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segunda-feira, dezembro 23, 2024

«Como numa História de William Irish», Ana Teresa Pereira

 

Relógio D'Água, Julho de 2024
Uma revisitação aos filmes policiais pelo texto literário muito particular de Ana Teresa Pereira que teimamos em ler. Comecemos pelo título: William Irish é um escritor americano de policiais «pulp» e que, segundo sei, tem só um livro publicado em Portugal pela Vampiro - «A Dama Fantasma». Foi também antologiado num livro de contos. Escusam de procurar nas livrarias porque só o encontrarão em alfarrabistas. Ana Teresa Pereira continua, como sabemos de outros livros anteriores de que já falámos aqui, no registo muito próximo do policial, mas igualmente no onírico, num mundo só dela, extremamente cinematográfico. Alfred Hitchcock, e os seus filmes mais emblemáticos, digamos que é o marco sempre presente no decorrer das cenas que compõem o livro, embora as personagens que são apresentadas sejam elas próprias o centro que faz desenvolver a história.

Narrativa essa que se divide em duas partes essenciais: a primeira, aquela que julgamos ser o decorrer de uma acção, ainda não policial mas psicologicamente densa, entre um homem e uma mulher. Durante a leitura, a habilidade literária de Ana Teresa Pereira, remete-nos para uma sensação de «dejá-vu», de cenas que nós já vimos em alguma parte, nalgum lugar. Sem termos a certeza, ou seja, na dúvida clara, lembramo-nos dos filmes entre os anos 30 a 50 do século passado. Todo o ambiente criado leva-nos a isso, a uma espécie de procura das razões que movem a mulher e o homem, e estamos ainda na primeira parte. E sabemos como Ana Teresa Pereira sabe impor-nos um ambiente de um parque, de uma casa, de cheiros particulares, de flores ou de vestuário. Na segunda parte do livro, virá a descoberta de que estamos dentro de um filme, que as personagens são actores e actrizes que embora não confundindo o seu papel com os seus próprios desejos ou objectivos têm de seguir o guião traçado por Hitchcok. É uma trama que se torna complexa, porque, segundo julgo, as características dos actores chocam, por vezes, na impressão psicológica das personagens vincada pelo realizador. É esta a tensão que percorre todo o livro.

«Vertigo», principalmente este filme, veio-me à memória (se lerem o livro, logo no início, perceberão porquê) durante a leitura e pelo seguimento do seu guião, mas «Rebeca», «Sabotagem», «Psycho» ou «Os Pássaros» também lá estão marcados, seja pelo decorrer do romance, seja pela referência múltipla a realizadores, filmes e a actores e actrizes que todos nós conhecemos e que se transformaram numa memória que a autora soube emergir para cada um de nós. 

alc

domingo, junho 23, 2024

«Os Perseguidores», Ana Teresa Pereira

 

Relógio D'Água, Dezembro de 2020
Um livro de 2020 de Ana Teresa Pereira, cuja obra foi já aqui referida várias vezes. Há aqui uma espécie de impossibilidade: por mais que tentemos conhecer a autora e a seguirmos regularmente, mais se torna um mistério insondável. Essa estranheza reside no grande depuramento das palavras que a autora nos apresenta, mas que é inversamente proporcional aos sentidos de quem a lê. Tento explicar melhor se me for possível: neste livro, tal como em outros, existem odores que advêm das flores de jardins sempre presentes, cultivados com um rigor impressionante, à inglesa, e que é impossível ignorar. Sentimos esses cheiros em cada página dos seus livros e particularmente neste. Realizamos as imagens dos móveis, das toalhas, das janelas abertas para dias luminosos ou para os lúgubres. Sentamo-nos a ler durante uma tempestade com o odor da terra molhada. Isto não é para todos os autores, daí a particularidade das leituras fantásticas em Ana Teresa Pereira. O ambiente também nos chama para o interior de cada conto ou cada frame aposto numa longa película, porque a sua leitura é claramente cinematográfica e musical. Daí os westerns sempre presentes, os policiais de John Dickson Carr ou de S.S. Van Dine (Ana Teresa Pereira recusa, e muito bem, ser uma literatura menor), as charnecas nevoentas de Sherlock Holmes, o olhar, o corpo e os olhos de Audrey Hepburn, uma senha quase presente para o desejo sexual oculto ou real, o jazz de Art Pepper ou de Charlie Mingus e o maravilhoso Kind of Blue de Miles Davis. 
Não se pense, contudo, que há uma leveza no ar dentro destes contos (alguns aproximam-se mais da prosa poética, mas isso é outro assunto). Antes pelo contrário: existe uma carga erótica intensa que se pressente pela presença constante dos corpos, da cor dos cabelos, da expressão dos olhos dos protagonistas, das formas coladas aos vestidos, das mãos que se podem transformar em garras, nos diálogos tão curtos como intensos, como também há igualmente na crueldade das canções das crianças (não é por acaso que ela chama Lewis Carroll) ou na constante impossibilidade de amor destes perseguidores ou perseguidoras ao procurar uma felicidade que afinal se encontram perto de nós em tudo o que tocamos, solitariamente, em objectos ou em pessoas. Não é por acaso que o toque sensorial é tão importante nos livros da autora e a que este não foge à regra.

«Como é possível amar tanto e estar tão sozinho?» é a pergunta que se nos arremete, uma verdade que já vem do princípio dos tempos (lembro-me de Dante e Camões) e que nos acompanha desde sempre, presente na literatura e na poesia, mas da que nos rasga, que não nos deixa indiferente. Com Ana Teresa Pereira, esta pergunta some-se, em ondas, no fim de termos lido um livro dela. Aparentemente, desaparece. Mas não.

alc

sábado, dezembro 02, 2023

«As Personagens», Ana Teresa Pereira


Relógio D'Água, Julho de 2023, 156 pp
Não é a primeira vez que escrevo sobre Ana Teresa Pereira, nem será certamente a última. A atracção do seu mundo particular, arrisco-me a dizer, é uma constante para um leitor que saiba conjugar o fantástico, o conto breve, embora este seja uma estrutura de um romance com capítulos religados entre si, como é o caso de «As Personagens», e o mistério que envolve toda a trama de um encontro fortuito (ou preparado antecipadamente?) entre quatro pessoas que se encontram numa noite de tempestade, nebulosa, fria e que se refugiam numa casa cinzenta, em contraste com uma fogueira acolhedora. Contraste e negação que se encontram em permanência no livro. A partir daí conseguimos vislumbrar as características psicológicas e o erotismo suave e emergente de duas mulheres e dois homens que tentam fugir ao imposto pelas normas sociais em forma de guião cinematográfico que, ao que se julga, é abandonado. Considero a necessidade de «entrar» neste conto tão estranho, como belo, conhecendo antecipadamente os Nocturnos de Chopin (serão os de Maria João Pires em particular?), as névoas constantes das charnecas de Conan Doyle ou alguns dos filmes de Hitchcock. Inquietante? Claro que o é, e uma história de Ana Teresa Pereira remete-nos para o desconforto e dúvida, através de uma linguagem depurada e diálogos credíveis. Sem querer revelar muito deste primeiro conto, não há uma só casa, mas uma outra dentro dela. Mas a possibilidade que Ana Teresa Pereira nos apresenta a meio do conto e pela voz de Diana (talvez a personagem central, mas que desaparece nos capítulos seguintes) é verdadeiramente inquietante: «-Talvez o mundo interior seja formado por pousadas, com dois lados iguais, rodeadas pelo nevoeiro, isoladas umas das outras...». Pousadas, labirintos, quartos aparentemente inabitados somos todos nós. 
«Talvez...talvez ainda haja um lugar para onde ir.» (pág.31)

Neste livro de Ana Teresa Pereira coexistem labirintos físicos e psicológicos que permanecem em cada um de nós e na relação com os outros; são as máscaras (personas) que utilizamos quer na leitura de um livro, quer no escapismo a que nos propomos nas diversas personagens de um filme: 
«Ela gostava por vezes de ler um livro como quem faz amor., excluindo o pensamento, sem o pensar, quase não o compreendendo. Ler um livro apenas com o corpo. Sentir prazer físico ao ver um filme, ao ver a chuva caindo em latas velhas, sentir vontade de gemer alto. Seria ele capaz dessa forma de erotismo?» (pág.58). 
Sabemos que assim é na realidade vivida, mesmo que a irrealidade se imponha como as névoas, a chuva ininterrupta ou as tempestades constantes em toda a acção do livro. É esse o perímetro, a paisagem, que nos leva aos labirintos de nós próprios, alguns sem saída possível como sejam os jogos de sedução e de crueldade entre os homens e mulheres que povoam as narrativas soltas de «As Personagens». Essa crueldade que nos é mostrada não é feita de sangue, mas de ímpetos e aproximações em que as palavras têm um papel fundamental. Estas, cortam como facas: 
«Quando as palavras vêm cheias de fantasmas, elas metem medo. Quando as palavras abrem alçapões de subterrâneos repletos de fantasmas, quando escrever é ver-se ao espelho e não gostar...as palavras metem medo. Quando se aprendeu a ver no fundo das palavras o que elas escondem, escrever já não pode ser um acto inocente.
Escrever nunca é inocente.» (pág.52)

E quando esses labirintos a que nos atrevemos a entrar, carregados de erotismo e crueldade, são construídos por altas muralhas a que não vemos a percepção do fim, em nós ou nos outros, nos que amamos, Ana Teresa Pereira atira-nos com a violência inerente às personagens que povoam o livro com um «Rosebud», síntese possível de uma vida plasmada, a preto e branco, em Citizen Kane.

«- É um mundo estranho, o da minha imaginação. Por vezes parece-me que vivo duas vidas, e é terrível passar de uma para a outra. Quando deixo a caneta e venho para fora, sinto-me perdida durante muito tempo. É...uma sensação de irrealidade total.» (pág.105)

Qualquer leitor que leia os livros de Ana Teresa Pereira, intui (a intuição é um pressentimento da verdade, como é referido algures no livro), porque sim, que ela é extremamente genuína, verdadeira, o que a transforma numa grande escritora. Deixa-nos este livro com uma doce inquietação.

terça-feira, janeiro 10, 2023

«Como se o Mundo Existisse», de Ana Teresa Pereira

Acompanho esta autora desde que iniciou o seu processo de escrita nos anos 80. O registo literário não mudou muito, por isso posso dizer sem me enganar (demais) que é das escritoras mais coerentes e mais sólidas no estilo que mantém. Felizmente. Há um verdadeiro mistério na sua escrita e que Jorge Silva Melo, nos lembra em texto colocado na contracapa deste «Como se o Mundo Existisse». Diz ele: «Que neblina é esta que nunca levanta nas histórias sem fim de Ana Teresa Pereira, que abismos (de paixão?)? E, no entanto, são nítidos os contornos, nada se esfuma, vemos tudo, as cores vibrantes dos vestidos, as jarras, corredores, portas, escadas, portões, jardins, labirintos. Que espelhos são estes, sempre lá, mas se abrem portas, nos camarins, nos quartos alugados, nos hotéis? Que teatros são estes onde se ensaia? Que homens são estes, estátuas monstros? Leio sem parar estas histórias misteriosas (são contos? apontamentos?), são uma janela sempre. Aqui, com Ana Teresa Pereira, ler é ver, voltar a ver, voltar a ler.»

Por mim, bastavam estas palavras tão certeiras, tão nítidas de Jorge Silva Melo para parar por aqui deixando-vos a descrição de «Como o Mundo Existisse» pela mão de um dos maiores autores e encenadores contemporâneos entretanto falecido. Contudo, julgo que esta neblina surge também de Londres e envolve as personagens de Ana Teresa Pereira com uma mestria como poucos o sabem fazer. Esse nevoeiro é tanto urbano como rural e as personagens são claramente (porque a autora não tenta esconder-nos) de Conan Doyle, das irmãs Brontë, de Enid Blyton ou de John Dickon Carr (alguns policiais dele estão na nova coleção Vampiro, disponíveis). Ana Teresa Pereira fala-nos destes autores (cita muitos mais) e das suas personagens com um carinho indiscutível e que convidam já a conhecer esses mistérios que envolvem as personagens que tiveram vida em atores de Hollyood ou em séries da BBC e que conhecemos bem. Tem uma ligação tão íntima com o cinema e com os livros policiais que dificilmente não acabamos a sua leitura para saltar para uma estante próxima e devorar os policiais ou ir aos dvd dos filmes de Hitchcock escondidos em qualquer caixote na garagem, visto que agora vê-se cinema por streaming no espaço exíguo de um ecrã de TV, coisa que deve ser quase impossível ver Ana Teresa Pereira a fazê-lo. Leiam este trecho da autora: «John Franklin Bardin escreveu que não há diferença entre um romance policial e um romance ''sério'' (o que deveria ser evidente, mas em 2021 ainda não é). Há bons livros e maus livros. Um bom livro é o que nos faz experimentar um mundo novo. Devil Take é uma experiência muitíssimo perturbadora. Como observou Patricia Highsmith, todos nós, nalguma altura da vida, conhecemos estes sentimentos, mas damos um passo atrás e não nos atrevemos a pensar no que teria acontecido se não o fizéssemos; os que conseguirem ler este romance não o esquecerão tão cedo. (...) pág.113» Essa perturbação é inegável nos livros de Ana Teresa Pereira. Nuns, mais, noutros menos certamente, mas só quem conhece profundamente toda a trama de obras de uma grande carga psicológica pode escrever assim.

E deixo-vos com este belíssimo trecho de «Como se o Mundo Existisse»: 
«Sento-me na mesa, fazendo cair o cinzeiro, e começo a abanar as pernas para trás e para a frente. Meu amor, é a redenção que procuras, que palavra vazia, a redenção através de um anjo que foste descobrir não sei onde? Ele olha para mim e não sei o que vê. A rapariga com o feio casaco comprido, o rosto inexpressivo, os olhos baixos e traiçoeiros. Ou a mulher de calças pretas e camisa branca, o cabelo preso na nuca, que parece um rapazinho com o rosto de um anjo de Botticelli. ''Fiery the Angels rose, and as they rose...'', o poema de Blake que uma de nós aprendeu quando estava a estudar; a tempestade chegou e os anjos ergueram-se à sua rente. (pág.59)». São estes anjos, omnipresentes nos livros de Ana Teresa Pereira que nos levam a territórios de não-lugares, às terríveis obsessões das personagens que provavelmente constroem o maravilhoso dos seus livros.

Relógio D'Água
Junho de 2021

 

segunda-feira, setembro 23, 2013

Ana Teresa Pereira e o elogio de José Tolentino Mendonça

Foto de José Miguel Rodrigues

Há algo de muito justo e nobre no último artigo de José Tolentino Mendonça na Revista do Expresso desta semana, quando se refere a Ana Teresa Pereira como «uma das mais extraordinárias escritoras (que) continua a ser uma perfeita desconhecida». Assim é. Pessoalmente, nunca compreendi este silêncio à volta da autora, mesmo depois de ter ganho o Grande Prémio de Romance e Novela da APE de 2012. Mas deparo-me, mesmo assim, com outro mistério: é que já não é o primeiro prémio, nem o segundo, nem sequer o terceiro que ganha. Tem perto de trinta livros publicados e conheço-a desde os anos 80 fidelizando um público entre o qual me incluo, desde a célebre colecção da Caminho policial. Avanço outras hipóteses: Ana Teresa Pereira tem uma escrita gótica, nada fácil, rebuscada e muito centrada nas teias do corpo e do invisível, das emoções. Mas não me fio que seja isso, porque há quem escreva mal e tenha a distinta lata de pensar que o faz e ainda por cima seja reconhecido. Avento mais uma: viver na Madeira, com as tais insularidades que se pagam caro, no afastamento dos círculos literários do continente. Mas não, não pode ser isso, porque há vários exemplos que o negam. E, paulatinamente, vejo-me na contingência de dar razão a Paulo Kellerman, outro escritor premiado com um APE e a Henrique Manuel Bento Fialho que já escreveu sobre isso. É possível que este «esquecimento» tenha a ver com a escolha pelo conto que Ana Teresa Pereira realizou e, ainda por cima, com uma grande qualidade literária. E tenho receio que tenha razão o Paulo quando diz que, neste país, o conto é um estilo maldito. Talvez seja, mas existir José Tolentino Mendonça que a fez lembrar dá-me outro alento e pensar que ainda há justiça por cá.