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terça-feira, março 24, 2020

O Fim da Deriva Editores pela Lusa. Há dois anos foi assim...

Logótipo: Gémeo Luís

https://tvi24.iol.pt/sociedade/08-03-2018/o-fim-da-editora-deriva?utm_source=facebook%26utm_medium%3Dsocial%26utm_campaign%3Dshared_site&fbclid=IwAR1at8Yz7NTCrjL3zp05RFhVpt8OmaMy83dEQ8JD3u7Plkzoed8qNgFVKsE

Foi há dois anos e não retiro uma só palavra do que então disse à Lusa. É evidente que teria mais nomes que me ficaram na memória e que aproveito para citar aqui e agora. Talvez um dia eu faça a história da Deriva e alguns dos seus momentos mais ou menos gloriosos, mas de uma dedicação de 15 anos em que se firmaram grandes amizades e não menos decepções. Mas agora é o tempo de agradecer, tudo junto, que é mais bonito:
Catarina Nunes de Almeida, Joaquim Castro Caldas, Marilar Aleixandre, Pedro EirasAntónio Alves MartinsPedro Teixeira Neves, João Pedro Mésseder, Rui Pereira, Vicente Romano, Xavier Queipo, Gonzalo Navaza, Kenneth White, Paulo Kellerman, Miguel Carvalho, Isabel Pereira Coutinho, Santiago Lopez-Petit, Luís Mourão, Jean-Marc Rouillan, Patrick Raynal, Xurxo Borrazás, Antón Riveiro Coello, John Zerzan, Peter Lamborn Wilson, Ramón Caride Ogando, Regina Guimarães, José Manuel PurezaHenrique Manuel Bento FialhoJoão Mineiro, Bruno Moraes Cabral, Ana Estevens, Bruno Monteiro, João Carlos Louçã, João Camargo, Maria Helena Marques, Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes, João Teixeira Lopes, Jorge Bastos da Silva, Teresa Martins de Oliveira, Gonçalo Vilas-Boas, Jean-Pierre Sarrazac, Pascal Quignard, Antoine Compagnon, Jean-Claude Pinson, Stephane Mallarmé, Stenvenson, Coleridge, Wyndham Lewis, Olivier Py, Anselm Kiefer, Carlo Ginzburg, Xurxo Borrazás, João Paulo Sousa, Nuno Barros, Ludwig Wittgenstein, João José Almeida, Nuno Venturinha, Michel Pialoux, Christian Corouge, Mikhail Bakhtin, Elfriede Jelinek, Maria Leonor Figueiredo, Filipa Leal, Maria Sofia Magalhães, Luis Maffei, Hugo Neto, Catarina Costa, Aurelino Costa, João Queirós, Inês Brasão, José Ricardo NunesRicardo Gil Soeiro, Ricardo Romero, Florencia Abbate, Mariana Rei, João Rodrigues, Nuno Teles, Carla Baptista, Filipa Subtil, Colaboração com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, TEatro Ensaio: Pedro Estorninho e Inês Ferreira Pereira Leite, Instituto de Sociologia da FLUP, Le Monde Diplomatique: Sandra Monteiro, Nuno Teles, Bruno Monteiro, João Rodrigues, Costas Lapavitsas, Eugénia Pires, José Castro Caldas, José Guilherme Gusmão, Maria Mariana Mortágua, Mark Weisbrot, Maurice Lemoine, Maurizio Lazzarato, Octávio Teixeira, Rafael Correa, Raoul-Marc Jennar, Renaud Lambert, Rosário Caetano, Sara Rocha, Wolfgang Streek, Akram Belkaïd, Alain Gresh, Alexeï Malachenco, Benoît Bréville, Dominique Vidal, Feurat Alani, Hana Jaber, Hiccham Alaoui, Ibrahim Warde, Jean-Pierre Séréni, Julien Théron, Laurent Bonelli, Nabil Mouline, Olivier Zajec, Patrick Baudouin, Peter Harling, Philippe Leymarie, Pierre Conesa, Serge Halimi, Vicken Cheterien, Carla Baptista, Carla Martins, Carlos Camponez, Frederico Pinheiro, Jacinto Godinho, Joao Ramos de Almeida, Joaquim Fidalgo, José Goulão, José Luís Garcia, Liliana Pacheco, Maria João Silveirinha,, Pedro Cerejo, Sara Meireles Graça, Vasco Ribeiro, Alfredo Margarido, Ana Santos, Cláudia Castelo, Diogo Ramada Curto, Elsa Peralta, Irene Flunser Pimentel, Isabel Castro Henriques, João Leal, José Borges Reis, José Manuel Sobral, Luís Bernardo, Manuela Ribeiro Sanches, Miguel Bandeira Jerónimo, Nuno DomingosPaula Godinho, Pedro Sanches Duarte, Sílvia Correia, Victor Correia, AlexandreAbreu,Carlos Santos, Dominique Lévy, Eva Illouz, Frédéric Lordon, Gérard Duménil, Ignacio Ramonet, João Rodrigues, Luís Bernardo, Owen Jones, Patrick Vassort, Pedro Bingre do Amaral, Pierre Rimbard, Ricardo Paes Mamede, Vincent Gayon, Yvon Quiniou, Prefaciadores: Isabel do Carmo, Viale Moutinho, Valente de Oliveira, Manuel Bragado Rodríguez e muitos outros... Ilustradores: Gémeo Luís, Manuela São Simão, Emílio Remelhe, João Maio Pinto, Miguelanxo Prado. Participação do II Centenário das Guerras Peninsulares. I e II Derivas de Maio, Corrente d'Escritas, Publicação das actas dos Encontros de Literatura para a Infância e Juventude etc.etc.. Houve ainda prémios literários e traduções para a Europa. Esta lista será continuamente observada, não vá faltar alguém ou alguma instituição... Não se contam aqui as intervenções em apresentações de livros, de convidados vários e de participações várias de cumplicidade feita. Um abraço para livreiros que estiveram sempre ao nosso lado: Letra Livre, Livraria Utopia (Herculano Lapa), Gato Vadio (Isabel CamarinhaJúlio Gomes e Cesar Figueiredo), Livraria Poetria, Miguel de CarvalhoViriato PortoLuís Filipe Sarmento, Isabel Ramalhete, João Paulo Vaz, Dina Almeida, Helena Topa, Bruno Monteiro...
ColabPedro Ferreira, Ana Sílvia.

quinta-feira, maio 20, 2010

Hoje, na Visão: uma entrevista com Santiago López-Petit a Miguel Carvalho


Hoje, neste número da revista Visão, Miguel Carvalho entrevista Santiago López-Petit em trânsito para o Porto a fim de participar nas Derivas de Maio e apresentar o seu livro, editado pela Deriva, A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos e Alguns Comentários Marginais de Rui Pereira, que também traduziu do castelhano.
Lembramos que SLP intervirá às 14:30 juntamente com Rui Pereira.
De manhã, pelas 10:30, intervirão Suzana Ralha e António Alves da Silva.
Rua da Alegria, 503, Porto. Esmae (Café-Concerto)

Santiago López-Petit nas Derivas de Maio


"Os espaços de anonimato representam um verdadeiro desafio para a teoria revolucionária. O estatuto político dos espaços de anonimato (o não serem homogéneos, adicionáveis…) é função e já chega determinado pela essência da própria força do anonimato. É ela que lhes confere aquelas que são as suas características principais: ausência de reivindicação, articulação em torno de um gesto radical que se repete, não-futuro, politização apolítica. A força do anonimato aparece-nos quando tentamos pensar a radicalização da impotência. Essa força vem, então, ter connosco. Com toda a sua carga dissolvente e, ao mesmo tempo, portadora de promessas. Com toda a sua ingovernabilidade.Sentimos a impotência face a essa mobilização global que se faz de nós, connosco — contra nós — que unifica realidade e capitalismo, que proclama «Não há nada a fazer» . Esta frase, «não há nada a fazer» é uma frase estranha que em nada se assemelha a outras frases aparentemente parecidas: não podemos fazer nada, é impossível fazer seja o que for… «Não há nada a fazer» é o nome para uma bifurcação que conduz a dois lugares completamente diferentes: «Não se pode fazer nada» e «Tudo está por fazer». O primeiro caso não nos interessa. O segundo, sim. Quando se diz, de facto, «Não há nada a fazer» porque se bateu realmente no fundo e já não resta esperança alguma, o que então se abre é uma travessia do niilismo. Aí, sim, podemos afirmar que «Tudo está por fazer». A travessia do niilismo inaugurada pelo «Não há nada a fazer» não é outra coisa senão a radicalização da impotência. Uma radicalização que nos conduz ao que Artaud denominava o im-poder. Para ele, radicalizar a impotência é o mesmo que fazer a experiência do im-poder. A impotência aparece referida na sua correspondência com Rivière como a impossibilidade de pensar. A análise deste «querer pensar mas não poder pensar» constituirá o núcleo de todo o primeiro escrito de Artaud. Rapidamente essa impossibilidade haverá de estender-se ao próprio viver. Quero viver, mas não consigo viver." Santiago López-Petit, in Mobilização Global, Deriva Editores


Santiago López-Petit  estará sábado, dia 22 de Maio, no Café concerto da Esmae para pensar connosco a  educação  e  a  revolução.  Um  binómio  nem  sempre  conjugado  e  que  foi  convenientemente separado à nascença.



segunda-feira, maio 17, 2010

É já esta semana

É esta semana que acontecem as segundas  Derivas, agora, em Maio.

Participação livre, com inscrição obrigatória
A presença nas Derivas de Maio dá direito à oferta de um livro na compra de outro livro da Deriva.

sexta-feira, maio 14, 2010

Mapa das Ilhas Marshall + Derivas de Maio | 22 de Maio


Mapa das Ilhas Marshall

A ilustração referente à iniciativa que há dois anos dá o nome às Derivas e aos seus ciclos de debate de ideias muito virados para a educação, a filosofia e a história é de um mapa nativo das Ilhas Marshall. Os antigos navegantes do Pacífico, com este mapa de vime e paus, orientavam-se para o sol e para as estrelas desta maneira encontrando assim as ilhas para onde se dirigiam. O que, aparentemente, nos propunha uma deriva tinha, afinal, um rumo, uma rede de informação que os levava seguramente ao seu destino. É todo um programa que está inscrito nestas viagens. Mal sabiam os seus antigos habitantes destas longínquas ilhas a proposta revolucionária que continham esses mapas. E que a Deriva adoptou.


Estas  segundas  derivas  propõem-se  debater  a  educação  e  a revolução.  Um  binómio  nem  sempre  conjugado  e  que  foi  convenientemente separado à nascença. Mas nem sempre foi assim: em todas as revoluções dignas desse nome o amor, o quotidiano, a educação pertenciam às mesmas ondas de choque. Em cada inovação e transformação revolucionárias no campo livre da educação o Estado soube recuperá-las e cedê-las à sua classe e aos seus sequazes. Trata-se, portanto, de  inventar caminhos  impossíveis de serem recuperáveis, ou seja, de criar situações verdadeiramente irreversíveis.
Nos campos da realidade e do quotidiano, pretende-se igualmente transformá-los de modo a criar objectos reconhecíveis pelos deprimidos do mundo  inteiro;  um modo moderno  de  superação  niilista  dos  novos  cadáveres  esquisitos  e  das  nossas máscaras  acinzentadas  em  que  nos tornámos. 
Vamos  promover  estes  e  outros  debates  entre  nós,  que  teimamos  em  realizá-los.  As Derivas  de Maio  convidam-no  e  à  Suzana  Ralha,  ao António Alves da Silva, ao Rui Pereira e ao Santiago López-Petit a passar pelo Café Concerto da ESMAE, no dia 22 de Maio, pela manhã e tarde de um sábado. A falarmos e a encontrarmos saídas.

«E se a Revolução significasse, antes de tudo, Educação?»
9:30 – Entrega do certificado de presença
9:45 – Abertura
Moderação: António Luís Catarino
10:00 – Suzana Ralha, Professora
11:30 – António Alves da Silva, Professor
Debate
12:30 – Intervalo para almoço
«Fazer o Pensar e Pensar o Fazer – Como atacar a Realidade?»
Moderação: António Luís Catarino
 14:30 – Rui Pereira, Jornalista
15:00 – Santiago López-Petit,  Filósofo. Universidade de Barcelona
Debate
16:00 ––  Apresentação do livro de Santiago López-Petit,  A Mobilização Global seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos. Tradução e Comentários de Rui Pereira. Deriva Editores, 2010
17:00 – Projecção do Filme El Taxista Ful de Jordi Solé (Jo Sol)

Em contagem decrescente para as Derivas de Maio


"Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade."  Santiago López-Petit in A Mobilização Global

quinta-feira, abril 29, 2010

Derivas de Maio

As Derivas de Maio convidam-no, e à Suzana Ralha, ao António Alves da Silva, ao Rui Pereira e ao Santiago López-Petit a passar pelo Café Concerto da ESMAE, no dia 22 de Maio, pela manhã e tarde de um sábado. A falarmos e a encontrarmos saídas.


«E se a Revolução significasse,
antes de tudo, Educação?» 

sábado, abril 24, 2010

Em Maio há Derivas....

...com Suzana Ralha, António Alves da Silva, Rui Pereira e Santiago López-Petit.

Programa aqui.


sexta-feira, abril 09, 2010

Derivas de Maio (Programa)


Estas  segundas  derivas  propõem-se  debater  a  educação  e  a  revolução.  Um  binómio  nem  sempre  conjugado  e  que  foi  convenientemente separado à nascença. Mas nem sempre foi assim: em todas as revoluções dignas desse nome o amor, o quotidiano, a educação pertenciam às mesmas ondas de choque. Em cada inovação e transformação revolucionárias no campo livre da educação o Estado soube recuperá-las e cedê-las à sua classe e aos seus sequazes. Trata-se, portanto, de  inventar caminhos  impossíveis de serem recuperáveis, ou seja, de criar situações verdadeiramente irreversíveis.
Nos campos da realidade e do quotidiano, pretende-se igualmente transformá-los de modo a criar objectos reconhecíveis pelos deprimidos do mundo  inteiro;  um modo moderno  de  superação  niilista  dos  novos  cadáveres  esquisitos  e  das  nossas máscaras  acinzentadas  em  que  nos tornámos. 
Vamos  promover  estes  e  outros  debates  entre  nós,  que  teimamos  em  realizá-los.  As Derivas  de Maio  convidam-no  e  à  Suzana  Ralha,  ao António Alves da Silva, ao Rui Pereira e ao Santiago López-Petit a passar pelo Café Concerto da ESMAE, no dia 22 de Maio, pela manhã e tarde de um sábado. A falarmos e a encontrarmos saídas.

«E se a Revolução significasse, antes de tudo, Educação?»
9:30 – Entrega do certificado de presença
9:45 – Abertura
Moderação: António Luís Catarino
 10:00 –– Suzana Ralha, Professora
11:30 – António Alves da Silva, Professor
Debate
12:30 – Intervalo para almoço
«Fazer o Pensar e Pensar o Fazer – Como atacar a Realidade?»
Moderação: António Luís Catarino
 14:30 – Rui Pereira, Jornalista
15:00 – Santiago López-Petit,  Filósofo. Universidade de Barcelona
Debate
16:00 ––  Apresentação do livro de Santiago López-Petit,  A Mobilização Global seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos. Tradução e Comentários de Rui Pereira. Deriva Editores, 2010
17:00 – Projecção do Filme El Taxista Ful de Jordi Solé (Jo Sol)

domingo, março 28, 2010

Santiago López- Petit [entrevista]




Em Maio chega O Estado-Guerra, de Santiago López-Petit, com tradução, abundantes notas e comentários de Rui Pereira. .
É um livro extremamente claro sobre a origem do nosso mal-estar social e das perspectivas de um novo niilismo saído do «acontecimento» 11 de Setembro. O autor, que virá a Portugal nas próximas Derivas de Maio, apresenta as possibilidades de encontrarmos a superação necessária do capitalismo. Rui Pereira, na esteira desta obra, apresenta-nos alguns «comentários marginais» a propósito de O Estado-Guerra titulado Da Impossibilidade de Saber e da Necessidade de Fazer.

Em breve editaremos, alguns trechos em pré-publicação.

sexta-feira, março 26, 2010

Derivas de Maio * 22 de Maio


“O mais belo espectáculo de horror somos nós. Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. (…) Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída – a real, a única – e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.”


                                                                                                                                 António José Forte

sexta-feira, março 12, 2010

Uma Faca Nos Dentes, António José Forte




0 MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.

Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.

Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

A acção poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica.

Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor.

MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.

Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos

EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU
MEU AMOR

minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca

conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano dois anos um século

agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete o último o maior
no meu próprio plexo

MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites....
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO

António José Forte

quarta-feira, março 10, 2010

Dente por Dente, António José Forte

Porque as Derivas de Maio estão a chegar...

Dente por Dente


Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por
dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escar-
late, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um
minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por
olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância
de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos
dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e
do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no
festivaI das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a
saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo
menos doentes exemplares.
  Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane
aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas
palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de
paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu .
relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa
dos sanguinários.
  Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher
a tempo a nossa morte e amá-la.

António José Forte

segunda-feira, março 01, 2010

Derivas de Maio

Este ano, as Derivas são em Maio, que é um bonito mês. Na Esmae, para a Rua da Alegria. O tema: Com uma Faca nos Dentes, muito pela onda de António José Forte. Sinais dos tempos que correm. Presenças já confirmadas: Santiago López-Petit, Rui Pereira, Miguel Carvalho. Para além da política e da filosofia, vêm aí mais surpresas com a construção de pedagogias livres. No dia 22 de Maio.