Cavalo de Ferro, 2026 [1ªed.1934].
Editado pela primeira vez em 1934, pela editora «O Século», «Terra Fria» não será um dos melhores romances de Ferreira de Castro, afirmação minha que vale o que vale, mas que no seu posfácio o autor, comemorando 50 anos de vida literária, em 1966, admite isso mesmo quando atribuiu à idade de adolescente de 14 anos este «ingénuo» e «desvalioso romance». No entanto, estes adjectivos para classificar um romance de Ferreira de Castro, mesmo que autoavaliado, estarão bem longe de uma má crítica ou de uma tentativa de apartar esta obra da obra completa do autor. É sempre avisado relativizar o menos bom quando se trata deste autor.
Um dos maiores interesses de «Terra Fria» é que este se passa nas Terras de Barroso, num território de fronteira, um ano após o plebiscito à Constituição de 1933 e antes da Guerra Civil de Espanha que militarizou as terras raianas. Aliás, deve dizer-se que no romance não existe a linha de fronteira; ela é uma continuação do Couto Misto, entre Chaves e Montalegre e terras galegas, em que a população flui livremente sem quaisquer motivos de separação política ou administrativa exigidas pelo controlo do Estado e pelas classes dominantes. Também não seria por limitações linguísticas ou sociais a impedirem essa permuta. Em «Terra Fria» encontra-se material de estudo antropológico, assim como sociológico, económico e político. O espírito comunitário ou comunalista, com leis rígidas autogeridas, fortemente rural, é-nos apresentado, para nós, leitores contemporâneos e urbanizados, como se fosse uma realidade tão longínqua como inverosímil; não obstante, esse comunalismo existiu durante milénios até o Estado o tentar destruir e o turismo acabar definitivamente com ele. Paradoxalmente, se hoje ouvimos falar ainda do Barroso e das suas gentes é pela luta teimosa que empreenderam contra a extracção do lítio que quer esventrar uma terra que ainda vive em sossego com o seu gado e os seus cultivos, obrigando-nos a uma solidariedade genuína. Exploração protagonizada pelos «americanos», agora bem identificados pela empresa multinacional Savanah, tal como no romance o «americano», dono e senhor de Padornelos, era o representante maior do Estado Novo, saído recentemente da Ditadura Militar, e que a Censura nunca poderia permitir tal referência no romance.
Censura essa que Ferreira de Castro teve que lutar, quando recusou que o Fundo do Cinema, estrutura fascista da propaganda do regime, levasse a cabo um filme realizado por António Lopes Ribeiro que o corromperia totalmente. Assim como, igualmente, recusou uma adaptação francesa num filme que ele apontou «falta de autenticidade». Está tudo explicado no posfácio do livro, escrito em 1966. Tal como as ilustrações propostas por Pavia e por Bernardo Marques que não foi possível usar nas primeiras edições de «Terra Fria», como nos conta. Só em 1992, finda, há tempos, a ditadura, é que António Campos realizou o filme homónimo que hoje podemos ver.
«Maio aberto, enquanto, nas cidades, gente de fábricas comemorava o trabalho, em Barroso a tradição ordenava que se esconjurasse, finalmente, o Inverno, mandando para a serra as primeiras ''vezeiras'' de cabras, vacas e ovelhas. Era formado cada rebanho com bichos da mesma espécie, mas pertencentes a vários donos, que procediam, desde épocas patriarcais, em bom colectivismo, revezando-se na pastoreação. Costume mui antigo, quem, por isto ou por aquilo, não podia pôr pé em terras pascigosas, exercendo a vez que lhe competia, dava homem em seu lugar, pagando-lhe, para que os sacrifícios entre todos se dividissem. E ninguém podia esquivar-se ao esforço mútuo em prol da riqueza colectiva. Desculpas que não fossem por morte ou doença não serviam; eram consideradas lesivas dos interesses comuns e havia até posturas camarárias que estabeleciam multas para os que não tivessem vergonha de assim proceder.» (pág.63)
O que é impossível de esquecer na leitura de «Terra Fria» é que este sentido colectivo, comunal, quase se sobrepõe à tragédia em prosa que Ferreira de Castro nos oferece, mesmo que essa história terrível esteja intimamente ligada às dificuldades geradas pela miséria e pela luta para lhe pôr fim, por parte das gentes do Barroso; em toda a narrativa existe uma luta surda com as autoridades locais dominantes, seja na pele do sacerdote, do regedor, do homem abastado, seja contra a guarda fiscal e republicana que vigiam e marcam as fronteiras contra o contrabando, sempre presente como alternativa possível para a sobrevivência.
«Na tarde morna, declinando entre as bravias montanhas, ali, na terra ignorada do mundo, na terra sem história, que principiava na Galiza e vinha terminar, alheia a fronteiras e idiomas, dentro de Portugal, a vida do povo obscuro tinha as mesmas expressões fundamentais, o mesmo instinto de perpetuidade, a mesma ânsia de alegria e o mesmo céu comum a toda a espécie, como se os lugarejos que os lobos, de noite, espreitavam, se encontrassem situados no centro do planeta.» (pág.201)
