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quinta-feira, janeiro 29, 2026

Nota de Rodapé 29/01/2026

O mundo a desabar entre o autoritarismo e a violência das guerras e da repressão e nós aqui entalados entre um odioso e ridículo Ventura e um autodenominado moderado e humanista pela mão de Seguro. Mesmo que a escolha entre um e outro seja clara na defesa do que ainda há de liberdade nas sociedades actuais, não deixa de ser singular a falta de debates em temas verdadeiramente importantes e que terão a ver com a nossa vida, como a recusa da guerra e do militarismo, a possibilidade cada vez mais necessária de decrescimento económico, a crise climática e o papel do capitalismo verde (a IL, de mansinho, veio colocar a agenda na substituição das energias renováveis pelo extractivismo, pelo carvão e pelo petróleo), a profunda crise do capitalismo liberal que pretende destruir o estado social e a pobre discussão em torno da Constituição já completamente empobrecida com sucessivas revisões. Mesmo o abandono do interior e a destruição de equipamentos sociais e comunitários no interior do país (na Europa é igual) e de que se gosta de proclamar soluções em períodos eleitorais, este discurso é inexistente. Por muito que custe a alguns sectores da sociedade (não tão pequenos como isso) o anticapitalismo é ultrapassado a grande velocidade pelo antifascismo, e aí se vê a importância política do Chega e dos espécimes que o compõem e que ainda não compreenderam o seu triste papel: construir uma união forçada em torno da ideia democrática pela anulação dos seus opostos.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Nota de rodapé 20/01/2026

É quase uma pequena nota no Público de hoje: "a revista científica Lancet [estima] que 14 milhões de mortes possam ocorrer até 2030 com o fim dos programas alimentares e de saúde da USAID". Não posso deixar de ligar isto a um facto descrito em "Terra Queimada", de Jonathan Crary, que citando o "Lugano Report", de 1999, dá conta das perspectivas neoliberais desenhadas pelos autocratas e conselheiros trumpistas que defendem a redução drástica da população mundial afirmando, sem qualquer pudor, que "não podemos defender o sistema liberal de mercado livre e, ao mesmo tempo, continuar a tolerar a presença de milhões e milhões de pessoas supérfluas e improdutivas".

alc

domingo, agosto 25, 2024

«Ruínas, ruínas e ruínas. Como vos amamos tanto!»

 

Ruínas do Hotel Universal nas termas das Pedras Salgadas
Ruínas do Sanatório do Caramulo
Tenho por mim a dar-me melhor com o campo. Substituí as praias já há tempos e a última vez que estive numa, ou seja, este mês durante quatro dias, apanhei um escaldão nos pés, palmas incluídas o que para além de incapacitante é de uma grande estupidez que assumo publicamente. A humanidade trata mal o planeta, recebe a resposta certeira nas plantas dos pés. Há quem se esqueça de pôr protector solar nas orelhas, mas quem o espalharia na sola dos pés? 

Há três anos escrevi que gosto da decadência dos hotéis que já foram ricos e cheios de charme. Hoje o capital que, em Portugal, não chega a nada acumular, não tem tempo, paciência ou dinheiro para os reconstruir. Deixa-os fenecer e, ao lado, sem pudor ou respeito algum, trata de construir novos hotéis que de charme só têm o nome. Como não há licença para destruir as suas ruínas, às dezenas, na chamada Rota das Termas (falo do que vi: Pedras Salgadas, Vidago, Carvalhelhos e Chaves), constroem edifícios horríveis, modernaços e baratos, à Siza ou à Souto Moura, junto a rotundas onde se erigiu uma enorme torneira em mármore jorrando água - uma homenagem às termas, pois claro! Mas o Caramulo, a que vou todos os anos, não fica atrás em miséria e desleixo. Procuro-o por motivos óbvios a que já aludi desde que me divorciei das praias: a procura incessante e obscura da minha alma na decadência dos povos peninsulares retratados nos seus antigos hotéis ainda de pé e, concomitantemente, tratar do meu aparelho digestivo. São razões de peso. Por outro lado, ainda posso ler qualquer coisa ou ouvir a minha música nos phones, sem ser ensurdecido por música aos berros pelas colunas de praia. A comida nos restaurantes das vilas termais tem qualquer coisa de contraditório: após a ida a banhos refastelados em águas límpidas com jactos retemperadores, aos copos de água mineral emborcados com ou sem gás, a ida à sauna onde, cautelosamente, não se pode permanecer mais dos que 20 minutos (eu adormeci numa e sem relógio!), temos de almoçar perante um menu invariavelmente pantagruélico: posta mirandesa de 300 gramas, bacalhau com broa acompanhado com batatas em azeite quente, vitela assada cuja dose dá para uma família inteira, polvo à lagareiro e isto só para falar nos pratos mais levezinhos, não é? E escuso de falar do vinho servido. Quando dizemos, humildes e cautos, que só queremos um copinho, o empregado (geralmente um miúdo da escola profissional de turismo da região) olha para nós com um desdém que até mete impressão. Obriga-nos, quase (quase!) sem querer, ao estribilho comum neste sítios de perdição: «Pronto, deixa a garrafa!». 

Voltemos às ruínas: se disse atrás que hotéis abandonados eram às dezenas em termas, alguns com traças arquitectónicas que um país a sério nunca deixaria de as recuperar vemos, agora às centenas, pensões e residenciais igualmente abandonadas e sem nenhuma intervenção pública ou privada. É impressionante. Algumas situam-se nos centros das vilas e, para além da hilariante arte rotundal dos municípios, encontramos «soluções» que são pior que o deus me livre: tentando imitar o Vhils pintam nas fachadas dos edifícios em ruínas, e sob fundo pintado de branco, a cara do Saramago, da Amália, do Camilo ou do Eça que, ainda por cima, o vão colocar no Panteão, por viva força de um sobrinho-bisneto-autor e que é uma verdadeira bosta como escritor. Um optimista diria que estas ruínas assim «intervencionadas» sempre são solução melhor com aquelas personagens do que, imaginemos, um Valter Hugo Mãe ou um Pedro Chagas Freitas. Um pessimista, conhecedor do país que temos, contraporá: «Deem-lhes tempo!».

E o tempo trata melhor as suas ruínas que os homens e mulheres deste país. Há sempre uma grande altivez num hotel abandonado ou em decadência de ano para ano. Pessoalmente, dou-me bem com esta.

alc 

quarta-feira, outubro 25, 2023

Artes Breves: Traço Viagem Insular Memória


AB: Traço Viagem Insular Memória: o quinto título do p...:   Algumas palavras (iniciais), escritas no fim de um processo de produção Desde o seu início,  o projecto de livro Traço Viagem Insular ...

sábado, outubro 21, 2023

As acções dos activistas climáticos são necessárias e urgentes

 

Lisboa, Maio de 2019, 2ª greve climática estudantil
Não subestimem as acções climáticas que se propagam cada vez mais na Europa e particularmente em Portugal. Quase sempre muito jovens, estudantes, portadores de uma cultura própria, são determinados a levar até ao fim os objectivos a que se propõem, mesmo com consequências legais graves para a sua vida futura. Levem-nos a sério, porque nada têm a perder. Olham para o lado e para cima, neste último caso para as instituições que nos governam e é com um grande cansaço e revolta que ouvem as suas palavras vazias. Se reparam em nós é para nos acusarem de inércia e desprezo pelo planeta e pelo ambiente. No fundo deixámos-lhes «isto». E não é agradável o que deixámos, mesmo que desde os anos 80, no início dos movimentos ecologistas, tenhamos avisado o que eles agora denunciam. Nessa altura também ouvimos o que eles ouvem agora, mas numa dimensão nunca vista hoje. Não os subestimem.

A repressão sobre eles é completamente desproporcionada por parte das forças policiais e da população. Vimo-los a serem barrados no direito de expressão pública, a serem presos e identificados, a serem denunciados por directores e reitores de instituições, a serem enxovalhados, agredidos e arrastados pelos cabelos na via pública quer por polícia, quer por público motorizado. 

Pior são os comentadores políticos. No dia 11 de Outubro, no Público, um juiz que é presidente de uma Associação Sindical dos Juízes Portugueses dá-se ao luxo de editar um artigo de «opinião» que não é mais do que um guia para a acusação destes jovens activistas.  O juiz-presidente-sindicalista afirma, sem qualquer problema de consciência sobre o que é a realidade, que as ações dos jovens que lutam por uma política ambiental que nos salve de um apocalipse anunciado, apresentam semelhanças com «atentados das organizações terroristas»; em ambos os casos, ou seja, das acções dos militantes ambientalistas e das organizações terroristas (ele não concretiza quais) tratam-se «de grupos organizados de pessoas unidas por uma ideologia comum, que planeiam e executam acções subversivas ilegais...», embora, mais à frente, declare que não é comparável uma «miúda partir a montra de um edifício» com um «bombista suicida»! Arrepende-se logo: «Mas o princípio é exactamente o mesmo...». Depois arrepende-se novamente e diz que os movimentos por um planeta melhor devem ser acarinhados e mete-se onde não deve que é a defesa de um mundo possível, ambientalmente são, mas «com aviões, automóveis e fábricas», coisas que os jovens querem erradicar da face da terra! Terra essa já em convulsão, mas o juiz-presidente-sindicalista quer a chuva no nabal e o sol na eira. Deixem a solução para a Ciência, diz ele.

O sr. juiz avança, lesto, após algumas considerações sobre esta coisa de pintar ministros de verde, a lista de crimes a que os jovens estão sujeitos não vá a polícia esquecer-se de os nomear nos relatórios. Cito: «Pintar montras e pintar fachadas é crime de dano. Interromper a circulação em estradas é crime de atentado à segurança de transporte rodoviário. Atirar tinta para cima de um ministro (sic) em exercício de funções é crime de ofensa à integridade física qualificada. Fundar, dirigir, ou pertencer a grupos ou organizações que se dediquem à criminalidade (sic) é crime de associação criminosa. Estes crimes são puníveis com penas de prisão elevadas (sic) e quem os pratica arrisca-se a consequências sérias.» Não subestimem igualmente o poder repressor dos tribunais, da polícia e dos comentadores como este juiz. Não se deixem levar pelas piadas jocosas dos ministros pintados de verde. Ninguém sabe das ordens dadas ao MAI por eles no segredo dos deuses. Mas essencialmente não deixem de levar a sério o activismo militante dos jovens ambientalistas pelo clima. Eles têm razão. E esperemos todos que levem a bom termo a denúncia das empresas com mãos sujas e de políticos que empurram os problemas para as calendas. Mesmo pintados de verde.

sexta-feira, outubro 20, 2023

«amarga ironia esta de um povo que está neste continente apenas há 235 anos recusar-se a reconhecer aqueles que vivem nesta terra há mais de 60 mil anos»

 

Mais uma derrota do povo aborígene australiano hoje reduzido a 3,8% da população com perto de um milhão de pessoas, muitas delas vivendo em condições de pobreza de que não conseguem sair devido às políticas de discriminação social e de racismo oficiais. Ao contrário da Nova Zelândia e do Canadá que já reconhecem na Constituição os direitos dos povos autóctones (tarde piaram!), a aposta do primeiro-ministro Albanese na Austrália era criar um conselho consultivo dos Primeiros Povos (isso da deliberação ainda não é para os «primitivos»!) denominado A Voz. Em referendo os australianos foram a votos e em meados de Outubro de 2023 disseram «não». Nem deliberativo ou consultivo - nada! Torna-se evidente que um conselho daquele tipo nada mudaria, mas era um primeiro passo para a necessária, quanto desejada, forma de verem o povo aborígene como mereceria ser visto: portador de uma cultura ancestral, ligada fortemente à Natureza, que nos daria lições de vida a uma civilização no seu estertor - a nossa. Como disse um dos principais representantes dos aborígenes após a vitória do «não»: «amarga ironia esta de um povo que está neste continente apenas há 235 anos recusar-se a reconhecer aqueles que vivem nesta terra há mais de 60 mil anos».

Mas há um caso que se passou comigo que ilustra bem a violência latente neste «não» ao referendo para, ao menos, se considerar a existência do povo aborígene australiano, primeiro passo para reconhecer a infindável lista de horrores por que passou este povo levado à escravatura e a todo o tipo de torturas psicológicas e físicas. Encontrei-me em Junho deste ano, por motivos familiares, num almoço que juntava toda uma diáspora dos seus membros. Durante o almoço, e à minha frente, estava presente um casal australiano. Ela de origem irlandesa (há seis gerações na Austrália) e ele indiano de Goa. Ambos falavam inglês e encontravam-se em Portugal, percorrendo em turismo a Europa. Em junho, preparava-se então o referendo. Reproduzo o diálogo que ia dando para o torto, não fosse ainda a prevalência do que se chama a boa convivência familiar:

- It's a madness, the fucking referendum! - afirmou algo revoltado o australiano goês (a partir de agora traduzo) 

- O que é que é loucura? Não entendo, desculpe - afirmei eu honestamente, visto que não sabia nada do referendo.

- Como é possível que uma minoria da população possa ser ouvida sobre as leis de uma grande maioria. Os aborígenes não têm esse direito. Que façam partidos e concorram às legislativas!

- Desculpe, se é uma minoria e concorrerem às legislativas está à espera de uma maioria absoluta para governarem o que é seu por direito histórico?

- Que direito histórico? Se eles eles se portarem bem, se seguirem as regras da sociedade e cumprirem as leis, deixando o crime, a prostituição, o alcoolismo, então integram-se e a conversa é outra! Assim, como estão, it's a madness!

De repente reparei que estava a falar com uma irlandesa de seis gerações na Austrália (claro que os seus antepassados estavam livres de todos os crimes imputados na Irlanda, estava-se mesmo a ver!) e com um goês de origem indiana que, por casamento, estava no país e que tinha idade para ter conhecido a colonização portuguesa (também não entendia por que razão não falaria português tendo a minha idade, caraças!). Eram eles que se achavam no direito de ditar leis aos povos aborígenes e a ditarem as regras civilizacionais que acharam por bem imporem, desde o rapto de crianças para conventos católicos, os massacres em massa, as violações ou a escravatura generalizada como mostra a fotografia. É uma madness, sim. Acabei assim a conversa, deixando-o a ruminar alguma coisa contra mim que, evidentemente, não estava a par da realidade australiana! Quando lhe dei boleia no final, pediu-me para não ir pela autoestrada, antes por uma estrada nacional. Assim foi. Para o degelo se dar, ele entendeu dirigir-me uma palavra simpática sobre a paisagem de Portugal. Olhando para a mancha de eucaliptos que bordeava a estrada ele atirou-me com um «It's like Australia!». Não lhe dirigi mais a palavra.

quarta-feira, outubro 18, 2023

Pequena nota pessoal sobre Gaza aos amigos libertários e à esquerda radical

 

Getty Images
1. As palavras valem o que valem e nos tempos de chumbo em que vivemos a palavra terrorismo banalizou-se de tal maneira que «comentadores» de jornais e de tv's utilizam-na para atacar desde o PC, ao BE e aos libertários. Escondem o seu próprio ódio fascista, alardeando o ódio que dizem sermos portadores.

2. Um desses comentadores chegou a referir, sem a mínima hesitação, que antes de se prolongar na sua pobre «análise» do massacre de Gaza que o «conceito de vida nos países árabes não era o mesmo que no ocidente»! (CNN, 11/10). Dizer isto é o mesmo que concordar implicitamente com o ministro de defesa de Israel quando afirmou que os israelitas estão a guerrear com «animais», portanto sub-humanos, tal como os nazis consideravam os judeus no genocídio dos campos da morte na II Guerra Mundial.

3. Sobre a violência, ela é legítima quando defende um povo cujo território não é só ocupado violentamente há décadas, como lhe retiraram todas as possibilidades de viverem dignamente ou, sequer, sonhar com elas. O que acontece com os palestinianos hoje. Não vejo nenhum libertário coerente ou pertencente à esquerda radical que encare o Hamas, o Hezbolah ou a Jihad Islâmica como representante legítimo do povo palestiniano, quer pela sua prática de matar civis indiscriminadamente, tal como faz o ocupante israelita, quer pela sua vertente religiosa e fanática que nos coloca nos seus antípodas. Tal acontece igualmente com o objectivo não declarado de Israel em tornar-se um estado teocrático, não necessitando de ter uma Constituição escrita, mas votando no Knesset, em sua substituição, uma Lei do Estado-Nação em 2018 que estabelece «a Terra de Israel como a pátria do povo judeu»! O objectivo do Grande Israel que está implícito desde 1948 compreende regiões da Síria, do Iraque o do Líbano.

4. Não há um «conflito israelo-palestiniano» como alguns amigos defendem. Existe uma ocupação violenta e genocida sobre o povo palestiniano, esse sim, desarmado perante todo o horror. Afirmar que em Israel existe luta de classes, tal como na Palestina, é uma meia-verdade que pode levar a confundirmos as duas realidades como sendo iguais em recursos e em riqueza produzidos. E não são. Basta saber o mínimo do genocídio para verificar a imbecilidade de tal defesa.

5. Quando durante anos, a maioria dos libertários e da esquerda radical denunciaram (e bem) o papel da ONU ao lado dos mais fortes e ignorando petulantemente os mais fracos e explorados do mundo, surgem agora alguns de uma maneira cómoda e hipócrita e defenderem as suas resoluções que nunca foram cumpridas pelo agressor israelita. Recusaram qualquer discussão sobre geopolítica, demonstrando a sua inconsequência devido à defesa teórica um mundo sem fronteiras, que neste caso não se coloca: é que não há «fronteiras» em Gaza. Há corredores com arame farpado e mar minado!

6. A esquerda e os libertários não devem permanecer numa posição defensiva e reaccionária, passando o pouco tempo disponível a afirmar que não se reveem nos grupos religiosos islâmicos, porque isso não tem sentido nenhum. Os «mas»... que se seguem à defesa do povo palestiniano não se compadecem com a urgência de uma resolução rápida para a ocupação assassina de Israel sobre Gaza. O que devemos exigir dos pobres comentadores e indivíduos ou grupos que defendem Israel é a clarificação total das suas posições genocidas, colocando-os ao lado dos mísseis sobre Gaza e das declarações racistas do governo israelita.

7. Não há possibilidade de outra defesa senão aquela de estarmos ao lado do povo palestiniano sem quaisquer hesitações. Não só por ser a parte mais fraca (dantes era um atributo da esquerda que, penso, ainda não estar esquecida!), mas porque se corre o risco de, mais uma vez, serem abandonados quer pelos seus congéneres árabes, quer pela indiferença criminosa e doentia do Ocidente. E estar «ao lado» do povo palestiniano significa exigir o cessar-fogo imediato (até agora a chamada «comunidade internacional» não o exigiu!) e início de um processo com interlocutores sérios que levem à existência de uma Palestina livre e independente de todos os autoritarismos.

quinta-feira, agosto 31, 2023

Hotéis

 

Quando procuro hotéis para ficar uns tempos, procuro quase sempre aqueles que já demonstram, em todo o seu orgulho escondido, o passar do tempo. Quase sempre enormes, quando a possibilidade de ter um grande número de empregados a baixo preço era uma realidade, começam a apresentar fissuras nas paredes, as carpetes antigas a desfiarem-se, os sofás já um pouco puídos, os móveis quase sempre de madeira africana a exibir a sua excelência mas diminuídos por enormes pantalhas de televisores sempre ligados. Contudo, ainda existem estatuetas de anjos dourados na sala de jantar e candeeiros robustos, para além de mosaicos azuis e amarelos, agora em vinil tentando o ambiente oitocentista que se mistura com o chamado «vintage». Os novos empregados já não têm farda. Usam ténis e vêm de escolas profissionais de turismo, arreganhando simpatia, é certo, mas esquecendo-se de dar a provar o vinho. Condescendentes, sorrimos sempre dando-lhes ânimo para continuarem o trabalho sem grandes sobressaltos. Nos longos corredores já não passa ninguém. Só as responsáveis pelas limpezas matinais, falando alto e ligando as televisões dos quartos para estarem atualizadas com os programas da manhã. Entretanto, aspergem líquidos azuis e verdes para higienizar ambientes. Na recepção, mal damos pelos olhos dos que nos recebem: encontram-se ligados ao computador ou ao telemóvel, os sorrisos forçados, o olhar dirigindo-se para onde está o director, quase sempre escondido num gabinete.

Interessam-me sempre as pequenas grandes histórias dos enormes hóteis. Mas não as procuro lá dentro. Quase sempre a população que vive em pequenas vilas onde aqueles se impõem contam-nos toda a saga que fez o hotel de charme ser levantado. Nunca se duvide dessas histórias. Todas são verdadeiras.

quinta-feira, junho 24, 2021

Da Piaggio à Faber-Castell, passando pela Adidas

 

Sede da empresa alemã Adidas

Até me custa iniciar isto, visto que se trata de uma crítica à RTP2, canal que ainda vejo regularmente. Cansado, é-me custoso cada vez mais procurar em outros canais alguma coisa que valha a pena ver. Por vezes ainda encontro neste canal filmes e séries interessantes, mas não deixa de ser singular a existência de múltiplas séries alemãs e italianas que nos vendem a história sempre fabulosa, empreendora e sacrificada de empresários com nome na Bolsa de hoje. Veja-se o caso dos esfalfados donos dos lápis Faber-Castell, da linda «vespa» Piaggio, do senhor Adidas que se zangou com o irmão (meu deus!) senhor Puma, o senhor Blaupunkt (hoje devorada pela Siemens, outros capitalistas de sucesso), o excelentíssimo Krupp, o rapidíssimo (a fazer dinheiro) Enzo Ferrari e mais virá por aí, ficamos com a impressão que se não fossem eles o mundo pararia. Não parou, claro, e os pequenos problemas com nazis e fascistas cuja cumplicidadezinha foi talvez menor que a de Hugo Boss, que fardou as SS, é sempre uma nota de rodapé na pretensa história adaptada pelas ditas séries. É evidente que o papel dos trabalhadores que combateram nas duas guerras, que se opuseram ao fascismo e que ainda por cima ajudaram empresas a erguerem-se nunca são referidos. Antes pelo contrário: são eles que, indecentemente, fazem greves e juntam reivindicações para terem uma vida minimamente digna. Mas esqueceram-se de um pequeno grande pormenor: todos estes empresários içaram os seus impérios por enormes heranças! Mas isso constitui uma pequenina (mais uma) nota de rodapé na pretensa história que nos entra pela TV dentro. Pela mão da RTP2, infelizmente.

quarta-feira, junho 23, 2021

Eu desempenho, tu desempenhas, eles avaliam

Hoje, o Público esmera-se apresentando um dito estudo sobre o desempenho dos professores com base na Edulog, Fundação Belmiro de Azevedo. Como se sabe, da família proprietária do mesmo jornal e com direito a editorial e tudo. O estudo, cheio de imprecisões e inexactidões (chega a referir que a avaliação no 3º ciclo é de 0 a 20!), relaciona directamente o desempenho dos docentes às avaliações que atribuem, dividindo-os em percentis de 10 a 90. Autora do estudo: Carmo Seabra, ministra da Educação do inefável Santana Lopes e que em plena greve de professores declarou que estava mais preocupada com a sua ida ao cabeleireiro do que com os problemas que estavam na base da greve. Daria vontade de rir, senão fosse coisa séria.

sexta-feira, maio 27, 2016

Feira do Livro de Lisboa. Pavilhão da Deriva Editores no Pavilhão A62 da Companhia das Artes



«Geração Sénior de Almada no séc. XXI. Um retrato Social» na Incrível Almadense. 31 de maio, pelas 17:00

Clicar na imagem para ver melhor


Com o Le Monde Diplomatique, edição portuguesa - Maio 2016

Este é um livro de histórias de vida que contam (parcialmente) a história social de uma geração – a geração sénior de Almada do século XXI – a partir dos relatos e experiências narradas na primeira pessoa. Responde, assim, a interesses de leitura diversos. Reconstitui a história social de uma geração, permitindo conhecer ou reavivar vivências intra-geracionais, lugares e práticas hoje quase desaparecidas. Convida a uma leitura também sociológica sobre a experiência da velhice na actual modernidade, sobre os dilemas da institucionalização, sobre as oportunidades ou impossibilidades
de novas formas de fruir a vida. E ainda, é uma leitura sobre as tantas mudanças sociais, culturais e políticas que podem caber numa vida e na vida de uma geração.

Título: Geração Sénior de Almada no sec. XXI - Um retrato social
Autoras: NOÉMIA LOPES (coordenação)
JOANA ZÓZIMO | JOANA RAMALHO | ELSA PEGADO | PAULA PEREIRA
ISBN  978-989-8701-
REFERÊNCIA 1510007
FORMATO 12 x 19 cm
164 páginas
1ª EDIÇÃO maio 2016

PVP 10,00 euros


PEDIDOS A: infoderivaeditores@gmail.com COM INDICAÇÃO DE NOME E MORADA.

sexta-feira, maio 06, 2016

Com o Le Monde Diplomatique de maio: «Geração Sénior de Almada no século XXI - Um retrato Social» coordenação de Noémia Lopes

Mês de maio com o Le Monde Diplomatique. Por mais 10 euros, o livro «Geração Sénior de Almada no século XXI - Um retrato social» com a coordenação de Noémia Lopes. Joana Zózimo, Joana Ramalho, Elsa Pegado e Paula Pereira.

quinta-feira, março 03, 2016

Livraria Culsete, Setúbal. 11 de março às 21:30. José Manuel Pureza e Álvaro Arranja. Desobedecer à UE


Intervenção A Engrenagem do Terror – De Bagdade a Paris. Porto e Coimbra



Num livro de Sophie Wahnich que passou relativamente despercebido »A Defesa do Terror. Liberdade ou Morte na Revolução Francesa», Zizek dá-nos uma visão muito peculiar do Terror no seu prefácio, atualizado recentemente. O Terror, sabêmo-lo sem grandes dúvidas políticas ou existenciais que este foi sempre uma prerrogativa dos Estados modernos. A Revolução Francesa surge assim como uma espécie de argumento inicial onde se vai captar a essência do Terror nas democracias contemporâneas. Os historiadores neoliberais preferem, segundo o mesmo Zizek, um 1789 sem 1793, o período jacobino mais radical liderado por Robespierre. 1789 seria então o início da liberdade iluminista, da fraternidade e da igualdade natural entre os homens. 1793, o período a que se chamou de Terror, seria assim uma espécie de excrescência onde foi guilhotinado um rei que, segundo um discurso histórico de Robespierre na assembleia nacional, não o foi por ter cometido qualquer crime, mas sim pelo facto de ser rei, sendo isto um insulto para toda uma nação revolucionária. Não será por acaso que estes mesmos historiadores neoliberais afirmam que o período iniciado em 1789 acabou precisamente em 1989 com a queda do muro de Berlim e o fim das ditaduras das democracias populares de Leste. O fim da História, portanto, e o início do idílio liberal, diga-se, da lógica do mercado e do capitalismo, vencedor em toda a linha e em todos os recantos do mundo chamando a isso «globalização». Fazem por esquecer as bases construídas do primeiro Estado Social do mundo: 1793, o denominado Terror, «defensivo» na taxonomia de Zizek, fez surgir o apoio à velhice, à viuvez, à doença, ao desemprego, à fome instituída por anos de terror feudal, às obrigações humilhantes de um povo em ebulição contra os antigos senhores. Pela pressão revolucionária das mulheres francesas (que, aliás, nunca tiveram direito ao voto) instituiu-se o ensino básico obrigatório, a Lei dos Máximos onde se fixava o preço de produtos essenciais, o sistema decimal que regulava também, proporcionalmente, os impostos e evitava a corrupção. O orgulho sans culotte, dos montanheses e da Conspiração dos Iguais de Babeuf e de Anarchisis Cloots instituiram o Terror? Claro que sim, mas em contraponto ao Terror do Estado. Serve este preâmbulo, para continuarmos com Zizek e a definição que ele faz de Terror «ofensivo», o de Estado: o século XX é pródigo em exemplos com a carnificina imperialista da I Guerra Mundial, a crise criminosa e especulativa de 1929, o aparecimento e legitimação do fascismo clássico, a demência nacionalista (o «Terror Poético», expressão de Zizek) e racista, os milhões excluídos pelo capitalismo e as prisões em massa do estalinismo, a II Guerra Mundial com os seus 60 milhões de mortos. Fiquemos por aqui. Zizek apresenta-nos agora a matriz da ofensiva do Terror de Estado: para este filósofo, este só existe depois de uma legitimação constitucional. À Constituição de 1935 da URSS, Estaline inicia os processos de 1936/37; 1933, marca a constituição nazi e as Leis de Nuremberga até 1935, e não será preciso ir mais longe para perceber que a Constituição de 1933 no salazarismo levou às prisões em massa dos seus opositores e na criação de campos de concentração do Tarrafal e de S. Nicolau; toda a repressão será então baseada na legitimação constitucional e num conceito terrível ligado intimamente ao Terror: a «normalização». A CIA normalizou o Chile, em 1973 ironicamente a 11 de setembro, a Argentina, a Bolívia, o Uruguai e o Brasil, pela inanidade da Operação Condor. Foi assim também no Congo, no Uganda, no Ruanda, na Bósnia e na Sérvia. A normalização atual exige a política neoliberal única, a etnia única, a economia de mercado única, a precariedade do trabalho e a sua desvalorização contínua, a luta sem limites contra os pobres, os excluídos, os refugiados. A globalização fará o resto e já não se trata de uma globalização de mercados. É, agora, uma globalização militar que institui uma Estado-Guerra de guerra permanente a que Bush deu o nome justificadíssimo de «Justiça Infinita» aquando do acontecimento niilista do 11 de setembro. O Estado-Guerra é agora um estado de Terror alicerçado num fascismo pós-moderno, segundo o filósofo catalão Santiago López-Petit, que só ainda não é o fascismo clássico porque este se torna incómodo para os seus objetivos atuais. Não se trata de criar um movimento popular fascista, unipartidário, de rua, de turbas violentas. Trata-se isso sim de um fascismo de base eleitoral, vingativo perante o Islão, de procurar inimigos nas ruas, nos bairros, nos pedidos de delação popular, de criação de milícias afastando as possibilidades multiculturais e procurando o etnicamente puro ou comportamentalmente aceitável. A religião surgiria assim como o alfa e o ómega do fascismo pós-moderno do Estado. Será então impossível afastar o capitalismo deste objetivo. Quanto mais nos aparece militarizado, mais frágil se torna e isso poderá ser perigosamente letal. A identificação do inimigo é tão perigosa como a identificação do amigo. Este último deverá ser branco, cristão (se possível, fundamentalista), empregado e principalmente disposto a extirpar os inimigos do seu bairro, da sua cidade, até da sua família. Deverá ser igualmente obediente e evitar colocar questões que possam diminuir a moral que se quer alta, como em estado de guerra permanente. Identificar os inimigos é tão penoso como a identificação dos amigos. Não se sabe quem são porque o Estado não sabe combater o anonimato, nem as metásteses das organizações do terror que se multiplicam indefinidamente. Só o Islão lhe dá essa identidade, mas entre o Estado Islâmico (atentem na designação «Estado») cujo terror assenta igualmente na legitimidade constitucional do Corão, a sharia, a sua própria normalização para instituir um estado de crueldade absoluta e totalitária, e entre os «moderados», os sunitas, os xiitas, os sauditas, vê-se um Ocidente que às cegas tudo ataca promovendo acordos dúbios, apoios a ditadores, expirando hipocritamente de alívio perante o fracasso da «primavera árabe». Mas este aparente desatino, serve às mil maravilhas os objetivos do Estado-Guerra o tal da «Justiça Infinita» de que falava Bush. O anonimato niilista dos jovens que se imolam e matam nas cidades europeias vêm mostrar igualmente um vazio de vida que é difícil suportar e que só pela morte se redime. São as condições ideais para a consolidação do fascismo pós-moderno de base eleitoral e da guerra permanente contra tudo e todos. Voltando a Zizek e ao seu prefácio no «Pela Defesa do Terror», este cita Saramago quando em 2008, salvo erro, defendeu levar ao tribunal de Haia os responsáveis pelas guerras do Golfo. Segundo o filósofo, àparte qualquer «exagero poético» de Saramago, esta proposta será de levar muito a sério enquanto é tempo e para o futuro. Ou será por mero acaso que Bush ainda não saiu dos EUA, depois dos mandados de captura internacionais de Garzón a muitos dos seus adjuntos militares?
Guy Debord, esse, nos seus «Comentários à Sociedade do Espetáculo» de 1988, prefere utilizar o termo para este mesmo fascismo pós-moderno de Petit, a designação de «sociedade espetacular integrada» com o seu cortejo de apropriação capitalista não só das mercadorias e das matérias-primas, mas de toda a humanidade ela própria e do indivíduo encarado como tal o que é a negação dos princípios iluministas que há muito deveriam ser superados, até por uma esquerda estranhamente apática perante o niilismo. Cita Debord, Tucídides, na sua «Guerra do Peloponeso» quando se operou uma tentaiva de golpe de estado oligárquica, aliás vitoriosa: «nenhuma oposição se manifestava entre o resto dos cidadãos, que temiam o número de conjurados. Logo que algum ensaiava, apesar de tudo, contradizê-los, encontrava-se em seguida um meio cómodo de eliminá-lo. Os assassinos não eram procurados e nenhuma perseguição era iniciada contra aqueles de quem se suspeitava. O povo não reagia e as gentes estavam de tal forma aterrorizadas que se consideravam felizes, ainda que calado, por escapar às violências. (...) A cidade era demasiado grande e eles não se conheciam o suficiente entre si para que lhes fosse possível descobrir o que cada um era verdadeiramente. Nestas condições, por indignado que se estivesse, não se podia confiar estas queixas a ninguém.»
Este livro (A Engrenagem do Terror – De Bagdade a Paris) que o Le Monde Diplomatique organizou e que a Deriva teve o orgulho de editar, assim como os outros antes deste, servirá certamente para não termos medo. Medo de terrorismo de Estado, criando uma guerra ao Estado-Guerra, lutando contra os fascismos embrionários, mas, sobretudo, não ter medo. A esquerda não deve ter medo de falar, e ao fazê-lo, realizem-no sem tabús ideológicos e políticos contribuindo para criar uma emancipação efetiva dentro da liberdade, de uma vida que valha a pena ser vivida. Contrapor ao Terror a vida vivida na solidariedade e na emancipação. Creio que o valor da «Engrenagem do Terror» é ajudar-nos a munir dessas armas na verdade das coisas. O de declarar guerra à guerra.

António Luís Catarino

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Planificação Editorial Deriva Editores 2016


PLANIFICAÇÃO EDITORIAL 2016 DERIVA EDITORES

derivaeditores.blogspot.pt /infoderivaeditores@gmail.com

E aqui vai mais um ano, agora o de 2016, em que a Deriva Editores se apresenta tal como ela é: com as parcerias úteis, com gostos sólidos, amizades apreendidas no trabalho e na criação de novos projetos, conseguindo uma grande coerência editorial de que nunca abdicaremos.

Este ano, apresentamos na Coleção A Ordem das Coisas, coordenada pelo Instituto de Sociologia da FLUP e por Bruno Monteiro, Antonio Gramsci: Ganhar o futuro. Textos de combate (1914-1926) que tardavam em ser reeditadas em Portugal e que estão a ser alvo de grande divulgação internacional este ano.
O período de tempo compreendido entre o início da I Guerra Mundial, em que a Itália participou como país beligerante, e a consolidação autoritária do fascismo italiano, foi ocupado também pela intensa actividade de resistência cultural e política pelos movimentos progressistas italianos. A consolidação da linha de pensamento e acção original destes movimentos teve em António Gramsci um notável executor. Ao longo deste período, afinal aquele que lhe granjeou destaque entre os seus contemporâneos, Gramsci haveria de participar intensamente nas actividades de esclarecimento público e intervenção política: escrevendo memorandos para as conferências do Partido Comunista Italiano, acompanhando as iniciativas dos «Círculos Operários» de Turim, avaliando as revoluções russa e alemã, discutindo no Parlamento com Mussolini e outros fascistas. Este volume reúne precisamente uma antologia destas intervenções, mostrando, para retomar o título da introdução de Bruno Monteiro, que organiza o volume, quem era «Gramsci antes de Gramsci».

Também na Ordem das Coisas publicar-se-á Max Weber, A ascensão do Estado. As práticas políticas, as lutas partidárias e o modo de dominação burocrática.
Pela primeira vez em Portugal são publicados os textos de Max Weber sobre a tutela do Estado sobre a sociedade, a lógica das lutas partidárias e as práticas quotidianas dos agentes políticos, reunindo num volume um conjunto de pesquisas que permitem um novo olhar sobre o universo político. Numa altura onde as regras do jogo político parecem mudar rapidamente, sendo sujeitas a uma dúvida sistemática que ameaça os próprios compromissos que sustentam a democracia, a leitura deste volume de textos permite-nos responder à excitação apaixonada dos preconceitos e fúrias políticos, que tem sido mobilizada pelos actores da política, com a soberana tranquilidade da razão sociológica, premunindo-nos contra manipulações interesseiras e inconsciências programadas. Escrevendo nos anos subsequentes à I Guerra Mundial, quando as paixões políticas se inflamavam e ameaçavam queimar quem com elas transigia, estes textos de Max Weber são uma visão lúcida sobre as causas do reaccionarismo germânico dos anos anteriores à ascensão do nacional-socialismo.

O terceiro livro desta coleção a que a Deriva deu corpo juntamente com o seu coordenador Bruno Monteiro (que também os traduziu) será de Jacques Bouveresse, A sátira e a moda, o progresso e o declínio. Ensaios sobre Musil, Wittgenstein, Freud, Kraus e outros. O grande filósofo francês Jacques Bouveresse, professor emérito do Collège de France, reúne neste volume uma galeria de retratos sobre os maiores pensadores do século XX. Vamos assim, percorrer um horizonte das referências intelectuais que vai de Sigmund Freud a Karl Kraus, passando por Ludwig Wittgenstein ou Robert Musil. Num só destes textos, Bouveresse oferece-nos simultaneamente uma visão do pensamento destes autores e um exemplo da delicada e profunda leitura crítica de que ele, Bouveresse, é mestre.

Xavier Queipo: um autor já conhecido em Portugal volta a ser editado na Deriva com as suas Crónicas Animalistas, seguidas de Pequenos Mundos. Depois do seu primeiro Bebendo o Mar (2004), os Ciclos do Bambu (2008) e Dragona (2011) e uma presença nas Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim e nas Literaturas em Viagem, em Matosinhos, esperamos que volte a ser tão bem recebido pelo público português como o foi na Galiza, em Espanha, em França e na Bélgica. A tradução estará a cargo de Luís Filipe Sarmento.

Del Furore d’ aver Libri / Do prazer de ter livros, título ainda provisório, também será traduzido pelo consagrado Luís Filipe Sarmento. Um livrinho excecional e comovente pelo seu interesse histórico e por ser um guia de como tratar os livros e do prazer em tê-los e fazê-los. Quem o escreveu foi Gaetano Volpi, um bibliófilo veneziano do século XVIII que, juntamente com o seu irmão foi proprietário da Livraria Camoniana de Veneza. O que fazer para que os ratos não roam o couro dos livros, ou que os gatos urinem para as suas folhas... eis um guia precioso para conservar livros na era da computação.

A poesia sempre. As estantes dos grandes espaços encolhem-nas, mas não nos apetece desistir. Porque nos faz viver e ver tudo de outra maneira. Como nós queremos. Este ano avançamos com Ricardo Gil Soeiro com Palimpsesto (já editou, com a Deriva, Bartlebys Reunidos) e Pedro Ribeiro, com Beat.

A parceria com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique está aí para durar e cimentar-se na edição de livros que acompanham este excelente jornal de pensamento crítico (o único?). Depois de Este País não Existe, de De Pé ó Vítimas da Dívida, de Correntes Invisíveis e A Engrenagem do Terror, todos com uma agradável receção, sairão a público mais dois volumes em 2016. São eles:
O livro do esquecimento. Memória, trauma e violência entre a história e o vazio. Uma selecção a realizar por entre os textos publicados pelo jornal. Garantido fica, desde já, um itinerário que vai da Espanha franquista à Indonésio de Suharto, da «caça às bruxas» norte-americana à «Operação Condor» latino-americana, do colonialismo europeu em África à guerra da partição entre a India e o Paquistão.
A nova vida do Leviatã. Hegemonia e intervenção autoritária do Estado nos séculos XX e XXI: Pensar o Estado sem o pensamento de Estado, recorrendo, para isso, a originais investigações sobre as políticas do Estado português (Rui Pedro Pinto, Patrícia Matos, João Queirós, Manuel Loff, Nuno Serra, Lise Desvallées, Miguel Heleno, José Madureira Pinto, Ronald Chilcote, Victor Pereira, Nuno Domingos … ), que serão reforçadas por textos de alguns dos mais influentes cientistas sociais da actualidade (Loïc Wacquant, Vincent Dubois, Jürgen Kocka, Philippe Bourgois, Helène Michel, Alexis Spire).

Os Cadernos Desobedientes, livrinhos inquietantes de baixo preço, depois de editados Desobedecer à Praxe e Desobedecer à União Europeia, continuará a sua ação de nos precaver contra o pensamento único instalado, com Desobedecer ao Género, de João Manuel Oliveira e Desobedecer pela Escola, de Hugo Monteiro e Inês Barbosa. No segundo semestre publicar-se-á Desobedecer às Indústrias Culturais, de Regina Guimarães e Desobedecer através do Riso, de Miguel Viterbo. A parceria da Deriva é, mais uma vez, com a Cultra, do Porto.

A partilha de ideias com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, traduzir-se-á com a edição de mais três livros. Um na coleção Cassiopeia, Revisitar Annemarie Schwarzenbach, de Gonçalo Vilas-Boas e dois na pequena coleção Pulsar, Morelli, Freud e Sherlock Holmes: indícios e método científico, de Carlo Ginzburg e Figurinus: O Corpo em Cena, de Gonçalo Vilas-Boas e Isabel Morujão, este último para o público que ama particularmente o teatro.

Na sociologia e política, a Deriva continua a agitar as águas com dois livros, A Vida entre Nós: a Sociologia em Carne Viva, de Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes e João Teixeira Lopes e Desigualdades Sociais e Participação Educativa de Adultos, com a coordenação do professor Luís Rothes, da ESE do Porto.

Cidades Materiais, será a edição de mais um livro de crónicas da autoria de António Alves Martins que nos conta périplos, pequenas e grandes viagens em torno de lugares improváveis com encontros ainda mais improváveis na cidade de Lisboa e outras paragens mais distantes.

Título
Autor
Mês
Parceria com
Coleção
Ganhar o futuro. Textos de combate (1914-1926)

Antonio Gramsci
Março
Instituto de Sociologia da FLUP / Deriva
Tradução de Bruno Monteiro
Sociologia / A Ordem das Coisas
A ascensão do Estado. As práticas políticas, as lutas partidárias e o modo de dominação burocrática.



Max Weber
1º semestre
Instituto de Sociologia da FLUP / Deriva
Tradução de Bruno Monteiro
Sociologia / A Ordem das Coisas
A sátira e a moda, o progresso e o declínio. Ensaios sobre Musil, Wittgenstein, Freud, Kraus e outros.



Jacques Bouveresse
2º semestre
 Instituto de Sociologia da FLUP / Deriva
Tradução de Bruno Monteiro
Sociologia / A Ordem das Coisas
Crónicas Animalistas, seguidas de Pequenos Mundos

Xavier Queipo
Abril
Tradução de Luís Filipe Sarmento
Romance
Del Furore d’ aver Libri / Do prazer de ter livros (título provisório)

Gaetano Volpi
Maio
Tradução de Luís Filipe Sarmento
Crónicas de um bibliófilo veneziano do século XVIII proprietário da Livraria Camoniana
Palimpsesto
Ricardo Gil Soeiro
Março

Poesia
Beat
Pedro Ribeiro
Maio

Poesia / Deriva de luxe
O Livro do Esquecimento. Memória, trauma e violência entre a História e o vazio
VVAA
Ao longo do ano
Edição Portuguesa do Le Monde Diplomatique /Deriva
Edição própria com a Deriva / Política / Sociologia / História
A Nova Vida do Leviatã. Hegemonia e intervenção autoritária do Estado nos séculos XX e XXI
VVAA
Ao longo do ano
Edição Portuguesa do Le Monde Diplomatique /Deriva
Edição própria com a Deriva/ Política / Sociologia / História
Desobedecer ao Género
João Manuel de Oliveira
1º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Desobedecer pela Escola
Hugo Monteiro e Inês Barbosa
1º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Desobedecer às Indústrias Culturais
Regina Guimarães
2º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Desobedecer através do Riso
Miguel Viterbo
2º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Revisitar Annemarie Schwarzenbach
Gonçalo Vilas-Boas
Fevereiro /Março
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Flup / Deriva
Coleção Cassiopeia
Morelli, Freud e Sherlock Holmes: indícios e método científico
Carlo Ginzburg
Março / Abril
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Flup /Deriva
Coleção Pulsar
Figurinus: O Corpo em Cena
Gonçalo Vilas-Boas e Isabel Morujão
Maio / Junho
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Flup /Deriva

Coleção Pulsar
A Vida entre Nós: a Sociologia em Carne Viva
Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes e João Teixeira Lopes
Abril
FLUP / Sociologia
Sociologia / Política
Desigualdades Sociais e Participação Educativa de Adultos
Coordenação de Luís Rothes
Abril/Maio
ESE do Porto
Sociologia / Política
Cidades Materiais
António Alves Martins
Maio
Crónicas
Crónicas / Deriva de Luxe