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quarta-feira, abril 29, 2026

"Paris", Annemarie Schwarzenbach

 

Payot Suisse. Janeiro de 2026.
Não deixa de constituir uma boa surpresa encontrar um pequeno livro de bolso na livraria Payot, de Lausanne, com inéditos de Annemarie Schwarzenbach. Tenho lido quase tudo o que me apareceu sobre esta escritora que fui descobrindo pelos estudos de Gonçalo Vilas-Boas e do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto, com quem a Deriva editou uma análise literária e biográfica desta autora suíça. Mas a verdade é que, como escreve a tradutora Nicole Le Bris na Introdução deste livro, ela não é uma escritora que se procure, mas que se «encontra». Desde que a encontrei, é-me impossível ignorá-la.

Annemarie Schwarsenbach morreu cedo, aos 34 anos, num acidente de bicicleta na Suíça, em 1942. Em Portugal, a Tinta-da-China e, principalmente, a Relógio D'Água, têm-na editado regularmente. As suas impressões são essencialmente as de viagens que ela fez, algumas juntamente com Ella Maillart, sua grande amiga que a acompanhou quase sempre em deslocações ao Próximo Oriente, à Turquia, ao Afeganistão, à Índia, ao Iraque e ao Irão. Também esteve no Congo, em trabalho de fotógrafa e jornalista, deixando descrições inesquecíveis sobre a situação dos seus habitantes sob o colonialismo belga. Para se deslocar até lá, teve de pedir um salvo-conduto português através de António Ferro (que lhe demonstrou grande interesse, não só político) que a levou a passar por Luanda em plena II guerra mundial. Está tudo publicado em «Escritos Africanos». Esteve em Nova Iorque onde se revoltou com o racismo e a condição segregada dos negros americanos. A sua sede de conhecimento de outras paragens, que não só os cantos europeus, levaram-na a constantes viagens que a desgastaram, tal como as drogas pesadas e o álcool, as suas relações lésbicas tão arrebatadoras quanto tempestuosas, que a família com evidentes simpatias nazis, nunca aceitou, e com algumas tentativas de suicídio. Foi antifascista, criando uma revista que colaborou juntamente com Erika e Klaus Mann, filhos de Thomas Mann, com surrealistas como Cocteau e Gide, e igualmente com autores como Hemingway e Brecht. Infelizmente, não chegou a ver o fim do totalitarismo fascista na Europa.

Estes inéditos foram editados agora, em Janeiro de 2026, e foram escritos em Paris tinha Annemarie 20 anos, entre 1928 e 1930. Não se trata de um diário, como se poderia pensar, mas um conjunto de quatro textos intimistas em que ela já expõe uma escrita que é reconhecida nas suas obras posteriores. Mas não é só o seu estilo literário que importa aqui; o que vale a pena destacar são os temas que aborda ainda muito nova e que se vão revelar mais tarde: a sua sexualidade e a forma como a expõe nos seus escritos variando de género na voz do narrador. Primeiro, como jovem estudante na Sorbonne, onde ela de facto estudou Sociologia e História, depois como rapaz e ainda como um ser quase andrógino. A quase ansiedade de entender o outro e prescrutar o comportamento dos seus próximos, seja na amizade ou no amor e a dependência (aqui a cocaína tem lugar numa descrição da noite de Montparnasse). A necessidade imperiosa de viajar constantemente, de não criar raízes num só lugar. A compreensão pelos marginais, pelos que têm dificuldade de integração na sociedade, como os imigrantes russos que saíram ou fugiram da Rússia de 1917 e que viviam em Paris, embora pudessem ser quaisquer outros. E, igualmente, o choque com a família burguesa e a recusa em ser mais uma peça nas massas anestesiadas e tristes das grandes cidades. Como escreve a dado passo Úrsula a Jacqueline, em «Paris II»: «Donnez-moi un être humain!» Talvez fosse pedir demais numa época terrível, mas a necessidade de Annemarie Schwarzenbach era quase impossível de satisfazer. 

Annemarie Schwarzenbach

alc

sexta-feira, agosto 01, 2025

"O Medo do Céu", Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, 2025. Tradução de Ana Cláudia Santos 
A escrita de Fleur Jaeggy continua, e creio que continuará, a constituir uma surpresa sempre renovada. Extremamente contida nas palavras, usa-as como facas, como uma seta apontada aos nossos sentidos. A imprevisibilidade, o choque, a relação agressiva e distante para quem a lê são constantes na leitura de Jaeggy. Cumpre, portanto, o papel da Literatura. «A viagem de núpcias dos senhores Ruegg durou poucos dias. Otto Karl estava inquieto, queria ter regressado a casa após a primeira noite. Com a mulher ao lado da cama, considerava os abraços um sinal de preguiça. A mulher dormia agora, ele tinha a mão pousada sobre a nuca que pouco antes tinha mordido. Fazia projetos. Queria um matadouro.» (pág.25)

Li todos os livros de Jaeggy editados em português, através do trabalho da tradutora e escritora Ana Cláudia Santos e este é muito diferente de «Felizes Anos de Castigo» e de «Viagem no Proleterka». São sete contos dedicados à morte física ou mental ou muito perto dela e cuja presença se faz sentir de múltiplas formas: ou afastada de nós sem esperarmos nada dela, violentamente presente desde o início dos contos ou, até, insinuante. Mas sempre connosco. Daí, o medo do céu, porque nunca saberemos de que é feito, de que matéria química é sustentado e que gases edénicos envolverão os corpos para além dos vermes ou do fogo terreno. Assim é a escrita de Fleur Jaeggy. Cruel, desprovida de qualquer empatia para quem a lê, mas certeira pelo incómodo gerado, pelas verdades que perpassam as relações humanas e principalmente as familiares, sempre abertas aos piores ódios. Ela sabe escrevê-los como é raro encontrar na literatura contemporânea. 

Sei muito pouco sobre a vida de Fleur Jaeggy. Não será a nuvem digital que me vai revelar alguns aspectos que gostaria de saber mais desde que li «Felizes Anos de Castigo» sobre a vida de um colégio interno onde ela passou vários anos da sua adolescência e que, julgo, a marcaram para sempre. Mas há outro mistério que se adensa: tendo nascido em 1940, em Zurique, vive hoje quase reclusa em Milão e conviveu com Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Joseph Brodsky, Italo Calvino que se referiram a ela como uma escritora excepcional. Na minha opinião, é-o, e não se compreende que fosse traduzida tão tarde aqui. E, conhecendo pouco a pouco o estilo inconfundível de Fleur Jaeggy, percebemos por que razão ela estudou e escreveu sobre o enorme Robert Walser e também sobre o escritor maldito Thomas de Quincey. 

Deixo-vos com um extracto da sua escrita neste «O Medo do Céu»:

«Verena sentia-se jovem e calma. Só tinha curiosidade pela sua velhice, tornara-se vaidosa. Nunca o fora, então. Tinha sido modesta, na juventude. E tinha notado que também os outros velhos tinham ficado inchados de vaidade. É a idade, aquela idade teimosa, avessa à morte, em que nos sentimos vaidosos. Ela tem a certeza disso, a vaidade não pertence aos jovens. Não pertence às belas mulheres nem aos rapazes. Não, essa não é senão um subproduto da vaidade. Ela observara-os, aos jovens, quando saía de casa, fizera até uma comparação entre si e eles. Está decrépita, teriam dito aqueles jovens. Agora, andava sempre tão bem arranjada, não apenas por causa daquela ideia tola de a polícia dizer, se a encontrasse morta: ''Mas que limpa que está a sua casa.'' Isso era uma desculpa. Uma desculpa para a polícia. Só o céu podia saber quanto ela era realmente vaidosa. É uma coisa que vai além do físico, uma coisa profunda, terrivelmente profunda. Nem o desespero poderia ser tão profundo. Mas, pensando bem, Verena tem um sobressalto. Talvez seja desespero, a vaidade dos velhos. Os seus cabelos vaporosos vão de azul ao cinza, os seus olhos azuis são entre o cinza e o amarelo, os olhos que observam o marido com desafio e supremacia celestial.» (pág.111)

Provavelmente desenhá-la-ei.
alc

domingo, março 23, 2025

Genebra-Lausana-Gruyères em Fevereiro

 

Genève - estátua de Rousseau na ilha homónima
Os livros sobre Rousseau comprados num dos melhores alfarrabistas de Lausanne

Genève, perto da casa de Rousseau

Em Fevereiro, um assalto à vila e castelo de Gruyère com Alpes ao fundo.

A casa de Rousseau transformada em museu.

domingo, dezembro 01, 2024

«Viagem no Proleterka», Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, 2024. Tradução de Ana Cláudia Santos
Escrito em 2001 neste «Viagem no Proleterka», a suíça Fleur Jaeggy, que aqui já falámos longamente pela leitura do vigoroso «Felizes Anos de Castigo» (1989), mostra-se agora algo fatigada, não se saberá se fruto da sua quase reclusão em que vive ou, talvez, porque o tema do seu encontro com um pai ausente, estranho, doente, que a convida para uma viagem de catorze dias num cruzeiro «para se conhecerem melhor» terá sido um fiasco. Aliás, todos os temas que Fleur Jaeggy tenta abordar falham. Essa possível relação com o pai não é minimamente conseguida. Se ele se mostra inacessível, a autora, os sentimentos e as acções que leva a cabo durante a viagem não se mostram mais do que pequenos e demasiado fugidios pensamentos para o leitor. Assim como as suas relações fortuitas com membros da tripulação são tão despidas de emoção que chegamos a pensar se chegaram a existir. Tudo é elaborado à pressa, como se a viagem pudesse acabar logo ali, acelerada. As descrições apresentam-se sem grande entusiasmo, como escrever um livro fosse igual a que se bebesse um copo de água e continuasse a escrever no capítulo seguinte. Um leitor, e reivindico para mim esse papel, não é um crítico: para isso, finalmente, já existem cursos universitários em algumas, poucas, universidades portuguesas. Mas no processo de leitura sente-se imediatamente, o estado de espírito de quem escreve. Há uma identificação clara, uma honestidade nossa que reivindicamos igualmente ao escritor. O que move um crítico é outra coisa. O recurso estilístico da autora nada tem a ver com o último, e creio que único, livro editado em Portugal, «Felizes Anos de Castigo». Repito que ali há um cansaço observável e que não é necessário sequer uma lupa para o verificar. 

A tradução de Ana Cláudia Santos, e não é a primeira vez que o digo, evitou que se tornasse quase impossível a leitura de «Viagem no Proleterka». Reparem no que eu digo, neste extracto que vos apresento, que se repete em toda a leitura em períodos tão curtos que interrompem o fluído necessário a uma leitura ou, sequer, a uma identificação mínima com a autora e a uma possível densidade psicológica de todas as personagens:

«(...) Era bonita e robusta. Houve vezes em que quis sair com ela. Não conhecia ninguém da minha idade. Ela fazia-se rogada. Tinha percebido logo que eu estava sozinha. Teria de pagar para ter a companhia dela. É possível que tenha sido ela a sugerir ao pai, o diretor, que nos expulsasse. A nós, os da pensão mensal.» (pá.109)

e continua na mesma página, e em todo o livro, esta toada:

«Por vezes, Johannes levava-me ao restaurante da Corporação. A entrada é pelas arcadas. No primeiro piso, silêncio, as pessoas distintas falam baixinho. Os talheres movem-se com leveza, quase sem tocar no prato. Lá fora, o rio corre. Os cisnes deslizam. Passa o elétrico. Carros. Quando morre um membro da Corporação, costuma fazer-se um banquete fúnebre. Johannes sente-se sozinho. (...)»

De resto, não costumo escrever sobre os livros de que não gosto e foram alguns, não muitos, é certo. Este não está nesse rol, mas devo a Fleur Jaeggy um dos melhores livros que li e que citei aqui, o «Felizes Anos de Castigo» sobre o regime de internato para jovens. Verdadeiramente ímpar. Esperemos que o próximo editado em Portugal seja diferente deste «Viagem no Proleterka» em que, por vezes, cheguei a pensar tratar-se de um conjunto de apontamentos livres da autora para a construção, isso sim, de um verdadeiro romance.

alc

sexta-feira, janeiro 12, 2024

«Felizes anos de castigo», de Fleur Jaeggy

 

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos
Não é costume, mas inicio esta ficha de leitura com um comentário de Joseph Brodsky sobre «Felizes anos de castigo» da suíça Fleur Jaeggy, livro publicado na Itália, em 1989: «A caneta de Fleur Jaeggy é como a agulha de um entalhador a desenhar raízes, os galhos e os braços da árvore da loucura - uma prosa extraordinária. Tempo de leitura: quatro horas. Tempo de recordação: a vida inteira.»

Se concordo com este comentário de Brodsky, já não me reconheço noutros que a editora deu a conhecer nas badanas e contracapa. A narrativa centra-se na relação obsessiva de duas jovens (a própria Fleur e Frédérique) num colégio interno na Suíça, mas não me parece ser esse o seu principal fio condutor. Trata-se, antes, de uma descrição de um universo concentracionário, absurdo e paradoxalmente bem real, pesado, violento, de um colégio interno onde se passaram os melhores anos da vida de muitas jovens. No entanto, e reside aqui a singularidade do estilo literário de Fleur Jaeggy, este clima de quase pesadelo não perpassa totalmente para a escrita. A autora sabe ver através do vidro das janelas dos quartos fechados as estações do ano, a Primavera que desponta, a neve que cai, o Outono das folhas caídas e o calor do estio no Lago Constança. Também nos armários individuais os objectos, as cartas, os sinais que vêm de fora, da família ausente e dos comboios libertadores que as levam nos períodos de férias que, nem por isso, são melhores. A sua escrita é límpida.

Para além da prosa que nos prende completamente ao livro de uma escritora desconhecida para os portugueses, embora nascida em Zurique em 1940 e já com uma obra algo vasta, a sua leitura foi-me acompanhada por vários sobressaltos. Um deles começa logo na primeira página do livro: Escreve Fleur que tinha apenas 14 anos, quando teve conhecimento da morte próxima de um homem na floresta de Appenzell quando dava o seu passeio na neve. Esse homem era Robert Walser. Não era ainda reconhecido como escritor em 1956, ano da sua morte a 25 de Dezembro (aqui deve haver um engano de datas da escritora, visto que então teria 16 ou 15 anos e não 14 como refere), nem a sua professora de Literatura o conhecia. Talvez por isso se tenha debruçado, posteriormente, pela história trágica de Walser, também ele internado e durante trinta anos, no manicómio de Herisau a muito pouca distância do Bausler Institut, o colégio de Fleur. Mais tarde torna-se amiga de escritoras e escritores de que aqui dei nota: Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Italo Calvino ou o já citado Brodsky. Traduziu igualmente Marcel Schowb, entre outros.

O outro sobressalto estará relacionado com a vivência de Fleur Jaeggy no colégio interno. Só por quem lá passou, e na idade entre os 6 e os 15 anos vividos por ela, é que poderá compreender na sua totalidade os sentimentos contraditórios de amor e ódio, de revolta intensa, de vontade poderosa de fuga, de violência explosiva ou de impotência que guardam as paredes de um colégio. Sei do que falo, daí o sobressalto mais que justificado perante o título irónico de «Felizes anos de castigo». O espanto que cresce à medida que lemos Jaeggy é a triste certeza do que fala e do que viu transcrito para este livro admirável. Acreditem que, em colégios internos, o inferno está mais perto do que se pensa:

«Eu compreendia aquelas crianças que se atiravam do último andar de um colégio só para fazerem alguma coisa desregrada, e disse-lho [a Frédérique]. A ordem era como as ideias, uma posse, uma possessão. (...)» Pág.54. 

Num colégio interno ou, calculo, numa prisão, a necessidade de ordem chega a ser uma obsessão perante o caos da violência, dos castigos gratuitos ou dos afectos em ebulição, mesmo que não se manifestem durante uma eternidade. Porque o tempo, aí, torna-se uma eternidade. Tem-se de ter os armários fechados a cadeado, a roupa bem arrumada, a carteira da sala igualmente fechada, separada com os cadernos das disciplinas, os manuais, os estojos em que não falte nada para evitar não só os castigos, mas também que as ideias estejam em «ordem», naturalmente em ordem. Fleur descreve o seu armário e a carteira como o seu mundo. 

Depois vem o desejo, a necessidade de prazer que se confunde com a tristeza e a solidão. Não há escolha: «Mas perseverava no prazer de ir até às profundezas da tristeza, como se faz com uma humilhação. O prazer do desapontamento. Não me era novo. Apreciava-o desde que tinha oito anos e era aluna interna no primeiro colégio, religioso. E se calhar foram os melhores anos, pensava. Os anos de castigo. Há como uma exaltação, ligeira mas constante, nos anos de castigo, nos felizes anos de castigo.» Pág.80.

Este livro rasa ao de leve nos «educadores» e nas suas taras, incongruências, desejos escondidos, na sua crueldade. Tal como Fleur Jaeggy, também senti essa violência discricionária, gratuita, exercida por indivíduos que se diziam professores a alunos e que nem sequer se deviam aproximar de uma instituição educativa, quanto mais ensinar ou educar. O mesmo para os prefeitos aceitados para castigar e que não tinham hipóteses de ter um emprego normal, alguns deles criminosos da guerra colonial. Em Portugal, só conheço uma ou outra obra que trata esta violência (cito de cor): a de Vergílio Ferreira em «A Manhã Submersa», a de Nuno Bragança em «A Noite e o Riso» em que ele foge do colégio que frequentei, e ultimamente «A Gorda», de Isabela Figueiredo (presumo na parte feminina do mesmo colégio conhecido pela sua brutalidade). Mas foi um artigo de uma crónica de António Guerreiro, no Público, que chamou a atenção sobre este fenómeno mais que usual nos colégios portugueses: a crueldade exercida sobre alunos e alunas por professores que deveriam pedir desculpa a gerações inteiras dessa gratuitidade movida por autênticas taras. Talvez um dia a República a peça. Mas quando, hoje, ouço professores a defenderem a retoma de castigos físicos com o «argumento» de «a mim não me fizeram mal nenhum», duvido que, em vida, assista a tal acontecimento. 

Mas o que diz Fleury sobre esses educadores? «Rancor é coisa que os educadores parecem possuir, um rancor à superfície da pele e no tom de voz, um rancor, ousaríamos dizer, quase pela humanidade em geral. E é talvez graças a este rancor que eles, os educadores, são em substância bons educadores.» Pág.91. Talvez. Um educador é sempre um reactivo, um disciplinador.

Termino adiantando, espero que não abusivamente para quem ler este livro, que Frau Hofstetter, a directora do colégio, acabou por morrer num desastre de automóvel em pleno temporal no Appenzell, junto com o marido e com o filho. As mortes pouco significaram para Fleur. Já tinha outro colégio interno que frequentava e Frédérique, sempre tão racional durante a estadia na instituição como aluna, encontrava-se num manicómio, despojada de tudo, por tentar deitar fogo à casa, com a sua mãe lá dentro. Nunca mais se encontraram. Fiquemos então com as palavras de doce ironia e maldade criativa de Jaeggy:

«Éramos maleáveis, ela [Frau Hofstetter] modelou-nos. Mas como podiam os seus olhos vigiar um temporal, que se calhar queria pregar-lhe uma partida? Os educadores, pelo menos aqueles que conhecemos, não têm uma vida dupla. Durante o ano ensinam, depois descansam. Nunca vão à aventura. Não temos saudades dos nossos educadores. Talvez por vezes os tenhamos respeitado demasiado, mas isso fazia parte da educação que recebemos, e, se todas as noites beijei a mão à Mére Préfète, sem nunca me rebelar, foi porque, por vezes, além das regras, havia também a volúpia. A volúpia da obediência. Ordem e submissão, não se pode saber que resultados darão na idade adulta. Há quem se torne criminoso ou, por desgaste, bem-pensante. Mas ficámos marcadas, sobretudo aquelas raparigas que passaram sete a dez anos num internato. Não sei o que lhes aconteceu, já não sei nada delas. É como se estivessem mortas.» Páginas 92 e 93.

Em 1989, presumo, Fleur Jaeggy foi procurar o Bausler Institut. Já não existia e as pessoas, disseram-lhe que estava enganada. Ali nunca houve um colégio, agora o edifício era um instituto para cegos. Talvez fosse melhor procurar noutro local. A memória levou esse colégio como o vento. Tal como o meu colégio, hoje coberto de heras e de osgas, ratazanas e vidros partidos, de morcegos e de pombos que entram nas antigas salas de aulas. Quando também há pouco tempo passei por lá, não deixei de me sentir bem ao vê-lo assim. Mas ainda há memória dele.

Fleur Jaeggy está viva. Está em casa, em reclusão, há anos.

Alfaguara, Outubro de 2023. Tradução de Ana Cláudia Santos


segunda-feira, setembro 11, 2023

«Auto-de-Fé», Elias Canetti

 

Cavalo de Ferro, 3ªed.2023, Tradução de Luís de Almeida Campos
Livro editado em 1935, escrito desde 1929 em Viena e terminado em Berlim, e que estava para ter outros títulos entre os quais «Cegueira», «Kant incendeia-se» ou «Brand». Elias Canetti escolheu «Auto-de-Fé» que, contudo, teria a ver sempre com o fogo. Fogo e livros. Livros estes que eram a obsessão louca de Peter Kien, a personagem «homem-livro» que acaba devorado pelo incêndio que provocou à sua enorme biblioteca, perecendo com ela no final do romance. Aliás, como nota avulsa, deve dizer-se que a palavra «kien» é também a «madeira resinosa» que se usava para atear fogueiras. Ironia pérfida é o facto deste livro ter feito parte dos incêndios de publicações que iluminavam as noites macabras das marchas nazis de archotes a partir de 1933 e que o consideraram «degenerado». Canetti exilou-se então nos Estados Unidos para não morrer às mãos dos nazis como judeu sefardita que era. Voltando à personagem que enforma «Auto-de-Fé», Peter Kien era o protótipo de o «Homem-livro», aquele que vivia para eles e neles só encontrava a «verdade», ignorando tudo o resto incluindo os vícios e, talvez, as virtudes da humanidade. Alto e magro, misógino, egocentrado, professor universitário que desprezava os alunos deambulava por Viena com uma pasta, passeando os livros que escolhia nesse dia para o fazer. Dormia num divã com eles. Contudo, casa-se com a governanta que sentia tratar bem dos livros...
Não me ocorre uma «descrição» do único romance de Canetti e que, junto com outros, o levou ao prémio nobel de 1981, e que seria forçosamente redutora tal a profundidade filosófica com que o ilustrou. Diz o autor, talvez referindo-se ao processo de escrita de «Auto-deFé» que «A crueldade daquele que se obriga a admitir uma verdade atormenta-o sobretudo a si mesmo: o escritor violenta-se a si próprio cem vezes mais que o leitor.(pág.553)» Não pretendendo, sequer, ousar desmenti-lo posso todavia afirmar que o leitor não sai incólume da leitura desta obra clássica. Estão lá plasmadas a alienação, das massas sim, mas também do indivíduo que mergulha no mundo dos livros e que os considera mais humanos que os humanos que desconhece, a loucura, a religião (todas elas sem agravo), a psiquiatria ou a mesquinhez quer dos poderosos, quer dos subordinados. Todo este exercício literário sobre a alienação remete-nos já para os livros de ouro de Canetti como «Massa e Poder» e «Língua Resgatada» cuja leitura se tornou agora obrigatória para mim, se bem que já tenha lido, há demasiado tempo e julgo que sem o instrumento poderoso da idade, o primeiro deles. 

«A ciência tinha-lhes inculcado uma fé cega na causalidade. Personagens convencionais, cingiam-se fielmente aos costumes e opiniões da maioria. Procuravam o prazer e interpretavam tudo e toda a gente em função dessa procura: uma mania da época que dominava todos os espíritos sem dar grandes resultados. E por prazer entendiam, naturalmente, todos os vícios tradicionais que o indivíduo,. desde que existem animais, pratica com um afinco que não desfalece.
A verdade é que nada sabiam daquela força motriz da história, muito mais profunda e autêntica: o impulso humano para se fundir numa espécie animal superior, a massa, e perder-se tão irremediavelmente nela como se nunca tivesse existido um homem isolado. Porque, além disso, eram educados, e a educação é uma arma defensiva do indivíduo contra a massa que transporta dentro de si.
Não menos que a luta pela fome e pelo amor, praticamos a chamada luta pela vida com o fim de aniquilarmos a nossa massa interior. Mas esta fortalece-se tanto, sob certas condições, que obriga o indivíduo a a gir de forma desinteressada e até contra os seus próprios interesses. A humanidade existia como massa já muito antes de ter sido formulada e diluída em conceitos. Como um animal monstruoso, selvagem, ardente e exuberante, a massa ferve e agita-se no mais profundo do nosso ser, a maior profundidade que as nossas próprias Mães. É, apesar da sua idade, o mais jovem de todos os animais, a criatura essencial da Terra, a sua meta e o seu futuro. Mas nada sabemos dela e vivemos, supostamente, como indivíduos. Não obstante, a massa abate-se às vezes sobre nós como uma maré espumante, como um oceano furioso em que cada gota permanece viva e aspira ao mesmo. Passado pouco tempo dispersa-se, devolvendo-nos ao nosso estado habitual de pobres diabos solitários. E então torna-se-nos inconcebível recordar que alguma vez chegámos a ser tanto, tão grandes e tão «Uno». «Doença», dirá um comentarista inteligente; «a fera do homem», atenuará um humilde cordeiro, sem suspeitar quão perto da verdade se encontra o seu erro. Entretanto, a massa prepara um novo ataque de dentro. Até que um dia não volte a dispersar-se, talvez num único país, no princípio, e dali comece a propagar-se para todos os lados até que ninguém ponha em dúvida a sua existência, porque já não haverá mais Eu, nem Tu, nem Ele, mas apenas ela: a Massa.» (pags. 476,477)

Este trecho de «Auto-de-Fé» foi escrito em 1935, lembrando-nos que estava na forja, pelo menos, desde 1929, ano de todas as acções de massas principalmente as do fascismo e do nazismo contra os quais Elias Canetti lutou, até de armas na mão, como eles nos conta no Posfácio de 1973 a uma edição vienense deste livro. O caso deve ser descrito aqui: numa manifestação de esquerda assassinaram nove operários em Viena. Os jornais, os jornalistas e escritores da altura ou, na sua maioria, defenderam os assassinatos ou, mantiveram-se cobardemente calados, menos Karl Kraus, evidentemente; o veredicto do julgamento absolveu os perpetradores e julgou até necessário esse crime. A resposta foi espontânea dos operários que, sem os seus chefes conciliadores social-democratas, atacaram e incendiaram o Palácio da Justiça de Viena. A polícia fez então 90 mortes entre os operários onde se encontrava Elias Canetti, também ele em protesto. Ao seu lado estava alguém que, exuberante, gritava «Foram-se os processos! Todos queimados!». O jovem Elias Canetti não se conteve e violentamente retorquiu-lhe: «Há dezenas de pessoas mortas e você só pensa nos processos?» (no Posfácio). Significativo.

De qualquer modo, e pelo que escrevi, não pensem os liberais e os «neos» que os acompanham que Canetti é um deles. Decididamente, não. Antes pelo contrário: de matriz claramente marxista, não fosse da geração nobre de entre guerras de Viena e Berlim, conheceu Karl Kraus a quem não regateou influências, o desenhador George Groz de quem foi grande amigo e Isaak Babel, para além de Brecht que o «adoptou» como seu discípulo e, mais tarde, depois de ter ultrapassado alguma desconfiança acerca dos escritores vienenses não tão frontais e hiperactivos como os de Berlim, tornou-se íntimo de Musil e de Broch. Há um facto curioso e que tem a ver com Brecht: na minha leitura de «Auto-de-Fé» deu-me para pensar na possibilidade de uma adaptação grandiosa para o teatro desta obra à maneira de Kraus ou de Brecht; aquela obra, dividida em três grandes capítulos, não era de todo impossível e não sei se alguém o tentou ou, sequer, se era um desejo de Canetti realizá-la. Já com Thomas Mann (mais uma achega para eu detestar o homem) as coisas não correram tão bem. Durante muito tempo «Auto-de-Fé» esteve parado na gaveta por recusa de o publicar por editores medrosos, como Suhrkamp por exemplo, e quando Canetti o enviou para apreciação a Mann este recusa lê-lo, visto que não teria muito tempo para o fazer. Quando foi editado em Viena e o êxito começou a mostrar-se como devia, este tem o desplante de o considerar «tão bom como o ''Henri Quatre'' de Einrich Mann, seu irmão» (!?). Pergunto: alguém conhece este última obra ou o autor? Pobre Thomas Mann! Elias Canetti morre em Zurique, em 1994. Deixou-nos um clássico impossível de não ler.

domingo, junho 04, 2023

Estudos 9. Robert Walser

 

Robert Walser. Aguarela e tinta-da-china

«Petite Prose», Robert Walser


Éditions Zoé, 2009. Trad. do alemão para francês de Marion Graf
«Petite Prose», publicado em 1917, corresponde ao período em que Robert Walser vivia em Bienne e é considerado um dos livros mais importantes e característicos da sua obra. São vinte e um textos maravilhosos, de uma finíssima ironia, em que alterna a autobiografia e a ficção. As personagens, muitas vezes, são mesmo reais (Luisa Schweizer «Louise», Rosa Schätzle «Rosa», Franz Blei, e outros) mas colocando-as em situações fictícias, desenvolvndo uma narrativa atravessada por uma ironia por vezes cáustica, outra vezes de uma tristeza ou euforia invulgares. Quanto mais se conhece Robert Walser, mais se quer saber. Quanto a este livro ele é publicado tinha Walser já 40 anos e as personagens que ele criou nas suas pequenas narrativas eram ainda vivas. Há quem explique esta «demora» em publicar, mas o escritor era completamente alheio, ou mesmo adverso, a qualquer carreira literária. Parece que o seu irmão mais velho, pintor de renome, Karl Walser, terá sido o responsável por o apresentar a editores suíços, já que a guerra o tinha impedido de viver em Berlim onde já escrevia para alguns jornais e editado pequenos poemas. Contudo, creio que não se pode ver os trabalhos de Walser à luz de um trajecto normal de um escritor. Foi internado durante perto de 20 anos no hospício de Herisau e nessa ocasião não publicou absolutamente nada, dedicando-se a escrever, a lápis, autênticos quebra-cabeças em pequenos textos que levaram anos a decifrar. Pouco importa para o caso. A escrita de Robert Walser é luminosa e o que nos deixou basta para sabermos de que é feita a sua poesia, tenha ela o formato que tiver.

«Basta

Je suis né à telle et telle date, j'ai grandi `tel et tel endroit, j'ai fréquenté l'école comme il se doit, je suis ceci et cela et m'appelle tel et tel, et je ne réfléchis pas beacoup. Rapport au sexe je suis un homme, rapport à l'État, je suis un bon citoyen et pour ce qui est du rang, j'appartiens à la bonne société. Je suis un membre propret, tranquille et sympathique de la société humaine, ce qu'on appelle un bon citoyen, j'aime boire ma bière avec raison et je ne pense pas beaucoup. Évidemment, j'aime surtout bien manger, et tout aussi évidemment, je suis loin d'avoir des idées. Loin de moi toute réflexion pointue; loin de moi d'avoir des idées, et c'est pour cela que je suis un bon citoyen, car un bon citoyen ne réfléchit pas beaucoup. Un bon citoyen mange sa soupe, et basta! (...)» (págs. 65/66).

segunda-feira, maio 08, 2023

«Escritos Africanos», de Annemarie Schwarzenbach e «Revisitar Annemarie Schwarzenbach» de Gonçalo Vilas-Boas

 

Relógio D'Água, 2023. Selecção e prefácio de Gonçalo Vilas-Boas e tradução (do alemão) de Maria Antónia Amarante

Deriva Editores e Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (FLUP), 2015. Gonçalo Vilas-Boas. Ilustrações e capa de Rita Roque

«Conheci» Annemarie Schwarzenbach através de Gonçalo Vilas-Boas quando existia a parceria Deriva Editores/Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, de que este era um dos responsáveis. Hoje, e antes de falar de uma autora que me prendeu, estão disponíveis na Relógio D'Água alguns livros dela traduzidos em grande parte por aquele professor. São eles: «Todos os Caminhos Estão Abertos» com tradução de Miguel Serras Pereira, «Inverno no Próximo Oriente», «Com Esta Chuva», «Ver Uma Mulher» e agora o interessantíssimo «Escritos Africanos», uma súmula de escritos que ela fez no Congo e com passagem por Portugal. Entretanto a Granito tinha editado «Novela Lírica» com prefácio de Vilas-Boas, tradução de Lídia Barros e revisão de Ana Luísa Amaral, isto em 2002; a Tinta-da-China editou-lhe, em 2008, «Morte na Pérsia», com tradução de Isabel Castro Silva. Esperemos outros que estejam a ser trabalhados para publicação.

Annemarie Schwarzenbach não é aquilo que chamamos vulgarmente como uma escritora fácil. Por vezes contraditória, introspectiva, algo frágil, violentamente teimosa para o que considerava essencial para a sua consciência, morfinómana, bissexual, «ovelha negra» de uma família suíça com simpatias nazis e muito rica, expulsa de casa pela mãe que quase a renegou, e, além disso, antifascista. Foi jornalista e fotógrafa tendo um espólio de perto de oitocentas fotografias que registou nas suas inúmeras viagens por todo o mundo.

Estes «Escritos Africanos» não vivem só de África, embora centrados no Congo ex-Belga, hoje Zaire. Para lá chegar em 1941, em plena II Guerra Mundial, teve de passar em Lisboa vinda dos EUA onde foi internada num hospital psiquiátrico e expulsa devido a uns chamados então «escândalos» com a não menos escandalosa menina von Opel. Vê-se, então, numa capital portuguesa que ela acha, nada menos, como idílica. Dê-se-lhe o devido desconto ao estarmos em plena guerra pois a cidade estava literalmente ocupada por espiões, oportunistas, milhares de refugiados em trânsito e em busca de um simples visto de saída, o que dava a Lisboa um ar de cosmopolitismo que de todo não tinha, se não fosse a situação política mundial. Além disso, também mal vista no seu país pela família e impedida de lá permanecer muito tempo, escolheu a «neutralidade» fictícia de Portugal. Teve tudo para ser bem recebida aqui. António Ferro conheceu-a e congratulou-se com a sua estadia por Lisboa, escrevendo então ao embaixador suíço (as nossas exportações para lá, quase decuplicaram em período de guerra, transformando igualmente os portos de Lisboa e Leixões como portos abertos suíços para todo o mundo) que o governo português veria com bons olhos que ela fosse a correspondente de jornais suíços por cá. Talvez seja essa a razão ao ver, com alguma surpresa para o comum dos portugueses, em alguns dos seus escritos jornalísticos, uma toada laudatória para com Salazar (que o não considera fascista, embora tenha referido a existência de violência por parte da polícia política ou a enorme pobreza das pessoas) ou para com o Mocidade Portuguesa, nomeadamente a feminina. No entanto, quando se debruça sobre a política do burgo, este registo literário não é o habitual nela. É pura propaganda política dir-se-ia saído directamente do gabinete de António Ferro. Teria sido propositado por parte da escritora? O que sabemos é que em viagem para o Congo era necessário um visto dado em Portugal e em conexão com a Bélgica entretanto ocupada pelos alemães, para além de uma escala obrigatória em Luanda para voltar num barco português.

Em 1941, Annemarie Schwarzenbach vê-se a partir de Lisboa rumo ao Congo fazendo escala na Madeira, nas Canárias e em S. Tomé num navio português: O Colonial. Chega ao Congo, na então Leopoldville e choca-se não só com o clima, mas com a população branca que lá está para extrair o máximo de lucro à custa de «dar» ao povo congolês uma miséria endémica e uma repressão brutal. Tem aqui em «Escritos Africanos» um libelo claro e violento para com o colonialismo. As autoridades fazem-lhe a folha: caluniam-na em privado e em público quer com a sua vida privada, quer com a sua vida pública (perdoe-se a repetição), dando a entender que seria uma espia ao serviço dos nazis devido ao seu estranho casamento com um diplomata francês de Vichy e de que ela se encontrava separada. Além disso, fala e escreve fluentemente alemão. O seu manuscrito de Das Wunder des Baums, ainda não editado em português, está nesta língua e em tempo de guerra, para mais com administração colonial de De Gaulle por parte da «França Livre», tudo serve para eclodir a desconfiança para com Schwarzenbach e, por fim, é convidada a sair do país levando o manuscrito considerado ainda assim injurioso para com os resistentes. Parte então, subindo o rio Congo (o principal livro de Conrad estará presente nesta aventura), para as montanhas e escreve isolada durante algum tempo. Tem apoio de poucos amigos e os que sempre estiveram com ela, como Klaus Mann, afastam-se devido à sua adição à morfina. No entanto, Ella Maillart continua sua amiga até ao fim escrevendo sobre ela (terá o nome de Christine) em «A Vida Cruel».

Annemarie Schwarzenbach tem uma vida extraordinária embora inconstante e errática e é isso que nos aproxima dela e das sua longas viagens. Em pleno estado de guerra, com perigos iminentes, vai juntamente com Ella Maillart a Cabul (ela encontra-se lá quando o conflito estala), passando por Teerão, Damasco e a Síria, Bagdade e Iraque, o Próximo Oriente, incluindo o Líbano e conhece a Turquia. Conheceu Moscovo em 1934 no Congresso de Escritores e criticou duramente aspectos sociais e o racismo nos EUA. Escreve pouco sobre a sua terra natal (aborda-a em O Vale Feliz) e muito sobre si e a sua relação com os outros e com o mundo. Quando se preparava para voltar a Portugal para assumir o cargo de correspondente de jornais suíços, e numa ida fugaz a Zurique, morre num acidente de bicicleta. Estávamos em 1942 e ainda faltavam alguns anos para ver as «forças do mal» serem derrotadas pelos Aliados que, provavelmente, nunca confiaram nela.

Depois de ter percorrido alguns passos de Annemarie Schwarzenbach, arrisco-me a apresentar-vos um extracto de um conto estranhíssimo (movido pela morfina e pelo isolamento nas montanhas do Congo?). Chama-se «A Cratera dos Animais»:

«Pensas, talvez, que o esqueci, pois dentro em breve terão passado quatro meses desde que me falaste do assunto e eu prometi trazer-te um casal dos teus animais favoritos. Acho que era uma espécie de pequenos leões-marinhos ou porcos-do-mar, e claro que se tratava apenas de uma brincadeira e de uma forma de me aligeirar a despedida. Mas já antes ouvira falar de porcos-do-mar, foi alguém que se queria deitar ao lado deles em bancos de areia, numa ilha com um sol de verão e um vento salgado, vindo do mar. Quando relembro isto, oiço sempre o sussurrar da palha e vejo a sua cabeleira amarela e um céu alto, magnífico. Aí a noite demorava a cair, mesmo depois de o sol se pôr e de uma leve neblina se espalhar sobre os prados; porém, o ar era azul-claro e límpido e a cor azul expandia-se para todo o lado. Ainda sei como era fácil respirar fundo, como se estivéssemos cheios de esperanças, e regressávamos ao luar pela larga estrada entre os recintos relvados, cada vez mais pequenos, e as casas brancas nos jardins cheios de roseiras bravas, e ficávamos ainda durante muito tempo sentados em redor da fogueira.
Aqui, em África, nunca se fala em estações do ano e, no entanto, também é verão, os dias despontam e desvanecem-se e é preciso sobreviver-lhes como em toda a parte do mundo. Mas só raramente se recorre à língua e se eu fizesse uma pergunta, por exemplo sobre a cratera dos animais, ninguém me entenderia. Às vezes, julgo que eu própria me modifiquei. Esqueci-me de muita coisa, perdi palavras e nomes, ou digo-os em voz alta e soam a oco. É como se no Congo se falasse de inverno e deverão em vez de chuva e seca. É como se se tivesse perdido o ouvido, como se se andasse cegamente às voltas de olhos abertos, como se já nada se soubesse de outras atmosferas e se lutasse apenas pelo próximo palmo de vida num círculo de sombras. (...)» Págs. 109,110.

quinta-feira, abril 27, 2023

2 livros de Walser - «O Ajudante» e «A Rosa»

 

Relógio D'Água, 2006 e 2004 respectivamente.
Tradução de Isabel Castro Silva para «O Ajudante»
e Leopoldina Almeida para «A Rosa»
Após ler estes dois livros de Robert Walser (eu dizia anteriormente que tomar conhecimento da vida deste autor suíço me iria obrigar a conhecer melhor a sua produção literária) fiquei com a sensação nítida que temos diante de nós um escritor de excepção. Mesmo que ele recuse o epíteto e gostasse de ser esquecido, absorvido pelo tempo e pela morte, a percepção que ele tinha do que deveria ser a literatura e a poesia veio confirmá-lo como insubstituível, incomparável. Foi percursor do estilo de Kafka, Musil e até de Wittgenstein e «descoberto» por Agamben, Susan Sontag, Sebald entre outros, mas é único na procura do entendimento das pequenas coisas da vida, das palavras com sentido preciso, sem qualquer adjectivo a mais ou a menos, apresentando uma ironia desarmante e um olhar para si próprio que se reflecte nos outros nos seus dramas, nas suas alegrias, ou no seu desespero com as várias faces que se lhes apresentam na vida.

A leitura destes dois livros, os primeiros que li de Robert Walser (outros seguir-se-ão obrigatoriamente) apresentam-me duas hipóteses que passo a expôr: em primeiro lugar a sua ligação que pende entre o erotismo, o galanteio inofensivo ou a admiração longínqua para com as mulheres de todas as condições sociais; em segundo lugar, a sua ligação, talvez efémera às teses socialistas do seu tempo, embora a tenha apresentado mais tarde com algumas reticências «Viviam-se então tempos extraordinários num mundo extraordinário. Uma ideia a um tempo misteriosa e familiar, a que chamavam ''socialismo'', lançara-se como uma frondosa planta trepadeira para dentro das cabeças e em torno do corpo de todos, mesmo dos mais velhos e experientes, de tal modo que tudo o que era poeta ou escritor, tudo o que era novo e precipitado a agir e decidir se ocupava desta ideia.» (pág.104 de «O Ajudante»); em terceiro, a chamada compaixão pelo outro, pela solidão ou fraquezas adictas, sejam o álcool ou o jogo, pelo desemprego e pela miséria que também ele experimentou; por último a necessidade de um lar que lhe faltou e que vem bem expresso em «O Ajudante» onde experimenta em casa dos Tobler uma verdadeira família que se esvai paulatinamente numa força centrípeta e implacável da ruína económica e pessoal. 

A sua ligação à Natureza, bem transcrita nos seus livros, e onde encontra a paz que procura acontece quer em «O Ajudante», quer em «A Rosa», mas também com uma força evidente nas «Caminhadas com Robert Walser» de Carl Seelig, seu tutor, quando Walser se encontrava no hospício de Herisau. 

Sobre este último, refiro-me a Carl Seelig, creio ter percebido a falta de referência em «Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos» editado este ano (2023) pela Assírio & Alvim e sob o rigor e responsabilidade de Ricardo Gil Soeiro que o antologiou, comentou e traduziu. De facto, já em «Caminhadas com Robert Walser», tinha reparado numa transcrição - quase são actas desses mesmos registos! - que Seelig faz de um sarcasmo de Walser quando este lhe pergunta como se sente, como tutor, a gerir os seus direitos de autor! Olá... essa ironia não me passou despercebida e creio que houve ali uma certa amargura (de não ter casa ou dinheiro seu), tal como a sua recusa em escrever ou em teimar na realização continuada de pequenos trabalhos motivacionais no hospício (dobrar envelopes, por exemplo), sendo até rude quanto aos elogios que Seelig lhe faz, como a uma «carreira» literária ou referindo a admiração e crítica elogiosa registada em jornais pela sua obra. Soube, pela leitura de «O Ajudante» que Seelig após a morte de Robert Walser em 1956 mandou destruir uma enorme quantidade de pequenas anotações quase cifradas que ele escrevia em folhas de jornais, simples papéis rasgados, recibos, etc. Ainda bem que a sua ordem não foi levada a cabo e essas impressões foram, de facto, salvas. Ao contrário de outros, cujos poemas, notas, mesmos novelas ou romances ficaram destruídos para sempre. Não consigo esquecer o que aconteceu ao espólio de António Maria Lisboa, por exemplo, cujo pai e irmã queimaram o que encontraram escrito por esse poeta solar. Mas repito que só a leitura do trabalho de Robert Walser pode dar-nos uma visão global da importância universal deste escritor suíço.

quinta-feira, abril 20, 2023

«Caminhadas com Robert Walser», de Carl Seelig

BCF Editores, 2019. Trad. Bernardo Ferro. Prefácio à edição portuguesa por Hans Ulrich Obrist

Em 1957, um ano após a morte por ataque cardíaco de Robert Walser, numa dessa inúmeras e longas caminhadas que realizava de um modo quase obcecado pelas montanhas do cantão alemão da Suíça, o seu tutor e amigo Carl Seelig edita as suas memórias dessas mesmas caminhadas a que se juntaram conversas, ideias e pensamentos daquele autor entretanto internado no sanatório de Herisau. Esse internamento durou vinte anos, sem que Walser tenha escrito alguma coisa. Com um espírito tão particular e entremeado com alguns episódios esquizofrénicos conseguiu um registo literário único em que recorre várias vezes à observação minuciosa da cor, da natureza, dos objectos, das pequeníssimas coisas da vida, recusando toda e qualquer vontade de atingir epítetos literários ou atingir o grau de «grandeza literária» que ele abominava. Quanto mais se conhece este autor, mais queremos saber sobre ele. Deparamos, então, com esse pensamento através da contribuição de Carl Seelig que juntou apontamentos (alguns mais antigos perderam-se, infelizmente)  e registos dessas mesmas caminhadas. 

As opiniões versam sobretudo sobre si próprio e na vida, algo agitada para um jovem de 20 anos, que esteve em Berna e Zurique e nas suas relações com a família que ele não gostava de invocar, principalmente a relação que manteve com o irmão mais velho Karl Walser, que foi um pintor importante e que faleceu antes dele, e com a sua irmã Lisa que ele «culpava» do internamento compulsivo em Herisau. Mas tinha por ela um amor particular, realçando o seu carácter católico como a causa dessa decisão. Fala a Seelig por várias vezes da condição de poeta e escritor o que não deixa grandes encómios e elogios aos seus contemporâneos, fossem eles alemães, americanos, suíços, russos, franceses ou ingleses. Não lhes perdoa a subserviência para os poderosos e a arrogância para com os leitores. Refere-se igualmente a Hölderlin e a os poetas e escritores que foram dados como loucos. Durante a II Guerra Mundial, enquanto caminha com Seelig desenvolve as suas teorias para com Hitler que detesta com a sua vulgaridade e violência inane e Estaline que tem tanto de génio militar, como de sanguinário.

Sobre si próprio: «Houve sempre conspirações à minha volta para repelir vermes como eu. Aquilo que não cabe no mundo de cada um é sempre nobre e orgulhosamente repelido. Pela minha parte nunca ousei forçar a entrada nesse mundo. Não teria sequer coragem para espreitar para o seu interior. Foi por isso que vivi a minha vida à margem das existências burguesas. E não foi melhor assim? Não terá o meu mundo também direito a existir, ainda que se trate, aparentemente, de um mundo mais pobre e impotente?» (pág.50)

Robert Walser para Carl Seelig: «Sabe porque não me tornei um escritor de sucesso? Quero dizer-lhe: é que não possuía um instinto social suficientemente desenvolvido. Não representei o suficiente para a agradar à sociedade. (...) A minha estreia literária gerou logo a impressão de que os bons burgueses me aborreciam, de que não os achava bons o suficiente. E eles nunca o esqueceram. Consideraram-me sempre um zero à esquerda, um inútil. Deveria ter misturado nos meus livros um pouco de amor e tristeza, de solenidade e de aprovação (...)» (pág.59)

Sobre a velhice: «Só uma percentagem extraordinariamente pequena de pessoas sabe apreciar a velhice. E, contudo, ela pode oferecer grandes alegrias. É sabido que o mundo tende a regressar, sempre de novo, às coisas simples, elementares. Um instinto saudável leva-o a opor-se que a excepção ou a estranheza se tornem dominantes. A voracidade inquieta com que se deseja o sexo oposto extingue-se e passa-se a desejar apenas o conforto da natureza e a beleza das coisas concretas, que estão ao alcance de quem as procura. Livres, enfim, de toda a vaidade, abandonamo-nos à grande quietude da idade, semelhante a um reflexo suave da luz do sol.» (pág.80)

segunda-feira, abril 17, 2023

«Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos & outros brevíssimos textos sobre quase nada», de Robert Walser


Assírio & Alvim, Março de 2023
Selecção, tradução e prefácio de Ricardo Gil Soeiro
Duvido muito que alguém que leia este livro extraordinário e não conheça suficientemente o autor suíço, não procure a sua bibliografia e a devore de imediato. Ficará a saber que alguns já se encontram esgotados, por isso será melhor recorrer aos que ainda existem nas livrarias e, nas feiras do livro ou alfarrabistas, tentar a hipótese de conseguir alguns exemplares que já não se encontram no tal mercado.

Percebemos que o responsável desta edição foi Ricardo Gil Soeiro que a traduziu do alemão (cantão a que pertenceu Robert Walser) e optou pelo diminutivo final -ito. Creio não ter sido por acaso (nesta tradução excelente, nada o é, diga-se) e este sufixo é ele próprio muito mais acolhedor e terno que o -inho muito mais comum em português. A selecção dos vinte textos para este livrito estende-se de 1901 a 1932 e nota-se a grande coesão e coerência literária dos contos e pensamento de Robert Walser. As referências que Ricardo Gil Soeiro utilizou demonstram a importância do poeta, citando no seu prefácio Agamben, Walter Benjamim, Calvino, Canetti, Sebald, Susan Sontag ou Vila-Matas, entre outros.

O autor teve uma vida atribulada passando 20 anos em hospícios e 25 sem nada escrever. Aliás, convenço-me cada vez mais que os hospícios e sanatórios foram o gulag da Mitteleuropa para poetas e indesejáveis. Os que tiveram sorte, porque os que não tinham dinheiro iam para a prisão sem o mínimo das comodidades que apresentavam as famílias, como as de Walser, com alguns recursos. É uma figura muito difícil de compararmos (e porque o devíamos fazer?) com alguém do seu tempo. Adverso à chamada «grandeza literária» ou à exposição, fazia longas caminhadas de horas por bosques e pelas estradas observando e discorrendo sobre as pequenas coisas insignificantes com um amor e carinho inexcedíveis. Um leitor que tenha o mínimo de sensibilidade sabe do que falo quando deparamos com a descrição de um lápis como este excerto:
«(...) No quer diz respeito ao pequeno lápis, aquilo que o torna tão valioso, como já todos sabemos, é quão afiado ele se vai tornando, até que não haja mais nada para afiar e, tornando inutilizável pelo uso impiedoso, o deitamos fora, pelo que não ocorre a ninguém, nem mesmo de longe, expressar uma palavra de apreço e de agradecimento pelos seus múltiplos serviços. O irmão do lápis chama-se lápis azul e, como já tem sido dito de tempos a tempos, os dois desafortunados lápis amam-se como irmãos, estabeleceram entre si uma frágil e profunda amizade para toda a vida.(...)» (pág.20)
Ou sobre si próprio:
«(...) Desejo, pois, ser ignorado. Se, ainda assim, alguém quiser prestar-me atenção, pela minha parte não prestarei atenção àqueles que prestam atenção. A escrita dos meus livros anteriores não foi forçada. Creio que escrever muito não garante uma escrita de qualidade. E que não me venham falar dos ''primeiros livros''! Que estes não sejam sobrevalorizados e que se tente compreender o Walser vivo, tal como ele é.» (pág. 121)

Finalizo com um excerto do prefácio de Ricardo Gil Soeiro (ele próprio um poeta) que nos dá uma ideia mais aproximada e real da escrita de Walser: «(...) Uma espécie de Paul Klee da prosa (a imagem é de Susan Sontag), Walser esculpe límpidos parágrafos, frases musicais em filigrana que fluem como água escorrendo entre os dedos. Adoptando um olhar minucioso sobre as ninharias do mundo, as suas páginas exumam uma desconcertante ternura, fina tapeçaria escrita em sotto voce simultaneamente graciosa e amarga, como sublinha Walter Benjamim.
Enrique Vila-Matas definiu-o, com propriedade, como pioneiro da arte da desaparição, incluindo-o em Bartleby e Companhia, na galeria dos mestres da recusa, na longa linhagem dos partidários do Não. (...)» (pág.10/11).