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sábado, novembro 15, 2025

«Peregrinação em Tinker Creek», Annie Dillard

 

Antígona, 2025. Tradução de Inês Dias

Escrito em 1972, quando Annie Dillard contava com 27 anos, «Peregrinação em Tinker Creek» é um livro singular que conta uma experiência pessoal de observação profunda da Natureza, na Pensilvânia e no Maine, EUA. Editado em 1974, é muito difícil classificá-lo. Pelo menos, sabemos que a autora recusa ser considerada ensaísta, o que nos ajuda a entendê-lo um pouco melhor. Sendo igualmente poeta, Annie Dillard convoca-nos para uma leitura encantadora em torno do Natural, uma experiência quase mística, recusando o antropocentrismo e abraçando os inúmeros actores que fazem do mundo aquilo que é, não o que desejaríamos que fosse. E essa experiência torna-se aterradora se virarmos as costas ao Humano e nos embrenharmos na selva de sobrevivência que é este livro e cujo título chama por uma montanha que reparte o nome com um rio: Tinker Creek. É nas suas margens, nas colinas, nas rochas e nas árvores que encontramos uma variedade infindável de fauna e flora e nos deparamos com a conclusão de que todos os seres vivem essencialmente para parasitar outros animais e vegetais e finalmente morrer. Essa profusão e descrição pormenorizada de plantas, de animais, de pequenos e grandes insectos, de fenómenos naturais extremos ou de simples evolução das estações do ano, obrigaram-me a uma demora na leitura que não me é habitual. Muitas vezes tinha de regressar ao parágrafo anterior e, pasme-se, investigar nomes que pela primeira vez li e que desconhecia totalmente o que eram, fossem eles árvores, insectos, plantas, animais ou células microscópicas.

O misticismo que antevemos em Annie Dillard, muito ilustrado por citações da Bíblia é enganador. Por muito paradoxal que seja, identifico a sua escrita e pensamento mais com Nietzsche e com um animismo moderno do que os editores que, na apresentação da autora, lembram Thoreau. A sobrevivência é uma maquinação deste planeta, sejamos presas ou predadores. E qual a sua mensagem essencial? Vivemos com as cicatrizes que temos, todos nós, e não será por acaso que Annie Dillard nos demonstra, com exemplos excruciantes da vida natural, lembrando-nos as marcas no corpo das baleias, tubarões, ursos, etc. ou a morte de uma rã pela sucção das suas entranhas por uma barata-de-água deixando a sua pele incólume; já as cicatrizes dos humanos são maioritariamente escondidas, ausência essa que é descrita como um planeta onde os seres passam a sua vida a praticarem isso mesmo: a esconderem-se uns dos outros. 

Por outro lado, Annie Dillard, ao contrário de Thoreau, não vive isolada. Tem vizinhos, também come carne, anda de automóvel, fuma cigarros, convive nas cidades, não é uma anacoreta ou uma pregadora do deserto, embora os refira em passos do livro. Não é uma moralista da vida natural, mesmo que adivinhemos um amor infinito pela Natureza que descreve como ninguém, pelo menos que eu conheça. Limita-se a observar, a ver, coisa que o capitalismo ainda não proibiu ou que exija pagamento. E é talvez aí que se encontra o segredo da adesão a este livro por parte dos leitores: a franqueza, a verosimilhança e a genuinidade. Acreditamos nela e seguimo-la nas suas experiências.

«Em tudo na vida há sempre a tentação de perder tempo, fazendo amigos, refeições e viagens comezinhas durante anos comezinhos a fio. É tão consciente, parece tão moral, afastarmo-nos simplesmente das brechas onde os rios e os ventos se precipitam, dizendo ''nunca mereci esta graça'', o que até é verdade, e depois amuarmos até ao fim da vida, sempre no limiar da raiva. Recuso-me. O mundo é mais feroz do que isso em todas as direcções, mais perigoso e amargo, mais extravagante e luminoso. Estamos a fazer a faina, quando devíamos erguer Caim ou Lázaro.» (pág.303)

alc

segunda-feira, julho 14, 2025

"Abrandar ou Morrer - A economia do decrescimento", Timothée Parrique"

 

Livros Zigurate, tradução de José Mário Silva, Maio de 2025. O Público de 7 de Julho de 2025 publicou uma entrevista com Timothée Parrique.

A leitura deste livro fez-me recordar uma célebre frase de um ex-jogador de futebol que analisou a sua época ganhadora com «...estivemos à beira do abismo, mas demos um passo em frente!». Não estou a ironizar e esta frase vai direitinha para aqueles que pensam que o capitalismo pode renovar-se por si só, tornando-se «verde», «solidário», «amigo da natureza», «socialmente justo», «democrático», etc. Não, não vai, porque a o seu adn é o lucro acumulado e o crescimento contínuo até ao infinito, se possível fôra e existindo, ou não, um abismo à sua frente. Pouco lhes interessa, aos mais ricos do mundo inteiro (os tais 1%), que o planeta se exaure, que as alterações climáticas façam soçobrar povoações ou países inteiros, que a percentagem de pobres no mundo inteiro tenha aumentado exponencialmente, ou que o Sul ande afogado em dívidas impagáveis aos países do Norte desenvolvido, extractivista, imperialista, neocolonizador, que lhes impõe as emissões de carbono em deslocalizações de empresas tóxicas. Pouco lhes interessa, igualmente, que exista uma panóplia imensa de «trabalhos de merda» (David Graeber), inúteis e tóxicos, que não sem alguma lógica capitalista e especulativa, são os mais bem pagos.

«Abrandar ou Morrer - A economia do decrescimento», de Timothée Parrique, não é somente, um manifesto ecologista. Certamente ecossocialista, certamente anticapitalista, mas eivado de um optimismo que até nos pode irritar, pela apresentação tão desconcertante, como sustentadamente viável, dos pressupostos do decrescimento, movimento que tem vindo a alargar-se, cada vez mais, na opinião pública e desde os inícios dos anos 70. Podemos situá-lo num anticapitalismo, mas não deixa de ser sintomático, os ataques que lhe são arremetidos, quer pelos ecologistas, quer pela esquerda parlamentar europeia, ou que está em vias de o ser, que se recusam a apresentar aos seus eleitores propostas sólidas e congruentes de transição pelo decrescimento e reformulação dos itens do PIB, alfa e ómega do capitalismo e indicador de um crescimento enganoso.

Se o decrescimento, segundo os seus detractores, não resolveria nada, antes enterrando as pessoas na pobreza e na desregulação social, no desemprego, perguntar-nos-íamos por que razão o «crescimento» capitalista não teria já resolvido a equação da desigualdade e, pelo contrário, a tenha aumentado exponencialmente, com o aparecimento de fortunas colossais nunca antes visto, mesmo no liberalismo puro e duro do século XIX. As críticas ao decrescimento são de tal modo desproporcionadas e violentas que chego a admitir que talvez Timothée Parrique tenha razão na apresentação deste livro/manifesto. Sólido nos argumentos e dados no ponto de vista económico e social, é contudo, no plano político onde alguma hesitação se faz sentir. É evidente que o processo de decrescimento (volta-se a sublinhar o aumento de pessoas que investem no «ter menos, para ganhar mais vida») está ligado ao aumento da democracia e do movimento cooperativo e autónomo, municipal até, reconfigurando as empresas, tornando-as não lucrativas e proibindo e criminalizando, por exemplo, a obsolescência, entre perto de 380 itens que se cruzariam na proposta ecossocialista. Sintomática foi a resposta de Michel Rocard um peso-pesado do «socialismo» francês que ao ouvir, pela primeira vez, estas propostas, imaginou de imediato uma «guerra civil», como se essa realidade não existisse já e promovida pelos mais ricos e pelos estados que desmantelam os serviços públicos e descartam qualquer hipótese séria de uma economia socialmente útil. 

O decrescimento torna-se assim a única saída para uma fase de transição que espolete para uma realidade-outra que pode ser o que quisermos, desde que o capitalismo morra de vez. Exemplos de verdadeiras alternativas não faltam.

«Termino com o meu livro preferido, ''The Future is Degrowth: A Guide to a World beyond Capitalism'' (Junho de 2022), de Matthias Schmelzer, Andrea Vetter e Aaron Vansintjan. Verdadeira enciclopédia do decrescimento, encontramos nele a integralidade da literatura (quase uma centena de conceitos) cuidadosamente organizada em tipologias: ste críticas do crescimento económico (ecológica, socio-económica, cultural, anticapitalista, feminista, anti-industrialista e internacionalista), cinco correntes de decrescimento consideradas de diferentes ângulos (as instituições, a suficiência, as economias alternativas, o feminismo, tal como o pós-capitalismo e a alter-globalização), três princípios do decrescimento (justiça ecológica; justiça social; autodeterminação e a vida boa; independência em relação aos imperativos do crescimento) e seis famílias de propostas (democratização, economia solidária, e bens comuns; segurança social, redestribuição e limites quanto à acumulação de riqueza; tecnologias conviviais e democráticas; revalorização e redestribuição do trabalho; democratização do metabolismo social; solidariedade internacional). este livro, por si só, resume perfeitamente o vasto campo de estudos em que se tornou o decrescimento.» (pág.163)

alc

sexta-feira, agosto 30, 2024

«Caminhar - Uma filosofia», Frédéric Gros

 

Antígona, 2023. Tradução de Inês Fraga. Não segue o AO90
De Frédéric Gros conheço o seu livro «Desobedecer» editado igualmente pela Antígona. Livro interessante de seguir, não se pense que é de auto-ajuda, o que não quer dizer que não vos ajude. De jeito enciclopédico, leva-nos a viajar pela ideia filosófica da caminhada por alguns dos seus protagonistas mais conhecidos: Thoreau, Nietzsche, Nerval, Kant (este chato menos caminhante que os outros), Rimbaud, Rousseau, Kierkegaard, Hölderlin e até Gandhi. Outras pequenas referências são-nos dadas conforme a narrativa e a procura de Gros, como, por exemplo, as errâncias dos primeiros monges cristãos proibidos pela igreja sedentária ou os peregrinos de todos os matizes que encontram a «revelação» caminhando incessantemente.

E, por falar em «caminhar incessantemente» desconhecia, de todo, a doença dos «caminhantes loucos» capítulo do livro que, se o adquirirem, não devem deixar de ler. Nerval e Rousseau encontram-se, escreve Gros e recorrendo à opinião de alguns «médicos pouco inspirados», entre os chamados «dromomaníacos», um síndrome de doença mental que obriga o paciente a caminhadas repetitivas e intensivas. O mentor desta teoria foi Achille Foville, sócio da Sociedade Médico-Psicológica, e que, em 1875, descreveu como patológicos «o gosto por viagens intempestivas e a paixão migratória»! Pois: fosse dizer isso a uma família irlandesa com fome e que emigrava para os EUA ou Austrália que tinha uma patologia dromomaníaca e que mostrava uma «impossibilidade de permanecer em casa»!! Gostaria muito de ver a reacção dessa família para com o senhor Achille. No entanto, teve a boa educação (já que senso demonstrou não ter) de distinguir dos chamados dromomaníacos os «...imbecis que não conseguem estar parados e deambulam tolamente; os dementes que materializam o seu delírio em errâncias sem destino; os dipsomaníacos (bêbados inveterados) ou eratómanos que saem de casa para se precipitar na lama das cidades e aí satisfazer os seus vícios (sic!).» (pág.77) Haja paciência para ler estas coisas sem ser nos programas eleitorais dos «iliberais»!

Gostamos de ler «Caminhar», embora o autor nos avise que esta actividade não é um desporto. E ainda bem que não o é. Gostamos nós de caminhar na natureza em silêncio, comunicando com as pedras e as árvores ou os pássaros, ou correr numa passadeira como um hamster amestrado num ginásio a cheirar a suor? É escolher... por mim, que já usei as duas experiências, fixei-me na primeira proposta. Contudo, ao finalizar a leitura deste livro, vi-me como um amador das caminhadas: comparar-me com as pernas de Nietzsche que andava os seus 50 km por dia nas margens do lago Léman (onde já caminhei, por acaso) é impossível, tal como com Rousseau que caminhou incessantemente quando era miúdo de 20 anos e no seu Outono da vida; nos entrementes, frequentava os salões sociais onde se fartou. Hölderlin foi outro que caminhou de Estrasburgo até Bordéus, fazendo com que os críticos e amigos assentassem que houve um poeta antes da viagem e outros, após-Bordéus! Ou seja, o enorme poeta procurou claramente a ruptura que o levou a ser guardado numa torre e tendo, como leal amigo, um marceneiro, seu tutor. Já Rimbaud conhecemos bem de que é feito: a partir dos 15 anos nunca teve sossego na sua errância constante. Por não ter dinheiro, fugia a pé pelas estradas e assim permaneceu toda a sua vida poética e de comerciante de armas. Sabemos o fim, não necessariamente ligado às suas longas caminhadas. Já não se poderá afirmar o mesmo com Robert Walser, igualmente um grande caminhante, arredado estranhamente ausente deste estudo de Gros, que faleceu num trilho de montanha que contornava o Hospital psiquiátrico de Herisau, em 1956. Sinto-me, pois, no direito mais que legítimo e, aliás, muito pouco arrogante de me identificar com as caminhadas diárias e circulares de Thoreau que não saía da floresta Concord, aproveitando os dias que formavam o conjunto das estações do ano as mudanças, as transformações, que a natureza tinha o condão de nos apresentar. Monótono? Pois sim: «A caminhada é melancólica, monótona. É por isso que nunca se revela enfadonha. Devemos opor a monotonia ao tédio. O tédio é a ausência de projectos de perspectivas. Giramos em volta de nós mesmos. (...) A caminhada nunca é entediante. Apenas monótona. Quando caminhamos, vamos a algum lado, estamos em movimento, o passo é uniforme. Há demasiada regularidade, demasiado ritmo para que a caminhada provoque tédio.» (pág.139)

As caminhadas nas cidades também não são esquecidas, mas nota-se um certo desprezo do autor perante as fugas e caminhadas urbanas. Só o espírito de 'flâneur', quer de Baudelaire e Walter Benjamim, quer da Teoria da Deriva de Debord e dos situacionistas (Groz dedica a este último um único pequeno parágrafo) é tido como viável, tal como nos diz neste trecho que reproduzo:
 
«Subversão da especulação. O 'flâneur' resiste ao produtivismo. É perfeitamente inútil, mas não é passivo. Não faz nada, mas persegue obstinadamente tudo, captando instantaneamente choques, encontros, imagens. Sem o 'flâneur', quem poderia atestar o que acontece nos cruzamentos? Cada um de nós produz às cegas a sua série de fenómenos. O 'flâneur' apreende as centelhas, as fricções, num piscar de olhos.
Subversão do consumo. A multidão perde-se no seu devir-mercadoria. Arremessado de um lado para o outro, o indivíduo torna-se presa dos movimentos. A multidão consome, as avenidas devoram. Os letreiros, as montras existem para fazer circular mais depressa as mercadorias. O 'flâneur' não consome nem é consumido. Respiga, rouba. É verdade que nunca recebe, ao contrário do caminhante das planícies e das montanhas, a paisagem como oferenda pelos seus esforços. Mas capta, apanha instantaneamente encontros improváveis, momentos furtivos, coincidências fugidias. Deita a mão a vinhetas e faz fluir em si a chuva fina das imagens roubadas.» (pág.220)

Talvez por isso, o registo (e roubo assumido) de imagens pela fotografia e pelo desenho urbano tornou-se, hoje em dia, um modo de subversão impossível de imaginar em meados do século XX.

alc

sexta-feira, julho 05, 2024

Jornal Mapa 42 nas ruas!

A solidariedade que se possa impor ao racismo interessa-nos mais do que o dó ou a caridade. E disso damos conta numa grande reportagem feita com migrantes que estão há mais de um mês acampados nos Anjos, em Lisboa, pessoas que conseguiram passar pelos poros das cada vez mais violentas fronteiras externas da UE. As lutas pelo território continuam também a interessar-nos mais do que as eleitorais e, mesmo saídos dum desses exercícios, decidimos lançar um olhar à «voragem energética» que a nova vaga industrial trouxe para Sines e também para as ocupações, despejos, resistências que se dão em tecido mais urbano.

Tudo como cama para um composto que possa ajudar a criar uma vida de outro modo, como nos lembra Carmen Staats. Uma vida que, para ser atingida, necessita de lutas ecológicas pensadas também a partir dos Soulèvements de la Terre, um movimento nascido em 2021 numa assembleia da ZAD de Notre-Dame-des-Landes (França) na qual participaram duzentas pessoas de diferentes coletivos de agricultores, ambientalistas, sindicais e autónomos. Interessa-nos ainda relembrar o Unabomber mais do que o Manuel Fernandes, ou Varela Gomes mais do que o Camões, e apoiar o esforço financeiro da Disgraça mais do que o do crescimento orçamental para a defesa.

Jorge Valadas, continua a iluminar-nos com o seu luar que, desta vez, nos deixa ver uma América onde «o sonho» se desfez e onde a pobreza branca também se generaliza. A série «25 de Abril – outros 50 anos» continua neste número, permitindo um olhar para essa espécie de turismo revolucionário que foi a vinda de muita gente de fora do país para participar na revolução, nas palavras de Joëlle Ghazarian.

Tudo isto e ainda outras notícias, crónicas, entrevistas, poesia, literatura, ilustração e BD, no número 42 do Jornal MAPA, que podes adquirir em qualquer dos pontos habituais de venda ou, melhor ainda, assinar, ajudando assim à continuação sustentada deste projeto voluntário de informação crítica.

quarta-feira, julho 03, 2024

«Novo Iluminismo Radical», Marina Garcés

 

Orfeu Negro, Out. 2023, Tradução de Helena Pitta
Conheci brevemente a filósofa catalã Marina Garcés em 2010 quando acompanhou Santiago López-Petit nas II Derivas de Maio que a editora organizou sob o tema «Com uma Faca nos Dentes: Educação, Revolução, Realidade». Aí, Santiago López-Petit apresentou o seu livro «A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra», com tradução e prefácio de Rui Pereira, que a Deriva publicou. Ambos pertenciam ao grupo de pensamento «Espai en Blanc» sediado em Barcelona. O Ípsilon, do Público, entrevistou-a há umas semanas devido à publicação deste livrinho pela Orfeu Negro. Não cheguei a ler. De qualquer modo, as intervenções que Marina Garcés protagonizou no espaço do então Esmae do Porto, onde decorreram as II Derivas de Maio já apontavam para claras alternativas ao capitalismo e à (sobre)vida.

Seja como for, «Novo Iluminismo Radical» é composto por intervenções em conferências que, penso, foram obviamente reescritas pela autora na edição deste livro, de modo a ajustá-las à expressão escrita. Num mundo como o que observamos e sentimos na pele, hoje, Marina Garcés arrisca-se a ter razão na descrição e nas metástases que o corroem. Como diz Marx, que ela cita também, descrever o mundo todos os filósofos o fazem, transformá-lo é do que necessitamos. E quando falo em «razão» o termo foi usado propositadamente, como que a dizer ao que vem. Voltar a Kant? Nem tanto assim, mas voltar talvez ao Kant crítico de Kant, ao Hegel crítico de Hegel, ao Voltaire e a Rousseau, críticos igualmente deles próprios. A receita, não sendo nova e não constituindo qualquer novidade em si, contém um conceito entretanto perdido nas sociedades pós-pós-modernas, a que Garcés chama de «condição póstuma», em que o passado (defendido pelos saudosistas e retrotopistas que Baumann já tinha identificado) e o futuro são uma e a mesma coisa. Interessante é referir-se a Chernobyl como marca deste presente através da nobelizada Alexandra Alieksevitch quando afirma que as imagens daquela catástrofe não indicam claramente se é o passado ou o futuro. 

Sabemos igualmente que a crítica ao Iluminismo já foi elaborada pela esquerda nomeadamente desde 1949, com Adorno e Horkheimer, ou Braudillard, Agamben e outros, mas Marina Garcés propõe-nos ir mais longe, partindo do princípio que é possível um outro mundo que falhou todas as utopias a que se propôs levar a cabo, como, e cito, o anarquismo, o socialismo e o comunismo. O que ela vê de interessante e revolucionário é a luta pela vida digna, por um decolonialismo horizontal e universal, a crítica do homem branco, imperialista e colonialista, racista e eurocêntrico, ocidentalizado, patriarcal. Afirma mesmo que os verdadeiros revolucionários, nestes tempos sombrios e violentos, são os que salvam vidas no Mediterrâneo ou em Gaza, ou onde há guerras, valorizando a Vida que entretanto se volatilizou na educação e na formação dos homens actuais. Diz ela no seu Preâmbulo:

«O mundo contemporâneo é radicalmente anti-iluminista. Se, em 1784, Kant anunciava que as sociedades europeias de então eram tempos iluministas, hoje podemos dizer que estamos, em todo o planeta, em tempos de anti-iluminismo. Ele usava o termo com um sentido dinâmico: o iluminismo não era um estado, era uma tarefa. Nós também: o anti-iluminismo não é um estado, é uma guerra.
As faces desta guerra anti-iluminista são muitos e multiplicam-se todos os dias. No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora. Podemos chamar-lhe populismo, mas esse é um termo confuso. Do que se trata é de um novo autoritarismo que permeia toda a sociedade. No plano cultural triunfam as identidades defensivas e ofensivas. A cristandade branca e ocidental refugia-se nos seus valores, ao mesmo tempo que se desencadeia uma revolta antiocidental em muitas partes do mundo, mesmo por parte do pensamento crítico ocidental, que rejeita a sua própria genealogia.(...)»

Partindo da premissa que hoje é o tempo onde tudo se acaba, tudo morreu ou está em vias de morrer literalmente, a nossa espécie e um planeta feito à nossa medida, Marina Garcés descreve onde se encontram esses perigos e aponta como o alfa e o ómega da morte programada o capitalismo, o pós-humanismo que lhe está associado e a inteligência «delegada», num mundo cada vez mais ignorante e estupidamente indiferente, o que é distinto do conceito socrático do «não-saber» como forma inicial de atingir a «emancipação pelo saber». Baseada em Agamben e Antonio Negri afirma:

«Actualmente, a biopolítica está a mostrar o seu rosto necropolítico: na gestão da vida, a produção de morte já não é vista como um défice ou excepção, mas como normalidade. Terrorismo, populações deslocadas, refugiados, feminicídios, execuções massivas, suicídios, fomes ambientais... a morte não natural não é residual ou excepcional, não interrompe a ordem política; colocou-se no centro da normalidade e capitalista e das suas guerras não declaradas.(...)» 

A descrição de Marina Garcés, até agora, não constitui novidade por aí além na crise do planeta e do capitalismo global que lhe é inerente. O mais interessante do livro são as suas Cinco Hipóteses no ponto 3, «Humanidades em Transição». Fiquemos pela Hipótese 1 de ultrapassagem do capitalismo por essa humanidade em transição e isto no campo da educação e do projecto educativo actualmente em curso por todo o mundo:

«O projecto educativo que o capitalismo actual desenvolve situa-se nesta moldura epistemológica. A escola do futuro já começou a construir-se e não está a ser pensada pelos estados ou pelas comunidades, mas pelas grandes empresas de comunicação e pelos bancos. Não tem paredes nem muros mas plataformas online e professores durante vinte e quatro horas. Não será necessário ser-lhe excludente, porque será individualizadora de talentos e de percursos de vida e de aprendizagem. Praticará a universalidade sem igualdade: uma ideia na qual temos de começar a pensar, porque há-de ser, se não o é já, a condição educativa do nosso tempo.(...)» 

E assim por diante passando os olhos pelas outras quatro hipóteses finais de suposta transformação da humanidade «em transição». Não tenho o direito de discordar inteiramente de Marina Garcés, mas tenho-o em ser menos optimista que ela. Custa-me acreditar numa exaustão universal contra o(s) Estado(s) e na criação de bolsas autónomas e libertas da escravatura do trabalho cada vez menos pago e trabalhadores em depressão que, para fugir dela, criam contra-alienações. A História prova-nos que é numa situação de escravidão com um bem-estar pouco digno, é certo, mas ainda assim bem-estar, que não há oportunidade de revolta e muito menos de hipóteses revolucionárias que Marina não aborda, assim como só muito superficialmente toca na questão da produção alienada e do lucro e valor. É que isso tem tudo a ver com as hipóteses futuras de uma insurreição mundial, mesmo que a vejamos muito longínqua e os gérmenes tenham aparecido e desaparecido muito depressa. Mas que existem, existem. Por agora, resistiremos ao neofascismo mundial vindouro, esse sim, igualmente e violentamente anti-iluminista como o foi contra a modernidade do século XX, o que retira, por recuada, qualquer hipótese de luta insurrecional, mesmo que seja para nos salvarmos como espécie. 

Mas a Orfeu Negro tem razão quando apresenta esta colecção onde se insere este livrinho: «Microleituras - Efeito prolongado».

alc

segunda-feira, abril 22, 2024

Jornal Mapa 41, ilustração de artigo de L. Silva

 

A minha contribuição para o Jornal Mapa 41. Ilustração do artigo de L. Silva (Sandra Faustino) "Startups: não é um ecossistema, é uma plantação"

domingo, abril 21, 2024

Jornal Mapa 41

 

Saiu o número 41 do Jornal Mapa. O SAAL, a Coimbra radical dos anos 70, o 25 de Abril nos liceus de Leiria, o associativismo contra a especulação, as startups e os unicórnios, a gentrificação, a crise ecológica, mulheres: o 25A começou em África, as notas de Júlio Henriques, Phil Mailer e a Revolução portuguesa, poemas, ilustrações... Um número a não perder.

quarta-feira, março 27, 2024

«Há mundo por vir?», de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro

 

Antígona,2023, grafia brasileira, ilustração da capa de Gonçalo Duarte
Livro mais que necessário para ficarmos a conhecer as diversas correntes de pensamento e acção dos que esperam o apocalipse climático anunciado, os que pensam ainda poder evitá-lo, os «aceleracionistas» de esquerda que, culpando o capitalismo, querem o seu fim desejando simultaneamente uma nova ordem climática, ecológica e social, os «singularistas» defensores do capitalismo verde e das grandes multinacionais como a Google, Amazon, o troglodita do Musk e quejandos, mais (não poderia deixar de ser) os negacionistas que tentam negar tudo acertando na única coisa de que são realmente bons: provarem que são negacionistas até para eles próprios, erradicando todo e qualquer laivo de pensamento estruturado nos seus cérebros. De qualquer maneira estamos todos lixados. O relógio do apocalipse aí está a meros dois segundos do fim. Os «sobrevivalistas» de todos os matizes da extrema-direita americana aos anarquistas, outro dos ramos, já não estão nesta discussão. Abrem o canivete suíço, o isqueiro enquanto tiver gás, constroem uma cabana de ramos de eucalipto e aí estão eles na caça e pesca pelas montanhas. Acho muito bem, sabendo que os ursos, lobos e águias lhes podem fazer a folha em menos de um minuto. É a natureza, estúpido!

Depois, vem a ainda presente polémica sobre o Antropoceno. Que sim, pois se ele existe, continuará depois de nós. Foi o nosso legado. Mas sendo assim, não haverá ninguém para o dizer ou proclamá-lo porque estaremos todos mortos sem sepultura. Ficará o betão armado por mais uns largos anos, e o urânio das centrais a aniquilarem os animais e aves que se aproximarem das grandes chaminés de arrefecimento. O resto, talvez alcatrão, a ferrugem do que foram automóveis, as baterias a escorrerem líquidos corrosivos, minas das guerras passadas a explodirem quando ratos (os sobreviventes) lhes passarem por cima e a Torre de Belém no canto de um país esquisito que durante uns míseros 900 anos (uns nanossegundos do Holoceno e do Antropoceno) se armou aos cucos e não deixou rigorosamente nada a não ser um montão de ruínas com que se deu sempre bem.

Nada mau para uma leitura de páscoa. Imprescindível para as outras partes do ano.

terça-feira, fevereiro 06, 2024

Desenho para o Jornal Mapa 40

 


Ilustrações do Jornal Mapa, número 40, para o artigo de Luís Fazendeiro "Contra o Imperialismo da Razão Instrumental". Os temas desta edição estão noutro post. Um obrigado ao Mapa.


Desenho para o Jornal Mapa nº40

 

Ilustrações do Jornal Mapa, número 40, para o artigo de Luís Fazendeiro "Contra o Imperialismo da Razão Instrumental". Os temas desta edição estão noutro post. Um obrigado ao Mapa.


quarta-feira, janeiro 24, 2024

«Tasmânia», Paolo Giordano

 

D. Quixote, Novembro de 2023. 300pp. Tradução de Vasco Gato
Não esperem grandes rasgos literários e, muito menos após lerem «Tasmânia», concordarão que Paolo Giordano é «um dos mais importantes escritores italianos da actualidade» ou que o seu livro é «feroz e ao mesmo tempo comovente» como alertam as badanas do livro editado pela D. Quixote.

Apocalipse, vise-se hoje em Gaza e na Ucrânia. Preparam-se tantos mais, quanto mais depressa entrarmos num inverno nuclear que nos levará eventualmente à extinção. Nada que não saibamos sobre a programação oculta inscrita nos vários países do mundo apostados em acreditar nas alternativas autoritárias a autocráticas, para não dizer ditaduras que, segundo a ONU, nos últimos anos tiveram um aumento exponencial. Não escolho palavras ao acaso, basta fazer uma investigação no Sr. Google e os gráficos da organização mundial dizem tudo.

Paolo Giordano é um jornalista físico, dedicado a temas científicos sobre as alterações climáticas e a cada vez mais certa catástrofe. Foi este assunto que me levou a adquirir o livro. Depois, aparecia por todo os jornais, em operações de marketing bem visíveis elaboradas pelos críticos da praça, como se fosse uma experiência brutal de um novo tipo de literatura. Não vi lá nada. Diziam que para além do apocalipse físico do planeta, também ele vivia um, pessoalmente. Sinceramente nada vi. Se o apocalipse era a relação com a sua mulher, temo dizer que 90 em cada 100 portugueses que pediram o divórcio após o casamento, também já o viveram, com a agravante lusa de terem de continuar a morar um com o outro devido ao preço da habitação. Isso talvez configure uma verdadeira calamidade. Mas adiante.

Quanto ao apocalipse em si, o da Terra, ele mistura tudo, as alterações climáticas verdadeiras, o terrorismo islâmico, as megatoneladas de satélites que envolvem a atmosfera da terra e que a todo o momento podem cair sobre nós numa reacção em cadeia, os problemas de género, o negacionismo que provoca a síndrome de Cassandra que se explica pela impotência dos cientistas do ambiente em fazerem-se acreditar por políticos e pela população alimentando um estado pré-traumático e depressivo sobre eles, a proximidade real de um inverno nuclear por uma guerra mundial, a seca e a falta ou envenenamento dos recursos hídricos, as pandemias, o desaparecimento das nuvens ou a transformação destas em nuvens de metano com luz própria para além da libertação do permafrost, também de metano que liberta o CO2, só para citar alguns dos problemas que fala sem grande aprofundamento. Enquanto isso, ele viaja pelas COP's, não gosta do que vê, vai tendo aqui e ali relações com mulheres fugazes e apocalípticas, claro, não consegue ter filhos sabe-se se lá se pela qualidade da água cheia de feromonas, vai comendo hambúrgueres e embebeda-se de vez em quando para aliviar o stress. 

Sobre a guerra mundial que será nuclear, (daí Paolo Giordano se encontrar, por várias vezes, em Hiroxima e Nagasáqui para estudar ainda hoje os efeitos das bombas A), vejo-me na quase obrigação de lembrar uma afirmação de Einstein, não sei se apócrifa, mas que ainda assim vou citá-la: «Não sei as consequências se houver uma Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta será à pedrada!». Tasmânia? Por que não a Patagónia, igualmente? De qualquer modo, os abrigos atómicos das elites já estão a ser construídos sub-repticiamente. Onde irão eles, após o colapso, comer os hambúrgueres e as coca-colas, pergunto-me? Mandam vir pela Uber? Através da net? Qual net? Qual Uber?

A referência à Tasmânia, em somente duas páginas do livro e que lhe dá o título, explica-se porque, segundo o jornalista científico Paolo Giordano e alguns outros cientistas, terão a certeza que será o único lugar que reúne as condições necessárias para a sobrevivência após o apocalipse, tenha ele as características que tiver. Marte? A proposta hilariante de Elon Musk de explodir bombas nucleares em cadeia nesse planeta, de modo a produzir uma atmosfera viável para o ser humano, é de um ridículo que ultrapassa Trump quando este afirmou que não havia aquecimento global porque nevava e rodos em Nova Iorque! Depois, há afirmações, no mínimo grotescas, como a que Marie Curie foi a primeira cientista negacionista da História, por ter rejeitado que a doença que a levou à morte, mesmo com as mãos verdes fosforescentes devido à manipulação de urânio, nada tinha a ver com radiações. Forçado, isto. 

Tudo muito leve, demasiado leve. Se a táctica era misturar um problema real do clima e do planeta como metáfora da sua vida real, falhou totalmente. Quanto a mim, há livros bem mais preocupantes e sérios, com dados científicos verificáveis sobre o colapso. Basta procurá-los. Talvez o fim deste livro na minha estante, signifique que a plataforma olx seja uma alternativa interessante.

D. Quixote, Novembro de 2023. 300pp. Tradução de Vasco Gato

quarta-feira, janeiro 10, 2024

Greve Climática Estudantil e Climáximo alvo de humilhações e violência policial


DN de 7/01 e Público de 8/01

Há apenas 5 posts relatei aqui, e isso nas redes sociais vale o que vale, a repressão policial completamente desproporcionada, junto com a população motorizada, armada de tacos de hóquei e outros objectos, a que são votados os jovens manifestantes que lutam contra a anemia criminosa das instituições governamentais face às alterações climáticas. Escrevi isto no dia 20 de Dezembro de 2023.
Ontem, dia 7 de Janeiro, no DN, Fernanda Câncio traça um descrição de 3 páginas de verdadeira selvajaria e terror com que os jovens foram tratados após a detenção nas esquadras policiais a saber: no Calvário, nos Olivais e em Moscavide. E isto após serem severamente agredidos enquanto as acções decorriam, quer pela polícia, quer por populares que não foram, como deveriam ser, identificados. Algemaram-nos entre 7 a 10 horas, despiram-nos parcialmente e a algumas raparigas chegaram a despir totalmente. Perguntaram-lhes se eram gays, lésbicas ou homossexuais, como se fosse importante para um eventual inquérito (!?). A queixa está no MAI de José Luís Carneiro que, entretanto, «repreendeu» a polícia que mandou despir totalmente uma das jovens. Ninguém repreendeu os polícias que colocaram luvas de latex como eventual ameaça na revista individual aos jovens masculinos, já depois de serem revistados por 3 a 4 vezes por cima da roupa. Hoje, dia 8 de Janeiro, o Público retoma a notícia do inquérito do MAI, da Inspecção-Geral da Administração Interna e Procuradoria-Geral da República por estas práticas policiais. Iremos ver o resultado. Já em Maio de 2021, 19 manifestantes também do sexo feminino foram obrigadas a despir-se. Os casos têm-se repetido, desde aí, sempre com a mesma acção de humilhação e violência por parte da polícia, nomeadamente a 24 de Novembro e a 14 de Dezembro de 2023.
Parte interessante destas notícias que só agora parecem preocupar os media: as manifestações são pacíficas, nada foi encontrado de artefactos violentos, mesmo que existam artigos de opinião de juízes e de comentadores que exigem (ainda) mais repressão e prisão efectiva para estes jovens, muitos deles organizados na Greve Climática Estudantil e na Climáximo.
Pormenor: esse mesmo juiz que teve a ousadia de propor à polícia uma guião para o «tratamento» a este jovens para prisões efectivas (apondo nos relatórios crimes que ultrapassariam os 5 anos!) é o mesmo que na semana que passou, escreveu, escandalizado, com o facto de 71% de portugueses ignorantes opinassem sobre a percepção que tinham que Costa era inocente na Operação Influencer! Isto, segundo esta douta opinião, de se ter percepções para além de ser tramado deveria ser proibido!

sexta-feira, dezembro 22, 2023

Luta pelo Clima - Isto ainda vai acabar mal

 


Entre 1972 e 1974 os liceus deste país, pelo menos nas três cidades maiores de então, fervilhavam entre a raiva, o combate à incorporação na guerra colonial e a um governo cada vez mais violento e senil. Começávamos uma aprendizagem política a ferros. Está a acontecer, neste momento, uma exposição em Lisboa que lembra as lutas do Maesl e dos estudantes do secundário. A partir das "eleições" fraudulentas de 73 foram criadas as Cde, ou seja a Cdel, Cdep e em Coimbra a Cdec, Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra. A UEC e o PCP decidiram que havia condições para aumentar as reivindicações estudantis no âmbito da criação de associações livres do fascismo. Foi então criada a Cpraac e nos liceus a Cpael (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais). E atenção: alguns de nós já saíamos da caixa, éramos incontroláveis, uma espécie de "enragés" que nada tinham a ver com os objectivos programáticos dos universitários ou do partido. Tinham alguma razão. Muitos acabaram desirmanados. Mas esta história ainda não está feita.
Porque estou a lembrar isto? As comparações são perigosas e talvez pequem por extemporâneas, mas não é a primeira vez que refiro aqui a repressão completamente desproporcionada e criminosa contra os jovens estudantes que lutam decidida e corajosamente por um planeta melhor e mais limpo, lutando contra a Cop28, organizada, como sabemos, pela Opep. A polícia e a população motorizada reprimem juntos (!!) estes jovens de ambos os sexos, arrastando-os pelos cabelos, agredindo-os violentamente à vista de todos e das fotos como se a razão fosse a deles. Mas de relatórios a denunciar a nossa polícia sobre violência e tortura já conhecemos o suficiente.
Mais: nos artigos de opinião e na generalidade dos media e de jornais de referência, surgem juízes que, à pala da opinião, elaboram autênticos guiões para a acusação destes jovens, propondo até a pena para mais de 5 anos o que permitiria a prisão efectiva. Força! A polícia e a população (essa entidade esquisita) agradecem. Metê-los a todos na prisão depois de um enxurro de porrada é que é democrático e pedagógico. Quanto ao planeta, já vimos que apostam na Opep para, daqui a 20 anos, assinarem um acordo de viagens tipo Ryanair para Marte e botijas de oxigénio grátis, porque já não se poderá fazer nada aqui.
Esquecem contudo: que tal como em 73/74 o movimento não pára. Tende a crescer, tende a radicalizar-se, tende a fazer asneiras também, mas essencialmente a ganhar os avós, os pais e familiares, os amigos destes miúdos violentados por terem razão. Ou seja, dentro de 10 anos, ou menos, tendem a ter o poder. Ou a lutarem com violência contra ele.

Isto vai acabar muito mal. Primeiro com uma tragédia. Depois, a longo prazo, com uma radicalização para onde o Estado repressivo os está a empurrar, para esconder a sua própria incompetência e inconsciência climática. E é isto: as fotos de cabeças ensanguentadas de jovens manifestantes são retiradas à pressa daqui para fora. Tal como a censura fazia em 73 e 74. Acreditem, vai acabar mal.

sábado, outubro 21, 2023

As acções dos activistas climáticos são necessárias e urgentes

 

Lisboa, Maio de 2019, 2ª greve climática estudantil
Não subestimem as acções climáticas que se propagam cada vez mais na Europa e particularmente em Portugal. Quase sempre muito jovens, estudantes, portadores de uma cultura própria, são determinados a levar até ao fim os objectivos a que se propõem, mesmo com consequências legais graves para a sua vida futura. Levem-nos a sério, porque nada têm a perder. Olham para o lado e para cima, neste último caso para as instituições que nos governam e é com um grande cansaço e revolta que ouvem as suas palavras vazias. Se reparam em nós é para nos acusarem de inércia e desprezo pelo planeta e pelo ambiente. No fundo deixámos-lhes «isto». E não é agradável o que deixámos, mesmo que desde os anos 80, no início dos movimentos ecologistas, tenhamos avisado o que eles agora denunciam. Nessa altura também ouvimos o que eles ouvem agora, mas numa dimensão nunca vista hoje. Não os subestimem.

A repressão sobre eles é completamente desproporcionada por parte das forças policiais e da população. Vimo-los a serem barrados no direito de expressão pública, a serem presos e identificados, a serem denunciados por directores e reitores de instituições, a serem enxovalhados, agredidos e arrastados pelos cabelos na via pública quer por polícia, quer por público motorizado. 

Pior são os comentadores políticos. No dia 11 de Outubro, no Público, um juiz que é presidente de uma Associação Sindical dos Juízes Portugueses dá-se ao luxo de editar um artigo de «opinião» que não é mais do que um guia para a acusação destes jovens activistas.  O juiz-presidente-sindicalista afirma, sem qualquer problema de consciência sobre o que é a realidade, que as ações dos jovens que lutam por uma política ambiental que nos salve de um apocalipse anunciado, apresentam semelhanças com «atentados das organizações terroristas»; em ambos os casos, ou seja, das acções dos militantes ambientalistas e das organizações terroristas (ele não concretiza quais) tratam-se «de grupos organizados de pessoas unidas por uma ideologia comum, que planeiam e executam acções subversivas ilegais...», embora, mais à frente, declare que não é comparável uma «miúda partir a montra de um edifício» com um «bombista suicida»! Arrepende-se logo: «Mas o princípio é exactamente o mesmo...». Depois arrepende-se novamente e diz que os movimentos por um planeta melhor devem ser acarinhados e mete-se onde não deve que é a defesa de um mundo possível, ambientalmente são, mas «com aviões, automóveis e fábricas», coisas que os jovens querem erradicar da face da terra! Terra essa já em convulsão, mas o juiz-presidente-sindicalista quer a chuva no nabal e o sol na eira. Deixem a solução para a Ciência, diz ele.

O sr. juiz avança, lesto, após algumas considerações sobre esta coisa de pintar ministros de verde, a lista de crimes a que os jovens estão sujeitos não vá a polícia esquecer-se de os nomear nos relatórios. Cito: «Pintar montras e pintar fachadas é crime de dano. Interromper a circulação em estradas é crime de atentado à segurança de transporte rodoviário. Atirar tinta para cima de um ministro (sic) em exercício de funções é crime de ofensa à integridade física qualificada. Fundar, dirigir, ou pertencer a grupos ou organizações que se dediquem à criminalidade (sic) é crime de associação criminosa. Estes crimes são puníveis com penas de prisão elevadas (sic) e quem os pratica arrisca-se a consequências sérias.» Não subestimem igualmente o poder repressor dos tribunais, da polícia e dos comentadores como este juiz. Não se deixem levar pelas piadas jocosas dos ministros pintados de verde. Ninguém sabe das ordens dadas ao MAI por eles no segredo dos deuses. Mas essencialmente não deixem de levar a sério o activismo militante dos jovens ambientalistas pelo clima. Eles têm razão. E esperemos todos que levem a bom termo a denúncia das empresas com mãos sujas e de políticos que empurram os problemas para as calendas. Mesmo pintados de verde.

quarta-feira, novembro 16, 2022

«Catastrophisme, administration du désastre et soumission durable», de Réné Riesel e Jaime Semprun

 

Éditions de LÉncyclopédie des Nuisances, 2008
Um ponto de vista que, não sendo novo, é imperioso ter em conta sobre o catastrofismo e as ligações que lhe estão associadas. É evidente que não vai beber a Trump ou à extrema-direita o negacionismo sobre as alterações climáticas. Não teria lugar aqui se assim fosse nem eu lhe daria qualquer importância. Mas é de levar em consideração sob o ponto de vista de quem quer mudar de vida sem ser sob o domínio das multinacionais verdes ou do ecocapitalismo. Sobre o decrescimento Réné Riesel, um autor que esteve ligado à auto-extinta Internacional Situacionista, aponta um sem número de questões que é necessário debater entre aqueles que olham para o planeta a sucumbir e não o desejam de todo. Em síntese - e necessito de pedir cuidado com esta, visto que a tese é bem mais complexa do que aqui pode ser explanada - o decrescimento económico é referido por uma última, mas não única, possibilidade de salvação do capitalismo. Esta tese nos meios da esquerda, repito, não é nova e já se equaciona desde, pelo menos, dos finais dos anos 70 do século XX. Os movimentos ecologistas dos anos 80 que integraram em parte os movimentos esquerdistas do Maio de 68 deram mais vigor à tese salvífica do mercado. Aliás, no final do livro, Réné Riesel explica em palavras bem duras para alguns movimentos pós-68 que se «serviram» de alguns slogans revolucionários para os integrarem numa política hedonista, individualista, de «festa permanente» que nada tinham ver com o movimento das ocupações quer estudantil, ou operário. Já um pouco mais estéril é a polémica em torno das posições de Anselm Jappe e da sua co-autoria no «Manifesto contra o Trabalho».

De qualquer modo, sabemos já por experiência que exigir o «decrescimento económico» sem colocar em causa as bases mercantis de acumulação capitalista é uma contradição insanável. Mas a tentativa dos autores em porem no mesmo saco os que aceitam a submissão face ao domínio totalitário do capital com os que o combatem pela base, numa enorme bolha de servidão voluntária (para parafrasear Boétie), talvez seja um pouco forçado.

Vejamos uns dos pontos mais polémicos da leitura de «Catastrophisme»: «(...) De resto, certos militantes do ''decrescimento'', sem dúvida insuficientemente convencidos da falibilidade das suas preconizações, evocam por vezes a necessidade de uma ''revolução cultural'' e remetem-se finalmente a nada menos que uma ''descolonização do imaginário''! O carácter vago e lenitivo de tais vozes piedosas, nada dizem sobre o que permitiria preenchê-las, a não ser a arregimentação estatal e neo-estatal reforçada que implicaria por outro lado o essencial da defesa do decrescimento, que parece sobretudo destinada a reprimir a vontade do amargo conflito que inevitavelmente se tentaria, e já pensando seriamente na destruição total da sociedade, ou seja, do macrosistema técnico a que se resume exactamente a sociedade humana.» (tradução livre, pág.33).

Mais à frente cita a obra de Jacques Blamont «Introduction au siècle des menaces, 2004» com a qual Réné Riesel se identifica na sua conclusão, afirmando-a mais realista sobre o que verdadeiramente nos espera: «A única porta de saída aberta para as nossas crianças: colocar uma combinação munida de todos os biosensores que a lei de Moore saberá fornecer para se sentir, ver e tocar virtualmente, engolir uma boa dose de euforizante e partir para cada fim-de-semana para o país dos sonhos com a star preferida, numa praia pré-sexta extinção, os olhos focados em capacetes-ecrãs, sem passado e sem futuro.» Ora, se bem que verosímil este quadro, não é forçoso que não apareçam forças sociais transformadas em sujeito revolucionário  que impeçam tal futuro e que coloquem em causa o plano estatal de domínio através de uma cada vez maior acumulação de capital baseado nas novas indústrias multinacionais ditas verdes ou mais cinicamente referidas como sustentáveis. Segundo o autor a visão deste decrescimento seria a visão soft que baseia a sua teoria numa espécie de teoria ou pedagogia das catástrofes que transformaria o homem num sujeito revolucionário capaz de fazer tábua rasa de um planeta destruído, vazio, mas cuja humanidade sairia imaculada reservando uma moderna civilização industrial a que estava ligada um amor inato na liberdade. Digamos que é a visão de muitos marxistas que acreditam na «autodestruição» do capitalismo tal como foi aventado por Marx e Engels. A versão hard do decrescimento económico vem com o que chama de «autenticamente extremista na sua conceção de salvação pela catástrofe, que se encarregaria de criar não só condições objetivas de emancipação, mas igualmente de condições subjetivas: um género de material humano necessário de tais cenários poderia personificar um sujeito revolucionário (pág.41). Esta teoria, segundo Réné Riesel está sediada em Raoul Vaneigem de 1967: resumindo, a catástrofe seria «(...) de tal maneira esmagadora que as condições de vida material obrigariam nas zonas mais devastadas, arrasadas, envenenadas» que de tal caos nasceriam e multiplicar-se-iam enclaves insurrecionais que originaria uma «verdadeira catarse» graças à qual a humanidade regenar-se-ia e acederia a uma nova consciência, que será à vez social, ecológica, viva e unitária, citando agora Michel Bounan em «La folle Histoire du Monde, 2006».

Seja como for, a «fábrica de consensos» baseada na «tomada de consciência ecológica» já tomou forma avisando-nos que é necessário «mudar de vida». Mas que significa para as multinacionais verdes «mudar de vida»? Compreende, antes de tudo, uma selvajaria de lucros fabulosos para essas mesmas multinacionais e estados falidos, o desaparecimento de classes sociais remediadas enviadas sem escrúpulos para a pauperização absoluta, sem apoios estatais e criando bolhas de cidades para ricos e muito ricos, livres do ambiente envenenado como o Dubai e o Catar apoiados por massas obedientes, acreditando nas estatísticas «científicas», obcecadas pela reciclagem e pela luta contra bactérias e vírus, alienadas pela biotecnologia e ordenadas segundo critérios totalitários aceites por todos e necessários para a sua conservação dominadora como espécie última, último recurso da ideologia nazi transformada agora em democracia totalitária, um pleonasmo do futuro. 
O «mudar de vida» de quem não aceita a destruição do planeta terá a ver com o seu reverso: a destruição da sociedade industrial extrativa em que vivemos, reduzindo a produção ao necessário e construir as novas subjetividades ancoradas numa vida verdadeiramente livre e autónoma, autogestionária, terminando definitivamente com o trabalho assalariado. Reaprender a viver, porque o capitalismo e catástrofe estiveram sempre ligados desde o advento da sociedade industrial e a acumulação do valor. Isso será um programa verdadeiramente extraordinário.

António Luís Catarino

quinta-feira, novembro 10, 2022

Just Stop Oil. Provavelmente indignámo-nos cedo demais

Provavelmente indignámo-nos depressa demais. Apresento-vos Phoebe Plummer uma das activistas responsáveis pela Just Stop Oil. Por mim, caros amigos, é possível que me tenha insurgido contra a «destruição» de obras de arte, enquanto me deliciava com o que lia sobre os dadaístas, os futuristas russos e italianos (em planos diferentes, é certo) e também com os primeiros surrealistas acerca da destruição da arte. Malevich, em 1931 escrevia aos Sovietes para acabarem com todos os museus. Marinetti dizia que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia! Um dadaísta tentou incendiar Nôtre-Dame e depois tornou-se frade! No Maio de 68 fez-se BD com originais de Velásquez. Há inúmeras acções niilistas contra a arte que entretanto muito padece, como todos sabemos. Alguma arte contemporânea é merecedora de um prato de feijoada azeda. Portanto, estes jovens nem sequer destruíram nada; supostamente riscaram uns vidros que protegiam as obras de arte e uma sopa não estraga nada. É possível que haja até simpatia pela causa. Por mim, que me apanhei nas teias da minha própria contradição, ajudado por uma reflexão em forma de OrAcção pela manhã (a pessoa sabe do que falo) não proibia somente a extracção de petróleo. Proibia igualmente a extracção do gás e do carvão. É que mudar de vida é mesmo possível. Ou a tal autoestrada para o inferno existe mesmo e estamos todos a olhar para brincos de pérola?