domingo, dezembro 30, 2007

Catálogo de Venenos, de Marilar Aleixandre. Poesia da Galiza

Capa de Gémeo Luís


Catálogo de Venenos é um acto de amor e um ajuste de contas. Uma filha interroga-se sobre a mãe-madrasta, sobre uma relação na que se cruzam amor e ódio, dependência e identificação: “não sabia que foste tu quem me educou/contra ti mesma”. Venenos íntimos, herdados ou escolhidos. Venenos que fendem a língua, pois caminhar sobre o gume da língua é tão perigoso como andar pelo gume dos cutelos. Rebelião que é possível ao levar por baixo das unhas restos da terra ou da tinta da mãe. Quem é a que escreve? A mãe fazendo-o em nome da filha? Talvez a outra, a que usurpa nomes e imagens, a ladra de línguas.
Livro bilingue (português e expressão galega) com tradução de Paula Cruz. À venda nas livrarias a partir de Janeiro.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Dorregarai, A Casa-Torre de Anjel Rekalde apresentado por Rui Pereira, dia 16 no Porto e a 17 em Coimbra

É já dia 16, sexta-feira, pelas 21:30, que no foyer da Biblioteca Almeida Garrett, aqui no Porto, que Dorregarai, A Casa-Torre vai ser apresentado por Rui Pereira e com a presença de Anjel Rekalde que terá oportunidade de debater com os presentes a luta do povo basco pela independência desde há séculos.
No dia 17, pelas 18:00, será a vez de Coimbra no espaço da Almedina Estádio.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Nova morada

Nova morada a da Deriva, que se passou com armas e (alguma) bagagem para a Rua de Santo Ildefonso, 5º andar, sala 2, aqui no Porto (4000-468), pertinho da Batalha. O telefone e fax são os mesmos de sempre (225365145), mas avisamos que estivemos desconectados um tempo, por causa da dita mudança. Já recuperamos num instante... e aproveitamos para pedir desculpa por alguma falta de resposta a solicitações que nos tenham feito nestes entretantos. O blog também se ressentiu, mas já o pomos a trabalhar que temos muito para vos dizer.
Até já, portanto.

terça-feira, outubro 16, 2007

13os Encontros Luso-Galaicos-Franceses do Livro Infantil e Juvenil. Porto, Biblioteca Almeida Garrett, 15-17/11. A Deriva presente

Milo Manara (ilustração provisória enquanto esperamos a nova, a dos XIII encontros)
Programa
Do livro à cena

Conferências e debates Ateliers/encontros para o público adulto
Exposições – venda de livros Ateliers/encontros/espectáculos para o público infantil
15 de Novembro (5ª feira)
Recepção aos participantes
Abertura oficial (com apresentação do cd-rom relativo aos 12os Encontros)
Intervalo
10:30 – Panorâmicas da literatura dramática galega, portuguesa e francesa
Blanca-Ana Roig Rechou (Rede LIJMI / Univ. de Santiago de Compostela)
Ana Margarida Ramos (Rede LIJMI / Univ. de Aveiro), José António Gomes (Rede LIJMI / ESE do Porto) e Sara Reis da Silva (Rede LIJMI / Univ. do Minho)
Hermes Salceda Rodríguez (Univ. de Vigo)
12:00 – Inauguração das exposições bibliográficas (literatura dramática portuguesa, galega e francesa) e de ilustrações (Inês Oliveira – Portugal; e Óscar Villán – Galiza)
Almoço
14:00 – Ateliers
Teatro escolar no Ensino Primário – Chus Pereiro (Galiza)
Da escrita literária ao teatro – Catarina Lacerda (Teatro do Frio -Portugal)
Do livro à cena – Adelina Carvalho (Portugal)
16:00 – Manuel António Pina e a experiência de escrita teatral em primeira pessoa Manuel António Pina (Portugal)
Sara Reis da Silva (Portugal)
17:00 – Apresentação de livros
A Ninfa do Atlântico de Maria José Meireles, ilustrações de Evelina Oliveira; História de Alberto de Emília Nóvoa, ilustrações de Fedra Santos (Campo das Letras)
Boas Noites – Paula Carballeira (Edicións Xerais de Galicia)
18:15 – História de um segredo de Álvaro Magalhães, encenação de João Luiz pelo Teatro Pé de Vento
16 de Novembro (6ª feira)
9:30 – Teatro para a Infância e a Juventude e Representação
Grupo Garfo – Carlos Labraña e Ánxela Gracián (Galiza)
João Paulo Seara Cardoso (Teatro de Marionetas do Porto)
Karin Serres (escritora e encenadora - França)
Intervalo
11:15 – Escrita para Teatro e Representação no contexto galego
Euloxio Ruibal e Cândido Pazó (Galiza)
Apresentação da Programação de Teatro Infantil do Centro Dramático Galego
Cristina Domínguez (Galiza)
Almoço
14:00 – Ateliers
Teatro escolar no Ensino Primário – Chus Pereiro (Galiza)
Mediador da leitura – procura-se! – Cristina Taquelim (Portugal)
Do livro à cena – Adelina Carvalho (Portugal)
16:00 – Apresentação do Guia Didáctico elaborado a partir de As laranxas máis laranxas de todas as laranxas, de Carlos Casares Mouriño por Pilar Sampedro (autora) e Óscar Villán (ilustrador) (Galiza)
16:30 – Álvaro Magalhães e a experiência da escrita teatral em primeira pessoa
Álvaro Magalhães (Portugal)
José António Gomes
18:00 – Sessão de Conta Contos
Paula Carballeira e Cândido Pazo (Galiza) e Cristina Taquelim (Portugal)
17 de Novembro (sábado)
9:30 – As formas de Teatro para a Infância e Juventude e as realidades dos diferentes espaços linguísticos
José Caldas (Portugal)
João Luiz (Companhia Pé de Vento, Portugal)
Euloxio Ruibal (Galiza)
11:15 – A realidade do teatro escolar
Miguel Vázquez Freire (Galiza)
Francisco Beja (ESMAE / Portugal)
Intervalo
12:00 – Apresentação de O Segredo Maior (poemas musicados), de João Lóio, pelo Grupo Vocal Canto Décimo, direcção de Guilhermino Monteiro
Encerramento
ENCONTROS/ATELIERS E ESPECTÁCULOS PARA CRIANÇAS
Equipa de animação da BMAG e BPMP
15 de Novembro (5ªfeira)
10:30
Equipa de animação da BMAG
Teatro de fantoches “Corre, corre cabacinha” conto tradicional recontado por Eva Mejuto
14:00
Óscar Villán (Galiza)
Como ilustrar um livro para crianças
16 de Novembro (6ªfeira)
10:30
Equipa de animação da BPMP
Teatro de sombras” O sapo encontra um amigo” de Max Velthuijs pel
Eric Many (França)
14:00
Em torno do álbum “Hipólito, o Filantropo”
Organização
APPLIJ – Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil
Gálix – Asociación Galega do Libro Infantil e Xuvenil
LIJMI – Rede Temática de Literatura Infantil e Juvenil do Marco Ibérico Consulado Geral da França
Apoios
Câmara Municipal do Porto – Biblioteca Almeida Garrett Editora Campo das Letras Ministério da Cultura – Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas Casa da Leitura (Fund. C. Gulbenkian) Conselleria de Cultura da Xunta de Galicia Edicións Xerais de Galicia ELOS – Associação Galego-Portuguesa de Investigação em Literatura Infantil e Juvenil Caixanova Livraria Index

terça-feira, outubro 09, 2007

Apócrifo, de José Ricardo Nunes - dia 12/10, 21:30, Fundação Eugénio de Andrade. Apresentação de Pedro Eiras

Grandes Autores para Pequenos Leitores, coordenação de José António Gomes e Blanca-Ana Roig Rechou

Design gráfico de Gémeo Luís
Ilustração de Cristina Valadas
Como o próprio título indica, a obra Grandes Autores para Pequenos Leitores – Literatura para a Infância e a Juventude: Elementos para a Construção de um Cânone propõe uma releitura crítica de um significativo conjunto de obras literárias de potencial recepção infantil e juvenil publicadas nas línguas portuguesa, galega, inglesa e alemã. Pretende-se, com este trabalho, pôr em evidência não só a elevada qualidade estética de tais obras, mas também a sua relevância para a própria evolução da chamada literatura para crianças e jovens, factores que contribuíram para que, ainda hoje, continuem a ser merecedoras de leitura pelas novas gerações e objecto de diferentes abordagens críticas.
Coordenadores da obra:

JOSÉ ANTÓNIO GOMES
é professor adjunto na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Dirige a revista Malasartes: Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude. É membro da Rede Temática LIJMI («Las literaturas infantiles y juveniles del marco ibérico. Su influencia en la formación literaria y lectora»). Participou com comunicações e conferências sobre Literatura para a Infância e Juventude e Literatura Portuguesa Contemporânea em congressos nacionais e internacionais, sendo autor de numerosas publicações nestes âmbitos. Com o nome literário João Pedro Mésseder assinou livros de poesia e cerca de dezena e meia de títulos no âmbito da literatura para crianças.

BLANCA-ANA ROIG RECHOU é catedrática de Língua e Literatura Galegas na Universidade de Santiago de Compostela. Dirige, desde 1995, no Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades, o projecto «Informes de Literatura» e coordena, no mesmo Centro, o projecto «Diccionarios de Literatura», do qual já se publicaram os volumes Diccionario de termos literarios (a-d) (1998) e (e-h) (2003). É a Investigadora Principal da Rede Temática LIJMI, que conta com apoio à actividade de investigação do Ministério da Educação e Ciência de Espanha e de outras instituições públicas e privadas. Participou em numerosos congressos e jornadas nacionais e internacionais nos quais apresentou conferências e comunicações. Lecciona cursos de doutoramento e de formação contínua sobre Literatura Infantil e Juvenil galega. É autora de livros, artigos e recensões sobre Literatura infantil e Literatura galega em livros e publicações periódicas.
Colaboradoras da obra:
Ana Margarida Ramos
Sara Reis Silva
Maria Jesús Agra Pardiñas
Isabel Mociño González
Marta Neira Rodriguez
Teresa Sixto Rey
Veljka Ruzicka Kenfel
Celia Vásquez Garcia
Já à venda nas livrarias; para encomendar clique aqui

sábado, outubro 06, 2007

Jovens Ensaístas lêem Jovens Poetas, Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos, Quinta-feira, dia 11 de Outubro

Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas

Biblioteca Florbela Espanca, Matosinhos
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

concepção: Pedro Eiras

15h – Sessão 1: Poética e Mostração
moderação: Helena Lopes

Marinela Freitas: Sinónimos inter/ditos: Catarina Nunes de Almeida e o erotismo no feminino
Mariana Leite: Poesia e ciência - Século XXI, odisseia no saber?
João Paulo Sousa: O poema em prosa na obra de Luís Quintais

16.30h – Sessão 2: O Lugar da Poesia
moderação: Andréia Azevedo Soares

Catarina Nunes de Almeida: Imagens da cidade na novíssima poesia portuguesa
Miguel Ramalhete Gomes: Morar e Rememorar – o lugar em A Cidade Líquida, de Filipa Leal
Raquel Ribeiro
: “A noite a princípio é o homem sem casa”: vestígios da escrita e a aparição do divino na “noite escura” de Daniel Faria

18.00h – Sessão 3: Em Diálogo com Outras Artes
moderação: Daniel Jonas

Margarida Gil dos Reis: Uma fotografia para Manuel de Freitas
Helena Lopes: Talvez as fotografias vagamente / desfocadas sejam as mais belas – Poesia e Cinema
Joana Matos Frias: Do corpo espacejado à cirurgia estética: o teatro anatómico da poesia

21.30h – Sessão 4: Panorâmica da Mais Jovem Poesia
moderação: Marinela Freitas

José Ricardo Nunes: A vida e a escrita nalguma poesia portuguesa recente (sumário)
Andréia Azevedo Soares: Édipo às avessas: a poesia como lugar de (re)encontro com o pai
Daniel Jonas: A minha geração

Encontram mais informação no site da Câmara Municipal de Matosinhos:
http://cmmatosinhos.wiremaze.com/pagegen.asp?SYS_PAGE_ID=821970&id=700

segunda-feira, setembro 17, 2007

Filipa Leal nas Quintas da Leitura a 27 de Setembro

Foto de Mafalda Capela


27 de Setembro de 2007 no Café Teatro do Campo Alegre, pelas 22 horas.

A Cidade Líquida

Poesia de Filipa Leal

Apresentação de Inês Pedrosa

Leituras de Inês Veiga de Macedo, Susana Menezes, Pedro Lamares e Filipa Leal.

Fotografia de Mafalda Capela

Perfomance de Tânia Carvalho

Vídeo David Bonneville

Música de MEME, voz Ana Deus e Marta Bernardes, Rui Lima e Sérgio Martins, guitarra, Nuno de Sousa, guitarra e teclados.



Produção FCD / Teatro de Campo Alegre

quinta-feira, julho 26, 2007

Dorregarai - A Casa-Torre, de Anjel Rekalde (extracto do I Capítulo).

Capa de Gémeo Luís
DORREGARAI
A casa-torre
Capítulo I (extracto)

Primeira Parte
1834-1839
A primeira vez que Joaquim Garaiar saiu dos limites da aldeia montanhosa em que tinha nascido foi quando se alistou como voluntário nas forças do pretendente D. Carlos. Sem avisar os seus pais, combinou com outros quatro jovens da região. Marcaram um encontro para a meia-noite junto ao velho carvalho que assinalava o final da praça que se estendia em frente da pequena igreja da aldeia, e dali tomaram um carreiro pelo monte, longe do caminho real, para irem ao encontro da guerrilha comandada por Tomás Zumalakarregi.
Os cinco rapazes saíram praticamente só com o que tinham em cima. Levavam pouca roupa e alguma comida para a viagem e uma inquietação que parecia sair-lhes pelo colarinho da camisa a julgar pela forma com que puxavam por ele com os dedos nervosos.
Da copa do carvalho uma coruja de plumagem esbranquiçada observava-os enquanto caçava.
A revolta dos bascos tinha-se iniciado poucos meses antes. O descontentamento da população tinha-se juntado às intrigas palacianas e ao dos oficiais afectos a D. Carlos V de tal maneira que a detenção e o fuzilamento do general Santos Ladrón de Cegama tinha provocado uma reacção que terminou numa mobilização geral. Os insurrectos ocuparam, em primeiro lugar, as praças de Vitória e de Bilbau assim como numerosos municípios mais pequenos, onde se apoderaram das armas depositadas, encomendadas para a criação de milícias do país para o caso de uma invasão estrangeira.
No território basco peninsular não havia exército nem os seus habitantes estavam sujeitos ao serviço militar. O alistamento em caso de guerra externa era geral, pai por filho. Da mesma forma, os batalhões de terços desmobilizavam-se, depois de terminado o confronto, para voltar aos seus trabalhos habituais.
Com essas armas armazenadas, relíquias de antigas batalhas, ergueu-se o movimento carlista. Eram apenas baionetas, sabres e algumas espingardas de percussão danificadas sem munição.
O governo liberal de Madrid, afecto à rainha regente Cristina, opôs-se a este levantamento e, à falta de efectivos militares próprios das províncias insurrectas, enviou o exército de Portugal sob o comando do general Sarsfield. A soldadesca espanhola entrou no país basco como um touro numa louçaria, esmagando e destruindo tudo à sua passagem. Em menos de uma semana tomou as cidades de Bilbau e de Vitória e expulsou os rebeldes para a montanha.
Zumalakarregi reuniu as forças dispersas e organizou-as em batalhões móveis, ligeiros, capazes de evoluir e manobrar com rapidez. Os comandos e os grupos de guerrilhas, expulsos das províncias ocidentais, agruparam-se em Navarra e constituíram um novo exército no qual a falta de recursos militares era compensada pela audácia e pela surpresa das acções. O êxito face a Sarsfield propagou-se pelos vales como uma epopeia lendária e, tal como noutros tempos, face aos invasores franceses, a população juntou-se às milícias resistentes.
Joaquim Garaiar saiu ao caminho atrás de José Maria Arbelaiz. Alguns anos antes este tinha abandonado a aldeia para entrar para um convento de frades. Em crianças tinham sido amigos, mas desde que se tinha ido embora não o voltara a ver até que, dias atrás, quando Joaquim voltava do trabalho no bosque, ouviu um rastolhar que nascia por debaixo de uns tojos.
Aproximou-se para ver. Escondido, por detrás do matagal, estava o frade que o afastou com enérgico gesto com a mão.
— Fora! Vai-te embora! Que ninguém te veja a falar comigo!
Joaquim parou desconcertado no meio do carreiro.
— O que se passa?
— Tens de me ajudar. Foram ao mosteiro, revistaram-no à procura de armas e escapei por milagre por uma janela no telhado.
— O que aconteceu? O que é que queres?
— Agora, não te posso dizer. Pode passar alguém. Vem à noite, traz-me qualquer coisa para comer e falaremos.
Com o luar, quando a família foi dormir no fim do dia, Joaquim escapou-se do seu quarto em silêncio, com o coração a palpitar de impaciência e os bolsos cheios de broa de milho e algumas tiras de carne da matança que tinha retirado da despensa. Chegou ao local onde tinha deixado o seu amigo e assobiou com precaução na escuridão. Ao fim de alguns instantes ouviu uns passos nas suas costas, na direcção contrária à que pressupunha estar o monge escondido. O seu medo foi tal ao sentir-se apanhado que esteve prestes a desatar a correr pelo monte, ladeira abaixo.
— Calma, sou eu.
— Que susto! Não te esperava desse lado. Pensei que alguém me tinha seguido.
— Ninguém veio atrás de ti. Estava a vigiar e tomei as minhas precauções.
O perseguido comeu as provisões com fome de lobo. Joaquim ouvia-o comer e engolir quase sem mastigar. Não podia ver o seu rosto no escuro, mas sem saber por quê, imaginou-o abatido.
— Porque não foste até à tua casa, onde está a tua família?
— Era muito perigoso. Estão perto de Oleta e da estrada. É possível que estejam à espera para me prenderem.
José Maria Arbelaiz era religioso por obrigação. O irmão mais velho tomaria conta da fazenda familiar e para o segundo não havia sítio no casario. D. Pedro, o pároco que os visitava regularmente e comia uma vez por semana nas cozinhas melhor fornecidas da freguesia, procurou uma colocação e encontrou-lhe um lugar no velho convento dos monges.
José Maria ali entrou para se instruir e adaptar-se à vida da ordem. Ali foi apanhado pelas perseguições da autoridade liberal, pelos ataques ao património da Igreja e pela falta de cobrança das rendas eclesiásticas devido à pobreza da população.
Como outros frades envolveu-se, em seguida, nas teias da insurreição. Andou no contrabando de armas, na espionagem e na vigilância das forças inimigas. Viajou como correio devido ao seu conhecimento dos carreiros do gado impossíveis de controlar pelo exército, e rapidamente entrou para as listas de mandados de captura dos guardas da província.
Era um jovem vivaço. Diziam dele que tinha um duende sob a pele que o mantinha sempre acordado. Qualquer sobressalto fazia-o correr antes de olhar e voltava a cabeça de imediato para ver o que se passava atrás de si, como se receasse uma punhalada imprevista ou o aparecimento de um inimigo. Esta ansiedade tinha-o livrado de ser presa dos soldados. Quando lia uns avisos, retirado na sua cela, sentiu os primeiros passos de botas nos silenciosos corredores do mosteiro. Intuiu que era a tropa que o procurava e escapou-se pela clarabóia no telhado.
Com a boca ainda cheia de broa de milho contou ao seu amigo Joaquim.
— Um soldado velho espreitou e apontou a espingarda pela janela por onde eu tinha fugido. Chegou a disparar, sem pontaria, pois não me apanhou. Atirei-lhe com uma telha, a que escapou por milagre e ninguém mais apareceu para me perseguir.
Falavam em sussurro, com medo, conscientes de que a noite propaga as palavras à distância. No entanto, estavam encobertos pela natureza adormecida, os grilos incansáveis, a passagem da brisa entre as árvores e os ruídos inquietantes dos caçadores da escuridão. (...)

Tradução de Francisco Marques
Obra a sair em Agosto

quarta-feira, julho 25, 2007

Os próximos livros da Deriva

Duda Valle, Rio de Janeiro

Agosto - Dorregarai, A Casa-Torre, de Anjel Rekalde. Romance histórico.
Setembro - Grandes Autores para Pequenos Leitores - Literatura para a Infância e a Juventude: elementos para a construção de um cânone, coord. de José António Gomes e Blanca-Anna Roig Rechou. Ensaio.
Setembro - Vozes do Alfabeto, de João Pedro Mésseder, ilustrações de João Maio Pinto. Infantil.
Outubro - A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano. Ensaio.
Outubro - Apócrifo, de José Ricardo Nunes. Poesia.
Novembro - O Espírito Nómada de Kenneth White. Ensaio.
Novembro - Catálogo de Venenos, Marilar Aleixandre. Poesia.

terça-feira, julho 17, 2007

Dorregarai, A Casa-Torre de Anjel Rekalde, traduzido por Francisco Marques e a editar este mês pela Deriva

A capa espanhola de Dorregarai, A Casa-Torre e Anjel Rekalde

Angel Rekalde, Tolosa – País Basco (1957) é licenciado em Sociologia e Ciências Políticas e doutorado em Jornalismo pela Universidade do País Basco. Analista do Discurso, é também um profundo conhecedor da História nacional basca e do seu conflito nacional com os Estados espanhol e francês, do qual possui, aliás, uma funda vivência pessoal. Encarcerado durante e após o franquismo pela sua militância na organização armada basca ETA, cumpriu duas décadas de prisão, em numerosos cárceres do Estado espanhol, que transformou num tempo fecundo de grande vitalidade intelectual. Retratou essas vivências em obras como Herrera, Prisión de Guerra e em crónicas e artigos diversos. A trilogia cuja publicação em português a Deriva Editores agora inicia, com "Dorregarai, A Casa-Torre" é uma densa saga histórica, que conta a História do último século e meio de vida da nação basca, desde a abolição militar da sua última fronteira com Espanha, no rio Ebro, até aos 90 do último século. A Deriva editará, por ordem cronológica os dois restantes volumes, "Mugalaris" e "Sombras del Alba", difundindo pela primeira vez em língua portuguesa, a visão independentista do conflito, pela mão de um dos mais reputados ficcionistas do país na actualidade. De Angel Rekalde, em co-autoria com o jornalista português Rui Pereira, encontra-se editado em Portugal o ensaio "O Novo Jornalismo Fardado – El País e o Nacionalismo basco".
A edição portuguesa da Deriva, a sair ainda este mês, vai inaugurar uma nova colecção de ficção que continuará a ser de Gémeo Luís (não tardaremos a dar a conhecer a nova capa). A tradução é de Francisco Marques.

quinta-feira, julho 05, 2007

Dia 6 de Julho, sexta, às 21:30, na Galeria Sargadelos, debate sobre Futuro Primitivo de John Zerzan

Arte Cavernícola

É na Galeria Sargadelos, aqui no Porto, que se vai debater o Futuro Primitivo de John Zerzan. os moderadores de um debate que se quer alargado a todos os presentes serão Rui Pereira, André Martins, António Alves da Silva e aqui o editor. É no dia 6 de Julho (sexta), pelas 21:30. A Galeria é na Rua Mouzinho da Silveira, 294 (quem desce da estação de S. Bento para a Ribeira, do lado esquerdo). O telefone é o 222011666. Haverá uma comunicação escrita de John Zerzan para o debate.

terça-feira, julho 03, 2007

Da Sombra que Somos, de Maria Sofia Magalhães: 4 de Julho, Palacete Balsemão, 21:30 (à Carlos Alberto)



Apresentação do livro de poesia ”Da Sombra que Somos”

Dia 4 de Julho | quarta-feira | 21:30 horas

Palacete Balsemão | Praça Carlos Alberto | Porto
Livraria Poetria

domingo, junho 24, 2007

Livraria Orfeu, em Bruxelas: apresentação de Dragona, de Xavier Queipo

Reparaz - La Voz de Galicia


Depois de Vigo, Dragona (ed. Xerais), de Xavier Queipo foi apresentado em Bruxelas na livraria portuguesa Orfeu, de Joaquim Pinto da Silva. Este livro publicar-se-á ainda em 2007 em Portugal, pela Deriva, constituíndo assim o 3º livro deste autor a ser editado por nós. O primeiro foi Bebendo o Mar (2004) e Ciclos do Bambu (2006). O autor nascido em Santiago de Compostela em 1956, é médico e biólogo, e vive há dezoito anos em Bruxelas. O artigo de Juan Olivier da Voz de Galicia sobre esta apresentação pode ser consultado aqui.

Plano Nacional de Leitura: O Elefante que não era Elefante, Galinhas à Solta e Perigo Vegetal na nova listagem

Para além de O Aquário de João Pedro Mésseder, já presente desde o ano passado no Plano Nacional de Leitura foram agora escolhidos mais três livros infantis e juvenis da Deriva. São eles:











O Elefante que Não era Elefante, Marta Rivera Ferner - INCLUÍDO NO PLANO NACIONAL DE LEITURA - para o 1º ano de escolaridade - Destinado à Leitura Orientada na Sala de Aula - Grau de Dificuldade II



Galinhas à Solta, de Marta Álvarez - INCLUÍDO NO PLANO NACIONAL DE LEITURA - para o 3º ano de escolaridade - Destinado à Leitura Autónoma e/ou leitura com apoio dos professores ou dos pais

Perigo Vegetal, de Ramón Caride - INCLUÍDO NO PLANO NACIONAL DE LEITURA - para o 6º ano de escolaridade - Destinado à Leitura Orientada na Sala de Aula - Grau de Dificuldade II

terça-feira, junho 19, 2007

Debate, dia 6 de Julho, pelas 21:30, sobre Futuro Primitivo de John Zerzan na Galeria Sargadelos, Porto




É na Galeria Sargadelos, aqui no Porto, que se vai debater o Futuro Primitivo de John Zerzan, a convite de André Martins. Vamos, com todo o gosto. As intervenções iniciais, porque esperamos outras mais tarde e de todos, são de António Alves da Silva e Rui Pereira. Lá estarei, também, para falar de um livro que me deu grande prazer editar.

É no dia 6 de Julho (sexta), pelas 21:30. A Galeria é na Rua Mouzinho da Silveira, 294. Tel.: 222011666.

William Morris e a Beleza da Vida, edições &etc

«Ao olhar para a Assembleia aqui reunida, sou levado a pensar em tudo o que ela representa e não consigo evitar que a minha alma seja tocada pelos problemas da vida que afectam o homem civilizado e se inquiete com a expectativa de os superar. Mais uma vez, não vou poder deixar de vos transmitir a mensagem de que, presumo, um qualquer desígnio me encarregou. Trata-se, em suma, de apelar para que ouseis enfrentar o mais recente dos perigos que ameaçam toda a humanidade e que é um perigo imanente: o de ela vir a ser privada de toda a beleza da vida por causa de uns tantos que defendem o direito exclusivo aos privilégios. É, de facto, um perigo que os mais fortes e mais sábios entre os humanos, no seu afã para um total domínio sobre a natureza, possam vir a destruir os seus bens mais singelos e generosos, a tornar seus escravos os mais simples e, a eles, escravos de si próprios, o que levará ao mundo a uma segunda barbárie ainda mais ignóbil e muitíssimo menos esperançosa do que a primeira. (...)»


William Morris, A Beleza da Vida, Conferência no Twon Hall, Birmingham, em 1880. Livro recém- editado pela &etc

segunda-feira, junho 18, 2007

Gonçalo M. Tavares e Paulo Kellerman na Bulhosa, em Lisboa, dia 28 de Junho, às 18:30

Vai ser em Lisboa, na Bulhosa, a 28 de Junho ao fim da tarde (18:30), o encontro de Gonçalo M. Tavares e Paulo Kellerman autores com uma bonita relação com o conto. Falarão a dois: o Paulo de Breves Notas sobre o Medo último livro do Gonçalo a sair na Relógio d' Água e este apresentará Os Mundos Separados que Partilhamos do Paulo, editado cá pela Deriva.
Uma salutar relação que se construirá assim, na prática e perante todos, contrariando aqueles que ainda supõem este género literário como um parente pobre da literatura. E. já agora, uma bela parceria das duas editoras. Vamos lá estar todos.

domingo, junho 17, 2007

Da Sombra que Somos, de Maria Sofia Magalhães. Apresentações

Capa de Gémeo Luís

As letras arrumadas
descodificam
a solidão
na ausência de sentidos.
Movo os olhos
e recebo a luz.
Esqueço as mãos
descomprometidas
do mundo.

Maria Sofia Magalhães Loureiro dos Santos, nasceu a 27 de Dezembro de 1961, em Vendas Novas, e vive em Oeiras. Exerce medicina na área da anatomia patológica. Publicou um livro de poesia (A Luz que se Esconde).

Apresentações:
Lisboa - Livraria Barata, 29 de Junho pelas 18:30
Porto - Livraria Poetria / Palácio Balsemão (ao Carlos Alberto), 4 de Julho, 21:30

quinta-feira, junho 14, 2007

Henry David Thoreau e o espírito nómada

«Na literatura, só o que é selvagem nos atrai. Sabedoria e doçura são sinónimos de aborrecimento. O que nos arrebata é o não familiar, o não civilizado, o pensamento livre e vagabundo, o que não se aprendeu na escola, o que não foi refinado nem polido pela arte. Um livro verdadeiramente bom é algo tão natural, primitivo, selvagem, tão misterioso, tão ambrosíaco, tão prolífico como um líquen ou um cogumelo.»

Henry David Thoreau, citado por Kenneth White em O Espírito Nómada a ser publicado pela Deriva. Tradução de Luís Nogueira.

terça-feira, junho 12, 2007

Já à venda - Futuro Primitivo de John Zerzan

Já está à venda Futuro Primitivo de John Zerzan que escreveu um prefácio à edição portuguesa. A capa é de Gémeo Luís, a tradução do prefácio de Cecília Gradim e as ilustrações/colagens de Arte Cavernícola (secção lusa). O livro tem 64 páginas, extensa bibliografia e é uma pedrada no charco na antropologia dita oficial. A uma nova visão da Pré-História e do Homem primitivo contrapõe-se uma necessidade de mudança com o fim de evitar uma catástrofe anunciada há muito na sociedade hodierna. Não é um livro de fim-de-semana. Também não é para conformistas ou para gente cujos percursos nómadas habituais é de casa para o supermercado mais próximo. São 12 euros; 10.50, para assinantes cá da multinacional (aqui, por encomenda).

Para saber mais sobre o livro e sobre o autor clicar em John Zerzan.

domingo, junho 10, 2007

Meridionais, de João Pedro Mésseder a 15 de Junho em Évora e Avis

Apresentações ao Sul de Meridionais de João Pedro Mésseder:

Dia 15 de Junho - Avis, às 13:00 - encontro com alunos na Escola E.B. 2/3 de Avis (com debate sobre o Aquário)
18:00 - Feira do Livro de Avis
21:30 - Biblioteca Pública de Évora

Edição de Junho do le Monde - A Formação da Mentalidade Submissa de Vicente Romano

É José Nuno Matos que assina a crítica de A Formação da Mentalidade Submissa de Vicente Romano na edição de Junho da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. Uma edição a ler.

Tapoquê?

Não percebi o que disse Cavaco Silva no 10 de Junho: leu Taprobana? Trapobana? Tapobrana? Que raio foi aquilo?

Thomas Mann editado pelo lulu.com

Arte Cavernícola

«Hoje Thomas Mann não seria publicado. Não teria editor!», disse um crítico da praça exultando contra a dita classe. Nada que uma outra crítica não tenha pensado já: «Hoje, a edição é inútil. Com o lulu.com, os problemas estarão, à partida, resolvidos. Primeiro a edição na net, mais tarde em papel. Sem editor. Basta o agente e o autor». Assim, desta maneira simples como o ovo de Colombo, se partiria de uma nova premissa e de um novo conceito que exigirá a ausência do editor. Continua uma outra, exigentíssima, crítica: «Ai América, América! Os livros, muito por culpa da América, estão a mudar. Hoje, os autores desdobram-se em mini-encontros de 5 minutos com os livreiros (endeusados pelos promotores - sic) dando tudo: rebuçados, bolinhos, porta-chaves, malas de viagens».

É nestas alturas que me lembro de Ginsberg (não, não é por causa do Uivo induzido pelo Ai América da crítica!) e dos livros da City Ligths Books, do Herberto Helder, do Carlos e do Luís e de como gostávamos dos livros, os trocávamos, discutíamos e os roubávamos, até. Não, a Deriva não oferece viagens, nem canetas, nem porta-chaves... e quanto a Thomas Mann, o Presidente da República que infelizmente temos, apoiado por muito desta gente, não foi o que disse que estava a ler a Utopia, precisamente escrita por ele? É que a diferença entre estas promoções é ténue, como se sabe.

domingo, junho 03, 2007

Intervenção de José António Gomes na Feira do Livro do Porto a 1 de Junho de 2007

Duas notas para o debate sobre «O gosto de ler» – Feira do Livro do Porto, 1/6/2007, em que participaram Teresa Calçada (RBE e PNL), Vladimiro Feliz (vereador da Cultura da CMP), Luísa Dacosta (escritora) e Francisco Madruga (APEL)

1. Não obstante o aumento da percentagem de leitores, observada nas últimas décadas, sobretudo entre as camadas mais jovens da população, a verdade é que no fundamental vivemos num país de não-leitores. Um país com elevados índices de iliteracia e uma intolerável taxa de analfabetismo, 33 anos passados sobre o 25 de Abril. Um país de 9 milhões de habitantes
• onde cada novo livro de poesia de qualidade não é lido por mais de 300 a 500 leitores;
• onde os livros de ensaio têm destino semelhante;
• onde, devido às baixas tiragens, é quase impossível manter colecções de bolso com livros a preços módicos;
• onde não há revista literária que por muito tempo se aguente;
• onde os jornais ditos de referência reduzem cada vez mais o espaço dedicado à divulgação e crítica de livros, substituindo-o por secções de ‘faits divers’ e noticiário sobre frivolidades;
• onde encerram livrarias todos os anos;
• onde muitas editoras e distribuidoras vivem, cada vez mais, em situação de insolvência, numa asfixia lenta, mitigada por efémeros ‘balões de oxigénio’ (a publicação de ‘novidades’, umas após as outras);
• onde o mercado editorial se encontra completamente desregulado (cerca de 80% nas mãos das grandes superfícies (FNAC, hipermercados, Livrarias Bertrand) e o resto nas mãos de livrarias com a corda na garganta), um mercado a ser absorvido, de modo crescente, por um punhado de grandes grupos empresariais, cujo único fito é o lucro;
• onde as grandes superfícies forçam as editoras a ruinosas margens de desconto, o que, paradoxalmente, resulta em aumento generalizado dos preços de venda a público;
• onde entramos na maioria dessas grandes superfícies e nunca encontramos o livro que queremos, pois os escaparates estão inundados de ‘best sellers’ de autores anglo-saxónicos e de outros produtos editoriais altamente tóxicos;
• onde a maioria das famílias portuguesas possui pouquíssimos ou quase nenhuns livros em casa;
• onde existem muitas vilas, e até cidades, sem uma única livraria digna de tal nome;
• onde, quando morreu Augusto Abelaira, ouvimos falar da presença do então presidente da República no lançamento de um livro de José Mourinho, mas nada lhe ouvimos dizer, nesses mesmos dias, acerca da personalidade do autor de “A Cidade das Flores”;
• onde as Bibliotecas Públicas se vêem e acham para arrancar uns tostões aos orçamentos das autarquias a fim de acudir a necessidades várias: crescimento dos fundos documentais, actividades de promoção da leitura, etc.; e onde por vezes são inauguradas, com pompa e circunstância, Bibliotecas Públicas quase sem livros, por autarcas que não perdem um minuto por dia com a leitura;
• onde, sobre a actividade cultural, predomina uma visão economicista e se encara com frequência a cultura – assim a vêem os que nos têm governado – como uma actividade mercantil e um espectáculo mediático;
• onde o louvável e necessário projecto da Rede de Bibliotecas Escolares avança mais lentamente do que seria desejável (por exemplo, no Porto, em cerca de 60 escolas do 1º ciclo, apenas metade ou menos de metade possui bibliotecas integradas na Rede).
Num país assim que – afirma-o José Mário Branco numa das suas canções (falando sintomaticamente de Luís de Camões e do século XVI português) – “te mata lentamente”, num país assim, só nos podemos congratular com campanhas e programas de promoção do livro e da leitura, como o Plano Nacional de Leitura, cuja divisa é LER MAIS.
Campanhas que passam, como esta passa, pela Escola Pública. (Pois, que se saiba, estar equipada com Biblioteca Escolar não é requisito essencial para que uma escola privada funcione; donde, as públicas são melhores do que as privadas.) A Escola que é, neste país, um dos poucos espaços onde a Literatura, a verdadeira Literatura, trabalhada de modo continuado e persistente graças aos professores, vai sobrevivendo. Para a maioria dos jovens, o único espaço, a bem dizer, onde lhes é dada a possibilidade de conviver com o literário.
2. Um segundo tópico a que gostaria de aludir – indirectamente relacionado com o PNL e directamente ligado à questão da promoção do livro – prende-se com a qualidade da Leitura, a qualidade dos livros, a qualidade das selecções que se propõem. Prende-se com o modo como passamos pelos ‘clássicos’ e pelos grandes livros, mesmo os da chamada literatura infantil, como gato por vinha vindimada, e nos deixamos encandear pelo novo só porque é novo – sendo muitas vezes medíocre. E prende-se eventualmente com a qualidade das actividades de promoção da leitura e de animação. Por vezes pergunto-me: anima-se sim; mas o quê?, e como? E, em boa verdade, promove-se?
Aqui não resisto a evocar por graça um dos episódios mais hilariantes do “Dom Quixote de La Mancha”. Refiro-me ao capítulo VI, cujo título é, na versão de Aquilino Ribeiro, “[Capítulo] Que trata do largo escrutínio que o cura e o barbeiro fizeram na livraria do nosso engenhoso fidalgo”.
Nesta passagem se narra a iniciativa do cura amigo de Dom Quixote que, certa manhã, com a ajuda do barbeiro, trata de lançar ao fogo quanto livro mau, quanto mau romance de cavalaria encontra na biblioteca pessoal de Dom Quixote. Livros responsáveis, segundo o cura – que era homem de saber e bom gosto literário – pelos desvarios mentais do ‘cavaleiro da triste figura’.
Não advogando que se queimem livros, e lembrando-me sempre de outras muitas fogueiras e censuras de má memória, não quero deixar de dizer que esta espécie de parábola de Cervantes é uma lição sobre a qual nem sempre temos sabido meditar. É dos mais admiráveis textos que conheço sobre a questão da promoção da leitura, a promoção dos bons livros. Por isso entendo – como outros já têm explicado melhor do que eu – que seria preferível a divisa do PNL ser LER MELHOR em vez de LER MAIS. Com as implicações que este ‘slogan’ deveria ter.

sábado, junho 02, 2007

Meridionais, de João Pedro Mésseder. Texto de apresentação de Paula Cruz no Clube Literário do Porto a 18 de Maio de 2007

Meridionais é um livro habitado de memórias. A memória que é uma arte: a do “canto obstinado das cigarras”, do “prumo branco das colunas” e do “fruto ainda verde dos ciprestes ” (p. 7). É este entendimento da memória – da mnemósine – que nos remete desde o início para uma estética aprumada, que foge ao neo-barroquismo que invade os escaparates dos supermercados de livros, e procura uma verticalidade que se afirma pelo prumo e aprumo, pelas colunas e pelos ciprestes.
Os textos são breves, densos, condensados, volumes gnómicos, muitas vezes aforísticos (a lembrar um outro título do autor, Abrasivas). Por vezes aproximam-se da aguarela pela sua aquosidade e leveza, em outros momentos são incisivas legendas. Todos eles são porosos, dados à respiração nítida e a um líquido silêncio, inundado de uma memória de um mar liso, muito azul e de uma planície, paradoxalmente, vertical.
O poema inaugural de Meridionais apresenta-se com uma reconfortante certeza:
“Afinal
o mundo
tem um centro” (p.7)
Esse centro é Delfos, o cordão umbilical dos poetas. Não é preciso procurar mais. Delfos, reverenciado por todo o mundo grego como o umbigo do universo, é o começo, a génese, o centro. É também em Delfos, na água bebida na “Fonte Castalia” que reside a graça poética. Não, seguramente, a “graça” / inspiração de Mésseder: afinal quem bebe “a água que jorra do umbigo da terra” são os outros – aqueles que buscam “um grão de juventude” (p. 8) – não ele. O desejo de distanciamento desses outros que necessitam dessa “água” é mais do que vincado: são eles – esses que a bebem – não ele.
O silêncio de Mésseder não é uma metáfora gasta, mas sinestésico que se vê e se respira. É esse silêncio que se encontra em Epidauro, no teatro. Este anfiteatro reproduzia de forma audível, nas últimas bancadas, o som de um alfinete atirado ao chão. No entanto, é mais fácil hoje ouvir hoje um alfinete cair, do que respirar a nitidez inteiriça do silêncio.
À estética aprumada de Mésseder não falta a pulsão da justiça social. O poeta não esquece Elgin, lorde inglês que no séc. XIX retirou parte das esculturas sobreviventes do Parténon e as levou para Inglaterra, nem Teodósio – imperador e cristão – que antes tinha destruído esse mesmo templo. Dois lamentáveis exemplos da afirmação e legitimação da nobreza (ou de uma espécie de nobreza). Estranhamente, estas vis linhagens têm sido as eleitas, sendo preteridos os homens que “a troco de um soldo – como é justo” (p. 16) erguem templos. A propósito de Ídhra, a ironia continua: a bela e maternal ilha agasalhou em seu regaço corsários que se tornaram homens ricos (não ricos homens). Conclui o poeta: “Assim se fundam nobres genealogias de ladrões”. (p. 17).
É a pulsão social, o sentido ético que não deixa nunca de ser o farol, o sul, a coluna vertebral destes cadernos fragmentados.
A revisitação feita pelo sujeito poético leva-nos, por vezes, a uma minimalização do presente e faz sobressair o elemento natural. É a natureza que perdura. Ela estava antes dos deuses e continua depois deles. A presença quase obsessiva do mar é disso exemplo: ”mar de laranjeiras”, “o mar de oliveiras”, o “liso mar azul”, “o mar sem fúria” ou mesmo o “azul sarónico”. Quase que nos atrevemos falar de uma eco-poesia.
Os deuses gregos, que partilhavam o divino com os mortais, já partiram. Na areia restam apenas “estilhas dos ossos de Ícaro”. Aquele que queimou as asas de cera ao querer subir ainda mais alto. Agora estamos abandonados a nós próprios.
Depois deste Sul grego que, brincando com as palavras, norteia Meridionais, temos outro sul: o Alentejo. Um Alentejo mítico e mitificado. Um Alentejo revolucionário e resistente, um Alentejo cujo vibrante silêncio é estratégia de sedução.
A paleta de cores muda. Já não é apenas o branco e o azul: a paisagem está agora marchetada de amarelos, ocres e castanhos. São deste caderno palavras-chave a planície, a verticalidade, a justiça, a cal, o vento e numa estrutura menos visível, mas muito presente: a esquerda.
O vento de que se fala talvez seja real, mas é também uma vontade de mudança, de um rumo novo a um outro sul: um sul ao sul do Sul.
Numa “receita” filológica, Mésseder explica a génese do Alentejo enquanto país: A um rio – o Tejo – juntou-se um advérbio: além. Com homens, vinho e pão rude e digno temos um país:
“Junta o rio e seu advérbio: nasce um país. Com homens, vinho, um pão difícil.” (p.34)
O Alentejo é, aqui, anunciado como um país que exige ser nomeado como se fosse uma planície, um sopro na paisagem. O mar do sul, do Caderno Grego, transforma-se aqui numa “terra interminável”, de “horizonte inteiro e raso onde – nada dir-se-ia – está inscrito” (p.64). Há um cuidado em limpar as palavras e em “resgatá-las” na sua inteireza: caiá-las. Mas a planície, a vastidão, não esquece nunca a verticalidade e a justiça. Metonimicamente, o Alentejo representa a revolução. Além Tejo, há homens que são “pilares de sangue e suor que atravessaram séculos de paisagens golpeadas.” (p. 59). Diz Mésseder que esses pilares de sangue “nunca cessaram de florir por dentro da fome”. Esta imagem é violenta e fortíssima: “florir por dentro da fome”. Se florir implica um renascer e uma Primavera (quiçá um Abril?), a fome é a opressão. Contudo, nem a fome conseguiu aniquilar a esperança e o sonho. O Alentejo afirma-se assim como o berço de uma “ambição civil” (p. 59), ambição essa que ainda vive, mais que não seja nas palavras. (p. 60). Palavras que alguns se esforçam por apagar, como se fiz algures: “as palavras que morrem com os anos” (p. 60)
O breve texto “Torre do Castelo de Beja”: “Como um homem erguido do chão, o orgulho da pedra vertical.” (p. 67) reserva em si mesmo a essência da Revolução: o erguer-se, o levantar-se do chão, o construir-se, o orgulhar-se de si e da sua verticalidade. Esta prosa mínima dialoga directamente com “Operário em Construção” de Vinicius: “E o operário disse: Não!”. É esse o orgulho vertical, a frontalidade, a dignidade, o rigor, o florir por dentro, mesmo contra a fome, contra a opressão, com as nobrezas imerecidas.
O poema “Domingo em Nisa” (p. 41) é um olhar duro sobre um país povoado e sobre uma certa forma de ser português, longe da sombra divina dos deuses gregos. «Domingo em Nisa» é também Cesário e Nobre («Georges! anda ver meu país de romarias e procissões»). É um texto de uma violência atroz, porque nos mostra desabridamente parte do que somos (ou do que nos tornamos). É o mostrar de um Portugal «abrasivo» – «o sol golpeia o ar» –, sem a limpidez grega («imundos de poeira»). O cheiro do fumeiro, do suor, a soneira e as cólicas: a noiva branca, os convidados «barbeados e bovinos» e os «absurdos / longos vestidos de noite para um evento diurno». Contudo, nem esta forma de estar, de ser ou ir sendo, deslustra o ser Meridional.
Texto publicado no Suplemento Literário Das Artes e Das Letras de O Primeiro de Janeiro a 28 de Maio de 2007


quinta-feira, maio 31, 2007

Páginas Soltas: João Pedro Mésseder entrevistado por Bárbara Guimarães. Dia 1 de Junho, pelas 20:45h


É no Dia Mundial da Criança, a 1 de Junho, que Bárbara Guimarães entrevista João Pedro Mésseder no Páginas Soltas da SIC-Notícias. A primeira emissão é às 20:45 horas, mas repetirá muitas vezes nos dias e semanas seguintes. A conversa terá como tema central os livros infantis da autoria deste autor onde sobressai O Aquário. No entanto, serão lidos poemas de Meridionais. E não dizemos mais nada...

sexta-feira, maio 25, 2007

A Deriva nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto

O programa das feiras? É o de sempre. Nada a registar. Os livros da Deriva? Ah, sim, estão lá e a bons preços:

Feiras do Livro:presente nos Pavilhões da CENTRALIVROS.

Feira do livro de Lisboa: Pavilhão 127, 131, 135, 139

Feira do Livro do Porto: Tenda C3 e C5





Boas feiras!

Gonçalo M. Tavares

Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco APE. Parabéns ao Gonçalo M. Tavares.

quarta-feira, maio 23, 2007

Salvem a crítica literária nos jornais?

Norman Rockwell
Preparo-me para um dia tramado. Era o dia da apresentação, no Clube Literário, de Meridionais de João Pedro Mésseder pela Paula Cruz. Correu bem, muito bem, mas não há volta a dar e o nervoso miudinho é o de sempre. E também como sempre compro uma resma de jornais e bebo café mais do que o aconselhado.
Abro o Ipsílon e deparo-me com um apelo logo na página de abertura: «Salvem a crítica literária nos jornais» (sem ponto de exclamação, como quer o Mexia, que é contra). Nada que já não escrevessemos aqui no Deriva das Palavras e já há muito tempo - aponte-se para que não se esqueça! Não deixa de ser estranho, contudo, que um jornal que apela desta maneira a que não se acabe com a crítica literária nos jornais, tenha sido o mesmo que acabou com o Milfolhas e com a colaboração de muitos jornalistas culturais, assim como diminuiu drasticamente o espaço para os livros. Tal como todos os jornais diários e semanários ditos de referência. Voltemos à notícia em questão: tratava-se de uma petição on-line da americana National Book Critics Circle que apelava ao envio de cartas de leitores para as direcções de jornais e de editores (de jornais!) para que não se acabasse, sem mais, com a crítica de livros. Não consta que mandassem para Portugal, visto que não devem ter razões de queixa. Escritores americanos em jornais portugueses é só escolher. Conseguiram ao que consta 5442 assinaturas! Nada de especial, diga-se, e que faria sorrir um qualquer candidato à Câmara de Lisboa.
Ora, eu tinha comprado a tal resma de jornais de referência. Era o dia da apresentação de Meridionais e o dia Internacional de Museus. Dos quatro jornais só um escrevia da presença de Manoel de Oliveira em Cannes, o mesmo que referia a VII edição do Imaginarius de Santa Maria da Feira, outra referência a Ricardo Pais no TNSJ e a Baptista-Bastos tudo junto com páginas de Britney Spears, Michael Moore, Wraygunn, The Who, Julio Iglesias, Madonna, Paris Hilton, o filme Zodiac, Hillary Clinton, a depressão de Lars von Trier, Anne-Nicole Smith mais a publicação dos seus diários, Mick Jagger e Demi Moore. Falta de crítica literária? Não... isto é outra coisa, mas preparemo-nos... acabe-se a crítica e venha daí o fait-divers. Pelas «tranferências» a que assistimos nos jornais de referência bem podemos ficar descansados. Eles são críticos (também de referência, claro) sempre defensores dos livros e da literatura (de referência, é óbvio) a passaarem directamente para outros suplementos e para outras «realidades» mais digitais, mais turísticas, mais mediáticas. Estamos (mais) conversados...

domingo, maio 20, 2007

Futuro Primitivo de John Zerzan, a publicar dentro de dias

Capa de Gémeo Luís

John Zerzan nasceu em 1943, em Oregon, EUA, e é licenciado em Ciências Políticas pela Stanford University e em História pela San Francisco State University. Preso em 1966, nos EUA, pela sua participação nos movimentos de desobediência civil e contra a guerra do Vietnam, conhecidos pelos tumultos de Berckeley. Abandonou, mais tarde, uma carreira universitária na University of Southern California. Hoje, dedica-se à educação de crianças e à jardinagem. Promove, ainda, conferências sobre o Primitivismo e Paleo-Anarquismo em todo o mundo. Destaca-se como escritor e filósofo do chamado Primitivismo com a edição de Elements of Refusal (Left Bank Books, Seattle, 1988) e de Future Primitive (Autonomedia, New York, 1994) livro agora traduzido para português pela Deriva e que lhe deu projecção internacional ao serem traduzidas versões para várias línguas. Questioning Technology (Freedom Press, Londres, 1988), The Mass Psychology of Misery, Tonality and the Totality, The Catastrophe of Postmodernism e The Nihilist's Dictionary contam-se entre as suas obras mais recentes. Em 2002, edita Against Civilization: Readings and Reflections, em Los Angeles.

As ideias de John Zerzan situam-se na crítica à tecnologia e à cultura simbólica como origem da degenerescência da Humanidade que a iniciou com o advento da agricultura e da domesticação de toda a vida humana e da natureza. Rejeita, portanto, a divisão social e sexual do trabalho e o patriarcado, assim como a separação entre a Natureza e a Cultura. Singular, na visão de Zerzan, é a síntese de várias correntes filosóficas que elabora na crítica à sociedade moderna e pós-moderna como suportes que fazem parte de um mundo que se encontra moribundo. As fontes teóricas do Primitivismo a que Zerzan dá voz vão desde Adorno, aos situacionistas, à antropologia, ao luddismo, à ecologia e ao feminismo, assim como às correntes igualitárias e anti-autoritárias americanas e europeias. O Futuro Primitivo é, para nós, a obra mais marcante de John Zerzan. Para além de reflectir uma revisitação teórica da Pré-História, ataca violentamente as ideias preconcebidas da antropologia oficial e dá-nos a possibilidade de encontrar uma ténue saída para a catástrofe iminente.

«Definir» um mundo não alienado seria impossível e talvez indesejável, mas creio que podemos e deveríamos tentar revelar o não-mundo dos nossos dias e como se chegou até ele. Caímos num monstruoso erro ao adoptarmos a cultura simbólica e a divisão do trabalho, abandonando um mundo de deslumbramento, compreensão e totalidade e esperando por um Nada que nós encontramos, hoje, na doutrina do progresso. Vazia, cada vez mais vazia, a lógica da domesticação, com as suas exigências de domínio total, mostra-nos a ruína de uma civilização que destrói tudo em que toca. Presumir a inferioridade da natureza favorece o domínio de sistemas culturais que não tardarão a tornar a Terra inabitável.
O pós-modernismo diz-nos que uma sociedade sem relações de poder não é mais que uma abstracção. É uma mentira, a menos que aceitemos a morte da natureza e que renunciemos para sempre ao que foi e que poderá, um dia, vir a ser de novo. Turnbull falou-nos da intimidade entre os Mbuti e a floresta, e da sua maneira de dançar como se fizessem amor com ela. Na fímbria de uma vida onde todos os seres são iguais, onde não existia nenhuma abstracção e que se esforça ainda por manter-se viva, eles «dançam com a floresta, dançam com a lua». (Futuro Primitivo, 2007, Deriva). Esta edição portuguesa da Deriva é acompanhada por um prefácio do autor.

John Zerzan

segunda-feira, maio 14, 2007

«Meridionais» de João Pedro Mésseder no Clube Literário a 18 de Maio, Sexta-feira, pelas 21:30. Apresentação de Paula Cruz



“Um mito como outros, o sul, ou apenas um lugar, um ponto cardeal? Para o que habita esse lugar, existe sempre, todavia, um outro sul. E, por isso, um qualquer norte – ou desnorte – é a sua morada. Aí elabora sobre a distância que o separa do cenário inatingível. Uma vez mais, “o nada que é tudo”. Desse nada, desse tudo, uma escrita emerge. Sustentando o mito.” Assim se apresenta o novo livro do poeta João Pedro Mésseder: «Meridionais». Em dois tempos – “I. De um Caderno Grego”, “II. De um Caderno Antigo” – vai retomando tempos e lugares às vezes junto ao mar, às vezes próximos da lentidão da terra. Às vezes, também, lugares sem explicação, como este: “Casa branca no centro da planície. E um nome escrito na cal: mãe ou morada” (no poema “Nome”). João Pedro Mésseder (nome literário de José António Gomes) nasceu em 1957, no Porto, onde completou estudos universitários e exerce funções docentes. Colaborador do suplemento «das Artes das Letras», publicou, entre outros livros de poesia, «A Cidade Incurável» (1999), «Fissura» (2000), «Elucidário de Youkali seguido de Ordem Alfabética» (2006) e «Abrasivas» (Deriva, 2005). Retirado de Das Artes, das Letras, 14/05/07.
Esta é a notícia de Meridionais no «Das Artes, das Letras» de O Primeiro de Janeiro. Nós acrescentamos que o lançamento deste mesmo livro é no Clube Literário, aqui no Porto (mais concretamente na Rua Nova da Alfândega, 22, à Ribeira, frente ao parque de estacionamento), às 21:30 e terá apresentação de Paula Cruz.

segunda-feira, maio 07, 2007

António Mega Ferreira escreve sobre a poesia de Filipa Leal na Os Meus Livros de Maio.


Trata-se do último número da revista Os Meus Livros de Maio. Lá, António Mega Ferreira escreve duas páginas sobre a poesia de Filipa Leal de Talvez os Lírios Compreendam até A Cidade Líquida e Outras Texturas, este último publicado pela Deriva, em 2006.
Arriscando-me a reduzir o excelente artigo sobre a Filipa, não posso deixar de citar AMF quando escreve: «O mundo da sua poesia é o das memórias que se acumulam e se perdem (e esta aparente perda, este parecer que vê tudo a partir do esquecimento, é uma das pulsões mais estimulantes da sua escrita), o mundo das partidas que se encenam e não se concretizam, das mudanças que trazem sempre consigo o rasto do que é deixado para trás, do desacerto entre as vozes que "caem como estrelas nómadas" e como estrelas se reerguem, na noite continuamente renovada da Poesia. (...)». Um artigo, portanto, não perder.

domingo, maio 06, 2007

O J. foi baleado

O J. foi baleado no bairro onde mora e onde se encontrava a jogar futebol. Conhecia-o. Tinha 11 anos. Estive com ele em várias ocasiões num programa de acção tutorial. Miúdo inteligente, respondão, provocador, mas acabava por fazer o que lhe propunhamos: uma ficha de cálculo, outra de português, ou de História (aí escapava-lhe a preferência para as tácticas de caça e armas da Pré-História). Lembro-me de o ter ajudado a fazer cálculos de médias de viagens em distância e tempo. Não se interessava muito até conseguir captar-lhe a atenção atribuíndo marcas sonantes aos carros e falando da VCI ou da A1. «Se o teu Ferrari for a 210 km/h, pela A1 fora, e quiseres ir a Coimbra que fica a 150 Km, chegas lá daqui a quanto tempo?» Era assim o J. Na sexta-feira, depois de ter sido baleado por um bando rival, ainda me dirigi a amigos para saber o seu estado. «Mal, mal...deram-lhe dois tiros. Um no braço e outro na perna!». Fiquei, mais uma vez, com um aperto no estômago e pensei por que razão não tinha este puto um boletim clínico à disposição? Pensei na «lógica dos sentimentos» que o Vasco Pulido Valente critica (e bem), de Rousseau e dos filhos dos inúteis que saem todos os dias na merda das revistas e comparei tudo isto com a vida de J. e o silêncio de um ataque brutal aos seus onze anos de vida. Mesmo que saiba que não é um santo, mesmo que saiba que a tal lógica dos sentimentos é a única coisa igualitária porque junta o irreconciliável, julgo sempre que a acção política é responsável por isto. Porque, voltando a VPV e a J.: não me interessa saber se o Rousseau é percursor da «lógica do sentimento». Mas sei qual a sua posição (contra Voltaire, diga-se) no terramoto de 1755 de Lisboa: se houve aquele desastre foi porque se construiu a cidade em cima de uma falha sísmica. Quais deuses? Quais falhas de previsão? Que ciência poderia salvar Lisboa se os homens a construiram contra ela?
Não me venham, portanto, com merdas: o J. conheceu cedo demais a violência física bem longe dos lares da classe média. Num bairro cada vez mais gueto, onde a droga impera e até baixou de preço. Estamos a educá-lo numa falha sísmica. Nem Rousseau nos pode valer. Trata-se de estupidez e avidez de lucros e, aí, as defesas que temos são políticas.

Curso de Línguas e Literaturas ou o poeta ofendido

O poeta ofendido dirige-se a Nunes, o secretário

Para quem anda com mais um pouco de atenção às coisas da educação isto já não era novidade - o Curso de Línguas e Literaturas está a morrer. Há uns seis anos, o Departamento a que pertencia enviou um documento ao ME (os tais que tentam demonstrar a participação dos professores) denunciando, entre outras coisas, que um aluno que fosse para o 10º ano para o Curso de Línguas e Literaturas poderia, através de uma política estúpida de opções, nunca vir ter a disciplina de Literatura Portuguesa. Ou seja, chegaria à Universidade sem a disciplina! (Aliás passa-se o mesmo a Medicina: um aluno pode ter de optar entre Química ou Biologia no 10º! Mas isso é outra conversa.). Até hoje não houve resposta do ME tendo o meu departamento enviado, para que não houvesse extravio, o mesmo documento por e-mail. Sei que houve centenas de pareceres nessa altura. Disseram, na ocasião, que estavamos a «corporizar». Hoje, os media acordaram para o «problema». Há cada vez menos alunos para este curso no secundário. Como haverá certamente para História e para Filosofia (hoje equiparadas às inócuas Educação Tecnológica, Área de Projecto ou Estudo Acompanhado, em tempos atribuídos por semana) . O ataque a estas últimas já começou há bué (palavra inscrita no Dicionário da Ac. das Ciências).
Solução do secretário de estado Nunes: «que sim, já pensámos nisso, vamos agir!» (não tinha pensado nada, mas está bem!). No dia seguinte veio a resposta: o Curso de Línguas e Literaturas vai integrar as Ciências Sociais!! Não há melhor. A ratio da disciplina de Latim, em Portugal, é de 1 aluno para 1000, a mais baixa da Europa. Na Alemanha é de 100! Logo, junta-se a desgraça à desgraça alheia - Literaturas e Ciências Sociais - e a coisa tem de dar resultado. Talvez haja, até, mais uns distraídos de CS que escolham Latim e Grego até os pais os demoverem por causa da média final! Mas aí encontra-se-á mais uma solução óbvia como fizeram com a Filosofia. Abaixo os exames no Secundário! E a coisa vai. Mas façam-me um favor: nunca mais me falem em rigor e exigência com as vossa caras de actores manhosos de um filme de série B da TVI, está bem?

quinta-feira, maio 03, 2007

Exposição de fotografias de Paulo Gaspar Ferreira

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Recebemos este convite: é a 4 de Maio na Serv'artes (ali numa transversal da Constituição, nº2105, no Porto) pelas 22h a inauguração de fotografia Espíritos Elementares de Paulo Gaspar Ferreira. São fotografias baseadas em textos de poetas portugueses. A ir.