que Trotsky, já depois da «Revolução Traída» e das tarefas de formação da IV Internacional, nunca tenha ousado criticar a dimensão económica da URSS, motivo de querelas dentro do movimento. Este ficou-se somente pela crítica da burocracia que, segundo a autora, seria incompreensível pelas massas revolucionárias russas que viam nesta burocracia a subida de escalão social do proletariado!! Santa ingenuidade.
Esta enorme quantidade de «ses» nunca afirmando ou esclarecendo factos históricos que poderia ter à mão é tão mais estranho porque Sheila Fitzpatrick, professora, teve acesso facilitado e privilegiado a documentos importantes da história soviética chegando mesmo a publicar um livro titulado de «A spy of soviet archives» não traduzido em Portugal. Pois o que encontramos em «A Revolução Russa» (Tinta da China) é mais do mesmo. Violência, a raíz do comportamento humano, as revoluções comem os seus melhores filhos...etc.etc.
O livro lê-se com agrado e com uma facilidade diretamente proporcional às dúvidas alimentadas.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de junho de 2019

sexta-feira, maio 31, 2019

A beleza de «Breviário Mediterrânico» de Predrag Matvejevitch

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Creio que foi em 1991 que a 1ª edição de «Breviário Mediterrânico» de Predrag Matvejevitch foi editada em Portugal. Nessa ocasião comprei este livro sem que a crítica lhe desse muita importância, mas eu também nunca dei muita importância à crítica. Estamos, pois, empatados. Li-o de um fôlego e maravilhei-me com ele. A editora foi a Quetzal, a tal da ave trepadora, uma metáfora, certamente. Comprei, agora, a 2ª edição que a Quetzal diz que é a primeira. Na ficha técnica nem sequer está essa 1ª edição registada. Mistérios. Acresce que esta edição está muito melhorada, com ilustrações de mapas e desenhos antigos que são uma mais-valia para o livro, não fosse o prefácio indigente de uma folha A4 de Francisco José Viegas e o posfácio de Robert Bréchon. Dispensamo-los de todo e empobrecem claramente a edição. Salva a apresentação da obra, Claudio Magris.
Penso que quando saiu a obra já estava em curso a guerra fratricida entre croatas, sérvios e bósnios que implodiu a Jugoslávia. Predrag Matvejevitch é croata e morreu em Zagreb em 2017. Como sinto a perda de bons escritores, os «meus» escritores, também eu senti a sua ausência. Nunca em lado nenhum do «Breviário» se sente ódio, rancor, exclusão. Pelo contrário: o seu discurso é de paz absoluta, de leitura lenta e atenta às margens do Mediterrâneo. Como ele soube descrevê-lo! As pedras, as areias, os seus faróis, as cidades e as populações que as habitam, as religiões, os seus mosteiros e conventos, as mesquitas, as ilhas e as lendas, os seus barcos altivos, os corais e as árvores que explodem de odores diversos e o modo como consegue conviver tudo isto ainda no Mediterrâneo circundam as expressões mais fortes do «Breviário». É um verdadeiro livro de História sem pretender qualquer pedagogia desnecessária ligada à disciplina. Leiam-no, simplesmente. É um prazer raro. E está lá João de Barros e Pedro Nunes, Gama, Fernão Mendes Pinto, Magalhães, Colombo e os cientistas catalães, árabes, cristãos e muçulmanos, judeus e gentios, comungando as cores, os ventos, as marés e as correntes mediterrânicas. Também Pessoa com a sua questão em «O Marinheiro»: «o mar de outras terras é belo?». Os marinheiros têm essa resposta secreta. Ou Borges: «o mar é uma antiga linguagem que já não consigo decifrar». 
E voltamos às ilhas mediterrânicas belas como só elas são, mas igualmente cruéis como também sabem ser quando os homens as transformam em prisões como aconteceu a Bonaparte, a Trotsky ou a prisão de Kotor que serviu para os opositores ao fascismo, ou a ilha de Rab, um campo de concentração italiano para judeus, ou ainda a ilha de Goli Otok onde estavam presos os jugoslavos que não tinham aceitado a rutura titista (talvez a única prisão para estalinistas em 1948?, digo eu...). E Durrell, sempre Durrell, na sua ilha de Corfu, que o levou a escrever o «Quarteto de Alexandria». E Camus, Aldous Huxley e tantos outros.
Ler o «Breviário Mediterrânico» limpa a alma e a vida. Da morte fica-nos, paradoxalmente, o teatro e a evocação de Leburna, ator de Sisak, dos fins do século III, cujo epitáfio é este: «Muitas vezes morri em cena, mas nunca desta morte». 
A representação de Predrag Matvejevitch do «teatro da vida» mediterrânico descreve assim as praças com uma beleza literária ímpar: «O cais, o porto, o molhe e a ponte do navio, a praça pública, o mercado e a venda de peixe, o estaleiro naval, os espaços que rodeiam fontes e faróis, que contornam igrejas ou mosteiros, os cemitérios e o próprio mar tornam-se assim, de tempos a tempos, palcos ou teatros ao ar livre. Lá se representam diversos papéis, insignificantes ou fatais, comédias e dramas, quotidianos e eternos. Os séculos estão cheios de espetáculos destes: passado e presente do Mediterrâneo, a sua história» (pág.88). A rigorossíssima tradução é de Pedro Támen.

Coimbra, 31 de maio de 2019
António Luís Catarino


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Predrag Matvejevitch
Foto: Getty Images

sábado, maio 18, 2019

Intervenção nas Conversas de «Cidade Exposta: Coimbra». 27 de abril de 2019

Intervenção nas conversas de «Cidade Exposta: Coimbra» de António Alves Martins. Sábado, 18:30, Liquidâmbar. 27 de abril de 2019

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Teddy Boys, Londres, anos 50

«A cidade existe e tem um simples segredo: só conhece partidas e nunca regressos»
Italo Calvino


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Revista Pravda, nº1
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Banalidades de Base
em Portugal. 1969

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CAP: celebração do 1.000.55º aniversário de Coimbra
Esta frase de Calvino foi o ponto de partida de uma conversa proposta por António Alves Martins enquadrada na sua exposição fotográfica «Cidade Exposta: Coimbra». Das conversas existentes no espaço do Liquidâmbar, calhou-me a mim tentar debater com as pessoas as possibilidades das partidas e regressos a uma cidade. Sobre o meu regresso definitivo a Coimbra passado quase 30 anos de ausência e que me deram a possibilidade de conhecer outras cidades, não tenho a certeza de concluir em absoluto com o desafio de Italo Calvino. Comigo, sim, tive muitas partidas que foram umas dolorosas, outras muito menos. Estas últimas, foi onde me senti, ou fizeram sentir-me, um estrangeiro. Como estrangeiro que fui, nem sequer uma despedida se deu. Vejo-a cartografada no mapa e eis tudo. Com outras foi mais complicado. Tenho o Porto comigo. Cidade estranha, que me era antipática pela suposta rudeza das gentes, recebeu-me com um abraço que ainda hoje sinto a falta. Acarinhou-me, estudou-me, fez-me sentir portuense, sem que, de tempos a tempos, me lembrassem a minha condição de «sulista». Parti do Porto com um aperto na alma. Foi lá, cidade litoral, que aprendi o mar. Velejando pelas suas águas pouco mansas vi o Porto de longe com o cheiro do mar, bem diferente do odor do rio Douro que lá desagua, apertado e altivo. Entrar no mar de Matosinhos, seguir pela Foz e atracar na Ribeira do Porto é um perigo real, mas uma necessidade imperiosa de me tornar um deles – um portuense.  Entrar, na Foz, significa estar ao dispor de três forças contrárias: as correntes de oeste-leste, os ventos do norte e as marés fortíssimas. Quando o fazemos com êxito, clamamos vitória.Quanto ao estranho regresso a Coimbra, vindo do Porto, os sentimentos são contraditórios. O facto de eu ter aí nascido e estudado uma parte do liceu, dos meus avós e pais terem morado na mesma rua e ainda sentir a excitação dos vários regressos a Coimbra em férias ou vindo do colégio para onde fui (ainda hoje evito entrar na cidade de Tomar por causa disso) descendo Santa Clara, faz-me recordar o início do meu tempo e do tempo dos meus pais, ou que eles contavam. Coimbra da II Guerra Mundial e a rivalidade entre o British Council e a Casa Alemã. A guerra de propaganda que ambos ativaram junto dos estudantes que se tornaram claramente anglófilos. As manifestações do fim da guerra e, muito depois mas já na memória dos meus pais e tios, a campanha de Humberto Delgado e a «modernidade» que aí despontou com os teddy boys, emanação da juventude londrina e das cidades operárias inglesas e que Coimbra aportuguesou para cowboys que se tornaram o nome da claque mais importante da Académica. Operários em Coimbra ainda os conheci, orgulhosos da sua condição e distribuídos pelos clubes populares e Ateneu onde desenvolviam a resistência ao salazarismo. Tal como os velhos intelectuais da Brasileira estavam enquadrados politicamente pelo Partido Comunista, muitos sem o saberem. Daí a força da Presença e do neo-realismo conimbricense que até ao final dos anos 70 ainda perduraram, não sem que a crise estudantil de 1969 fizesse abanar essa realidade. Em 69 a Internacional Situacionista tinha a sua influência no Conselho das Repúblicas, sendo denominadas CR’s, os mais radicais do movimento e que se opunham já aos delegados das faculdades organizados pelo PCP. Quando fui para o liceu, no meu 6º ano, as coisas em Coimbra tinham-se modificado muito. Campeavam os grupos maoístas, alguns trotskistas e a UEC, organismo autónomo da juventude estudantil do PC. Todos tinham organizações semiclandestinas para combater o marcelismo e com elas a guerra colonial. Paralelamente a estes começaram a aparecer pela Praça da República os hippies, com os quais nunca me identifiquei. Irritava-me, neles, a promoção do peace and love quando sentia que estavamos verdadeiramente em guerra. Ora, quando se deu o 25 de abril, toda as liberdades foram possíveis e os contactos com o ocidente, mais profícuo. Se o neo-realismo era uma realidade em Coimbra até ali, e talvez nos dois ou três anos que se lhe seguiram, as coisas começaram a mudar. Os situacionistas que sempre tiveram uma presença importante nos círculos intelectuais da cidade e que foram referidos por Vaneigem no seu livro «Arte de Viver da Geração Nova» começaram a ter as suas publicações divulgadas nos cafés. Não nos podemos esquecer que do mesmo autor foi publicado em 1969, com tradução de Manuel Reis e pela Almedina, as «Banalidades de Base» sem referência ao autor, logo depois do maio de 68. Assim, nos anos 70 iniciou-se a publicação da Subversão Internacional, com coordenação de Júlio Henriques, a Toupeira Vermelha da LCI, o Esquerda Socialista do MES, o UEC, o Luta Popular, o Combate, a Batalha e a Voz do Povo, todos enquadrados entre as diversas sensibilidades políticas. Nos anos 80 desponta uma das revistas mais importantes de Coimbra: a Fenda e a Pravda, coordenadas por Vasco Santos. Também a Via Latina da AAC teve um papel importante nas alternativas que, entretanto, se desenhavam enquanto permitiram já que os dinheiros vinham da direção da própria associação que rapidamente lhes fechou a torneira. O Grupo Ecológico da AAC tinha igualmente o seu papel de luta e por um ambiente sustentável, verdades que ninguém quis ouvir em 80 (muito pela divulgação de Francisco Pedroso Lima que sairia igualmente de Coimbra), com os resultados que hoje todos sabemos. Lembro-me da publicação «A Urtiga». No final do ano de 1986 eu e o Tó Martins entrámos na Centelha, uma cooperativa editorial nascida nos idos de 69 e que Soveral Martins coordenava. O nosso objetivo era a renovação da editora já um pouco esclerosada e cuja dinâmica tinha conhecido melhores dias. Editou-se então a poesia de Kavafy, de Sena, António Ramos Rosa, Jorge Sousa Braga, Gil de Carvalho e Phillip Larkin, tudo pela mão do Tó. Da minha parte, mais de intervenção política, editou-se Félix Guattari e Toni Negri, de Anabela Carvalho, «O Serviço Social no Estado Novo» e uma publicação em rede internacional com um boletim «Ekomedia Portugal» que deu origem ao movimento Indymedia.  Desde os anos 70 que o movimento punk existia, juntando-se mais tarde a cena New Wave  principalmente em Londres.  Nessa ocasião, tentámos percebê-los e rapidamente demos conta que as letras dos temas dos Clash, Joy Division, Sex Pistols, Stranglers e tantos outros vinham da continuidade dos Velvet Underground de Lou Reed, de Horses de Patti Smith, ou dos Doors de Jim Morrison. Foi uma festa. Também o Jazz na sua forma de Beebop e Free conseguiu conquistar-nos. Não os largámos mais até hoje.


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Punks, Londres 1977
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Coimbra 2019. Representação/Diversão do Holocausto por estudantes
do Curso de História da FLUC
A questão que se colocou era até onde o provincianismo de Coimbra, cidade que amava, iria. Se se podia derrotar ou não. Apercebi-me então de quanto o difícil era. Tarefa impossível. As coisas estavam a tornarem-se feias. O Círculo de Artes Plásticas da Túlia, desde os anos 70 estava a ser objeto de verdadeiro ódio por parte dos comunistas, boicotando e pretendendo até censurá-lo como aconteceu logo a 27 de abril de 74 com uma instalação de uma simples cadeira vazia com a bandeira de Portugal no Parque da Sereia. Estiveram lá o Alberto Carneiro e o Dixo, para além de António Barros da Po.Ex e da Fluxus. Sempre foram olvidados em Coimbra. A Fenda foi para Lisboa. O projeto da Centelha acabou. Os cinemas fecharam e o independente era uma miragem. O teatro estudantil uma repetição pueril de temas já estafados. Coimbra voltou nos anos 90 a fechar-se sobre si mesma e sob a sua Universidade, já que as indústrias tinham sido expulsas e com elas a classe operária. Afinal Coimbra não tinha mudado, estava precisamente igual à que existia umas décadas antes. Nunca esqueci o que a minha mãe disse sobre a cidade e a sua relação com a cultura. Durante anos, demasiados anos, a modernidade cultural nunca veio a cá pôr os pés. Tudo o que soava a inovação e modernidade era boicotada pelos cowboys e pela turba da Queima praxista, atualmente um evento a todos os títulos ignóbil e indigente, relançada pela astúcia parola de comerciantes, entretanto ultrapassados por centros comerciais dentro da urbe. Saímos, claro. Voltámos 30 anos depois. Talvez nunca cá tivéssemos estado. Agora, que a conhecemos, damo-nos bem, apesar de tudo, afastados dos seus centros.

Votemos a Italo Calvino e à exposição fotográfica de António Alves Martins. Dou-lhe um excerto do autor que penso caber-lhe totalmente:

„-... Porque, uma vez que começou - perorava -, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita quando foi fotografada, é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está a fazer um castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto chora porque o castelo se desmoronou e depois enquanto a ama o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de uma concha. É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: "Ah, que bonito, que tinha era que tirar uma foto!", e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido e que para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida.“ —  Italo Calvino

António Luís Catarino
Coimbra, abril de 2019



sábado, abril 27, 2019

Conversas da «Cidade Exposta: Coimbra», exposição fotográfica de António Alves Martins

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António Barros - O poema acompanha a deriva


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António Barros – O poema acompanha a deriva

«Se não morrermos aqui, seremos capazes de ir mais longe?»
Internacional Letrista, nº23 de Potlatch

Quando, pelos anos 60, começa a despontar a poesia experimental provocando a náusea aristocrática de muitos iluminados já então escurecidos pela falência filosófica, na decadência da palavra escrita e sentida como mercadoria, não se pensou que aquele tipo de expressão comum e vendável, bem suportado pelo «romance/poesia/imagem», teria muito tempo de vida, tal a vitalidade das novas formas poéticas. A poesia das «emoções», balofas, da virtualidade do pastel de nata e do café pessoano, do enaltecimento do quotidiano como possibilidade de uma falsa poesia da alegria alarve, mesmo que esse quotidiano fosse o da miséria repetitiva no gesto, os poetas experimentais e António Barros em particular, talvez dos poetas mais novos dessa onda purificadora, denunciaram isso mesmo: o objeto como fétiche acumulativo de capital. Nasce então o poema-objeto tão caro a Barros, ironizando toda uma sociedade de produção nas suas peças, mostrando o inconcebível que os arautos da arte sofrível nunca entenderam. O objeto contemporâneo, esse, é todo o fruto de um processo de produção, cujo valor se divide na troca e no uso. Ora, a tese de Marx é recuperada por Debord, chamando-lhe a esta diferença, o espetáculo. Barros e a Po.Ex e provavelmente a Fluxus, perceberam o que outros, excecionalmente dotados para o processo especulativo, nunca perceberam. A experiência, em Barros, toma o objeto em forma de valor de uso, através da apresentação metafórica deste e recusando o seu valor de troca. Essa produção poética verdadeiramente provocante, que nos incomoda e que nos obriga à reflexão, não é benquisto pelas hordas político-parlamentares que continuam a derramar aos borbotões a sua ideia de vidinha. A deriva é exatamente o corolário artístico de António Barros e explicado pelos situacionistas. É uma política notívaga que reage em círculos concêntricos atravessando uma quadrícula urbana repressiva e que se encontra no local onde nos sentimos identificados, livres, usando os objetos certeiros que apontam aos estômagos. Portanto, objeto-poema e deriva contra o quotidiano do tédio é o que se adquire observando e absorvendo cada poema-objeto. Como afirma Asger Jorn «A arte compõe-se, toda ela, de signos que, ao caracterizarem certas qualidades de um objeto, evocam a imagem deste». Justamente. António Barros transforma o valor de uso de um objeto na poética possível: retirando-o da cadeia de produção e propondo-lhe o signo.
António Luís Catarino
Coimbra 21 de abril de 2019
Texto que integra o livro de António Barros «Uma Luva na Língua»

terça-feira, abril 23, 2019

Balthus

Balthus

Por que razão esta instalação de Balthus me provoca e incomoda? Talvez porque observando esta foto me lembre que, na aparência, há uma beleza inquestionável da natureza ao mesmo tempo que estamos todos a fazer de mortos.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Run, run, Roy Batty


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Todos os teus companheiros foram abatidos
Roy Batty
e as tuas lágrimas fundiram-se com a chuva que então caía
copiosamente, na cidade elétrica de néon sujo.
O teu ricto era cínico, mesmo que uma pomba
(mau presságio)
te viesse afagar os cabelos platinados
de um Replicant binário, que era o que tu
verdadeiramente eras.
Na tentativa vã de trespassar crivos
e sentires vida na tua mão,
donde só brotava um gel escurecido
procuravas matar o teu código final.
A ti a quem chamaram robô de combate
e tal como o Homem matou o seu Deus
foste engolido pela rede de falsos neurónios
substituindo os deuses por chips que
nos ligam ao panóptico que tudo vigia
menos a ti Roy Batty
assassino a quem uma pomba afagou o cabelo.
Na hora do fim, entregaste a tua virtual plenitude
e ainda amaste uma mulher, comandada à distância
mortalmente útil, baleada pelas costas numa chuva 
de vidros reluzentes.
Foste tu Roy Batty que mataste o teu criador cibernético
não sem antes
o cegares como a Édipo Rei, com os teus próprios
dedos ainda não quebrados.
A eletrónica erradicou qualquer replicante
e já não há espaço para a revolta, como tu sabes, aliás.
Só para sentires a dor que tentaste cravar, sem
dares por isso, na tua própria mão
imitando a mesma mão de Cristo
cuja dor tentou cimentar o mundo.
A tua analgesia libertou-te do assassínio
que cometias regularmente com justiça e prazer
e querias tu, encontrar o doce regular
do tempo, quando já só havia vazio,
sexo e dinheiro extraordinário.
Sentiste então que os homens mataram-No
que o substituíram pela usura e pelo humanismo
de uma enxurrada de mortos, estropiados e loucos.
Na deriva da tua demanda
provavelmente viste o nome de um amor
descer irremediavelmente na lista de contactos
de uma comunicação de bolso de dois chips
que tento envolver na minha mão
para sentir a réplica de ainda estar vivo.

António Luís Catarino
Porto, Café Célia, 8 de abril de 2015

terça-feira, janeiro 22, 2019

O Museu dos «Descobrimentos» / 29


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Portugal foi um país esclavagista? Responder a isto nunca foi tão fácil para qualquer jovem que esteja a frequentar o ensino secundário e, creio mesmo, em patamares inferiores. Claro que Portugal foi esclavagista. Avancemos mais um degrau nesta confirmação: foi o primeiro país esclavagista, como gostam de lembrar os holandeses. Bom, este debate na sociedade lusa nunca foi tão ríspido como hoje. Como começou não sei bem, mas, há uns meses, o SOS Racismo quis levantar a questão da escravatura negra e mostrar-se contrário à abertura do uma pretensa construção de um «Museu dos Descobrimentos» exatamente onde se encontra uma estátua do nosso literato, filósofo e missionário jesuíta Padre António Vieira. Porquê fazer-se um protesto a um padre que morreu no século XVII, nascido a 1608 e levando com a vossa ocupação castelhana uns anos até ir para o Brasil, onde morreu na cidade de S. Salvador da Baía? A polémica é esta: sendo António Vieira contra a escravatura e escrevendo-a em cartas para vários reis, polemiza-se que este só era contra a opressão contra os ameríndios, ignorando e até favorecendo a escravatura dos negros que vinham de África no comércio triangular onde assentou o capitalismo nascente. Sabemos que foram milhões de negros que foram empregues em sanzalas na extração de cana de açúcar e nas minas e que tiveram como destino o Brasil. Ora, sendo esta uma verdade, o dito protesto chamou a atenção oportunista e simplória de nacionalistas de cariz salazarista que rodearam a estátua do pobre Vieira com as suas saudações de braço estendido. A extrema-direita a ler um filósofo que não o do pobre intelecto do Gobbels? Não acredito sequer que algum tenha lido qualquer letra escrita por Vieira, mas enfim, a polémica arrastou-se até hoje e ainda perdura agora com o nome a dar ao tal «Museu dos Descobrimentos». Deverá ser o museu da «expansão», das «viagens» ou mesmo da «escravatura». Fala-se mesmo da possibilidade de simultaneamente ao eventual museu encarar-se a hipótese de uma estátua a lembrar este passado obscuro da nossa história pátria. Não ironizo. Concordo com esta última proposta e aceito a ideia que nos «esquecemos», há demasiado tempo, do que fizemos em África até ao século XX. No meio desta polémica houve quem lembrasse que a escravatura até ao século XIII/XIV era essencialmente branca. Daí o nome de escravatura ter como raiz a palavra «eslavo». Os árabes sempre praticaram a escravatura eslava, branca, até à escravatura negra ser muito mais rentável; é um facto e desde o Império Romano. O reverso da medalha é que os que defendem que «não temos de nos envergonhar do passado» (que fiz eu de mal?) afirmarem que os negros faziam já escravos entre as diversas tribos. Ora, é só uma questão de escala? Fazer 40 prisioneiros de guerra e vendê-los como escravos é o mesmo do que se escravizar 9 milhões? Antes o suicídio, como Vieira afirma nas suas cartas, aquele em que tribos inteiras de ameríndios tupis ritualizavam a morte em recusa ao «tripalium» raiz da palavra «trabalho». Pior que tudo, na minha modesta opinião, não é a existência desta polémica que até tem razão de ser. O problema é que a maioria da opinião pública e publicada prefere ainda seguir a filosofia de Gilberto Freire, brasileiro e fervoroso apoiante do Estado Novo brasileiro e português nos anos 40, que dizia que os portugueses «ao contrário de outros povos» (seria uma referência a Espanha? À Bélgica? À Grã-Bretanha?) eram naturalmente propícios à miscigenação e ao contacto amigável entre os povos! Ora, acreditem, que isto não é verdade e, se o foi nalgum lado do Império, aconteceu por falta de mulheres europeias numa população pequena como a nossa; se aconteceu miscigenação foi à força da lei, ou pelos direitos próprios, não escritos, de se ser branco. Bem vistas as coisas, não nos livramos tão depressa da banalização da escravatura; nos manuais escolares ao responder-se à questão «Quais os produtos que vinham de África?» os nossos jovens aprendem a dizer «malagueta, marfim, ouro e escravos»! Como se fosse tudo igual, não é?


António Luís Catarino, 24/07/2018