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segunda-feira, abril 17, 2023

«Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos & outros brevíssimos textos sobre quase nada», de Robert Walser


Assírio & Alvim, Março de 2023
Selecção, tradução e prefácio de Ricardo Gil Soeiro
Duvido muito que alguém que leia este livro extraordinário e não conheça suficientemente o autor suíço, não procure a sua bibliografia e a devore de imediato. Ficará a saber que alguns já se encontram esgotados, por isso será melhor recorrer aos que ainda existem nas livrarias e, nas feiras do livro ou alfarrabistas, tentar a hipótese de conseguir alguns exemplares que já não se encontram no tal mercado.

Percebemos que o responsável desta edição foi Ricardo Gil Soeiro que a traduziu do alemão (cantão a que pertenceu Robert Walser) e optou pelo diminutivo final -ito. Creio não ter sido por acaso (nesta tradução excelente, nada o é, diga-se) e este sufixo é ele próprio muito mais acolhedor e terno que o -inho muito mais comum em português. A selecção dos vinte textos para este livrito estende-se de 1901 a 1932 e nota-se a grande coesão e coerência literária dos contos e pensamento de Robert Walser. As referências que Ricardo Gil Soeiro utilizou demonstram a importância do poeta, citando no seu prefácio Agamben, Walter Benjamim, Calvino, Canetti, Sebald, Susan Sontag ou Vila-Matas, entre outros.

O autor teve uma vida atribulada passando 20 anos em hospícios e 25 sem nada escrever. Aliás, convenço-me cada vez mais que os hospícios e sanatórios foram o gulag da Mitteleuropa para poetas e indesejáveis. Os que tiveram sorte, porque os que não tinham dinheiro iam para a prisão sem o mínimo das comodidades que apresentavam as famílias, como as de Walser, com alguns recursos. É uma figura muito difícil de compararmos (e porque o devíamos fazer?) com alguém do seu tempo. Adverso à chamada «grandeza literária» ou à exposição, fazia longas caminhadas de horas por bosques e pelas estradas observando e discorrendo sobre as pequenas coisas insignificantes com um amor e carinho inexcedíveis. Um leitor que tenha o mínimo de sensibilidade sabe do que falo quando deparamos com a descrição de um lápis como este excerto:
«(...) No quer diz respeito ao pequeno lápis, aquilo que o torna tão valioso, como já todos sabemos, é quão afiado ele se vai tornando, até que não haja mais nada para afiar e, tornando inutilizável pelo uso impiedoso, o deitamos fora, pelo que não ocorre a ninguém, nem mesmo de longe, expressar uma palavra de apreço e de agradecimento pelos seus múltiplos serviços. O irmão do lápis chama-se lápis azul e, como já tem sido dito de tempos a tempos, os dois desafortunados lápis amam-se como irmãos, estabeleceram entre si uma frágil e profunda amizade para toda a vida.(...)» (pág.20)
Ou sobre si próprio:
«(...) Desejo, pois, ser ignorado. Se, ainda assim, alguém quiser prestar-me atenção, pela minha parte não prestarei atenção àqueles que prestam atenção. A escrita dos meus livros anteriores não foi forçada. Creio que escrever muito não garante uma escrita de qualidade. E que não me venham falar dos ''primeiros livros''! Que estes não sejam sobrevalorizados e que se tente compreender o Walser vivo, tal como ele é.» (pág. 121)

Finalizo com um excerto do prefácio de Ricardo Gil Soeiro (ele próprio um poeta) que nos dá uma ideia mais aproximada e real da escrita de Walser: «(...) Uma espécie de Paul Klee da prosa (a imagem é de Susan Sontag), Walser esculpe límpidos parágrafos, frases musicais em filigrana que fluem como água escorrendo entre os dedos. Adoptando um olhar minucioso sobre as ninharias do mundo, as suas páginas exumam uma desconcertante ternura, fina tapeçaria escrita em sotto voce simultaneamente graciosa e amarga, como sublinha Walter Benjamim.
Enrique Vila-Matas definiu-o, com propriedade, como pioneiro da arte da desaparição, incluindo-o em Bartleby e Companhia, na galeria dos mestres da recusa, na longa linhagem dos partidários do Não. (...)» (pág.10/11).

sábado, abril 02, 2022

«Pirilampos», Ricardo Gil Soeiro

 


Tive a sorte de ter editado, na Deriva, Bartlebys Reunidos e Palimpsesto com Ricardo Gil Soeiro. Para além da amizade e a rápida empatia que senti como pessoa, percebemos, todos os que o leram, que se tratava de um poeta sólido, coerente e de uma enorme imaginação poética. Um cultor rigoroso da palavra e da emoção. O futuro vai dar razão aos que o vêem como um dos maiores poetas desta geração. Hoje, dia 2, em Lisboa, na Tantos Livros, pelas 17:00, vai ser a apresentação de «Pirilampos», o seu último livro com a chancela da Assírio. Grande contentamento, embora e infelizmente não possa estar presente. Mas convido-os a conhecerem-no.

O livro, esse já o tenho. Corri a comprá-lo e maravilhei-me com ele, como quando era um puto que, junto com o avô, no Verão e em Coimbra, ia para a Arregaça à noite procurar pirilampos. Trazia um ou dois para casa num copo e deixava-os na mesa de cabeceira da minha cama. No dia seguinte o meu avô libertava-os logo de manhã. Havia uma qualquer magia nesses insectos luminosos e que são percebidos nesta obra do Ricardo Gil, continuando com a sua prática palimpséstica de reescrita inovadora e estranha. Mas inteiramente maravilhosa. Hoje já não se encontram facilmente pirilampos e a sua leve alegoria à morte e à vida breve e inútil que temos assumem uma importância grande na leitura que fazemos dos seus poemas. 

«De mim só me lembro
de um segredo tuvo, 
sem culpa e sem enredos,
no poço sombrio da infância.
Suponho que existir é isto:
sucumbir, impiedosamente,
ao musgo podre da memória.
O lago deixando adivinhar o zumbido
de insectos que disputam, sem saberem,
o mudo brilho das estrelas.
(...)»
Pág.28

sábado, dezembro 25, 2021

Os Anjos de Klee, de Ricardo Gil Soeiro

Os anjos de Klee

E existíamos como um só rosto.                
Esquecendo-me de propósito
onde eu começo e onde tu terminas,
desenhávamos uma flor na escuridão.
As palavras há muito deixaram de insistir:
são de uma paciência infinita.
Amanhã haverá vozes de sombras
que nos pintarão de perguntas
– o interstício de te voltar
a ver na curva do tempo.
Anjo morto, desperta do
teu sono e vem depressa
iluminar esta sede de um
silêncio que não existe.

Ricardo Gil Soeiro, Palimpsesto, pag.148, Deriva Editores, 2016




sábado, março 11, 2017

Dia 15 de Março saberemos o vencedor do Prémio SPA Autores de Poesia 2017. Com Ricardo Gil Soeiro e Palimpsesto, editado pela Deriva

Ricardo Gil Soeiro, com Palimpsesto, editado pela Deriva Editores é um dos nomeados, juntamente com Maria Teresa Horta e Daniel Jonas. Acreditamos.

sábado, fevereiro 25, 2017

Maria João Cantinho ao «Hoje Macau»: onde se fala da poesia e ensaio de Ricardo Gil Soeiro e do próximo romance na Deriva

Tens uma obra dividida pelo ensaio e pela poesia, e ambas reconhecidas. Gostava que falasses acerca do modo como entendes cada uma delas, no teu modo de escrita, e também em relação aos outros, ou seja como vês essas escritas para além da tua. 
Creio que sou mais reconhecida no ensaio do que na poesia, pois tenho publicado poesia em editoras discretas. Hoje, a ideia de fronteira, relativamente aos géneros, está mais esbatida e temos uma tradição fortíssima de poetas que são ensaístas ou vice-versa, o que mostra que a escrita não pode ser tomada de uma forma monolítica. A concentração da poesia (e a sua exigência de rigor e de contenção) é compatível com a respiração do ensaio. Eu diria que são passagens que se abrem (ou se fecham) e que a poesia bebe nas margens do não-dito, do não-explicável, do que não é racionalizável, do imediato, da pulsão, ao passo que o ensaio procura a claridade e a explicação ou, pelo menos, a sua tentativa. Temos uma tradição forte, na poesia contemporânea portuguesa, de autores que são também ensaístas, estou a pensar no Luís Quintais, mais pertencente à nossa geração, mas também em poetas como António Cabrita, Luís Miguel Nava (cuja precoce morte não nos deixou senão um conjunto breve de ensaios) Manuel Gusmão, Helder Macedo, o jovem poeta Ricardo Gil Soeiro (a meu ver o caso mais consistente desse paralelismo nos escritores mais jovens) e Gólgona Anghel, já sem falar do genial Jorge de Sena, Joaquim Manuel Magalhães, entre outros. Mas parece haver ainda um certo preconceito, de ambos os lados, em relação a tal. O que une o ensaio e a poesia, neste caso concreto, é essa capacidade de leitura e de interpretação das potencialidades da linguagem, o conhecimento profundo da própria tradição e dos autores. De uma forma geral, os ensaístas são grandes leitores e isso faz muita diferença (a meu ver) na poesia. Não entram nela de forma ingénua e desavisada. Devo dizer-te, no entanto, que a poesia portuguesa, um pouco contrariamente ao que se diz, está muito viçosa. Não quer dizer que seja tudo igualmente bom e o tempo há-de acabar por separar as águas, mas entre tanta coisa que se publica, neste universo de pequenas editoras, como a Douda Correria, a Língua Morta, a Averno, a Mariposa Azual e muitas outras editoras pelo país, cuja distribuição nos dificulta o acesso (estou a pensar nas editoras do Porto e de Coimbra), há muita coisa de qualidade. Em movência, proveniente de vários filões. Muitos poetas jovens que estão a fazer um excelente trabalho e é preciso esperar a evolução deles para avaliar a qualidade. As tertúlias, o trabalho militante de lugares que já são hoje de «culto», como o Irreal, o Povo, terças-feiras clandestinas, etc., são notáveis pela esperança que vieram criar para a jovem poesia portuguesa e fomentam o diálogo e o espaço propício à criação. Respeito muito quem trabalha assim, de forma militante, à margem das «facilidades» das grandes editoras, que sempre tiveram um trabalho mais facilitado. A poesia é hoje, mais do que nunca, um espaço de resistência, de contra-poder. E isso é profundamente político.

Outra das tuas actividades é a de coordenadora ou directora de um novo projecto cultural online chamado Caliban. Como surgiu essa ideia e como está a correr?
Não gosto muito de escarafunchar em histórias tristes, tanto mais que a Caliban é a história muito feliz do que se faz com finais tristes. Não gosto do termo directora, é demasiado formal para o meu gosto, prefiro o de coordenadora, é mais feliz e mais justo. O nome partiu desse engenhoso poeta que ambos conhecemos, o António Cabrita, mas houve muita gente amiga que se associou imediatamente ao projecto, com muito entusiasmo, também do lado brasileiro, amigos como Marcia Tiburi, Rubens Casara, Bartira Fortes, Renato Rezende. Os outros foram chegando, para utilizar uma expressão brasileira. Energia positiva gera mais energia positiva. A Caliban é lida em Portugal e no Brasil. Creio haver ainda alguma suspeita num certo meio intelectual português, que torce o nariz ao online, mas que nos lê «às escondidas», o que me diverte. É bom sinal. Todos os dias se somam novos seguidores e num universo tão pequeno como é o da literatura (não é um jornal genérico), com conteúdos ligados à arte e à literatura, à poesia, crónica, etc., não é de esperar que haja uma adesão maciça. Mas somos lidos nas comunidades portuguesas e recebo respostas muito positivas de quem mora longe e não tem acesso ao que se vai fazendo por cá. Creio que teremos de abolir este preconceito contra a revista electrónica (que o Brasil já não tem, por exemplo, ainda que ame o suporte de papel) para vencermos a resistência do leitor bem-pensante. As redes sociais, por seu lado, ao facilitarem a divulgação do projecto, têm sido óptimas para a sua divulgação, pois até agora, ao fim de seis meses, só uma rádio se interessou por nós. Mas estamos de saúde, é um projecto democrático e que pretende, antes de mais, dar voz e dar a conhecer quem não passa no crivo dos jornais e das revistas literárias, mas que, nem por isso, tem menos qualidade. Temos colaboradores (que têm tanta autonomia como eu ou o Cabrita) portugueses e brasileiros (e deste lado é preciso dizer que contamos com ensaístas e poetas extraordinários, como Alberto Pucheu, Renato Rezende, Luciana Brandão, Ney Ferraz Paiva, Vicente Franz Cecim, Marcia Tiburi, Rubens Casara, Marcio Seligmann-Silva, Danielle Magalhães, Yasmin Nigri, Bia Dias, etc.) que tão generosamente se dispõem a colaborar. É o tipo de projecto que fundas e deixas crescer livremente, espero que em breve possamos conseguir, de alguma forma, financiar, se houver interesse.

Tens um doutoramento em filosofia. Como entendes essa relação, em ti, entre a filosofia e a poesia?
É uma relação de profunda inquietação. Não que acorde angustiada a pensar em problemas existenciais todos os dias (os meus são mais prosaicos como pagar as contas, etc.), mas a filosofia esconde-se nos interstícios de tudo o que fazemos, uma espécie de animal intruso e invisível, que reclama o alimento, mas que também nos indica algo a partir dela, dessa necessidade de compreender, dessa paixão autofágica, como sabemos. Faço parte de uma linhagem poética que consideraria metafísica, não tenho nada a ver com o que se faz (e que eu respeito) hoje, a poesia do quotidiano, sou sempre movida pelos meus autores, muito atraída pela uma tradição mística, mas sem me deixar vencer por ela, nesse sentido de querer ser uma mística. Eu não quero ser nada, deixo que as palavras me guiem, o meu prazer é o da descoberta, esse trabalho da contenção da linguagem e da sua força, um trabalho de homenagem permanente, de dívida para com os meus autores, os meus temas. Não sei se o doutoramento tem aqui algum peso, pois eu nunca penso nisso nem quero que a erudição transpareça em exercícios fúteis de estilo, isso não me interessa para nada. Eu diria que a poesia me mantém à tona dessa inquietação filosófica. Sem a escrita acho que não vivia bem, não sei sequer se sobreviveria, nunca me aconteceu estar longe dela, desde que me lembro.

Que projectos para este ano?
Para já, uma tradução, que penso acabar este mês. Mas tenho um romance, que sairá em Maio, pela editora Deriva. Depois, vou atirar-me a um livro de ensaio, que conto publicar na Documenta/Sistema Solar. Só estou à espera de ter tempo para me consagrar a ele. E o resto vai acontecendo, é o trabalho académico, os textos ensaísticos que vou publicando em revistas, as conferências planeadas, um congresso internacional que estou a co-organizar, sobre memória e arquivo, com os meus ilustres colegas da Nova (Comunicação e História de Arte) e da Clássica (Centro de Filosofia). E a Caliban.

Entrevista conduzida por Paulo José Miranda em
http://hojemacau.com.mo/2017/02/24/maria-joao-cantinho-nao-quero-ser-nada/

terça-feira, fevereiro 07, 2017

«Palimpsesto», de Ricardo Gil Soeiro nomeado para o melhor livro de poesia, 2016, pela SPA

Já podemos divulgar a notícia e acreditem que é enorme a alegria de ver um dos nossos autores partilhar a nomeação para o melhor livro de poesia de 2016, atribuído pela SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), com a Maria Teresa Horta e Daniel Jonas.Trata-se de Palimpsesto, de Ricardo Gil Soeiro e editado por nós no ano passado. Parabéns Ricardo Gil. Agora é esperar pelo dia 15 de Março!
SINOPSE  - O retraçar do traço, que nos diz da impossibilidade do pleno apagamento, é uma espécie de luto impossível. O sentido não tem fim. Porque no começo está a ruína, o sentido está sempre por vir. A sobrevivência do texto ulterior consuma-se através do sacrifício incompleto do texto precedente. A escrita, assombrada por um algures insituável, sobrevive por uma experiência aporética que nos magnetiza: essa invisibilidade visível inscrita no próprio traço, um resto espectral cujo frémito ainda estremece. Uma presença que eclode a partir da ausência e um desvelar-se que permanece velado. A hipótese do sentido, a esperança no encontro, emerge da dobra que se configura entre apagamento e re-aparição, entre caos opaco e júbilo perplexo, atando e desatando o laço incomensurável que, precariamente, reconcilia vida e morte.

ANO DE EDIÇÃO: 2016
NÚMERO PÁGINAS: 192
COLECÇÃO: Poesia
FORMATO: 13,5 x 20 cm
PESO: 978-989-8701-22-0
PVP C/ IVA: 16,50 Euros

PEDIDOS A: infoderivaeditores@gmail.com COM INDICAÇÃO DE NOME E MORADA. 



Ricardo Gil Soeiro - Poeta e ensaísta, Ricardo Gil Soeiro é Doutorado em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é investigador do Centro de Estudos Comparatistas, desenvolvendo pesquisa sobre literatura comparada, teoria da literatura e estudos de memória. Publicou poesia: O Alfabeto dos Astros (2010), Labor Inquieto (2011), Bartlebys Reunidos(2013). Em 2012, veio a lume a antologia poética L’apprendista di enigmi, pela Aracne editrice, Roma. Alguns dos seus poemas foram já traduzidos para castelhano, catalão e alemão. Está representado em diversas antologias, em Portugal e no estrangeiro. Publicou ensaio: O Pensamento Tornado Dança,Gramática da Esperança e, mais recentemente, The Wounds of Possibility(Cambridge Scholars Publishing, 2012) e A Sabedoria da Incerteza: Imaginação Literária e Poética da Obrigação (Edições Húmus, 2015). O livro Iminência do Encontro foi galardoado com o Prémio Primeira Obra do PEN Clube Português em 2010.

Outro livro de Ricardo Gil Soeiro editado pela Deriva Editores



sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Gonçalo Vilas-Boas, Carlo Ginzburg, António Alves Martins e Ricardo Gil Soeiro

Revisitar Annemarie Schwarzenbach, de Gonçalo Vilas-Boas
Palimpsesto, de Ricardo Gil Soeiro
Cidades Materiais, de António Alves Martins
Morelli, Freud e Sherlock Holmes, Indícios e Método Científico, de Carlo Ginzburg

domingo, janeiro 15, 2017

Hugo Pinto Santos escreve na última Colóquio Letras (194) sobre «Palimpsesto» de Ricardo Gil Soeiro


Sobre Palimpsesto (Porto: Deriva Editores, 2016)
Hugo Pinto Santos
A noção de palimpsesto pertenceu primeiro ao domínio histórico do registo e conservação de textos na superfície de um pergaminho ou papiro. Devido à onerosidade da matéria sobre a qual se inscreviam os textos, a superfície era rasurada para nela se registarem novos textos. Porém, mediante certas técnicas, como a transparência, era possível reconhecer o texto ou os textos prévios. Devemos a Gérard Genette, nomeadamente na sua obra Palimpsestes, a ampliação de sentido daquele termo, que passou a designar, metaforicamente, a “hipertextualidade”, ou seja, a permanência de traços e realizações textuais de uma realidade escrita prévia para outra subsequente. De tal forma que todo o texto passa a ser concebido como a retoma inevitável de realizações anteriores, que deixam os seus caracteres no futuro textual. O livro de Gil Soeiro apropria-se dessa concepção do facto literário. Fá-lo, desde logo, através do título, mas, sobretudo, por via da concretização de Palimpsesto. Trata-se, desde primeiros momentos, de preceituar e de praticar um princípio de escrita que se poderia designar como de pressuposição. Todo o texto, nesta concepção de escrita, pressupõe uma outra existência prévia. Um texto não propriamente arquetípico, mas lançador de veios recuperáveis na actualização em que a escrita consiste. Motivo pelo qual o autor pode socorrer-se de tropos indiciadores dessa teoria-prática – “retraçar do traço” (9), “A partir de outras mãos” (7), “o lume de outros passos” (16), “cauda de outros passos” (27). Esse ponto de partida condu-lo à tematização e ao equacionamento de séries significativas que, em vez de ultrapassarem o núcleo que está na génese desta escrita, o retomam e reiteram – “a voz que/pediste emprestada” (161). Muito como uma paralelização do princípio teórico que informa o livro e a poética que lhe subjaz. Assim como a noção de palimpsesto pressupõe uma pré-existência verbal que a nova escrita reinventa e transpõe, também o próprio poema como que encena essa matéria teórica e a reivindica nas suas “deixas”.
            Palimpsesto forma uma tetralogial distribuída pelos “volumes” “Da Vida das Marionetas”, “Bartlebys Reunidos” (correspondentes a livros anteriormente publicados pelo autor)[1], “Comércio com Fantasmas” e “Anjos Necessários” (estes constituindo núcleos inéditos). Qualquer um dos vectores deste políptico configura a elaboração de um conjunto de princípios operatórios disseminados ao longo de todo o livro. Desde logo, um princípio radicado por Genette em Jorge Luis Borges, que falava do “texto e seus textos preliminares”. Ou, como o exprime Soeiro, “uma arte polifónica de ecos que se movem, as línguas misturas, pele ardendo. Uma literatura de segundo grau” (8). De resto, a expressão “literatura de segundo grau” confina com Genette, cujo supracitado Palimpsestos tem como subtítulo, precisamente, “literatura de segundo grau”. Uma das imagens nucleares, nesta acção de pôr em prática aquela base teórica, é a marioneta. Esta é repescada e tematizada tendo em conta objectos fílmicos, pictóricos e literários. É o caso de poemas como “12. Da Vida das Marionetas, 1980: Ingmar Bergman” (27), ou “13. Teatro de Marionetas, 1923: Paul Klee” (28). Mas também “4. Lei da Gravidade”, cuja epígrafe é retirada de Sobre o Teatro de Marionetas, de Heinrich von Kleist. Uma repartição de forças criadoras por disciplinas artísticas que é uma constante em Palimpsesto – e que o é, na verdade, na produção de Ricardo Gil Soeiro de uma forma geral. A presença da pintura e da música em conjugação com o literário são dominantes destacáveis da escrita do autor.
            O “boneco articulado”, patente naquela citação kleistiana, é um agente fulcral de uma noção de inexactidão, inacabamento, uma falha que é suplício como de Tântalo. Prestes a saciar qualquer sede, mas incapaz de satisfazer o apetite mais corrosivo. O boneco é o homúnculo, o simulacro do ser humano, demasiado perto da figuração para ter apenas duas dimensões, longe demais dela para vestir a condição real. Esse é o condão da escrita, aqui assumido, reforçado, elevado à categoria de emblema. Coexistindo, em grande proximidade, com a importância simbólica desse artefacto por excelência da mistificação – a efígie do ser humano –, ergue-se uma fileira de realizações que operam prolongamentos e desvios adicionais. A presença de vocábulos como “ventríloquo” (20), ou “bastidores” (22), a insinuação de um “oculto alçapão” (37), a indicação de um “largar de máscara” (85), conduzem os sentidos em análise para o domínio da representação e de uma teatralidade nimbada de uma certa atmosfera sinistra. Algo que é, inclusivamente, sublinhado com ocorrência de maior explicitude – “desde o pano” (66); “Quase me esquecia/da deixa que me cabe” (69). A utilização inequívoca de uma fraseologia indexável à esfera teatral torna mais premente o fingimento, a dúvida, mesmo “o ludíbrio” (112).
            Será, afinal, de “uma escrita fantasma” (7) que aqui se trata? Há certamente boas razões para crer na sustentabilidade de tal formulação. Tanto mais que um quadrante de extrema importância, como a presença dos textos no texto, decorre, com alguma frequência, em ambiente quase espectral. Por exemplo, no poema “7, Quem, Se Eu Gritar?” (153), uma alusão a Rilke subsume-se num eco elíptico nunca completado. O mesmo tipo de aproximação está presente num poema como “Resistência Passiva” – “Os meus poemas não/sabem que eu existo” (75) –, que faz referência velada ao Jorge Luis Borges de “Os Meus Livros” – “Os meus livros (que não sabem que existo)/São uma parte de mim”. São participações fantasmáticas, que não se assumem sob a claridade do que se explana. Como cameos, aparições fugazes, icónicas, mas cheias de ironia. Qual um Hitchcok a pontuar, com a sua fuga quase inconspícua, uns escassos fotogramas dos seus filmes. Passagens circunspectas mas de lastro impressivo, como o poema que recupera o prólogo de Borges a Bartleby, o Escrivão. (Ainda que Ricardo Gil Soeiro considere “Mallarmé e Borges presenças indiscretas em O Alfabeto dos Astros[2]). É sobremaneira importante a presença da criação de Melville. Ela constitui núcleo do conjunto “Bartlebys Reunidos”, coligido em Palimpsesto. O próprio poema assume o legado, afirmando-o como nome de uma condição reiterada na poética explicitamente em causa escrita – “Quase Bartleby, sem rasgos de heroísmo,/ da janela do meu casulo morto espreito” (88). Como é sabido, o escrivão criado por Herman Melville é o artífice máximo da reticência, o epítome do espírito de negação. Ao recusar-se fazer determinada tarefa, proceder de certa forma, ao afirmar a sua quase neutral negativa – “Preferia não o fazer” –, Bartleby está a inaugurar uma genealogia a que é, naturalmente, alheio, mas à qual o génio de Enrique Vila-Matas (entre outros) viria a assegurar perenidade. Príncipe da hesitação e do recuo, um Hamlet da burocracia – antepassado dos que não irão escrever. Os poemas de Palimpsesto não hão-de deixar de repercutir a magia negra da recusa, o seu enlevo obscuro, afogadiço – “É sobre isto, e muito mais,/que não escreverei” (159).
            Na obra de Ricardo Gil Soeiro – Palimpsesto não é excepção – ensaísmo e prática literária confinam numa contiguidade própria. Há recorrência autorais e, dentro delas, incidências particulares que se repetem, uma orientação para os mesmos princípios metodológicos. Parece inevitável ver aqui a poesia como manifestação possível e refractada, sintetizada, do ensaio. E, neste, conceber um desenvolvimento metódico e sistemático de uma viagem à raiz dos gestos culturais e da sua envolvência relacional. Um pêndulo em tudo equivalente ao que, num ensaio introdutório a um dos seus livros de poemas, o autor concebeu como “diálogo entre dizer poético e dizer filosófico.”[3]
            A propósito de Enrique Vila-Matas, e da sua relação com Jorge Luis Borges, fala Soeiro do “parasitismo literário” do escritor catalão e das suas “poéticas enciclopédicas.”[4] Pronunciando-se sobre as práticas de escritas de Vila-Matas, dirá: “Como no inominável beckettiano, as vozes são feitas de palavras dos outros: não podendo continuar, continuamos.”[5] O que o leva a conceber os livros do autor de O Mal de Montano como “histórias portáteis da literatura.”[6] Como não perceber no binómio ensaio-poesia, levado à prática por Ricardo Gil Soeiro, uma expressão aproximada deste mesmo primado? Uma poesia que concebe, na grelha multímoda da arte precedente, um precursor problemático – porque não linear – de ulteriores desenvolvimentos. Uma poesia, enfim, que ocupa o seu lugar como herdeira pronta para a discórdia na assembleia dos sucessores ao “cargo das palavras.”[7]



[1] Ricardo Gil Soeiro, Da Vida das Marionetas [Para uma Dramaturgia do Corpo Inanimado], Vila Nova de Famalicão, Edições Húmus, 2012; Bartlebys Reunidos [Para uma Ética da Impotência], Porto, Deriva Editores, 2013.
[2] Idem, Constelações do Coração, São Mamede de Infesta, Edium, 2011.
[3] Idem, ibid.
[4] Idem, A Sabedoria da Incerteza - Imaginação Literária e Poética da Obrigação, Vila Nova de Famalicão, Edições Húmus, 2015.
[5] Idem, ibid.
[6] Idem, ibid.
[7] Idem, O Alfabeto dos Astros, Edium, São Mamede de Infesta, 2010.

quarta-feira, agosto 24, 2016

Da poesia como o grito insubmisso: Ricardo Gil Soeiro. Por Maria João Cantinho. Na Caliban.


A literatura poder ser fulgor e ferida, grito insubmisso ou iluminada solidão. Mas ela será sempre lucidez e desmesura, poderosa e subtil máquina de interrogar. Poeta e ensaísta, Ricardo Gil Soeiro (1981) aproxima-se da escrita como se de um alfabeto luminoso se tratasse, plasmado numa obra em que se entrelaçam, em mútua ressonância, poesia e ensaio. No domínio do ensaio tem vários livros publicados, entre os quais Iminência do Encontro (2009, Prémio Pen Clube-Primeira Obra), Gramática da Esperança (2009) e, mais recentemente, A Sabedoria da Incerteza (2015). No domínio da poesia tem revelado um percurso singular e coerente que integra obras como Labor Inquieto (2011) ou Palimpsesto (2016), uma tetralogia que lhe ocupou os últimos anos de escrita. Assumindo-se como aprendiz de enigmas, a sua poesia fala-nos do amor e do tempo, da morte e da metamorfose. Marionetas, anjos necessários, Bartlebys: afinal, máscaras plurais em que se oculta e se revela o pendor reflexivo de um lirismo eminentemente dialógico. É a partir dessa polifonia que ergue a sua partitura inquieta, dilacerada entre a sedução do segredo e o apelo do encontro.

Comecemos pelo teu último livro de poesia “Palimpesto” (Deriva, 2016). A ideia ou a imagem da escrita sobre a escrita é uma das metáforas privilegiadas da tua oficina poética, como outras que estão patentes em alguns títulos teus, como “Alfabeto dos Astros”, “Caligraphia do Espanto”, etc. A que obedece este teu ímpeto da poesia: à escrita ou à leitura?

Creio que é na História Universal da Infâmia que Jorge Luis Borges define a leitura como uma actividade posterior à de escrever: mais resignada, mais cortês, mais intelectual. Concordo em absoluto e, como vês, inicio a minha resposta com uma citação e isso é em si um gesto sintomático. Assumo, sem complexos, essa presença de uma profunda alteridade. A verdade é que só temos as palavras da tribo, a língua dos outros, a língua do universel reportage de que falara Mallarmé. O máximo a que podemos aspirar, parece-me, é fazer estremecer a linguagem: abrir aqui uma brecha, acender ali uma imagem, desencadear acolá um novo ritmo. Como que semeando uma fecunda discórdia no seio da própria língua. Para mim, a poesia nasce dessa aporia: começa a partir da sua própria impossibilidade. É a partir dessa multiplicidade de vozes que, de facto, se inicia o enigma e a singularidade do sentido. É uma alteridade, frágil e incomensurável, que irrompe e que assombra quem escreve. Na procura de uma voz própria influem outros discursos e outras referências que vão esculpindo e continuamente reconfigurando novos modos de declinar o mundo. A noção de “palimpsesto” obedece justamente a esta ideia da escrita sobre escrita e da vibração plural do sentido.


Curioso teres começado pelo Jorge Luís Borges, um autor que cultivava a escrita como palimpsesto no seu sentido mais pleno. Lembro-me, por exemplo, das obras sem autor ou da forma como ele trabalhava permanentemente o enigma da literatura. O poeta é atravessado por muitas vozes e isso é uma condição inevitável, mas também é irrecusável, não achas? É porque há quem queira ser original a qualquer preço e há até quem não leia enquanto escreve. Também o fazes?


Concordo que é inevitável. Não há texto que não brote de outros textos, a escrita é visitação, reverberação. Borges sabia-o como poucos. Negá-lo é não só ingénuo, mas simplesmente impossível. Isto não significa que ao rumor colectivo da língua e da memória literária o poema não procure responder com a inscrição de uma assinatura, a irredutibilidade de um estilo, uma linha de fuga. É a isso, aliás, que o poema almeja, o absolutamente singular. Herberto Helder exprime com o fulgor que o caracteriza este desejo impossível, quando diz em Servidões: “quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,/e falar nela de tudo o que não faz sentido/nem se pode traduzir no pânico de outras línguas.” É exactamente isto. Através de palavras que são as palavras de todos imprimir um cunho pessoal, perpetuar a nossa impressão digital. Manuel Gusmão escreveu páginas luminosas a este respeito, quando se reporta ao imperativo de “reinventar uma coralidade para a poesia”, nela singularizando uma voz, respondendo à invenção com invenção. Gusmão di-lo num poema de um modo admirável: “corta a minha mão e escreve com ela um poema que seja teu.” A escrita, parece-me, progride através deste equilíbrio sempre precário entre continuidade e ruptura, entre tradição e talento individual (para utilizar a terminologia de Eliot). Repara que a célebre injunção poundiana do make it new parte justamente de um mestre da colagem e da citação. Quanto à segunda questão: depende muito das circunstâncias. Na maior parte das vezes, leio constantemente. Poesia e ensaio, fundamentalmente. Mas quando estou imerso num dado projecto poético, numa fase já mais adiantada, preciso de estar a só com os poemas. É uma fase de absoluta concentração e obsessão. Pressupõe recolhimento, lentidão. Auscultação e apuramento. A tal espera vigilante… Tomo notas, levo-as comigo para todo o lado. Mobilizam-me por completo. E depois é rever, rever.


O que fazemos com os autores que amamos ler é o que interessa, justamente. Não é tanto o que lemos, mas sobretudo como lemos, por irmos ao encontro do que queremos ler. Na tua obra Espera Vigilante, publicada em 2011, podemos encontrar a forma como entendes o gesto poético, essa auscultação de que falas e, num texto de João Amadeu Oliveira da Silva sobre a tua poesia, em “Salvar a imperfeição das coisas”, ele fala em enigma e em promessa…é disso que se trata? A promessa da linguagem enquanto possibilidade, não só da linguagem, como da própria comunidade?


Sim, eu diria que essas são duas linhas fortes da minha escrita. Somos seres em fuga, espíritos errantes perdidos no labirinto do tempo. A poesia procura dar conta dessa travessia enigmática, mas fá-lo sempre de um modo turvo, encenado e visceral. É um testemunho do nosso espanto perante as coisas. O poema sedutor é aquele que guarda uma margem de indecidibilidade e de segredo, que insinua mais do que explicita, que deixa entrever mais do que postula. O mistério permanece, assim, intacto. Todos estes fios se entrelaçam na ideia de comunidade com que me interpelas. Como sabes, sempre privilegiei essa vertente ética, pois considero-a vital. Gostaria de pensar que a poesia participa de forma decisiva nessa construção antropológica de sentido, que assume o mundo como a nossa tarefa, como diria o Benjamin. A ideia de que, através da linguagem, um humano se dirige a um outro humano, conseguindo interromper por breves instantes a sua solidão irredutível.


A ideia da poesia ou da própria linguagem como tarefa remete-me sempre para a poesia de Paul Celan, sobre o qual tens escrito textos ensaísticos. Onde reforças precisamente a dimensão ética da poesia. Estudar autores como George Steiner, Walter Benjamin, Levinas, Derrida, entre outros, não tem sido para ti uma fonte de inspiração poética? E como convives com essa dimensão ensaística na tua poesia? Elas entram em conflito?


Sem dúvida, o ensaio encontra-se em permanente diálogo com a poesia, mas não exactamente em termos de transposição directa, o que seria vão e fútil. Confesso que, quando escrevo, não penso muito nesses termos. Mas agora que colocas a questão é interessante notar que o ensaio (literário e filosófico) consegue suscitar um tipo de reflexão diferente daquela que outro tipo de texto proporciona. Eu diria que, por vezes, há naturalmente uma confluência nas obsessões e nas preocupações dos dois registos. Obviamente que há vasos comunicantes entre o discurso poético e o discurso ensaístico, mas creio que ambos divergem quanto aos seus propósitos e processos. Como te disse há pouco, o poema não postula, é a multiplicação de várias alucinações. Claro que o ensaio genuíno é também inventividade, aventura e risco. É poiesis e não somente techné. Se quiseres, o ensaio é razão apaixonada e a poesia é também pensamento. São dois tipos de lucidez e de rigor. Ambos são criação. É difícil dizer mais do que isto. Porventura, haverá uma voracidade muito própria da poesia, o poema é omnívoro, alimenta-se do mais ínfimo detalhe, da mais incoativa imagem interior. Depois impõe a justeza da palavra exacta, a síntese, a condensação. O ensaio, por sua vez, será talvez mais rígido em termos formais. Mas os dois discursos coabitam em mim sem qualquer drama.

A tua obra “A iminência do Encontro” resulta de uma investigação profunda e um diálogo intenso com George Steiner, onde exploras a ideia de “leitura responsável”. De que leitura é esta que falas, de um acto ético de interpretação do mundo e da própria literatura?

Há uma imagem célebre de Kafka (que Steiner gosta muito de citar) que diz que “um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.” Esta imagem é muito feliz justamente porque espelha a intensidade ontológica que deve presidir ao acto de leitura. Há ali um tom de urgência. A reivindicação de algo absolutamente inadiável. A vivência autêntica de que falava Proust. A ideia de que todo o leitor é leitor de si mesmo. A leitura responsável que anima Steiner é a apologia da compreensão enquanto acto moral. O conceito está plasmado na sua obra Presenças Reais e o termo que ele utiliza é answerability, que encerra a tripla vertente de “responder por”, “responder a” e “responder perante”. Claro que a poética do sentido, perfilhada por Steiner, encerra um conjunto complexo de temáticas que nascem do diálogo que ele estabelece com outros autores. Heidegger, Derrida, Bloch, Celan, Broch e tantos outros… Nem sempre esse diálogo está isento de polémica e de perplexidades. Mas é por isso mesmo que o seu pensamento é tão fascinante.


Tens uma obra vasta e intensa, sobretudo quando pensamos na tua juventude. Há todo um lado programático na tua obra que é visível, sobretudo na poesia. Não te vou perguntar se escreves muito porque isso já o sei (risos), mas se, quando escreves, tens sempre presente uma linha estrutural ou se esse aspecto programático é inconsciente e te limitas a segui-lo…


Tens razão. A ideia da estrutura e da arquitectura do livro é muito importante para mim. Tenho tentado, não sei se com sucesso, que cada volume se assuma como um objecto autónomo e não se resuma a uma mera recolha de poemas, mais ou menos arbitrária. O José Ángel Cilleruelo assinala isso mesmo num magnífico texto sobre o meu livro A Rosa de Paracelso, intitulado “A Exacta Densidade da Escuridão.” O que não quer dizer que os contornos da estrutura estejam perfeitamente determinados à partida. Os próprios poemas encarregam-se de ditar o ritmo. Há poemas que se atraem mutuamente e isso tem implicações ao nível da composição. Há avanços e recuos. É um processo contínuo. Encaro um livro como a hipótese privilegiada para explorar determinados cenários, certos estilhaços de sentido. Cada volume deve acolher a diversidade de registos e promover a plasticidade de diferentes linguagens e de diferentes vozes. Essa ideia de uma polifonia dramática, de uma encenação textual, é determinante. Mas um livro deve também ter uma identidade própria. É como se cada volume fosse palco experimental para a articulação de certas imagens, cenas ou cintilações. Claro que se os poemas individualmente soçobrarem, o enquadramento estrutural esboroa-se e não conseguirá sustentar as parcelas que conferem densidade ao conjunto. O poema individual deve valer por si mesmo, deve poder ser lido à margem do horizonte mais amplo que o enquadra; mas, se lido à luz dos alicerces que lhe conferem consistência e unidade, ele sairá decerto enriquecido pela teia de reenvios e de ecos que, entretanto, se gerará. Repara que, quando falo da ideia de livro, não me estou a reportar à concepção onto-teológica do livro (de que fala Derrida) que caracteriza muito do que hoje passa por literatura; refiro-me, isso sim, àqueles livros que revelam uma complexidade desarmante e que, assim, procuram minar o princípio da identidade. São esses os livros que me interessam.
A nossa sociedade, de ideologias moribundas e refém de uma visão digestiva da literatura, em que os escritores mais lidos são pivots das televisões, precisa de poetas e de poesia ou isso é um luxo?
Essa é uma questão imensa a que eu, decerto, não conseguirei responder convenientemente. Sabemos da gloriosa inutilidade da poesia. É porque se situa à margem da lógica do calculável e do quantificável que a poesia se torna indispensável a quem deseja criar para si mesmo um espaço de silêncio e de instrospecção. É um espaço de desaceleração, de uma lentidão essencial que resiste à cultura reinante do ruído e do espectáculo. É portadora de uma incondicionalidade irredutível, reivindica para si uma singularidade absoluta e, portanto, parece-me que nunca terá muitos leitores, embora, idealmente, fosse desejável que chegasse ao maior número de pessoas possível. Justamente porque ela luta contra a massificação, contra a padronização, contra as bestas céleres (O’Neill). Estará sempre em dissonância com o servilismo mercantilista que caracteriza boa parte das nossas sociedades tardo-capitalistas. Em todo o caso, ela persistirá, ela resistirá, exercendo o seu papel de permanente vigilância sobre a linguagem, uma linguagem que se faz inquietude e assombro. É esse o seu papel intempestivo, creio. Embora ela também seja interpelação do agora. Respondendo concretamente à tua pergunta, diria que a poesia é um luxo profundamente necessário. Porque opera uma essencial problematização da linguagem, porque cultiva a incandescência da pergunta, porque, enfim, nos torna mais inteiros e humanos, mesmo quando nos fala de uma beleza convulsa e atormentada.


A minha pergunta é um teste à tua paciência: achas que os teus poemas são atormentados ou é a própria poesia que não pode deixar de sê-lo? Falo da “ferida” e lembro-me do livro de Ramos Rosa, como esse belíssimo título “A intacta ferida”. Há um poema em que ele diz: “Não tenho lágrimas/estou mais baixo/junto à cal”. Há nisto uma melancolia, enigmática certamente, que nos deixa de lábios colados ao silêncio. É este o limbo que cabe ao poeta?


Essa última imagem que utilizas é magnífica! De facto, escrevemos sempre às escuras. Não sabemos muito bem porquê. Cioran, intransigente e clarividente como só ele soube ser, disse uma vez que escrever literalmente salvou-o. Sabemos como essa ideia da escrita como salvação caiu em descrédito, e talvez com razão. Por ser demasiado solene e grandiloquente. Mas Cioran, o mais corrosivo de todos os pensadores, não hesitou em afirmá-lo. O reconhecimento de que, se não fosse a escrita, teria provavelmente cometido suicídio. Por muito sombria que fosse a sua visão da existência, o facto de poder verbalizá-la através da escrita tornava mais tolerável essa ausência de sentido. Não trazia propriamente redenção. Mas é a ideia de que formular o desastre e o absurdo de algum modo mitiga e confere algum tipo de sentido a esse desastre, ao naufrágio da nossa condição. Há como que um júbilo na nobreza de reconhecer a incomensurabilidade das nossas vidas, a visceral estranheza das coisas. A poesia, tal como eu a entendo, debate-se com todas estas questões. Demora-se nelas: detém-se nas feridas, nas fendas, nas fissuras. Namora com o absoluto de que nos sentimos desamparados, seres cindidos que somos. E daí essa melancolia sem cura, oblíqua e perene, “que nos deixa de lábios colados ao silêncio.”


Como é que olhas para a poesia contemporânea? Como dialogas com ela? Ou não pensas nisso e segues o teu instinto, a tua voz?


Olho com grande entusiasmo! Basta olhar para os jovens poetas que têm despontado no último decénio: sobretudo para a diversidade das suas propostas estéticas. Sigo com muitíssimo interesse praticamente tudo o que se vai publicando. Há coisas realmente muito boas! Totalmente díspares, mas a maior parte delas muito estimulantes. Há um diálogo muito frutuoso entre os poetas da minha geração, embora também se verifique, por vezes, um acantonamento em capelas literárias mais ou menos dogmáticas. Talvez isso seja inevitável. É pena a dificuldade de publicação, especialmente por parte das editoras de referência. Algumas delas demitiram-se, pura e simplesmente, de publicar jovens autores. Na poesia, isso é particularmente nefasto. Mas as pequenas editoras têm feito um trabalho absolutamente extraordinário. Sem esse trabalho subterrâneo, algumas das mais surpreendentes revelações dos últimos anos teriam sido adiadas. Creio que todos nós, enquanto leitores, lhes devemos estar gratos: pela sua obstinação e pela sua generosidade.

Maria João Cantinho
Autora, ensaísta e poeta. Crítica literária e professora.

terça-feira, agosto 16, 2016

Los dáimones tatuados de Ricardo Gil Soeiro. Leitura do filósofo Armando Pego da Universitat Ramon Llull

Los dáimones tatuados de Ricardo Gil Soeiro.




Angelus Novus,
Paul Klee (1920)

Hace un par de años reseñaba en este espacio los dos primeros volúmenes poéticos de la Tetralogía palimpséstica que mi desconocido amigo Ricardo Gil Soeiro había publicado entre 2012 y 2013 con los títulos de Da vida das Marionetas y Bartlebys reunidos. Como una amistad literaria, por definición, está tejida de la materia del olvido, la ausencia de sus noticias me aseguraba que un proyecto poético tan ambicioso no sólo se culminaría, sino que habría de volver a encontrarlo ya terminado. A fin de cuentas, una lección de la poesía moderna consiste en que no hay más lector que el que llega, hipócrita y semejante, demasiado tarde. Me encuentro así por fin con otro volumen que recoge la tetralogía al completo, con los dos libros que faltaban entonces, Comércio com Fantasmas (2014) y Anjos Necessários (2015), bajo el título general de Palimpsesto (Oporto, 2016).

Gil Soeiro deja claro desde el prólogo, bajo la significativa rúbrica de Tesis para una Poética Palimpséstica, que su planteamiento bebe, formal y materialmente, de la melancolía de Walter Benjamin sobre las ruinas de un origen que, en un sentido muy amplio, el pensamiento postestructuralista -más derrideano que foucaultiano en este caso- ha dejado desmantelado.

La poética de Soeiro no es escéptica ni desesperada. Más bien, ensaya bucles rítmicos y estructuras férreamente rizomáticas -como los 120 poemas del conjunto, divididos en treinta por cada libro- entre los dos pronombres personales que me atrevería calificar en su caso de im-propios: yo y tú. La base de su diálogo radial es, pues, hermenéutica. En él resuenan ecos celanianos, más próximos a P. Szondi que a H. G. Gadamer. ¿Qué queda tras la inscripción en el discurso de una voz que, al enunciar, traza su ausencia?: “Toda palabra es ya un inicio tardío. Escribir es desmantelar la quimera del origen, desenmascarar la fábula de lo inaugural”.

Me propongo, pues, adentrarme brevemente en esta dialéctica de imposible potencia por un sendero secundario que remite, paradójicamente, a otro origen que no es el de la (post)modernidad con el que continuamente sus poemas dialogan en un tenso contrapunto: de F. Pessoa a T. S. Eliot, entre P. Klee y M. Chagall. Me refiero al mundo clásico que, expropiado, regresa fantasmal para exigir el rescate -la venganza desposeída- de su olvido.

El poeta, como un Odiseo órfico, se aventura tras la máscara del decir donde a la fábula de un deseo ausente se opone una resistencia que abre una reescritura que, en ruinas aunque no inacabada, no se da por vencida. Soeiro define con exactitud este movimiento: “El sentido no tiene fin. Porque en el comienzo está la ruina, el sentido está siempre por venir”. A lo lejos oigo la respiración de M. Blanchot como un Bóreas victoriosamente derrotado: “La esencia de la literatura es escapar a toda determinación esencial, a toda afirmación que la estabiliza o incluso la realiza; no está jamás ya allá, está siempre por reencontrar o por reinventar”.

La lectura de Comércio com Fantasmas me ha dejado un sabor a palimpsesto de literatura latina. La lección de Ovidio, que ya señalaba en mi reseña a Bartlebys reunidos, se me hace más perentoria en estos poemas que intentan tejer, como indica el subtítulo, una epistolografía espectral. No me refiero tanto a las Heroidas como a ese libro extrañamente ausente, que no desaparecido, de los gustos actuales como es Tristia, que es un epistolario de destinatario incierto, en domicilio fugaz. En él el amor y el exilio conjugan una cópula que se consuma interrumpida.

El género de la carta abre un espacio, que más allá de su temática sobre el amor y la amistad, ensaya la capacidad de la palabra poética por saltar sobre el discurso de la identidad del emisor y su destinatario, que es como el mar que separa el inhóspito Ponto de la perdida Roma. Radicalizada, cada carta es el esbozo de unos rostros que se disuelven en la gramática de las caricias evaporadas por la mano que tinta – que mancha- el mapa de sus sentidos por venir.

Incipit

De fantasma para fantasma,
escribo para decirte que hay
palabras mudas que nos desnudan.
Secretos que permanecerán entre nosotros.
Entretanto, quizás la vaga certeza de
que no existimos llegue a compensar
el miedo de cambiarnos en desiertos de luz.
Quedaremos en espera uno del otro:
murmurando confidencias y mintiendo
absoluciones como quien ofrece al viento
la eternidad de incontables cartas vacías.
Cartas como besos escritos que jamás
llegarán al abrigo de su puerto.
Me quedo aquí, en este pedazo de papel,
aguardando, como si fueses camino.

(Ricardo Gil Soeiro, Comércio com Fantasmas)


Desde este punto de partida, el lector, amante espectral, acaba sobrescribiendo su nombre sobre la interrogación que el poema cierra a tientas, entre los paréntesis que se desbordan incluso en una escritura poemática. A diferencia de F. Pessoa, no es sólo el poeta sino el lector quien finge en su silencio el silencio que, dolorido, no guarda aquel: “Bien vistas las cosas, es muy parecida a la poesía el arte epistolar: la pasión por el vacío, la propensión a las palabras que encienden soledades, la puesta en escena de una siempre inacabada conversación entre fantasmas”.

La naturaleza de estos fantasmas es, en último término, angélica. El ángel de Gil Soeiro tutela el comercio espectral de unas marionetas que se abstienen de ser y que, por ello mismo, inscriben de nuevo las letras de posibles sentidos sobre aquello -el poema- que, inanimado, queda como huella de una epístola errante. Repito que su ángel no es rilkeano sino que conjura, melancólico, el apocalipsis inmanente de Benjamin.

Es constante, en su imaginería y hasta en el moldeado de sus reflexiones en prosa, la remisión a las Tesis sobre la historia, entre las que sobresale, además del famoso comentario dedicado al ángelus novus de Klee, su comienzo con la figura de un autómata movido escondidamente por un enano jorobado que era maestro en ajedrez. Si el mesianismo de Benjamin alegorizaba la teología proscrita del materialismo histórico, Gil Soeiro interroga entre los restos del siglo XX las posibilidades apenas afloradas del “tiempo del ahora”.

En la figura del ángel, como el eclipse de la imaginación solar de Occidente, puede acaso, finalmente, explicarse la ausencia de las trazas daimónicas de Grecia: “Simplemente amo todo lo que / jamás me podrá pertenecer. / Digo amor porque no conozco / otra palabra para belleza”. A la belleza terrible que intuyen estos poemas, que bucean en E. A. Poe y Wallace Steven o en Heiner Müller o Wim Wenders, de alguna manera estremecedora podrían aplicarse, como un epitafio, las palabras con que Allan Bloom define la vida filosófica de Sócrates: “puede contener todas las formas de vida, pero en un sentido que es totalmente ajeno a quienes la llevan. Es justicia sin la ciudad, piedad sin dioses, Eros sin cópula ni reciprocidad”.

La Chute de l’Ange, 1941: Marc Chagall

Caemos una y otra vez.
Somos la propia caída en estado puro.
Y si acaso llegamos a volar muy alto,
luego regresamos al caos del mundo,
donde escenificamos, sin ingenio, el infeliz
destino de un Ícaro demasiado soñador.
Guardamos dentro de las venas el vago
recuerdo de un paraíso perdido.
Nos persigue la desnudez de la nostalgia,
la oscuridad de una insoportable tristeza.
Caemos siempre.
Una y otra vez.

(Ricardo Gil Soeiro, Anjos necessários)



Sin orígenes, la conjetura de la caída es abismal.