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quarta-feira, março 27, 2024

«Há mundo por vir?», de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro

 

Antígona,2023, grafia brasileira, ilustração da capa de Gonçalo Duarte
Livro mais que necessário para ficarmos a conhecer as diversas correntes de pensamento e acção dos que esperam o apocalipse climático anunciado, os que pensam ainda poder evitá-lo, os «aceleracionistas» de esquerda que, culpando o capitalismo, querem o seu fim desejando simultaneamente uma nova ordem climática, ecológica e social, os «singularistas» defensores do capitalismo verde e das grandes multinacionais como a Google, Amazon, o troglodita do Musk e quejandos, mais (não poderia deixar de ser) os negacionistas que tentam negar tudo acertando na única coisa de que são realmente bons: provarem que são negacionistas até para eles próprios, erradicando todo e qualquer laivo de pensamento estruturado nos seus cérebros. De qualquer maneira estamos todos lixados. O relógio do apocalipse aí está a meros dois segundos do fim. Os «sobrevivalistas» de todos os matizes da extrema-direita americana aos anarquistas, outro dos ramos, já não estão nesta discussão. Abrem o canivete suíço, o isqueiro enquanto tiver gás, constroem uma cabana de ramos de eucalipto e aí estão eles na caça e pesca pelas montanhas. Acho muito bem, sabendo que os ursos, lobos e águias lhes podem fazer a folha em menos de um minuto. É a natureza, estúpido!

Depois, vem a ainda presente polémica sobre o Antropoceno. Que sim, pois se ele existe, continuará depois de nós. Foi o nosso legado. Mas sendo assim, não haverá ninguém para o dizer ou proclamá-lo porque estaremos todos mortos sem sepultura. Ficará o betão armado por mais uns largos anos, e o urânio das centrais a aniquilarem os animais e aves que se aproximarem das grandes chaminés de arrefecimento. O resto, talvez alcatrão, a ferrugem do que foram automóveis, as baterias a escorrerem líquidos corrosivos, minas das guerras passadas a explodirem quando ratos (os sobreviventes) lhes passarem por cima e a Torre de Belém no canto de um país esquisito que durante uns míseros 900 anos (uns nanossegundos do Holoceno e do Antropoceno) se armou aos cucos e não deixou rigorosamente nada a não ser um montão de ruínas com que se deu sempre bem.

Nada mau para uma leitura de páscoa. Imprescindível para as outras partes do ano.

segunda-feira, março 18, 2024

«O Princípio de Tudo - Uma nova História da Humanidade», David Graeber e David Wengrow

 

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício
É mesmo uma perspectiva original. Aqui não há embustes com o adjectivo «novo» que muitos autores utilizam para vender o seu produto, muitas vezes com hipóteses mal construídas ou sem verificação científica. David Graeber (1961-2020), juntamente com David Wengrow, apresentam-nos um livro tão consistente quanto interessante de se ler. As questões formuladas variam quer no grau de provocação académica no campo da Antropologia e na História, quer na inteligência viva como são apresentadas. Muitas delas são óbvias e, por isso mesmo, desconcertantes. Por exemplo: a História tendo teimado durante tanto tempo na cronologia evolucionista, isto é, do Paleolítico ao Neolítico e das «civilizações» urbanas e teocráticas à Idade Clássica, desta aos Impérios, seguindo-se depois as conhecidas «idades», não se limitou a criar compartimentos estanques que «esqueceram» períodos intermédios de séculos, se não mesmo de milénios, em que, faltando registos escritos ou arqueológicos, foram arrumados numa espécie de «idades das trevas», mas provavelmente tão ricas sociológica e politicamente como as que foram estudadas mais profundamente? Isto dar-se-ia essencialmente naquilo a que chamamos de Pré-História. A velha sequência de caçadores recolectores, logo nomadismo, agricultores, logo sedentarismo, criação de cidades, logo hierarquias políticas e aparecimento de estados teocráticos, não será demasiado simplista? E se nada disto se tivesse passado e as estruturas socias do nomadismo conviveram amiúde com o sedentarismo que nunca o terá sido verdadeiramente? E se os nómadas recolectores a que vulgarmente associamos a sociedades «igualitárias» não o fossem tanto assim, nem os primeiros agricultores permanecessem em sociedades «desiguais»? E se se complementassem em sociedades onde o predomínio da recolecção fosse de algum modo complementado com uma agricultura «a brincar»? Isto durante milénios, não vendo a humanidade qualquer vantagem numa agricultura intensiva. E se, nas grandes cidades como Uruk ou Çatal Hüyük, no chamado Crescente Fértil, houvesse menos desigualdade quanto imaginamos hoje ou que o poder sacerdotal e político convivesse com grandes assembleias populares e organizações de bairro, tornando os primeiros uma espécie de poder teatral? E se a agricultura não teve origem só no Crescente Fértil, mas ao mesmo tempo, ou até muito antes, em cidades maiores na Ucrânia e na América Central?  E se as sociedades primitivas fossem de facto igualitárias, com chefes que não eram obedecidos ou só o fossem em caso de guerra? E se os filósofos iluministas tivessem tido conhecimento destas sociedades igualitárias nomeadamente as das Cinco Nações índias que iam do Québec e Ontário ao que é hoje St. Louis e Florida e que as críticas indígenas à sociedade europeia branca tivessem sido estudadas por Rousseau ou Montesquieu, tendo-as passado para os seus ensaios em «As Origens da Desigualdade...» ou o «Espírito das Leis», respectivamente? Os autores apresentam dados convincentes para que estes factos tenham sido bem reais do que à primeira vista podem parecer. O mesmo quando se aplica o conceito de «guerra» e escravatura em sociedades ditas primitivas.

Mas fiquemos com um trecho dos autores na conclusão de «O Princípio de Tudo»: «Os teóricos sociais têm uma tendência para escrever sobre o passado como se tudo o que aconteceu pudesse ter sido previsto antecipadamente. Esta postura é um pouco desonesta, pois todos sabemos que, quando tentamos realmente prever o futuro, quase sempre nos enganamos - e isto aplica-se tanto aos teóricos sociais como a todas as outras pessoas. Não obstante, é difícil resistir à tentação de escrever e pensar como se o estado actual do mundo, no início do século XXI, fosse o desfecho inevitável dos últimos dez mil anos de História, apesar de, evidentemente, não termos uma verdadeira ideia de como será sequer o mundo em 2075, quanto mais em 2150.
Quem sabe? Se a nossa espécie perdurar e um dia olharmos para trás, a partir desse futuro ainda desconhecido, talvez os aspectos do passado remoto que agora parecem anomalias - como, por exemplo, as burocracias que funcionavam a uma escala comunitária; as cidades governadas por conselhos de bairro; os sistemas de governo em que as mulheres tinham uma preponderância nas posições formais; ou os modos de gestão da terra baseados no cuidado e não na posse e na extracção - venham a ser considerados os verdadeiros avanços significativos e as grandes pirâmides ou estátuas de pedra se pareçam mais com curiosidades históricas. E se partíssemos agora dessa abordagem e olhássemos, digamos, para a Creta minóica ou a cultura hopewell [indígenas do leste americano] não como pequeos desvios aleatórios num caminho que leva inexoravelmente a Estados e Impérios, mas como alternativas: estradas não tomadas?» (págs. 589/590)

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício


quarta-feira, janeiro 17, 2024

«Tai Pi», Herman Melville

 

Minotauro, Junho de 2023. 358pp. Tradução de Miguel Martins
Ah, canibais! Digo-vos desde já que entre os antropófagos que por aí andam nas sociedades contemporâneas e os originais, depois de ler «Tai Pi, Um Olhar sobre a Vida Na Polinésia» de Herman Melville, prefiriria, de longe, conviver com os segundos. O livro foi escrito em 1846, editado recentemente pela Minotauro, e corresponde ao período em que Melville, acabado de observar a ruína financeira da família novaiorquina, parte para a aventura que o leva no navio Dolly para a Polinésia «francesa», ou seja em Nuku Hiva, nas quase virgens Ilhas Marquesas. Foge, com um companheiro de viagem, Toby, do navio que o trouxe a esta baía e fica por lá durante quase meio ano. «Tai Pi» foi o seu primeiro livro, a que se segue «Omoo», sequela do primeiro e que estranhamente não foi traduzido e publicado em português ou nas suas vertentes brasileiras ou africanas. Que eu saiba; e é pena se assim é.

Os canibais de Tai Pi, que em polinésio significa «comedores de carne humana», são no seu quotidiano vegetarianos. Ora, toma! Eles são cocos, bananas, fruta-pão, e só de vez em quando, em grandes festas comunitárias, lá comem um parkuee, porco ou leitão, e uma ovelha ou outra. Peixe, raramente e só cru, acompanhado inapelavelmente por mais festas. Bebidas: água límpida e fresca que brota de múltiplas cascatas e uma «arva» de efeito narcótico e relaxante que escuso aqui de enaltecer porque infelizmente nunca conheci. Melville diz que provoca um sono luxuriante e eu acredito. Fumavam uma espécie de tabaco com cachimbos que rodavam entre mãos, igualmente «relaxante», embora o escritor nunca tenha reparado em plantas de tabaco na ilha. Mistérios. A verdade é que os dias passavam com o «Molee», que em polinésio, era o chamado descanso ou sesta. O tempo, nas sociedades ditas primitivas, não é o mesmo do nosso. Dilata-se. Carne humana? Já lá vamos.

Os hábitos dos Tai Pi, inimigos declarados dos Happares seus vizinhos e igualmente canibais, eram, de facto, formidáveis e, ainda hoje nos encanta, lendo a descrição real de Melville no meio-ano que esteve com eles, quase prisioneiro, visto que não o queriam em contacto com os brancos de onde era proveniente não o deixando descer à baía de Nuku Iva já em comércio inicial com a França. Conclusão: os Tai Pi, por mais canibais que fossem, não mastigaram Herman Melville e deram-lhe a possibilidade de um êxito estrondoso com a publicação deste livro e de Omoo. No fundo, amaram o americano intranquilo, deram-lhe todas as mordomias e simpatias; Kory-Kory foi o seu ajudante e guardador quotidiano, apaixonou-se por Fayaway «a mais bela das nativas» e teve relações privilegiadas com o chefe (não tão chefe assim) Mehevi. Aliás, não havia «chefes» tal como um pobre ocidental habituado miseravelmente à subordinação, o entende. O prestígio de um indivíduo vinha sobretudo das suas façanhas guerreiras contra os brancos ou os Happares. Aí, havia festança no fim das refregas e lutas que paravam aos primeiros ferimentos ou mortos e que não ultrapassavam o número dos dedos da mão de um lado e de outro. Melville, no fim da sua estada forçada por uma perna doente e pela teimosia dos Tai Pi em não o deixarem sair do vale de dois mil habitantes, reconheceu que a festança era nutrida por corpos dos mortos em combate. Nada do outro mundo e até, por consideração ou comiseração, não o convidaram para a grande festa de dois dias não fosse o americano descobrir os ossitos e caveiras humanas a servir de decoração dos Pi-Pi e do Ti a grande cabana de homens. Disseram-lhe que se ele fosse a essa festa particular de guerreiros (houve outras de dias seguidos para que foi convidado) era «tabu» uma expressão que Melville, nunca soube traduzir porque ou tudo era tabu ou nada era tabu. Ou, melhor ainda, os tabus podiam ser levantados, segundo a disposição do chefe Mehevi ou de um sacerdote mais afável para com os preceitos sociais. Embora de índole guerreira os conflitos entre o clã eram inexistentes, as crianças eram poucas e felizes, a poligamia era feminina e não masculina, isto é cada mulher tinha entre um a dois homens que escolhia ou repudiava, nem tinha as habituais tarefas atribuídas às mulheres, mesmo em sociedades não ocidentais e «primitivas». Como não havia agricultura, não havia trabalho, ou propriedade. Talvez o Pi-Pi, a casa, ou a lança, fosse a única propriedade tida como tal, mas eram casas abertas a todos e não havia roubos, conceitos completamente desconhecidos entre os Tai Pi e os Happares. Na baía de Nuku Hiva, onde os barcos ocidentais atracavam em busca de ouro e metais preciosos, já não era assim, obviamente. Daí os povos das montanhas exigirem o isolamento e os contactos em forma de «tabu».

«Neste estado de espírito, todos os objectos que captavam a minha atenção infundiam-me uma perspectiva diferente, e as oportunidades de que agora desfrutava de observar as atitudes dos nativos tendiam a fortalecer as minhas impressões favoráveis. Uma peculiaridade que me provocou admiração foi a permanente hilaridade que reinava ao longo de toda a extensão do vale. Pareciam não existir quaisquer preocupações, tristezas, problemas ou contrariedades em todo o Tai Pi. As horas passavam tão alegremente como os casais sorridentes num baile rural. [...] Tudo era alegria, diversão e muito boa-disposição. O desalento, a hipocondria e as depressões dolorosas iam esconder-se no meio dos recantos e das fendas das rochas.» páginas 174 e 175.

Sendo assim, Herman Melville voltou para Nova Iorque, após mais dois anos na Polinésia. Quer «Tai Pi», quer «Omoo» foram um êxito comercial, o que não aconteceu com os posteriores «Moby Dick» e «Bartleby» na ocasião ostracizados e hoje considerados os melhores livros de Melville. Regressou então para, palavras dele, a «civilização» onde encontrava as execuções hipotecárias, letras protestadas, contas a pagar, dívidas de honra, alfaiates ou sapateiros injustos, obstinados em serem pagos, cobradores, advogados que fomentavam a discórdia, familiares pobres a ocuparem permanentemente o quarto de hóspedes, viúvas desamparadas com os seus filhos a passarem fome nas instituições de caridade deste mundo, mendigos, prisões para devedores. Continua: «Em Tai Pi, não havia quaisquer nababos orgulhosos e insensíveis; ou, para resumir tudo numa palavra, não havia dinheiro! Essa ''raiz de todos os males'' não se encontrava no vale.» (pág.175)

Escolha dele. Gauguin não o fez. Um livro admirável que deve ser lido com sofreguidão abundante.

Minotauro, Junho de 2023. 358pp. Tradução de Miguel Martins

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

«Não-Lugares. Introdução a uma antropologia da sobremodernidade», de Marc Augé

 

2ª Edição Letra Livre, 2016. Tradução de Miguel Serras Pereira
«(...) As três figuras do excesso pelas quais tentámos caracterizar a situação de sobremodernidade (a superabundância de acontecimentos, a superabundância espacial e a individualização de referências) permitem que apreendamos sem ignorarmos as suas complexidades e contradições, mas sem fazer também delas o horizonte insuperável de uma modernidade perdida da qual nos restaria apenas assinalar os traços, repertoriar as formações ou inventariar os arquivos. O século XXI será antropológico, não só porque as três figuras do excesso [o Tempo, o Espaço e o Ego] são apenas a forma actual de uma matéria-prima perene que é a própria matéria da antropologia, mas também porque nas situações de sobremodernidade (como nas que a antropologia analisou sob o nome de «aculturação») as componentes se adicionam sem se destruir. Podemos assim tranquilizar antecipadamente aqueles que se apaixonam pelos fenómenos estudados pela antropologia (da aliança à religião, da troca ao poder, da possessão à feitiçaria): estes não estão perto de desaparecer, nem em África, nem na Europa. Mas tornarão a fazer sentido (o sentido) com o resto, num mundo diferente cujas razões e desrazões os antropólogos de amanhã terão, como hoje, a tarefa de compreender.» (pág.40).

quarta-feira, dezembro 08, 2021

A Sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres

 

A 1ª edição da Afrontamento de «A Sociedade contra o Estado», de Pierre Clastres, andou na minha mão logo que saiu em 1979. A edição em França foi em 1974 sendo a tradução portuguesa de Bernardo Frey com revisão de Miguel Serras Pereira. Esta nova edição da Antígona tem a tradução de Manuel de Freitas e não estou apto a ajuizar se é melhor ou pior, até porque já não disponho da primeira. Mas parece-me fiel ao autor que morreu demasiado cedo, vivendo e conhecendo bem comunidades primitivas dos tupi-guarani, dos ianomani, dos nómadas do Chaco argentino ou dos ameríndios do norte. É portanto um observador privilegiado, crítico e rigoroso destes povos.

Livro notável este que releio com o gosto igual à primeira vez que abri as suas páginas há dezenas de anos. Nessa ocasião, acreditava num Estado do Bem, por assim dizer, a utopia de jovens onde cabia toda a felicidade da Terra. Hoje, sendo eu mais aberto a soluções sociais libertárias e radicalmente comuns, quer pela crise ambiental e capitalista, quer pela especulação do sistema económico e político actual, e não só do seu sub-sistema capitalista como querem alguns que, envergonhadamente, o querem salvar, leio este livro com outros olhos. Vejo-o literalmente como uma saída social baseada na economia de «subsistência» e na recusa de excedentes, recusando igualmente o poder político sendo ele despótico ou afirmando-se na sua falsa negativa. É uma lição que nos dão as comunidades índias e que devemos seguir com muita atenção com as edições verdadeiramente alternativas de uma antropologia livre de preconceitos etnocênticos.

Pierre Clastres não nos mostra sociedades primitivas baseadas no bom selvagem de Rousseau, ou num eventual paraíso perdido, cujo desaparecimento é a causa da infelicidade actual e dos séculos que a antecederam. Prefere analisar as sociedades selvagens (em Clastres o termo «selvagens» nada tem de pejorativo) como comunidades sem poder coercivo, não isentas de política existente em conselhos, com uma economia de subsistência rica e abundante, sejam as comunidades nómadas ou sedentárias, baseadas na recolecção e recusando o excedente que obrigasse a mais horas de trabalho; estas comunidades bem estruturadas e com uma unidade espiritual forte, recusa a chefia a todo o custo, isto é, havendo um chefe nominal, ele não representa mais do que a representação da comunidade, abafando conflitos latentes, organizando a guerra e a defesa, mas que a todo o momento pode ser substituído se os seus interesses ultrapassarem os da comunidade, geralmente não muito grande em termos demográficos. 

Ou seja, Pierre Clastres apresenta-nos um ponto de vista crítico relativamente à antropologia etnocêntrica, à sociedade capitalista baseada no trabalho alienante, à História que pretende absolver os crimes perpetrados pelos colonizadores (diminuindo por exemplo os números astronómicos do massacre dos ameríndios, falseando uma densidade populacional impossível de existir no século XV, e que se traduzem pelo desaparecimento de dezenas, se não centenas, de milhões de indivíduos e da destruição massiva de grande parte da sua cultura), mas igualmente às próprias sociedades primitivas dividindo-as naquelas que aceitaram o Estado transformado em poder coercivo, como os Incas e os Astecas, e os que o desprezavam como os Tupi, os Guarani, os Ianomani ou os Apaches. Também se afasta, por anacrónica, das teses benévolas e até certo ponto ingénuas, dos trabalhos de Morgan, Engels e até de Lévi-Strauss. Aproxima-se mais de um Shallins ou de uma nova antropologia. Mas Pierre Clastres é só ele e isso tem de ser sublinhado. Não sendo um seguidor acrítico criou um método de estudo entretanto seguido por muitos.

O livro não é evidentemente só isto. Mas deixo-vos um pequeno trecho da «Sociedade contra o Estado» de Pierre Clastres: «...as sociedades primitivas não são o embrião retardatário das sociedades ulteriores, dos corpos sociais com desenvolvimento «normal» interrompido por qualquer doença bizarra, elas não se encontram no ponto de partida de uma lógica histórica que conduz directamente ao termo previamente escrito, mas conhecido apenas a posteriori, o nosso próprio sistema social. (Se a história fosse esta lógica, como poderiam existir ainda sociedades primitivas?) Tudo isto se traduz, no plano da vida económica, pela recusa das sociedades primitivas em deixarem que o trabalho e a produção as devorem, pela decisão de limitar as provisões às necessidades sociopolíticas, pela impossibilidade intrínseca da concorrência - de que serviria, numa sociedade primitiva, ser rico entre pobres? -, numa palavra,pela proibição, não formulada mas dita, da desigualdade.

»O que faz a economia, numa sociedade primitiva, não ser política? Isso deve-se, de modo evidente, ao facto de a economia não funcionar aí de maneira autónoma. Pode-se dizer que, nesse sentido as sociedades primitivas são sociedades sem economia por recusa da economia. Devemos então determinar também como ausente o ser do político nessas sociedades? Teremos de admitir que, visto tratar-se de sociedades «sem lei nem rei» [como afirmavam os primeiros europeus], o campo do político está ausente delas? E não recairíamos nós assim no trilho clássico de um etnocentrismo para o qual a falta caracteriza, a todos os níveis, as sociedades diferentes?»

Tentando responder a uma questão extremamente complexa na análise das sociedades primitivas sem Estado, nada impede que a falta dele e da economia excedentária, possa igualmente impedir a existência de política, como forma de auto-organização ou de controlo dos chefes e dos xamãs. 

Edição da Antígona, 2018.

António Luís Catarino


terça-feira, junho 30, 2020

«Flauta de Luz», Boletim de Topografia, nº7

Revista Flauta de Luz Nº 7
«Flauta de Luz» - Boletim de topografia, nº7
Tenho adquirido a revista Flauta de Luz. Júlio Henriques é seu editor e coordenador e abre a publicação com «Civilização». Aí, poder-se-á ler numa descrição de uma sociedade doente e a crise de civilização a que assistimos: «(…) A torrente inovadora que tornou crianças, adolescentes e adultos furiosamente agarrados (enganchados, como se diz no calão da droga) a computadores, tablets e smartphones criou uma atmosfera geral de ausência comunicativa, de relação preferível com as coisas, em que avulta um novo tipo de insensibilização. Juntando a cultura do narcisismo [que, mais à frente, Anselm Jappe bem explica juntamente com o fetichismo da mercadoria, nota minha] (modelo parental educativo em que passaram a evoluir as novas gerações) ao impelido apego destas últimas às ‘’tecnologias da informação’’, chegamos assim a auto-estrada digital conducente a este coktail de shots corporais de aturdimento garantido.(…)». O mote está dado e as coisas dividem-se deste modo: os que se apegam às novas tecnologias sofregamente e aqueles que, como eu, ainda compram, leem e divulgam revistas como a Flauta de Luz.

De resto, é com verdadeiro prazer que lemos os artigos que se sucedem a um ritmo vertiginoso para quem pega  na revista, perdão, boletim de topografia, sem a conseguir largar. Comecemos por Raoul Vaneigem, mais lúcido que nunca, a perspectivar novas insurreições e a urgência em criá-las em direção a uma verdadeira humanidade que salve não só o planeta como a espécie humana que se quer autónoma e livre. Que conhece o percurso deste homem, sabe do que fala e da coerência que sempre o acompanhou.  Interessante a sua posição sobre a epidemia de hoje «Seria mesmo necessário o coronavírus para demonstrar aos mais obtusos que a desnaturação em prol da rentabilidade tem consequências desastrosas para a saúde universal? Esta saúde que de forma constante é gerida por uma Organização Mundial cujas preciosas estatísticas disfarçam o desaparecimento dos hospitais públicos? Há uma correlação evidente entre o coronavírus e o desmoronamento do capitalismo mundial. Ao mesmo tempo não é menos evidente que aquilo que recobre e submerge a epidemia do coronavírus é uma peste emocional, um medo histérico, um pânico que simultaneamente dissimula as carências de tratamento e perpetua o mal assustando os pacientes. (…)». Vaneigem assina mais dois artigos um deles uma entrevista truncada no Le Monde e que conhece aqui a sua versão definitiva. Atenção a esta entrevista onde o autor declara a real importância do movimento dos Coletes Amarelos, juntando as ZAD (Zonas A Defender), o movimento zapatista e a crítica contundente aos Black Bloc. Mas, principalmente, a apresentação de uma saída insurrecional e alternativa ao modelo capitalista.

Temos David Watson, autor de Against the Megamachine na conhecida Autonomedia, editora libertária norte-americana, num artigo muito claro «Atualizar os Possíveis» sobre o possibilitismo e as novas utopias na construção de um mundo diferente.

A «Advertência Final» é um exercício irónico de quatro investigadores científicos sobre o tão conhecido «Aviso à Humanidade», de 2017, que juntou 15 mil cientistas de 184 países sobre os perigos que pairam sobre o Planeta. Estes 4 signatários advertem, ao tal aviso, que, sem a crítica ao capitalismo e as alternativas económicas que devem acompanhar essa (ir)responsabilidade do lucro e da rapina de recursos, podem esperar sentados até ao próximo aviso à humanidade. As coisas ficarão na mesma.

Um «suprimento litrário avulso» vai dando conta de autênticos murros no estômago à intelectualidade e ao processo de criação artística em curso. Se o riso era quase impossível de arrancar a quem lesse ou consultasse em diagonal os verdadeiros e reais suplementos literários que proliferam por aí, neste suprimento litrário a verdadeira alegria da leitura neo-abjeccionista brota, incontrolável. Também há insurgência no riso. Atenção aos registos de Júlio Henriques «Amar um robô» (lembrei-me de Sophie, mas podem dar-lhe outro nome qualquer…) e «Mas o que é que nós queremos?». Não percam a sua leitura.

Os artigos sucedem-se com entrevistas a Jorge Valadas / Charles Reeve, que assinou agora o livro «Socialismo Selvagem» saído na Antígona e já divulgado aqui no Deriva das Palavras em http://derivadaspalavras.blogspot.com/2020/03/a-memoria-e-o-fogo-e-o-socialismo.html e uma importante entrevista a Júlio Henriques onde se fala, entre outros, de Paul Mattick, de René Vienet, do Maio 68, de Serge Bricianer ou de René Lefeuvre, editor da conhecida Spartacus. Uma mostra para uma possível construção de uma «antologia da poesia ameríndia contemporânea» acompanhada de artigos de uma verdadeira topografia indígena, tornados aqui os últimos guardadores da humanidade se quer continuar a ser, como os trabalhos de Ailton Krenak (que refere o importante «A Sociedade Contra o Estado» e que conheceu Pierre Clastres), Davi Kopenawa Yanomani, manifestos da Survival International em defesa dos Povos Índigenas, Stephen Corry com «Os melhores guardiães da natureza construíram o nosso meio ambiente e podem salvá-lo», Corsino Vela com «Uma guerra real num mundo virtual», e «Morrer em Rojava» uma coletânea de depoimentos sobre os internacionalistas que morreram pela autonomia autogestionária dos enclaves curdos na Síria, contra o Daesh e o exército turco às ordens da Nato. Provavelmente, para não dizer quase de certeza, que houve algum ímpeto irracional de quem defendeu que a Guerra Civil de Espanha foi a última guerra por ideais revolucionários!

Podem contar-se igualmente com artigos de Jorge Leandro Rosa, Vasco Santos e Chuang. O primeiro versa sobre as tecnologias e poder e os dois últimos analisam não só as implicações do coronavírus e as consequências sociais das novas epidemias para o século XXI. O último, Chuang, é uma revista e igualmente um blogue. O significado da palavra é um cavalo que passa o portão, que (se) liberta. A análise do que se passa na China de hoje, não só ao nível das epidemias, mas igualmente no campo social e da passagem de uma economia fechada para uma economia de capitalismo integrado mundial aponta as contradições a que está votada a ditadura chinesa. É por isso espectável que se tivesse optado pelo anonimato. Mas que é de alguém que está no terreno e que nos passa informação, não se tem dúvidas.

Também se comemora nesta Flauta de Luz os 100 anos de Lawrence Ferlinghetti, esse jovem beatnick ímpar!

Um número único, este 7º boletim, de 289 páginas!, com ilustrações fabulosas, que dá vontade de requisitar numa livraria mais números (a mim faltam-me dois!). Há, de certeza, na Livraria Letra Livre em Lisboa e na Utopia, do Porto. Ou então, flautadeluz1@gmail.com .

Ah…e Cesariny, pois claro, com um «Lembrete de coisas de um passado recente – Uma Raça Maldita». Quem será a «raça mais infame que apareceu à face da Terra?». Ele dir-vos-á.

António Luís Catarino
Coimbra, 6 de julho de 2020