terça-feira, janeiro 29, 2019

Run, run, Roy Batty


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Todos os teus companheiros foram abatidos
Roy Batty
e as tuas lágrimas fundiram-se com a chuva que então caía
copiosamente, na cidade elétrica de néon sujo.
O teu ricto era cínico, mesmo que uma pomba
(mau presságio)
te viesse afagar os cabelos platinados
de um Replicant binário, que era o que tu
verdadeiramente eras.
Na tentativa vã de trespassar crivos
e sentires vida na tua mão,
donde só brotava um gel escurecido
procuravas matar o teu código final.
A ti a quem chamaram robô de combate
e tal como o Homem matou o seu Deus
foste engolido pela rede de falsos neurónios
substituindo os deuses por chips que
nos ligam ao panóptico que tudo vigia
menos a ti Roy Batty
assassino a quem uma pomba afagou o cabelo.
Na hora do fim, entregaste a tua virtual plenitude
e ainda amaste uma mulher, comandada à distância
mortalmente útil, baleada pelas costas numa chuva 
de vidros reluzentes.
Foste tu Roy Batty que mataste o teu criador cibernético
não sem antes
o cegares como a Édipo Rei, com os teus próprios
dedos ainda não quebrados.
A eletrónica erradicou qualquer replicante
e já não há espaço para a revolta, como tu sabes, aliás.
Só para sentires a dor que tentaste cravar, sem
dares por isso, na tua própria mão
imitando a mesma mão de Cristo
cuja dor tentou cimentar o mundo.
A tua analgesia libertou-te do assassínio
que cometias regularmente com justiça e prazer
e querias tu, encontrar o doce regular
do tempo, quando já só havia vazio,
sexo e dinheiro extraordinário.
Sentiste então que os homens mataram-No
que o substituíram pela usura e pelo humanismo
de uma enxurrada de mortos, estropiados e loucos.
Na deriva da tua demanda
provavelmente viste o nome de um amor
descer irremediavelmente na lista de contactos
de uma comunicação de bolso de dois chips
que tento envolver na minha mão
para sentir a réplica de ainda estar vivo.

António Luís Catarino
Porto, Café Célia, 8 de abril de 2015

terça-feira, janeiro 22, 2019

O Museu dos «Descobrimentos» / 29


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Portugal foi um país esclavagista? Responder a isto nunca foi tão fácil para qualquer jovem que esteja a frequentar o ensino secundário e, creio mesmo, em patamares inferiores. Claro que Portugal foi esclavagista. Avancemos mais um degrau nesta confirmação: foi o primeiro país esclavagista, como gostam de lembrar os holandeses. Bom, este debate na sociedade lusa nunca foi tão ríspido como hoje. Como começou não sei bem, mas, há uns meses, o SOS Racismo quis levantar a questão da escravatura negra e mostrar-se contrário à abertura do uma pretensa construção de um «Museu dos Descobrimentos» exatamente onde se encontra uma estátua do nosso literato, filósofo e missionário jesuíta Padre António Vieira. Porquê fazer-se um protesto a um padre que morreu no século XVII, nascido a 1608 e levando com a vossa ocupação castelhana uns anos até ir para o Brasil, onde morreu na cidade de S. Salvador da Baía? A polémica é esta: sendo António Vieira contra a escravatura e escrevendo-a em cartas para vários reis, polemiza-se que este só era contra a opressão contra os ameríndios, ignorando e até favorecendo a escravatura dos negros que vinham de África no comércio triangular onde assentou o capitalismo nascente. Sabemos que foram milhões de negros que foram empregues em sanzalas na extração de cana de açúcar e nas minas e que tiveram como destino o Brasil. Ora, sendo esta uma verdade, o dito protesto chamou a atenção oportunista e simplória de nacionalistas de cariz salazarista que rodearam a estátua do pobre Vieira com as suas saudações de braço estendido. A extrema-direita a ler um filósofo que não o do pobre intelecto do Gobbels? Não acredito sequer que algum tenha lido qualquer letra escrita por Vieira, mas enfim, a polémica arrastou-se até hoje e ainda perdura agora com o nome a dar ao tal «Museu dos Descobrimentos». Deverá ser o museu da «expansão», das «viagens» ou mesmo da «escravatura». Fala-se mesmo da possibilidade de simultaneamente ao eventual museu encarar-se a hipótese de uma estátua a lembrar este passado obscuro da nossa história pátria. Não ironizo. Concordo com esta última proposta e aceito a ideia que nos «esquecemos», há demasiado tempo, do que fizemos em África até ao século XX. No meio desta polémica houve quem lembrasse que a escravatura até ao século XIII/XIV era essencialmente branca. Daí o nome de escravatura ter como raiz a palavra «eslavo». Os árabes sempre praticaram a escravatura eslava, branca, até à escravatura negra ser muito mais rentável; é um facto e desde o Império Romano. O reverso da medalha é que os que defendem que «não temos de nos envergonhar do passado» (que fiz eu de mal?) afirmarem que os negros faziam já escravos entre as diversas tribos. Ora, é só uma questão de escala? Fazer 40 prisioneiros de guerra e vendê-los como escravos é o mesmo do que se escravizar 9 milhões? Antes o suicídio, como Vieira afirma nas suas cartas, aquele em que tribos inteiras de ameríndios tupis ritualizavam a morte em recusa ao «tripalium» raiz da palavra «trabalho». Pior que tudo, na minha modesta opinião, não é a existência desta polémica que até tem razão de ser. O problema é que a maioria da opinião pública e publicada prefere ainda seguir a filosofia de Gilberto Freire, brasileiro e fervoroso apoiante do Estado Novo brasileiro e português nos anos 40, que dizia que os portugueses «ao contrário de outros povos» (seria uma referência a Espanha? À Bélgica? À Grã-Bretanha?) eram naturalmente propícios à miscigenação e ao contacto amigável entre os povos! Ora, acreditem, que isto não é verdade e, se o foi nalgum lado do Império, aconteceu por falta de mulheres europeias numa população pequena como a nossa; se aconteceu miscigenação foi à força da lei, ou pelos direitos próprios, não escritos, de se ser branco. Bem vistas as coisas, não nos livramos tão depressa da banalização da escravatura; nos manuais escolares ao responder-se à questão «Quais os produtos que vinham de África?» os nossos jovens aprendem a dizer «malagueta, marfim, ouro e escravos»! Como se fosse tudo igual, não é?


António Luís Catarino, 24/07/2018

Violência e Literatura: um mal nunca vem só / 28


Na capa da inominável revista: «O romance que derrotou a ETA»

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Algo na capa da última LER (nº149) chamou-me a atenção. Um exclusivo de Eduardo Mendoza, editado pela Seix Barral em forma de livro em Espanha, foi aqui publicado nesta revista com o seguinte título: «O que é que se está a passar na Catalunha?». A outra chamada de capa tinha um título mais bombástico. Literalmente. «País Basco. O romance que derrotou a ETA». Ora, depois de desembolsar a quantia nada meiga da revista em causa, pus-me a ler de imediato o segundo artigo sobre o País Basco e tratava-se de uma crítica do livro «Pátria» de Fernando Aramburu, editado aqui em Portugal há pouco tempo. Mas um livro que derrota uma organização paramilitar como a ETA? Afinal, quando abro na página do artigo em causa, o título era outro: «Pátria, a derrota LITERÁRIA da ETA». Ah, literária! Depois de lido o artigo na íntegra onde Aramburu nada tem de sua responsabilidade, chega-se à conclusão que «Depois da derrota nos planos operacional e legal, Pátria deixa a derrota literária da ETA a um passo», Afinal em que ficamos? Derrota final, derrota assim-assim ou vitória nem que seja de Pirro? É minha convicção que não se vence nenhuma luta desta natureza com qualquer livro por muito bem escrito que esteja. E está. Se fosse assim Savater tê-la-ia derrotado antes. A literatura não salva ninguém. Não é redentora. Não de desculpa nem se exorciza. Não derrota ninguém. Talvez nos dê a vaga sensação de catarse, e aí talvez tenha alguma utilidade. O campo da derrota ou da vitória prende-se somente com a política e com a vontade dos homens e mulheres que a fazem.
Já Eduardo Mendoza começa por dizer que não vive na Catalunha (tal como Aramburu não vive no País Basco) mas dá-nos uma visão nítida do que se passa nas terras de Barcelona. É uma perspetiva que é apresentada aos «estrangeiros» como nós, certo. Mas incomoda a não identificação do fascismo com o franquismo e por assim dizer ao salazarismo visto ambos serem de matriz católica. Ora, a estrutura do estado estava assente no fascismo corporativista italiano e segundo Michael Mann o que diferencia estes dois regimes é a não existência de grupos paramilitares promotores de terror sobre as massas. Não o seu catolicismo. Sabemos como foram tratados os radicais de direita nestes regimes. Perseguição em Espanha aos falangistas e as JONS e em Portugal aos «Camisas Azuis» de Rolão Preto, que criticavam ambos os regimes. Quer Franco, quer Salazar odiavam a desordem. Mas isso não quer dizer, segundo a minha opinião, que no caso da Catalunha, não sofresse a repressão do franquismo (que Mendoza e Aramburu aliviam cada um à sua maneira e na sua região de origem), proibindo a fala do catalão (tal como o galego e o basco) e cujo desenvolvimento económico levou Espartero a pronunciar a frase «Há que bombardear Barcelona a cada 50 anos». Isto é fascismo. Os dois regimes, espanhol e português, souberam como ninguém criar uma sólida cultura de propaganda e de falso folclore, criando uma espécie de espectáculo popularucho, inventando trajes, músicas e falsos costumes, estereótipos franquistas que Mendoza nos apresenta nesta frase: «o catalão é trabalhador, um pouco lerdo de expressão, bastante tacanho. O seu modo de se comportar é tosco. A sua imagem é a de um homem barrigudo, de meia-idade, careca, risonho, devoto de Moreneta, sócio do Barça desde o berço. Comparado com o andaluz gracioso e preguiçoso, o madrileno jeitoso, o basco algo nobre e duro de moleirinha, o aragonês teimoso ou o galego astuto, mas impreciso, a caricatura poderia ser pior». Por isso, não admira que Mendonza nos atire à cara que a burguesia catalã também não tem literatura e daí a sua derrota frente à intelectualidade espanhola. A existir, o que é pouco provável, salvai-nos da literatura que derrota povos inteiros. E de literatos ou poetas em governos!

António Luís Catarino, 13/07/2018

De como recuperar livros que, entretanto, desapareceram /27


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Devo dizer-vos que se trata de uma história verdadeira que aconteceu comigo e se terá passado certamente convosco. As pessoas que hoje vão nos cinquenta anos, sessenta e outros «enta» sabem que perderam livros que ao longo do tempo constituíram a sua biblioteca quando tinham quinze, dezasseis anos e mais uns dos que vieram logo a seguir. Penso que a década em que tivemos vinte anos talvez seja mesmo a que desenha a nossa personalidade estampada nos livros e que se reflete até hoje, com algumas variantes, bem-entendido. Entretanto, as bibliotecas pessoais foram alargando-se, engordando, vítimas do sabor do tempo e da moda. E os poetas que nos abandonaram vendendo-se ao status quo? E os nossos autores preferidos que, entretanto, se renderam aos prémios literários? Quantos destes livros foram deitados ao lixo e substituídos por outros mais «modernos». Agora vejam: para além da contínua substituição dos livros, dos empréstimos a alguns a quem perdemos o rasto, houve também mudanças de casas e livros perdidos, inundações, divórcios, separações litigiosas ou compreensivas, embora não tanto que impedisse o ex-cônjuge de dizer «estes são meus!»  e as bibliotecas continuaram a transformarem-se. Ora, um bom amante de livros não os esquece tão facilmente. Aqueles que perdi, pensava eu definitivamente, aparecem gloriosos, agora, nos alfarrabistas. Já passaram 40 e muitos anos e torna-se lógico que numa visita a um alfarrabista se encontram os livros da nossa juventude. Agora vem a história: há uns anos vendi parte da minha biblioteca para conseguir dinheiro para uma viagem a grande parte da Europa numa autocaravana. Devo dizer que escondi do comerciante alguns de que não podia sequer pensar em separar-me. Mas a grande parte da poesia, do romance, dos livros de História, de Filosofia, Sociologia, Antropologia, de catálogos de arte, foram-se. O arrependimento veio logo a seguir, de alguns livros que deixei ir: alguns do editor Vítor Silva Tavares, um de António Maria Lisboa, de Cesariny, de Nuno Júdice, de Mircea Eliade ou de Edgar Morin. Muitos. O que me acontece agora é reencontrar-me com eles nas lojas de livros antigos. Tenho recuperado muitos a preços proibitivos. Do que mais senti a falta, aquele que me fez chorar copiosamente a alma foi a minha venda criminosa de um livro do poeta surrealista Cesariny. Eram os Textos de afirmação e combate do Movimento Surrealista Mundial, uma resenha luminosa da poesia surrealista que se fez pelo mundo todo. Mas há uma semana, readquiri-o numa Feira do Livro. O preço era exorbitante: 175 euros, quando, com 22 anos, me custou uns 200 escudos que correspondem hoje a 1 euro. E assim tenho-me afastado paulatinamente das livrarias dos grandes espaços e enfio-me em alfarrabistas procurando o meu passado nos livros que possuí. Cada vez que reponho um livro na minha estante, sinto-me mais velho, mas incomparavelmente mais feliz. E mais falido, também. Mereço-o.

António Luís Catarino, 13/06/2018

Álvaro Lapa. No Tempo Todo /26

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«O Homem que sabia demais», Álvaro Lapa

Uma das maiores retrospetivas de pintura está a decorrer no Porto, numa exposição fantástica em Serralves com 300 das suas obras, cuja curadoria pertence a Miguel von Hafe Pérez. Álvaro Lapa, pintor e escritor, nascido em Évora em 1939 e falecido no Porto em 2006, foi um dos pintores de arte contemporânea que possivelmente influenciou mais a nova geração. As presentes obras entre pinturas, desenhos, objetos e livros expostos compreendem os anos de 1963 a 2005. Não são despiciendas estas datas. Álvaro Lapa, numa retrospetiva sua de 1994 a 2006, rejeita toda a sua obra antes de 1968 argumentando que só tinha encontrado o seu «traço» a partir deste ano. Concordo absolutamente com a opção tomada de algum risco curatorial sempre exposto à crítica miudinha. Daí, o nome da exposição No tempo todo. Conhecêmo-lo assim melhor. Autodidata enquanto pintor, escolhe primeiro Direito e opta em definitivo pela Filosofia tornando-se professor de Estética na Faculdade de Belas-Artes do Porto. Vale a pena observar-lhe o percurso: liceu de Évora onde é aluno de Vergílio Ferreira, mas mais importante que isso, denuncia o ambiente de «padre-pide» da terra latifundiária antes de 1974 e contacta António Charrua, António Palolo, António Areal e Joaquim Bravo (que foi meu colega em Lagos e por quem conheci Lapa). Forma-se um trio sólido de provocação imediata nas artes: Lapa-Bravo-Palolo. Defendem, com palavras do primeiro a condição do artista: 1) uma arte não portuguesa; 2) uma solidão não dividida; 3) um único limite ao acto, o do originário. Estuda Milarepa, um sábio tibetano do século XI e é ligeiramente influenciado pela filosofia zen, tão cara aos beatnicks americanos. As figuras negras que verão em alguns quadros constituem o que ele chama de «Homem sem esforço, sem propósito, sem utilidade».Recusa violentamente, já a viver em Lagos, o conceito de indústria cultural e aqui vemos Bravo com ele, sustentados pelas filosofias de Adorno e Benjamim. Recusa igualmente os perigos da dita cultura e principalmente o conceito de «vanguarda que define como um termo gasto como uma rameira velha que se vende a pataco».Assume o ventriloquismo, espécie de alter ego (segundo Estrella de Diego), de Abdul Varetti, escritor falhado, siciliano do século XIII. João Ribas, contudo, assume estas pinturas como heterónimo que proclama «Isto, isto não é pintura!». A pintura de Lapa é pictográfica. Lê-se, transforma-se em cores e proclamações ou profecias. Pessoalmente, o que me fascina mais em Lapa é o conceito de colagem numa união entre partes aparentemente díspares, dar coesão aos opostos, integrar signos e significados diferentes. Creio que a liberdade em Lapa encontra-se aí. No conceito de colagem, esta torna-se vácuo.

Sorte. Tive a sorte de, ao ver No tempo todo, assistir a leituras das leituras de Álvaro Lapa, organizadas pela inexcedível Regina Guimarães e Amarante Abramovici. Não podendo, por falta de espaço, apontar todos os nomes que influenciaram o artista, entrego-vos as mais significativas: Luiz Pacheco (Ana Deus), Cervantes (Isaque Ferreira),Ferlinghetti (Pedro Eiras), Joyce (Rui Spranger), Tristan Tzara (Rui Reininho), Louis Aragon (Bernardo Sarmento) e outros, muito outros. Lapa, em 1971, dizia-nos sabiamente: «Ocioso, pois? Sim, o meu progresso tem-se gerado para o ócio, e nisso me vejo cada vez só e livre, A arte é a degradação do silêncio».

António Luís Catarino, 18/04/2018

De como Almeida Faria decompõe Portugal, o seu passado e destino / 25


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Almeida Faria nasceu em 1943 na alentejana vila de Montemor-o-Novo. Aos 19 anos publica Rumor branco com que ganha o Prémio Revelação da então Sociedade Portuguesa de Escritores. Outros se seguirão. Aluno de Vergílio Ferreira no liceu de Évora é com entusiasmo que este o vê como jovem prometedor, faltando-lhe a continuidade desse apoio aquando da saída de Paixão, em 1965, não vá o diabo tecê-las e de jovem prometedor não fosse tornar-se escritor concorrente. Segundo Almeida Faria, a relação esfriou-se e entende que estas invejas e maledicências são próprias de um país pequeno. Geografias, portanto. Não me escuso de afirmar a excelência de Almeida Faria e a sua enorme coerência. Uma vida, uma obra. Percorre a escrita poética em forma de prosa que se transforma em romance que se lê com avidez. Óscar Lopes, esse professor ímpar, diz que o uso recorrente de aliterações, anáforas, hipérbatos e principalmente a metáfora viva nos seus romances-poemas em «ritmo livre» é que liberta a leitura ritmada por pontuações abertas. Mas é Manuel Gusmão que nos dá a dimensão exata da coerência literária de A.F. projetada no tempo e que o leitor deduzirá se a leitura for rigorosamente cronológica da Trilogia Lusitana com Paixão (1965), Cortes (1978) e Lusitânia (1981) a que se veio juntar Cavaleiro andante (1983) transformando-se em Tetralogia Lusitana. Traduzido para várias línguas, em Espanha só se conhece Lusitânia, editado pela Alfaguara em 1985 e O conquistador, já fora da tetralogia, pela Tusquets, em 1997. A singularidade deste escritor prende-se com a forma de apresentar o romance destes quatro livros: Paixão, passa-se a uma sexta feira santa, Cortes a um sábado e Lusitânia no domingo de Páscoa. As personagens, do sul latidundiário português, sendo as mesmas, são submersas pelos acontecimentos e absorvidos pela História, espaçados pelo tempo de quase trinta anos. Houvesse uma teoria da relatividade literária e Almeida Faria seria o seu inventor, retirando essa condição a Joyce, obviamente. A técnica literária do escritor varia entre a epistolografia até à descrição das personagens e dos anos de brasa do pós-25 de abril e da descolonização. Em 2012, publica O Murmúrio do mundo de uma viagem a Goa, talvez à Índia camoniana, onde perfila citações várias e as cruza com a História. Apresento-vos o final de Cortes que, infelizmente, não o viram traduzido em espanhol: «João Carlos não acha graça, diz: merda de pátria, azar ter caído aqui, ninguém nem nada me consola, desastre ter tomado o comboio errado, em descensão há séculos, apodrecido por dentro, por fora velho cagado, arrumado em ramal fechado, atacado de demência do passado, mantido em vida por extremo artifício, tresanda a bafio, a morte, a melancolia inglória.(...)» Onírico, clássico, romance-ensaio como afirma Óscar lopes, poema-prosa, psicanalista rigoroso de um povo, como diz dele Eduardo Lourenço, que sabe, como ninguém, quais os nossos labirintos feitos da saudade. Volto a Almeida Faria, em Lusitânia: «Sair desta terra não seria novidade. Gerações de gente sobrevivente, não raro subserviente, não são um caso à parte. Os mais valentes sempre emigraram.»

António Luís Catarino, 20/05/2018

terça-feira, janeiro 08, 2019

Xabier López López considerado um dos melhores contistas europeus

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Não deixa de ser muito reconfortante dar de caras com uma revista literária bastante influente realçar o nome de um autor que a Deriva Editores descobriu na Galiza e de quem publicámos «A Estranha Estrela». Isto por 2004. Sempre o achámos um autor acima da média. A crítica até foi simpática, mas os leitores não. Provavelmente levados pelo tédio de alguma literatura anglo-saxónica, desconfiavam dos nossos «irmãos» galegos. E assim foi. Hoje, se o quiserem ler peçam à Amazon...o texto aí está:

Now in its tenth year, Best European Fiction continues to be an essential resource for readers, critics, and publishers interested in contemporary European literature. This year’s anthology brings together some of the most exciting prose writing in Europe today, by writers such as Alberto Olmos, Lars Petter Sveen, Xabier López López, Teolinda Gersão, and Ádám Bodor. Ranging from the firmly well-established to rising young writers never before translated into English, the stories of Best European Fiction 2019 are bound to provoke and delight.
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Edição da Deriva Editores / 2004
Tradução de Ângela Carvalhas
Capa de Gémeo Luís

Romance de aventuras onde Emílio Amarante, o protagonista, está submetido a encontros extraordinários onde as leis naturais não ocupam grande lugar. Filósofos, corsários, navegantes de todos os feitos arrastam o leitor para o prazer puro da liberdade e da fruição da narrativa. Um romance onde se cruza o estilo oitocentista e o pós-moderno.
Prémio da Crítica Espanhola (2002).

As cartas da guerra de Lobo Antunes / 24

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António Lobo Antunes / foto «Visão»


Foi uma simples frase de Marc Ferro, no seu derradeiro livro Cegueira, que me fez pensar na epistolografia e na cinematografia de guerra. Dizia este historiador que o filme Non ou a vã glória de mandar, de Manoel de Oliveira, é uma forma de contar a derrota de 1578, em Alcácer Quibir, transportando-a para todas as guerras que se lhe seguiram, entre elas, a colonial. Este tema encontra-se noutros realizadores como João Botelho, Um adeus português, e escritores como Assis Pacheco, Mário de Carvalho, Lídia Jorge e outros para quem a guerra colonial portuguesa não foi uma simples nota de rodapé da História ou que se pudesse esconder debaixo do seu tapete. A guerra durou 13 longos anos em 3 frentes africanas e mobilizou 1 milhão e meio de jovens. Mais de 13 mil não vieram para casa e centenas de milhar diminuídos física e intelectualmente. A guerra foi terrível e só terminou em 1974. É aqui que chamo António Lobo Antunes, um escritor ímpar na nossa literatura. A guerra colonial absorveu a sua escrita e deu-lhe forma física, dolorosa e incongruente, como um fardo coletivo. Sabemo-lo no excelente filme de Ivo Ferreira, Cartas da guerra, baseado no livro que as filhas de Lobo Antunes editaram na epistolografia mantida entre o pai e a mãe, esta recentemente falecida. São perto de 400 aerogramas (cartas que se destinavam às famílias dos soldados da frente) de amor entre ele e a mulher, Maria José. Ele, médico em Angola, assiste ao pior das guerras: aos massacres, às torturas perpetradas pela PIDE e por comandos, aos amigos a morrerem, à cobardia e ao heroísmo vão. Não mostra nenhum moralismo ou arrependimentos serôdios. Era a guerra que claramente contestava e uma pesada solidão que se pressente quer no filme de Ivo Ferreira ou na leitura das cartas. Quase toda a obra de António Lobo Antunes reflete isso mesmo desde os primeiros O cu de judas ou A memória do elefante, por acaso (?), recusados por editoras nos finais dos anos 70 e com a jovem democracia cicatrizando ainda as feridas da guerra, até às obras posteriores deste autor. D'Este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra é como se chama o livro que deu lugar ao filme de Ivo Ferreira e que levou o escritor a afirmar que «É sobretudo uma história de amor e isolamento e de como um Estado pode privar mais de um décimo da população das suas vidas, contaminando um país inteiro. É uma declaração de amor e uma questão de sobrevivência». Essa luta pela sobrevivência sente-se a cada frame do filme ou cada palavra de uma carta. Mas às vezes não. O espírito soçobra perante a estupidez da guerra e da sua sujidade, da nostalgia de um país adiado, pequenino, intriguista, pobre e sujeito à vidinha quotidiana, cuja fuga possível seria o futebol, o fado e Fátima. Nesse desespero, Lobo Antunes escreve, de Angola para Portugal, todos os dias e redige palavras sublimes à mulher que ama: «Gosta sempre de mim. Imagino o frio que aí estará, a nossa casa de que me hei-de lembrar sempre, apesar de nunca mais voltarmos para lá, o porteiro, a rua, os móveis, a cozinha, a cama com o cobertor ao meio, as gravuras, e vejo como fui feliz aí contigo, como tenho sido sempre feliz contigo, como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o pescoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé, do teu dente de ouro, do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a.»


António Luís Catarino, 21/03/2018

Céline / 23


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Céline

O ano era o de 1980 e encontrava-me em Coimbra, numa Universidade tão antiga, quanto resistente aos ventos de inovação e crítica que, no país, desde a revolução de 1974 varriam o país. Depois da tempestade transformadora veio a bonança normalizadora e, enquanto os soldados voltavam para os quartéis, rapando as longas barbas e cabelos, os operários e camponeses desocupavam as fábricas e terras; os estudantes, esses, não cortavam os seus cabelos e barbas, mas preparavam-se para voltar a estudar as longas matérias e tornarem-se úteis à sociedade – tarefa muito difícil, ou quase impossível, como viriam a comprovar mais tarde, pelo visível desprezo que o Estado democrático lhes dedicava.
Nos entretantos do tempo, eu lia poesia, literatura vária, ouvia música e rádio. Muito rádio. Entre os meus programas favoritos contava-se o excelente «Café Concerto» de Maria José Mauperrin que, com as escolhas jazzísticas de Aníbal Cabrita, fazia as delícias dos meus dias da semana entre as 22:00 e a 24:00. Nunca mais me esqueci de uma entrevista em particular e que, casualmente num encontro entre livros, relembrei-a com Aníbal, aqui no Porto no ano passado. Maria José Mauperrin, entrevistava Jorge Listopad. Este, um dramaturgo e realizador de origem checoslovaca, contava que veio para Portugal, afastando-se do estado do «socialismo real» que, nos anos 50, já se consolidava no seu país. Lá, o entusiasmo pela libertação também esmorecia, como em Portugal dos anos 70. Embora resistente aos nazis no seu país e na Jugoslávia, meteu-se no seu Skoda, com a mulher e as duas crianças gémeas e só parou em Portugal, travando à vista do Atlântico. Era uma figura algo controversa mas, pessoalmente, muito empática. Que tem isto a ver com Céline? A entrevista com Mauperrin continuava interessante e Listopad contava que, na sua errância, tinha chegado aos arredores de Paris, noite chuvosa, e as duas gémeas encontravam-se doentes com febre. Uma gastroenterite, creio. Entrou na vila de Meudon por acaso e, num café, perguntou se conheciam algum médico perto. Apontaram-lhe uma casa. Listopad, então, bateu à porta e saiu-lhe um homem rude com um casaco grosso e rodeado de cães. Era Louis-Férdinand Destouches e Listopad reconheceu-o como Céline. Era o tal médico, sim. Ao pedir-lhe ajuda, Céline ter-lhe-á dito que não podia observar e curar as filhas dele porque…tinha de dar comida aos cães! Nunca mais esqueci esta sequência e mostra bem as partículas elementares da raiva de que era feito Céline, cuja memória dos seus panfletos antijudaicos, volta a incomodar a nossa veia iluminista. Fosse este homem quem fosse, e era radicalmente mau como pessoa, não invalida ter escrito dos maiores libelos contra a guerra como «Viagem ao fim da Noite» e «Morte a Crédito». Não se trata de uma tentativa metafórica mas as gémeas de Listopad, essas, salvaram-se, apesar de tudo.

António Luís Catarino, 1/03/2018

«Sinto que o que havia de bom em mim me vai abandonando e pareço-me mais positivo a cada dia que passa!» 22


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Patrik Ouredník

Calhou-me às mãos um livro de um rapaz checo nascido como eu nos anos 50 do século XX: Patrik Ouredník que escreveu o tão estranho, quanto lúcido «Europeana». A Espanha teve sorte, visto que o livro de 2001, foi editado aí em 2004 e em Portugal somente em 2017. Adiante. É obrigatório lê-lo e não ter receio de comparar o seu autor a Swift, Sterne ou mesmo a Beckett. Entremos no horror: em 1944, aquando do desembarque na Normandia, os americanos tinham de altura média 1,73m. Se juntássemos os corpos dos que tombaram teríamos uma fila de 38 Km. Atenção: se utilizássemos o mesmo padrão aos franceses caídos em toda a II Guerra teríamos 2681 Km, os ingleses 1547 e os alemães 3010. Se num exercício mais macabro os contássemos a todos, teríamos a soma terrífica de 15508 km. O diâmetro da Terra é de 12 742Km. Mas a carnificina da I Guerra terá sido mais traumatizante ainda: havia novas armas e novas estratégias que matavam no mar, em terra e no ar. Perante a morte em massa fixemo-nos na frase de um soldado italiano que, nas trincheiras infectas, escreve à sua irmã o estranho título em epígrafe, versão não nuclear do Dr. Strangelove. Não faltará, pois, entusiasmo e os nazis e os estalinistas criaram campos de concentração, de extermínio e de reeducação e também a noção do «homem novo», o que vai dar ao mesmo. Mas foi o trabalho e a técnica, o alfa e o ómega da nova era. As mulheres também se libertaram entre as duas guerras, substituindo os homens nas fábricas de armamento e gazes nocivos e algumas morreram de cancro e ficaram estéreis. Colavam cartazes nos EUA do tipo «Ai quem me dera ser homem: juntava-me imediatamente à marinha!». Depois, as teorias eugénicas levaram ao Holocausto e ao genocídio dos judeus em massa mas, em 1985, o Conselho Mundial Judaico não reconheceu o genocídio cigano. Depois, matou-se Deus lá pelos anos 60 e um revolucionário francês conhecido afirmou que tinha dúvidas que o Homem O substituísse com competência. Mas nos anos 30 e 40 mataram-se muitos homossexuais, alcoólicos, inadaptados, subversivos e malucos. Pararam nos anos 50 quando os cientistas pensaram que se os eliminassem a todos, seriam ainda precisas 90 gerações para conseguir 1 associal em cem mil pessoas. Depois vieram as crianças e os jovens que queriam produtos para eles e a sociedade de consumo deu-lhes tudo, embora eles combatessem a sociedade de consumo. Este hedonismo é que mata a memória, o que é perigoso, diziam os historiadores entendidos no assunto. Depois, os animais ficaram importantes e os soldados americanos no Vietname quotizaram-se para construir um monumento aos 4100 cães caídos pela democracia e pela liberdade. Finalmente (?), em 2000, o estado do Alabama permitiu casamentos mistos entre brancos e negros. Vieram as teorias apocalípticas afirmando bastas vezes que o mundo ia acabar. Quase que acabou às 23.59h do dia 31 de dezembro de 1999, quando o «Bug do Milénio» não saberia identificar o ano de 2000 e voltaríamos a 1900. Como o século não existisse e a eletricidade não tivesse sido inventada.

António Luís Catarino, 12/02/2018

Victor Segalen ou os passos perdidos de Gauguin e Rimbaud 21

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Victor Segalen

Kenneth White, no seu livro «O Espírito Nómada», já nos tinha avisado sobre Segalen. Ele foi, sem dúvida, uma referência ao que ele chama de «geopoética» como uma busca de um território radical «dentro do qual pretende unir a presença no mundo a uma estética que seja poderosa, comovedora e bela» (Rui Bebiano, Revista Ler, nº 73). É pois um nomadismo intelectual, mais do que um exotismo ou simbolismo com que Segalen é muita vez tratado pelos seus biógrafos. Mas este poeta, médico, arqueólogo, marinheiro e escritor, procurou incessantemente o seu próprio espaço poético. Nascido em Brest em 1878 e falecido em 1919 ousou um errar permanente por um mundo já demasiado pequeno (chega a ironizar com a inglória viagem de Fernão de Magalhães) e tocado pela civilização ocidental que Segalen põe cada vez mais em causa, principalmente na conversão imposta pelas religiões que recusam o prazer e bem descrito no seu livro «Os Imemoriais». Segalen consegue colocar-se no Outro, na pele do pensamento mágico, primitivo, e desenhar uma lógica de resistência. As suas viagens pertencem ao domínio do fantástico. Vive no Tahiti e procura Gauguin que morre três meses antes da sua chegada. Consegue salvar os seus diários e sujeitar-se a um «leilão» absurdo das suas pinturas que salva e as remete para França. No arquipélago, sente comoção e exaltação pela beleza luxuriante da Natureza. Deslumbra-se com as mulheres, o modo de vida e deuses maoris. Escreve as suas impressões aos seus amigos De Voisin, Debussy e Claudel, entre outros. Depois da guerra de 14/18, vai para a China, de que não é particularmente entusiasta. Interessa-se pelas estelas antigas e escreve um conjunto de poemas com esse nome e «Terra Amarela». Estes poemas são uma viagem para dentro de si, mais do que eventuais tentativas de elaborar «poemas chineses». Mas é a sua viagem à Abissínia que mais me fascina. Vai de encontro à memória de Rimbaud, já uma «lenda» das belas-letras francesas, em Harrar. Quer saber por que parou o poeta de escrever. Quais os negócios a que se dedicou. Entrevistou amigos, um deles, o dono do «Café de La Paix»: as transações de armas e escravos não correram bem a Rimbaud como ele confirma. Quando Segalen adoece e vai para França, ainda tem forças para se encontrar com Isabelle Rimbaud a irmã mais nova do poeta, a preferida, e que assistiu à sua morte. Ao contrário das opiniões de biógrafos, veio a verdade pela boca de Isabelle: não, nada escreveu nos últimos dias. Tinha abandonado definitivamente as letras e voltado para a Europa, esse «charco negro e húmido». Quando, moribundo, a irmã lhe lia algo e encontrava poesia, ele pedia-lhe para saltar as linhas depressa. Segalen compreendeu. Escreveu «O Duplo Rimbaud». Ainda hoje não se sabe o diagnóstico que o levou à morte prematura.

António Luís Catarino, 30/01/2018

sexta-feira, janeiro 04, 2019

«Gegen faschismus», ou o Porto recebe a Áustria 20

Georg Friederich Haas

A Casa da Música do Porto, cujo emblemático edifício do arquiteto Rem Koolhaas se está a tornar um ex-libris, abriu a nova temporada dedicada à Áustria com um espetáculo memorável. Trata-se de In Vain, de Georg Friederich Haas que, segundo alguns críticos do jornalismo de referência internacional, foi o grande acontecimento de composição musical do século XXI (mesmo que este ainda esteja na adolescência). Tive a sorte de caminhar, lesto, para comprar os bilhetes que me proporcionariam momentos de grande exaltação sensorial. Georg Haas, sendo austríaco, compôs In Vain inspirado no aumento da influência da extrema-direita na Áustria em 2001, quando Jorg Haider esteve a ponto do seu FPO participar no governo. Hoje, lembremo-nos, este partido xenófobo e racista está em coligação com os democratas-cristãos no poder. Por isso, a exaltação da composição está na base da «harmonia desarmónica» que constitui a experiência musical de Haas, por vezes assustadora e violenta, principalmente quando as luzes se apagam totalmente na sala e os músicos entram num jogo de provocação individual improvisada, sem a batuta do maestro. Não é um jogo fácil, mas o seu produto é esmagador para quem assiste. Percebemos onde o compositor austríaco nos quer levar, mesmo que o argumento seja o experimentalismo e a contemporaneidade. Entendemos, portanto, que Haas se tenha refugiado nos EUA, saindo da Áustria com a sua mulher de origem afro-americana. Mas ainda lá vive, sob ameaça constante dos cripto nazis, uma prémio Nobel da Literatura austríaca: Elfriede Jielinek. Escritora, argumentista (a sua relação dura com a mãe, católica fundamentalista, esteve na base do filme «A Pianista»), radialista, poeta e dramaturga está na base de livros de uma beleza extraordinária pela sua crueza, sinceridade e conflitualidade com qualquer tipo de repressão, quer familiar, quer social ou política. Jielinek, tal como Haas, não têm perfil de desistentes. São resistentes. Uma opção, dirão, recuada, mas que nos tempos que correm é a escolha artística óbvia se soubermos fugir ao panfletismo fácil. Conto-vos uma estória: estive na cosmopolita e social-democrata Viena há dois anos. Num passeio pelos museus e pelas livrarias mais conceituadas da cidade (fui a quatro, uma delas a famosa Shakespeare and Co., que não sabia existir lá) nenhuma sabia quem era Jielinek ou, se o sabiam, diziam-me que não tinham nenhum livro dela. O esquecimento é também uma forma de expulsão. Resta-nos a boa consciência de ter editado o seu Manual de Sabotagem em português. Isto fica para quem acredita que vivemos tempos verdadeiramente perigosos. Já não só na Hungria ou na Polónia. Também na civilizada Áustria, país convidado do Porto em 2018.

António Luís Catarino, 22/01/2018

Algumas adendas lusas para a história do desespero universal 19

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Não. Não se trata de balanço ou previsões de um ano que findou ou outro que vá começar. Prefiro os anos contados por solstícios e equinócios para que as alterações climáticas não me apanhem desprevenido. Gentes: o Tejo chega a Portugal poluído! Ora, isto é um bom sinal porque, afinal, é prova de que o Tejo ainda existe e tem leito constituído por água. Com alguma poluição é certo, com a sua fauna e flora bem fanadas, mas com água! A maioria dos portugueses acha que haverá mão humana nas alterações climáticas, mas não se mexem perante a conclusão científica que, dentro de pouquíssimos anos, teremos um clima igual ao Norte de África. Os portugueses não se importam. Com a capacidade de resistir contra o desespero, chamar-se-á a arte do desenrascanço e reconverteremos o turismo do Sul em destinos onde prevalecerão as dunas desérticas e os oásis de sonho. Possivelmente ganharemos até o Paris-Dakar. O Norte terá, portanto, um clima semelhante ao Algarve o que deixa todos satisfeitos.
Volta-se a debater a questão dos imigrantes e dos refugiados, desenhando-se leis para o aumento do rigor na sua entrada e flexibilizando a sua expulsão. Nada que nos desespere. Mesmo que sejamos um dos países com menor taxa de natalidade da Europa e cuja diáspora atinja já os dois milhões de mamíferos humanos. Grande parte de emigração portuguesa para a Europa nos anos pesarosos da troika não regressou, igualmente. Nada que nos incomode. Os jovens que saíram de Portugal, esses, não mais virão. O nosso ordenado mínimo continua dos mais baixos. Subiu para 560 euros. Desespero? Vejamos o lado positivo, pouco se paga de impostos com este mísero salário. O nosso ordenado médio é de 1000 euros. O ministro das Finanças (agora chefe do Eurogrupo, eia! eia!) afirma que o próximo ano será o da poupança. E não se riu. Somos dos países cujo fosso entre os mais ricos e os mais pobres aumentou mais que o fosso já existente no mundo. Desespero? Só para os mais ricos, que terão de procurar novas off-shores para não darem nas vistas.
Os portugueses cada vez leem menos e os níveis de iliteracia e de numeracia começam a ser preocupantes. Havemos de desesperar? Não. Os livros, esses objetos cada vez mais pré-históricos serão substituídos por imagens. As letras, esses incómodos que formam palavras, transformar-se-ão numa espécie de runas modernas que são os emojis dos telemóveis.
Somos dos povos que mais ansiolíticos consome. Há uma verdadeira guerra civil nas estradas portuguesas com 15 mil mortos contados no ano passado. Somos dos povos que mais prisioneiros tem em proporção a outros países democráticos. O desemprego jovem não baixa. Os velhos pedem luta contra a solidão que os mata. A floresta arde ao ritmo das celuloses e do negócio dos incêndios. As crianças sentem a falta dos pais afundados em horários de trabalho desumanos. O interior desertifica e as cidades turistificam-se. Ah…a cannabis pode vir a ser prescrita para uso terapêutico e não recreativo. Pena. Somos dos maiores exportadores de cannabis para o Canadá e EUA, enquanto que 9 milhões de lusos, esperam, ansiosos, pela prescrição médica salvadora.


António Luís Catarino, 11/01/2018

Há 100 anos ou quando os artistas dançavam 18


Boris Kustodiev - O Bolchevique, 1920

A anarquista Emma Goldman nem belo dia de inspiração disse: “Se não posso dançar, não é a minha revolução”. Há 100 anos, em 1917, a revolução russa ainda permitiu, nos seus primeiros tempos, que os artistas dançassem livremente, não esquecendo igualmente que alguns deles já o faziam desde 1905 na primeira tentativa de derrube do czar autocrático. A Okrana pouco se importava se eles dançassem ou não, preocupada que estava em prender e torturar bolcheviques, socialistas revolucionários, anarquistas, niilistas ou simplesmente moderados constitucionalistas. Em fevereiro de 1917, eles dançaram de facto nas ruas de Moscovo e Sampetersburgo. Embebedaram-se de liberdade e criatividade. Em 2017, Todorov escreveu, neste preciso ano da sua morte, um livro inquietante: «O Triunfo do Artista – A Revolução e os Artistas. Rússia: 1917-1941». É toda uma ode aos criadores, mas é também uma sinfonia de desespero dos que, a partir principalmente de 1928, anos da troika de Zinoviev, Kamenev e Estaline, viram coartados os seus direitos de criação. Não que Lenine ou Trotsky tivessem uma especial preferência por vanguardas artísticas que não obedecessem ao cânone bolchevique de «servir o povo». Há opúsculos que, vistos aos olhos de hoje, são anedóticos. No entanto, foram benevolentes, aturando-os, lamentando a sua irrequietude como se fossem paizinhos de garotos insubordinados e malcomportados. Valeu-lhes ainda a faculdade de poder dançar. Maiakovsky, o poeta que aderiu aos bolcheviques, criador o futurismo russo, bate com a porta quando observa que a política interfere com a arte e continua com as performances provocatórias. Odeia o espírito burguês, faz cartazes para o Exército Vermelho na guerra civil e desconhece as conjeturas que já o colocam em causa devido à sua extravagância. Suicida-se mais tarde, diz-se que por amor. Alexander Blok adere entusiasticamente à revolução, tornando-se, inclusive, comissário bolchevique. No fim escreve «o poeta morre porque já nada tem para respirar; a vida perdeu o sentido». Recusa comer, tratar-se de uma crise cardíaca, de subnutrição, de esgotamento. O encenador Meyerhold depois de aderir à revolução compreendeu depressa demais que as suas peças teatrais não estavam de acordo com os objetivos do estado soviético. De resto, muitos artistas emigram, fogem de determinadas formas e calam-se, alguns para sempre. Diaghilev, dos «Ballets Russes», Stravinsky, Natalia Gontcharova ou Larionov nem chegam à Rússia. Nos anos seguintes a 17, emigram Rachmaninov, Prokofiev, Kandinsky, Chagall, Bunine, Nabokov e até Gorki que muda de ares para a Itália. Ficam, embora controlados ao ínfimo pormenor da vida, Bulgakov, Pasternak, Tsvetaieva, Mandelstam, Zamiatine, que escreve a distopia «Nós» e o pintor suprematista Malevitch que, só ele, seria objeto de análise para um artigo. O problema de dançar ou não em 1917, prende-se com o grande problema do homem ou mulher da esquerda atual: acordam a ler uma utopia e adormecem com uma distopia. É que, quando o objetivo é o de criar um regime totalitário, os artistas são sempre os primeiros a dançar.


António Luís Catarino, 23/12/2017

Xutos e Pontapés: em memória de Zé Pedro 17


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Os Xutos e Pontapés são, possivelmente, a melhor banda rock. Porque são genuínos e Zé Pedro, que faleceu aos 61 anos numa morte anunciada há uns tempos, conseguia dar-lhe a vida no palco e nas letras que compunha. Era verdadeiramente credível como rocker. Sem querer, quase sem querer, acompanhámo-lo a partir dos finais da década de 70 e inícios de 80, ainda no Rock Rendez-Vous onde íamos beber umas cervejas e onde o haxixe e a erva corria, frenética, na inicial movida lisboeta. Zé Pedro e os Xutos topou-nos a todos, razão do enorme êxito a que se borrifavam totalmente. Entendíamo-nos bem: eles cantavam o que queríamos ouvir, nas nossas vidas dos finais dos 20 anos, acabados os tempos revolucionários e começo da recuperação da democracia normalizada. Eles punks, nós new wave. Sem esperança, sem dinheiro, vagueando na deriva da noite que nos havia de queimar-nos a todos, ouvíamos Xutos e a guitarra do Zé Pedro. Em Contentores, a poesia de quem quer ir «Voltar a zero num planeta distante/Memória de elefante talvez/O outro mundo/A carga pronta metida nos contentores/Adeus aos meus/amores que me vou/P'ra outro mundo/Num voo nocturno num cargueiro espacial» ou rir e ir «E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser/E uma vontade de ir, correr o mundo e partir/A vida é sempre a perder» diziam, em O Homem do Leme. Em memória do Zé Pedro, mas também em todos os amigos que morreram no antro da heroína e do álcool «No fundo do mar/Jazem os outros, os que lá ficaram/Em dias cinzentos/Descanso eterno lá encontraram» ou de jovens mulheres e homens de que perdemos o rasto, que amámos perdidamente em sinais da noite e no império dos sentidos da juventude de blusões negros «Procuro à noite, um sinal de ti/Espero à noite, por quem não esqueci/Eu peço à noite, um sinal de ti/Por quem eu não esqueci/Por sinais perdidos/Espero em vão/Por tempos antigos, por uma canção/Ainda procuro, por quem não esqueci/Por quem já não volta, por quem eu perdi». Quantas vezes a raiva estourou nos nossos dedos vendo os sonhos partirem assim de rajada em Não sou o único: «A ver os sonhos partirem/À espera que algo aconteça/A despejar a minha raiva/A viver as emoções/A desejar o que não tive/Agarrado às tentações/E quando as nuvens partirem/O céu azul ficará/E quando as trevas abrirem/Vais ver, o sol brilhará». Sim, Zé Pedro topou-nos de longe e viu os brilhos do céu azul, fosse um anjo da guarda que nos fizesse voltar a sonhar e voar, como de causas políticas concretas que ele abraçou e deu a cara. Infelizmente, o Circo de Feras que anunciou cá está em todo o seu esplendor: «A vida vai torta/Jamais se endireita/O azar persegue/Esconde-se à espreita/Nunca dei um passo/Que fosse o correto/Eu nunca fiz nada/Que batesse certo». Geração derrotada, mas não vencida totalmente, esperneia por um mundo ainda livre. Possivelmente, perderemos a última luta: «As vagas que te esmagam/Contra tudo lutas/Contra tudo falhas». Queremos de volta os nossos blusões negros, queremos de volta este amor juvenil. Não somos os únicos. Tu, Zé Pedro, eras o único, sim.

António Luís Catarino, 6/12/2017

Carta aberta a Lucy que morreu há 4 milhões de anos 16


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Em 1974, um grupo de arqueólogos barbudos, meio hippies, ao ouvirem «Lucy in the Sky with Diamonds (LSD)» deram com o teu esqueleto, nessa ocasião, o mais antigo até então descoberto. Foi na Etiópia e deram-te o nome de Lucy. Sei que tinhas filhos, que provavelmente foste morta ao tentar salvá-los de um predador. Num mero exercício literário, imagino-me a aproximar-te de ti. Imediatamente mostras, agressiva, os teus dentes caninos de australopiteco e, pequena como és, dás saltos para me ameaçar. Provavelmente, pegarás numa pedra a atiras-ma. Queres afastar-me a todo o custo das tuas crias e se me conseguires matar, chamarás todo o bando que me canibalizará, por certo. O meu corpo será um festim de duas semanas. Nesses dias não passarás fome. É provável que da minha coluna vertebral seja retirada a medula, a sobremesa, o postre que dividirás, solícita, pelo bando. Estudei-te na universidade. O teu esqueleto, quanto medirias, quanto precisarias de calorias diárias, tu, uma recolectora que sabe ver em cada manifestação da natureza, um bem. Repito, tenho um eterno carinho por ti. Mas acabaste de morrer, hoje, e não há 4 milhões de anos, em que dataram a tua ossada. Num vídeo de poucos minutos acabaste de ser assassinada por um robôt: Sophie, de seu nome. Encontrei-a aqui https://www.youtube.com/watch?v=BuF7juHPSk0 e não me canso de lembrar-me de ti. Sabes, ela ri-se (ainda é um esgar doloroso), é simpática, tem humor, faz piadas com Blade Runner e com a inteligência artificial, que faz dos humanos seres demasiados estúpidos porque, imagina, somos seres emotivos. É uma robô, que pode ser programada para ser servil, bonita, acompanhante para todo o serviço nas nossas vidas solitárias. Nada de bandos ou tribos. Sós, mas vivendo como robôs, seremos como eles. Ainda não é um objeto sexual, porque a nossa moral e ética mudou entretanto, mas não durará muito a sê-lo. Viajará connosco. Não haverá conflitos de interesses, porque Sophie só pensa em agradar-nos. Nada mais. Pode até deliciar-se com um prémio nobel da literatura e ter um pequeno debate intelectual connosco, humanos. Adorará, à noite ler-nos um poema, enquanto nos prepara uma bebida. Programará a nossa triste felicidade. Não nos matará, nem defenderá as suas crias. Conquistou, facilmente, a cidadania da Arábia Saudita, perto do território onde foste encontrada, Lucy. Terá mais direitos que as mulheres que provavelmente terão ainda os teus genes. Na hora da tua morte, quero reafirmar, perante todos, que te amo, Lucy.

22 de novembro de 2017

sexta-feira, novembro 30, 2018

Wenceslau de Moraes, o ke-tôjin 14


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Ke-tôjin, na língua japonesa, quer dizer «o selvagem barbudo». Wenceslau de Moraes foi escritor, poeta, militar da marinha portuguesa, cônsul em Kobe e professor do Liceu de Macau. Nasceu em 1854 e faleceu em Tokushima, em 1929. Creio que o epíteto de selvagem barbudo, embora por vezes andasse andrajoso pelas ruas, não era só um carinho japonês a Wenceslau de Moraes. Era assim que os orientais viam os portugueses. Diziam os japoneses, em testemunhos da época, que comíamos com as mãos, não nos lavávamos e só falávamos em ouro. «Mas não eram má gente!», diziam. Este desprezo não cabe em Wenceslau de Moraes quando se exilou, voluntariamente, primeiro na China, onde casa com Vong-Io-Chan de quem tem dois filhos e depois em Tokushima, no Japão. Não volta a Portugal. Poeta simbolista e decadentista, olha para o ocidente despido já de espiritualidade e de valores éticos, com o desdém de um poeta que procura, no exótico, a sua fuga. Ama e vê morrer duas mulheres que o marcaram no Japão: Ó-Yoné e Ko-Haru a quem dedica um livro belíssimo. Quanto ao seu exotismo assumido devemos ter cuidado com o seu significado nas palavras de Moraes: defende que se devem amar todos os bichos (e ele tinha-os no seu «casebre», como ele chama à sua casa) e as coisas, todas as coisas, mas não é budista. Escreve: «O amoroso do exotismo, geralmente um intelectual, (…), é também geralmente um esteta, conseguintemente um místico, um apaixonado da cor, do perfume, do som, de tudo o que é beleza e arte.» Todavia, entendendo que as religiões caducam, ele define-se como um religioso para além das religiões. Entre os exóticos realça Lafcadio Hearn e Pierre Loti com uma real admiração pelo primeiro. Quanto a Loti pensa que este nunca compreendeu o Oriente porque hiperativo, ao contrário de Goncourt que o percebeu melhor, mesmo sem ter saído do seu quarto, ironiza. Sendo a sua religião a de esteta, encontra na saudade (como é que a nossa saudade poderia desaparecer?) o que chama uma estética retrospetiva da paixão do belo. Um homem que se vestia de kimono japonês, que detestou a abordagem ocidental e particularmente a portuguesa do século XVII ao Oriente, criticando e desculpando a rudeza e atrevimento do aventureiro Fernão Mendes Pinto, resgata-nos, a nós ocidentais, e nos seus escritos, desse mundo feito de violência e perfídia. Deixa-nos um provérbio japonês para que as nações o pensem: «Jigoku no sato mo kané shidai» (até as sentenças do inferno não passam de negócio de dinheiro!). Como ele diz em «O Exotismo Japonez»: «… E fugi, e voei, e fui deixando farrapos de alma (…) por todo esse mundo exótico fora, - pelo oceano imenso – águas é céu. (…) Cheguei ao Japão. Amei-o em transportes de delírio, bebi-o como se bebe um néctar.»

António Luís Catarino 6/11/2017

Recordação precipitada de Alexandre O’Neill 13


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«Ó Portugal, se fosses só três sílabas/linda vista para o mar…». Alexandre O’Neill. Este homem, este poeta, desnudado das palavras a quem atribuía o epíteto de «animais doentes» pela constante tentativa de as tornarem «bonitinhas», tinha o condão da cumplicidade com o leitor. Mesmo quem nunca o leu repete-lhe os estribilhos ou versos com que denunciou este país feito de pessoas importantes, lídimas corredoras de carreiras assentes no «respeitinho» e em «deuses e deusecos» omnipresentes e servis: «País engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano». Estou a falar da expressão «vidinha» com que nos abanou as consciências monótonas de um país alienado e anestesiado «A poesia é vida? Pois claro!/Conforme a vida que se tem o verbo vem/ - e se a vida é vidinha, já não há poesia/ que resista». Alexandre O’Neill tinha ascendência irlandesa de um foragido do século XVIII, sabe-se lá de quê, e que veio desgraçadamente aportar a Lisboa. Portanto, O’Neill lisboeta, crítico do provincianismo capital, de «ombro na ombreira» como quem espera, um dia qualquer, sair da sombra da porta, dar o ombro aos outros e criar a vida poética verdadeiramente livre «Quando tudo escombro/ ainda todos seremos/ombro na ombreira» e que o levou a excessos em que, disse, «fez do corpo uma alavanca para o mundo, sem pensar no futuro». Inventou a vida, ultrapassou o quotidiano repressivo, amou intempestivo, morreu novo. Cá o temos, a alavanca da escrita que o levou a fundar o Grupo Surrealista de Lisboa em 1947. Saiu de lá logo no ano seguinte porque António Pedro, ministro salazarista sabidão, expôs os surrealistas num salão não sem antes aceitar o lápis azul da Censura. O’Neill, parte para outra, e, nos Cadernos Surrealistas, edita Ampola Miraculosa. Tem a sua Nadja, o seu amor louco com Nora Mitrani, surrealista francesa. A polícia política e a família impendem-no de se lhe juntar em Paris. Não mais a vê. Acede, cuidadoso, aos neorrealistas, cansado do convívio com «fantasmas», sem que se lhe conheça militância ativa. Traduz Ubu de Jarry, Brecht. Escreve nos jornais. Colabora em teatro e cinema. Encontra em Tolentino, Cesário Verde, Pascoaes (que chegou a conhecer escrevendo-lhe uma «Recordação Precipitada»), Álvaro de Campos, uma influência a que não foge, como aceita a fórmula para si próprio de um «grande poeta menor». À questão que lhe é colocada em 1962 de qual seria o seu defeito ele responde: «sentir o desencanto». Para um poeta perder o encanto do mundo é perder igualmente o dom das palavras e da vida. Não o perdeu. Portugal para ele continuou a sua Feira Cabisbaixa de 1965: «…Feira cabisbaixa, meu remorso,/ meu remorso de todos nós».

António Luís Catarino 30/09/2017

Portugal e Catalunha: coincidências? 12


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Os destinos de Portugal e Catalunha estiveram quase sempre cruzados. Os reis fundadores da 1ª dinastia portuguesa eram de origem borgonhesa e eram conhecidas as preferências por casamentos fora do âmbito de Castela. Desde Afonso Henriques, primeiro de Portugal, que se casou com Mafalda, da casa de Saboia, até D. Dinis que se enlaçou com uma princesa de Aragão, Isabel, como forma de não colocar em perigo a sucessão para mãos imperiais. Não será igualmente necessário, creio, lembrar os contributos catalães para a expansão afro-indo-americana dos portugueses, nomeadamente os dos célebres mapas (muito completos para a altura) dos geógrafos judeus dos condados de Barcelona. Mas foi em 1640 que a História juntou os dois povos. Lembremos em que consistiu o 1º de dezembro desse ano, ainda hoje feriado nacional por cá: em 1637 houve uma séria revolta popular contra o governo espanhol da União Ibérica de Filipe IV (o «nosso» Filipe III) devido a um brutal aumento de impostos e a repressão violenta que se seguiu. A grande burguesia mercantil, a alta nobreza e o alto clero, que tinham apoiado avidamente a União com Espanha, sentem-se ameaçadas pelas revoltas e antecipam um golpe de estado no dia 1 de dezembro de 1640 declarando a restauração da independência portuguesa. Ora, é exatamente na mesma ocasião que a Catalunha se revolta contra a presença espanhola originando a Guerra dos Segadores que vai de 1640 a 1652, sem que, historicamente, se prove qualquer ligação entre os revoltosos de ambos os campos. A História também é feita de coincidências! A hesitação filipina faz com que Portugal, exangue e sem exército ou marinha dignos desse nome, se refaça com tempo e espaço e a sempre eterna «ajuda» britânica. Mais tarde, levámos com oito invasões que tentaram repor a União Ibérica dos Habsburgos, todas elas sem um vencedor declarado. Isto até 1666, quando se deu a paz. Perante a proximidade do referendo catalão de 1 de outubro de 2017 (igualmente a data das nossas eleições autárquicas!), não se entende a posição de grande parte dos «opinadores» portugueses face à eventual independência catalã: a maior parte cala-se e não toma partido e, quando o faz, insulta os catalães com artigos penosos como «A Vergonha da Catalunha» de  Henrique Monteiro, (Expresso, 8/09/17) ou, pior, resume-se a questionar se é bom para a economia caseira, devido ao peso de Barcelona no PIB espanhol. Outros desdenham o processo, lembrando a Escócia, Sérvia, Croácia, Eslováquia, Eslovénia ou o Kosovo, como se houvesse comparação de realidades tão diferentes. Maior cinismo não há quando, a existir uma comparação óbvia, essa seria a da Catalunha com outro país: Portugal.

António Luís Catarino, 8/8/2017

Bienbenidos an Pertual 11

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Nos finais de julho, desloquei-me a um concelho irredutível que teima em falar a sua «lhéngua» apesar do domínio cultural de Portugal e de Espanha: Miranda do Douro. O título desta pequena crónica vai, pois, para o «probo» (orgulhoso) mirandês de raiz proto-latina, latina e asturo-leonesa, resistentes à força centrípeta de Castela. A razão pela qual viajei até lá, foi para assistir ao Festival Itinerante da Cultura Tradicional «l burro i l gueiteiro» e ouvir as vozes femininas das «Segue-me à Capela» e dos mirandeses dos «Galandum Galundaina». Se o primeiro grupo se baseia na recolha das vozes populares minhotas, beirãs, sefarditas e transmontanas, o segundo grupo canta somente em mirandês. Foi formidável. Só se dá valor à maravilha que é ouvir cantos, alguns já perdidos nos tempos, quem os ouve ao vivo. Mas a estória foi esta: enquanto esperávamos pelo espetáculo noturno e ao calor abrasador do planalto eu tinha várias hipóteses de sobrevivência: beber cerveja numa taberna de Palaçoulo, aldeia que recebeu o festival este ano e ver o Benfica, ou escolher entre dois «workshops» promovidos simultaneamente: um, sobre o burro mirandês em perigo de extinção, outro sobre a «lhéngua mirandesa». Sem pôr de lado a opção cerveja, optei por este último. Bingo! Três horas e meia de aprendizagem da língua liderado por Alfredo Cameirão. Entre palavras verdadeiramente poéticas como cinta de la raposa (arco-íris), caramonos (bonecos) paixarina, (borboleta), etc. ou mais algumas regras ortográficas que os leitores podem consultar na Biquipédia (a Wikipédia mirandesa), veio o desânimo sobre as linhas políticas adotadas para esta língua: como será possível que num universo de 7500 a 10000 falantes de mirandês em todo o país e imigração e após o reconhecimento oficial da língua mirandesa pelo governo (Dec. Lei 7/99) não se aumente o número de três professores (!!) de todo o concelho (7500 almas) para 475 alunos por ano. Pior: desde 1998 que a Unesco criou a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias onde se inscreve o mirandês, sem que Portugal a tenha sequer assinado (a Espanha obviamente assinou-a). O que leva a este boicote de um «Pertual ye hoije un paíç zambolbido, eiquenomicamente próspero, social i politicamente stable i cun Índice de Zambolbimiento Houmano eilebado. Ancontra-se antre ls 20 países de l mundo cun melhor culidade de bida, anque l sou PIB per capita ser l mais pequeinho antre ls países de la Ouropa Oucidental. Ye nembro de las Naciones Ounidas i de la Ounion Ouropeia (na altura de la sue adeson an 1986, CEE), i nembro-fundador de la NATO, de la OCDE, de la Zona Ouro (€) i de la CPLP»(1) ? Sim, digo eu, somos «pequeinhos», embora, paradoxalmente, na «zona ouro», claro!
(1)      – in Biquipédia, Páigina Percipal

António Luís Catarino 21/08/2017

Culpado? O Sapiens, claro! 10


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Numa praia, ao sol ibérico escaldante, deverão ler livros sóbrios, dos que fazem pensar, sem rir. Nada de policiais, de humor ou de autoajuda. Precisamos pensar nos interstícios dos dias livres. Assim, proponho-vos pensar o Homo Sapiens, esse grande culpado de tudo o que de mal existe na Terra. Exagero? Pois bem, sentem-se numa cadeira ao sol com um boné da Repsol, afastem as crianças e os vizinhos que em vez de colocarem os phones ouvem música aos berros, cuspam em cima dos que apagam as beatas dos cigarros na areia. Estão em condições de lerem «How to Think Like a Neandertal», de Winn e Coolidge. A simpatia destes autores por esta espécie que o Sapiens dizimou, propositadamente ou não, é ótimo para ler vendo os neandertais modernos que povoam as nossas praias e esplanadas. Contudo, colocam a vida mental deles no centro das suas investigações na Universidade de Colorado. Os neandertais ririam? Produziriam arte? Eram capazes de rituais funerários? Teriam deuses? Bom, eles acham que sim. Através da arqueologia, esta espécie canhestra, recoletora, incapaz de elaborar grandes tecnologias de caça, bronca, teria alguma sensibilidade (estranhamente comparam-no a um skinhead), embora rechaçada pelo bom do Homo Sapiens, incapaz de o seduzir para dentro dos seus clãs e sofisticadas tribos. Mesmo que um Casanova sapiens declarasse o seu amor por uma neandertal, o filho que eventualmente nasceria seria infértil, tal a diferença de genes. Quem nos diz isto? É Yuval Noah Harari em «Sapiens, História Breve da Humanidade», outro livro que aconselho. A simpatia deste investigador da U. de Jerusalém por neandertais está aqui bem expressa em contraponto com a antipatia pelo Homo Sapiens culpado de tudo o que de mal aconteceu na Terra. Era feliz como recoletor. A agricultura escravizou-o, o Estado castigou-o sem piedade, as religiões espremeram-no, os impérios utilizaram a cultura única como modo de dominação, a técnica e a ciência foram o maior logro da Humanidade porque estamos a desejar sempre mais do que alguma vez poderemos vir a alcançar. As utopias desfizeram-se em areia depois de milhões de mortos tal e qual como o capitalismo, o zénite da morte programada por esta espécie. Acabamos de ler o livro e sentimo-nos incomodados por sermos Sapiens. Mas como começou tudo, segundo este autor? Pela criação dos mitos e do boato, do dizer bem ou mal do tipo dentro da tribo. Pela maledicência. Só assim, o Sapiens «prosperou» e desenvolveu a linguagem, essa forma torpe de poder. Haverá outros que nascerão dele? O autor hesita entre o Homo Theologicus e o Homo Aeconomicus. Entre um e outro, oremos aos deuses para que não se cruzem!

António Luís Catarino, 21 julho 2017

Feira do livro de Madrid, pois sim. 9


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Uma pequena notícia e opinião divulgadas por um dos grandes defensores da língua portuguesa, Fernando Venâncio, chamou-me a atenção para o que se terá passado na Feira do Livro de Madrid onde Portugal era, este ano, o país convidado. Li, pois, o artigo do suplemento digital El Cultural, de 19 de junho, da responsabilidade de Martín López-Vega. Devo dizer que estou de acordo com a sua crítica quando revela a oportunidade perdida em divulgar a literatura e a poesia portuguesas em Madrid. Já lá vamos. Não concordo muito, mesmo nada, é com a sua afirmação sobre Valter Hugo Mãe quando escreve que é um autor português contemporâneo de «una calidad literaria incuestionable». Não questiono que ele seja um autor, um português ou mesmo um contemporâneo, mas caramba!, de «calida incuestionable»? Ou, ainda, do momento «dulce» por que passa a nossa literatura. Bom, afirmações polémicas, mas adiante. Se assim foi, como Martín López-Vega diz, a presença portuguesa traduziu-se numa lástima. Reparem: a polémica inicia-se com o falar em português em mesas-redondas para um público maioritariamente castelhano, apontando o caso de Eduardo Lourenço. Porque se trata de um pensador, por vezes denso, mas com um grande conhecimento do «ser português» (seja lá o que isso for!) era necessário que ele atendesse às sonoridades próprias da língua, às pequenas nuances, irónicas ou não, que um estrangeiro não tem de perceber. Fui, entretanto, ao site da Feira do Livro de Madrid e, de facto, a imagem de Portugal sai de lá como Martín López-Vega a descreveu. Parecia um postal turístico de...Lisboa! Se havia pastéis de nata, ou água mineral e cerejas do Fundão, nada de mal, mas éramos, ou não, um país convidado para uma Feira do Livro da capital espanhola? Falar de Saramago ou de Lobo Antunes é importante, mas constituí um tema batido, tal como o sabor ressequido de um pastel de nata ao calor tórrido de Madrid. Poderíamos ter feito mais por dar a conhecer autores, esses sim de qualidade literária inquestionável e sabedores da querida alma sofrida portuguesa, como Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Ana Margarida de Carvalho, José Cardoso Pires, Frederico Lourenço, Vasco Graça Moura, José Tolentino Mendonça, O´Neill, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Ruy Belo, Herberto Helder, Mário Cesariny ou Natália Correia. E tantos, tantos outros que espero dar vida neste espaço. Quanto aos «contemporâneos» bem suportados por editoras/promotoras de grandes egos, haverá tempo de os ver voar. Não sei bem para onde, mas terão destino garantido, certamente.

António Luís Catarino 28/06/2017

1961 – O annus horribilis de Salazar 8


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56 anos não constitui nenhum número redondo, daqueles que são lembrados porfiadamente pelos anais da História. Por isso mesmo, vou lembrá-lo. 1961, foi o início do fim do Império português. Ainda hoje, perguntamo-nos como aguentou Salazar na cadeira do poder, num ano que tinha tudo contra ele. E não é nenhuma metáfora maldosa, visto que foi a queda numa cadeira que, literalmente, o levou à morte. Neste ano, em fevereiro, deu-se início à guerra colonial em Angola que se transmitiu rapidamente a Moçambique e à Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foram três frentes de guerra que obrigaram à morte, durante 13 longos anos, de dezenas de milhar de vítimas. Em janeiro, Henrique Galvão e um comando luso-espanhol, desviou o paquete Santa Maria para o Brasil, tendo o governo brasileiro acolhido os «piratas» pró-liberdade como exilados políticos. Em abril, o General Botelho Moniz tenta um golpe de Estado palaciano para retirar o poder a Salazar. A extrema da extrema-direita impediu-o de levar a cabo esta tentativa. Mas a coisa deu frutos. Meses depois, dá-se o ataque do coronel Varela Gomes ao Quartel de Beja, para que se iniciasse um levantamento militar geral. Mal preparado e mal planificado, o golpe morreu ali. Em novembro, um avião da TAP é desviado por Palma Inácio que mais tarde funda um movimento armado – a LUAR. Portugal é, sem dúvida, um pioneiro nos desvios de paquetes e aviões. Em dezembro, dá-se a fuga da prisão política de Caxias, de Álvaro Cunhal e de mais nove camaradas seus do PCP, num carro blindado de…Salazar! Aliás, este partido aumenta os protestos de rua. É ainda em 1961, que Nerhu, da União Indiana, anexa Goa, Damão e Diu, enclaves, até aí, portugueses. É evidente que Salazar tinha tudo para ficar no poder. Ele era um ditador. Portanto, ditava. Reprimia. Tinha tudo para continuar. Que democrata conseguiria, hoje, suster-se assim? Ora, é aqui que me interrogo. Na época da pós-verdade inaugurada por Trump, bastava twittar alegremente, semana sim, semana não, uma espécie de «bad news» desculpabilizantes. «Portugal is attacked by bad guys», «I will build a wall in the Atlantic!» etc. Mas o velho ditador, astuto, sabia o que o esperava: em 1962, em plena contestação académica, perguntou ao então reitor da universidade de Lisboa, Marcello Caetano, se tinha dialogado com os estudantes. Este, mentindo, disse-lhe que não. Responde-lhe Salazar: «Ah, ainda bem, por que se o fizesse, daqui a 10 anos, eram eles que aqui estavam!». Errou por dois anos!

António Luís Catarino, 12/06/2017

quarta-feira, maio 23, 2018

Exposição de desenhos Anjos do Desespero, 14 de Maio de 2018, abertura às 21:30 no Liquidâmbar, Praça da República, 28, Coimbra

Cartaz de Ana Catarino


A exposição Anjos do desespero concebida no Porto e em Coimbra entre 2016 e 2018, contém um conjunto de desenhos que pretende mostrar-nos estes anjos como mensageiros, como diria Llansol, que fizeram a modernidade e a contemporaneidade. A sua existência reflectirá nas pessoas interpretações que só lhes cabe a elas verem. Porque é possível «ver» um desenho colectivamente. Não será possível «ver» um livro da mesma forma. As escritas que enformam os desenhos são a tentativa não de uma explicação obviamente absurda, mas uma recusa da individualização de uma única forma e o desejo de as entrecruzar. Os Anjos do desespero tal como Paul Klee os pintou, como Heiner Müller fez deles poemas, e Wim Wenders os filmou em As Asas do desejo são aqueles que, apesar de tudo, rejeitam a imortalidade porque exigem a Vida total, exaltam uma liberdade pura e tentam enlouquecer-nos, como uma saída possível, para que acabemos com o sofrimento contínuo de uma vida quotidiana sem senso. Müller avisa-nos: Eu sou o anjo do desespero, com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. Substituindo o silêncio e o ruído destes desenhos figurativos a carvão, aguarelados e contornados a tinta-da-china, sobrelevam-se as colagens e as palavras. Porque só as colagens interagem com o impossível, com o absurdo, com o non-sense. Daí a sua importância unificadora e congruente. Produzem todas, no seu cruzamento simbólico, o vácuo. Esse grande vácuo por onde voam estes anjos desesperados, vívidos.

António Luís Catarino
Coimbra, 27 de abril de 2018

domingo, maio 20, 2018

Converter, ou a aventura dos portugueses no Tibete 7

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No século XVII, quase dois séculos depois da inicial «descoberta» das Índias por caminho marítimo, os portugueses depois de consolidado os negócios de «cabedais» entre a Ásia e a Europa, nos quais incluía ainda o Japão e a China, enveredaram pela não menos aventurosa causa da conversão dos infiéis. Coube aos Jesuítas essa missão não isenta de alguns pecados e violências como atestam alguns documentos coevos e uma epistolografia que tem sido objeto de estudo. António de Andrade deve ser particularmente estudado, até porque foge ao cânone. Nascido em Oleiros, em 1580, início da União Ibérica dos Filipes, faleceu em 1634. Entretanto, depois de estudar em Coimbra, vai para Goa, então capital do Império português do Oriente e entre 1626 e 1633 escreve quatro cartas sobre a sua procura de Cataio, região utópica que povoava as mentes conversoras de um reino longínquo que seguiria o cristianismo. Estamos a falar de um jesuíta que, com o irmão, Manuel Andrade, chegou ao Reino do Tibete primeiro que qualquer outro ocidental. Quem estudou a história dos jesuítas saberá que esta procura do Cataio, tal como o do Reino de Prestes João, não era mais do que uma quimera. Não existindo Cataio, António de Andrade empreende a viagem para o Tibete, a partir de Agra e é o primeiro a passar a cordilheira dos Himalaias, não sem agruras várias que quase o levaram à morte. Não se intimida e escreve que foi a fé que o salvou, assim como salvará todos os indígenas que encontrará à sua frente. Entrará no Reino do Tibete disfarçado de peregrino hindu. Em 1624 chega a Chaparangue, onde faz amizade e converte o rei do Guge, Tashi Drakpa De. As suas cartas transpiram um desprezo enorme pela religião budista e hindu e um ódio figadal aos muçulmanos, fonte de todas as intrigas contra os cristãos. É aqui que reside alguma diferença para com outros jesuítas. Numa das cartas, exulta pela tortura de um homem santo hindu a quem, por castigo e com a sua concordância, lhe cortam o longo cabelo e as unhas, sinal exterior da pureza. Consegue transformar, por conversão do rei e da rainha de Guge, a maior parte dos lamas dos mosteiros do Tibete em seculares e não está isento (aliás, está bem presente) nas guerras então travadas com os exércitos vizinhos e rivais e que levarão à derrota impiedosa do reino de Guge. António de Andrade é o rosto da intolerância religiosa bem soletrada nas cartas que envia ao Provincial da Companhia de Jesus em Goa. Razão pela qual, depois dele, todas as missões falharam. É o que dá. Este jesuíta morrerá nesta cidade indiana, envenenado… por um seu fiel criado.

António Luís Catarino
4 de junho de 2017