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sábado, junho 27, 2026

"A Vida de Lazarillo de Tormes e suas fortunas e adversidades", Anónimo do séc. XVI

 

Quetzal, 2026. Tradução de Margarida Amado Acosta.

Já não basta a edição ser grafada com o malfadado e inútil desacordo ortográfico de 1990, mas prefaciar o maravilhoso «Lazarillo de Tormes» por alguém que o critica, ainda por cima pelas piores razões, já é um bocadinho demais. O culpado é o grande mamífero Francisco José Viegas e o prefaciador, autor espanhol falecido em 1960, Gregorio Marañón y Posadillo! Valha o grafismo da edição e a tradução de Margarida Amado Acosta que me parece perfeita e conforme o picaresco da linguagem do «Lazarillo». Ler este livro leva-nos, por inteiro, ao século XVI ibérico. Digo ibérico e não somente espanhol, visto que a sua leitura remete-nos, por afinidade social óbvia, para Gil Vicente, principalmente para o «Auto da Barca do Inferno», peça onde ninguém sai incólume da crítica social, como sabemos. A novidade em «Lazarillo» é que, diz-se, é a primeira obra em forma de romance. Seja. O que é admirado pelo leitor é a escrita escorreita, a crítica explícita, a linguagem bem calibrada e a ironia que tem como alvo principal as classes, ou ordens, possidentes. O pequeno Lázaro passa por tudo e por todos e safa-se sempre com astúcia, não sem alguns engulhos, aflições e tristezas, estados de espírito que se colam sistematicamente aos subordinados. É esta a condição de quem nasce pobre: ser explorado até ao tutano, passar fome, não ter o que vestir ou calçar, mas manter-se alerta e ser esperto o suficiente para conseguir sobreviver. É o que o prefaciador chama de «romance picaresco» que, como se disse atrás, não é de bom tom para a «alma espanhola», porque transmite uma ideia diferente do que é realmente o espírito ibérico ou, ainda pior, provocar «a influência indubitável que esta literatura teve na depressão dos valores fundamentais de Espanha», seja lá o que isso for. Não fosse Gregorio Marañón um amigo e contemporâneo de Unamuno que «descobriu» a constante suicida na alma portuguesa! Pior vem a seguir, páginas adiante do infeliz prefácio, quando é afirmado que a censura não era particularmente violenta a não ser para assuntos teológicos (pág.24). E continua sem qualquer rebuço, o senhor Marañón y Posadillo: «E quanto à censura religiosa, o espanhol acomoda-se a ela docilmente. Mais ainda, ter-se-ia acomodado voluntariamente a ela, sem necessidades de repressões, porque, quase sem exceção, era sinceramente católico.» Claro que este autor tem para si que «Lazarillo de Tormes» era uma crítica social e política e que não seria objecto de censura. Mas foi-o, logo cinco anos após a sua publicação, pela sempre presente Santa Inquisição, sendo que a versão completa só foi conhecida em pleno século XX. Em Portugal só foi conhecido, e em parte, a partir de 1712! Ainda há uma outra questão tão óbvia que até impressiona: não se é anónimo porque sim! E assim permaneceu até hoje, anónimo, tal como com o «nosso» «Arte de Furtar». Mas evitemos Gregorio que já lhe dei linhas a mais. Mas esta teimosa opção por prefácios mal amanhados é uma tendência editorial que não se compreende. 

«Lazarillo de Tormes» ombreia com os melhores romances e autores deste estilo literário que nos aparecem a partir de um Renascimento, mesmo quando a sua força literária seja muito díspar na Europa. Ao ler esta maravilha, não podemos de deixar de lembrarmo-nos de Rabelais, de Swift, de Bocaccio ou de um Chaucer, para não falar igualmente do já citado Gil Vicente. Que não se perca uma linha desta leitura amiga e cúmplice. 

alc

terça-feira, março 31, 2026

"Cânone de Câmara Escura", Enrique Vila-Matas


D. Quixote, 2026. Tradução de J. Teixeira de Aguilar 
Valha o escritor que gosta imenso de si próprio, que olha para si e observa, entusiasmado e satisfeito, uma absoluta inteligência, tão viva que o enternece e comove. A verdade é que ser traduzido em 37 línguas e ter um rol de prémios que nascem como cogumelos numa floresta húmida, dispõe positivamente o seu ego literário. Não há nenhum mal nisso, antes pelo contrário, porque a autoestima é um estado cada vez mais enevoado no comum dos mortais de que são feitos os leitores e os escritores querem-se essencialmente felizes. Não para os andróides. Aí, o caso é outro, visto que o novelo da programação informática pode-lhe oferecer toneladas de autoconvencimento e de narcisismo, o que é coisa verdadeiramente humana. E a narração de «Cânone de Câmara Escura» é apresentada e escrita por um andróide. Evidentemente que, sem Vila-Matas os nomear, o leitor que viu o inesquecível «Blade Runner», de Ridley Scott, ou leu o «Será que os Androides sonham com Ovelhas Elétricas?» de Philip K. Dick, na Relógio D'Água, perguntar-se-á onde já tinha lido coisa igual como, por exemplo, a vida de um andróide ter somente quatro anos, terem a tendência assassina para matarem o seu criador, exigirem mais tempo de vida e não terem qualquer referência da sua infância, somente imagens fragmentárias. Tal como a narrativa é apresentada por fragmentos. Nada contra, mas se se me permitem a nota de fim de página em que consiste este texto, é necessário alguma contenção em saber dosear esses mesmos fragmentos num todo comum como faz Pascal Quignard, Emmanuel Carrère, ou Christian Bobin. Ou, ainda, Gonçalo M. Tavares e Fernando Pessoa, este último com a «Tabacaria», tornado o poema lisboeta para turistas, referidos por Vila-Matas. O que este pensa sobre os fragmentos? Cito-o: «Os fragmentos! Não são, não são, como tanto se julga, uma parte do todo, mas sim uma parte importantíssima do todo. Por isso têm de ter a potência suficiente para que possamos abrir um livro em qualquer página e ler sem necessidade de saber o que sucedeu antes ou sucederá depois.» (pág.40). Ficamos avisados, embora algo desprevenidos perante o curso e recurso com que é feita a história que afinal não existe de todo. Enrique Vila-Matas é contra a narrativa? Esclarece deste modo: «Recorde-se bem: ao contrário do que se pensa e que leva àquela alegria de publicar todo o tipo de narrativas, no mundo já não existe a simplicidade inerente à ordem narrativa, essa simples ordem que consiste em poder dizer às vezes: ''Depois de se passar aquilo, passou-se isto, e depois passou-se aqueloutro, etc.'' Desde já não sei quando nos tranquilizou a simples sequência, a ilusória sucessão de factos. Não obstante, há uma grande divergência entre uma prazenteira narrativa e a realidade brutal do mundo. ''Tudo se tornou agora não narrativo'', dizia Musil, frequentador de um universo multidimensional, fragmentário, de um mundo sem possibilidades reais de alcançar uma ordem como a que porventura pôde alguma vez ter existido.» (pág.132). Não sei (reivindico agora o papel de leitor) se o tempo narrativo morreu devido aos males do mundo, também ele fragmentário, segundo Vila-Matas, nem me preocupa saber se ele tem ou não a razão do seu lado no campo literário; o que sei é que é necessário contar, narrar, descrever, exactamente pelo mundo estar como está, exige-se o todo como uma possibilidade de compreensão. E isto nada terá a ver com o real ou a sua inversão tantas vezes necessária. Falo somente do fragmento.

Qual o objectivo último do nosso amigo andróide? O de criar uma biblioteca baseada num cânone de 71 livros e aí encontraremos Sterne, Cervantes, Cortázar, Borges, Duras, e muitos outros numa panóplia de escritos e frases que constituem peças soltas de um enorme puzzle cujo fim demora a descobrir, mas como afirma o autor seria necessário criar um cânone «Mentalmente deslocado e intempestivo, como todos os Cânones interessantes» (pág.41).

No final desta auto-apoteose, deste exercício de estilo sazonal como convém a um escritor premiado, Vila-Matas finaliza o seu trabalho com «Eu e a Minha Chaminé» de Melville, e «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde», de Stevenson, junto com os «Ensaios», de Montaigne. Também refere uma obra que lhe chamou a atenção: «La última frase», de Camila Cañeque constituído com a 452 últimas frases de 452 livros, um exemplo claro da ideologia fragmentária que alugou para este livro. Fico-me pela última frase de «Cânone de Câmara Escura»: 
«E até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar.»

alc

domingo, março 15, 2026

"Nada", Carmen Laforet

 

Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Só a ficção permite este facto singular: sem falar abertamente de política, um romance pode dar-nos o retrato fiel de um país, Espanha, mergulhado numa espiral de paranóia e violência após a guerra civil de 1936-39. «Nada», de Carmen Laforet, descreve-nos uma Barcelona exausta, faminta, castigada como poucas cidades foram após a vitória de Franco e dos fascistas. E com ela toda a Catalunha. Estamos em 1945, data da publicação e descoberta literária de Carmen Laforet a quem é atribuído o Prémio Nadal. Não é só Barcelona, das Ramblas e do mar, que é descrita com os seus odores, o seu frio e canícula do verão, as suas casas gradeadas nas janelas e as suas árvores frondosas. Com estas imagens sobrevive uma família da classe média estrangulada pela violência intrínseca, pela fome, pela depressão e pela ruína, onde o catolicismo coexiste com o pior que o ser humano pode oferecer de cupidez, de violência e de medo. Um medo que se sente em cada linha, como se se abatesse naquela família todo o peso de uma desgraça que se pode declarar a cada instante e sob diversas formas. Não admira, pois, que o fim seja inesperado, tal como inesperado parece ser o futuro que se guarda para a jovem universitária Andrea, a protagonista solitária deste romance e onde, paradoxalmente, as outras personagens se arrastam num verdadeiro quotidiano de um remanso preguiçoso e tóxico. Ela tenta remar contra a maré negra que a invade na sua casa de família entregando-se ao estudo, a uma amizade real com Ena e a uma boémia artística que lhe pode granjear algum bem-estar, mas a sociedade espanhola é demasiado fechada para se atingir um grau de liberdade que essa mesma boémia lhe poderia permitir atingir. Não será por acaso que são os jovens ricos que se entregam à fuga pela arte, como bem nota subtilmente a autora. 

Carmen Laforet merece ser conhecida não só como autora de referência, mas também pela sua vertente existencialista. Nasce em 1921 em Barcelona, publica pela primeira vez em 1945 e o seu último romance, «A Insolação» data de 1963. A partir daí, conta com alguns textos dispersos e abandona o meio literário. Morre em 2004 com Alzheimer, contando com um romance póstumo. A edição portuguesa conta com um prefácio de Mario Vargas Llosa e, na badana, uma nota inócua de Ana Cristina Leonardo; mesmo assim não desmerece a leitura de «Nada». Antes pelo contrário.

alc 

sábado, dezembro 06, 2025

"Oráculo Portátil e Arte da Prudência", Baltazar Gracián

 

VS. Editor, 2021. Tradução de Miguel Meruje
«Oráculo Portátil e Arte da Prudência» é um livro que se deve ler devagar. Baltasar Gracián oferece-nos um conjunto de conselhos em forma de aforismos que nos leva a pensar sobre a arte de viver num mundo intemporal onde vinga a ignorância, a culpa, a maledicência ou, entre muitas outras iniquidades, a cupidez e o embuste. A estupidez e a ousadia dos incompetentes também têm um lugar destacado, mas, ainda assim, sobressaem os remédios para as esconjurar.

Gracián sabe do que fala. Jesuíta, com evidências claras para a escrita e literatura, foi obrigado a vergar-se à disciplina férrea e militar da Companhia fundada por Loyola. Desde a proibição dos seus escritos pela Inquisição até à tortura a pão e água, aconteceu de tudo um pouco: censuras, privação de leituras de livros, prisão, proibição de uso de papel e plumas, não bastaram para a desistência deste homem luminoso. Ele sabia onde doía na sua luta contra a hierarquia e poderosos. Este livro destinava-se aos comuns, aos que labutavam pela sobrevivência num mundo «às avessas», não eram conselhos para príncipes que já tinham a sua maquia com Maquiavel, fosse este irónico ou subserviente. 

Talvez por isso foi lido e seguido, desde meados do século XVII. Assim o fizeram Voltaire, Schopenhauer, Nietzsche, Lacan, Phillipe Sollers ou Debord. Desenvolvido numa estrutura literária barroca, contemporâneo de António Vieira e Quevedo, soube aliar uma crítica política a um pensamento prático da vida comum, alicerçado em paradoxos, aforismos ou puro jogo de palavras rodeadas de brilho. Numa época em que as palavras são amiúde esvaziadas de sentido, não deixa de ser necessário voltar aos séculos de ouro da literatura. Baltasar Gracián é um desses expoentes.

alc

terça-feira, outubro 29, 2024

«Em tudo havia Beleza», Manuel Vilas

 

Alfaguara, 2019. Tradução de Vasco Gato
Por vezes, pergunto-me o que leva um escritor a escrever um livro assim. Bem escrito quanto baste não faz necessariamente um livro interessante. Eu, eu, e só eu, mais a minha família em 400 páginas repetitivas, longas, embora com o recurso a 157 capítulos que permitem uma leitura aparentemente levezinha. Manuel Vilas não o conseguiu de todo, assim como falhou na fotografia de uma Espanha autoritária, de uma região esquecida ou de uma família supostamente disfuncional. A narrativa arrasta-se interminavelmente e conclui-se com uns «poemas» do autor mais que sofríveis. 

Fica aí um registo para que conste de um pedaço da vida de Manuel Vilas em que foi professor do ensino médio: 
«(...) Passear, olhar as nuvens, ler, estar sentado, estar consigo mesmo num grande silêncio, foi esse o proveito.
    E no dia seguinte já não madruguei. Deixei de dar aulas no ensino médio. Penso agora que aquele não era um trabalho aceitável, como em tempos julguei, mas que era só outro trabalho alienante, de uma alienação talvez menos evidente. A alienação laboral camufla-se, mas continua a estar aí, como no século XIX. Escolas, liceus, hospitais, universidade, prisões, quartéis, gigantescos edifícios de escritórios, esquadras da polícia, o Congresso dos Deputados, centros de saúde, centros comerciais, igrejas, conventos, bancos, embaixadas, sedes de organismos internacionais, redacções de jornais, cinemas, praças de touros, estádios de futebol, todos esses lugares de celebração da vida nacional, o que são? São lugares onde se cria a realidade, o sentido da colectividade, o sentido da História, a celebração do mito de que somos uma civilização. [Afinal em que é que ficamos, Manuel Vilas? A alienação são lugares onde se cria o sentido da colectividade e o sentido da História? De celebração da vida nacional?] Todos os rapazes e raparigas a quem dei aulas, que será feito deles? Alguns talvez tenham partido para sempre. [Para sempre? Não fazes o caso por menos?] E aqueles colegas de trabalho com que coincidi também irão morrendo. [Vilas, quem nunca?] Os seus rostos desvanecem-se na minha memória. Vão todos para a treva. [Sorte a deles, Manuel!] (...) Alguns colegas morreram assim que alcançaram a reforma. É um castigo do acaso. O acaso castiga os calculistas, quem calculou a sua reforma. Os liceus não guardam recordação daqueles corpos. [Isso são os cemitérios, carago!] Os estabelecimentos espanhóis do ensino médio eram edifícios sem graça, construções deficientes, com corredores anódinos, com salas frias no Inverno e tórridas logo na Primavera. Os gizes, os quadros, a sala de professores, as fotocópias, a campainha a tocar ao fim da aula, o café com os colegas, as comidinhas defeituosas, mal cozinhadas, os bares sujos.
    E tudo se decompõe. Não havia fotografias dos professores reformados nos corredores dos liceus. [Vá lá, Manuel Vilas, é isso que te incomoda verdadeiramente? A falta de um retrato num corredor?] Não havia memória, porque não havia nada para recordar. E esses colegas enlouqueciam de mediania e vulgaridade e humilhavam e desprezavam os seus alunos. Aqueles miúdos eram humilhados e ofendidos pelos professores, esses medíocres com rancor pela vida. (...)» 

E a coisa continua sem dó nem piedade. Um conselho: isto já foi suficientemente descrito, analisado, debatido até ao tutano nos anos 60 por via de um Foucault, de um Marcuse, ou de um Deleuze, por exemplo. Que é triste, é. De facto, é. Não me compete a mim dizer mais a não ser uma profunda compreensão por esta má experiência de Manuel Vilas. Se era necessário registá-la num diário público em que se transformou a sua narrativa, já é outra coisa.

alc

quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

terça-feira, junho 11, 2024

«Caruncho», Layla Martínez


Antígona, Março de 2024. Tradução e posfácio de Guilherme Pires
Há quem ache que já não há luta de classes. Há quem pense que sim, que existe. Há quem admita que, no futuro, a luta de classes será entre robots e humanos numa cena qualquer trans-humana, pós-humana ou essencialista. Vão por mim: ao acabarem de ler este «Caruncho» (o castelhano «Carcoma» é muito mais expressivo que o português «caruncho»), de Layla Martínez, podem ter a certeza que a luta de classes é muito mais profunda do que se pensa, agora que o liberalismo a conseguiu apartar das mentes democráticas e transformar-nos a todos em colaboradores, empreendedores, masters, prontos a fundar uma startup de gabarito muito multinacional, porque o espaço português será pequeno demais para as expectativas e consequentes posses advindas do lucro que cairá aos roldões nas contas bancárias com juros bonificados para ex-trabalhadores. Hoje, o horror dos trabalhadores é sê-lo. 

Só que não. Layla Martínez é espanhola, madrilena e com raízes em Cuenca, Castela La Mancha. Nascida em 1987 é ainda muito novinha para se meter nestas coisas ditas e reditas nos 60 e 70. Mas meteu-se e bem. Com violência, com frontalidade, sem peias, veio repor a família no lugar que lhe pertenceu desde sempre numa pequena aldeia onde a Guerra Civil foi mais intensa e mais cruel. Os espanhóis não brincam à política, como se sabe. Muito menos com a questão social. Não esquecem, nem perdoam. E a vida de quatro gerações é perpassada a pente fino, com uma síntese literária notável, um apuramento difícil de conseguir mesmo em escritoras/es mais experimentadas/os (alguns e algumas tornaram-se insuportáveis). Uma neta madrilena (ah, talvez da classe média, diz-se agora), com estudos, estabilizada, indaga a vida de uma bisavó e tem uma relação muito chegada à sua avó que ama e odeia, esquece-se da mãe por vezes, é acusada de um crime que possivelmente não cometeu e a luta brutal de quem viveu humilhado durantes séculos vem ao de cima como gasolina numa fogueira, metáfora para este livro incrível. A violência de uma guerra difícil de esquecer, os cadáveres ainda em valas que alguns sabem ainda existir, mas que se calam em silêncios cúmplices, com o ódio comum, colectivo e individual. Inultrapassável. Entra-se pela pele de cada personagem numa casa que se desfaz aos poucos, que não se quer reconstruir para que a memória não se perca. Dos vencedores e dos vencidos. A luta de classes por osmose, de geração para geração, e que não se dá por ela. E isto nada tem a ver com a guerra por que passou Espanha entre 1936 e 39. Tem, isso sim, com a humilhação, violência, prepotência generalizadas dos mais poderosos sob os mais fracos que se defendem, nem que seja com rezas e santos sacrificados também eles violentamente. E também com armas. Mas que no momento vital do confronto entre classes vem à tona com um ódio inusitado, sem qualquer freio. As pessoas, nas nossas sociedades contemporâneas, passam, cruzam-se entre elas em grandes cidades, talvez como Madrid, e nem pensam que algumas (talvez demasiadas) carregam histórias terríveis de antepassados mortos ou desaparecidos que teimam em viver ainda com os netos e bisnetos e que isso terá necessariamente consequências de todo o tipo. Essa «passagem» deixa marcas e elas permanecem como cicatrizes prontas a abrir, ou a esconder como se fosse uma tatuagem mal feita.

Ainda falta muito para acabar o ano de 2024, anos de todos os perigos como sabemos. Mas talvez seja este um livro que não quero esquecer.

quinta-feira, maio 02, 2024

«Tomás Nevinson», Javier Marías

Alfaguara, 2021. Tradução de Vasco Gato
«Tomás Nevinson» é uma personagem ambivalente. Não simpatizamos logo de início com ele, até pelo que faz. Trata-se de um agente secreto, um detective, por vezes mais espanhol, outras mais inglês, ex-estudante de Oxford, onde ainda se recrutam agentes do MI5, MI6 ou no caso de Espanha faz uns favores ao Cesid. 

O seu trabalho leva-o, pelos olhos do leitor, a vê-lo como uma espécie de sacana (no mínimo), que não vê a família e os filhos durante anos, para se esconder no Ulster e ter uma outra mulher que abandona junto com a pequena filha. E aproxima-se novamente da primeira por conveniência dos serviços secretos. Devem reconhecer o nome da sua primeira mulher: Berta Isla, que deu o nome ao romance homónimo. Não direi mais, porque sei o risco que corro, numa página de leitura nas redes sociais, a contar tudo, mas, no final, não poderemos deixar de lhe dar alguma razão. Recusa-se a matar (mais uma vez) porque se sente velho e reconhece que um acto de ódio já não condiz com a sua idade. Envelheceu: «Desde que tenho memória, pensei ódio, deitei-me com ódio no coração, sonhei ódio e acordei com ódio.»

Ódio contra aqueles que matam deliberadamente com ódio. Em atentados cegos, para matar inocentes, tão culpados como as estruturas militares e serviços secretos que nem se importam que eles continuem a matar porque lhes justificam a permanência e a «roupa suja» que lavam. Ou eliminam. Tomás Nevinson já deixou de ter ódio. É um empecilho. Torna-se inútil e age por si. Acabamos por simpatizar com o homem.

Deixo-vos com um seu pensamento que se lhe soltou quando, embora ateu, se dirigiu a uma igreja: «Não acreditamos, mas podemos ter o hábito de rezar, ou de murmurar, tanto faz. A quem? Não a Deus nem a nenhum santo ou virgem, a ninguém em particular, não é preciso destinatário para isso. Limitamo-nos a sussurrar com o pensamento: 'Por favor, por favor.' Ou: 'Ainda não, ainda não.' Ou até: 'Desculpa, desculpa.'Costuma haver silêncio nas igrejas; ou cânticos bonitos, se se tiver muita sorte; ou música de órgão, se ainda se tiver mais. Está-se bem lá...» 

Pergunto a quantos de nós, principalmente a ateus e agnósticos, não se sentiram bem dentro de uma igreja, em busca de silêncio e paz sem que nos dirigíssemos a alguém em particular. Quantos de nós encontram num simples exercício de leitura, o silêncio e a paz cada vez mais difícil de encontrar. Um livro muito bom, que seguimos com verdadeiro prazer de leitura. 

segunda-feira, dezembro 18, 2023

«Linha da Frente» - Arturo Pérez-Reverte

 

Asa, 2022, Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra. 624pp
Não é qualquer um que escreve sobre guerra. Principalmente, sobre a Guerra Civil de Espanha e mantendo uma auréola de neutralidade absolutamente incongruente e incómoda para quem lê e que espera uma outra narrativa que não um insípido distanciamento sobre o confronto entre fascistas e republicanos, fossem estes últimos das várias tendências que na ocasião existiram. Os fascistas também tinham as suas, mas isso era questão de pormenor. Para eles Pátria, Deus e Família chegava como programa e matarem todos os vermelhos e anarquistas que lhes aparecessem pela frente, também. Mas a neutralidade de Reverte possivelmente deu-lhe o Prémio da Crítica Espanhola por este livro Parabéns ao homem, porque o livro não o merecia.

Falemos da guerra em si, desse estertor humano, o pior que a Humanidade pode mostrar de si própria. Pois bem, não exigimos que quem se propõe a descrevê-la e editar um livro sobre ela seja um Tolstoi, mas o mínimo dos mínimos é que tenha uma noção clara ou aproximada dos mecanismos psicológicos de quem participa nela. Do terror, do medo permanente, da vingança e da entreajuda, da luta entre os oficiais e dos soldados, dos soldados entre si, ou seja, tudo o que leve à desgraçada opção da vida e da morte. Toda a descrição da guerra, neste caso numa povoação catalã, numa margem do Ebro onde se deu uma das maiores batalhas da Guerra Civil, pode ser mantida numa toada que terá de tudo menos leveza. Aquilo que me parece é que lhe falta densidade psicológica às personagens, enquanto é reproduzido um gigantesco catálogo de armas, tanques, aviões, morteiros, toda uma panóplia de artefactos de morte, acompanhada das respectivas onomatopeias quando explodem ou são disparadas. Os diálogos são profícuos, talvez para dar esse cunho de leveza à leitura que poderiam ser perfeitamente dispensados. Alguns deles nem se compreendem porque lá estão. Não explicam, não projectam nada de novo, não reflectem o passado sequer. Tudo aqui é mecânico. Não são só os diálogos, mas as próprias personagens. Poderia ser a Inteligência Artificial a criá-las e os leitores mascarem uma chiclete que ia dar tudo ao mesmo.

Por outro lado, não creio que a neutralidade seja chamada para aqui. A Guerra Civil de Espanha é ainda demasiado recente, para nos esquecermos, ou fingirmos esquecer, quem foram os criminosos, os que se sublevaram contra uma república democrática, que embora não tenha conseguido sequer cumprir o seu programa social, foi eleita democraticamente. A neutralidade de que falo aqui é, possivelmente, o resultado de um jornalista de guerra que foi Reverte, mas na literatura não é assim que funciona. Queremos uma realidade, que pode até doer, mas uma experiência viva de um dos lados. Se assim não for, cai-se no risco, que acontece várias vezes neste livro, de fugir a narrativa para o deslumbramento de um «Arriba Espanha!» devido à «coragem» dos falangistas, do Tércio, ou dos legionários. Esses, ao menos, rezavam antes das batalhas, tinham farda, eram disciplinados e sabiam porque morriam, enquanto os «vermelhos», esse bando de mal-arranjados, poeirentos e sujos, vestindo à civil ou pondo sempre em causa as decisões do comando-geral republicano, consequência nefasta da luta de classes, claro, morriam para escavacar a ordem social estabelecida. Pois é. A neutralidade cai pela base e fica o rabo de fora. Mais a mais, essa disciplina nestes últimos, aparece por obra e graça de comissários políticos russos, de olhos azuis «frios como os olhos de um peixe», que metralham os que tivessem a ousadia de recuar do campo de batalha. A IV Brigada do Ebro, é tratada como um covil de marxistas, trotskistas, poumistas e anarquistas sem disciplina e quase sempre derrotadas por culpa própria. As Brigadas Internacionais idem. Conclusão de Reverte: os espanhóis, sejam fascistas ou comunistas, sabem lutar e não seria preciso um Hemingway «vir aqui, com arrogância, ensinar os espanhóis a combater». 

Volta-se a referir que não escreve sobre guerra quem quer, mesmo tratando-se de um jornalista habituado a ela. É necessário mais do que isso. Está a quilómetros de distância de um Johnatan Littell, de um Victor Serge, de um Céline ou de um Vassili Grossman. Para só citar alguns de memória.

Só uma questão sobre a tradução: os «Paseos» são tristemente conhecidos durante a Guerra Civil de Espanha. Os fascistas iam de porta em porta nas pequenas aldeias e vilas à procura de republicanos e fuzilavam-nos depois do que chamavam um «paseo» pelas redondezas das casas. Na Galiza, usou-se mais esse crime do que guerra aberta. Não se pode traduzir assim, sem mais, pelo português «passeio» sem sequer uma nota. Por outro lado, aparecem muitas vezes em diálogos entre membros republicanos, homens do povo, portanto, a grafia «fachistas», sem itálico, como para realçar o analfabetismo inerente à condição social desses homens. Não resultou.

Perfeitamente dispensável.

sábado, setembro 24, 2022

«Ibéria Esvaziada», de Carlos Taibo

Edição da Letra Livre, prefácio de Filipe Nunes, tradução de Pedro Morais

Carlos Taibo já não é propriamente um desconhecido entre nós, embora devêssemos estar mais atentos ao seu trabalho que pode ser considerado polémico pela novidade das suas ideias que são sustentadas em casos directamente conhecidos por ele, em estudos sérios e dados de outros cientistas; mas é inegável a sua importância pelas possibilidades reais de querermos uma fuga ao colapso que se aproxima ou que já está entre nós sem que o saibamos.

Este livro é de 2022 e foi escrito em plena pandemia cujo combate o autor considera ter sido um ensaio para as medidas autoritárias e ecofascistas, mas com outros motivos, para além das sanitárias, para nos confinar aos milhões pelo mundo fora. Atenção que não estamos a ter uma visão negacionista; falamos, sim, de um ensaio autoritário e musculado a populações inteiras que se poderão aplicar a outras situações sejam elas pandémicas, militares (uma guerra, por exemplo), contestações sociais ou políticas. 

Em 2019 já aqui falávamos deste professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid, Carlos Taibo, quando a Letra Livre o Jornal Mapa nos ofereceram o seu livro «Colapso» e aqui foi escrito isto: http://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=colapso . O excelente prefácio de Filipe Nunes abre-nos todas as perspectivas do trabalho de Carlos Taibo em «Ibéria Esvaziada». Perante o despovoamento assustador de uma Ibéria do interior cada vez com menos gente, com serviços sociais inexistentes, sem escolas ou serviços de saúde, correios, transportes públicos, digam-nos se o colapso não chegou já, quer em Portugal ou Espanha.

Mas fixemo-nos na apresentação de Filipe Nunes: «Taibo assume essencialmente um ''optimismo patológico'', contrastante com um ''pessimismo congénito'' que poderia fazer transparecer da sua teoria do colapso. O desafio a que nos convoca é precisamente o de questionar como queremos que seja a sociedade pós-colapso. E desafia-nos literalmente a lançar mãos à terra, pois o colapso, esse, já esta entre nós. Estamos todos cientes do horizonte desesperante das alterações climáticas e do esgotamento das matérias-primas energéticas fósseis, pelo que, num mundo em colapso, prefere sublinhar as consequências positivas que lhe estão associadas: a rerrularização, uma maior autonomia local e fragmentação e o retrocesso dos fluxos hierárquicos.» 

Ora, nestas três consequências que serão ao mesmo tempo propostas para o colapso que já se vive ou para o pós-colapso que, segundo os mais optimistas, ainda não veio ou, sequer, virá, Carlos Taibo dá-nos toda uma perspectiva não só de sobrevivência, mas igualmente de possibilidades de felicidade e bem-estar baseado em índices que nada terão a ver com a existência de dinheiro especulativo das sociedades industriais de hoje. O que nos propõe: as associações de apoio mútuo, as correntes de solidariedade humanas e a síntese muito interessante entre as sociedades pré-capitalistas e as redes anticapitalistas que terão de se adaptar, sem sectarismos inúteis, a uma nova realidade. É esta a grande diferença entre o ecofascismo que recusa o crescimento industrial e financeiro especulativo enquanto nos vai enchendo as serras de moinhos eólicos, uma nova mineração brutal e vai arranjando argumentos para a continuidade da carbonização, adiantando que a Humanidade sempre soube encontrar soluções tecnológicas para um colapso, e, por outro lado, uma rede humana que aposta no descrescimento, na autonomia política das decisões das populações, no valor de uso e nas trocas solidárias entre grandes bioregiões. Tudo está em aberto. 

Fixa-se igualmente na onda cada vez maior dos neo-rurais: pessoas que não suportam já a vida nas cidades e na ditadura dos automóveis, nos preços exorbitantes das casas e das coisas incluindo os produtos de primeira necessidade, no desemprego, nas altas taxas de criminalidade junto com o autoritarismo latente e cada vez mais arrogante e brutal das instituições políticas e governos, nas doenças pulmonares e cancros cada vez mais agressivos, num individualismo insuportável, etc., etc, Carlos Taibo avisa-nos que esta passagem da cidade para o campo não é propriamente fácil e, muitas, têm-se mostrado um fracasso. Talvez a reprodução de um individualismo urbano para o campo não seja a melhor escolha. No campo, ou se encontra uma rede solidária de trocas, de saber ou materiais, ou esse fracasso não tarda a aparecer.

Voltemos ao prefácio de apresentação de «Ibéria Esvaziada», de Taibo por Filipe Nunes quando cita Júlio do Carmo Gomes num artigo, creio, que inscrito num número do Jornal Mapa: «Como escreveu JCG, invocando os indícios da nossa ancestralidade política, trata-se do resgate da cultura comunitarista como potência política e génese poética, raízes inseparáveis para problematizar as políticas acerca da vida». Este movimento do neo-ruralismo vai crescer, sabemo-lo, até porque os exemplos se multiplicam em toda a Europa que ainda nada no seu fausto de coisas sem grande ou nenhuma utilidade. Em França 25% da agricultura biológica já alimenta o país através do trabalho das ZAD, em Espanha experiências que vieram de 36-39 estão a repetir-se nos Pirenéus e no interior também ele esquecido dos governos, em Portugal a experiência da Reforma Agrária de 74-75 não deixou grandes rastos num proletariado camponês em vias de desaparecimento, mas o movimento cooperativo deixou algumas marcas assim como em aldeias do interior do Alentejo e Trás-os-Montes que tem conhecido um movimento nada negligenciável de famílias jovens que chegam das cidades, tal como na Grécia e sul de Itália.

Carlos Taibo, significativamente, termina este livro interessantíssimo com o título de «silêncio», um valor a que as cidades já não conhecem. Recorreu a Vergílio: «Lavradores se considerariam bem de sorte se tivessem inteira consciência das dádivas enormes que recebem. É a eles que, longe das discórdias, longe das armas, dá a natureza generoso sustento que os mantém.» e ao renovador do cristianismo, no século XIV, Thomas de Kempis: «Procurei repouso em todo o lado e não o encontrei em lado nenhum, excepto em algum recanto com um livro».

Talvez haja um pequeno repouso ao ler este livro, mas que paradoxalmente nos convida a perscrutar todas as verdadeiras possibilidades de uma vida útil, é uma verdade muito difícil de contrariar. E ainda bem.

António Luís Catarino

domingo, setembro 04, 2022

«Os Cátaros», Jesús Mestre Godes

 

«Os Cátaros - Origens, Desenvolvimento, Perseguição e Extinção», do catalão Jesús Mestre Godes, não é um livro histórico no sentido mais científico do termo porque influenciado por um nacionalismo algo exacerbado do autor. É verdade que se socorre de historiadores contemporâneos e escritos evos de trovadores e clérigos, mas trata-se mais de uma súmula de investigações alheias do que propriamente nascidas de Godes. Depois, este livro de 1995, e publicado em português pela Pergaminho em 2001, ignora alguns estudos essenciais sobre o tema na sua bibliografia. Um apontamento singular: a tradução é de Jorge Fallorca.

O livro é um bom início para se introduzir um tema histórico bem mais complexo do que parece à primeira vista e em que o turismo do sul de França conseguiu arredar a seriedade necessária para o analisar. Ainda me lembro da primeira vez que visitei o castelo de Carcassone, um dos locais cátaros de maior evidência: as muralhas estavam então cercadas literalmente por autocaravanas que assediavam o local com crianças munidas de espadas de madeira e elmos combatendo-se e berrando com ímpetos de vitória. Uma disneylândia! O calor era bastante e os franceses banhavam-se em chuveiros improvisados bebendo cerveja dita artesanal com rótulos de gordos abades cátaros. Nem parei ou entrei no castelo! Saí logo dali para fora em direção à Montolieu, uma pequena vila occitânica onde se pode encontrar 30 livrarias e alfarrabistas. Permaneci lá durante 3 dias incríveis, visto que o programa cultural era exatamente ao contrário do que se faz aqui, onde o novo-riquismo impera: bastava um piano e um pianista e tínhamos uma noite perfeita! No outro dia uma contrabaixista e mais um dia com uma saxofone. De livros, falaremos noutra ocasião tal a diversidade e importância.

Tudo indica que os cátaros defendiam, dentro do cristianismo, um maniqueísmo com influências, ao que tudo indica, do filósofo persa dualista Mani que também inspirou o zoroastrismo. Para eles, que se chamavam «puros» havia dois mundos: o mundo do mal, material, e o mundo do bem, o das ideias, onde estava Deus e que era intangível. Acreditavam em Jesus, filho de Deus, enviado à Terra e que fazia parte de um plano mais geral, que terminaria no apocalipse, numa luta gigantesca entre Deus e o diabo, com a vitória do Bem. Não será de estranhar pois, que a Igreja do século XII começasse a ser criticada pelos cátaros pelos seus luxos, simonias, indulgências, pecados ditos venais dos clérigos e demasiado ligada ao poder temporal feudal das violências e ocupações de terras e lugares. Nada que não esperássemos, mas que tiveram razão antes de Lutero é verdade, e talvez isso explique a fúria inexplicável, nalguns pontos da história, contra os albigenses, ou seja, os cátaros. A inquisição dominicana (com o próprio Domingos de Gusmão à cabeça) liderou esse conflito, primeiro de um modo conciliar, depois, de pura repressão brutal principalmente após a sua morte. Daí a antipatia e afastamento que muitos cristãos católicos ainda hoje sentem por esta ordem. Os franciscanos esses, embora tenham pregado no Languedoc estão longe de terem responsabilidades nas fogueiras levantadas pelos dominicanos e pelos príncipes franceses. Os papas que de uma maneira ou de outra criaram bulas anticátaras, nos vários concílios de Latrão, foram Inocêncio III, Honório III e Gregório IX, todos bem conhecidos da História de Portugal.

Disse «franceses» propositadamente. A população do Languedoc nunca se sentiu francesa. Faria parte de uma «renaixence» cultural muito assente na prática trovadoresca e literária onde pontificava igualmente a música e o teatro. Isto em pleno século XII e XIII onde o comércio florescia e enriquecia os burgueses de Montpellier, Toulouse, Foix, Pérpignan, Agen ou Narbonne. Não é impossível que este comércio com rotas orientais tivessem tido influência na criação da religião cátara trazida por comerciantes da Pérsia ou mesmo por comerciantes do Languedoc vindos dessas paragens.

A verdade é que a chamada heresia existiu e promovia a pobreza, a errância pregadora, a humildade, a austeridade e até um novo papel da mulher na condução dos serviços religiosos cátaros. Viviam em comunidades e repartiam tudo em igualdade. Tinham bispos, perfeitos e perfeitas e mantinham com o povo uma constante presença o que originava um processo de simpatia que irradiava por todo o Laguedoc e para lá dele: pensa-se que havia cátaros na Catalunha, em Aragão e até em Marselha e Grenoble. Ora, esta vida cultural e comercialmente mais ativa gerou um afastamento de um norte francês mais rural, feudal que invejava e ambicionava estes territórios incorporando-os em França, o que veio a acontecer com Luís IX, após batalhas, conflitos legais, repressões, ataques, traições de toda a espécie e principalmente, entre 1209 e 1219, em cercos violentos que originaram centenas de milhares de mortos, não contando os que sofreram as torturas e as fogueiras da Inquisição e as sevícias para alguns «inenarráveis» nomeadamente para historiadores da época, mesmo que estes fossem do «outro lado». Assim foi que até o Papa Honório III teve de lembrar a Simão de Montfort, o principal verdugo e militar de França, e já conhecida a sua brutalidade em cruzadas contra Constantinopla e Jerusalém, que «nem se trataram assim os sarracenos!» pedindo-lhe mais moderação e razoabilidade na repressão, conselho que não foi de todo seguido.
Mas foi assim que a história se passou: a dos Cátaros e do catarismo que ainda se «mexia» no início do século XIV até à tomada mítica de Montségur com a autoimolação dos principais perfeitos e perfeitas cátaros. A rendição do seu povo veio depois, com aniquilação pensa-se que total, da sua população.

As questões que me tem atravessado desde sempre, como licenciado em História, é a falta de elementos escritos do catarismo o que se compreende até uma certa parte: para os perseguidos era necessário esconder qualquer vestígio da sua religião, assim como para os perseguidores era necessário cortar o mal pela raiz destruindo tudo o que encontravam que lembrasse a «heresia». Só dispomos, ao que se sabe, de quatro fontes escritas cátaras. Quanto à arqueologia, esta tem sido mais feliz, embora o mito turístico do «Santo Graal templário escondido em Montségur» ter estragado tudo! Ou quase tudo, não exageremos...

No entanto, há a última questão, esta, quanto a mim, a mais densa: para onde foram os refugiados cátaros? Sabemos que os houve, em diversas vagas, e o contrário é que seria para admirar. Há provas da presença deles no século XIII e XIV em Aragão e nos Condados de Barcelona e sabemos que Pedro I de Aragão (que vem precisamente a morrer na Batalha de Muret) tinha simpatias cátaras assim como milhares de nobres e cavaleiros do Languedoc que tiveram de jurar obediência a França após a derrota de Muret e principalmente na de Toulouse, cuja resistência condal e popular ficou nos anais da História. 

Mas os cátaros que conseguiram fugir, permaneceram somente nas faldas dos Pirenéus? Ora, aqui reside a minha principal dúvida: se Castela estava politicamente com os cátaros porque via neles a possibilidade de enfraquecer o reino francês, tal como a Inglaterra e o Imperador do Sacro Império alemão, (prometeram ao cátaro Conde de Toulouse, Raimundo VII, ajuda em Muret que depois traíram por influência papal), será que encontraram no lado de cá dos Pirenéus algum refúgio? Se sim, foram mais avante até Portugal? Vejamos: não é de todo impossível porque no século XII o recentíssimo Portugal estava a braços com problemas sérios de povoamento e as nossas casas senhoriais tinham bastantes contactos com Aragão como sabemos. No século XIII começa-se a povoar as arroteias em Portugal e será não com alguma estranheza ou pela pura convicção (como queiram!) que vemos o nome Catarino que nos remete para o étimo de «cátaro» difundido nas regiões onde pontuavam os pântanos e as arroteias como Viana do Castelo, Ílhavo, Aveiro, Cantanhede e Grândola, por exemplo. Mais tarde estes territórios também serviram para as alforrias dos escravos, como é comprovado por várias monografias destas regiões. Fica a dúvida, que ainda permanece, por que razão este pedaço importantíssimo da História europeia, a da «heresia cátara» e da consequente debandada dos seus fiéis da Occitânia nunca foi estudada a fundo em Portugal.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Violência e Literatura: um mal nunca vem só / 28


Na capa da inominável revista: «O romance que derrotou a ETA»

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Algo na capa da última LER (nº149) chamou-me a atenção. Um exclusivo de Eduardo Mendoza, editado pela Seix Barral em forma de livro em Espanha, foi aqui publicado nesta revista com o seguinte título: «O que é que se está a passar na Catalunha?». A outra chamada de capa tinha um título mais bombástico. Literalmente. «País Basco. O romance que derrotou a ETA». Ora, depois de desembolsar a quantia nada meiga da revista em causa, pus-me a ler de imediato o segundo artigo sobre o País Basco e tratava-se de uma crítica do livro «Pátria» de Fernando Aramburu, editado aqui em Portugal há pouco tempo. Mas um livro que derrota uma organização paramilitar como a ETA? Afinal, quando abro na página do artigo em causa, o título era outro: «Pátria, a derrota LITERÁRIA da ETA». Ah, literária! Depois de lido o artigo na íntegra onde Aramburu nada tem de sua responsabilidade, chega-se à conclusão que «Depois da derrota nos planos operacional e legal, Pátria deixa a derrota literária da ETA a um passo», Afinal em que ficamos? Derrota final, derrota assim-assim ou vitória nem que seja de Pirro? É minha convicção que não se vence nenhuma luta desta natureza com qualquer livro por muito bem escrito que esteja. E está. Se fosse assim Savater tê-la-ia derrotado antes. A literatura não salva ninguém. Não é redentora. Não se desculpa nem se exorciza. Não derrota ninguém. Talvez nos dê a vaga sensação de catarse, e aí talvez tenha alguma utilidade. O campo da derrota ou da vitória prende-se somente com a política e com a vontade dos homens e mulheres que a fazem.
Já Eduardo Mendoza começa por dizer que não vive na Catalunha (tal como Aramburu não vive no País Basco) mas dá-nos uma visão nítida do que se passa nas terras de Barcelona. É uma perspetiva que é apresentada aos «estrangeiros» como nós, certo. Mas incomoda a não identificação do fascismo com o franquismo e por assim dizer ao salazarismo visto ambos serem de matriz católica. Ora, a estrutura do estado estava assente no fascismo corporativista italiano e segundo Michael Mann o que diferencia estes dois regimes é a não existência de grupos paramilitares promotores de terror sobre as massas. Não o seu catolicismo. Sabemos como foram tratados os radicais de direita nestes regimes. Perseguição em Espanha aos falangistas e às JONS e, em Portugal, aos «Camisas Azuis» de Rolão Preto, que criticavam ambos os regimes. Quer Franco, quer Salazar odiavam a desordem. Mas isso não quer dizer, segundo a minha opinião, que no caso da Catalunha, não sofresse a repressão do franquismo (que Mendoza e Aramburu aliviam cada um à sua maneira e na sua região de origem), proibindo a fala do catalão (tal como o galego e o basco) e cujo desenvolvimento económico levou Espartero a pronunciar a frase «Há que bombardear Barcelona a cada 50 anos». Isto é fascismo. Os dois regimes, espanhol e português, souberam como ninguém criar uma sólida cultura de propaganda e de falso folclore, criando uma espécie de espectáculo popularucho, inventando trajes, músicas e falsos costumes, estereótipos franquistas que Mendoza nos apresenta nesta frase: «o catalão é trabalhador, um pouco lerdo de expressão, bastante tacanho. O seu modo de se comportar é tosco. A sua imagem é a de um homem barrigudo, de meia-idade, careca, risonho, devoto de Moreneta, sócio do Barça desde o berço. Comparado com o andaluz gracioso e preguiçoso, o madrileno jeitoso, o basco algo nobre e duro de moleirinha, o aragonês teimoso ou o galego astuto, mas impreciso, a caricatura poderia ser pior». Por isso, não admira que Mendonza nos atire à cara que a burguesia catalã também não tem literatura e daí a sua derrota frente à intelectualidade espanhola. A existir, o que é pouco provável, salvai-nos da literatura que derrota povos inteiros. E de literatos ou poetas em governos!

António Luís Catarino, 13/07/2018