terça-feira, maio 26, 2026

"ABC da Leitura", Ezra Pound

 


Maldoror, 2025. Traduções de António Cabrita e de Zetho da Cunha Gonçalves (poemas). 
Ainda me vejo a pensar por que razão este tipo foi fascista, quebra-cabeças insolúvel a que volto sempre. A verdade é que pagou caro essa aventura permanecendo 12 anos, após a II Guerra Mundial, num hospício americano. Até morrer sozinho e esquecido, como Céline. Robert Brasillach, Paul Chack ou Drieu La Rochelle (suicídio antes do julgamento) tiveram menos sorte, como sabemos. Se existissem escritores e intelectuais fascistas portugueses (embora paulatinamente venham a pastorear as universidades e os media) seria muito bom que tomassem conhecimento destes tão tristes, como exultantes, acontecimentos. Terríveis, mas fruto das circunstâncias da História. O que separa os fascistas de ontem dos de hoje? Penosamente, me atrevo a dizer: faltam-lhes, hoje, aos neofascistas, os livros, o pensamento (por mais abjecto que seja) e as massas. 

Já não é a primeira vez que escrevo sobre Ezra Pound, sendo que me interessei muito sobre o seu ensaio «Camões», editado pela Fenda e pelos seus «Os Cantos». Ali, pode entender-se que não se sente muito entusiasmo pelo poeta épico, exceptuando o Canto III de «Os Lusíadas», aquele que narra as vicissitudes da formosa Inês, que, segundo Pound, aproxima Camões de um lirismo poeticamente mais aceitável. De resto, Camões ainda merece algum respeito afirmando que ele tem um «estilo resplandecente e bombástico - que por vezes é poesia» (!!), embora Virgílio, Milton ou Spencer sejam completamente desancados por Ezra Pound. Neste «ABC da Leitura», que é um seguimento de «Como Ler», pensa-se que serviriam como auxiliares para as suas aulas tal é o modo como são estruturados e podemos ler, a título de exemplo, o seguinte diálogo imaginado:

«Um simples marinheiro decidiu estudar latim. O professor tentou que lesse Virgílio; depois de um número considerável de lições, perguntou-lhe algo sobre o herói.
    - Que herói - perguntou o marinheiro.
    - Que herói? Eneias, claro, Eneias é o herói - respondeu o professor.
    - Ah, um herói, ele é o herói? Julgava que era um padre - replicou o marinheiro.» (pág.42)

Em poucas palavras e com uma simples anedota, Virgílio é ridicularizado desta maneira por uma marinheiro (de Coleridge?). Mas Ezra Pound põe-nos de sobreaviso acerca deste «ABC da Leitura» quando reconhece que «estamos muito longe de um ABC. Na verdade, alarga o panorama para estudos de pós-graduação.» (pág.89), Se atentarmos para a segunda parte do livro e para alguns trechos da primeira parte somos obrigados a reconhecer como um acertado aviso. Mas o que é interessante em Pound é que se afasta, com determinação, da postura académica com que os estudos sobre literatura são formatados ainda hoje. 

Quando se fala da sua infeliz escolha política durante a II Guerra Mundial, esta torna-se relevante quanto Ezra Pound pertenceu e fundou movimentos que trouxeram com eles o melhor que a modernidade (conceito que não me é muito caro) deu: são eles o movimento Imagista e o Vorticismo ainda durante o período da I Guerra e logo depois («A imagem não é uma ideia. É um nó ou um enxame radiante; é o que posso, e necessariamente devo, chamar um Vortex, do qual, e através do qual, as ideias constantemente se precipitam»). Mas compreendemo-lo melhor se repararmos nas questões que levanta sobre o uso das palavras, os «elementos puros da literatura»: «Os bons escritores são aqueles que mantêm a eficiência da linguagem, i.e., aqueles que conservam a precisão e a clareza. Importa pouco que um bom escritor queira ser útil, ou que o mau escritor atente apenas em fazer mal. (...) A linguagem nebulosa das classes fraudulentas só está ao serviço de objectivos temporários.» (pág.29) Este despojamento de adjectivos inúteis ou de gongorismos que Pound detesta levou-o ao estudo da língua e escrita chinesas e japonesas (ele era um verdadeiro poliglota e também deu aulas de grego e latim na Pensilvânia e em Londres) debruçando-se sobre a relação entre o símbolo e o desenho, tal como a imagem (fanopeia), a melodia e o ritmo na poesia (melopeia) e a junção destes dois conceitos na logopeia. O estudo profundo que Pound realizou com a escrita chinesa e a língua grega (principlamente com Homero da Ilíada) levou-o a afirmar:

«Não obstante, o máximo de fanopeia (projecção de uma imagem visual na mente do leitor) foi sem dúvida alcançado pelos chineses, em parte devido ao seu sistema de escrita particular.
Nas línguas que conheço (o que exclui a persa e a árabe) o máximo de melopeia foi atingido pelos gregos; sublinhem-se também certos desenvolvimentos no provençal que não se encontram no grego, e que configuram um tipo distinto da do grego.» (pág.40) Digno de nota é o seu interesse pela poesia provençal, pela melopeia, facto que não quer afastar da poesia. 

Este livro é claramente um amigo do leitor, mesmo que por vezes o seu papel seja convenientemente posto em causa por outros motivos que não seja o do acto solitário de ler: 

«O conceito de genialidade como parente da loucura foi cuidadosamente alimentado pelo complexo de inferioridade do público.» (pág.80)

O que não significa que a genialidade, se quisermos utilizar o termo para um bom poeta, não tenha que seguir algumas normas bem explanadas neste «ABC da Leitura». É uma das razões que me levam a afastar-me irremediavelmente de alguns poetas de hoje que da técnica fizeram letra morta. Esta dita verdade, fez com que um Ezra Pound que contactou com o movimento dadaísta, que fundou o Imagismo e o Vorticismo, este com Whyndham Lewis (há um livro da Deriva sobre eles), não tenha descurado a importância da métrica, da composição do soneto e do verso jâmbico, da poesia provençal e dos poemas chineses e japoneses, dos poemas medievais da imagem e do som, do ritmo e da harmonia, fosse ela melódica ou decomposta. É este o tema da segunda parte de «ABC da Leitura» e, subitamente, vemo-nos a dividir a métrica de um Chaucer na sua língua original, de um soneto de Shakespeare, de um Pope, de um Browning, de um Crabbe ou de um Rimbaud, entre muitos outros que Pound aqui nos traz. Tudo na versão original ou na tradução dos poemas para português por António Cabrita e Zetho da Cunha Gonçalves de quem não gostaria de estar na pele, acreditem, tal o trabalho a que foram sujeitos!

«A má poesia é idêntica em todas as línguas. O que os chineses chamam a ''poesia pó-de-arroz'' pouco difere do que na Europa se chamava a ''arte de Petrarquisar''.» (pág.194) ou ainda:
«São mais os escritores que fracassam por falta de carácter do que por falta de inteligência. A solidez técnica não se alcança sem pelo menos alguma persistência.» (pág.222)

São estas as duas últimas frases em forma de aforismos que vos ofereço deste livro que consideraria imprescindível se houvesse ainda alguma hipótese de exercer influência para uma bibliografia honesta de um curso de crítica textual ou simplesmente de literatura.

Ezra Pound morre em Veneza, em 1972.

alc

segunda-feira, maio 25, 2026

«O Novo Niilismo», Peter Lamborn Wilson


Barco Bêbado, 2022. Tradução e notas de Joana Jacinto
Em 2022, quando este livro da Barco Bêbado foi publicado interessei-me por ele. Já conhecia relativamente bem o seu autor, que também utiliza o pseudónimo de Hakim Bey, visto que em 2012 editei o seu «Utopias Piratas» pela Deriva. Com tradução de Joana Jacinto e um «ensaio visual» de Vasco Barata «O Novo Niilismo» passou relativamente despercebido e foi pena que assim fosse. Nessa ocasião, há quatro anos apenas, escrevi isto:

«Este livrinho parece, contudo, um desabafo em forma de manifesto que Peter Lamborn Wilson não esconde no seu início; logo depois, coloca toda a esquerda (e mesmo os próprios libertários) e as suas práticas políticas e sociais em causa. O desânimo e o desinteresse sobre todas as todas as coisas levou muita gente boa a afastar-se do activismo que se consubstanciou, por exemplo, no movimento Occupy. Num mundo cuja catástrofe já se iniciou e que se vai agravar cada dia que passa propõe-nos três caminhos alternativos, enfatizando a criação de TAZ (acrónimo de Temporary Autonomous Zones) que são, com algumas pequenas diferenças, as ZAD europeias que têm tido algum êxito no combate à prepotência do Estado, mais concretamente o do francês.

Também o neo-primitivismo de Paul Goodman, entre outros, é colocado em destaque, desencadeando interesse no debate em torno da questão do survivalismo que Wilson realça. O neo-niilismo reside precisamente nas possibilidades reais de sobreviver ao caos que se instala e que o capitalismo espoletou. Um livro importante que pode ser uma alavanca de debates em espaços alternativos. Seria bom que o discutíssemos colectivamente.»

Hoje, trago-o por outro aspecto que acho importante referir como nota de rodapé, quase a única hipótese de a blogosfera e as redes sociais assim a aceitarem e divulgarem. A recomposição da esquerda é necessária quando se esconde um mau diagnóstico de sobrevivência pressentido pelas pessoas que exigem um mundo completamente novo. Aqui reside a esperança e ao mesmo tempo a desilusão, principalmente por aqueles que nem sequer querem ouvir a palavra «recomposição». Esses, continuam emparedados entre as fórmulas já gastas que, no último quarto do século vinte, deram provas da sua completa inutilidade. O século XXI não lhes deu melhores hipóteses de renascerem das cinzas, enquanto que milhões de seres exigiam nas ruas dos diversos países capitalistas e autoritários uma nova vida. Peter Lamborn Wilson descreve essas derrotas, nomeadamente das lutas massivas da Occupy, dos confrontos de Seattle e das formações, mais localizadas, das ZAD que teimam em sobreviver pata além do mercado. Grande parte dessas lutas anticapitalistas transitaram para os combates contra a extrema-direita nos países que lhe estão a oferecer as vitórias eleitorais e por uma Palestina livre. Sendo objectivos impossíveis de contornar, são manifestamente recuados como finalidade transformadora.

Não é necessário estar de acordo com Peter Lamborn Wilson e com as teorias apocalípticas, que advogam ou diagnosticam um novo niilismo. Ele existe com maior acuidade e permanece ao nosso lado; digamos, antes, que estas enformam e invadem a esquerda quando esta atinge um grau de divórcio insanável entre as direcções dos movimentos e partidos com a sua identificação social de base. Não necessitamos de um Armagedão para a reconstrução de uma nova sociedade. Necessitamos de uma destruição selectiva de todas as teias do capitalismo e da sobrevida a que estamos sujeitos porque, senão for assim, o sistema levar-nos-á a um patamar indescritível de escravatura e alienação. Assim dito parece-nos demasiado básico, mas olhe-se com atenção para a Filosofia, para a Arte, para a Literatura, e para a Ciência da nossa época e ver-se-á quão básicas estas disciplinas se tornaram ou, pior, tornaram-se devedoras de uma agenda clara de subserviência de mercado. A política, essa, tornou-se inenarrável com a corrupção e a matança a tomar lugar do que antes ainda existia de função social do estado. Paradoxalmente, não é necessário ser-se revolucionário para aceitar historicamente a revolução como uma saída lógica para quando tudo falha, sendo que este «tudo» inclui as direcções das esquerdas que se multiplicam em soluções áridas, de um populismo completamente absurdo ou de uma economia planificada baseada num crescimento contínuo e de destruição ambiental ou, ainda, de uma política eleitoral que produz simulacros de democracia, quando o que se exige é uma sociedade total e socialmente participada. 

alc

quinta-feira, maio 21, 2026

"Revisitar os Clássicos", Kenneth Rexroth

 

Antígona, 2020. Tradução de Maria João da Rocha Afonso
Há quem faça listas de livros com o prazer de sistematizar o seu gosto pessoal, sempre subjectivo, ou de tentar encontrar um padrão, uma lógica para o que terá lido ou venha a sentir necessidade de ler. Ou, ainda, de tentar uma veia de proselitismo, mais presunçoso do que pedagógico. Seja o que for, sentimos necessidade de nos identificar, ou não, com o rol de escritos e autores que povoam uma listagem dos chamados «clássicos». Kenneth Rexroth foi um poeta americano da onda «beat» que privou com Kerouac, Ginsberg ou Ferlinghetti e que publicou este livro em 1965. Pelo que entendi, estaria à procura de editora para publicar a sequela deste «Revisitar os Clássicos», mas eram tantos nomes que dificilmente, nos anos 60, conseguiria vê-la à luz do dia. Pressente-se o seu budismo e espiritualismo nas escolhas que faz, o que não deixa de ser interessante verificar, embora não enjeite o materialismo como o faz com os iluministas do século XVIII, com quem, aliás, antipatiza com algum pudor.

Tenho a certeza que uma listagem de clássicos, elaborada nos anos 60 do século XX, seria forçosamente diferente das que hoje poderíamos fazer, visto que reflectiria obrigatoriamente a época e os acontecimentos que tiveram lugar. O que nos diz mais dessa época do que as análises que a enformam. O seu budismo leva-o a escrever textos curtos e de algum modo belos sobre, por exemplo, «A Epopeia de Gilgamesh», «Beowulf», «O Livro de Job», «Kalevala» ou «Mahabharata» ou mostrar a sua evidente adesão, e até entusiasmo literário, para com a poesia chinesa e japonesa, os haikus e, singularmente, para com o poeta Du Fu, cuja leitura «o fez ser melhor pessoa». 

Com a literatura clássica greco-latina, Kenneth Rexroth é mais cuidadoso nas escolhas: não se limita a mostrar o que é tido como destacável, mas igualmente o que não o sendo mereceria uma relevância especial. Safo, a «Ilíada» e os «Pensamentos» de Marco Aurélio ou a «História de Roma» de Tito Lívio sobressaem comparativamente a um César da «Guerra das Gálias» ou perante um Heródoto, Tucídides, ou mesmo um Petrónio de «Satyricon» e Apuleio, com quem, por alguns motivos expostos nas recensões, sente algum afastamento.

Os nomes e as obras fluem com interesse crescente e ficamos surpreendidos com a entrega entusiasmante que o poeta mostra possuir perante a obra de um Cervantes, de um Rabelais, de um Shakespeare, de um Laurence Sterne ou de um Stendhal. Como poeta ele não poderia deixar de citar Baudelaire, Whitman e principalmente Rimbaud, quase impossível de não serem antologiados nos dias de hoje. Nos anos 60, ainda mais, suponho. Para com a literatura reserva alguma contenção para com Dostoiévski, mas glorificando Tolstói no seu «Guerra e Paz».

Não cometo nenhuma inconfidência despropositada, ou «spoiler», visto que são 61 entradas dos «clássicos» arrolados por Kenneth Rexroth e aqui só refiro algumas, mas deixo duas ou três impressões que registo com um interesse que me despertou a leitura de «Revisitar os Clássicos». Uma, a referência à frase de Tolstói, numa rara entrevista, quando afirmou que «as pessoas felizes não têm história», outra, à profecia de Whitman sobre o apocalipse americano com que Rexroth se revia; dizia aquele poeta do século XIX que o mutualismo, libertarianismo e as comunidades saintsimonianas e prodhounianas, com que a América tinha sido criada haveria de levar o país a uma era de ouro milenarista. Uma autêntica libertação democrática protagonizada pelos intelectuais americanos no poder antes da guerra civil. Penso que a morte foi um bem para Tocqueville, para Whitman e para Rexroth para os impedirem de ver no que a América se tornou hoje! Finalmente, termino as impressões quando este escolheu Marx e o «Manifesto» como um clássico e fez muito bem. Em 1965, após 100 anos de estudo e divulgação à escala planetária não haveria como fugir-lhe, mas dizer que o manifesto estava errado nas suas premissas, por que teria terminado (nos anos 60) a época do «laissez faire, laissez passer», ou seja, o liberalismo, porque o estado era responsável pelas estruturas económicas e sociais e o factor «alienação» já não se fazia sentir, enfim, foi um pouco arriscado. Lembro-me de Fukuyama e do seu «fim da história», mas muito menos grave. Porque há qualquer coisa de simpático, de generoso e ao mesmo tempo de ingénuo neste «Revisitar os Clássicos» que outras antologias estão a milhas de o conseguir.

alc

domingo, maio 10, 2026

"Os Costumes do País", Edith Wharton

 

Relógio D'Água, 2025. Tradução de Frederico Pedreira 
Inquestionavelmente, Edith Wharton é uma boa escritora se a compararmos a muitos que marcaram uma época onde a densidade psicológica das personagens, o conhecimento da sociedade em que estavam imbuídos e o realismo das descrições faziam parte de uma técnica narrativa que marcou um longo tempo. Alguns pensamentos ocorreram-me enquanto lia "Os Costumes do País", editado em 1913: o padrão de comportamento da sociedade americana que explica muito do que vemos hoje nas chamadas elites ricas e incultas («uma aristocracia formada por uma revolução», segundo palavras da autora), a completa inutilidade e futilidade dos  seus membros, mas proporcionais ao dinheiro que ganham e estouram em ascensões e falências épicas, a capacidade de serem, verdadeiramente, pessoas más e a comparação que poderemos, em modo de fábula certeira, atribuir ao gosto que as hienas têm de devorar, sempre insaciadas, os cadáveres que lhes vão caindo à sua frente, provocados ou não por elas, sabendo, simultaneamente, que os seus bandos são chefiado por fêmeas alfa. Nesse particular, percebe-se que este livro foi escrito por uma mulher que conhecia, ao pormenor, as sociedades de privilegiados americana e europeia, do início do século XX, como ninguém, e que foi implacável através da transmissão das suas impressões em retratos vivos; como, aliás, nos explica Claire Messud num prefácio em que não está isento de arreliadores "spoilers" que poderiam ser facilmente evitados. 

alc

segunda-feira, maio 04, 2026

"Ludwig Wittgenstein. Filosofia na Era dos Aviões", Anthony Gottlieb

 

Edições 70, 2025. Tradução de Jorge Melícias
Engenheiro aeronáutico, arquitecto, matemático, professor primário em longínquas aldeias austríacas, soldado no exército austro-húngaro e feito prisioneiro pelos italianos na I Guerra, músico e melómano, Ludwig Wittgenstein foi igualmente um filósofo, que, neste livro, é revelado nos seus aspectos mais particulares, acompanhando a sua vida e as suas ideias sobre os problemas da linguagem e da incompreensão e equívocos que ela produz, nomeadamente no campo da filosofia. O livro é muito interessante, não só pela honestidade, como pela trabalho investigativo realizado, quer em Viena, quer em Oxford e Cambridge. O trabalho de pesquisa epistolar também é de realçar porque exibe, com verosimilhança, os diversos combates que travou com outros filósofos e a evolução registada no seu pensamento que divergiu no final da sua vida dos escritos que elaborou quando se encontrava na casa dos vinte ou trinta anos. Essa divergência não residia só na questão da linguagem, mas igualmente na separação que ele imprimiu face à Ciência e à Filosofia; para ele, toda a problemática filosófica era essencialmente um problema de interpretação linguística, de linguagem, pelo que ultrapassada que fosse, por mera hipótese, essa barreira não existiria, por si, qualquer problema que a filosofia devesse debruçar-se. Escreve Anthony Gottlieb, autor deste livro, na pág.86:

«(...) Wittgenstein afirmava que aquilo que os filósofos tinham tentado dizer a respeito da ética e do sentido da vida se encontra no âmbito daquilo que se mostra, mas que não pode ser dito: ''Existe, de facto, o inefável. Ele mostra-se; é o místico.'' Os filósofos têm andado a tentar dizer o indizível. Daí a famosa injunção final do Tractacus: ''Do que não se pode falar, deve-se guardar silêncio.''» e o autor continua com as suas impressões: «Alguns dos comentários que Wittgenstein teceu sobre pessoas e livros sugerem que ele estimava muito mais aquilo que era manifestado discretamente do que aquilo ostentado abertamente ou explicitamente declarado.» O que me faz pensar que muito do que escreveu o filósofo, nomeadamente sobre este último tema da inefabilidade, tem logicamente referência na poesia o que se pode constatar com uma afirmação de Wittgenstein sobre um poema de Ludwig Uhland de que ele gostou: «A verdade é esta: se não tentarmos exprimir o inexprimível, então, pelo menos, nada se perde. Mas o inexprimível estará - de modo inexprimível - contido no que foi exprimido!» No entanto, foi referido atrás que o filósofo, já no final da sua vida (ele morre em 1951), terá esbatido um pouco a «impossibilidade» de exprimir por palavras um pensamento, tornando-se, quando exposto, um problema de lógica e não de filosofia; como se pode ver pela afirmação de que as palavras não têm significado «senão no fluxo da vida».

Juntamente com estas considerações que levaram a uma vida dedicada essencialmente à Filosofia, esta biografia apresenta-nos um Wittgenstein, filho de um riquíssimo industrial austríaco que foi ridicularizado por Karl Kraus, mas a quem não escondeu grande admiração e seguia o seu jornal, pensando até em publicar os seus primeiros escritos em Viena com o seu editor, o que não veio a verificar-se. A relação familiar foi algo distante, tendo quatro dos seus oito irmãos cometido suicídio; também renunciou à enorme fortuna dos seus pais e teve, juntamente com as suas irmãs e o irmão Paul Wittgenstein (um pianista muito conhecido), negociado com os nazis o seu exílio, devido a origens judias na família o que prova a enorme riqueza da família que estava a salvo em bancos suíços. O seu irmão Paul, depois desta estranha negociação encabeçada pela sua irmã mais velha, não mais teve relações com a família e com Ludwig. Também esta biografia recorda, com algum pormenor, os contactos havidos com Bertrand Russell e Keynes, tal como o encontro com Karl Popper que foi publicamente explosivo, mas outros houve, talvez menos sonantes, mas não menos importantes para o seu percurso e para o desenvolvimento das suas ideias expostas em «Investigações Filosóficas» publicada um ano após a sua morte.

Questão interessante que aqui relevo é o registo sobre o que é que seria, para Wittgenstein, a relação entre ética, moral e obra de um criador: «Um livro deve ser julgado não apenas por critérios estéticos impessoais, mas deverá igualmente sê-lo à luz do carácter do seu autor, tal como se manifesta na obra. Ludwig inclinava-se a ver as obras literárias e filosóficas dessa forma. Se um autor não tivesse capacidade de se conhecer a si mesmo, ou se não fosse alma decente ou se não escrevesse com o coração, Ludwig fazia questão de chamar a atenção para isso.» (pág.53) 

alc