domingo, maio 10, 2026

"Os Costumes do País", Edith Wharton

 

Relógio D'Água, 2025. Tradução de Frederico Pedreira 
Inquestionavelmente, Edith Wharton é uma boa escritora se a compararmos a muitos que marcaram uma época onde a densidade psicológica das personagens, o conhecimento da sociedade em que estavam imbuídos e o realismo das descrições faziam parte de uma técnica narrativa que marcou um longo tempo. Alguns pensamentos ocorreram-me enquanto lia "Os Costumes do País", editado em 1913: o padrão de comportamento da sociedade americana que explica muito do que vemos hoje nas chamadas elites ricas e incultas («uma aristocracia formada por uma revolução», segundo palavras da autora), a completa inutilidade e futilidade dos  seus membros, mas proporcionais ao dinheiro que ganham e estouram em ascensões e falências épicas, a capacidade de serem, verdadeiramente, pessoas más e a comparação que poderemos, em modo de fábula certeira, atribuir ao gosto que as hienas têm de devorar, sempre insaciadas, os cadáveres que lhes vão caindo à sua frente, provocados ou não por elas, sabendo, simultaneamente, que os seus bandos são chefiado por fêmeas alfa. Nesse particular, percebe-se que este livro foi escrito por uma mulher que conhecia, ao pormenor, as sociedades de privilegiados americana e europeia, do início do século XX, como ninguém, e que foi implacável através da transmissão das suas impressões em retratos vivos; como, aliás, nos explica Claire Messud num prefácio em que não está isento de arreliadores "spoilers" que poderiam ser facilmente evitados. 

alc

segunda-feira, maio 04, 2026

"Ludwig Wittgenstein. Filosofia na Era dos Aviões", Anthony Gottlieb

 

Edições 70, 2025. Tradução de Jorge Melícias
Engenheiro aeronáutico, arquitecto, matemático, professor primário em longínquas aldeias austríacas, soldado no exército austro-húngaro e feito prisioneiro pelos italianos na I Guerra, músico e melómano, Ludwig Wittgenstein foi igualmente um filósofo, que, neste livro, é revelado nos seus aspectos mais particulares, acompanhando a sua vida e as suas ideias sobre os problemas da linguagem e da incompreensão e equívocos que ela produz, nomeadamente no campo da filosofia. O livro é muito interessante, não só pela honestidade, como pela trabalho investigativo realizado, quer em Viena, quer em Oxford e Cambridge. O trabalho de pesquisa epistolar também é de realçar porque exibe, com verosimilhança, os diversos combates que travou com outros filósofos e a evolução registada no seu pensamento que divergiu no final da sua vida dos escritos que elaborou quando se encontrava na casa dos vinte ou trinta anos. Essa divergência não residia só na questão da linguagem, mas igualmente na separação que ele imprimiu face à Ciência e à Filosofia; para ele, toda a problemática filosófica era essencialmente um problema de interpretação linguística, de linguagem, pelo que ultrapassada que fosse, por mera hipótese, essa barreira não existiria, por si, qualquer problema que a filosofia devesse debruçar-se. Escreve Anthony Gottlieb, autor deste livro, na pág.86:

«(...) Wittgenstein afirmava que aquilo que os filósofos tinham tentado dizer a respeito da ética e do sentido da vida se encontra no âmbito daquilo que se mostra, mas que não pode ser dito: ''Existe, de facto, o inefável. Ele mostra-se; é o místico.'' Os filósofos têm andado a tentar dizer o indizível. Daí a famosa injunção final do Tractacus: ''Do que não se pode falar, deve-se guardar silêncio.''» e o autor continua com as suas impressões: «Alguns dos comentários que Wittgenstein teceu sobre pessoas e livros sugerem que ele estimava muito mais aquilo que era manifestado discretamente do que aquilo ostentado abertamente ou explicitamente declarado.» O que me faz pensar que muito do que escreveu o filósofo, nomeadamente sobre este último tema da inefabilidade, tem logicamente referência na poesia o que se pode constatar com uma afirmação de Wittgenstein sobre um poema de Ludwig Uhland de que ele gostou: «A verdade é esta: se não tentarmos exprimir o inexprimível, então, pelo menos, nada se perde. Mas o inexprimível estará - de modo inexprimível - contido no que foi exprimido!» No entanto, foi referido atrás que o filósofo, já no final da sua vida (ele morre em 1951), terá esbatido um pouco a «impossibilidade» de exprimir por palavras um pensamento, tornando-se, quando exposto, um problema de lógica e não de filosofia; como se pode ver pela afirmação de que as palavras não têm significado «senão no fluxo da vida».

Juntamente com estas considerações que levaram a uma vida dedicada essencialmente à Filosofia, esta biografia apresenta-nos um Wittgenstein, filho de um riquíssimo industrial austríaco que foi ridicularizado por Karl Kraus, mas a quem não escondeu grande admiração e seguia o seu jornal, pensando até em publicar os seus primeiros escritos em Viena com o seu editor, o que não veio a verificar-se. A relação familiar foi algo distante, tendo quatro dos seus oito irmãos cometido suicídio; também renunciou à enorme fortuna dos seus pais e teve, juntamente com as suas irmãs e o irmão Paul Wittgenstein (um pianista muito conhecido), negociado com os nazis o seu exílio, devido a origens judias na família o que prova a enorme riqueza da família que estava a salvo em bancos suíços. O seu irmão Paul, depois desta estranha negociação encabeçada pela sua irmã mais velha, não mais teve relações com a família e com Ludwig. Também esta biografia recorda, com algum pormenor, os contactos havidos com Bertrand Russell e Keynes, tal como o encontro com Karl Popper que foi publicamente explosivo, mas outros houve, talvez menos sonantes, mas não menos importantes para o seu percurso e para o desenvolvimento das suas ideias expostas em «Investigações Filosóficas» publicada um ano após a sua morte.

Questão interessante que aqui relevo é o registo sobre o que é que seria, para Wittgenstein, a relação entre ética, moral e obra de um criador: «Um livro deve ser julgado não apenas por critérios estéticos impessoais, mas deverá igualmente sê-lo à luz do carácter do seu autor, tal como se manifesta na obra. Ludwig inclinava-se a ver as obras literárias e filosóficas dessa forma. Se um autor não tivesse capacidade de se conhecer a si mesmo, ou se não fosse alma decente ou se não escrevesse com o coração, Ludwig fazia questão de chamar a atenção para isso.» (pág.53) 

alc