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quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


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Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019

domingo, dezembro 30, 2012

2013: a intervenção política da Deriva vai, seguramente, continuar

2013 vai ser um ano de intervenção política. Os nomes que constituem esta coleção da Deriva em que alguns passaram por Portugal são Vicente Romano, Santiago Lopéz-Petit, John Zerzan, Kenneth White e Peter Lamborn Wilson

terça-feira, setembro 18, 2012

A Mobilização Global, na Fnac do Norteshopping

Em tempos de mobilização cidadã é de leitura obrigatória
A Mobilização Global do catalão Santiago Lopéz-Petit

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Crise ou fuga para a frente?






Na época da unidade capital / poder a crise era simplesmente um  elo fraco da cadeia, que o proletariado podia aproveitar. De outro  modo, a crise significaria um momento positivo na recomposição do capital. Na época global e com a co-pertença capital / poder, o próprio conceito de crise entra directamente em crise. Em grego, a palavra crise significa: corte, luta, decisão inclusivamente. De origem médica, a sua aplicação estender-se-á aos campos mais diversos. Apesar de todas as suas migrações, o significado médico  de «passagem para…» (entendendo-se por isso uma melhoria ou uma pioria) manter-se-á. Hoje, esta ideia de crise como «passagem para…» já não nos serve. É uma ideia demasiado devedora à modernidade. Não foi em vão que a própria modernidade se olhou a si mesma como crise — contingência, conflitualidade, excepção —, devido ao cataclismo da ordem tradicional. Na época global em que nos encontramos, já não é adequado falar de crise. Na actualidade, não existe propriamente uma crise, mas sim uma constante «fuga para a frente» que adopta a forma de uma crise permanente, ou de guerra. «Fuga para a frente» significa, em primeiro lugar que as alternativas foram deixadas para trás, em especial a ideia moderna  de revolução. «Fuga para a frente» significa, em segundo lugar, que não há futuro. A busca ansiosa de futuro, inerente ao extravasamento  do capital comporta o paradoxo de uma radical ausência de futuro. Neste sentido, a «fuga para a frente» contém toda a fenomenologia do extravasamento  do capital. in
 Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra, Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira), Deriva.

quinta-feira, março 10, 2011

O fascismo pós-moderno como (auto)mobilização total | Santiago López-Petit

O fascismo pós-moderno como (auto)mobilização total

Ainda que seja difícil aceitá-lo: dizer o que hoje sucede é dizer aquilo que nos sucede. As antigas análises de conjuntura já não nos falam porque nos afundámos na realidade. Ao invés, uma descrição da neve é-nos bem mais útil para sabermos onde estamos. A neve não é branca, mas antes de uma sujidade pegajosa. Os pés que nela se arrastam, por exemplo, não conseguem livrar-se dela. A neve está sempre meia submersa. Desde quando é verdade que a verdade do mundo se nos impõe como a nossa única verdade? A resposta é simples. Desde que a realidade se unificou com o capitalismo. Antes não era assim. Dantes, quando as análises de conjuntura contavam — ou pelo menos quando acreditávamos que sim — a realidade podia transformar-se. Agora também: «Outro mundo é possível». É isso o que as Organizações Não-Governamentais (ONG) afirmam. Foi isso que meio milhão de pessoas afi rmou no dia 16 de Março de 2002, saindo à rua em manifestação contra a Cimeira da União Europeia (UE) reunida em Barcelona. A manifestação foi um êxito. Graças aos numerosos serviços de ordem, perfeitamente coordenados com a polícia através dos telemóveis, correu tudo muito bem. Todos concordaram com isso. Desde o Senhor Ministro do Interior até aos anizadores, passando pelos diversos tipos de polícias.

Com efeito, a manifestação foi um êxito. Mas a manifestação pareceu-se com um funeral. Todos juntos, a avançar, sem conseguirem que a neve derretesse, sequer, um pouco mais. Cada qual sozinho — com a sua história pessoal, os seus desejos, as suas pequenas esperanças — juntamente com todos os outros. Esta manifestação, para muitos, histórica, é o fascismo pós-moderno. Vou à manifestação porque quero ir. Gritarei: «Outro mundo é possível». Voltarei para casa e continuarei a minha vida de sempre. É evidente que ninguém me obriga a participar. Só faltava isso. Eu sou livre. Eis o fascismo pós-moderno. E, ainda assim, os partidos políticos e os sindicatos de classe foram os últimos a desfilar. E, cansados de esperar, já que não estão acostumados a esperar… decidiram ir para casa. O fascismo pós-moderno é uma mobilização total da vida1 que (re)produz a realidade que se nos impõe como óbvia. Não tem nada a ver com a «auto-implicação no trabalho», «com o pôr a trabalhar» dos afectos… Essa ainda é uma análise economicista. Aquilo que agora se passa é que o capital, enquanto selbstzweckmaschine (máquina que tem a sua finalidade em si mesma) cortou a circularidade da vida. É apenas por vivermos, mais exactamente por levarmos a vida que é a nossa, que (re)produzimos esta realidade que se nos apresenta como pura obviedade. Nos Estados Unidos tornou-se moda, especialmente depois de 11 de Setembro, implantar sob a pele um chip que diz quem se é. Desta forma, em qualquer circunstância, pode-se sempre ser perfeitamente identifi cado. É divertido. É como um piercing, mas mais moderno. É o fascismo pós-moderno. Não é necessário insistir muito para justifi car o porquê desta designação.
Estamos para além do panóptico e das suas múltiplas instituições disciplinares. Tampouco se trata somente de uma sociedade de controlo. O fascismo pós-moderno é a conjunção do (auto)controlo com a produção de diferença. Esta conjunção pode funcionar de modos diferentes, consoante se oriente para «projecto autónomo» ou bem como «imposição heterónoma». É daqui que decorre que a mobilização total da vida possua duas faces, ainda que complementares: a auto-mobilização (o Amor com maiúscula, a busca de si mesmo…) e a mobilização forçada (Estado penal, prisão…). Ficarmo-nos pela aproximação acima é totalmente insuficiente. O fascismo pós-moderno não é unicamente a descrição da modalidade actual de exercício do poder. No fascismo pós-moderno, para além disso, o capitalismo identifi ca-se com a realidade. Esta identificação implica o seu próprio rebentamento. Hoje, a realidade é única, mas diz-se de muitas maneiras. Estes modos de se dizer são as diversas formas históricas (neo-esclavagismo, fordismo, pós-fordismo), todas elas presentes na sua simultaneidade.
Na medida, em que o fascismo pós-moderno as contém a todas constitui a suaprópria culminação. Vejamos mais de perto o que quer dizer o termo culminação. Usualmente, conhece-se por pós-fordismo a etapa actual em que o capitalismo se dispersa e fl exibiliza. Para uma melhor descrição, é conveniente fazer referência à política da relação que o estrutura. A política da relação vigente neste período pode centrar-se no princípio da identidade. Quando o princípio da identidade funciona para dentro, gera uma cultura da empresa. Ao contrário, quando funciona para fora, gera uma cultura da emergência. Ainda que muito diversifi cada, a cultura da empresa tem no toyotismo a sua expressão mais acabada. O toyotismo, como é sabido, organiza a produção a partir de equipas de trabalho e funciona pela incorporação da linguagem da competição desportiva (equipas, passagens do testemunho…). O que nos interessa sublinhar é que esta organização aspira à criação de um nós, no local de trabalho. Um nós ou neo-corporativismo de pequena escala tal que, ainda assim, precisa de uma cultura da emergência e da excepcionalidade penal para controlar o de fora, o Outro. A cultura da emergência recorre à prisão como seu dispositivo fundamental. Existe uma legislação amplíssima, com todos os seus aparelhos que complementam e estendem esse controlo normalizador. Com razão se discute se o pós-fordismo é uma nova estabilização do fordismo, ou uma crise mais avançada. Utilizando a terminologia introduzida, poderíamos afirmar que essa ambiguidade deriva da não existência de um isomorfismo entre a cultura da empresa e a cultura da emergência. Por isso, o pós-fordismo tem obrigatoriamente que tender para a sociedade em rede. Na sociedade em rede o princípio de identidade funciona no interior do princípio da razão suficiente, o que permite uma reformulação das duas culturas que facilita a sua máxima convergência. A sociedade rede conectará entre si os segmentos mais dinâmicos da sociedade, ao mesmo tempo que os desconectará e  marginalizará. A sociedade-rede oferece um modo novo de resolver o afundamento da tríade democracia — Estado — capitalismo. Este novo modo que implica um verdadeiro salto por comparação com a mera convergência entre cultura da empresa e cultura da emergência, plasmar-se-á naquilo que anteriormente designámos por mobilização total (autónoma e heterónoma) da vida pelo óbvio. Pois bem, porque essa é a verdade da sociedade-rede, a esta etapa para que a sociedade tende chamámos fascismo pós-moderno. Neste sentido, o fascismo pós-moderno é, ao mesmo tempo, uma totalidade e a sua culminação.
            A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido deO ESTADO-GUERRA , Santiago López-Petit

quarta-feira, janeiro 19, 2011

A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido de O ESTADO-GUERRA, de SANTIAGO LÓPEZ-PETIT

Se existe na actualidade uma sensação difundida, ela é a de uma profunda incerteza. A incerteza está presente a todos os níveis. O planeta azul prossegue o seu solitário caminho pelo universo, ainda que, porventura um dia, venha a transformar-se num féretro gigantesco. A sociedade é cada vez mais um mero nome para a cobiça de uma multiplicidade de comportamentos sociais, de itinerários e destinos individuais. O homem, por seu lado, abandonado a si mesmo, está destinado a lutar só para não se afundar na exclusão. Incerteza vivida, pois, como insegurança permanente: medo de perder o trabalho, medo de envelhecer, medo por não sabermos o que será dos nossos filhos… Esta insegurança que sobrevoa a nossa existência como uma nuvem negra, não só nos mostra a vulnerabilidade a que supérfluos. Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente, «a vossa situação depende apenas de vós mesmos». E acreditamos que é assim. in A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido de O ESTADO-GUERRA, de SANTIAGO LÓPEZ-PETIT

quinta-feira, setembro 30, 2010

A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit

Na capa de A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra uma imagem dos confrontos na Grécia. Não é por acaso. Não foi uma coincidência.
 


Se existe na actualidade uma sensação difundida, ela é a de uma profunda incerteza. A incerteza está presente a todos os níveis. O planeta azul prossegue o seu solitário caminho pelo universo, ainda que, porventura um dia, venha a transformar-se num féretro gigantesco. A sociedade é cada vez mais um mero nome para a cobiça de uma multiplicidade de comportamentos sociais, de itinerários e destinos  individuais. O homem, por seu lado, abandonado a si mesmo, está destinado a lutar só para não se afundar na exclusão. Incerteza  vivida, pois, como insegurança permanente: medo de perder o trabalho, medo de envelhecer, medo por não sabermos o que será dos  nossos filhos… Esta insegurança que sobrevoa a nossa existência como uma nuvem negra, não só nos mostra a vulnerabilidade a que estamos submetidos, como nos recorda que somos perfeitamente supérfluos. Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente, «a vossa situação depende apenas de vós mesmos». E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial, temos de nos autoavaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os companheiros da minha secção, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu, porque é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. Surgem formas perversas de socialidade (gangs juvenis, hooligans, etc.), proliferam os comportamentos racistas e xenófobos. Identidades políticas anseiam por ter um Estado. O inimigo esconde-se por trás da ama que embala o berço. 
in A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit, Deriva Editores, 2010.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Desesperar é preciso, Rui Bebiano e A Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira)

Rui Bebiano, historiador, professor de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, destaca, no  A Terceira Noite , A Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira), num breve texto com o pertinente título - Desesperar é preciso - parafraseando a máxima dos navegadores antigos Navegar é Preciso.




Diz Bebiano:
Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.
«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»
E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.


segunda-feira, julho 19, 2010

A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra de Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira)



A nova questão social: o mal-estar
Os efeitos que a mobilização global produz sobre os seus sujeitos — sobre os sujeitos que lhe estão sujeitados — são numerosos e novos. Basta ver a mudança no tipo de doenças ligadas ao trabalho. Na actualidade, as mais numerosas têm a ver com alguma forma de mal-estar psíquico. Não em vão, 70 por cento das baixas laborais de longa duração correspondem a transtornos mentais. A imposição do «ser precário» manifesta-se nas chamadas doenças do vazio: depressão, insónia, ansiedade… São as novas enfermidades próprias de uma sociedade na qual a norma já não se baseia na culpabilidade, mas na responsabilidade. Uma sociedade que enterrou a autonomia operária, substituindo-a pela autonomia do Eu, ou seja, pelos contínuos apelos a que sejamos autónomos e responsáveis. A este
sofrimento que poderíamos englobar sob o rótulo de «miséria da abundância», haverá que acrescentar, indefectivelmente, a própria «abundância da miséria» que sob as faces mais tradicionais (fome e morte) alastra pelas cidades gueto globais e pelas periferias das grandes cidades. A mesma mobilização global, que faz coexistir a miséria da abundância com a abundância da miséria, tritura as nossas vidas.Vida triturada quer, aqui, dizer que a mobilização global produz mal-estar e sofrimento autênticos. Não se trata de sermos expropriados da nossa vida (ainda que evidentemente não sejamos seus donos), mas sim do facto de a própria vida ser simplesmente aniquilada: reduzida a nada. Mediante a generalização da impotência e da indiferença, a nossa vida é separada do querer viver, o que implica para a vida, a sua própria perda enquanto fonte de valor. in A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit, Deriva Editores, 2010.


Encomendar aqui.

quinta-feira, maio 20, 2010

Hoje, na Visão: uma entrevista com Santiago López-Petit a Miguel Carvalho


Hoje, neste número da revista Visão, Miguel Carvalho entrevista Santiago López-Petit em trânsito para o Porto a fim de participar nas Derivas de Maio e apresentar o seu livro, editado pela Deriva, A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos e Alguns Comentários Marginais de Rui Pereira, que também traduziu do castelhano.
Lembramos que SLP intervirá às 14:30 juntamente com Rui Pereira.
De manhã, pelas 10:30, intervirão Suzana Ralha e António Alves da Silva.
Rua da Alegria, 503, Porto. Esmae (Café-Concerto)

sábado, abril 10, 2010

ENTREVISTA A SANTIAGO LÓPEZ-PETIT (COLECTIVO SITUACIONES, BUENOS AIRES)

   SANTIAGO LÓPEZ-PETIT 

El querer vivir, más exactamente, el querer vivir como desafío, desplaza la disyuntiva en la medida en que reivindica el problema mismo: ¿cómo se construye (colectivamente) una vida política? Porque ésta es la verdadera cuestión que ni el normativismo ni la intensificación de la vida encaran. De nuevo: ¿cómo politizar la existencia, es decir, resistir(se) al poder, cuando estamos cada vez más solos, cuando estamos abandonados a nosotros mismos, cuando el capitalismo se confunde con la realidad y la propia vida parece constituirse en una forma de dominio? Para ello se hace necesario pensar el querer vivir siguiendo una aproximación nominalista. Vivir será, entonces, conjugar el verbo “querer vivir”, lo que significa que es el querer vivir el que abre las vidas que vivimos o no vivimos. Como el contar produce los números. Vivir es, por tanto, la expansión del querer vivir, y esa expansión es posible porque nosotros somos una contracción del infinito y de la nada.


Situaciones: Santiago, querríamos retomar un ya largo diálogo entre nosotros. En esta oportunidad, intentamos descubrir las cualidades de lo que llamamos un impasse, así como las posibilidades que podamos crear en él. Aspiramos a preguntarte qué cosa es una vida política en las actuales circunstancias. Pero vamos de a poco. Para empezar, hay en tus libros una fenomenología que nace de la derrota del movimiento obrero y se orienta hacia el nihilismo y el afianzamiento de un capitalismo al que, entre otros propiedades, lo presentas como idéntico o a la realidad y como haciendo un Uno con ella. ¿Podemos partir de acá?

[...]

Hasta ahora me he limitado a introducir el querer vivir. Falta, sin embargo, desplegar lo que podría llegar a ser una política del querer vivir, una política que defiende el querer vivir como desafío. Para ello se hace necesario plantear la cuestión del nihilismo. Pero vayamos poco a poco y empecemos por situar el querer vivir en el interior del debate filosófico actual. Asumido el marco postmoderno parece que sólo hay dos formas de reaccionar, evidentemente, con todas sus muchas variantes: una ética del consenso basada en una racionalidad dialógica o un arte de vivir que persigue construir la vida de uno mismo como obra de arte. Comunicación frente a estética de la existencia. Socialdemocracia más o menos radical frente a formas diferentes de individualismo.

El querer vivir, más exactamente, el querer vivir como desafío, desplaza la disyuntiva en la medida en que reivindica el problema mismo: ¿cómo se construye (colectivamente) una vida política? Porque ésta es la verdadera cuestión que ni el normativismo ni la intensificación de la vida encaran. De nuevo: ¿cómo politizar la existencia, es decir, resistir(se) al poder, cuando estamos cada vez más solos, cuando estamos abandonados a nosotros mismos, cuando el capitalismo se confunde con la realidad y la propia vida parece constituirse en una forma de dominio? Para ello se hace necesario pensar el querer vivir siguiendo una aproximación nominalista. Vivir será, entonces, conjugar el verbo “querer vivir”, lo que significa que es el querer vivir el que abre las vidas que vivimos o no vivimos. Como el contar produce los números. Vivir es, por tanto, la expansión del querer vivir, y esa expansión es posible porque nosotros somos una contracción del infinito y de la nada. Pero ese nominalismo – la vida es un nombre ya que sólo existe el querer vivir – no comporta un decisionismo. En la circularidad del vivir que abre el querer vivir no existe tal decisión. Sólo decidimos “querer vivir” cuando el querer vivir se debilita (por la enfermedad, por el miedo…), cuando no puede hacer frente a la resistencia del ser.
Habiendo recuperado así un concepto de querer vivir construido sobre la ambivalencia del infinito y de la nada, el paso siguiente será intentar vaciarlo de ambigüedad política. La propuesta “hacer del querer vivir un desafío” permitirá salir de esta indeterminación que hubiera impedido una política radical. El desafío requiere tres determinaciones: 1) La afirmación de la nada o el no-futuro como palanca. 2) La experiencia de un Nosotros. 3) El gesto que crea un mundo.

El querer vivir como desafío es el camino que conduce a una vida política. Ese es para mí el objetivo. No se trata de vivir con mucha intensidad, ni de vivir muchas vidas. Eso no son más que propuestas internas a la lógica del capital. Se trata de tener tan sólo una vida política. La cuestión del nihilismo interviene en este punto. La relación con el nihilismo, o mejor, una determinada relación con el nihilismo, es lo que posibilita ese desafío hecho con el querer vivir. En la explicación anterior la relación con el nihilismo se plasma como no-futuro. Ese no-futuro, ese “resistir sin esperar nada” es un componente esencial del desafío.
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En definitiva, se trata de acercar querer vivir y nihilismo, afirmación del querer vivir y profundización del nihilismo, porque ponerlos en relación abre un camino para una práctica crítica. En última instancia, la intuición que está detrás de ese acercamiento es que el nihilismo puede constituir una auténtica potencia al servicio del querer vivir, y una potencia que puede empujarlo más allá de sí. Por eso fue para mí fundamental el análisis de la frase “no hay nada que hacer” ya que ella – en la medida que es pensada y vivida en su radicalidad – abre la puerta a una verdadera travesía. Cuando no hay nada que hacer, todo está por hacer. Entonces se abre una travesía del nihilismo. El acercamiento entre nihilismo y querer vivir presupone, por tanto, que el nihilismo no toca fondo y que no se invierte, es decir, no existen dos nihilismos como dice Nietzsche, uno activo y otro pasivo. Existe un solo nihilismo, y ese nihilismo actúa como una potencia de vaciamiento. En mi libro “Amar y pensar” identifico esa potencia de vaciamiento con el odio, con el odio libre.

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En mi último libro que lleva por título “La movilización global” he tratado de estudiar en qué consiste esta movilización. Se podría afirmar que en este libro se habla de una sola cosa: la realidad. De esa realidad que se ha hecho enteramente capitalista, y que no deja nada afuera. En este sentido, bien puede decirse, que la realidad es absoluta. El texto vendría a ser esa realidad hecha absoluto autodesplegándose en su necesidad interna, mostrándose cómo es, y también cómo funciona. En este desvelarse ganamos numerosos conceptos, especialmente el de movilización global que ya hemos avanzado. La movilización global sirve para describir la globalización neoliberal pero va mucho más allá poniéndose como el verdadero fundamento de la realidad misma. Asimismo se avanzan definiciones nuevas, como la democracia en tanto que articulación de Estado-guerra y de fascismo postmoderno, o la del poder como poder terapéutico. Pero la realidad al separarse de sí en su desplegarse, al salir de la tautología, nos muestra también sus puntos débiles. En particular, aparece ante nuestros ojos la que es la nueva cuestión social: el malestar. Porque la realidad tritura nuestras vidas existe un profundo malestar social que no siempre puede ser encauzado, y que bajo la forma de fuerza del anonimato se hace presente. La fuerza del anonimato se plasma en los espacios del anonimato que constituyen verdaderos agujeros negros para el poder. En los espacios del anonimato el querer vivir se hace colectivamente desafío. Es muy fácil definir lo que es un espacio del anonimato: es aquel lugar en el que la gente pierde el miedo. La fuerza del anonimato es sobre todo un poder destituyente. Con los espacios del anonimato, la política nocturna adquiere una dimensión colectiva.

[Entrevista na íntegra aqui]

domingo, março 28, 2010

Santiago López- Petit [entrevista]




Em Maio chega O Estado-Guerra, de Santiago López-Petit, com tradução, abundantes notas e comentários de Rui Pereira. .
É um livro extremamente claro sobre a origem do nosso mal-estar social e das perspectivas de um novo niilismo saído do «acontecimento» 11 de Setembro. O autor, que virá a Portugal nas próximas Derivas de Maio, apresenta as possibilidades de encontrarmos a superação necessária do capitalismo. Rui Pereira, na esteira desta obra, apresenta-nos alguns «comentários marginais» a propósito de O Estado-Guerra titulado Da Impossibilidade de Saber e da Necessidade de Fazer.

Em breve editaremos, alguns trechos em pré-publicação.

segunda-feira, março 01, 2010

Derivas de Maio

Este ano, as Derivas são em Maio, que é um bonito mês. Na Esmae, para a Rua da Alegria. O tema: Com uma Faca nos Dentes, muito pela onda de António José Forte. Sinais dos tempos que correm. Presenças já confirmadas: Santiago López-Petit, Rui Pereira, Miguel Carvalho. Para além da política e da filosofia, vêm aí mais surpresas com a construção de pedagogias livres. No dia 22 de Maio.

segunda-feira, outubro 26, 2009

O Estado-Guerra, de Santiago López-Petit, seguido de Da Impossibilidade de Saber e da Necessidade de Fazer, de Rui Pereira

Capa ainda provisória de O Estado-Guerra de Santiago López-Petit, seguido de um comentário de Rui Pereira

Com tradução, abundantes notas e comentários de Rui Pereira, o primeiro livro de Santiago López-Petit em Portugal: O Estado-Guerra.
É um livro extremamente claro sobre a origem do nosso mal-estar social e das perspectivas de um novo niilismo saído do «acontecimento» 11 de Setembro. O autor, que virá a Portugal nas próximas Derivas de Fevereiro, apresenta as possibilidades de encontrarmos a superação necessária do capitalismo. Rui Pereira, na esteira desta obra, apresenta-nos alguns «comentários marginais» a propósito de O Estado-Guerra titulado Da Impossibilidade de Saber e da Necessidade de Fazer.
Algo me diz que esta parceria será muito profícua e para continuar. Ler os dois é um rasgo de não-esperança (explico: a esperança é amiga da morte, segundo López-Petit), de possibilidades infinitas conjugadas em novas subjectividades de luta.
Editaremos, mais tarde, alguns trechos em pré-publicação.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Os próximos autores da Deriva


Antes de pormenorizar em outro post: vamos ter livros de Antoine Compagnon, Pascal Quignard, Pedro Eiras, Noam Chomsky, Santiago López-Petit, João Pedro Mésseder, Jean-Pierre Sarrazac e Paulo Kellerman. Esperem pelas notícias.