Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pereira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pereira. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


Resultado de imagem para pensar em tempos de não-pensamento rui grácio
Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019

sexta-feira, junho 03, 2011

Sugestões para o dia de reflexão...





Toda esta obra, com frequência profundamente original, disseca os processos comunicacionais a partir da sociologia, da educação, das representações e funções sociais, da interculturalidade, entrando inclusivamente na relação entre o fazer comunicacional contemporâneo e os usos do tempo e do espaço humanos. Defensor de uma necessariamente nova “ecologia e ética da comunicação”, a obra de Vicente Romano é um paradigma da junção entre valor científico e mérito transformador profundamente revolucionário. Quando a academia falha a este, que deveria ser o seu chamamento natural, que a ele acudam pensadores da envergadura do professor Vicente Romano, cuja obra de divulgação, “A Formação da Mentalidade Submissa”, que a Deriva edita agora em Portugal, contando já com dezenas de milhares de leitores e editada em diversos países do mundo, é não apenas a primeira a ver a luz do dia em língua portuguesa, como uma síntese modelar, de todo o seu notável trabalho. [Rui Pereira]





Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade." Santiago López-Petit 

sábado, outubro 16, 2010

A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra de Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira)



Cada vez A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, de Santiago López-Peti, faz mais sentido. Rui Pereira, tradutor do livro, deixa-nos comentários finais  e marginais algumas pistas para pensar.


O momento em que banqueiros, financeiros e políticos deles afins se interrogam na tertúlia televisiva sobre se o capitalismo terá «ruído» ou não…. O momento em que vozes das mais insuspeitadamente elevadas da Igreja católica exortam os seus fiéis a uma rebelião, pelo menos, do grau da protagonizada pelos apóstolos há dois mil anos: “Face aos pretensos senhores destes tempos […] o mínimo que podemos fazer é rebelar-nos com a mesma audácia dos Apóstolos», na formulação exacta que lhe deu o secretário  de Estado do Vaticano, monsenhor Tarcísio Bertone, discursando em Fátima, em Outubro de 2007.
[...]
O momento bizarro em que os neoliberais reclamam a “intervenção do Estado”. O momento em que os adeptos da “intervenção do Estado”, criticam os neoliberais reclamando a “intervenção do Estado”. O momento em que o espanto astrológico da constelação que uniu alta finança e baixa política, quando não desaparece sob o manto do falatório incessante nas televisões e nos jornais, aparece à sombra das grades carcerárias para alguns — escassos — bodes expiatórios aos quais, na aventura, tocou a sorte de pagarem por todos...
Podemos, neste momento, estar ou não estar de acordo com López-Petit. O que dificilmente poderemos é discordar da importância, da relevância crucial, da sua escrita para quantos, nas suas mil e uma formas, por vezes despercebidas, declinam a clássica questão da filosofi  a e da ontologia, tal como no-la entrega, a grande economia de Jean Lefranc: O que é o Homem?, para lhe encontrarem, como resposta,não mais do que o seu tudo e o seu nada, ou seja, o Homem é aquele ser que se coloca uma questão sobre si mesmo: O que é o Homem?
Consciência de si e consciência de si na História, o homem, diz-se, é ele e a sua circunstância. Mas é, também, ele na sua contingência. Da circunstância à contingência vai a qualidade de um grau diferente de si. O grau reflexivo do ser Homem enquanto ser dotado de historicidade. Quer dizer, percepção de si mesmo perante a encruzilhada. A História dá-se à consciência sob a forma de um campo de possíveis. Isto é, irrupção da escolha e imperativo de acção.
[...]
Porém, o que López-Petit, em toda a sua generosa crueza, vem dizer-nos, é que há momentos em que a auto-comiseração e as tácticas e desvios condescendentes da boa consciência não bastam. Esse é o tempo em que a História nos demanda. Tempo sumamente difícil, portanto. Em que temos de mastigar a comida, ao contrário do velho hábito de a deglutirmos já mastigada: — pelo rei, pelo presidente, pelo revolucionário, pelo juiz, pelo sábio, pela telenovela e pelo filósofo, pelo cura ou pelo ideólogo, pelo polícia, pelo plural mal simulado da televisão e do jornal, pelas fitas de série B e pelos futebolistas, pelos vídeo-jogos  tanto quanto pelas imagens da morte rotineira no mundo pobre  ou pelas suas homólogas do trivial fait-divers onanista do jet-set no mundo rico, mundo, este, felizmente, aquele a que pertencemos, bem seja pelos laços iridescentes do sangue legítimo, mal seja pelos elos deserdados da bastardia.
in A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra de Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira) (pg. 210 e ss.)

segunda-feira, julho 19, 2010

A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra de Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira)



A nova questão social: o mal-estar
Os efeitos que a mobilização global produz sobre os seus sujeitos — sobre os sujeitos que lhe estão sujeitados — são numerosos e novos. Basta ver a mudança no tipo de doenças ligadas ao trabalho. Na actualidade, as mais numerosas têm a ver com alguma forma de mal-estar psíquico. Não em vão, 70 por cento das baixas laborais de longa duração correspondem a transtornos mentais. A imposição do «ser precário» manifesta-se nas chamadas doenças do vazio: depressão, insónia, ansiedade… São as novas enfermidades próprias de uma sociedade na qual a norma já não se baseia na culpabilidade, mas na responsabilidade. Uma sociedade que enterrou a autonomia operária, substituindo-a pela autonomia do Eu, ou seja, pelos contínuos apelos a que sejamos autónomos e responsáveis. A este
sofrimento que poderíamos englobar sob o rótulo de «miséria da abundância», haverá que acrescentar, indefectivelmente, a própria «abundância da miséria» que sob as faces mais tradicionais (fome e morte) alastra pelas cidades gueto globais e pelas periferias das grandes cidades. A mesma mobilização global, que faz coexistir a miséria da abundância com a abundância da miséria, tritura as nossas vidas.Vida triturada quer, aqui, dizer que a mobilização global produz mal-estar e sofrimento autênticos. Não se trata de sermos expropriados da nossa vida (ainda que evidentemente não sejamos seus donos), mas sim do facto de a própria vida ser simplesmente aniquilada: reduzida a nada. Mediante a generalização da impotência e da indiferença, a nossa vida é separada do querer viver, o que implica para a vida, a sua própria perda enquanto fonte de valor. in A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit, Deriva Editores, 2010.


Encomendar aqui.

quarta-feira, junho 23, 2010

Mobilização Global e El Taxista Ful no Gato Vadio, dia 26




Debate sobre A Mobilização Global de Santiago Lopéz-Petit, no Gato Vadio, seguido da projecção de El Taxista Ful,  dia 26 de Junho, pelas 21:30.  Com o António Alves da Silva (Pimenta Negra) e com o Rui Pereira (responsável pela tradução e notas de A Mobilização Global )
 

quinta-feira, maio 20, 2010

Hoje, na Visão: uma entrevista com Santiago López-Petit a Miguel Carvalho


Hoje, neste número da revista Visão, Miguel Carvalho entrevista Santiago López-Petit em trânsito para o Porto a fim de participar nas Derivas de Maio e apresentar o seu livro, editado pela Deriva, A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos e Alguns Comentários Marginais de Rui Pereira, que também traduziu do castelhano.
Lembramos que SLP intervirá às 14:30 juntamente com Rui Pereira.
De manhã, pelas 10:30, intervirão Suzana Ralha e António Alves da Silva.
Rua da Alegria, 503, Porto. Esmae (Café-Concerto)

quarta-feira, maio 12, 2010

A MOBILIZAÇÃO GLOBAL, de SANTIAGO LOPÉZ-PETIT Tradução de RUI PEREIRA

Nota ao leitor
Esta nota não é um prólogo. O texto que aqui se apresenta, na medida em que propõe um conceito de realidade absoluta — a realidade tornada una com o capitalismo já não tem afora e pretende-se, para além disso, atemporal — não comporta um texto prévio. Ou, se o tivesse, ele não seria mais do que um simples comentário exterior. A nota é, bem mais, uma advertência. A escrita aqui adoptada permite enquadrar os mais diversos fenómenos num discurso unitário e total. Esse discurso é uma ficção, mas toda a ficção produz efeitos de realidade e, se ainda tivesse sentido falar em termos de cientificidade, a operação filosófica e política aqui empreendida reclamaria para si a cientificidade que lhe pode ser conferida pela coerência interna. Em virtude dessa necessidade interna, e uma vez conquistada, à partida, uma legitimidade a partir da qual falar, a realidade apresenta-se na sua processualidade. Queremos acreditar que aquilo que se ganha é suficiente para que a aposta valha a pena. Este texto tem a aspiração de explicar tudo. Decerto, sabemos que no mais essencial existe sempre uma pobreza e um esquematismo que lhe são inerentes. Por essa razão tem tanto de verdade o dizer-se que este texto é um croquis para que nos orientemos na realidade e contra ela. Trata-se de um croquis que outros podem ampliar ou concretizar, ou simplesmente, apagar para inventar outro. Vivamente desejamos que isso aconteça." SANTIAGO LOPÉZ-PETIT

segunda-feira, março 01, 2010

Derivas de Maio

Este ano, as Derivas são em Maio, que é um bonito mês. Na Esmae, para a Rua da Alegria. O tema: Com uma Faca nos Dentes, muito pela onda de António José Forte. Sinais dos tempos que correm. Presenças já confirmadas: Santiago López-Petit, Rui Pereira, Miguel Carvalho. Para além da política e da filosofia, vêm aí mais surpresas com a construção de pedagogias livres. No dia 22 de Maio.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Para compreender a luta dos bascos ou Dorregarai, a Casa-Torre, de Angel Rekalde

Num momento em que se fala tanto dos bascos e da ETA, por vezes de um modo fácil e sem a necessária distanciação histórica que obriga a uma análise cuidada e independente, será necessário reler Dorregarai, A Casa-Torre de Angel Rekalde que passou perto de vinte anos nas prisões espanholas ao lutar pela independência do País Basco. Luta essa que Portugal admite como um direito inalienável dos povos e inscrito na aparente vontade da UE que reconheceu, por exemplo, o Kosovo e solidarizou-se por Timor.
Angel Rekalde esteve em Portugal, aquando da edição portuguesa de Dorregarai, trazido pela mão de Rui Pereira um jornalista particularmente habilitado para falar do problema basco (ou espanhol?). Com ele, escreveu O Novo Jornalismo Fardado editado pela Campo das Letras, em Portugal. Conheci-o nessa ocasião e senti vivamente, nas conversas que mantive com ele e com o Rui, que a questão basca não pode ser tratada somente como uma questão policial ou com proibições sistemáticas aos partidos independentistas que os impede de ir às urnas. Como nunca se poderá resolver através da tortura, da violência, de raptos, de falsas promessas ou de ameaças. Ao ler este livro, que conta a saga de uma família basca, compreendemos que a esperança de atingir a independência é uma realidade que vem de há muito, provavelmente de tempos imemoriais e que a existência da língua basca demonstra.
Dorregarai na Wook aqui

segunda-feira, outubro 26, 2009

O Estado-Guerra, de Santiago López-Petit, seguido de Da Impossibilidade de Saber e da Necessidade de Fazer, de Rui Pereira

Capa ainda provisória de O Estado-Guerra de Santiago López-Petit, seguido de um comentário de Rui Pereira

Com tradução, abundantes notas e comentários de Rui Pereira, o primeiro livro de Santiago López-Petit em Portugal: O Estado-Guerra.
É um livro extremamente claro sobre a origem do nosso mal-estar social e das perspectivas de um novo niilismo saído do «acontecimento» 11 de Setembro. O autor, que virá a Portugal nas próximas Derivas de Fevereiro, apresenta as possibilidades de encontrarmos a superação necessária do capitalismo. Rui Pereira, na esteira desta obra, apresenta-nos alguns «comentários marginais» a propósito de O Estado-Guerra titulado Da Impossibilidade de Saber e da Necessidade de Fazer.
Algo me diz que esta parceria será muito profícua e para continuar. Ler os dois é um rasgo de não-esperança (explico: a esperança é amiga da morte, segundo López-Petit), de possibilidades infinitas conjugadas em novas subjectividades de luta.
Editaremos, mais tarde, alguns trechos em pré-publicação.

sexta-feira, junho 26, 2009

Saramago e o País Basco, por Rui Pereira

Alfonso Sastre visto pelo El Mundo

No dia 23/06/2009, José Saramago escreveu um artigo no DN titulado Sastre. Pode ser consultado aqui este mesmo artigo, publicado no blogue Caderno de Saramago. A resposta do jornalista Rui Pereira veio agora, convidado por nós a responder ao escritor. Autor de “O Novo Jornalismo Fardado” com Angel Rekalde e “Euskadi, a Guerra Desconhecida dos Bascos”, Rui Pereira não necessita de apresentações. Sem mais delongas, aqui vai o artigo:

Saramago e o País Basco, por Rui Pereira


terça-feira, maio 12, 2009

Noites da Sociologia - A Cultura do Novo Capitalismo. Labirinto, 13, 14 e 15 de Maio, Porto. Com a presença de Rui Pereira

Este ano as Noites de Sociologia aí estão com a presença de Rui Pereira e Suzana Ralha entre outros. Quando tivermos mais notícias, diremos. O Labirintho é na Rua Nossa Senhora de Fátima, 334 e as noites iniciar-se-ão pelas 21h30.


13/05/2009 – O Capital e os Capitais: sistema económico e sistemas sociais

«Tudo o que era sólido volatiliza-se», escrevia Marx há cento e sessenta anos, numa fórmula memorável a propósito do capitalismo. (…) Desde a época de Marx, a instabilidade parece ser o único factor constante do capitalismo. O sobressalto dos mercados, o bailado desenfreado dos investidores, o crescimento súbito, a queda e a deslocação de fábricas, a migração maciça de operários em busca de melhores postos de trabalho ou de um emprego são imagens da energia do capitalismo que impregnou o século XIX e que foram evocadas, no início do século seguinte, por outra fórmula célebre, desta vez, do sociólogo Joseph Schumpeter: a «destruição criadora». Actualmente, a economia moderna parece precisamente repleta dessa energia instável devido à propagação mundial da produção, dos mercados e da finança, e ao desenvolvimento de novas tecnologias.” (Sennett, 2007, p.21)



14/05/2009 – Encruzilhadas da Política e do Consumo no Novo Capitalismo

“ Apesar de real, o ressentimento parece-me ser uma maneira demasiado restringida para relacionar economia e política, porque a insegurança material não leva apenas a diabolizar os arautos da mudança desestabilizadora. Com efeito, a economia também cumpre uma função de magistério: temos de auscultar mais profundamente a experiência quotidiana das pessoas explorando as formas típicas como elas aprendem a consumir o que é novo – os bens e serviços – antes de nos perguntarmos se escolhem os políticos como escolhem a roupa que compram. Antes de considerar o cidadão como um eleitor irritado, gostaríamos de considerá-lo como um consumidor de política que enfrenta as pressões que o levam a comprar.” (Sennett, 2007, p.94)



15/05/2009: Transformação do «Eu» na vida quotidiana das sociedades contemporâneas

“Que valores e práticas podem manter unidas as pessoas quando se fragmentam as instituições em que vivem? (…) Só um determinado tipo de ser humano pode prosperar em condições sociais instáveis e fragmentárias. Esse homem – ou mulher – ideal tem de enfrentar três desafios.
O primeiro relaciona-se com o tempo, pois consiste na maneira de gerir as relações a curto prazo e de se autogerir, enquanto se muda de ocupação, emprego ou local de trabalho.(…) O segundo desafio relaciona-se com o talento: como explorar capacidades potenciais à medida que as exigências da realidade vão mudando. Na prática muitas competências têm a vida curta na economia moderna. (…) [o terceiro desafio] diz respeito à renúncia, isto é à forma de se desprender do passado. (…) Isso requer um traço de personalidade bem peculiar, que descarte as experiências vividas.” (Sennett, 2007, p.14-15).

domingo, outubro 26, 2008

Com Quatro Pedras na Mão: já no dia 2 de Novembro, uma sessão única com o Bando dos Gambozinos. No Cinema Batalha, 18h

É já no domingo, dia 2 de Novembro, pelas 18h, que o Livro CD, Com Quatro Pedras na Mão - o Porto cantado por Crianças e Jovens, terá a sua apresentação com uma sessão única no Cinema Batalha cantada pelo Bando dos Gambozinos.


As músicas foram compostas por Suzana Ralha sob poemas de Filipa Leal, João Pedro Mésseder, Joaquim Castro Caldas, Jorge Sousa Braga, José Mário Branco, Luís Nogueira, Luísa Ducla Soares, Matilde Rosa Araújo e Rui Pereira.


As ilustrações do livro são de Emílio Remelhe sob orientação gráfica de Gémeo Luís.


Atenção: As entradas serão aceites por convite. As pessoas que estiverem interessadas em assistir ao espectáculo dirigir-se-ão a este blogue, ou ao Bando dos Gambozinos, com indicação do nome e contacto (morada, telemóvel e/ou mail) a fim de serem remetidos, ou guardados, os bilhetes. Atenção que já existem só alguns.

quarta-feira, abril 25, 2007

Bando dos Gambozinos musica Romance do 25 de Abril

Já sei que vou gostar, porque até fui dos poucos privilegiados que assistiram ao ensaio-geral, o que me deixou uma impressão estranha na garganta. A Suzana Ralha e o seu Bando dos Gambozinos musicou O Romance do 25 de Abril de João Pedro Mésseder e ilustrado por Alex Gozblau. É hoje às 18:30 e 21:30, na Biblioteca Almeida Garrett, e vai estar muita gente. Arrisco a ir meia-hora antes e dar a conhecer a amigos (alguns mais pequenos) uma obra belíssima. Uma ópera livre.

sexta-feira, julho 21, 2006

Hoje, às 21:30, na Unicepe - sessão/debate sobre Falluja


Hoje na Unicepe (à Carlos Alberto, aqui no Porto), pelas 21:30, realizar-se-á uma sessão com José Mário Branco e Rui Pereira sobre o massacre de Falluja no Iraque. Aparece.

terça-feira, maio 30, 2006

Ministério das Finanças prepara a criação de uma organização terrorista em Portugal? Por Rui Pereira

As notícias chegadas do País Basco no último, digamos assim, mês e meio, são muito animadoras para o Ministério das Finanças português. Pelo conteúdo de declarações em comícios e actos públicos, o líder independentista pirenaico, Arnaldo Otegi, já foi detido várias vezes, levado a tribunal especial anti-terrorista outras tantas e, para poder voltar a casa, teve de pagar ao Estado espanhol fianças de quase 400 mil euros, uns 80 mil contitos para o erário público.

Trata-se, sob a alcunha de "fiança judicial", da fórmula espanhola para o chamado "imposto revolucionário" que a ETA tinha criado nos idos de 1960 e poucos. Em nome da lei que garante a liberdade de expressão, um indivíduo discursa e a polícia prende-o. Presente ao juiz de instrução do tribunal especial anti-terrorista, em Madrid, são-lhe fixados 250 mil euros de cada vez que lá cai por não ter dito o que a liberdade de expressão manda que todas as pessoas digam. E assim ad eternum...

Claro que isto são chinesices de bascos e espanhóis que, a julgar por alguns letrados cronistas lusos, andam há séculos entretidos a jogar ao gato e ao rato, com aquelas coisas das bombas e das torturas por não terem mais que fazer. Não são gente ocupada como eles, cronistas portugueses, cuja generalidade não tem sequer tempo para gerar uma ideia minimamente atendível. Não são gente como o nosso ministro das Finanças, aflito com a imaginação a acabar-se-lhe para inventar novas formas de extorsão no seu super-wrestling contra o défice, luta de titãs, quem esmagará quem no final?...

Porque, aqui para nós, a verdade é que também nós, nós portugueses em geral, não somos capazes de criar coisas como os bascos, que dão para extorquir dinheiro em nome da lei... tivemos o frágil epifenómeno das FP-25 (quem se lembra?), mas uma coisa assim boa, valente, tributável como uma ETA, vá lá, uma prima dela afastada que fosse, isso não, não temos... não nos está no jeito.

Pois teremos de inventá-la. E a proposta é que o ministro das Finanças passe a dar conferências de imprensa encapuçado, como há uns trinta anos faziam alguns dos mais hiper-demoráticos penas d'ouro da nossa imprensa mais fadista e popularucha. Que seja o Ministério das Finanças a formar a sua própria organização terrorista. Que os juízes trabalhem o Verão inteiro a decretar fianças e mais fianças que vão direitinhas parar ao combate ao défice. Se entre a algaraviada de espanhol que se ouve pela Páscoa e na canícula pelas calles portuguesas houver bascos - dentro também! E fiança! Não esquecer a fiança.

E assim, sim. Os nossos mais destemidos colunistas, fatigados de verberar guerras alheias, de insultar terroristas de outras geografias cujos nomes mal conseguem pronunciar, passam a ter carne fresca. Em vez de se arriscarem apenas a ficar roucos, com os concursos de gritaria que fazem a ver se as vozes lhes chegam ao céu, aplicarão toda a sua verrina contra produto doméstico. Do bom, não são esses filo-terroristas encapotados que às vezes a democracia deixa que ponham a cabeça de fora da trincheira, para logo lhes cair em cima toda a viril violência do analfabeto de turno.

Não, agora, arriscarão, já não a Mebocaína, mas os isqueiros Dupont, as canetas Mont-Blanc, algum Audizito estacionado lá à porta do jornal, o último modelo de portátil com acesso à net, via último modelo de telemóvel... finalmente, alguma emoção, na coisa. Vidas em risco. Pode-se pedir a algum guionista dos Morangos com Açúcar que lhes escreva o resto.

Claro, talvez seja necessário dar um ou outro retoque, na lei, como fizeram nuestros hermanos, que com a excepção da pena capital, têm hoje uma democrática moldura penal para o chamado "terrorismo" mais pesada agora do que a redigida sob os olhos de lince do próprio generalíssimo Franco. Mas eles que se esforcem, lá no Ministério das Finanças e no da Justiça e no do Interior e no da Economia (que não se sabe se existe ou se é a imagem virtual do ministro), mas não importa. Se não existe arranja-se um.

Claro que Rui Pereira (não este que aqui assina, mas o outro) efectivamente um académico de coturno e não um comentarista semi-analfabeto ligado à câmara de televisão como um paciente de AVC está ligado numa UCI à máquina de desfibrilhação, claro que o professor Rui Pereira que anda com as mãos nestas massas e não é propriamente um democrata da facção ex-maoísta, ex-trotskista, ex-leninista ou de outra facção ex-qualquerista qualquer, o mais certo é não estar pelos ajustes.

Ele sabe que entre a prédica de paróquia acerca do terrorismo e o avolumar das contas na caixa das esmolas dos nossos coristas mediáticos existem directas e voluptuosas relações de coisas tão imateriais como o "dar na televisão" ou tão mais sonantes como um cartãozinho de crédito quase ilimitado onde está escrito "dr. Fulano de tal", num tempo em que para se ser jornalista-cronista neste país pouco mais era preciso do que tirar a 4ª classe para adultos.

Talvez seja, então, melhor mudar de homem. Ou de ministro das Finanças, outra vez. Ou de povo. Ou, então, digo eu, de polvo. Porque este larga uma tal tinta que turva as águas à légua.

Rui Pereira,
jornalista

segunda-feira, maio 01, 2006

Rui Pereira explica como obrigou a EFE a pedir desculpa

O jornalista Rui Pereira obrigou a agência espanhola EFE a retractar-se, a pedir-lhe desculpa e a pagar-lhe uma indemnização pelas referências caluniosas que fez a propósito de um trabalho do jornalista português sobre a ETA. Esta vitória do carácter sobre a arrogância, da verdade sobre a mentira, do jornalismo sobre a propaganda, foi silenciada pelos media portugueses, com excepção do “Público”. Leia as respostas de Rui Pereira às perguntas do CJ On Line www.clubedejornalistas.pt e talvez consiga perceber as razões desta cortina de veludo.

Depois de teres levado a questão a tribunal, que justificações apresentou a EFE para as acusações que te fez publicamente?
Antes do mais, desejo agradecer ao Clube dos Jornalistas a oportunidade que me é dada para responder (de forma necessariamente alongada) a um conjunto de perguntas difíceis sobre este processo, que tem um lastro de vários anos e ultrapassa largamente o seu conteúdo puramente judicial. Para além do Clube, em Portugal apenas o jornal Público abordou o assunto, na sua edição de 28 de Abril de 2006, com as contingências inerentes a uma notícia e, em particular, a uma notícia sobre uma questão tão “incómoda”.
Por outras palavras, no momento em que respondo a esta entrevista, 30 de Abril, nenhum outro órgão de comunicação social do nosso país encontrou matéria de noticiosa no facto da agência oficial de notícias de um Estado, que reivindica atingir um público de 100 milhões de pessoas no que designa o “universo EFE”, ter tido de, humilhantemente, desmentir-se e apresentar desculpas públicas a um jornalista free-lancer português, isolado, que em tempo de tantos terrorismos, acusara de “simpatias terroristas”.
Estar absolutamente seguro de que não vivemos o tempo da “guerra ao terrorismo”, como milhões de pessoas no mundo, entre as quais me incluo, sabemos não estar, não significa que estejamos a viver tão somente o sinónimo que, com muita graça, o ex-Monty Python”, Terry Jones, encontrou para essa dita “guerra ao terrorismo”: - o “bombardeamento de um substantivo abstracto”.
Parece-me que, na sua devida proporção, o que nos demonstra este caso, subdividindo-o entre o jornalismo espanhol e o português, é que decerto voltam a fazer sentido as grandes palavras de Sophia, escritas num tempo bem menos outro do que parece o actual: “vivemos o tempo dos chacais” no caso do jornalismo hispano sobre a questão basca. E, no caso português, vivemos, mais triste e simplesmente, “o tempo em que os homens renunciam”.
Dito isto, a concreta resposta à pergunta não é possível sem atingirmos a centralidade do conteúdo da “notícia” da agência EFE que, a 15 de Outubro de 2003, dedicou três dos seus oitos parágrafos à entrevista que realizei com a ETA e que acabava de aparecer publicada no 24 Horas e os outros cinco parágrafos à figura do entrevistador! Tratava-se de um linchamento profissional e pessoal que se processava em espiral que transcrevo no original para que não se possa imaginar ter-se aqui alguém “perdido na tradução”:

1- [Fulano de tal] “periodista portugués de conocidas simpatías hacia los sectores radicales vascos”.
2 – “La entrevista, realizada por Pereira en septiembre pasado, en un lugar desconocido de Francia, al que asegura el autor que fue conducido en un vehículo cerrado”.
3- “Pereira, autor de dos libros en Portugal con una visión poco objetiva sobre el País Vasco,
4- está considerado en círculos periodísticos portugueses como claro simpatizante de la banda terrorista ETA, en muchas de cuyas páginas de internet es citado en tono laudatorio”.
5 – “Rui Pereira, que en tiempos trabajó en el semanario "Expresso" y salió de éste en circunstancias poco claras,
6 - ofreció su material medio por medio, aunque sólo fue aceptado por el sensacionalista "24 horas".

Isto é: com a credibilidade que, em teoria, possa merecer, a agência informativa oficial espanhola dá-se conta de que um determinado jornalista tem “conhecidas simpatias” com um dos sectores sobre os quais escreve: “os radicais bascos”.

É a partir desta “falta”, que o autor assegura “que foi conduzido num veículo fechado”, mas, em verdade, quem pode garanti-lo?, uma vez que, para além de tudo o mais, ele é autor de “dois livros pouco objectivos” sobre a questão basca. E, acima de tudo, é considerado (não por quaisquer procedimentos judiciais, não por quaisquer relatórios policiais, não por documento algum de qualquer inespecífica espécie), mas sim por não identificados “círculos jornalísticos portugueses” já não como adepto dos “radicais bascos” a granel, mas sim da “organização terrorista ETA”.

Atestam-no as “referências laudatórias” nas (inexistentes) páginas web da ETA, que não é propriamente um portal da net, como podemos dar por provado. As quais, páginas e referências, também não são na notícia, nem serão jamais em documento algum juntado ao processo pela defesa, exibidas.

O mau carácter, porém, do pseudo-jornalista (subjectivo, simpatizante radical e terrorista) é atestado por fim, pelas “circunstâncias pouco claras” em que saiu do prestigiado semanário “Expresso”, para acabar mendigando que lhe publiquem um material que só o “sensacionalista” 24 Horas aceitará.

Só entendendo esta espiral discursiva de “esquadrão da morte” dirigida contra um indivíduo que o autor da notícia não conhece nem nunca conheceu, se percebe como é que tudo isto é escrito por uma agência noticiosa sem fontes, sem ouvir o visado e, cereja sobre o bolo, com uma nota de crítica literária (“livros pouco objectivos”) enfiada pelo meio de um despacho noticioso.

Qualquer jornalista (não confundir, necessariamente, com portador de carteira profissional de jornalista) sabe tão bem o que isto é, quanto indefensável o é. E foi-o. Apresentarei, em seguida, as principais teses da defesa, acrescentando as réplicas que as inviabilizam.

Percorrendo os documentos do processo, que são agora (felizmente) públicos, ver-se-ia que a agência EFE, na sua primeira contestação, nega a identidade do redactor. Para, em seguida, sustentar que a notícia é escrita “de acordo com as regras jornalísticas espanholas”.

[Réplica: - Desmerece]

Que “simpatizante dos radicais” é “economia de palavras e objectividade das mesmas”. Tal “proximidade do Assistente [queixoso] aos sectores radicais bascos é sentida [sic] por vários jornalistas portugueses e espanhóis, e revelada também pela assiduidade das suas colaborações com o jornal Gara”, diário de linha editorial independentista.

[Réplica: - “Sentida”? Em que termos, físicos?, psíquicos?, para-normais?... quais jornalistas? A “assiduidade” das colaborações com o diário Gara, por seu lado, resumir-se-á a um único artigo escrito num âmbito em que vários jornalistas e intelectuais do mundo foram convidados pelo jornal a escrever sobre a realidade da tortura, no quadro, inclusivamente, de iniciativas da Amnistia Internacional contra a tortura. Uma das pessoas convidadas fui eu.. Nunca escrevi nenhum outro artigo para o Gara, supondo que isso poderia significar algo mais do que escrever um artigo para o Expresso, por exemplo].

Aliás, acrescentava a defesa, para desqualificar o jornalista, “podemos também encontrar livremente na Internet algumas petições ou textos de solidariedade com os sectores radicais bascos que são assinados pelo Assistente”, perguntando-se se “não representará isto um sinal de proximidade”?

[Réplica: a defesa “ajuntou”, de facto. Arregimentou um abaixo-assinado contra a “ilegalização das ideias”, a propósito da ilegalização da Batasuna. No ajuntamento havia outros simpatizantes etarras, assumindo a linguagem da “notícia”. Conforme os documentos 15 a 17 e 24, apresentados pela defesa, aí encontraremos então: Gerry Adams; Santiago Alba Rico, filósofo. Baptista-Bastos; Manuel Carvalho da Silva; Pete Cenarrusa, secretário de Estado do Idaho (Estados Unidos). Francesco Cossiga, ex-presidente de Itália e membro permanente do Partido Popular Europeu; António Miró, pintor. Adolfo Pérez Esquível, Prémio Nobel da Paz. Alec Reid, sacerdote, mediador no processo de paz da Irlanda. James Petras, professor da Universidade de Birmingham, etc., etc., etc.]

A EFE não se pronunciará, nunca, sobre a “economia de palavras e objectividade” da expressão”simpatizante da organização terrorista ETA”. A defesa preferirá saltar para a parte referente à saída “pouco clara” do Expresso, para pretender como “na verdade, não poderá deixar de causar alguma estranheza para um jornalista, que após a colaboração de vários anos do Assistente com o supra-mencionado semanário, seja a mesma interrompida de forma mais ou menos inesperada” [?]. Uma saída, acrescenta a defesa, sem especificar, que foi “alvo de especulações no meio jornalístico, em particular, na redacção do Expresso”.

[Réplica: O que há de estranho em trabalhar num sítio, deixar de trabalhar nesse sítio e ir trabalhar noutro sítio, como foi o caso, por proposta do próprio à Sojornal? Sem qualquer processo judicial, por puro, mero e sumário mútuo acordo? Sem qualquer negociação nem discrepância indemnizatória? Mais, essa “colabroração”, ao ser interrompida de “forma mais ou menos inesperada” (para quem?), tornou-se alvo de “especulações”. O que, como sabe qualquer jornalista, incluídos os da agência EFE constitui a base mais idónea para se fazerem notícias].

Mas aqui, a defesa tinha trunfo. E acrescentava, como “as razões da saída podem ser clarificadas pelo [à data] subdirector do semanário Expresso [hoje seu director], Henrique Monteiro, melhor identificado no rol de testemunhas”...E com isto terei de entrar na “conexão” portuguesa do assunto, porque, ouvida em sede de instrução contraditória, a mencionada testemunha clarificará da seguinte forma aquilo que a defesa deixara, na sua nebulosa, em suspensão: “o Rui Pereira pediu a demissão depois de confrontado pela Directora do pessoal com o facto de estando de baixa desenvolver trabalho jornalístico para a elaboração de um livro que ele próprio viria a publicar. No entender do depoente a saída de Rui Pereira deveu-se igualmente a uma sucessão de comportamentos pessoais e editoriais considerados reprováveis” E mais não disse, ratifica e assina.

[Réplica: Percebe-se, assim, a ausência de qualquer processo disciplinar, de qualquer atitude do jornal relativamente ao seu jornalista, cujo livro seguinte que publicaria seria uma obra colectiva preparada com vários autores em 15 dias com a editora Campo das Letras, que o testemunha evidentemente, mais de meio ano depois de ter saído do Expresso. Quanto à clarificação da exposição da testemunha sobre as razões da saída, a própria defesa da EFE terá ficado tão esclarecida quanto o leitor: “uma sucessão de comportamentos pessoais e editoriais considerados reprováveis” [de que não fica para amostra um só exemplo]. E mais não disse, ratifica e assina”. Por minha parte, como não se chegou a audiência, ficar-me-ei, publicamente, por aqui, com um “sem comentários”, a que acrescentarei estar longe de mim tecer considerações sobre o que possa passar-se na consciência de terceiros.]

Depois de me ter alongado tanto nesta resposta, posso apenas dizer que ela é, apesar de tudo, um resumo ínfimo, do constante do processo, que terei todo o gosto em publicitar a quem revelar interesse e o sentir como algo de útil.

Na questão do País Basco, como interpretas o facto de a agência EFE tentar desvalorizar o teu trabalho com a acusação de parcialidade, quando a cobertura noticiosa dos grandes meios de Espanha é, mais do que parcial, preconceituosa e perfeitamente alinhada com uma das posições?

É um truque velho como a mentira o de acusar o outro das nossas próprias faltas. O problema da cobertura espanhola do conflito basco antecipa, em muito, o que viria a seguir-se um pouco por todo o chamado Ocidente, após o 11 de Setembro de 2001. Antecipa-o porque já em 1983, altura do primeiro governo socialista de González, se aprovou um plano político-militar chamado Plano Zona Especial Norte (ZEN), que além de advogar as acções dos esquadrões da morte como os GAL, por exemplo, apontava à imprensa, entre outras grandes linhas propagandísticas, três curiosos tópicos: «Dar informações que personalizem os terroristas. (...) [Promover] acções nos meios de comunicação social mediante a difusão de notícias falsas, emprego de uma semântica que não favoreça o grupo terrorista etc...». E o texto concluía: «Basta que a informação seja credível para que se possa explorá-la».

O Plano ZEN seria aprovado pelo parlamento de Madrid, reunindo um consenso de adesões a que poucos jornalistas conseguiraim, posteriormente, furtar-se sem correrem sérios riscos de “dessocialização profissional”. Outros perceberam como era bem mais doce docilizarem-se e aplicá-lo.

Três exemplos desta aplicação a dirigentes da ETA, por respeitáveis órgãos de informação espanhóis, ao longo dos anos seguintes: Artapalo é alucinadamente descrito deste modo: «A sua maior afeição é matar gatos. Pega no felino entre os braços, acaricia-o, faz-lhe caretas e, logo, estrangula-o». (Tiempo, 15.4.91). Sobre Pakito, fica a saber-se através do mesmo número da revista que ele é «duro, implacável e temível». Txomin, por seu lado, além de ter «mais de 150 assassinatos na consciência», ostentava um perfil correspondente, de acordo com a Cambio16 de 12.5.86: «dorme todas as noites numa casa diferente e a cada manhã muda de carro. Desloca-se sempre na companhia de guarda-costas e cães pastores alemães». Por esta altura, acrescentava a revista, a sua vida afectiva também melhorara, depois de uma longa fase em que «não tinha os êxitos com as mulheres de que agora parece desfrutar, devido ao seu cargo como chefe máximo da ETA militar».

No ano seguinte, em 1987, o PSOE exigirá a colaboração da imprensa -como o fará Bush, após o 11 de Setembro de 2001- ditando que esta cooperação “baseia-se numa exigência concreta: a da homogeneidade no tratamento informativo” da “questão basca. Dez anos mais tarde, aquando da morte pela ETA do vereador do PP, Miguel Ángel Blanco, que tanto afectou senão a sensibilidade pelo menos a racionalidade de muito escriba luso, publicitará o Grupo Zeta e Antena 3 Televisión –um dos maiores do Estado espanhol- num texto intitulado “No somos neutrales”, o seguinte, à guisa de conclusão: “anunciamos que faremos o possível para os que colaboram com os violentos, activamente ou mediante um incompreensível silêncio, não encontrem um só resquício pelo qual transmitir as suas obscuras consignas nos nossos meios de comunicação”.

- Que resposta tens para a tese de alguns de que a simpatia por uma causa é incompatível com a «independência» do jornalismo?

Citemos do Livro de Estilos de um diário português de referência, o Público, o artigo 5º do seu articulado sobre Princípios e Normas de condua profissional, onde se lê: “A imparcialidade não é sinónimo de neutralidade quando estão em causa valores fundamentais da vida em sociedade. O PÚBLICO e os seus jornalistas não se sentem obrigados a ser "imparciais" nos conflitos entre liberdade e escravidão, compaixão e crueldade, tolerância e intolerância, os direitos humanos e a pena de morte, democracia e ditadura, livre informação e censura, a paz e a guerra”.

Consideremos, ainda, como “causas” os seguintes princípios do Código Deontológico dos jornalistas portugueses: “O jornalista deve salvaguardar a presunção da inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, directa ou indirectamente, as vítimas de crimes sexuais e os delinquentes menores de idade, assim como deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor. O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidade ou sexo. O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos... O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas”.

Que sentido faz considerar das causas dos Princípios e Normas do “Público” ou destas eventuais causas constantes da ética profissional portuguesa –de que a espanhola não difere, excepto quando é infringida, esclareça-se, a propósito do assunto que directamente aqui nos traz-, que sentido faz, questionava, dizer que mais do que a observância destas regras, a adopção destas “causas” é incompatível com o jornalismo?

Noutro âmbito, existe uma consolidada tradição no desenvolvimento dos princípios da profissão, segundo as quais o jornalismo deve pugnar pela defesa dos direitos da pessoa humana, pela pluralidade e pela democracia política, económica, social, cultural, pela paz, etc. Muito claramente, deixei identificado desde o meu primeiro livro sobre o assunto que sou favorável, na linha da Carta das Nações Unidas e da própria Constituição da República Portuguesa (artigo 1º e artº 7º nº3, respectivamente) ao direito dos povos à autodeterminação, bem como, ao “direito à insurreição contra todas as formas de opressão”. Sublinho “todas” e sublinho “Constituição” portuguesa.

Ainda assim, no meu caso, ninguém, absolutamente ninguém, pode apontar-me um só exemplo de apologia ou regozijo por qualquer atentado ou acção armada seja da ETA, seja de quem for. Ao contrário dos festejos para-bélicos de tantos portadores de carteira profissional de jornalista que pela Ibéria e pelo mundo não escondem o entusiasmo com que assistem aos mais impiedosos bombardeamentos de povos e países inteiros. Que silenciam abominavelmente as práticas de tortura em Estados formalmente democráticos, como é o caso do espanhol, que o anterior relator da ONU para a tortura, senhor Théo van Boven, comparou à “Indonésia ou ao Uzbequistão”, no seu relatório de 2002.

O meu último trabalho sobre a questão basca constou de entrevistas a duas dezenas de personalidades. Apenas o Partido Popular, então no poder, se recusou a falar. Aí entrevisto desde a ETA à juíza da Audiência Nacional (o chamado tribunal anti-terrorista) e ex-secretária de Estado do Interior, Margarita Robles. Do jovem basco documentadamente torturado pela Guarda Civil, Unai Romano Igartua, à filha do ex-dirigente socialista Ernest Lluch, vitimado por um atentado da ETA. Do presidente da administração governativa basca, Juan José Ibarretxe, ao ex-embaixador espanhol em Portugal, Raul Morodo. Do sacerdote irlandês Alec Reid, ao presidente do clube dos empresários bascos, José Maria Vaizcaíno. De Arnaldo Otegi, da Batasuna, ao juiz espanhol Joaquin Navarro, passando pelo líder histórico dos democratas-cristãos bascos, Xavier Arzalluz. Foi este material que me valeu a censura em Portugal e a tentativa de linchamento de algum jornalismo espanhol com a cumplicidade de alguns portadores nacionais de carteira profissional de jornalista.

Apesar do excelente trabalho que alguns companheiros portugueses de profissão têm desenvolvido sobre o País Basco -vários dos quais vão coleccionando já também algumas “histórias para contar aos netos”-, pela elementar razão de que há longos anos me dedico quotidianamente, mais do que à cobertura, ao estudo do tema, é natural que eu disponha de um leque tão amplo, profundo e plural de contactos e entrevistas com nomes desta magnitude e latitude na cena política hispano-basca. O que, pelo menos noutros tempos, era sinónimo de profissionalismo, pluralidade, seriedade e honestidade, que são os factores constitutivos daquilo que se adjectiva por jornalismo “independente”. Sem, contudo, moralizar excessivamente a questão, Paul Ricouer, se acentuava como a subjectividade não poderia ser abolida do ofício de historiador, não deixava, porém, de sublinhar como existiam técnicas que ajudavam a controlá-la e a limitá-la. No jornalismo também. O pior é quando falta a vontade de as aplicar. Aí o problema passa a ser, em jornalismo como em tudo o resto, uma questão não de técnica, mas de honestidade intelectual.

Poderemos dizer que a questão da «independência» jornalística não é levantada quando o jornalista se situa no campo dos simpatizantes politicamente correctos? Ou seja, quando os seus pontos de vista coincidem com a opinião dominante?

Era Arthur Schopenhauer quem escrevia na sua “Dialéctica Erística” que os seguidores cegos de maiorias, que ninguém sabe como se formaram, “são como ovelhas que seguem o carneiro aonde quer que ele vá: é-lhes mais fácil morrer do que pensar”. Schopenhauer achava curioso que “a universalidade de uma opinião” tivesse nelas “tanto peso”. No chamado jornalismo de hoje, estamos em condições de perceber melhor o que tanto intrigava o filósofo. É que, para muitos, é-lhes mais fácil não morrer, mas sim viver sem pensar. Por vezes, é-lhes insuportavelmente difícil conciliar, pela forma de vida que escolheram, o viver e o pensar. É daí que vem o ódio ao pensamento que vai grassando nas redacções. Devemos, aliás, recorrer novamente a um historiador, para percebermos como funciona a mecânica do chamado “politicamente correcto”, expressão à qual prefiro a mais directa: “censoriamente perfeito”.

O problema da objectividade –que por si só nos levaria a longos e interessantes matizes teóricos que não vêm directamente ao caso- ilustra-o, nos termos em que o coloca o historiador crítico norte-americano Michael Parenti: “muitos historiadores que se presumem de imparcialidade, não se dão conta de que estão instalados na respeitabilidade ideológica, sem aceitar nenhum ponto de vista que contrarie a corrente hegemónica. Este sincronismo entre as suas crenças individuais e o credo dominante costuma designar-se ‘objectividade’”. Os “dissidentes –prossegue Parenti noutro trecho- estão privados daquilo a que Alvin Gouldner chamou “as presunções de fundo”, o implícito, o não-analisado, as ideias vulgarmente generalizadas que convidam a acreditar que o já aceite é o realmente verdadeiro. É a esta familiaridade estabelecida e a esta unanimidade de enviesamentos que frequentemente se chama “objectividade”. Por esta razão os “dissidentes” têm de estar constantemente argumentando com a apresentação da prova” do que afirmam. Em contraste, [...] a ortodoxia promove os seus pontos de vista através do monopólio dos meios de comunicação e dos sistemas educativos. [...] Esta é a forma mais insidiosa de ideologia, já que considera que o ponto de vista dominante é o único objectivo, o único plausível e credível”.

Substitua-se nestes fragmentos de History of Mistery, de Parenti “historiadores” por “jornalistas” e teremos a pergunta respondida. Mas, indo um pouco mais longe, imaginemos que, por uma qualquer aberração inexplicável pela ciência contemporânea, alguém aparecia no debate público a defender não apenas que a História é, em larguíssima medida, a História da violência, mas que a violência em muitos casos era não só o único, como o mais adequado dos recursos políticos. Imaginemos que, algum dia, alguém tivesse, já não digo, enaltecido qualquer atentado etarra. Mas que tivesse escrito sobre a ETA e a questão basca coisas como estas:

“A guerra insisto, não é um jogo de vídeo: tem sangue, sangue verdadeiro. Mas quando a guerra é a única solução para evitar males maiores, apenas temos de saudar os que arriscam as suas vidas por todos nós e pela nossa forma de vida. Os que lutam para que as sociedades livres e abertas que conhecemos se estendam”. Ou ainda, “Este é um caminho cheio de boas intenções e que visa adversários abomináveis, [...] Daí os sinais de esperança, pois comporta o combate às tiranias [...] Mas é também um caminho muito arriscado que exige uma determinação no limite do messianismo. [...] Este é o idealismo que alimenta a convicção que levou este conjunto de líderes democráticos a decidirem a guerra. Acreditam que o mundo ficará melhor depois. Neste momento só podemos desejar que tenham sucesso e um sucesso rápido”.

Que diriam, perante isto, a agência EFE, os sub, os vice, os ex-, ou os futuros directores dos jornais portugueses, a não ser que se estava perante a mais descaradamente alinhada apologia do terrorismo e da guerra? E, contudo, tudo isto pudemos lê-lo acerca da carnificina cometida contra o Iraque, pelo exército norte-americano, entre outros, no jornal cujo livro de estilos acima citado desobrigava os seus jornalistas da “imparcialidade” em questões como, entre outras, “a paz e a guerra”.

A propósito deste, à escala, modesto “incidente”, cujos desenvolvimentos me parece não terminarão por aqui, e se comecei com Sophia, não queria deixar de terminar com as palavras da dedicatória dos seus “Contos Exemplares” ao “Francisco [Sousa Tavares, seu marido] que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual”. É um grande ensinamento. E uma longa aprendizagem.

---- xxx ---

TEXTO INTEGRAL DO PEDIDO DE DESCULPAS DA EFE:

“Rui Pereira, Juan Frisuelos e Agência EFE, SA respectivamente assistente, arguido e demandada cível nos autos acima identificados, vem informar estar acordados em pôr termo aos mesmos pela forma seguinte:
1 – O arguido Juan Santiago Frisuelos declara reconhecer que não existe qualquer fundamento para imputar ao assistente Rui Pereira ter «conhecidas simpatias pelos sectores radicais bascos», ou de «em meios jornalísticos portugueses», ou em quaisquer outros ser conhecido por quaisquer «claras simpatias pela organização terrorista ETA», sendo infundadas estas afirmações na notícia divulgada;
2 - Não teve a intenção de, com a divulgação daquela notícia, pôr em causa os valores pessoais ou profissionais do assistente Rui Pereira, nem com a referida notícia lançar qualquer suspeição sobre o tratamento que, na sua obra jornalística e ensaística, faz do conflito basco.
3 - Consequentemente é infundado tudo quanto em sentido contrário se possa depreender do teor daquela notícia.
4 - Perante as explicações e desculpas apresentadas pelo arguido o assistente desiste da queixa que apresentou
.”

sábado, abril 29, 2006

Rui Pereira indemnizado pela EFE

No dia em que Otegi foi condenado pelos tribunais espanhóis a 15 meses de prisão com o objectivo, cremos nós, de inviabilizar o processo de paz no País Basco e que dá os primeiros passos firmes para uma solução negociada, sabe-se que a EFE espanhola indemnizou o jornalista Rui Pereira (autor de Euskadi, a Guerra Desconhecida dos Bascos e prefaciador do Gente que Dói, do Vítor Pinto Basto e editado pela Deriva, em 2005) por declarações abusivas sobre este jornalista que classificou, de uma maneira muito pouco ética, de «claro simpatizante do grupo terrorista ETA» entre outras pérolas (ver Público de 28/4). Lembre-se que tudo isto vem ao caso porque Rui Pereira entrevistou dois membros da organização independentista basca tentando saber a posição do lado que não é espanhol. Ora, como ficou demonstrado por este processo, é muito fácil enquadrar todo aquele que não se submete ao que o poder instituído quer que se diga - assim, quem não é pelo poder é terrorista. Rui Pereira defendeu-se e teve acesso aos tribunais. Ganhou. Pense-se, igualmente, em todos aqueles que, num estado tendencialmente policial não têm sequer hipótese de se defender e recorrer ao contraditório ou a uma justiça que, embora ténue, lá vai funcionando, nem que seja pela constatação do óbvio. Como, aliás, foi o caso.