quarta-feira, julho 08, 2020

«Teoria da Viagem», de Michel Onfray

Teoria da Viagem (Portuguese Edition): MICHEL ONFRAY ...

Um livro relativamente inútil para quem conhece pouco o que já se escreveu sobre as viagens e o nomadismo poético ou «geopoético»; totalmente inútil para quem já as leu de várias fontes e de datações várias.

A questão que se me coloca é que Michel Onfray é conhecido por ter editado o excelente livro «A Política do Rebelde», em 1997 e que teve uma repercussão importante como «Tratado de Resistência e de Insubmissão», o seu subtítulo, nos espíritos dados à revolta e à não aceitação das normas sociais dominantes, que ainda os há por aí. Ou seja, o que levou este autor a escrever em 2007 um livro (a edição portuguesa, de 2019, sai portanto com atraso significativo e com um prefácio a despachar de Francisco José Viegas) sem qualquer dado novo sobre a viagem, vazio de uma teoria estruturada do «nomadismo geopoético» que antes já não tivesse sido apresentada e formulada mais consistentemente por outros? Exemplos não faltam: Victor Segalen, Kenneth White http://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=kenneth+white , autores que ele cita, e mesmo a este último retirando-lhe, sem sequer lhe pedir licença, o termo «geopoético», e outros que ele não cita por não querer, tal a parafernália de autores que ele trouxe à colação. Onde estão, Ryszard Kapuscinski ou Claudio Magris, que poderiam preencher uma lacuna importante como autores contemporâneos? E porque escolhe Hesíodo e não fala de Heródoto? Já Rimbaud, o nómada, e Pessoa, o sedentário, dão sempre um jeitão para a prosa.

Prosa essa que cansa. Tal o número de repetições de significados que nunca mais acabam, mais parece que estamos a jogar ao jogo dos sinónimos. Sejam eles adjectivos, substantivos ou verbos, a coisa não pára. Se Onfray pensa que produzir equivalências linguísticas tornando-as autênticos mantras tem como fim sublinhar uma determinada ideia, está redondamente enganado. Produzem quanto muito um longo bocejo. E a tradução de Sandra Silva é boa, portanto é mesmo a escrita do autor.

A leitura deste pequeno livro permite-nos descobrir que Deus estava enganado. Começa logo no Antigo Testamento quando Caim, o sedentário, mata Abel o pastor nómada (seria mesmo nómada?). Porquê? Bom, Onfray aqui hesita, mas dizendo que ninguém o sabe, avança com a hipótese de ciúmes de Caim por causa da preferência Dele por Abel. Seja! O que Onfray nos apresenta, duas páginas após esta hipótese, é que o Todo-Poderoso muda de agulha no Novo Testamento quando Cristo sobe ao Golgotá e um «larápio» (que era nómada pela certa!) Lhe nega água. A partir daqui e «Desde então, associa-se a viagem sem retorno à vontade punitiva de Deus. A ausência de casa, de terra e de solo pressupõe, doravante, uma falta um mal infligido a Deus. O esquema paira sobre os homens há séculos: os judeus, os ciganos, os roms, os boémios, os zíngaros e todos os povos viajantes sabem que, num momento ou noutro, os desejaram condenar ao sedentarismo, chegando mesmo a negar-lhes o direito à vida». Mas então em que ficamos? Deus é ele próprio a favor do sedentário ou do nómada? É que 2500 anos de intervalo entre o Antigo e o Novo Testamento não é coisa para Deus mudar assim de opinião!

Já nos verdadeiros conselhos de autoajuda que MIchel Onfray nos dá (podia ser running ou gastronomia, coisa a que ele se dedicou igualmente) para nós, viajantes e não meros turistas, é que toda a viagem começa numa biblioteca. De acordo. Mas com quem? Diz Onfray: «Sozinhos ou em grupo, a alternativa não é muito animadora». Então como? «(…) penso que viajar a dois ilustra uma fórmula romana, pois permite uma amizade construída, que cresce dia após dia, pouco a pouco». Óptimo! Portanto, com a minha parceira ou parceiro com quem vivo todos os dias? «O nosso Ocidente cristianizado não aprecia a amizade (…). Para além disso, a moda burguesa do casamento por amor torna caduco este exercício pagão: no seio do casal exige-se que o outro represente dali em diante uma série de papéis afectivos, inclusive o de confidente e companheiro». Portanto, tudo bem desde que fora do casamento procurando a tal «amizade romana». Entendo-te, ó Michel! «Viajar a dois permite deixar à distância os indesejáveis, bem como escolher os indivíduos eleitos. A viagem a dois poupa-nos aos perigos de ser apenas um e aos inconvenientes de vários». E o filósofo continua a ensinar-nos numa pedagogia um pouco difícil de pôr em prática, passe o eufemismo. «Numa viagem digna desse nome, o amor ficaria exposto, fragilizado. Por exemplo, a relação com o outro sexo fica distorcida ou interdita na sua espontaneidade durante uma viagem romântica. As possibilidades de conhecer livremente as mulheres de um país, para falar, rir, discutir, brincar, sem estar forçosamente preocupado com uma aventura sexual, é estorvada pela presença da esposa (já entendemos há muito, Michel!), companheira ou namorada. Do mesmo modo, as mulheres são prejudicadas nas suas relações com os homens autóctones devido à presença dos maridos, esposos ou companheiros (lá vêm os sinónimos!)». Conclusão: «Partir com o amigo oferece a certeza de prazeres diamantinos». E eu a pensar que eram romanos!

Mas o amor que o homem tem pelo avião ultrapassa tudo, até Howard Hughes, Lindbergh ou Saint-Exupéry! «Saber-se homem na carlinga deste instrumento transformado em energia e em velocidade metamorfoseia certamente mais a alma do que a leitura dos Evangelhos». Ah, Marinetti (ele também o cita, lá para trás)! O elogio do avião começa na página 66 e só acaba na 72. Bem que as companhias aéreas precisam disto, no tempo das maiores crises sobre as ditas. Mas não pensem que ele não casca nos lerdos: «Um elogio reaccionário da lentidão impele ao elogio da nostalgia, a acalentar a simples paixão pelas recordações e a cultivar a angústia face ao futuro». Eu até que já tinha reparado nisso, mas as limitações do passado sem aviões? «Montaigne ia a cavalo, Rimbaud a pé, Morand de barco, Cendrars de comboio, Bouvier de carro, Chatwin de avião, mas ninguém impede Kenneth White ou Guido Cerronetti de andarem a pé, nem mesmo Théodore Monod de optar pelo camelo…». Isto vai tudo numa questão de escolha do freguês.

No fim da viagem a memória e vamos a um banho de repetições de que vos falava há linhas atrás: «A memória trabalha-se exercita-se, solicita-se, deseja-se, caso contrário, definha, morre, seca, dobra-se sobre si própria, transformando-se por fim numa concha vazia, num ser oco. A imprensa, a gravura, a fotografia, o cinema, o gravador, a calculadora e o computador aumentam as memórias artificiais, sem dúvida (…)» Uff!

E no final a lágrima no olho: «Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte nos surpreenda pelo caminho…»

Para um filósofo não está mal. Realizaremos tudo se a morte não nos surpreenda pelo caminho!

António Luís Catarino
Coimbra, 8 de julho de 2020

terça-feira, junho 30, 2020

«Flauta de Luz», Boletim de Topografia, nº7

Revista Flauta de Luz Nº 7
«Flauta de Luz» - Boletim de topografia, nº7
Tenho adquirido a revista Flauta de Luz. Júlio Henriques é seu editor e coordenador e abre a publicação com «Civilização». Aí, poder-se-á ler numa descrição de uma sociedade doente e a crise de civilização a que assistimos: «(…) A torrente inovadora que tornou crianças, adolescentes e adultos furiosamente agarrados (enganchados, como se diz no calão da droga) a computadores, tablets e smartphones criou uma atmosfera geral de ausência comunicativa, de relação preferível com as coisas, em que avulta um novo tipo de insensibilização. Juntando a cultura do narcisismo [que, mais à frente, Anselm Jappe bem explica juntamente com o fetichismo da mercadoria, nota minha] (modelo parental educativo em que passaram a evoluir as novas gerações) ao impelido apego destas últimas às ‘’tecnologias da informação’’, chegamos assim a auto-estrada digital conducente a este coktail de shots corporais de aturdimento garantido.(…)». O mote está dado e as coisas dividem-se deste modo: os que se apegam às novas tecnologias sofregamente e aqueles que, como eu, ainda compram, leem e divulgam revistas como a Flauta de Luz.

De resto, é com verdadeiro prazer que lemos os artigos que se sucedem a um ritmo vertiginoso para quem pega  na revista, perdão, boletim de topografia, sem a conseguir largar. Comecemos por Raoul Vaneigem, mais lúcido que nunca, a perspectivar novas insurreições e a urgência em criá-las em direção a uma verdadeira humanidade que salve não só o planeta como a espécie humana que se quer autónoma e livre. Que conhece o percurso deste homem, sabe do que fala e da coerência que sempre o acompanhou.  Interessante a sua posição sobre a epidemia de hoje «Seria mesmo necessário o coronavírus para demonstrar aos mais obtusos que a desnaturação em prol da rentabilidade tem consequências desastrosas para a saúde universal? Esta saúde que de forma constante é gerida por uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas disfarçam o desaparecimento dos hospitais públicos? Há uma correlação evidente entre o coronavírus e o desmoronamento do capitalismo mundial. Ao mesmo tempo não é menos evidente que aquilo que recobre e submerge a epidemia do coronavírus é uma peste emocional, um medo histérico, um pânico que simultaneamente dissimula as carências de tratamento e perpetua o mal assustando os pacientes. (…)». Vaneigem assina mais dois artigos um deles uma entrevista truncada no Le Monde e que conhece aqui a sua versão definitiva. Atenção a esta entrevista onde o autor declara a real importância do movimento dos Coletes Amarelos, juntando as ZAD (Zonas A Defender), o movimento zapatista e a crítica contundente aos Black Bloc. Mas, principalmente, a apresentação de uma saída insurrecional e alternativa ao modelo capitalista.

Temos David Watson, autor de Against the Megamachine na conhecida Autonomedia, editora libertária norte-americana, num artigo muito claro «Atualizar os Possíveis» sobre o possibilitismo e as novas utopias na construção de um mundo diferente.

A «Advertência Final» é um exercício irónico de quatro investigadores científicos sobre o tão conhecido «Aviso à Humanidade», de 2017, que juntou 15 mil cientistas de 184 países sobre os perigos que pairam sobre o Planeta. Estes 4 signatários advertem, ao tal aviso, que, sem a crítica ao capitalismo e as alternativas económicas que devem acompanhar essa (ir)responsabilidade do lucro e da rapina de recursos, podem esperar sentados até ao próximo aviso à humanidade. As coisas ficarão na mesma.

Um «suprimento litrário avulso» vai dando conta de autênticos murros no estômago à intelectualidade e ao processo de criação artística em curso. Se o riso era quase impossível de arrancar a quem lesse ou consultasse em diagonal os verdadeiros e reais suplementos literários que proliferam por aí, neste suprimento litrário a verdadeira alegria da leitura neo-abjeccionista brota, incontrolável. Também há insurgência no riso. Atenção aos registos de Júlio Henriques «Amar um robô» (lembrei-me de Sophie, mas podem dar-lhe outro nome qualquer…) e «Mas o que é que nós queremos?». Não percam a sua leitura.

Os artigos sucedem-se com entrevistas a Jorge Valadas / Charles Reeve, que assinou agora o livro «Socialismo Selvagem» saído na Antígona e já divulgado aqui no Deriva das Palavras em http://derivadaspalavras.blogspot.com/2020/03/a-memoria-e-o-fogo-e-o-socialismo.html e uma importante entrevista a Júlio Henriques onde se fala, entre outros, de Paul Mattick, de René Vienet, do Maio 68, de Serge Bricianer ou de René Lefeuvre, editor da conhecida Spartacus. Uma mostra para uma possível construção de uma «antologia da poesia ameríndia contemporânea» acompanhada de artigos de uma verdadeira topografia indígena, tornados aqui os últimos guardadores da humanidade se quer continuar a ser, como os trabalhos de Ailton Krenak (que refere o importante «A Sociedade Contra o Estado» e que conheceu Pierre Clastres), Davi Kopenawa Yanomani, manifestos da Survival International em defesa dos Povos Índigenas, Stephen Corry com «Os melhores guardiães da natureza construíram o nosso meio ambiente e podem salvá-lo», Corsino Vela com «Uma guerra real num mundo virtual», e «Morrer em Rojava» uma coletânea de depoimentos sobre os internacionalistas que morreram pela autonomia autogestionária dos enclaves curdos na Síria, contra o Daesh e o exército turco às ordens da Nato. Provavelmente, para não dizer quase de certeza, que houve algum ímpeto irracional de quem defendeu que a Guerra Civil de Espanha foi a última guerra por ideais revolucionários!

Podem contar-se igualmente com artigos de Jorge Leandro Rosa, Vasco Santos e Chuang. O primeiro versa sobre as tecnologias e poder e os dois últimos analisam não só as implicações do coronavírus e as consequências sociais das novas epidemias para o século XXI. O último, Chuang, é uma revista e igualmente um blogue. O significado da palavra é um cavalo que passa o portão, que (se) liberta. A análise do que se passa na China de hoje, não só ao nível das epidemias, mas igualmente no campo social e da passagem de uma economia fechada para uma economia de capitalismo integrado mundial aponta as contradições a que está votada a ditadura chinesa. É por isso espectável que se tivesse optado pelo anonimato. Mas que é de alguém que está no terreno e que nos passa informação, não se tem dúvidas.

Também se comemora nesta Flauta de Luz os 100 anos de Lawrence Ferlinghetti, esse jovem beatnick ímpar!

Um número único, este 7º boletim, de 289 páginas!, com ilustrações fabulosas, que dá vontade de requisitar numa livraria mais números (a mim faltam-me dois!). Há, de certeza, na Livraria Letra Livre em Lisboa e na Utopia, do Porto. Ou então, flautadeluz1@gmail.com .

Ah…e Cesariny, pois claro, com um «Lembrete de coisas de um passado recente – Uma Raça Maldita». Quem será a «raça mais infame que apareceu à face da Terra?». Ele dir-vos-á.

António Luís Catarino
Coimbra, 6 de julho de 2020

«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas

A Ideia celebra o centenário da escrita automática

«A Ideia». Revista de Cultura libertária. Nº 87/88/89. Os 100 anos do Surrealismo & outras datas

Habituei-me a ler «A Ideia» desde sempre. Este número vale (muitíssimo) por si próprio quando se assinalam três datas directamente ligadas a uma publicação que se define como de «cultura libertária». São 45 anos da criação d’«A Ideia» num círculo de exilados portugueses em Paris e com divulgação assídua em Portugal, mais o apontamento circunstanciado dos 100 anos do jornal «A Batalha» que, como sabem os que acompanham minimamente as lutas operárias do século XX, chegou a ser um diário com uma tiragem de 10 mil exemplares, julga-se, logo atrás de dois jornais institucionais. Para além desta nota, lembrar que foi o órgão anarquista da União Operária Nacional cujo congresso fundacional foi, creio eu, em Tomar e que deu origem à forte CGT. E ainda outro centenário importante para a iniciação de um verdadeiro e genuíno debate a que este número d'«A Ideia» contribui de uma forma indelével – falamos da publicação de «Les Champs Magnétiques» de André Breton e Philippe Soupault, em 1919, e que foram «cruciais para o nascimento do surrealismo entre 1922 e 1924». 

A revista muito pela responsabilidade de António Cândido Franco que coordenou um Inquérito sobre o Centenário da Escrita Automática apresenta-nos uma vasta panóplia de opiniões sobre este tipo de escrita com destaque, subjectivo é certo, para os depoimentos de Alberto Pimenta, Cruzeiro Seixas que, aliás, apresenta um poema inédito de 1961 titulado «Pequeno poema a Angola», Fernando Cabral Martins, Manuel de Freitas que não gosta do termo mas que ainda assim fala dele, Manuel da Silva Ramos, Margarida Vale do Gato com um artigo extremamente interessante sobre escrita automática em Kerouac e Withman entre outros, Maria Estela Guedes que a encontra em Herberto Helder, Michael Löwy, Miguel de Carvalho ou Nuno Júdice que optou por nos dar uma lição pedagógica sobre o tema. Mas são muitos os depoimentos, mesmo daqueles que separam o automatismo psíquico da escrita automática surrealista, apesar de toda a ideia contrária que a revista sugere e ainda que o próprio Breton e os surrealistas o neguem! Mas o resultado do inquérito é francamente bom.

Uma ressalva para as excelentes ilustrações que acompanham a publicação e ao trabalho gráfico cuidado.

Mas deixemos a revista falar por si e através da arte da colagem, do «détournement» se assim o entenderem:

Na página 30, André Breton explica, já como cadavre exquis e com a condescendência para um só depoente que, lesto e impante, apontava o seu dedo académico aos surrealistas afirmando que não foram estes os «inventores» da escrita automática, disse Breton: «Em 1919, a minha atenção tinha-se fixado sobre frases mais ou menos parciais que, em plena solidão, no momento de adormecer, se tornam perceptíveis para o espírito sem que lhes seja possível descobrir uma determinação prévia. Estas frases, notavelmente imaginativas e duma sintaxe perfeitamente correcta, surgiram-me como materiais poéticos de primeira qualidade. Esforcei-me antes de mais por retê-las. Foi só um pouco mais tarde que Soupault e eu pensámos reproduzir de forma voluntária o estado em que elas ocorriam. Bastava para tanto abstrair-nos do mundo exterior. Foi desse modo que elas nos chegaram durante dois meses, cada vez mais copiosas, sucedendo-se em catadupa, sem intervalo e com uma rapidez tal que foi preciso recorrer a abreviações para as registarmos». Foi assim que se iniciou, em 1922, a escrita de «Les Champs Magnétiques» e com ela o movimento surrealista.

Mas é com a profunda análise de António Cândido Franco em «Fluidos, Berlindes, Médiuns, Bolas de Cristal & Carvões – Do automatismo psíquico surrealista» que a clareza das posições surrealistas se tornam mais óbvias, tendo afirmado com toda razão que só existe a expressão «escrita automática» porque Breton e Soupault eram poetas. Seria então mais correto dizer-se «automatismo psíquico» visto que este abarca uma grande amplitude de comunicação artística como a imagem, o desenho, o filme, a pintura, o «ready made», a palavra, a colagem ou a junção de artefactos. Mais à frente o autor afirma, clarificando igualmente algumas confusões já referidas num depoimento em particular que nunca os surrealistas reivindicaram para si a «invenção» da escrita automática, socorrendo-se por vezes do próprio Breton. Diz António Cândido Franco: «O automatismo surrealista nasceu no âmbito da experimentação dos processos mentais, como um modo próprio de análise feito fora do âmbito hospitalar, mas baseado nos mesmos supostos de auto-conhecimento e de terapia catártica. Por isso, o seu criador, André Breton, sempre se negou a classificar o surrealismo como um movimento literário e artístico, preferindo encará-lo como uma nova etapa humana em direcção a uma maior e mais larga liberdade de consciência. O surrealismo tinha um âmbito próprio de pesquisa, uma revolução autónoma a realizar, e não se podia confinar à arte e à literatura.» (bold meu). Cândido Franco aclara mais à frente no mesmo artigo: «O instrumento que o surrealismo colocou disposição de todos, o automatismo mental, e que justificou o seu propósito da poesia passar a ser feita por todos e qualquer um, naquilo que se chamou ‘’o comunismo do génio’’, continua válido pois cada um de nós precisa de fazer a expedição às fontes originais do espírito donde brota a criação e a liberdade para poder viver a vida em plenitude».  Entretanto, o autor chama a atenção, igualmente, para um fenómeno contemporâneo poderosíssimo e que, este que vos escreve, tem chamado a atenção sempre que pode pelo que tem de realmente mau, de distopia. Leiam e meditem: «A tragédia da inteligência artificial é a escravização do espírito, naquilo que este tem de mais autêntico e que só no continente submerso da alma humana se pode encontrar do mesmo modo que apenas na escura profundidade duma mina se pode colher uma rama de oiro (…) no tempo da robótica é ele [o surrealismo] o primeiro a tocar a rebate nos sinos da imaginação».

Michael Löwy, no seu artigo sobre «O marxismo libertário de André Breton» faz-nos uma resenha com pormenores importantes da relação entre Breton e Trotsky e à sua ligação sempre tensa até ao seu afastamento total do Partido Comunista. Breton não desiste da liberdade e essencialmente da liberdade de criar, para isso juntando-se aos anarquistas o que leva o velho Trostsky a subscrever essa ideia no Segundo Manifesto Surrealista o mais politicamente envolvido de todos os manifestos. A ideia é não abandonar os princípios da Revolução de Outubro, mesmo que já traída e adulterada por Estaline. O PC não lhe perdoará e temos o Komintern a adjectivar o surrealismo de «materialismo gótico», de «marxismo romântico» como forma de o reduzir ou esvaziá-lo de sentido. Os surrealistas proclamam então, o «reencantamento do mundo» e a «recusa espontânea das condições de vida propostas aos seres humanos e a necessidade imperiosa de mudá-las». Enquanto muitos ainda duvidavam, eles cortam com o estalinismo em 1935, datas da maior repressão nos «processos de Moscovo».

Três manifestos surrealistas inéditos em português acompanham este número d’«A Ideia». Só por isto valeria a pena a sua rápida aquisição, ao mesmo tempo que nos perguntamos qual a razão de só agora os conhecermos, quando a criação do Grupo Surrealista de Lisboa e, mais tarde, do Grupo Dissidente de Cesariny, Cruzeiro Seixas e António Maria Lisboa entre outros, datam desta precisa época! Mesmo nos Textos de Afirmação e Combate do Surrealismo Mundial de 1977,de Cesariny, não consta alguma referência a estes manifestos (re)fundadores e clarificadores do surrealismo. São textos de uma beleza agressiva e de clara ruptura para com os PC, contra aqueles que em 1947 achavam todos os alemães nazis, clarificadora para com os pressupostos da revolução surrealista denunciando ao mesmo tempo a degenerescência da ditadura do proletariado na ditadura de um só partido. Para eles, os surrealistas, a revolução não se compadecia com a moral ou prática burguesas e denunciavam quer a religião e, com ela, o cristianismo: «os marxistas deverão deduzir que não se produziu nenhuma mudança significativa no domínio da economia desde que Moisés foi chamado ao Monte Sinai», os costumes e a moral «A sua confiança na perfectibilidade do percurso humano é, hoje, como ontem, o prolegómeno que diminui o espectáculo desolador do mundo»  e, ainda em 1947, proclamavam: «O sonho e a revolução foram feitos para se associarem, não para se excluírem. Sonhar com a Revolução não é renunciar-lhe, mas sim fazê-lo duplamente e sem qualquer reserva mental». Portugueses presentes nesta magna assembleia surrealista foram Cândido Costa Pinto e António Dacosta. Sabe-se que foi o primeiro a dar a Cesariny os contactos com André Breton que aquele aproveitou para se encontrar com ele pelo menos duas vezes.

Manuela Parreira da Silva faz um excelente retrato de Pessoa mediúnico cujo automatismo na escrita (principalmente no ortónimo e em Caeiro) nada teriam a ver com o automatismo surrealista tal como estes o entendem. É provável que Pessoa desdenhasse os surrealistas e principalmente os dadaístas. Pelo menos esta investigadora data esse conhecimento de 1917 e talvez este conhecesse bem Apollinaire que, como sabemos, foi colaborador em vida dos surrealistas aquando da apresentação de Les Mamelles de Tirésias, drame surréaliste en deux actes et un prologue. Mas Soupault, que esteve com Pessoa em duas ocasiões em Lisboa, não lhe foi muito simpático, ligando-o a um porto branco e a um sorriso associado! De qualquer maneira, somos levados a concluir que Pessoa, em certos aspectos, não se afasta dos surrealistas pese embora aquele modo mediúnico de conquistar o sonho que o separava destes. Pessoa e Freud seriam incompatíveis. Mesmo Cesariny, mais tarde, acaba por reconhecer a importância de Pessoa, mesmo que as suas loas fossem dirigidas, e muito bem, para Teixeira de Pascoaes.

Quem adquirir a revista não deixe de ler «Abjeccionismo & Automatismo» de Rui Sousa. Aqui entra-se em outra dimensão que é o muito português abjeccionismo, embora Rui Sousa em tese que está a preparar o coloque mais internacionalizado, digamos assim. A questão coloca-se: será o abjeccionismo uma deriva portuguesa do surrealismo? Teríamos então como representantes dessa corrente um Raúl Brandão, Gomes Leal, algum Orpheu, Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio, António José Forte e o não menos importante Pedro Oom. Já de fora teríamos um outro tipo de abjeccionismo: Artaud, Bataille, Kristeva. Mas há um nome verdadeiramente esquecido hoje e que se sobrepõe que é o de António Maria Lisboa e a sua Metaciência, esse novo humanismo que ultrapassa a racionalidade e procura a consciência individual, onírica e verdadeiramente livre.

Centenário outro, desta vez o da criação, por Leonardo Coimbra, da primeira Faculdade de Letras do Porto, livre e libertária, que a ditadura fechou denunciada (não há outro termo) pela Faculdade de Letras de Coimbra (cidade/universidade/prostíbulo salazarista dos anos 30) denominando-a «Faculdade das Tretas do Porto». Agostinho da Silva foi seu aluno antes do seu exílio.

Uma pessoa até se encontra a ler «A Ideia» com grande concentração e aparece-nos vindo sei lá de onde um texto sofrível e mesquinho de Stefan Zweig sobre Verlaine. Já li coisas más, mas esta ultrapassa, em muito, alguns textos maus de pessoas más para quem dizer mal de pessoas que não se podem defender é um mal necessário para elas. Uma chusma de males. Que coisa insuportável! Ele, Zweig, refugiado judeu no Brasil e EUA, nunca atacando directamente os nazis porque as suas críticas poderiam originar mais mortes (!!!) tem a veleidade de apontar o dedo à «participação oportunista» junto com a anarquista Louise Michel na Comuna de Paris! Leiam agora este pedaço sobre Verlaine: «O espírito feminino comete muitas vezes o erro de confundir o comovente com o que é grande: se a vida de Verlaine pode ser qualificada de trágica e de profundamente perturbante, seria abusivo querer fazer desta chama vacilante que se apaga uma obra de arte, uma tragédia biográfica». Espírito feminino? Mais à frente: «Em casa de uma amigo [Verlaine] conhece uma rapariga, Matilde Mauté, 16 anos, graciosa, loura delicada, a encarnação da inocência e da pureza [ai, ai, Zweig! Onde pairava a tua alma enquanto escreveste estas linhas?]. O jovem Verlaine, feio com um bugio (sic), tímido e lascivo, um romântico que encontra as suas efémeras aventuras venais à esquina da rua (sic) com a ajuda de um copo de vinho, vê de repente a alva menina, a santa [alva e santa, que se pode mais querer senão cair nas garras de um bugio, ó Zweig?], aquela que lhe pode trazer a salvação [e nós a pensar que era o copo de vinho!]. Pela vossa saúde não vos conto mais. Ele não foi um nobelizado? Ora tomem…

Acabamos com Anselm Jappe com «Reflorestar a Imaginação» com um estudo rigoroso sobre a mudança do trabalho concreto para o trabalho abstracto nos dias de hoje. «É por isso que a sociedade moderna é uma sociedade baseada no contínuo aumento de trabalho, um aumento tautológico do mesmo. Não se trabalha para satisfazer uma necessidade, e logo repousar em sossego, senão que se trabalha para se poder trabalhar ainda mais» ou «Foi sobretudo a tradição poética francesa, primeiro com Baudelaire e mais tarde com os dadaístas, surrealista e outros, que se opôs à sociedade do trabalho – e também a nível prático. A outra grande excepção foi William Morris, que podemos considerar um marxista e que também impugnou de forma admirável o trabalho».

Finalizemos (ou iniciaremos, é convosco) a leitura deste excelente número da revista com Jappe:

«As tecnologias não criam valor, não acrescentam novo valor»

«Antes de mais precisamos de nos deixar de identificar com o papel de consumidor, do trabalhador, do cidadão, do eleitor. Hoje as novas exigências humanas só podem impor-se contra essas categorias. Os movimentos sociais devem insistir em que todos temos o direito a viver mesmo não conseguindo vender a nossa força de trabalho, mesmo não encontrando para ela nenhum comprador».

Pedidos a acvcf@uevora.pt ou António Cândido Franco / Rua celestino David, nº13-C, 7005-389 Évora

António Luís Catarino

Coimbra 2 de julho de 2020

terça-feira, junho 23, 2020

Christian Bobin «L’inespérée». Um livro inesperado comprado a Monsieur Bloch


L'inespérée de Christian Bobin (avec images) | Christian bobin ...
Há todas as razões para o «mainstream» não gostar de um escritor assim embora, paradoxalmente, esteja com uma grande literatura pela frente. 1), adivinha-se o seu catolicismo, 2) é duro e pouco sociável, 3) portanto, contraditório, 4) escreve na forma de conto. 

Comprado ao Monsieur Bloch em Delémont, na Suíça, um alfarrabista antiquário que teve a amabilidade de me afirmar o bom gosto que eu tinha em adquiri-lo pela soma de 2 euros, junto a outros e a uma cítara de aprendizagem escolar do século XIX, tive o incómodo de dizer-lhe que não o conhecia, mas que o simples folhear me levou a comprá-lo. Continuo a saber pouco dele, refugiando-se nos seus sessenta e cinco livros que editou e escrevendo livros curtíssimos em contraponto aos autênticos tijolos que vagueiam pelas (ainda abertas) livrarias. Mais um ponto contra ele: muitos livros e quatro prémios um dos quais da Academia francesa em 2016. E um prémio com veneno, o «Grande Prémio Católico de Literatura», em 1993. Este homem não é nobe(i)lizável, portanto.

O que eu acho mais estranho é que a beleza e a extrema limpeza do inútil nas palavras chama-nos para a continuidade do prazer de uma leitura que Christian Bobin nos dá. Aliás, ele não diz o prazer de ler um livro deste ou daquele, diz o «prazer de uma leitura» não identificando o quem. E mais uma estranheza no decorrer da descoberta deste autor foi lembrar-me amiúde de Houllebecq. O grande conhecimento do humano contemporâneo e até um certo desprezo pela envolvência social estão presentes fortemente nos dois autores, embora com meios de expressão diferentes. Como um católico e um ateu empedernido se podem conjugar, mesmo sem o estribilho estúpido de «os extremos tocam-se»!

Em «L’inespérée» e nos onze contos por ele constituído há momentos verdadeiramente fascinantes como em «La traversée des images» onde se lê «Um escritor é alguém que se bate com o anjo da sua solidão e da sua verdade. Uma luta confusa, sem conhecer a sua conclusão. Um combate de rua, uma mistura de bandidos, de penas voando em todas as direções e, por vezes, como em todo o combate, um momento de tréguas». Mais à frente continua «Não é a tinta que faz a escrita, é a voz, a verdade solitária da voz, a hemorragia da verdade no ventre da voz».

Em «Le thé sans thé» podemos ver então a incompatibilidade entre ele e o «socius», a tal verdade contemporânea que ele despreza «A vida em sociedade é quando todos obedecem ao que ninguém quer. A escrita é uma escapatória a esta miséria, uma variação da solidão assim como amar ou brincar – um princípio de insubmissão, uma virtude de infância». Ora esta frase é colocada na boca de um escritor profissional com um anfiteatro pleno de debutantes da literatura e ela é dita por um «alter ego» verdadeiro do escritor, que ele sabe que mentindo para melhor vender, diz a verdade.

O conto «J’espère que mon coeur tiendra sans craquelures (fendas, em português)» fala da fusão entre imagem e a literatura afirmando, sem alguma polémica para os puristas da palavra fácil «Falar de pintura não é como falar de literatura. É muito mais interessante. Falar de pintura é como se rapidamente acabar com a palavra, voltar lesto para o silêncio. Um pintor é alguém que limpa um vidro existente entre nós e o mundo com a luz, como um pano de luz humedecido pelo silêncio. Um pintor é alguém que nos envia, sem parar, fotografias do mundo. Muitas imagens, demasiadas imagens para as encerrar todas num portefólio e de as fazer sair de tempos a tempos: eis como o mundo bate no coração de um desconhecido».

«Uma reforma aos trinta anos» e «Mina» são contos que nos remetem para a mulher. A primeira, uma educadora de crianças deficientes casada e com um amante que, mais tarde, a deixa. Conta, entretanto ao marido e chora durante a noite quando ela chega ao quarto e à casa toda iluminada que ele deixou. Como se a luz ainda se mantivesse lá, na casa dividida pelos dois e um terceiro que a abandona. Reforma-se cedo no plano sentimental, e remete-se à relação rotineira «de quem sempre a compreendeu». Mina é um nome de uma prostituta a quem lhe cabe um cancro de mama com a idade já problemática de quarenta e cinco anos. Não se trata, mas lembra-se que Mina é o nome da namorada de Drácula e de todas as personagens que o pai lhe contava em miúda. Prefere morrer como a «verdadeira Mina» a do vampiro. É ela que lembra ao leitor que não se diz «Eu queria amá-la», mas sim «Eu amo-a» e, ao dizê-lo, a descoberta de um amor bem mais profundo do que todo o vago querer.

Talvez o conto menos conseguido do livro, o do real assassínio da mulher de Garaudy (embora não o cite) às suas mãos. Achei alguns lugares comuns, como os filósofos são notícia quando matam solitariamente e coisas assim. Por acaso pensei em Heidegger e em Carl Schmitt, mas este era constitucionalista do III Reich com ares de filósofo.

Guardei para o fim o conto dos mais belos que li de Christian Bobin. O conto homónimo que deu título ao livro «L'inespérée». Das mais belas cartas de amor que li. Gostava que pensassem agora em Houllebecq ou mesmo em Littell, por exemplo, e vejam um católico a escrever «Estou louco por pureza. Estou louco por essa pureza que nada tem a ver com uma moral, mas a vida no seu átomo elementar, o feito simples e possível do ser em cada um de nós junto às águas da sua negra morte, infinitamente só, eternamente só. A pureza é a matéria mais generalizada sobre a terra. Ela é como um cão. Cada vez que repousamos sobre o nada no nosso coração vazio, ela vem sentar-se aos nossos pés, fazer-nos companhia». Se pensarmos no título «As partículas elementares» de um tal Houllebecq, talvez encontrem semelhanças...ou talvez nem por isso, mas foi uma tentativa que espero não ter sido vã.

«Escrevo desde que me lês, desde aquela primeira carta em que ignorava o que ela poderia dizer-te, que só poderia encontrar sentido nos teus olhos. Nunca escrevi nada de melhor do que as três primeiras frases daquela carta: Não acreditar em nada, não esperar por nada. Desejar que alguma coisa, um dia, chegue. As palavras vieram atrasadas nas nossas vidas. Tu estiveste sempre à frente do que eu esperava de ti. Foste, desde sempre, o inesperado».

Coimbra, 23 de junho de 2020.
António Luís Catarino

segunda-feira, junho 15, 2020

«O Grande Sol de Reil», poema inédito de António Pocinho


António Pocinho, anos 80. Foto de autoria desconhecida

Recebi este manuscrito (a grafia é de António Pocinho) no dia 27 de junho de 1980, entre copos infinitos de cerveja no «Café Califa» e outras substâncias já prescritas, na Rua das Matemáticas em Coimbra e creio que seguiu para a «Fenda - Magazine Frenética». Não confirmo a sua publicação. Diz, por debaixo da assinatura do António com quem privei no triângulo maldito de Coimbra – Tomar - Lisboa, isto: «Poema gravado em Coimbra, nos estúdios do ‘’Bota-Abaixo’’, entre 6 e 27 de junho de 1980. Som, mistura e arranjos de António Manuel Pocinho e Vasco Santos». Tenho comigo o original. Se o Vasco o quiser eu terei todo o gosto em dar-lho. É assim o poema:



O GRANDE SOL DE REIL

O que está escrito, está escrito na vida
e aí tudo tem a sua alquimia.
Descobrir o início das coisas,
percorrer-se o caminho ao longo das pessoas,
ficar-se perplexo com o verbo,
vibrar-se com a acção
é já de si uma prodigiosa armadilha,
uma procura exaustiva da intimidade.

Tudo o que permanece no domínio
dos lugares escondidos da linguagem,
da luta de classes e do poder
está envolvido por uma misteriosa literatura.
O que nos resta da ligação entre o sagrado e o profano
e que conduz a escrita a um jogo demasiado difícil para ela
contém em si a génese neurótica da ficção.

«Há uma linguagem na neurose
que se assemelha ao código da escrita»
- anunciaram os jornais
onde se falava dos polícias de dentro e de fora,
das emissões em línguas estrangeiras,
das manhãs muito cheias de luminosidade,
muito voltadas para dentro do seu próprio amor.

Escreve-se por uma questão alveolar,
por onde uma necessária respiração das células
onde uma espécie de transporte activo das palavras,
à semelhança do que acontece na bomba de sódio
seria um elemento fundamental
na combustão da energia poética associada à vida.

Comove-nos este espaço: a noite, o candeeiro aceso,
a escrita, os autores, alguém dormindo ao lado.
Dormir na ausência para acordar na memória.
Onde a magia, a eternidade,
a infância dos nossos actos, a revolução?
Há algo de abusivo na verdade,
no pousar os olhos sobre o texto,
no beber mais uma cerveja no «Califa»,
no descansar do dia-a-dia da vertigem.
Dói-nos este rock, esta droga
até ao ponto em que nos iniciamos na imagem,
na álgebra superior e mortalmente branca.

Recusamos esta dança, os filósofos
…a hipotética imaginação da luz…

Perseguir a palavra: virtude do corpo ou maldição do espírito.
E foi subornada esta paisagem por um milagre antigo.
Terra benzida nos «sex and drugs and rock’n rol»
porquê o poeta, os computadores, a bomba de neutrões?
Armando a estrada e os anjos de revólver?

Vítimas do crime no acto em que nascemos,
aceitamos a chantagem da vida
ao olhar sobre a misteriosa moralidade destes campos,
pisados por mulheres descalças em busca de uma linguagem para o sexo.
Caminho eterno para a aprendizagem da placenta.
Nas águas – o código amniótico.

Prostituímo-nos na memória, no cio da palavra, no espaço e no tempo deste corpo.

Rosto pintado de anjo no cinema: é rigorosamente inútil o poema.

António Manuel Pocinho
Coimbra, entre 6 e 27 de junho de 1980


domingo, junho 07, 2020

«Na cidade exposta – Coimbra», de António Alves Martins



Este livro é um portento. Muito andei eu para aqui chegar - «portento»! No significado da palavra eu posso encontrar igualmente «encanto», «maravilha», «prodígio» que não andam longe do sentimento que o tive a ver e folhear.

Mas deixemo-nos de entusiasmos e apresentemos os seus autores: de ideia inicial de António Alves Martins, lemos textos deste autor e de José António Bandeirinha. As fotos são de António Alves Martins. A edição do livro-quase objeto foi de 50+1 livros todos numerados. Informação adicional é que o livro foi publicado pela Artes Breves Edições «em edição única e exclusiva com a chancela (informal)» da editora e a tipografia foi a muito conimbricense Damasceno e com a qualidade que se lhe (re)conhece. Portanto, um livro sobre Coimbra, de Coimbra e feito com matéria cinzenta de Coimbra. Mas engane-se o incauto que pense que é laudatório para a cidade e suas vetustas instituições. Não é. Talvez esteja ao nível, e não estou a exagerar quando o digo, de um célebre número único da revista «Via Latina» dos anos 70 que não foi nada agradável para a urbe, assim como os vários textos da «Fenda» e da «Pravda» que não criaram raízes. Ou das desprezadas «PO.EX.» e do «Círculo de Artes Plásticas».  Sabemos bem o porquê.

Portanto, o número da própria tiragem é, em si mesmo, uma provocação. Se assim o quiserem e entenderem ter um livro que vai esgotar rapidamente. Peçam-no, pois, quanto antes a artesbreves@gmail.com .

Na apresentação dos autores lê-se que António Alves Martins se formou em Coimbra em Filosofia, editou poetas como Gil de Carvalho, António Ramos Rosa, Alberto Pimenta, Jorge Sousa Braga, Jorge Fazenda Lourenço, Cavafy, Larkin, estes na «Centelha/Fora do Texto» já falecidas e colaborou com a «Cotovia». Editou, na «Deriva Editores» do Porto, «Cidades Materiais» em 2016 e mostrou-nos fotografias belíssimas numa exposição homónima do livro agora editado, no Liquidâmbar, em 2019.

José António Bandeirinha é um arquiteto de Coimbra cujo curso tirou nas Belas-Artes do Porto e é Professor Catedrático no Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra. Foi pró-Reitor para a Cultura e Director do Colégio das Artes da mesma universidade. É investigador do CES e Director do DAUC. A sua intervenção em prol de uma Coimbra que rompa com os cânones que a orientaram infelizmente nos últimos anos é conhecida e reconhecida por todos os cidadãos que vivem a cidade.

Comecemos pelas afirmações de António Alves Martins neste livro belíssimo: «Esta brochura, em conjunto com as oito fotografias (+ uma) das dezasseis então expostas [o autor refere-se, portanto, à exposição realizada no Liquidâmbar] – agora em novo formato / suporte - , corresponde a um segundo momento dessa materialização única que dá acesso ao tempo propício a pensar e a olhar a fotografia: a experiência concreta da imagem impressa em folhas de papel que, embora soltas, são envoltas numa capa cuja janela abre para a narrativa do livro: o livro, como lugar privilegiado do tempo lento das imagens (ou do seu silêncio).»

Depois desta descrição da fusão existente entre a palavra e a imagem com uma desenvoltura e um rigor concetual realçado e apresentado por António Alves Martins, chegou a vez da justificação do espaço e do lugar Coimbra «(…) tornou-se assim a cidade exposta – na dupla dimensão de paisagem e obra – (…) – nas imagens impressas da cidade – é o resultado de um processo que implica, em primeiro lugar, o assumir da caminhada livre, o movimento de um olhar disponível para o inesperado de um plano e das suas linhas de fronteira (…)». Ou seja, este que vos escreve lembra aqui o espírito nómada da Psicogeografia poética de um Vitor Segalen, de um Rimbaud, de um Baudelaire, ou de um Debord… dado a conhecer pelo fundador do seu movimento, Kenneth White. É essa procura do inesperado que exigiram Vaneigem e Asger Jorn, queimando a arte e fundando espíritos livres e primitivos, igualmente telúricos. É esta a procura livre de um livro que respira liberdade. E ainda e sempre Italo Calvino, dir-se-ia um alter ego de «A Cidade Exposta».

Quanto a José António Bandeirinha, expõe a fórmula de um texto coerente, suave e paradoxalmente de uma grande violência para com as opções conimbricenses dos últimos anos e, quiçá, de décadas muitas. A narrativa aparece de duas fontes: uma que foi uma intervenção sua há dezasseis anos e outra há apenas alguns meses. A junção destes dois momentos, por paradoxal que se ache, obrigaram-no somente a alguns ajustes, o que decididamente é péssimo para a urbe. Neles podemos ler, e com o perigo inerente à descontextualização das frases:

«Para muita gente, para mesmo muita gente, confessada ou inconfessadamente, Coimbra não passa de uma referência estereotipada. Mas o problema não é esse, o problema é que a repetição acrítica do estereótipo desgastou o conteúdo e apagou o significado real. A sensação é que o que fica é um imaginário paradoxal e altivo que, embora radicado numa cultura urbana ancestral e identitária – e talvez por isso mesmo -, foi ficando fossilizado, como ecrã obsoleto da realidade e da vida que se ia degradando face ao fluir dos tempos.»

O mote está dado e José António Bandeirinha não esmorece na análise da sua cidade. Citando igualmente Calvino, o arquitecto avança com ‘’Seis propostas para uma Coimbra (ainda)’’ cuja descrição pormenorizada não caberia aqui. Contudo, no item ‘’Leveza’’ (existem mais cinco que o leitor averiguará certamente) Bandeirinha avisa-nos «O sentido que aqui se dá à Leveza é sensivelmente o mesmo que em Calvino [Lições Americanas, 1984]. Basicamente, diz respeito à transformação do que é pesado em leve. Tratando-se de Coimbra, de um certo estado depressivo e de uma mais que óbvia decadência, não devemos deixar que a ‘’culpa’’ que neste caso se opõe à leveza, tome conta da nossa motivação para inverter o processo» e continua sobre o estado da decadência da cidade «(…) São muito complexas e intrincadas as razões desta decadência, sobretudo porque não têm uma origem única, e muito menos se podem expressar num simples parágrafo. No plano temporal, são de ordem simultaneamente remota e próxima, no plano espacial são de ordem simultaneamente externa e interna, são de ordem histórica, política, social e cultural, e cada uma destas ordens auto-alimenta-se e alimenta as restantes.»

De uma clareza meridiana, esta análise que se espraia no ensaio. E a clareza e a violência suave com que este projecto se desenvolve para Coimbra, de Coimbra, contra Coimbra, continua nas fotos extremamente belas de António Alves Martins desta mesma decadência e vivacidade de quem se propõe dizer, como toda a vida fizeram os autores, que a cidade merece melhor. Que está escondida e que se remete para uma solução uterina, da procura de origens mistas e promovendo a rebeldia das paredes que nos falam e soluçam (ainda). Isto é de quem não se cansou.

O livro é, na realidade, fantástico.

António Luís Catarino
Coimbra, 7 de junho de 2020

terça-feira, maio 12, 2020

Danúbio, de Claudio Magris



Li este livro duas vezes. Não por mero coleccionismo de palavras, mas porque os objectivos que me levaram à sua leitura eram diferentes. A seu tempo, Claudio Magris não tinha ganho o Nobel e tive um prazer imenso em descobri-lo e não o largar mais. 

Contudo, hoje voltei a embrenhar-me com um mapa do rio Danúbio ao lado. Há uma viagem geográfica, que a fez Heródoto ou Estrabão em tempos antigos e outros, mais contemporâneos,  mas menos interessantes; a outra viagem, aquela que eu fiz infelizmente confinado, é a viagem literária que nos oferece um excelente Magris. É a Mitteleuropa de autores como Mann, Kafka, Céline, quando este se refugiava no final da II Guerra na Alemanha nazi, Herder, Goethe, Primo Levi, cercado pelos Lager limítrofes da Germânia, e Canetti que escreve no Delta as suas memórias, poetas românticos como Heine (e como Marx o lia!), dadaístas qual Tristan Tzara, ou o católico Paul Celan, filósofos como Wittgenstein, Marx, Lucáks, Hegel ou Adorno e tantos outros como Herta Müller minoritária dentro de uma minoria alemã da Roménia, Ionesco, Áttila József, Strindberg (com a sua mulher húngara), Lorenz, Jean-Paul Richter, o Danúbio nos mostra tudo e o seu contrário, tal como nos lembra a luta constante dos camponeses contra o jugo dos senhores nobres e quase sempre afogados em sangue, tal como os operários revolucionários dos conselhos de Munique e de Budapeste. Ou a loucura de Luís da Baviera e da imperatriz Sissi assassinada a tiro, espelho de Impérios com pés de barro. 

O rio que nos esconde a origem é o mesmo que nos dissolve num delta ao nascer na Floresta Negra e que alimenta o Mar igualmente Negro. E tudo ao som sublime dos maiores de todos: Bartók, Liszt, Schubert ou Wagner. Nessa Mitteleuropa de Magris não cabe a ignomínia da dita raça superior. O rio demonstra a iniquidade da tese pelo mosaico grandioso dos povos que o atravessaram e que ainda ali permanecem.
Talvez um dia o percorra. Ou o desça, como Kipling e o seu Kurtz.

António Luís Catarino
12 de maio de 2020

sexta-feira, maio 01, 2020

É na rua que vais resistir à rua que te querem tirar

Para a Deia

Itinerários de um estudante no distrito XVI de Paris, IL-IS, 1952


Não conheces ninguém, e não falo dos parvos de espírito, que não veja a rua não só como um espaço público, mas igualmente como um espaço comum. Aliás, gostas mais deste último adjectivo: comum. Falta na constituição a coisa comum. Porque o público pressupõe o privado. Para isso tens a tua casa. Não entendes a política sem a rua e sem as suas travessas por onde podes, isso mesmo, tergiversar. Fugir ao bom senso, esse conceito tão vago. Na rua não há bom senso. Não é preciso ires à ágora grega para nos lembrar a sua importância para a construção de uma democracia que, nesses remotos tempos, era directa. A rua é onde também se lastima o que não foi conseguido, onde se dá aso à revolta, onde se perspectiva a vida futura. A rua é contagiante por causa do inesperado. É onde se rouba e se é roubado. É onde se compram e se vendem as ilusões que ainda não desfizemos. Na rua também se chora e ri, se observa e é observado. Onde gostas que te observem, ou onde te escondes se não queres ser visto. Mas, ainda assim, na rua. Um café, uma cerveja, um cigarro na rua não te sabe ao mesmo que em casa. Sabe-lo bem. Também te feres e feres outros. Dás e recusas a dádiva ou o euro que te pedem. Na rua tu gritas e deixas que te abafem o som da tua ira ou do teu sarcasmo. Mas na rua não desistes com os outros que estão contigo. Se os outros fenecem, tu levantas-te. Se não estás seguro de ti encostas-te às paredes da rua e segues em frente. Na rua também podes ler e questionar. Na rua páras a ouvir uma música, entras numa loja sem comprar nada, agradeces ou calas-te. Na rua ameaças e és ameaçado. Na rua também vês passar militares e militarizados. Na rua inalas odores e perfumes. Vês todos os tipos de fardas para manter o status e uma segurança sempre aparente da rua. Nunca te esqueças que na rua viste a liberdade e transgrediste. Tornaste-te mais forte na rua. Conheceste outros. Viste o amor e o ódio. Manifestaste-te e propuseste utopias sem fim. Foi na rua que te desfizeram as utopias, foi lá que leste livros e que soubeste que as coisas já não eram o que pensavas ser. Na rua viste cartazes e alguns te disseram algo que te informaram como antigos aedos. Foi na rua que viveste aquela tarde, aquela noite em que viste uns olhos lindos que se cruzaram contigo. Na rua, naquela precisa rua, tentas lembrar-te do que aconteceu e que vais, mais tarde, saber. Na rua viste pedras e por algumas vezes levantaste-as para confirmar se havia ou não a praia que te prometeram. Foi na rua que encontraste a deriva e o inesperado que te arremete, que desenhaste quadrículas e que construíste a tua situação irreversível. Porque, na rua, tudo o que se passou é areia entre os dedos. Mas que fica como uma marca que nem o vento ou chuva conseguem desvanecer.

É na rua que vais resistir à rua que te querem tirar.

António Luís Catarino
1 de maio de 2020

quinta-feira, abril 23, 2020

Dia do Livro: «A Fera tem de Morrer», ou em louvor do livro policial


O policial merece-o. No Dia do Livro aí vai «A Fera tem de Morrer», de Nicholas Blake, representando todo o manancial de livros policiais lidos até aqui desde a minha juventude. Ele há de tudo. Autores fascistas como S.S. Van Dine (esta coisa do SS, não engana!) que cita Oswald Spengler e o esplendor e decadência da civilização ocidental, mais Phillips Oppenheim que vai pelo mesmo caminho com a superioridade das elites face às «classes perigosas» propensas aos crimes hediondos, os arrogantes detetives vitorianos ingleses que, apesar das guerras, teimam em viver de acordo com o código de conduta de gentlemen como Jeffrey Farjeon e Ellery Queen, de Rex Stout a Edgar Wallace, as seguidoras falhadas de Agatha Christie como Margery Allingham e os extraordinários Dashiell Hammett e Raymond Chandler que, só por si, valem toda a parafernália de páginas e páginas até os descobrirmos e os seguirmos nos filmes homónimos dos anos 50. Quem lê estes policiais fica vacinado, nunca mais os deixa.

Um facto indiscutível é que nos anos pós-29 se vivia muito melhor do que hoje. Bebia-se sem parar, fumava-se em todo o lado e com a avidez de uma chaminé de Liverpool, amava-se loucamente, praticava-se o adultério sempre por uma boa razão escondida em que os culpados eram quase sempre os cônjuges demissionários, passeava-se em enormes jardins públicos, o campo ainda salvaguardava os bons selvagens que o habitavam e os homens e as mulheres temiam a Deus enquanto faziam precisamente o contrário do que Ele dizia. As casas eram quase sempre cottages, enormes com enormes pés direitos e amplas escadarias em caracol, as mesas de carvalho, a comida era uma quase religião que desconhecia ainda o estúpido conceito gourmet e os automóveis de uma beleza clássica, isto se a civilização clássica tivesse parido carros autogovernados. O futurismo deu ao automóvel uma elevação que, de todo, hoje não merece e a arte, já depois de o dadaísmo e o surrealismo lhe fazerem a folha, atinge, no crime, uma espécie de leitmotiv, de presença fúnebre. Todo um mundo a descobrir nos policiais. Havia sempre dinheiro para tudo e os gastos eram enormes. Poder-se-ia permanecer num hotel dos Alpes suíços uma eternidade, despreocupadamente. O dinheiro vinha sempre de honorários ou heranças sumptuosos. Os próprios crimes eram de uma elegância enorme. Sim, o sangue escorria aos borbotões, mas nada que pudesse travar o desenrolar magnânimo da inteligência do investigador que, quase sempre, era acompanhada pelo arrependimento do assassino ou da assassina, embora esta última ou tenha uma forte razão para o cometer ou era portadora de um cérebro tortuoso e frio de homicida. Freud explicava tudo e não é raro encontrarmos o doutor citado nas páginas amareladas da Vampiro.

Neste «A Fera tem de Morrer», Nicholas Blake demonstra como uma vingança pode ser montada partindo do princípio que, se se propagandear o fim e o objetivo dessa mesma vingança, o seu executante estará fora das suspeitas. Um suspeito que diz que vai cometer um crime chegará a ser um suspeito? É nessa grande questão dos nossos tempos que a coisa flui.

Escolham pois, hoje, a fera que há de morrer. Terão muito por onde escolher.

António Luís Catarino
Coimbra, 23 de abril de 2020

Puro exercício de estilo aplicado para a noite de 24 de abril: saia de casa devagarinho, com máscara e luvas. Não leve o cão porque pode ser identificado. Mas não se esqueça de uma sweatshirt e cubra a cabeça com o capuz, porque está frio e pode até chover. Olhe para cima e identifique os andares dos prédios com panos pretos. Não, não são anarquistas. São fascistas que os mostram e já não têm vergonha. Muna-se de uma pequena fisga que usa na pesca para atirar longe o engodo aos peixes. Em vez do engodo, use as esferas de metal ou carretos de uma bicicleta velha, mas podem ser também pequenas pedras. Agora, com o covid19 ninguém desconfia. Pode igualmente levar uma pressão de ar, mas não se jura que os efeitos serão tão graves como a fisga e pode gerar interrogações evitáveis. Aponte bem e atire. Ouvirá um estilhaçar de um vidro. Boa. Inicie a sua rusga pelo fim do cotovelo da rua e não pelo princípio. A fuga será então possível, sem grandes problemas ou perturbações inesperadas. No fundo, estarão quase todos em casa a ouvir a Grândola. Não se assuste. Isto é só imaginação minha. Um exercício sem qualquer consequência de maior. Porque se o fizer pode correr o risco de encontrar a felicidade que acompanha a transgressão e a revolta. Bom 25A!

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de abril de 2020

segunda-feira, abril 13, 2020

Si Dispensa dai Fiori, de José Ricardo Nunes

volta d' mar

Um livrinho recebido, uma alegria acrescentada. De José Ricardo Nunes, tenho dado conta que o poeta se rejuvenesce cada vez que se edita. Agora na editora Volta d’Mar (voltademar@gmail.com) deduzo que em pequena tiragem. Quem o quer, peça-o à editora, porque a poesia esmifra-se nas estantes das grandes cadeias livreiras.

A anotação do tempo sempre presente na poesia de José Ricardo. 2018-19, como se a voragem dos dias consumisse as folhas grafadas. «Si Dispensa dai Fiori» divide-se em quatro partes: «Gesualdo», «Caravaggio», «Si Dispensa dai Fiori» que dá o título ao livro e «Ainda a Propósito da Ressurreição». Continua-se na ideia de tempo: «(...) e depois/ que patetice/ tornava a pensar na ressurreição/ com muita intensidade // o tempo descoordena as imagens/ favorece os erros ortográficos/ mas o adicionalzinho sempre/ dava jeito talvez até/ pudesse reparar umas torneiras/ (...)». Em «Si dispensa dai Fiori» com a sonoridade e o ritmo de um soneto envolve-se, José Ricardo, no platonismo das ideias e do epicurismo dos átomos e das células para desaguar em personagens bíblicas ou lugares renascentistas em busca das caveiras de Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco, como em S. Jeronimo que anota o tempo. «(...) lembra-se a alma por mim/ dos que deveras me amaram/ e dos que me foram queridos/ dos que apenas por obrigação/ irão ajudá-la a subir/ quando for o momento/ e nem então houver remédio// si dispensa dai fiori/ il presente vale anche per rigraziamento».

António Luís Catarino
Coimbra, 13 de abril de 2020

quinta-feira, abril 09, 2020

«São Paulo», de Teixeira de Pascoaes. A Lenda corrige a História


São Paulo - Livro - WOOK
Reconheço que foi uma tarefa difícil, esta, a que me propus. Tentar conhecer S. Paulo, (antes de ler o livro de Teixeira de Pascoaes) minimamente, como eu fiz, pondo de lado ideias feitas e apriorísticas é quase impossível mas, no final da empresa, consegui deixar para trás de mim um certo afastamento e mesmo incómodo que mantinha relativamente a esta personagem central na hagiografia católica. Li, claro, a sua epistolografia e detive-me nalguns trechos mais ou menos controversos que, para espanto meu, tinham quase as mesmas interpretações somente em duas fontes que consultei: a Bíblia dos Capuchinhos e a de Frederico Lourenço. Mesmo as que eram identificadas por pseudopaulinas, como as Cartas de Tito e as de Timóteo, o seu discípulo preferido. As duas Bíblias eram concordantes na generalidade, igualmente, na maioria dos verbos e expressões traduzidos principalmente do grego. Menos mal, porque pensaria que as coisas fossem mais complicadas neste aspeto.

Religionline: Prémio Pessoa para Frederico Lourenço – e para a ...
Paulo era, sem dúvida alguma, um espírito atormentado, febril, nervoso, autoritário, fisicamente diminuído, doente e claramente místico. Judeu nascido em Tarso ao que se julga nos anos 20, ainda com Cristo vivo, numa grande cidade cosmopolita e cruzamento de todas as mercadorias e ideias do mundo de então, foi um aluno de Gamaliel, fariseu e zeloso da Lei do Antigo Testamento e da Torá. Saulo de Tarso, como se chamava então, perseguiu e matou cristãos entre os quais Estevão dado como o primeiro mártir cristão. Na estrada para Damasco num episódio conhecido entre físico e místico adivinhou a presença de Jesus. A partir daí tornou-se evangelizador e tão zeloso como o era antes da conversão, mas agora divulgando a palavra de Cristo, numa síntese da velha com uma nova aliança. Criou a Igreja cristã universal contra o judaísmo integralista, contra a Roma dos Césares e a hierarquia um tanto hostil de Pedro e Tiago, por razões que Teixeira de Pascoaes classifica, aos olhos do poeta, como pueris e mesquinhas (ser circuncidado ou não, comer com gentios, etc.). Mas o que me leva a tentar perceber S. Paulo é o processo, não o produto da sua evangelização. É a ideia feita ação. Aquilo a que hoje se chama a política (o conceito de pólis que não seria de todo desconhecido de um estudante da Lei em Tarso, cujos contactos coma cultura helenística eram óbvios).
Leyaonline - São Paulo - WRIGHT, N.T.
Já irei a Teixeira de Pascoaes. Antes, li a biografia de S. Paulo, publicada pela D. Quixote e cujo autor, Nicholas Thomas Wright, Professor anglicano em Oxford e Cambridge, entre outras instituições académicas, me deu garantias sólidas de conhecedor profundo do apóstolo e um estudioso, igualmente, da história do cristianismo primitivo. Mas Frederico Lourenço foi, também, uma referência importante na tradução dos Atos.

Ora, é aqui que entra Teixeira de Pascoaes um poeta luso da decadência, da saudade e do misticismo sebastianista. Tem, tal como Junqueiro e Raúl Brandão, laivos surrealistas e antirracionalistas nas suas obras, razão pela qual me aproximaram sempre como autores excecionais. É amigo de Unamuno com quem troca vasta correspondência. Como vê, Teixeira de Pascoaes, S. Paulo? Não minto que o vê com uma vontade férrea em edificar o «projeto» cristão e alargá-lo a todo o mundo, mas vendo uma oportunidade no seu livro, editado em 1934 no Porto, de o «cruzar» com a ideia decadentista e passadista muito portuguesa e que compartilha com os autores citados anteriormente.

No entanto, vejo-o igualmente com Antero num retorno ao cristianismo primitivo, com Eça do Suave Milagre e principalmente com Camilo Castelo Branco a quem dedica a excecional biografia «O Penitente». Juntamente, com S. Jerónimo, compõe-se esta trilogia de anjos rebeldes e desesperados. Embora tenha biografado Santo Agostinho, esta não pertencerá a esta trilogia, segundo António Cândido Franco que teve o condão de publicar as suas obras na Assírio e Alvim. Reparem: entre a 1ª edição de 1934, só 25 anos depois é publicada a 2ª edição e a 3ª edição é de 1984, noutros 25 anos! S. Paulo Foi traduzido para espanhol, holandês, alemão, francês (na Gallimard), inglês e húngaro. Cá, como em Espanha, o livro foi censurado e criticado violentamente, pelo que se percebe os longos interlúdios editoriais. Além disso, Pascoaes não é assimilável pela Brasileira do Chiado. É um marginal que se acantona em Amarante e que recusa a advocacia e o sistema de ensino, como o conimbricense, que compara a um presídio! Raúl Brandão safa-se do epíteto porque os neorrealistas o absorvem depois do tão estranho, quanto belo, «Húmus». 

Para Pascoaes não há perdão. É o anarquista, o cristão, o idealista que afirma no seu «São Paulo»: «(…) como descobrimos na Ceia, o sentido da religião cristã, o culto do espírito que redime a criação material. O Banquete atingiu aspetos desvairados e teve um significado superior. Era a carne, louca de gozo, a suicidar-se, a provocar a ressurreição espiritual. A embriaguez dionisíaca deu o misticismo cristão. Da uva báquica saiu o vinho eucarístico». 

É evidente, também, o seu anti-cientismo «Enquanto o homem sofrer e amar, perdido na noite do mistério, haverá religião, porque a ciência não lhe basta»; a santificação pela loucura elegendo o seu panteão: «S. Paulo foi a alma ansiosa que jamais parou, na subida, aquele sim do Amor gritado contra todos os nãos do egoísmo materialista. Foi a alma-mater de todas as almas, para as quais o Universo sem Deus é um zero tão grande como inútil. Dela descendem os santos e poetas da Loucura: Santo Agostinho, S. Francisco de Assis, Santa Teresa de Ávila, que divinizou o amor humano e Soror Mariana que humanizou o amor divino»; 

Pascoaes anti epicurista que afasta Lucrécio que se suicida no Tibre «como um cão» lembrando-se talvez do suicídio do seu irmão, estudante em Coimbra, em 1903: «Paulo o poeta supremo da loucura e da fome; Lucrécio, o poeta supremo da saciedade e da razão» e mais à frente: «Paulo vive, rodeado de anjos e fantasmas. Lucrécio vive sozinho, no deserto»; no capítulo XXIII, que poderemos considerar o epílogo de um livro de uma beleza extraordinária e elegíaca para com Paulo podemos ler projetando os futuros:

«A conversão da alma pagã na cristã é uma passagem misteriosa, como a do ser animal para o consciente. A alma pagã, caída no ceticismo e ateísmo, deveria evoluir dentro de uma compreensão materialista da existência. Rejeitado o estoicismo rígido, hostil, pertenceria ao epicurismo romano orientar a Humanidade. Teríamos Lucrécio em vez de Paulo. Mas não: mortos os deuses clássicos, surge-nos um deus romântico. [… as influências de Cristo] Recebeu-as S. Paulo, que as transmitiu aos outros, em palavras maternais, infinitamente insinuantes. Vibraram num meio social esterilizado pela filosofia racionalista, percursora dos gramofones e dos gases venenosos. As forças poéticas, sentimentais, dominaram as ideias, que amesquinham a existência, restringindo-a a um simples jogo inútil e mecânico».

E mais uma vez a superação necessária da Razão em Pascoaes: «O mundo foi da Poesia, nos primeiros séculos da nossa era. Repetir-se-á o milagre? Voltará o deus dos poetas contra os sábios que só acreditam na matéria? E com ela fabricam explosivos, gases asfixiantes, máquinas pavorosas? Nesta orgia industrial moderna, paródia em ferro e vapor, orgia pagã, o homem está morto ou isolado do seu espírito. Existe, mas não vive. Existe a duzentos quilómetros à hora, mas com a vida parada, dentro dele. Vida inerte numa existência delirante. Seduzido pelo ruído e movimento, as duas faces desta civilização americana ou neo-neroniana [de Nero, a quem Pascoaes acusa da morte de Paulo, talvez em Roma], integrou-se num sistema mecânico industrial, e é simplesmente uma engrenagem (…) O homem desviado do seu destino, que é tornar-se, perante o Criador, consciência universal, mente à sua própria natureza e perde a razão de ser».

Teixeira de Pascoaes, premonitório e contemporâneo, conclui: «Esta civilização americana depende de materiais esgotáveis ou em quantidade limitada. A fábrica, esse templo moderno, há de ser destruída, como o templo de Artemisa, em Éfeso, e o de Vénus, em Pafos. Templo quer dizer túmulo, casa dos mortos, que os mortos foram os primeiros deuses. Foram eles que dirigiram, para além do mundo, a atenção dos vivos. Destruída a fábrica pagã, teremos a Igreja de Cristo, a confraria dos irmãos, o convívio universal e amoroso. Confiemos no Deus de Paulo».

A ingenuidade febril de um e o zelo pelo amor e fraternidade de outro confundem-se num território ideal de ninguém e de todos nós. A vida ainda há de pertencer, um dia, aos Poetas.

António Luís Catarino

Coimbra, 9 de abril de 2020


segunda-feira, abril 06, 2020

Apoiar o Estado Social? Sobre um novo Plano Marshall e a esquerda anémica


Vai sendo habitual, tristemente habitual, o slogan de uma certa esquerda, cada vez mais bem comportada e colaborante com o «status», do «queremos mais estado social». Nos últimos dias, houve quem, célere, se juntasse às palmas ao SNS e, evidentemente, ao glorioso Estado Social que o apoia. Gostaria de lembrar que a formulação de Estado Social foi construído, após 1945, pela Democracia-Cristã, sustentado pelo Relatório Beveridge, este último formulado em plena guerra e com plena consciência que era necessário dar alguma coisa aos trabalhadores antes que eles se virassem contra o Estado. A ascensão dos fascismos e as tentativas operárias revolucionárias entre as duas guerras na Europa não deixavam dúvidas sobre a emergência de um Estado Social salvador o que se veio a verificar a partir de 1947 com a ajuda americana do Plano Marshall. Sabemos que, a partir daí, a América nunca mais deixou a liderança económica do Mundo tornando-o numa colónia sua. Hoje, em Portugal, da esquerda a toda a direita, da Grécia à Alemanha, da Comissão Europeia ao FMI e ao Banco Mundial, retirando os incómodos «eurobonds», já todos querem um Plano Marshall. Esta unanimidade é claramente desmobilizadora para quem quer mudar radicalmente a vida que até aqui temos tido. É igualmente estranha e, para muitos, desconfortável, impedindo a formulação de verdadeiras alternativas sociais.

Hoje, o recuo da esquerda é bem visível em relação à formulação do conceito de Estado. Um dirigente do BE dá-nos um slogan ainda mais claro desse mesmo recuo: «Estado Social ou Barbárie» contrapondo esta expressão, evidentemente, aos anos 50/60 da revista «Socialismo ou Barbárie». Entretanto, o Estado Social tornou-se sacrossanto. Se se explana minimamente a defesa dessa tese substituindo o Socialismo pelo Estado Social, já ficamos boquiabertos, mesmo com gente acima de toda a suspeita de serem de direita, com o recuo total em formular qualquer crítica, mínima que seja, aos dirigentes desse mesmo Estado, nomeadamente à Directora da DGS e à Ministra da Saúde, confundindo-o deliberadamente com o Governo. Assim, o apoio ao tal Estado Social torna-se um apoio objectivo ao Governo PS, coisa de que já suspeitávamos há muito e que de todo, este não merece. Nem a incompetência da ministra da Saúde, dos ministros da Administração Interna e da Educação têm sido incomodada. O estado das coisas não permite grandes desaforos para com esta gente que bem merecia que a verdade lhes fosse dita.

A crítica suspende-se (se é que alguma vez existiu de facto!) e remete-se para o fim da pandemia, porque fazê-la agora seria uma machadada na luta contra o coronavírus. Que saibamos o estado de emergência não a suspendeu ainda.

Mas de que Estado Social estamos a falar? Do que nos sobrecarrega de impostos sobre o trabalho e que distribui para os que dominam desde sempre esse mesmo Estado? O das intocáveis PPP? O das Obras Públicas? O dos contractos principescos com a iniciativa privada? O dos subsídios às grandes empresas e às multinacionais? O que alimenta os Bancos? O que permite um sistema de influências individualistas e de nepotismo, seja ele familiar ou de partido? 

Nunca esta esquerda, que hoje se remete para a suspensão das críticas ao Estado e ao Governo do PS, se interessou por uma alternativa onde víssemos, ao menos um mísero esqueleto, as possibilidades objectivas e subjectivas de apropriação dos meios de produção através da construção de uma rede de trabalhadores, organizados economicamente e que decidissem autonomamente no plano político. Nem bastariam somente as nacionalizações, que só por si nada valeriam, mas nem disso falam.

Dêem-lhes o termo que quiserem, mas chama-se a isto, no mínimo, uma hipótese apresentada e defendida tantas vezes ao longo dos tempos, que é património da Esquerda, reduzindo o Estado ao mínimo denominador comum que é o da coordenação das vontades e dos desejos colectivos, ou se quiserem, de novas subjectividades. Configura-se o Estado Social nisto? É evidente que não. 

Se quiserem falar de utopias não se acantonem no Estado Social. É pouco, muito pouco. Mas que a breve trecho o terão de fazer, isso é quase uma certeza. Depois veremos as posições públicas que tomam.

Teorias da conspiração


Nada me seduz menos do que ler formulações de teorias da conspiração. Muito menos num momento em que nos deparamos com uma epidemia gigantesca, global e não inteiramente conhecida. Mas letal e com consequências terríveis. Adivinharmos o que vem a seguir é, creio eu, não conhecer a História, embora esta última tenha as costas muito largas. As opiniões não sustentadas nem teórica, nem cientificamente, não nos permitem construir utopias e distopias à vontade de quem as faz e, principalmente, trocando os desejos pelas suas realidades. Porque não existindo uma só realidade, partiremos do princípio que elas aí estão ao dispor da imaginação de cada um.

Mas que isto não nos impeça de pensar e apresentar alguns factos menos perceptíveis de imediato. Devido a um dos «posts» que coloquei no FB, sou obrigado a explicar-me que não me move, tal como disse atrás, nenhuma vontade de abraçar teorias da conspiração. Contudo, há aspectos que convém apresentar como dados concretos. Baseei-me em jornalistas que estão acima de qualquer suspeita, que são considerados honestos e assertivos. Não comungam do «mainstream» e dos media subjugados por quaisquer interesses económicos ou partidários. São jornalistas de investigação. Por isso estão alguns à margem. E é nessa mesma margem que me gosto de mover e possivelmente, pelo que acabo de escrever, onde se se pode aproximar mais da verdade. 

Portanto, houve uma reunião da auto-proclamada elite mundial económica que se preparou, em 18 de novembro de 2019, em Nova Iorque, para uma pandemia enorme à escala global? Houve. Alguns deles conhecíamos por serem multimilionários como Bill Gates; outros nomes nem tanto, como a ex-responsável pelo Departamento de Saúde dos EUA no tempo de Obama e pela especialista em epidemiologia da CIA. Houve uma reunião sim, e, nessa reunião, o que saiu? Houve alguma acta ou conclusão que pudéssemos ter acesso? Não.

Ainda ontem (dia 4 de abril), Bill Gates voltou a anunciar, através do Observador, novas epidemias, mais letais que esta para o futuro. Que factos causais tem ele para o dizer, além do que já sabemos de antemão? Por exemplo, as causas ancoradas na devastação de florestas, dos ecossistemas existentes e as agressões contínuas ao ambiente do planeta e as péssimas capacidades intelectuais e políticas dos chamados dirigentes mundiais. Que políticas estão por detrás destes planos que serão sempre «de emergência global»? Ora, são essas as perguntas que devemos colocar, além de muitas outras que lhes estarão intimamente ligadas, à medida que vamos sabendo, aqui e ali, de factos que, continuo a dizer, são pouco claros.

Sobre o papel dos estados a nível global e da tal «elite» devo lembrar Guy Debord que, nos seus «Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo», editado em 1988 e apresentando já o conceito de «espectáculo integrado», afirma: «A sociedade modernizada até ao estádio do espectacular integrado caracteriza-se pelo efeito combinado de cinco traços principais, que são: a renovação tecnológica incessante; a fusão económico-estatal: o segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente perpétuo.» (o «bold» é meu). 

Mais à frente explica o que entende por estes dois traços: «O segredo generalizado mantém-se por detrás do espectáculo, como o complemento decisivo daquilo que ele mostra e, se aprofundamos mais as coisas, como a sua mais importante operação». (...) «O simples facto de estar a partir de agora sem réplica deu ao falso uma qualidade completamente nova. É ao mesmo tempo o verdadeiro que deixou de existir quase por todo o lado ou, no melhor caso, viu-se reduzido ao estado de uma hipótese que nunca pode ser demonstrada. O falso sem réplica acabou por fazer desaparecer a opinião pública, que de início se encontrava incapaz de se fazer ouvir; depois, rapidamente em seguida, de somente se formar (...)».

Por isso, entendam-me quando falo de conquistar a verdade do momento, sabendo antecipadamente que qualquer réplica será uma simples hipótese. Não mais que isso. Mas devemos não ter medo de a colocar.