terça-feira, outubro 20, 2020

Artaud: «O Teatro e a Peste», um excerto por causa do tempo

 


Quis Artaud mostrar, em 1933, a peste verdadeira: a do mundo e dos corpos confinados e torturados no quotidiano. Tal como hoje, a epidemia, ou melhor, as epidemias, as pestes que se nos apresentam, são o espelho de uma sociedade profundamente doente. Tão doente que não sabe falar de outro tema. Nem é já o medo da morte, mas sim do outro, do vizinho, do amigo, dos amantes, dos entes próximos porque a família desconjuntou-se rapidamente. O vazio está aí. Recuemos pois a Artaud e leia-se algo de diferente da mediocridade do que vamos observando. Ou de como a descrição do teatro e da peste nos pode ser arremetido à cara quase um século depois. Por paradoxal que seja, uma frescura pestífera.

«(...) Como a peste, o teatro é uma crise que se desenlaça com a morte ou com a cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa, e depois dela nada mais resta a não ser a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo, não adquirível sem destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e para terminar, só podemos ver que a acção do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque, levando os homens a verem-se como são, faz cair a máscara, põe à mostra a mentira, a frouxidão, a baixeza e a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria, que chega às mais claras certezas dos sentidos; e revelando a colectividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isto, nunca teriam tido.
E o problema que agora se põe é saber se neste mundo que escorrega, se suicida sem dar por isso, será encontrado um núcleo de homens capazes de impor esta noção superior do teatro que a todos nós restituirá o equivalente natural e mágico dos dogmas em que deixámos de acreditar.»

Antonin Artaud, excerto de «O Teatro e a Peste», 1933, em «Eu, Antonin Artaud», Sistema Solar
Tradução de Aníbal Fernandes

No fim desta conferência que teve lugar numa sala da Sorbonne e em que Artaud foi vaiado tumultuosamente, encontrava-se Anaïs Nin que esperou, sentada e silenciosa, que as portas da sala deixassem de bater para conhecer Artaud. Nessa noite passearam à chuva os dois por Paris em direcção a um bar. Ela deixou-nos um relato muito impressivo do que se passou. Escreveu: «Tinha o rosto em convulsões de angústia e os cabelos ensopados em suor. Os olhos dilatavam-se, enrijava os músculos, os dedos lutavam para conservar a flexibilidade. Fazia-nos sentir a secura e o ardor da sua garganta, o sofrimento, a febre, o fogo das suas entranhas. Estava em tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação.»

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de Outubro de 2020




domingo, outubro 18, 2020

Auschwitz «in progress». O horror como mercadoria barata

Atualização em outubro:

O bebé de Auschwitz
O violino de Auschwitz
A bibliotecária de Auschwitz
As cartas perdidas de Auschwitz
O carteiro de Auschwitz
O tatuador de Auschwitz
As irmãs de Auschwitz
O fotógrafo de Auschwitz
O mágico de Auschwitz, de Santos
Holocausto sei lá de quem e
Holocausto, de Irene Fluncher Pimentel

ALC
Setembro/Outubro de 2020

«á carga!»

Um dos livros mais interessantes de Luísa Costa Gomes é o premiado «Ilusão - (ou o que quiserem)». Se o leram saberão porque me lembrei dele, numa aula em vídeo, com a seguinte mensagem que a abria: «já estou onlin, quando é que cumeça o meu tele está á carga»!!!

ALC

Coimbra, 15 de outubro de 2020

Samuel Paty


Samuel Paty era um professor de História parisiense e foi decapitado anteontem por um tchetcheno de 18 anos com a cumplicidade dos pais de alguns alunos entretanto detidos para averiguações. Crime: o de, numa aula sobre a liberdade de expressão, esse grande crime de cidadania que (ainda) se aprende nas escolas públicas, ter mostrado algumas imagens de Maomé a partir da Charlie Hebdo cujas caricaturas vitimaram 12 pessoas reunidas no jornal e cujo julgamento dos assassinos decorre em França. Tenho publicado, aqui no Facebook, algumas considerações sobre o que aconteceu então. Mas o que me leva a uma grande revolta pessoal não é tanto Paty ser um colega meu. É a instituição do medo como norma para o pensamento livre. E não se pense, nesta hora de raiva sentida onde o populismo poderia medrar, que a «culpa» vem só dos muçulmanos radicais. Vem igualmente dos conservadores radicais de todas as cores que veem o ensino da cidadania uma disciplina a abater. 
Ainda na sexta-feira, numa aula de História, debatendo com os meus alunos a presença muçulmana na Península Ibérica, analisámos esta miniatura do século XV que mostra Maomé a pregar em Meca. Está, ao que penso e se não me engano, na Turquia. Existem mais três imagens, de origem muçulmana, do profeta. Muitas outras estão apagadas, mutiladas até, por indivíduos que nada têm na cabeça, mas que não se coíbem de apagar as outras! Mas isto é assim. Qualquer dia, um parvo qualquer (aqui a palavra «parvo» tem todo o seu sentido literal) atentará contra a imagem de Deus de Miguel Ângelo. Com os mesmos argumentos de quem assassinou um professor de História. Tempos perigosos estes mas que, por isso mesmo, devemos arredar o medo que nos querem impor e ocupar os lugares dos populismos e da extrema-direita. Na rua, se preciso for, espaço matricial grego da liberdade.

António Luís Catarino
Coimbra, 18 de outubro de 2020

sábado, outubro 03, 2020

«A Rainha Ginga», de José Eduardo Agualusa

 


Desaconselho vivamente «A Rainha Ginga - E de como os africanos inventaram o mundo», de Agualusa, a xenófobos e a quem chora pelo império perdido. Não o compreenderão. Antes de iniciar a minha habitual ficha de leitura (cujas estão a alcançar mínimos históricos de «gostos» aqui no Facebook) das obras que vou lendo, informo-vos da coincidência, ou talvez nem tanto, de estar a ler, igualmente, a «História de África» de J.D. Fage. Mais tarde falarei dela aqui. Mas foi enorme o entusiasmo de encontrar pontos de contacto entre um livro e outro.

A rainha Ginga levou muita gente a falar dela durante séculos, sendo Sade um dos figurões que a realçou como um exemplo de «luxúria selvagem», seja lá o que isso quereria dizer nas elucubrações libidinosas e recreativas do Marquês. Não vejo assim Ginga, embora hoje sorriamos com o seu harém de travestis, visto que se era rainha teria de comportar-se como um rei e, sendo rei, teria de ter o seu harém de mulheres. Compreendo Ginga como uma mulher inteligentíssima, política e diplomaticamente hábil, ambiciosa e determinada. Por paradoxal que nos pareça hoje, essa ambição que a levou muitas vezes a eliminar adversários até da sua própria família, não a impediu de se aconselhar e dialogar com indivíduos de opinião diferente e de diferentes etnias e paragens; africanas, mas também europeias e americanas, inclusive. Promotora de grandes «camas», isto é, de assembleias de conselhos tomava aí as decisões políticas mais audazes que apontavam para uma feroz independência da região de Angola face aos portugueses.

Ora, essa feroz oposição ao império português com o seu rasto de esclavagismo, violências, castigos, estupros, torturas, conversões forçadas e conquistas territoriais, fez com que Ginga construísse uma fina teia política, ora de negociações difíceis, ora de diálogos cuidadosos, para levar a liberdade a um povo que se via confinado cada vez mais para o interior de Angola, à medida que os portugueses, a partir principalmente de Luanda e do litoral, progrediam para leste em busca de ouro, marfim e escravos para Lisboa, plantações e minas do Brasil.

O livro de José Eduardo Agualusa oferece-nos uma Rainha Ginga, dura, implacável, é certo, mas determinada a um fim que a obrigava a difíceis e efémeras alianças com piratas (lá está a argelina República de Salé onde pontificavam corsários, piratas, flibusteiros de toda a espécie e de todo o mundo, entre eles portugueses fugidos da opressão social e religiosa), holandeses apostados em atacar os territórios portugueses do império filipino da União Ibérica, índios brasileiros aliados, árabes e muçulmanos, nações africanas que lhe prestavam uma espécie de vassalagem, terríveis «jagas» guerreiros que se opunham a todos, mas que sabiam cumprir acordos, e até portugueses, mercenários e jesuítas, que fugiam da inquisição e do rei fosse ele de nome Filipe ou João IV. E, em Olinda, Domingos Vaz tem este diálogo com Lobo, num Brasil holandês:

« - Não sentes? – insistiu Lobo. – Não sentes quando respiras?

- O quê?!

- O medo, meu amigo! Já não cheira a medo!

Dei-lhe razão. No tempo dos portugueses o medo infiltrava-se na roupa, colava-se à pele, a todas as horas, mesmo quando dormíamos. Era tão presente, tão inevitável, que nem nome lhe dávamos.»

Sim, exportámos medo e trouxemos para Lisboa e Terras de Vera Cruz a escravatura, juntamente com ouro e prata, especiarias, com que engordámos uma pobre elite iletrada, rancorosa e invejosa sem saber produzir nada que se visse, menos o mesmo ouro e a prata com que se espraiva, pela tarde, no Rossio. As consequências ainda hoje as estamos a pagar. Contas de outro rosário. Mas houve, lá longe de Portugale pelo império onde o sol nunca se punha, quem resistisse e a Rainha Ginga está nesse panteão, junto com outros que no Brasil, em África e nas Índias o souberam fazer, pondo em causa tráficos infames e ocupações ilegítimas.

No entanto, no livro de Agualusa, ou talvez pelo que foi aqui dito, Domingos Vaz, personagem principal, sente terminar a sua fé. E não é por Muxima ou por outra mulher; é somente pelo que vê à sua volta, principalmente pela opressão inquisitorial e colonial ou pela táctica de conversão dos povos, exercida pelos jesuítas. Mesmo que seja difícil, para nós, acreditar que um padre perca a sua fé de um capítulo para outro, o autor, a páginas 206, avisa-nos: «Um homem sábio, porém destituído de fé, falhará sempre. Um homem de fé, pelo contrário, está destinado a triunfar por mais que lhe falte o engenho e a fortuna – ou mesmo o juízo.» Premonitório. A Ginga não lhe faltou o engenho, nem provavelmente a fé animista, se assim se pode utilizar aqui o termo «fé», mas faltou-lhe fortuna. Aliada aos holandeses, de alguns «jagas» que lhe continuavam fiéis, dos barcos piratas de Jol, dos índios Janduí e suserana de outros reinos negros, na última batalha que travou perto da baía de Luanda, perdeu mesmo a guerra por um mito; esse mito era Salvador Correia de Sá que reconquistou Angola com tropas portuguesas esfomeadas, maltrapilhas, com poucas armas e munições que seriam facilmente derrotadas se o mito não se sobrepusesse à realidade e o nome do militar não desse origem a um temor injustificado. Talvez uma lição política já tardia a Ginga e aos seus conselheiros e aliados. De qualquer modo, o final da batalha, que não da guerra, estava traçado. A belíssima Ginga nunca foi aprisionada.

A resistência continuou por séculos, como sabemos, e os treze últimos anos do império africano matou e arruinou dezenas de milhar dos nossos jovens.

Há, todavia, uma frase no livro de José Eduardo Agualusa que me ficou presente e que vos convido a pensá-la, embora saiba que a conclusão será impossível de ser encontrada. É quando o governador holandês João Maurício de Nassau (nome aportuguesado) disse a Domingos Vaz, aliado de Ginga e já pressentindo a derrota: «Talvez nos tenhamos enganado ao pensar que a natureza não seria mais madrasta para nós, os brancos, os ocidentais, do que para os portugueses e os levantinos. A verdade é que os portugueses sempre foram mais africanos do que europeus.»

A nossa tragédia como povo é que nunca fomos uma coisa nem outra.

António Luís Catarino

Coimbra, 3 de Outubro de 2010

quinta-feira, outubro 01, 2020

Quino deixou-nos Mafalda. O que nos deixou não foi pouco, foi enorme.

 

Sempre tive o enorme prazer de dar, em aniversários ou no natal, o Livro de Mafalda a amigos verdadeiros e críticos o suficiente para a amarem. Mafalda não era só a criação de Quino. Este deu-lhe inteligência, mordacidade, graça, leveza e um espírito crítico arrasador, contudo não era um gosto universal e neutro. Quino deixou-nos. Provavelmente teremos de esperar muitas décadas até aparecer um igual. Adeus, Quino.

terça-feira, setembro 29, 2020

Hipermercados, comida processada, literatura processada

 Um tipo vai ao hipermercado comprar produtos de higiene, pão, uma lâmpada led, barras bio e congelados pré-feitos e dá-se com isto:

O bebé de Auschwitz
O violino de Auschwitz
A bibliotecária de Auschwitz
As cartas perdidas de Auschwitz
O carteiro de Auschwitz
O tatuador de Auschwitz
O mágico de Auschwitz, de Santos
As irmãs de Auschwitz
Holocausto sei lá de quem e
Holocausto, de Irene Fluncher Pimentel

terça-feira, setembro 22, 2020

Viva la Muerte! ou a «ideologia» de uma moção

Eu nem me apetece sequer dar atenção a uma certa moção que nos enojou, neste domingo. Quero lembrar-vos que a extrema-direita nunca aceitou o corpo humano. Porque este lhe é profundamente estranho. Cortar, impedir, sufocar, matar, retirar, fazer ablações, castrar, torturar, ferir, são propostas recorrentes da extrema-direita cuja ideologia é o triunfo da morte pela morte, tal como foi proferida por José Millán-Astray. Este culto da força, do músculo, atrofia no corpo humano toda a hipótese de desejo, do acto comum, solidário, dramatizado por dois corpos juntos. Eles não o conhecem, por isso são contra.

segunda-feira, setembro 21, 2020

«Vírus soberano? A asfixia capitalista», de Donatella Di Cesare. Algumas colagens


Este livro não faz parte da teoria da conspiração sobre o Covid-19. Pelo contrário. A filósofa italiana Donatella Di Cesare analisa a pandemia que atravessamos de modo cabal, claro e sintético como só os mais capazes o fazem em temas desta complexidade. Não por acaso foi António Guerreiro a traduzi-lo, o que nos deixa sossegados. Presumo que foi dele a responsabilidade de propor às Edições 70 a sua edição. Trata-se da melhor exposição sobre o vírus que nos mudou a vida totalmente. A análise está aí para quem quiser adquirir este livrinho. Mas inquieta-nos muito e leva-nos a reflectir sobre as causas que levaram ao culminar de uma catástrofe anunciada por muitos. Mas quem lê, hoje, filósofos e escritores? Talvez uma imensa minoria, todavia, incapaz de fazer mudar o que quer que seja da «distanciação social» política da nossa «democracia imune». O capitalismo, no seu estádio actual, a não ser combatido, levar-nos-á à morte que ele próprio nos propõe abolir através das leis do mercado e do domínio mais que insano da natureza. Estamos a pagar muito caro, talvez com a morte, a aceitação da acumulação especulativa de capitais e da conquista fictícia da amortalidade que a propaganda das mercadorias nos propõe diariamente. Claro que é um paradoxo. Donatella Di Cesare explica-nos porquê, nestas breves «colagens» que vos proponho que conheçam e, principalmente, que adquiram o livro.

Algo vai mal quando metade da população mundial, ou seja, 4 biliões de seres humanos, foi confinada numa prisão domiciliária desde Março de 2020 falando à varanda uns para os outros, sem poder sair, com todos os serviços fechados, hospitais a abarrotar, escolas e universidades fechadas, comércio encerrado, a cultura barrada, tendo por única «comunicação» a acomunicação por excelência: as redes sociais, o videotrabalho, as videoconferências, a televisão, os «especialistas». A polis, a praça pública, fechou e não se sabe quando abre ou se irá abrir no futuro; o processo, contudo, vinha já muito detrás, quando nos anos 80, o «there are no alternative» neoliberal se tornou um mantra e toda a contestação foi amordaçada paulatinamente, retirando às manifestações constantes de revolta a capacidade transformadora. O Estado imunizou-se, imunizando os seus cidadãos contra o Outro, o estranho, que podem ser o estrangeiro, o turista ou migrante, as minorias sexuais, os velhos, os sem-abrigo... a conquista da imunidade defendida pelos cidadãos que aceitam sem protesto a distanciação, a ausência do toque dos corpos, a teletemperatura, as app vigilantes e denunciadoras de infectados, a presença do mal assintomático, veio, escrevia eu, juntamente com a imunidade, a anestesia.

A palavra, em colagens, de Donatella Di Cesare:

«O mal que vem é um biovírus assassino, um germe catastrófico. Mas desta vez não é uma metáfora. É o corpo físico que adoece – o corpo exausto de humanidade, o organismo nervoso, cansado, sujeito durante anos a uma tensão intolerável, a uma agitação extrema. Até à apneia. Talvez não seja coincidência o facto de o vírus proliferar nas vias respiratórias, onde passa o ar vital. O corpo subtrai-se ao ritmo acelerado, não se aguenta, cede, pára.» (pág. 15)

«Não se pode esconder o desejo de mudança que nos últimos anos vem aumentando devido a um sistema económico injusto, perverso, obsoleto, cujos efeitos são a fome e a desigualdade social, a guerra e o terror, o colapso climático do planeta, o esgotamento dos recursos. Agora, porém, é um vírus que abala o mundo. (...) O vírus inesperado suspendeu o inevitável sempre igual, interrompeu um crescimento que entretanto se tornou uma excrescência incontrolável, sem medida e sem fim.» (pág. 17)

«O mal que vem, olhando bem, já tinha chegado. Era preciso sermos cegos para não ver a catástrofe à porta, para não reconhecer a velocidade maligna do capitalismo que não sabe nem pode ir além e tudo envolve na sua espiral devastadora, no seu vórtice compulsivo e asfixiante. » (pág. 29/30)

«O coronavírus chama-se assim por causa da auréola característica que o envolve. Uma auréola sugestiva e temível, uma coroa poderosa. É um vírus soberano, a começar pelo nome. Escapa, sobrevoa, transpõe as fronteiras, passa para além. Escarnece da soberania que pretendia ignorá-la grotescamente ou aproveitar-se dele. E torna-se o nome de uma catástrofe ingovernável que por todo o lado desmascarou os limites de uma ‘’governance’’ política reduzida a administração técnica. Porque o capitalismo – como sabemos – não é um desastre natural.» (pág. 37)

«O poder totalitário é antes um vínculo férreo que funde todos em um; em vez de ser instrumento, é o próprio terror que governa, enquanto devora o povo, isto é, o próprio corpo, e contém já os germes da autodestruição. E hoje? O terror tornou-se uma atmosfera. Cada um fica entregue ao vazio planetário, exposto ao abismo cósmico. Não é necessário um aviso directo porque os riscos parecem vir do exterior. Na sua aparente ausência, o poder ameaça e tranquiliza, exalta o perigo e promete protecção – uma promessa que não pode cumprir. Porque a democracia pós-totalitária requer medo e funda-se no medo. Eis então o círculo perverso desta fobocracia.» (pág. 64)

«A abolição do outro faz-se agora por decreto – em troca de segurança e imunidade. O corpo de cada cidadão é de facto uma fortaleza que deve ser protegida contra inúmeros perigos e imponderáveis ameaças. Prudência e suspeita devem determinar as relações sempre necessariamente mediadas por dispositivos capazes de separar, conter, garantir segurança e preservar. O ‘’distanciamento social’’ é, portanto, o selo da política imunitária.» (pág. 83)

«O que perturba nas disposições tomadas durante a emergência da Covid-19, não é apenas a posição da distância em relação ao outro e, portanto, o veto implícito de qualquer abraço, de qualquer efusão espontânea, mas também a expulsão obscura de todas as relações não protegidas, da co-presença, do encontro dos corpos. As consequências são políticas. É nesse sentido que se deve apreender aqui o laboratório de novas e inéditas disposições.» (pág. 84)

«O aviso da democracia imunitária não é assim tão ilegível: afasta o perigo da massa viva e incontrolável, põe à distância o espectro da revolta, assegurando condições saudáveis de sobrevivência.» (pág. 86)

«As praças e os lugares de encontro espontâneos foram sendo progressivamente substituídos pelo espaço virtual da web.» (pág.87)

«Viver e trabalhar ‘’à distância’’ significa estar rodeado de ecrãs. Na ambiguidade do ecrã resume-se todo o paradigma imunitário: ao mesmo tempo que protege, tutela resguarda, abre o acesso ao mundo.» (pág. 87)

«O risco da prisão domiciliária em massa é uma implosão psíquica com resultados imponderáveis. Os medos multiplicam-se: ficar doente, perder o emprego, ser abandonado, ficar entubado. O choque viral causa tristeza, raiva, irritabilidade, depressão, insónia. As irrupções de violência atingem as mulheres. Sem dúvida que não se ressentem do confinamento apenas aqueles que já têm problemas mentais. A existência de muitos mudou do dia para a noite.» (pág. 92)

«A brutalização securitária requer mais paredes, mais arame farpado, mais prisões.» (pág. 95)

«A vigilância da rede, aquele retículo gigantesco em que todos são espiados por um imenso olho invisível atrás do ecrã, é a versão mais recente do panóptico. Só que aceitamos ser exilados na transparência – e fazemo-lo de bom grado.» (pág. 100)

«Talvez acabemos por sair com uma certificação de imunidade que atesta os nossos anticorpos. Passaremos, quase por hábito, entre sofisticados scanners térmicos e densos circuitos de vídeo-vigilância, em lugares e não-lugares esterilizados, mantendo a distância de segurança, olhando à volta com cautela e desconfiança. As máscaras não nos ajudarão a distinguir os amigos e a ser reconhecidos. Por muito tempo, continuaremos a ver por todo o lado assintomáticos que, sem o saberem, alojam no interior a ameaça intangível do contágio. Talvez o vírus já se tenha retirado do ar desaparecido, dissolvido; mas o seu fantasma permanecerá por muito tempo. E ainda teremos falta de ar, a respiração constrangida.» (pág. 117)

São estas colagens que apontam para a necessidade de uma leitura mais atenta do «Vírus Soberano? A asfixia capitalista» de Donatella Di Cesare. Não há uma só afirmação da filósofa italiana que não concorde, principalmente, na construção dessa «democracia imunitária» distopia assente numa catástrofe respiratória que iremos pagar muito caro se não agirmos contra ela e contra o capitalismo que aqui vê uma forma lógica de tentar perpetuar-se: pela apropriação da atmosfera e do corpo. O bioterror está aí.

António Luís Catarino

Coimbra, 21 de Setembro de 2020.

domingo, setembro 13, 2020

«O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça», de Ana Margarida de Carvalho

O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça - Ana Margarida de Carvalho -  Compra Livros na Fnac.pt 

«O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça», de Ana Margarida de Carvalho é Mahler. A musicalidade que a escritora imprime à obra é simplesmente notável. Pela pontuação, pela trama da história que nos entranha na pele e não somente pela leitura pautada, mas também pela identificação das personagens que a povoam. A sua leitura é perigosa:

Primeiro, nunca vimos um Alentejo e um Algarve descritos assim secos, áridos, ventosos, pantanosos, rancorosos e revoltados. Múltiplos pensamentos enxameiam a nossa imagem estereotipada do Alentejo. Esta imagem é única. Não existe outra assim.

Segundo, as personagens estão envoltas numa espessa névoa onde a autora pode ou não desvendar o decorrer da acção. Isso convida-nos à reflexão constante tentando perscrutar o significado dos diálogos ou descrições e o que podem querer dizer, procurando encontrar um fio lógico, nem sempre condizente com o que esperamos.

Terceiro, nesta história nem tudo o que parece, é. Quando nos certificamos que uma personagem terá um destino eventualmente coerente e conforme à sua personalidade, somos surpreendidos com uma outra narrativa dentro daquela em que a psicologia de uma personagem determina o seu comportamento. Acontece isso com Simão e com Constantino. O primeiro, canhoto, dado à mão do diabo – como se dizia – e intrinsecamente bom, afastado do povo de Nadepiori, a aldeia, filho não se sabe de que pai e de uma mãe bonita que não sabia negar-se, criado por uma avó e desprezado pela população, dado ao contacto com os animais e a um falcão-peregrino fêmea com nome de mulher, Maria Angelina, e uma abetarda. Animais com sortes diferentes na trama. Nunca vi, em literatura (talvez com Miguel Torga ou Aquilino), uma descrição tão vívida do voo de um falcão como nos é apresentado aqui. Mas a descrição do sofrimento animal às mãos dos homens é apresentada com toques de horror. E, leitores mais novos, acreditem no realismo descrito no livro. A maldade para com os animais era mesmo assim. Constantino, um gémeo de Camilo, sétimo filho de sete irmãos, filho não amado pela mãe, a «tenenta» mestra do contrabando e das mercancias desonestas juntamente com o pai salteador e dado a mortes várias, ele, coxo de uma perna por decisão da mãe que a parte propositadamente, violento desde miúdo, chefe de um bando de adolescentes que distribuía terror gratuito a rodos pelo quilombo e pelas aldeias, mas capaz de amar, também ele, tornado amigo de Simão para o final da história, quando assume a chefia das permutas ilegais, matando o pai e expulsando a sua mãe de Nadepiori.

Quarto, podemos situar a narrativa nos finais dos anos trinta quando se levantava o Estado Novo e a raia era palco da Guerra Civil de Espanha onde contrabandistas, passadores, refugiados, republicanos, malteses, ciganos, clandestinos comunistas e opositores eram moeda de troca de todas as traficâncias de gente sem escrúpulos, vendidos por quem desse mais dinheiro. A revolta surda dos camponeses alentejanos eram uma realidade tal como a escravatura dos pescadores de atum do Algarve. Tudo moeda do mesmo saco. «Um dia a terra há-de ser de quem a trabalha».

Quinto, o ódio e a raiva, sempre o ódio omnipresente em cada frase, em cada gesto, em cada violação de mulheres, numa agressão à faca ou a murro, em cada gesto (universal) para proteger a cabeça - sinal de protecção íntima e de humilhação -, em cada vocábulo, e que força lhes dá Ana Margarida de Carvalho!, uma escritora que se torna fundamental na nossa literatura e que a tenho, felizmente e com prazer, acompanhado.

Sexto, a conclusão óbvia da existência de uma irmandade de mulheres que, no Alentejo, é uma realidade sentida por quem o conhece. O capítulo III é um verdadeiro guião para um diálogo trocado por mulheres que sabem o sentido da vida e possibilitado em escala menor pela opressão do poder e pelo patriarcado. Mas não se enganem, – elas têm poderes fátuos ou bem reais. Sentimos uma atracção grande por essas mulheres ao longo de todo o livro.

Sétimo, a presença da guerra. Sempre a guerra e os horrores que traz, descrita por um inglês sem nome, amigo de Simão e dono do falcão, que, descobrimos nós no final, terá sido morto pela população de Nadepiori tal como a sua ave. Por maldade. É ele que nos descreve a guerra tal como ela é e a necessidade de lutar contra a opressão e por um mundo diferente, melhor que este.

Oitavo, o recurso ao teatro, à cena construída no palco de um quilombo, ou da aldeia de Nadepiori e a vez da tragédia grega e shakespeariana com que Ana Margarida de Carvalho nos atira à cara, literalmente. E faz muito bem porque é a raiz de tudo e as coisas não são assim tão diferentes há 2500 ou, tão só, há 500 anos. Estão lá Medeia e Jasão, Ulisses, Apsirto e Eurípides. Quanto a Shakespeare, embora não nomeado directamente, é descrito magistralmente pela boca do estrangeiro ruivo, militante das Brigadas Internacionais: «(…) o estrangeiro contava histórias, tão longínquas das fábulas a que Simão estava acostumado, falava-lhe de um certo génio da margem sul do Tamisa, de um príncipe atormentado da Dinamarca, que muito intrigava Simão e dava-lhes horas de discussão, porque é que ele não matava de uma vez o padrasto usurpador do trono e da cama da mãe (…)». É, algo vai podre…

Nono, o amor que a escritora mostra para com as suas personagens que a fazem dialogar com elas sem que lhe sobeje tempo ou paciência para apontar ao leitor o caminho da narrativa. Nem tinha de o fazer. Aquelas páginas são dela e dos actores que criou. Fez, mais uma vez muito bem, e a página 230 é verdadeiramente uma nota aos incautos. Só que agora o livro é «nosso». Está aí para o ler e adoptarmos as personagens em nós, leitores.

Décimo e último ponto: Mahler. Repita-se que este livro tem uma música própria. Poderemos até dançar com ele. Como conseguiu isso Ana Margarida de Carvalho? Pela cadência da pontuação? Pela escolha criteriosa das palavras e dos vocábulos? Pelo recurso ao trabalho contínuo da experimentação da sonoridade das palavras conjugadas entre si? Pouco importa. O registo é esse. Que o livro tem génio, que passa da musicalidade suave à tempestade absoluta é sentido pelos leitores habituados à escrita que não cede a estereótipos nem à facilidade. Um bem absoluto para a literatura portuguesa contemporânea.

António Luís Catarino

Coimbra, 13 de Setembro de 2020.

quarta-feira, setembro 09, 2020

«No Labirinto de Outubro - Cem Anos de Revolução e Dissidência», de Rui Bebiano

 No Labirinto De Outubro- Cem Anos De Revolução E Dissidência - eBook - WOOK

Quem pensa que sabe tudo sobre a Revolução de Outubro de 1917, desengane-se. Este livro de Rui Bebiano dá-nos pistas fundamentais para um melhor conhecimento sobre um acontecimento fulcral da História e não só do século XX. E tão mal conhecido, correndo até o risco de ser ostracizado e subvalorizado nos bancos da escola. Perante algum desânimo do autor, assente no desconhecimento cada vez mais confrangedor que os alunos demonstram sobre a Revolução Russa, quer a de Fevereiro, quer a de Outubro, resta dizer que a coisa já vem detrás respeitante aos curricula do ensino secundário. Sendo um item estruturante das aprendizagens essenciais do 9º e do 12º ano, bastas vezes conteúdo tratado em exames nacionais do último ano de escolaridade, é, contudo, tratado de modo rápido e sumaríssimo no básico e no secundário. Tal como, aproveito para dizê-lo, os movimentos artísticos modernos e contemporâneos.

Neste «Labirintos de Outubro – cem anos de revolução e dissidência» o autor avisa-nos que este labirinto não deve ser o de Dédalo em Creta quase impossível de resolver (menos para Ariadne, digo eu); para Rui Bebiano um labirinto humano é «(…) um ingresso e uma saída, que podem estar ligadas a uma mesma porta ou a duas diferentes, pois aquilo que conta neste tipo de arquitectura não é a forma de a ela se aceder, mas sim a complexidade máxima do trajecto interior que comporta.»(pág. 328). Sejamos pois Ariadne e deixemos por lá o fio condutor. E esta será a única citação que utilizo aqui sem correr o risco de descontextualizar a ligação (esta querida palavra para as esquerdas) que o autor faz de um modo irrepreensível. De facto, o livro tem uma consistência interna e mostra um poder de síntese do historiador que devemos saudar. Os «mil marxismos», expressão usada por André Tosel, está em todas as páginas do livro e vemo-nos confrontados com a enorme variedade política em que o conflito e a hostilidade estiveram sempre presentes com diversas facções a digladiarem-se entre si, mesmo trazendo consigo o último sacrifício de seres humanos. E não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Mas, aqui, o historiador não cai na ratoeira que o anticomunismo armou, nomeadamente o de se analisar as consequências sem analisar as múltiplas causas que deram origem à revolução. Assim, é-nos exposto de um modo notável a consciência transformadora da Revolução de Outubro de 1917 como se fosse um livro aberto em que todos os actores foram convidados a apresentar as suas convicções e caminhos a percorrer.

O entusiasmo perante o significado da Revolução de 17 na Rússia foi mundial. E citando Enzo Traverso, Rui Bebiano é claro quando afirma que não devemos esquecer a vontade matricial desta revolução, para alguns historiadores o corolário lógico da Revolução Francesa de 1789, apostada em mudar a sociedade e dar aos explorados uma vida melhor, em detrimento do enumerar os milhões de sacrificados por diatribes burocráticas e fanáticas. O comunismo é, será sempre, uma luta pelos «impossíveis», como disse Sousa Dias. E esse impossível esteve desenhado nos primeiros anos de 1917 até 1928, dando ao comunismo soviético uma real possibilidade de libertação humana. O desejo, a festa, a realização e a luta por uma outra produção, não aviltada pelo trabalho assalariado e muito menos pelo trabalho emulativo, estiveram bem presentes nos inícios da Revolução. Com a figura de Lenine sempre presente (e não é nenhum santo como é demonstrado), mas acompanhado por bolcheviques como Trostsky, Bukarine, Zinoviev, Kamenev, Radek, Alexandra Kollontai, personalidades que tiveram percursos pessoais e políticos e que, na estratégia e na táctica, por vezes chocaram com a linha adoptada pelo partido que então tomava o poder na Rússia. O «caso» de Estaline não é, para Rui Bebiano, a continuidade lógica do processo revolucionário configurado totalmente pela tomada do poder em 1928 e mais tarde pela brutal repressão de meados dos anos 30 em que os seus antigos aliados se tornaram o inimigo a abater. Não nos esquecemos, e o livro lembra bem, que as primeiras vítimas foram comunistas e com eles os socialistas-revolucionários, mencheviques, anarquistas, trotsquistas, membros da Oposição Operária, gente sem partido, cada qual com o seu programa diferenciado para a Revolução.

Quando se fala da Revolução de Outubro de 1917, fala-se igualmente de alegria. De facto, até 1928, dançou-se em Moscovo e Leninegrado, nas fábricas e nos campos, nas escolas e nos quartéis. E é desta Revolução que traz consigo as diversas estradas diferentes no campo da esquerda, desde a social-democracia até à ultra-esquerda que nos faz gostar imenso deste livro (embora tenha alguma reticência em atribuir a Estaline o epíteto de ultra-esquerdista, seguindo a taxonomia de Richard Gombin). Não que Rui Bebiano evite falar das mortes, dos processos fabricados ou do Gulag. Antes pelo contrário; vimos, em Labirintos de Outubro, que são utilizadas novas fontes históricas, recentemente trazidas à luz nos arquivos russos, da verdadeira demência persecutória, a estalinista mas não só, que enviou para a morte, tortura e campos de trabalho, milhões de homens e mulheres que discordavam do caminho que a Revolução levava. O que me leva a exaltar a seriedade deste livro é, repita-se, exactamente a linha histórica levada a cabo para não esquecer o motivo da Revolução, ou seja, a matriz que lhe deu corpo e que a levou à vitória, à sua realização posterior, ao seu aviltamento burocrático e ao desmembramento de 1989-91: a revolução dos produtores contra uma sociedade intrinsecamente injusta e baseada na exploração do homem pelo homem. Não convém esquecer, na ocasião e hoje talvez mais premente que nunca, a necessidade de construir novos «impossíveis», mas com as lições do passado. Para os que não as têm presentes, um aviso sério do historiador: a História não perdoará a quem repetir os erros cometidos.

Seria, todavia, fastidioso estar aqui a citar o índice onomástico das rupturas e dissidências já nossas conhecidas e familiares, visto que estamos a falar no domínio da esquerda marxista ou marxiana (para os que pensam que Marx nunca foi marxista). Gostaria que falasse mais na «minha» dissidência? Claro que sim. E os «longos anos sessenta» foram riquíssimos nesses cortes. Mas, para isso, esta síntese notável de Rui Bebiano dá-nos um caminho seguro de referências bibliográficas. Depois, bom, será com cada leitor, mas que se nota um equilíbrio e um prazer visíveis a cada leitura e a cada capítulo (com mais força para o final, diga-se) dessa enorme paleta de cores que são as esquerdas, é uma verdade que dificilmente será contestada.

O conhecimento e a interiorização histórica das esquerdas fazem-se também pela leitura deste No Labirinto de Outubro. Que lastro nos ficará na construção desses «impossíveis» bem desenhados por Rui Bebiano é uma demanda que será sempre individual, mas com a certeza razoável de que as «novas subjectividades» serão sempre colectivas.

António Luís Catarino

Coimbra, 9 de Setembro de 2020

segunda-feira, agosto 31, 2020

«Epítome de Pecados e Tentações», de Mário de Carvalho

Epítome de pecados e tentações - Livro - WOOK

Há poucos escritores assim. E talvez não erre se disser que Mário de Carvalho será o único escritor que conhece como ninguém a nossa classe média criada com Cavaco Silva lá pelos anos 80, da Bolsa e toda caganças, possuidores de Jaguares, Rolex, plenos de Joana Vasconcelos e José Rodrigues dos Santos, visto que também são dados às artes. Elas são mais cultas e sensíveis que eles, mas também cruéis, estilo «não estar apaixonada mais de 12 horas seguidas». E será necessário ter acompanhado a escrita dele para notar o seu poder de síntese e de observação que, em poucas linhas, nos leva a perceber as características físicas e psicológicas das personagens. A arte do conto não é fácil de fazer, suponho, mas, quando é conseguida, lê-se com um interesse crescente. Foi o que aconteceu comigo: comecei a ler «Epítome de Pecados e Tentações» ainda na livraria e acabei-o no mesmo dia em casa. Como as mulheres que povoam os contos a engatar homens desajeitados, machos latinos, imberbes ou hesitantes. Foi tiro e queda! Quem, senão Mário de Carvalho, pode escrever assim uma cena de amor «(…)O ror de tempo que ele demorava, festas, festinhas, mais aqui, mais além, agora o do lado direito, agora o do lado esquerdo, depois os dois, agora mais abaixo…Não era inteiramente desagradável, mas vinha muito cheio de lances, confusões e cócegas. O meu homem do matrimónio avia esta coisa despachadamente, em força, acima, a fundo, mas este era todo de caganifâncias. Chupava, soprava, lambia, intrometia mão, nariz, dedos… Fazia-me impressão. Tive que lhe dar um par de sapatadas. Se era para entrar, que entrasse como Deus manda, usando o meio competente, eu esperava e consentia. Agora atravessamentos pianistas… era só sentir corpos estranhos onde não deviam estar. Fazia-me impressão. Arredei-lhe a mão, com força. E ele a dar-lhe. Nova berlaitada minha.(…)» e as sapatadas continuam pelo livro todo em cima de homens cheios de convicção, mas algo rebaixados com as mulheres de iniciativa confirmada. O que os deixa­ em baixo.

Mas voltemos à burguesia tão cara à observação atenta de Mário de Carvalho. Notem esta introdução à caracterização de um certo auditor, uma personagem ímpar do livro: «Descendente de campónios, aquela sagacidade instalada, a inteligência de lidar com a diversidade, o domínio sereno das nomenclaturas, a compreensão dos modismos, o complexo lastro casuístico causavam nos colegas uma interrogação atónita. Eles, ao fim e ao cabo, eram filhos de pequeno-burgueses urbanos, não sabiam o nome dum pássaro, dum insecto, duma árvore, mas tinham sido acostumados, desde muito novos, a dares e tomares, com as camadas sociais intermédias. Palavras, gestos, atitudes, pausas.» O mote e o ambiente estão dados e a entrada triunfal do auditor acontece agora perante a submissão do resto dos colegas. Agora o homem poderá falar da mulher como «minha esposa» e usar advérbios como «tocantemente» e «talqualmente». Digam-me que nunca viram pessoas assim. Eu, pela minha parte, encontro-os quase todos os dias. São uma chusma de gente em cada repartição, instituição ou acomodação política.

Um livro a ler com a urgência necessária, mesmo que para isso tenhamos de nos interrogar a cada linha: «’pera aí! Eu já fiz isto?», «mas este sou eu?», ou pior um pouco «já tratei alguém por você? Alguém me tratou por você?». É que eu sou doutor. Se possível com um largo e complexo lastro casuístico! Impagável, este livro.

António Luís Catarino

Coimbra, 31 de Agosto de 2020

«O Vermelho e o Negro», de Stendhal

 Vanina Vanini (racconto) - Wikipedia

Houve quem dissesse que «O Vermelho e o Negro», de Stendhal, era uma história da luta de classes… mas ao contrário! Embora não saiba já quem o disse, a verdade é essa. Julien Sorel é um sacana, aliás, mais que um sacana. Um verdadeiro filho da mãe que não a nomeia sequer uma única vez em todo o romance. Só o ódio pelo pai, carpinteiro, e pelos dois irmãos que não suportavam o ar pedante do herói de Stendhal. Conseguimos mesmo embirrar com a hipocrisia e o ar angélico de quem estudou pelos jesuítas no seminário e se preparava para ser padre, ou talvez bispo. Julien subiu todos os degraus da escala social da época francesa da Restauração aristocrática iniciada em 1830. Embora devoto de Deus e de Napoleão, nunca mostrou publicamente a admiração deste último, porque isso o poderia embaraçar. Inteligente, mas pouco culto, sabia somente os Evangelhos de cor e em latim o que fazia com a burguesia e aristocracia abrissem, com espanto e denodo, as suas bocas em jantares e salões que frequentava. Depois de amar Madame de Rênal, cujo marido serve de trampolim social a Sorel, vai para casa do Marquês de Mole que lhe abre as portas da nobreza lembrando-lhe sempre a sua pobre ascendência pequeno-burguesa. Julien não se verga continuando a mostrar-se bastante adestrado para a casa De Mole, enquanto lhe seduz a filha, Matilde, que engravida. A sua «carreira», de um extremo calculismo, sofre um abalo fatal e o fim do livro é pungente do romantismo mais exacerbado, mesmo que Stendhal seja conotado com o início do realismo: tenta matar a senhora Rênal a tiro e após a sua mulher tentar corromper o júri do tribunal, após várias tramas políticas, Julien é condenado à morte pela guilhotina, o que acontece. A sua cabeça é colocada literalmente no colo de Madame Rênal!

No fundo, a aristocracia triunfa sobre a burguesia, mas «O Vermelho e o Negro» traduz bem a luta por vezes surda, outras, completamente aberta, entre as várias personagens pertencentes às classes sociais opostas. O medo da revolução ou da revolta das classes subalternas, ou seja, o medo de 1789 ou, mais concretamente, do «Terror» de 1793, está sempre presente em todo o romance e as decisões são tomadas tendo em conta o domínio político e social da aristocracia após a época imperial. Marquês de Mole, numa reunião política secreta em que Julien a secretaria, chega a afirmar que se o projecto aristocrático falhar depois de 1830, a Europa só conhecerá repúblicas e os castelos e igrejas serão pilhados sem piedade. Ainda faltava algum tempo até 1848 e 1870!

Stendhal foi um soldado de Napoleão e, como tal, esteve na Itália em serviço militar. Observador, sabia do que falava e não esconde a sua simpatia por Napoleão, mas é igualmente explícita a sua antipatia quer pela aristocracia, quer pela burguesia, que lhe chama balofa e ávida de subir socialmente, seja a que preço for. Entra aqui Julien que é bem o retrato desta mesma classe e que paga com a sua vida esse propósito.

Mas o autor de «O Vermelho e o Negro» é clarividente: a burguesia substituirá, pela paz ou pela força e pela violência, o que nunca se saberá, a ridícula nobreza já mais morta que viva, praticamente dizimada entre 1789 e 93, alvo de expropriações, conhecedora de dificuldades nunca antes sentidas na emigração, endividada e sempre aberta a receber prebendas dos governos, tentando aumentar os impostos e direitos sobre o povo, que odeia. O que é retribuído por este, aliás. O ressentimento existe em cada página do livro. O ódio que alimenta Julien contra toda a nobreza que o recebe em casa e que lhe dá a perspectiva de ascensão social é disso testemunho. Mas a nobreza sabe que poderá perder a sua prevalência política e social e, para a evitar, nada melhor do que imitar o liberalismo, seu inimigo, criando condições para eleições, jogando o jogo da política e comprando apaniguados, apoiando-se na igreja e no exército. De Mole, opõe-se a um golpe de estado para restabelecer um governo mais radical que poderia fazer entrar em guerra a França contra a Áustria e a Prússia ou mesmo contra a Inglaterra. Para quê criar um exército de leais ao absolutismo se depois de morrerem os soldados, vinham outros e outros, acabando o exército de ser composto, se isso acontecer, por camponeses? É este o terror da nobreza; que as armas se virem contra ela. Lutar contra a revolução, substituindo 1789? Não seria possível. Aqui está a clarividência de Stendhal e uma lembrança do absolutista De Maistre: «lutar contra a Revolução é o mesmo que tentar engarrafar o lago de Genebra e colocá-lo numa adega!»

António Luís Catarino

Coimbra 31 de Agosto de 2020

quinta-feira, agosto 27, 2020

«O Ouriço e a Raposa», de Isaiah Berlin

 O Ouriço e a Raposa”: o livro mais importante de Isaiah Berlin é publicado  pela primeira vez em Portugal – Comunidade Cultura e Arte

Era uma vez um ouriço e uma raposa... este ensaio de Isaiah Berlin poderia iniciar-se assim mesmo, que não levaríamos a mal. Poderia tomar a forma de uma fábula, mas não é disso que se trata. É uma adaptação de versos de Arquíloco quando este afirma «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» Quereis ser raposa ou ouriço? Aqueles que veem o mundo através de um princípio organizador único serão um ouriço. Raposas serão os que interpretam o mundo através de várias pontas e vários prismas. I.B. dá então um exemplo: como raposas estão inseridos Dante, Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce; ouriços, embora em graus diferentes, são Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen e Proust.

Para um liberal como Isaiah Berlin esta preocupação de catalogar personalidades tão ricas, de ambos os lados, não deixa de nos espantar e mesmo preocupar, pensando nós que esta necessidade de compartimentação intelectual, não se sabe bem porquê, pertenceria eventualmente à esquerda, traduzida do «gauche»  francês por canhestro, desajeitado, do italiano «sinistra», belíssimo termo que nos transporta a uma entidade suspeita de muitos males e a portuguesa «esquerda», esquerda que, até meados do século XX, ainda era conotada com o diabo, razão pela qual os canhotos eram obrigados na escola a corrigirem, por vezes à pancada, a mania estúpida de escrever sem ser com a mão direita! E, já agora, Lenine para quem o esquerdismo era uma doença infantil do comunismo, tipo sarampo ou escarlatina.

Mais nos admiramos com a prelecção de Berlin, considerada pelo The Guardian como o 28º melhor ensaio de todos os tempos (nada meigos!), quando este se debruça sobre o «Guerra e Paz» de Tolstói e sobre o autor, ele-mesmo. Tolstói não figura, se repararem naqueles rótulos, como raposa ou ouriço. Isaiah Berlin coloca-o num limbo afirmando que Tolstói era um ouriço que queria ser raposa, devido à sua visão unitária do mundo, mas com dúvidas imensas que o levavam a analisar tudo sob várias perspectivas. Até se compreende mas, ao afirmar que Stendhal era a «dívida» de toda a obra de Tolstói o que ele teria corroborado numa entrevista, porque não o colocou aquele como raposa? Mas a surpresa maior é que esta alocução, que teve vários títulos diferentes, críticas a rodos e contrariedades várias, e que nos apercebemos nesta edição, tem o sub-título de «Ensaio sobre a visão da História de Tolstói» e aqui, com a devida proporção, surgem tantas dúvidas quantas as que teve Tolstói durante toda a sua vida! Como se pode afirmar o positivismo de Tolstói no epílogo de «Guerra e Paz» que, como nos lembramos, é dedicada às questões históricas? Ora, como sabemos, o positivismo trouxe consigo algumas correcções necessárias às Ciências Humanas, mas limitou-se, em História, a uma descrição interminável de factos e acontecimentos datados, que teriam como protagonistas actores de vulto fossem eles somente reis, presidentes, ministros ou cabos de guerra. Quando lemos o epílogo da obra de Tolstói reparamos que nada disto é seguido optando este por descrever a História como uma sucessão de factos em que os agentes políticos ou militares nada mudam, nunca transformam nada de facto, julgando-se, ao mesmo tempo, donos do devir do mundo. Tolstói apresenta-nos a sucessão de acontecimentos históricos como sendo originados por forças ocultas, telúricas, criadas por uma mole imensa de vontades estranhas e que se conjugam aqui e ali numa forte torrente. Chega a desdenhar os grandes vultos do seu tempo, como Kotuzov, Napoleão, Alexandre, Catarina ou os Habsburgos que julgam poder mudar alguma coisa. Portanto, Tolstói positivista?

Há, contudo, outras afirmações que não são menos polémicas por parte de Isaiah Berlin. Já sabemos que ele era um liberal adverso de todos os totalitarismos. Se pensarmos que este ensaio foi escrito em 1953, oito anos após o derrube do nazi-fascismo em que os sentimentos antifascistas estavam muito vivos (mais do que hoje, diga-se), compreende-se que se possam ver teorias fascistas de um modo exacerbado, mas Tolstói precursor do fascismo indo buscar a Proudhon e a De Maistre as suas ideias não será um pouco demasiado? Mesmo que no fim de um capítulo do ensaio I.B. seja mais suave. Vejamos o que diz Berlin: «A analogia [com De Maistre] não pode, ainda assim, ser excessivamente vincada: é verdade que tanto Maistre e Tolstói atribuem a maior importância possível à guerra e ao conflito, mas Maistre, como Proudhon depois dele, exalta a guerra e declara-a misteriosa e divina, enquanto Tolstói a detesta e a considera, em princípio, explicável, desde que saibamos o suficiente acerca das muitas pequenas causas – o famoso «diferencial» da história. (...) A visão de Maistre é a de um mundo de criaturas selvagens que se atiram umas às outras sem dó nem piedade, matam por matar, coisa que vê como a condição normal de toda a vida animada. Tolstói está longe de tal terror, crime e sadismo, e não é, com a devida licença de Albert Sorel e Vogüé [estes verdadeiros arautos do fascismo moderno], em sentido nenhum, um místico: não receia questionar nada e acredita na existência de uma qualquer resposta simples – basta que não insistamos em torturar-nos a procurá-la em lugares estranhos e remotos quando ela está sempre à nossa frente.»

E as diferenças continuam por mais páginas a seguir a esta. Pergunta-se agora: de que vale levantar uma questão através de uma afirmação polémica, como exemplo «...seria Tolstói um seguidor de De Maistre [ou já agora de Bossuet] paladinos do absolutismo e seguidos por fascistas?», para depois passar o resto do ensaio (o 28º oitavo melhor de todos os tempos, repita-se!) a dizer o contrário e a sublinhar as diferenças? Será esta a verdadeira metodologia para um êxito ensaístico?

António Luís Catarino

Coimbra, 27 de Agosto de 2020

quarta-feira, agosto 19, 2020

«Guerra e Paz», de Lev Tolstói

 Tolstói: “O vegetarianismo é um sinal da aspiração séria e sincera ...

O que dizer após uma leitura de «Guerra e Paz»? Um manancial de dúvidas se sobrepõe no seu final. Não as dúvidas elaboradas por Lev Tolstói, muitas do domínio metafísico com que encerrou a sua vida, nem pelo seu estranho epílogo em que interroga sobre o papel da História no desenvolvimento dos acontecimentos humanos, mas tão só pelos papéis de André, Pedro e de Karataiev, ou de Natacha e de Maria. Por mais que se leia e tente interpretar aquelas personagens nunca chegaremos a entender o seu papel determinante no decorrer da saga. Creio que esse facto é o que faz um verdadeiro romance. Serão todos alter egos de Tolstói? Escreveram-se páginas infindáveis sobre «Guerra e Paz» e, não me atrevendo a qualquer análise pequena que seja, aquilo que me vem à cabeça é que Tolstói dividiu a sua existência atribulada e contraditória nestas personagens bem reais com sentimentos múltiplos e diversos em que já passámos na nossa vida. É isso que faz a utilidade e unidade de um romance, se bem podemos expressar-nos desta maneira. E as imagens que «Guerra e Paz» nos dá! Um imperador da Rússia, imberbe, rancoroso, quase imbecil e permeável que se mostra da varanda do seu palácio comendo uma bolacha, acenando, e, endeusado por uma multidão, entusiasma-se de tal modo que, pedindo um prato cheio, as atira ao povo! André, quando é ferido gravemente em Austerlitz, olhando para o céu e para os campos, abandona-se a uma grande calma e plenitude, amando naquele instante a humanidade e a natureza. Também a imagem de Napoleão fugindo de Kotuzov que nem o chega a atacar frontalmente, de uma Moscovo destruída deixando as suas tropas para trás com todos os sofrimentos possíveis e este marechal, como uma raposa sabida, que contra todos os arrivistas, segue a sua própria estratégia de desgaste do inimigo e confia na sua Mãe-Rússia que expulsa os soldados franceses como um corpo estranho se tratasse. E Pedro, conde ilegítimo, herdeiro de uma imensa fortuna da nobreza que por fastio e aborrecimento o seu pai lhe deixa, e que encontra a felicidade no despojamento material, espiritual e também no segundo casamento com a ingénua Natacha, enquanto se comove com a sua própria filantropia para com os miseráveis camponeses russos, dando-lhes escolas, hospitais e abolindo as corveias que quase o arruínam. Admira-se quando estes, habituados à escravidão, o não compreendem. Maria, esse miasma criado por um pai absoluto, teocrata, que humilha a sua fé e que só se liberta casando (por conveniência? Nunca o saberemos.) com um Rostov, da grande nobreza já endividada, no início do século XIX.

Este mosaico de personagens é de uma riqueza impressionante só ao alcance de alguns. Não sei se acreditam na genialidade, mas gostava de ver o caixote de lixo de Tolstói e ver o quanto teve de trabalhar para chegar a este apuramento narrativo. Juntamente com questões mais comezinhas como esta e que me poderão responder: a) quem era Madame de Souza que é citada numa festa nobre de um salão? b) porque aparece várias vezes o nome de Conde Tolstói ou Ostermann-Tolstói como sendo um importante membro do conselho superior militar do imperador, Alexandre I, quase cinquenta anos antes de «Guerra e Paz»? Será este um ascendente do escritor?

António Luís Catarino

Atalaia, 19 de Agosto de 2020.

segunda-feira, agosto 17, 2020

Ler um suicídio. Ver um suicídio.

Catedral de Notre-Dame | Suíça Turismo

 Vista do miradouro da Catedral de Lausanne

Ler a notícia de um suicídio é uma coisa. Ver um suicídio é outra. Bate-nos forte cá dentro. No dia 9 de Agosto, subíamos para a Catedral de Lausanne ao fim da tarde. Havia à frente da porta principal um promontório onde se poderia ver grande parte da cidade, o lago Léman e os Alpes já despedidos, devido às alterações climáticas, das suas neves perpétuas. Era o último dia que passávamos em Lausanne.

Saímos de casa pelas vinte. Poucos minutos depois a polícia barra-nos o caminho no passeio para peões. Achámos estranho porque víamos uma alteração de trânsito que nos pareceu um pequeno choque entre automóveis e uma moto. Mas isso era na via rápida, não no passeio. Na sequência da conversa com o polícia tentando perceber a razão de não podermos circular, vimos, então, o corpo de um homem que me pareceu de cerca de quarenta anos. Vestia calças castanhas e um pólo creme. Faziam-lhe a reanimação. Um transeunte disse-nos que se tratava de um suicídio. O homem tinha-se atirado de um viaduto de trinta metros de altura e encontrava-se logo atrás de um Audi e ladeado por uma moto. O automobilista e o «motard» estavam nitidamente alterados. A polícia interrogava as testemunhas. Teriam visto o corpo a cair? Certamente que sim. No viaduto, por cima de nós, a polícia também fechou o trânsito e falava com um grupo de adolescentes que viram o homem a saltar. Havia jovens de lágrimas nos olhos, outros que choravam abertamente, mesmo uma hora depois do que aconteceu e quando passávamos pelo viaduto que pensávamos então livre.

A reanimação continuava e convencemo-nos, à medida que descíamos da Catedral e ainda sob comoção, que todo aquele acto de reanimação era para descansar os transeuntes que paravam nas redondezas. Alguém poderia sobreviver a uma queda daquela altura? Fiquei, ficámos, transtornados com a vista do corpo inerte. Passou-me tudo pela cabeça; quem seria? Donde vinha, onde residia? Seria suíço, um migrante, um refugiado? Que levaria aquele homem a cometer um suicídio à vista de todos, sinal de profunda depressão e de raiva não contida? Aquele grito seria para nós? Terá sido por amor? Por desemprego ou por perder a casa? Gostaríamos de saber pelo menos o seu nome. Naquelas condições passa-nos tudo pela cabeça e ficamos prostrados, impotentes perante o corpo. Tentamos uma explicação o mais possível racional para o que acabámos de ver.

O que vimos foi um ponto final numa vida. Um homem pôs-lhe termo de uma forma brutal, dirigida a nós. Sem apelo, nem agravo. Não quis viver mais e nós nunca havemos de compreender isso, pensando que há sempre uma saída e mesmo que em certas situações, qualquer pessoa saudável, tenha pensado no seu próprio suicídio.

O poema cínico de Álvaro de Campos «Se te queres matar, por que não te queres matar?/ Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,/ Se ousasse matar-me, também me mataria.../Ah, se ousares, ousa! veio-me à memória quando olhei (...)» veio-me então à memória e fiz desfilar em mim alguns suicídios que marcaram, de uma forma indelével, os meus amigos que escolheram essa estrada da memória e da vida, pondo-lhe fim, de uma forma violentíssima. Dirigidos, provavelmente, aos que cá ficaram.

Aquela morte em Lausanne marcou-nos. Como seria esse o objectivo do homem que se suicidou. Uma pessoa não consegue esquecer.

António Luís Catarino

Atalaia, 17 de Agosto de 2020

terça-feira, julho 28, 2020

«Vida de Ramon», de sobrenome Llull, de Luísa Costa Gomes


Leyaonline - Vida de Ramon - GOMES, LUÍSA COSTA
«Vida de Ramon», de Luísa Costa Gomes

É um livro empolgante e de um rigor linguístico e histórico assinalável. Já há muito que deveria ter-me debruçado, nestas notas de leitura que faço para este blogue, por Luísa Costa Gomes como autora que leio desde sempre. Mas quis que o fizesse a este «Vida de Ramon». Luísa Costa Gomes leva-nos por mão amiga do leitor para os finais do século XIII e início do XIV, século este que veio a ser dos mais infames da História. Não só por causa da peste, mas também. E nunca saberemos, porque de comparação se trata, se o século XX não lhe ficou à frente em lástima. Adiante.

Já se vislumbra pela biografia do catalão Ramon Llull, mais profeta da Unidade do que filósofo, embora precisasse em pormenor, nos seus quase duzentos livros editados, o argumentário católico para a conversão de todos os infiéis à face da terra, principalmente a dos sarracenos, que não seria uma vida de curso fácil. Ficaremos na Ars Magna ou a Ars Generis em que apresenta a sua visão muito particular da maneira mais astuta de converter os maometanos. No fundo, fingindo ser um deles para melhor os ganhar para a fé católica, já envolta em graves conflitos internos. Não faltou quem discordasse da estratégia.

Ramon Llull nem sempre foi um fervoroso cristão e franciscano, embora a autora na laboriosa pesquisa que fez sobre ele não tenha a certeza que tenha aderido formalmente à fraternidade. São Francisco já teria morrido e os irmãos lutavam entre si pela continuidade entre espirituais e reformistas. Ganharam os primeiros e com uma regra bem longe do que queria o seu fundador e mais próxima até dos beneditinos. É poca em que os cátaros foram massacrados e o cisma era uma realidade já no cristianismo. A corrupção, o luxo e os pecados veniais, mais uns do que outros bem mortais, grassavam pela igreja.

Llull, à semelhança de Saulo e depois Paulo, Santo Agostinho, talvez Aquino e Francisco, teve uma vida considerada dissoluta e dada à trova e ao amor. Depois, também teve uma espécie de «estrada de Damasco» e aí vai ele, que viu Deus, ou o Senhor Cristo incarnado. Para o caso não interessa. Tornou-se um profeta dado à filosofia. Tanta pancada apanhou que a sua vida me lembra mais a do Cândido industriado por Pangloss do que propriamente a de um mártir. Não que a conversão do libertino fosse fácil. Escreve Luísa Costa Gomes: «A conversão de Ramon deu muito trabalho ao Nosso Senhor. Ou porque fosse avesso a toda a contrição e a toda a penitência, ou porque o Crucificado não fizesse acompanhar as suas aparições do necessário estado de graça, ou de exibições vistosas, o certo é que, como se diz na Vida Coetanea,[a vida de Llull, ditada por ele e atribuída a um monge: Vauvert] depois da visão terrífica, Ramon continuou a fazer a sua vida.»

Sendo maiorquino e convivendo de perto com mouros e sarracenos (para usar os termos mais utilizados por Llull), mais as iniquidades cristãs e as cruzadas, lutou, até ao fim da sua vida, pela unidade religiosa com um deus único e verdadeiro, visto que Alá era um falso deus, arregimentando hereges cristãos, maometanos, sufis, judeus e outros para o deus cristão. Para isso, uniria todo o mundo sob um único deus, através de uma única cruzada redentora e salvífica para com Jerusalém, tomando a Síria, a Arábia, a Palestina, a Pérsia e sei lá que mais, uma única ordem militar e um único livro, o dos Evangelhos e o dos antigos profetas. Constantinopla tornar-se-ia de novo católica! Aprendeu árabe através do ensinamento de um escravo que ele comprou e que queria ser livre a todo o transe (esta mania dos escravos!) e que atirava desesperado a roupa ao chão, clamando a sua condição de ‘Abd! Abd! Abd!’. Várias vezes preso e mal visto pelos papas e príncipes, aturavam-lhe os sonhos e os desvelos religiosos, foi espancado na Berbéria, metido nas latrinas de condenados meses a fio, arrancaram-lhe a longa barba e despiram-no amiúde, lapidado algumas vezes, naufragado, ele nunca soçobrou na sua fé e na sua escrita prolixa, também ela perpassada pela Unidade. Contra Averróis, principalmente mas não só. Pelo aristotelismo e pelos seus, cada vez mais numerosos, seguidores. A história deu-lhe razão: Averróis foi morto pelos radicais islâmicos, os Templários foram extintos e remetidos para a Ordem Hospitalária e a quinta e sexta cruzada uma realidade, triste é certo, mas que reuniu os príncipes e reis da altura. A unidade, enfim! Trecho de «Vida de Ramon»: «[Quando chegou a Viena]…Trazia proposições necessárias, ordenadas numa petição ao Concílio Geral para a conquista da Terra Santa: queria a instituição de colégios em Roma, Paris e Toledo, a fusão das ordens militares e que se reservasse uma parte dos rendimentos da Igreja ao empreendimento de uma cruzada universal; queria, no que dizia respeita à reforma dos costumes do clero, que fosse proibido de acumular prebendas, suprimisse as despesas ociosas, se vestisse com uniformidade e modéstia; queria o herói da luta antiaverroísta que o ensino da filosofia de Ibn-Ruchd e dos seus divulgadores e comentadores, que se tornara, entretanto, quase corrente na Faculdade das Artes, fosse inteiramente proibido.»

Podemos, aos olhos de hoje, achá-lo uma personagem fantástica, acusação que lhe fizeram os apóstolos da Razão, ele que queria fundir a Razão com Religião numa última tentativa de uniformização, mas não deixa de ser comovente a figura quixotesca que Luísa Costa Gomes nos traz pela sua mão e pela sua escrita notável.

Por alguma razão tenho-a lido. Por alguma razão tenho comigo o seu último livro. Mas não deixem de ler este «Vida de Ramon».

António Luís Catarino
Coimbra, 26 de Julho de 2020

terça-feira, julho 21, 2020

«Eternidade», de Ferreira de Castro


LETRAS LUSAS: "Eternidade", de Ferreira de Castro - alma-lusa

«Eternidade», de Ferreira de Castro

Um tipo, quando tem 13 anos salta sobre um banco em direcção à estante dos pais e procura debalde um livro que lhe acalme as hormonas. Lá fica com Eça, Camilo, Brandão, Ferreira de Castro, Alves Redol, Soeiro, Gomes Ferreira. O Jorge Amado e Erico Veríssimo, também. Lê-os e esquece-os na voragem dos vinte e trinta na procura do novo que tudo ponha em causa e muito para «épater le bourgeois» que os há em cada família e não só. Por vezes, esquece-os e não volta a tocar neles. Agora, a memória reflexiva dos sessenta faz com eu regresse às leituras.

Pessoas há, e eu sou uma delas, que só dão conta das pérolas que lhes vêm às mãos muito depois. «Eternidade», de Ferreira de Castro é um exemplo desses. Nunca o tinha lido, embora existisse em casa dos meus pais, e adquiri-o num impulso porque o comecei a ler ainda na livraria. Logo que tirei a máscara e me desinfectei nunca mais o larguei. Por que razão não consigo ler de máscara ainda será um mistério que me assiste. Mas, num dia! Li-o num simples dia, coisa que não fazia há muito.

As personagens são românticas, como aliás é aí dito a certa altura. Ferreira de Castro não o é, e a estória muito menos. Não é realista ou neorrealista. Não cabe em rótulos. Um único que lhe cabe é que é extraordinário. Ou seja, muito para além do ordinário. Não é moralista ou decadentista. É cheio de vida. Contraditório e selvagem. Juvenal, engenheiro silvicultor é um homem apaixonado por uma mulher, Helena, que lhe morreu em Lisboa. Nunca percebemos se o seu amor é mesmo por ela se pela morte que a acompanha. Na viagem à sua cidade natal, o Funchal, vê-se enredado em desejos que passam por Renée, pelas putas de rua junto à Sé, por Elisabeth, casada com o industrial romeno e que se divorcia para o acompanhar para a deportação em Cabo Verde, na Ilha do Sal, castigo esse que abre a hipótese de um campo de concentração que, intuímos, se inaugurará mais tarde.

Estamos em 1933, ano da «legitimação» constitucional do Estado Novo e todas as oposições são possíveis ainda que de um modo gestacional. A ressaca da crise mundial de 1929 ainda se sente na queda das exportações e os preços e os salários sofrem baixas terríveis. A personagem principal vê-se envolto na burguesia salazarista madeirense de onde a família é oriunda e o contraste brutal de uma população que ainda permanece com os seus traços feudais, quer na situação de operários da indústria exportadora conserveira e vinícola que se apegam ainda às associações mutualistas (embora se manifestem já de bandeira vermelha), quer às bordadeiras (40 a 60 mil segundo o autor), ou aos camponeses das levadas que são explorados até à morte, mais que não seja pela tuberculose, loucura ou pela aguardente.

Juvenal muda de campo e adere aos mais pobres. Não lhe interessa viver assim. Adere através de uma manifestação de fome, violenta, em que se incendeiam algumas sedes de exportações de bordados. Pressente-se já a presença de comunistas organizados, doze anos depois da fundação do PCP. «Ser humano, só humano perante a dor infinita, era sentir-se complexo como um deus e insignificante como um grão de pó. Era ser tudo e ser nada – e sofrer, no seu egoísmo, a sensação de ser nada, nada, nada! Ninguém articulara ainda, entre tantos que sofreram o mesmo drama ao longo de milénios, a palavra consoladora. Ninguém! Ou se tinha uma utopia e se marchava agarrado a um velho bordão metafísico, ou a razão cambaleava por caminhos sem saída. E se a ansiedade duma certeza era maior, por chaga recente avivada, só se encontrava o silêncio universal e, entre a tribos, a submissão de quem se fatigara de tanto perscrutar». E Juvenal, pela caneta de Ferreira de Castro, coloca as culpas ao chicote salazarista e ao medo que a Igreja impõe às populações.

A eternidade aqui conta-se por milénios. Ferreira de Castro coloca Juvenal numa redoma de dúvida perante a capacidade do Homem em regenerar-se, em criar uma sociedade igualitária. Pelo menos em vida dele. E torna-o triste, cabisbaixo, quase desesperado, só não sendo indiferente para com a sorte dos subalternos. Aí ele age e paga com o ferimento, a prisão e a deportação onde se junta Elisabeth, vinda de Inglaterra, já divorciada e grávida de um filho que, segundo ele, talvez continue a luta. «A compreensão…A compreensão e os homens libertos de injustiças que sobre eles pesavam, das injustiças que ajudavam a manter viva e aderida a ganga inicial. Havia de existir um ponto convergente. Havia de existir ou havia de produzir-se, com o rodar dos tempos, a possibilidade duma conciliação entre todas as disparidades; uma conciliação mesmo nos pegos mais profundos, onde as incongruências da natureza se ocultavam melhor. Porque o homem não era só aquilo, não era só como ele o via nos seus momentos de desespero. O homem era, pela força do espírito, uma promoção sem limites, mesmo quando gastava milénios a ascender a um novo grau».

Este homem, Ferreira de Castro, vislumbrou esse grau e é um grande escritor. Que tivesse recusado ser proposto para Nobel, depois de ser reconhecido mundialmente e ser traduzido em 10 línguas, percebe-se agora porquê. Razão pela qual, se não tivermos cuidado, e geralmente nunca temos, ele vai ser esquecido dos mais jovens, tal como Brandão e Aquilino. Esperemos e lutemos por um novo grau, então.

António Luís Catarino
Coimbra, 21 de Julho de 2020.

segunda-feira, julho 20, 2020

«Le Lambeau», de Phillipe Lançon


Le Lambeau" : le récit dur et poignant de Philippe Lançon sur l ...
Capa de «Le Lambeau» e o autor Philippe Lançon

A 7 de Janeiro de 2015, em Paris, dois verdadeiros imbecis, os irmãos Kouachi, entram na sede da Charlie Hebdo aos gritos de «Allah Akbar!» e assassinam doze pessoas ligadas à redação que estava reunida para preparar o próximo número do jornal. Entre elas, morrem Wolinski, Cabu, Charb, Elsa Cayat, Tignous e Honoré. Entre os feridos, cinco na totalidade, conta-se Philippe Lançon que escreve este livro que foi publicado pela Folio em 2018. Uma onda de indignação percorreu a Europa lançando a estranha palavra de ordem «Je suis Charlie».

Devo dizer que eu fui sempre Charlie, mas recusei-me, talvez por isso mesmo, a subscrever este estribilho que percorreu todas as redes sociais e paredes do país. Não que não me tivesse emocionado com a morte de desenhadores que eu aprendi a seguir e rir-me com eles. A morte de Wolinsky, por exemplo, foi muito sentida. A Câmara do Porto, cidade onde eu vivia na ocasião, fez-lhe uma enorme homenagem e tinha motivos: ele pertenceu, juntamente com Gémeo Luís que fez trabalhos excelentes para a Deriva Editores, ao júri do Porto Cartoon durante anos. Mas eu acompanhava-o desde sempre. Pelo menos a partir de 1976 eu comprava sempre a Charlie Mensuel e, intermitentemente, a Hebdo, juntamente com a revista Hara Kiri, Métal Hurlant ou Pilote. Fui sempre um apaixonado pela Banda Desenhada. Francesa, principalmente.

Phillipe Lançon, traça neste livro, toda a história desde o atentado onde foi seriamente ferido. Ficou sem maxilar inferior com uma bala de Kalashnikov. Traduziria «Le Lambeau» por «A Retalho» ou «O Pedaço» que foi o que lhe fizeram no hospital durante dois anos recompondo-lhe tecidos queimados, dentes que desapareceram, ossos retirados do perónio para o maxilar, titânio para juntar ao puzzle em que se tornou o maxilar. Ele conta-nos os delírios da morfina, as paragens respiratórias, as infecções constantes, o não poder beijar, beber um copo, a saliva a inundar-lhe as gazes à volta do rosto. O horror que ele conta não desejaria ao meu pior inimigo. Jornalista do Libération e da Charlie Hebdo fez reportagens de guerra como na Síria, no Iraque, no Líbano, na Palestina e, porque não dizê-lo, na Colômbia e no México dos cartéis de droga. Foi alvo de um grave ferimento de guerra, como disse o bombeiro que o resgatou do mar de sangue em que se tornou a sala da redacção, em Paris! A última crítica de livros que enviou para o Libération era sobre «Insubmissão» de Houllebecq o que não deixa de ser premonitório. Quem o leu (está editado em português) sabe do que falo. Poucos minutos antes do ataque, estavam a discutir se valeria a pena dar voz a um reaccionário nas páginas da Hebdo. O debate não chegou ao fim. Rajadas de metralhadora acabaram com a possibilidade de editar fosse o que fosse. No chão, cadáveres de desenhadores que conhecíamos bem, que nos rimos com eles que por vezes sentíamos que se estavam a expor demasiado como quando publicaram as imagens de Maomé de um desenhador dinamarquês alvo de uma fatwa, ou quando incendiaram em 2011 a sede do jornal. Eles não queriam saber. Charb dizia para Lançon que se fossem a dar importância às várias ameaças vindas de um leque largo do espectro político francês o jornal não sairia nunca. E, sabêmo-lo hoje, o jornal não respirava saúde económica reduzindo, semana a semana, as tiragens. Portanto, não deixa de ser paradoxal, que todos dissessem à uma «Je suis Charlie». E Lançon di-lo com todas as letras a hipocrisia de tal palavra de ordem. Não eram todos Charlie. E no momento da grande causa comum havia sempre quem dissesse «Eles puseram-se a jeito!» ou «Quando se brinca com a religião…».

A palavra a Phillipe Lançon: «A 7 de Janeiro de 2015, pelas 10:30, não havia muita gente em França para ser «Charlie». Os tempos mudaram e nós não podíamos fazer nada. O jornal só tinha importância para alguns fiéis, para os islamitas e para aquela espécie de indivíduos mais ou menos civilizados, variando entre jovens suburbanos que não liam, a amigos de longa data dos condenados da terra que prontamente o chamavam de racista. Nós sentimos a ascensão desta raiva primária, que transformava o combate social em espírito de intolerância. O ódio é uma bebedeira; as ameaças de morte, habituais; os mails de lixo, numerosos. Acontecia-me perguntar a um dono de um quiosque, geralmente árabe, que dizia não receber o jornal com uma tal expressão de raiva que não escondia a mentira. Sem se dar por isso, a atmosfera mudava. Tinha chegado um momento, sem dúvida a partir do incêndio criminoso de 2011, onde parei, sem deixar de sentir vergonha, de abrir Charlie Hebdo no metro».

A partir daqui foi a contagem decrescente até ao atentado, ao massacre. E Philippe Lançon explica bem o que sentiu por parte de alguma esquerda culpabilizante e defensora de uma moral e de uma ética onde não cabe o riso e a liberdade de expressão, já que, pela direita se sabia o que daí vinha. Portanto a barbárie, no caso, chegou viu e venceu e passados seis anos os factos estão aí para o provar. Quando se começa a culpar a vítima (como Lançon, jornalista, despreza esta palavra!) porque provocou o agressor tudo de sujo será possível. E foi o que aconteceu no caso de Charlie Hebdo.

António Luís Catarino
Coimbra, 20 de julho de 2020
Je Suis Charlie: O Jornalismo está de luto! - Pplware
A ironia e o sarcasmo sempre presente em Charlie Hebdo. E a liberdade de expressão também.

quarta-feira, julho 08, 2020

«Teoria da Viagem», de Michel Onfray

Teoria da Viagem (Portuguese Edition): MICHEL ONFRAY ...

Um livro relativamente inútil para quem conhece pouco o que já se escreveu sobre as viagens e o nomadismo poético ou «geopoético»; totalmente inútil para quem já as leu de várias fontes e de datações várias.

A questão que se me coloca é que Michel Onfray é conhecido por ter editado o excelente livro «A Política do Rebelde», em 1997 e que teve uma repercussão importante como «Tratado de Resistência e de Insubmissão», o seu subtítulo, nos espíritos dados à revolta e à não aceitação das normas sociais dominantes, que ainda os há por aí. Ou seja, o que levou este autor a escrever em 2007 um livro (a edição portuguesa, de 2019, sai portanto com atraso significativo e com um prefácio a despachar de Francisco José Viegas) sem qualquer dado novo sobre a viagem, vazio de uma teoria estruturada do «nomadismo geopoético» que antes já não tivesse sido apresentada e formulada mais consistentemente por outros? Exemplos não faltam: Victor Segalen, Kenneth White http://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=kenneth+white , autores que ele cita, e mesmo a este último retirando-lhe, sem sequer lhe pedir licença, o termo «geopoético», e outros que ele não cita por não querer, tal a parafernália de autores que ele trouxe à colação. Onde estão, Ryszard Kapuscinski ou Claudio Magris, que poderiam preencher uma lacuna importante como autores contemporâneos? E porque escolhe Hesíodo e não fala de Heródoto? Já Rimbaud, o nómada, e Pessoa, o sedentário, dão sempre um jeitão para a prosa.

Prosa essa que cansa. Tal o número de repetições de significados que nunca mais acabam, mais parece que estamos a jogar ao jogo dos sinónimos. Sejam eles adjectivos, substantivos ou verbos, a coisa não pára. Se Onfray pensa que produzir equivalências linguísticas tornando-as autênticos mantras tem como fim sublinhar uma determinada ideia, está redondamente enganado. Produzem quanto muito um longo bocejo. E a tradução de Sandra Silva é boa, portanto é mesmo a escrita do autor.

A leitura deste pequeno livro permite-nos descobrir que Deus estava enganado. Começa logo no Antigo Testamento quando Caim, o sedentário, mata Abel o pastor nómada (seria mesmo nómada?). Porquê? Bom, Onfray aqui hesita, mas dizendo que ninguém o sabe, avança com a hipótese de ciúmes de Caim por causa da preferência Dele por Abel. Seja! O que Onfray nos apresenta, duas páginas após esta hipótese, é que o Todo-Poderoso muda de agulha no Novo Testamento quando Cristo sobe ao Golgotá e um «larápio» (que era nómada pela certa!) Lhe nega água. A partir daqui e «Desde então, associa-se a viagem sem retorno à vontade punitiva de Deus. A ausência de casa, de terra e de solo pressupõe, doravante, uma falta um mal infligido a Deus. O esquema paira sobre os homens há séculos: os judeus, os ciganos, os roms, os boémios, os zíngaros e todos os povos viajantes sabem que, num momento ou noutro, os desejaram condenar ao sedentarismo, chegando mesmo a negar-lhes o direito à vida». Mas então em que ficamos? Deus é ele próprio a favor do sedentário ou do nómada? É que 2500 anos de intervalo entre o Antigo e o Novo Testamento não é coisa para Deus mudar assim de opinião!

Já nos verdadeiros conselhos de autoajuda que MIchel Onfray nos dá (podia ser running ou gastronomia, coisa a que ele se dedicou igualmente) para nós, viajantes e não meros turistas, é que toda a viagem começa numa biblioteca. De acordo. Mas com quem? Diz Onfray: «Sozinhos ou em grupo, a alternativa não é muito animadora». Então como? «(…) penso que viajar a dois ilustra uma fórmula romana, pois permite uma amizade construída, que cresce dia após dia, pouco a pouco». Óptimo! Portanto, com a minha parceira ou parceiro com quem vivo todos os dias? «O nosso Ocidente cristianizado não aprecia a amizade (…). Para além disso, a moda burguesa do casamento por amor torna caduco este exercício pagão: no seio do casal exige-se que o outro represente dali em diante uma série de papéis afectivos, inclusive o de confidente e companheiro». Portanto, tudo bem desde que fora do casamento procurando a tal «amizade romana». Entendo-te, ó Michel! «Viajar a dois permite deixar à distância os indesejáveis, bem como escolher os indivíduos eleitos. A viagem a dois poupa-nos aos perigos de ser apenas um e aos inconvenientes de vários». E o filósofo continua a ensinar-nos numa pedagogia um pouco difícil de pôr em prática, passe o eufemismo. «Numa viagem digna desse nome, o amor ficaria exposto, fragilizado. Por exemplo, a relação com o outro sexo fica distorcida ou interdita na sua espontaneidade durante uma viagem romântica. As possibilidades de conhecer livremente as mulheres de um país, para falar, rir, discutir, brincar, sem estar forçosamente preocupado com uma aventura sexual, é estorvada pela presença da esposa (já entendemos há muito, Michel!), companheira ou namorada. Do mesmo modo, as mulheres são prejudicadas nas suas relações com os homens autóctones devido à presença dos maridos, esposos ou companheiros (lá vêm os sinónimos!)». Conclusão: «Partir com o amigo oferece a certeza de prazeres diamantinos». E eu a pensar que eram romanos!

Mas o amor que o homem tem pelo avião ultrapassa tudo, até Howard Hughes, Lindbergh ou Saint-Exupéry! «Saber-se homem na carlinga deste instrumento transformado em energia e em velocidade metamorfoseia certamente mais a alma do que a leitura dos Evangelhos». Ah, Marinetti (ele também o cita, lá para trás)! O elogio do avião começa na página 66 e só acaba na 72. Bem que as companhias aéreas precisam disto, no tempo das maiores crises sobre as ditas. Mas não pensem que ele não casca nos lerdos: «Um elogio reaccionário da lentidão impele ao elogio da nostalgia, a acalentar a simples paixão pelas recordações e a cultivar a angústia face ao futuro». Eu até que já tinha reparado nisso, mas as limitações do passado sem aviões? «Montaigne ia a cavalo, Rimbaud a pé, Morand de barco, Cendrars de comboio, Bouvier de carro, Chatwin de avião, mas ninguém impede Kenneth White ou Guido Cerronetti de andarem a pé, nem mesmo Théodore Monod de optar pelo camelo…». Isto vai tudo numa questão de escolha do freguês.

No fim da viagem a memória e vamos a um banho de repetições de que vos falava há linhas atrás: «A memória trabalha-se exercita-se, solicita-se, deseja-se, caso contrário, definha, morre, seca, dobra-se sobre si própria, transformando-se por fim numa concha vazia, num ser oco. A imprensa, a gravura, a fotografia, o cinema, o gravador, a calculadora e o computador aumentam as memórias artificiais, sem dúvida (…)» Uff!

E no final a lágrima no olho: «Basta sentirmo-nos nómadas uma vez para sabermos que voltaremos a partir, que a última viagem não será a derradeira. A não ser que a morte nos surpreenda pelo caminho…»

Para um filósofo não está mal. Realizaremos tudo se a morte não nos surpreenda pelo caminho!

António Luís Catarino
Coimbra, 8 de julho de 2020