Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Leituras que fazem cada vez mais sentido, antes que seja demasiado tarde.



"Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade."
Santiago López-Petit in A Mobilização Global A Mobilização Global seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos, de Santiago López-Petit. Tradução e Comentários de Rui Pereira Deriva Editores, 2010







[...]uns poucos detêm o poder de definir a realidade para a maioria de todos os outros, de dizer-lhes o que se passa, o que é bom e o que é mau, o que se deve ou não fazer e como fazê-lo, etc. Este poder de fixar o programa social de qualquer comunidade é a chave do controlo social. Lorde Nordcliffe, dono de um dos mais poderosos consórcios jornalísticos dos princípios do século XX, explicava-o muito directamente e sem muito gaguejar: "Deus ensinou os homens a ler para que eu possa dizer-lhes quem devem amar, quem devem odiar e o que devem pensar".
Vicente Romano, A Formação da Mentalidade Submissa, Tradução e Comentários de Rui Pereira,Deriva Editores.
"Hoje em dia, a maior parte da comunicação é realizada através dos chamados meios de massas que, tal como o termo 'comunicação de massas', não deixa de ser um eufemismo. Como é sabido, nem as massas comunicam entre si através destes meios, nem eles são das massas, mas sim de uns poucos que produzem massivamente para as massas."
Vicente Romano, Intoxicação Linguística.Tradução e Comentários de Rui Pereira Deriva Editores

Terça-feira, Fevereiro 07, 2012

Conto da Travessa das Musas

Domingo, Fevereiro 05, 2012

Fernando Canedo (1946-2012)




A propósito de uma das últimas MEALIBRA, escrevia Benjamim Moreira:

"Sendo uma referência incontornável no mundo das revistas culturais publicadas no nosso país, a qualidade intrínseca dos textos que a MEALIBRA tem publicado não pode deixar de ser associada à autoridade dos colaboradores que nela participam. A pergunta que se coloca é, inevitavelmente: como é possível, numa cidade com uma débil actividade de pesquisa [Viana do Castelo], de debate de ideias e de criação existir e manter-se uma publicação com estas duas características?
A resposta é porém muito simples: a MEALIBRA tem um Director e um Projecto. Dir-se-ia que há redundância na resposta já que forma e conteúdo se associam: a  direcção é definida pelo próprio projecto cuja realização se antecipa."

 Fernando Canedo, responsável pela revista MEALIBRA, faleceu no passado mês de janeiro. 

Sábado, Fevereiro 04, 2012

Alfabeto Adiado, José Ricardo Nunes


FILHO, IRMÃO, PAI

O tempo vai sorvendo a imagem do meu pai (às colherzinhas, sem madalena). Custa cada vez mais reconhecê-lo. De ano para ano aumenta a dificuldade e o esforço. Reduz-se progressivamente o tempo de exposição à memória. Aproximo-me dele para o perder – uma orelha, a sombra do olhar, o queixo, para já não falar dos gestos que se desenvolvem no ar, atrás da janela fechada.
Envelheço. Em breve terei a sua idade e poderei trocar com ele algumas impressões acerca da experiência. Talvez me peça para lhe contar como são os meus dias, que desejos e que interrupções. A imperfeita precisão da imagem serve para a figura do irmão. Um pai tem mais exigências.
Filho virá a ser na mais intensa desagregação. Os contornos esbatidos podem ser usados na construção pelo futuro. Meu pai e meu filho.
Foi há dois meses, ainda a praia nos estendia a sua aberta superfície. Ferida – ovo, um texto. Antes de eu nascer era assim. Podia ser um pouco do meu pai e dar-lhe mais um dia, viver com ele numas poucas de frases. A minha acção transformada em mais um dia de vida do meu pai, um dia que fosse.
Agora estas palavras todas. Ele terminou-se, mas eu continuo a juntar palavras como se lhe fosse dar um rosto. Ele transparece no vidro, cada vez mais indistinto. Procuro o sentido que a carne reclama na sua inconstância difusa e depois espalha. A carne, sem regra. Perdulária. Diz-me que devo ocupar o seu lugar – porque não compreendeu e não sabe onde já estive.
A história das parecenças é macabra. Muita lembrança e um bule de chá. Duas fotografias, lado a lado. Alguns anos de diferença não prejudicam. A mesma coluna vertebral. Apenas uma, a sombra ampliada que recobre os corpos, bem autonomizados mas com espaços comuns. Idêntico o olhar, dizem. E bebem. Finalmente a desembaraçada mão apaga-nos do vidro.

José Ricardo Nunes, in Alfabeto Adiado



Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

O Homem que via passar as estrelas – Luís Mourão

O Homem que via passar as estrelas – Luís Mourão





Um texto para um espetáculo de Teatro para a Infância e Juventude onde se conta, na brevidade de uma noite de insónia ou de sonhos turbulentos, o encontro inesperado de Isaac Newton com os planetas do Sistema Solar…
É de noite. E, porque é de noite, o Sol não está. 
Newton recebe no seu quarto-laboratório-cenário estranhas visitas por engano.
Os planetas vêm ver o Sol, discutir com ele, expor-lhe os seus múltiplos problemas e, à falta de melhor, vão deixando recado. O homem se encarregará de os entregar depois, mais tarde, quando nascer o dia.  


Mas não falam só de problemas. Apresentam-se, saltam, sujam-se, rodopiam e brincam. A noite ainda não acabou…


Prefácio de Máximo Ferreira | Guia de Atividades de Astronomia na Escola de Paulo Simões | Ilustrações de Sandie Mourão 


INCLUÍDO NO PLANO NACIONAL DE LEITURA - para apoio a projetos relacionados com TEMAS CIENTÍFICOS para o 3º,4º, 5º e 6º ano de escolaridade

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

Bailias, Catarina Nunes de Almeida [não é tarde]



"Se bem tenho notado, a poesia teve enorme destaque nos balanços que os jornais fizeram dos melhores livros do ano passado: o destaque da ausência. Ora, isto é um desmesurado favor que se faz à prosa, sobretudo a portuguesa. A verdade é que em 2011 pelo menos dois livros de poemas estiveram perfeitamente à altura dos melhores acontecimentos literários e, se a um deles ("Bailias", de Catarina Nunes de Almeida, que saiu na Deriva) já é tarde para dar aqui o espaço merecido, vamos muito a tempo de conceder toda a atenção ao mais recente, que é esta inesperada "Observação do Verão", de Gastão Cruz." (Gustavo Rubim, Ipsilon, 27.1.12)

Sábado, Janeiro 21, 2012

Estranhas Criaturas





MEDUSA

   Há muitas coisas belas. Medusa é uma delas.
   Um penteado de pecados fica bem ao mortal, um olhar petrificante tudo o que pode almejar quem anda pela vida mais que por ódio, amar.
   No olhar de Medusa, vejo Rosa Parks sentada para que outros pudessem levantar-se, vejo os punhos erguidos e as luvas negras de Tommie Smith e John Carlos nas olimpíadas da sonsice que é o adiamento das guerras na paz podre das medalhas, vejo Mahatma Gandhi fiando a fome de justiça e liberdade que nenhuma boca cheia de alheamento poderá compreender, vejo o julgamento de Sócrates, a cicuta bebida de um trago como uma lição perdida na história da nossa incomensurável apatia, vejo Galileu Galilei, Joana d'Arc e até Jesus Cristo eu vejo, como tantos outros que como estes vivem hoje nos bolsos de uma juventude reles que julga ser possível apagar grandes fogos sem fogos.
   Vejo lições de entrega, vejo quem ousou dar-se por si próprio e pelos outros sabendo que entregar-se era descobrir-se e que descobrir-se nada mais é do que lançar-se no abismo da dúvida, da incerteza, no desconforto de uma missão que apenas reivindica alguma limpeza neste mundo de auto-justificado nepotismo, vejo o homem revoltado como cabelos venenosos, despenteado pela noção clara de que desprezar é consentir e consentir é ser cúmplice da porcaria em que chafurda quem mais não sabe do que adormecer em berço de ouro a palha de que se alimenta.
   Há muitas coisas belas. Medusa é uma delas.
   Da sua cabeça decepada hão-de nascer cavalos alados. E nem depois de morta deixará de petrificar quem fite nos seus olhos a verdade que nos aponta: de pedra somos feitos, se desapaixonados e indiferentes. (Henrique Manuel Bento Fialho, Estranhas Criaturas, Deriva)



Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

Conto da Travessa das Musas, Vozes do Alfabeto e O Aquário

  
Conto da Travessa das Musas, Vozes do Alfabeto, O Aquário são três livros infantis que  têm muito  para ensinar. Um mesmo autor - João Pedro Mésseder - e três ilustradores diferentes: Manuela São Simão, João Maio Pinto  e Gémeo Luís.
 
O Conto da Travessa das Musas, o mais recente título, é uma viagem por um tempo antigo - uma história que se passou no Porto há muitos anos.

Uma história de um menino sem tempo para ficar quieto. Uma história que fala de mercearias, de lojas de miudezas, de carrinhos de linhas e fivelas, de José Gomes Ferreira, de um polícia gordo e pachorrento, de carrinhos de madeira e de flocos de neve (os rebuçados...). 


Uma história de um tempo em que os meninos brincavam na rua. Uma história que se passa no Porto, no centro do Porto com o João. 
 Uma história que vale bem a pena o desafio de procurar a Travessa das Musas.



«Álbum poético de dimensões reduzidas, Vozes do Alfabeto é mais um exemplo da criatividade associada à exploração das potencialidades da língua portuguesa, das suas grafias e dos seus sons. As letras do alfabeto são o mote para um conjunto de poemas muito divertidos, onde os efeitos sonoros são constantes. Herdeiros das rimas infantis, em particular das lengalengas, dos trava-línguas e de outros géneros e formas da tradição oral, os textos exploram uma dimensão lúdica da literatura ao mesmo tempo que, implicitamente, promovem o desenvolvimento de competências fonológicas, linguísticas e literárias. As ilustrações, muito coloridas, ocupam as páginas ímpares da publicação e partem do texto que acompanham, ligando a letra aos objectos e/ou personagens. Funcionando quase como um jogo, o pequeno álbum revela-se particularmente adequado para os primeiros leitores.»
Ana Margarida Ramos in Casa da Leitura


O Aquário
Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor.

O Aquário  tem evidente recursos para a leitura orientada na sala de aula. Aprovado e recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 3º ano, tem uma amplitude muito maior de intervenção nas escolas como comprovam as experiências descritas aqui aqui aqui e aqui

Crise de versos, Stéphane Mallarmé

Crise de versos, Stéphane Mallarmé
Elíptico, extremamente condensado, interrogando tudo quanto poderia distinguir a poesia dos usos comuns da linguagem, o texto de Crise de Versos é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e uma profecia. Por um lado, procura surpreender a dissolução de versos tradicionais, em particular do alexandrino (o verso oficial por excelência), ao longo da segunda metade do século XIX e sobretudo após a morte de Victor Hugo. Diagnóstico difícil de uma experimentação formal então ainda em curso: o que nos surge hoje como conquista definitiva e já distante (em termos de livre invenção de metros, cesuras, formas gráficas) era no tempo de Mallarmé um acontecimento recente, plural, a necessitar com urgência de teorização. Por outro lado, Crise de Versos antecipa as poéticas dos modernismos e das primeiras vanguardas, ao enfatizar a produtividade da tensão entre a busca de um princípio construtivo, que asseguraria a impessoalidade, e a dissolução das formas canónicas.