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segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Planificação Editorial Deriva Editores 2016


PLANIFICAÇÃO EDITORIAL 2016 DERIVA EDITORES

derivaeditores.blogspot.pt /infoderivaeditores@gmail.com

E aqui vai mais um ano, agora o de 2016, em que a Deriva Editores se apresenta tal como ela é: com as parcerias úteis, com gostos sólidos, amizades apreendidas no trabalho e na criação de novos projetos, conseguindo uma grande coerência editorial de que nunca abdicaremos.

Este ano, apresentamos na Coleção A Ordem das Coisas, coordenada pelo Instituto de Sociologia da FLUP e por Bruno Monteiro, Antonio Gramsci: Ganhar o futuro. Textos de combate (1914-1926) que tardavam em ser reeditadas em Portugal e que estão a ser alvo de grande divulgação internacional este ano.
O período de tempo compreendido entre o início da I Guerra Mundial, em que a Itália participou como país beligerante, e a consolidação autoritária do fascismo italiano, foi ocupado também pela intensa actividade de resistência cultural e política pelos movimentos progressistas italianos. A consolidação da linha de pensamento e acção original destes movimentos teve em António Gramsci um notável executor. Ao longo deste período, afinal aquele que lhe granjeou destaque entre os seus contemporâneos, Gramsci haveria de participar intensamente nas actividades de esclarecimento público e intervenção política: escrevendo memorandos para as conferências do Partido Comunista Italiano, acompanhando as iniciativas dos «Círculos Operários» de Turim, avaliando as revoluções russa e alemã, discutindo no Parlamento com Mussolini e outros fascistas. Este volume reúne precisamente uma antologia destas intervenções, mostrando, para retomar o título da introdução de Bruno Monteiro, que organiza o volume, quem era «Gramsci antes de Gramsci».

Também na Ordem das Coisas publicar-se-á Max Weber, A ascensão do Estado. As práticas políticas, as lutas partidárias e o modo de dominação burocrática.
Pela primeira vez em Portugal são publicados os textos de Max Weber sobre a tutela do Estado sobre a sociedade, a lógica das lutas partidárias e as práticas quotidianas dos agentes políticos, reunindo num volume um conjunto de pesquisas que permitem um novo olhar sobre o universo político. Numa altura onde as regras do jogo político parecem mudar rapidamente, sendo sujeitas a uma dúvida sistemática que ameaça os próprios compromissos que sustentam a democracia, a leitura deste volume de textos permite-nos responder à excitação apaixonada dos preconceitos e fúrias políticos, que tem sido mobilizada pelos actores da política, com a soberana tranquilidade da razão sociológica, premunindo-nos contra manipulações interesseiras e inconsciências programadas. Escrevendo nos anos subsequentes à I Guerra Mundial, quando as paixões políticas se inflamavam e ameaçavam queimar quem com elas transigia, estes textos de Max Weber são uma visão lúcida sobre as causas do reaccionarismo germânico dos anos anteriores à ascensão do nacional-socialismo.

O terceiro livro desta coleção a que a Deriva deu corpo juntamente com o seu coordenador Bruno Monteiro (que também os traduziu) será de Jacques Bouveresse, A sátira e a moda, o progresso e o declínio. Ensaios sobre Musil, Wittgenstein, Freud, Kraus e outros. O grande filósofo francês Jacques Bouveresse, professor emérito do Collège de France, reúne neste volume uma galeria de retratos sobre os maiores pensadores do século XX. Vamos assim, percorrer um horizonte das referências intelectuais que vai de Sigmund Freud a Karl Kraus, passando por Ludwig Wittgenstein ou Robert Musil. Num só destes textos, Bouveresse oferece-nos simultaneamente uma visão do pensamento destes autores e um exemplo da delicada e profunda leitura crítica de que ele, Bouveresse, é mestre.

Xavier Queipo: um autor já conhecido em Portugal volta a ser editado na Deriva com as suas Crónicas Animalistas, seguidas de Pequenos Mundos. Depois do seu primeiro Bebendo o Mar (2004), os Ciclos do Bambu (2008) e Dragona (2011) e uma presença nas Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim e nas Literaturas em Viagem, em Matosinhos, esperamos que volte a ser tão bem recebido pelo público português como o foi na Galiza, em Espanha, em França e na Bélgica. A tradução estará a cargo de Luís Filipe Sarmento.

Del Furore d’ aver Libri / Do prazer de ter livros, título ainda provisório, também será traduzido pelo consagrado Luís Filipe Sarmento. Um livrinho excecional e comovente pelo seu interesse histórico e por ser um guia de como tratar os livros e do prazer em tê-los e fazê-los. Quem o escreveu foi Gaetano Volpi, um bibliófilo veneziano do século XVIII que, juntamente com o seu irmão foi proprietário da Livraria Camoniana de Veneza. O que fazer para que os ratos não roam o couro dos livros, ou que os gatos urinem para as suas folhas... eis um guia precioso para conservar livros na era da computação.

A poesia sempre. As estantes dos grandes espaços encolhem-nas, mas não nos apetece desistir. Porque nos faz viver e ver tudo de outra maneira. Como nós queremos. Este ano avançamos com Ricardo Gil Soeiro com Palimpsesto (já editou, com a Deriva, Bartlebys Reunidos) e Pedro Ribeiro, com Beat.

A parceria com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique está aí para durar e cimentar-se na edição de livros que acompanham este excelente jornal de pensamento crítico (o único?). Depois de Este País não Existe, de De Pé ó Vítimas da Dívida, de Correntes Invisíveis e A Engrenagem do Terror, todos com uma agradável receção, sairão a público mais dois volumes em 2016. São eles:
O livro do esquecimento. Memória, trauma e violência entre a história e o vazio. Uma selecção a realizar por entre os textos publicados pelo jornal. Garantido fica, desde já, um itinerário que vai da Espanha franquista à Indonésio de Suharto, da «caça às bruxas» norte-americana à «Operação Condor» latino-americana, do colonialismo europeu em África à guerra da partição entre a India e o Paquistão.
A nova vida do Leviatã. Hegemonia e intervenção autoritária do Estado nos séculos XX e XXI: Pensar o Estado sem o pensamento de Estado, recorrendo, para isso, a originais investigações sobre as políticas do Estado português (Rui Pedro Pinto, Patrícia Matos, João Queirós, Manuel Loff, Nuno Serra, Lise Desvallées, Miguel Heleno, José Madureira Pinto, Ronald Chilcote, Victor Pereira, Nuno Domingos … ), que serão reforçadas por textos de alguns dos mais influentes cientistas sociais da actualidade (Loïc Wacquant, Vincent Dubois, Jürgen Kocka, Philippe Bourgois, Helène Michel, Alexis Spire).

Os Cadernos Desobedientes, livrinhos inquietantes de baixo preço, depois de editados Desobedecer à Praxe e Desobedecer à União Europeia, continuará a sua ação de nos precaver contra o pensamento único instalado, com Desobedecer ao Género, de João Manuel Oliveira e Desobedecer pela Escola, de Hugo Monteiro e Inês Barbosa. No segundo semestre publicar-se-á Desobedecer às Indústrias Culturais, de Regina Guimarães e Desobedecer através do Riso, de Miguel Viterbo. A parceria da Deriva é, mais uma vez, com a Cultra, do Porto.

A partilha de ideias com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP, traduzir-se-á com a edição de mais três livros. Um na coleção Cassiopeia, Revisitar Annemarie Schwarzenbach, de Gonçalo Vilas-Boas e dois na pequena coleção Pulsar, Morelli, Freud e Sherlock Holmes: indícios e método científico, de Carlo Ginzburg e Figurinus: O Corpo em Cena, de Gonçalo Vilas-Boas e Isabel Morujão, este último para o público que ama particularmente o teatro.

Na sociologia e política, a Deriva continua a agitar as águas com dois livros, A Vida entre Nós: a Sociologia em Carne Viva, de Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes e João Teixeira Lopes e Desigualdades Sociais e Participação Educativa de Adultos, com a coordenação do professor Luís Rothes, da ESE do Porto.

Cidades Materiais, será a edição de mais um livro de crónicas da autoria de António Alves Martins que nos conta périplos, pequenas e grandes viagens em torno de lugares improváveis com encontros ainda mais improváveis na cidade de Lisboa e outras paragens mais distantes.

Título
Autor
Mês
Parceria com
Coleção
Ganhar o futuro. Textos de combate (1914-1926)

Antonio Gramsci
Março
Instituto de Sociologia da FLUP / Deriva
Tradução de Bruno Monteiro
Sociologia / A Ordem das Coisas
A ascensão do Estado. As práticas políticas, as lutas partidárias e o modo de dominação burocrática.



Max Weber
1º semestre
Instituto de Sociologia da FLUP / Deriva
Tradução de Bruno Monteiro
Sociologia / A Ordem das Coisas
A sátira e a moda, o progresso e o declínio. Ensaios sobre Musil, Wittgenstein, Freud, Kraus e outros.



Jacques Bouveresse
2º semestre
 Instituto de Sociologia da FLUP / Deriva
Tradução de Bruno Monteiro
Sociologia / A Ordem das Coisas
Crónicas Animalistas, seguidas de Pequenos Mundos

Xavier Queipo
Abril
Tradução de Luís Filipe Sarmento
Romance
Del Furore d’ aver Libri / Do prazer de ter livros (título provisório)

Gaetano Volpi
Maio
Tradução de Luís Filipe Sarmento
Crónicas de um bibliófilo veneziano do século XVIII proprietário da Livraria Camoniana
Palimpsesto
Ricardo Gil Soeiro
Março

Poesia
Beat
Pedro Ribeiro
Maio

Poesia / Deriva de luxe
O Livro do Esquecimento. Memória, trauma e violência entre a História e o vazio
VVAA
Ao longo do ano
Edição Portuguesa do Le Monde Diplomatique /Deriva
Edição própria com a Deriva / Política / Sociologia / História
A Nova Vida do Leviatã. Hegemonia e intervenção autoritária do Estado nos séculos XX e XXI
VVAA
Ao longo do ano
Edição Portuguesa do Le Monde Diplomatique /Deriva
Edição própria com a Deriva/ Política / Sociologia / História
Desobedecer ao Género
João Manuel de Oliveira
1º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Desobedecer pela Escola
Hugo Monteiro e Inês Barbosa
1º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Desobedecer às Indústrias Culturais
Regina Guimarães
2º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Desobedecer através do Riso
Miguel Viterbo
2º semestre
Cultra / Deriva
Cadernos Desobedientes / Política / Sociologia
Revisitar Annemarie Schwarzenbach
Gonçalo Vilas-Boas
Fevereiro /Março
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Flup / Deriva
Coleção Cassiopeia
Morelli, Freud e Sherlock Holmes: indícios e método científico
Carlo Ginzburg
Março / Abril
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Flup /Deriva
Coleção Pulsar
Figurinus: O Corpo em Cena
Gonçalo Vilas-Boas e Isabel Morujão
Maio / Junho
Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Flup /Deriva

Coleção Pulsar
A Vida entre Nós: a Sociologia em Carne Viva
Sofia Lai Amândio, Pedro Abrantes e João Teixeira Lopes
Abril
FLUP / Sociologia
Sociologia / Política
Desigualdades Sociais e Participação Educativa de Adultos
Coordenação de Luís Rothes
Abril/Maio
ESE do Porto
Sociologia / Política
Cidades Materiais
António Alves Martins
Maio
Crónicas
Crónicas / Deriva de Luxe

domingo, setembro 28, 2014

Bakhtin na Gato Vadio. Impossível uma selfie do autor

Foi ontem, pelas 21:30, na Livraria/Bar Gato Vadio que se deu o encontro com Bakhtin através de Bruno Monteiro e do editor. Depois de uma biografia contada sob o mantra anti-estalinista onde o autor contou com dois exílios e duas reprovações da sua tese de doutoramento sobre Rabelais pelo insuspeito Instituto Gorky. Bruno Monteiro demonstrou-nos a importância de Bakhtin, das suas teorias literárias e dos seus conceitos de dialogias e polifonias na obra literária, entre outros. Hoje, é impossível reconhecer a obra deste autor razão pela qual, nos orgulhamos de a editar. 
14,50 euros. Pedidos a infoderivaeditores@gmail.com

quarta-feira, setembro 03, 2014

Sinopse de Para uma filosofia do acto, de M. Bakhtin

PVP- 14,50  euros
Embora admitindo-se que é o mais antigo dos textos conhecidos de Mikhail Bakhtin, Para uma filosofia do acto, escrito originalmente em 1919 e 1920, apenas foi publicado em russo em 1986. Intimamente ligado às contingências por que passava o autor enquanto teve que enfrentar a animadversão das autoridades soviéticas, o manuscrito ia apodrecendo em Saransk, onde esteve Mikhail Bakhtin depois de regressar do seu exílio cazaque. Nestas páginas, em que ainda sentimos as reverberações das tentativas do pensamento de Mikhail Bakhtin para encontrar o modo de expressão peculiar que seria depois o seu, temos uma oportunidade excepcional para assistir a um ensaio de problematização e proposta de uma visão lúcida sobre a prática, a ética e a criação literária centradas sobre o próprio momento da criação, sobre a eventicidade do evento, as irredutíveis qualidades de qualquer gesto ou obra que apenas podemos compreender conhecendo o instante da criação emergente.

quinta-feira, agosto 28, 2014

Em breve nas livrarias: «Para uma Filosofia do Acto», de Bakhtin

É este o novo livro da colecção a Ordem das Coisas, da Deriva. Junta-se assim aos outros títulos de Wittegenstein, Observações sobre o Ramo Dourado de Fraser, de M. Pialat, Crónicas Peugeot e de vários autores da FLUP do seu departamento de Sociologia que editaram a História Social do Porto. A organização da colecção é da responsabilidade de Bruno Monteiro e o seu Conselho Editorial é formado por José Madureira Pinto, Manuel Loff, Silvestre Lacerda e Virgílio Borges Pereira. 
O livro acabou de sair da tipografia e em breve daremos mais notícias sobre ele e do seu autor que pela primeira vez é editado em língua portuguesa.
Pedidos para derivaeditores.blogspot.pt


segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Crónicas Peugeot: «Não sei se algum dia partirei da fábrica»

«Não sei se algum dia partirei da fábrica. Porque vou contar-te uma coisa perfeitamente parva, mas... há um ano, estivemos uma semana no desemprego, mesmo antes das férias, portanto isto dava cinco semanas. Ao fim de quatro semanas de férias – estávamos perto de Cherbourg – já não dava mais. Estava a bater mal lá. Estava a bater mal, fui obrigado a vir embora. Sabes, uma espécie de necessidade masoquista. Não estava bem. Quatro semanas, tudo bem, vês: recuperas fisicamente, fazes o ponto da situação na tua cabeça, tudo bem, descontrais... e depois, dizes para contigo: ‘O que é que me espera quando regressar? Portanto preciso de voltar. Preciso de voltar para ver, para estar ali porque... Começo a estar farto das férias, começo a andar às voltas. Ando aqui a coçar os tomates, tenho que bazar’. E foi o que nos aconteceu. Viemos embora uma semana antes. Demos cabo de uma semana de férias para vir embora. Precisava de ir ver a fábrica durante as férias, vês, quando a fábrica está parada. Ir diante da porta e dizer para comigo: ‘Merda, mas como é que a gente vai fazer para desmontar esta coisa?’ Fazer isto...
Crónicas Peugeot, de Michel Pialoux e Christian Corouge. Deriva

sábado, janeiro 11, 2014

O Inverno da investigação, por Diogo Ramada Curto, no Público de 30. 12. 2013. Onde se fala da Deriva e de Bruno Monteiro

Investigação em Humanidades e Ciências Sociais à beira de uma hecatombe
O Inverno da investigação
 Diogo Ramada Curto


Uma enorme desorientação e escolhas políticas erradas puseram a investigação em Humanidades e Ciências Sociais à beira de uma hecatombe que corre o risco de desperdiçar uma geração promissora

Este ano o Inverno chegou à investigação das Humanidades e Ciências Sociais com a força de uma hecatombe. Um autêntico desastre, de consequências imprevisíveis, a revelar uma total desorientação por parte de quem nos governa! A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), sob tutela do Ministério da Educação e Ciência, com responsabilidades no financiamento da pesquisa em Portugal, perdeu o controlo sobre o processo de atribuição de contratos de investigação por cinco anos. E, apesar de ser obrigatório reconhecer que o número de contratos a concurso até aumentou, passando de centena e meia para duas centenas, a contestação está por todo o lado. Porquê?
Mariano Gago, em entrevista ao Expresso do passado dia 14, pôs o dedo na ferida, e denunciou a política errada de falta de confiança nas instituições universitárias e de pesquisa. Na mesma linha, poder-se-á argumentar que a responsabilidade na criação de concursos altamente contestados denuncia falta de autoridade, mais propriamente científica, por parte de quem decide, governa e torna obscuros os meandros de um processo que não tinha, até agora, sido objecto de tanta discussão. Muito concretamente, em todas as áreas se torna evidente que não foram contempladas candidaturas de excelência. Qualquer que se seja o sentido que se atribua à putativa “excelência”, irmã gémea do “empreendedorismo” — um chavão a pretexto do qual se reduzem custos para aumentar produtividade.

No que respeita às ciências sociais e humanas, há dois aspectos interligados que podem ajudar a perceber as referidas faltas de autonomia e autoridade. Refiro-me à remodelação do Conselho Científico na mesma área, que se politizou partidariamente e para o qual o ministro da tutela começou por nomear a sua própria mulher e um amigo de juventude, director de um centro de investigação sempre mal classificado pela própria FCT. Bem mais importante ainda é mencionar que o número de contratos foi reduzido para metade. Ou seja, se em 2012 foram dados cerca de 20% do total dos contratos às ciências sociais, este ano os mesmos passaram para quase 10%.

Pertenci ao anterior Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da FCT e assisti a tentativas do mesmo género para reduzir a importância da área. Por isso mesmo, percebo bem que só graças a um novo Conselho — com menos autonomia, autoridade e experiência — foi mais fácil fazer gato-sapato. Mais. Com a redução do número de contratos atribuídos à área em causa, é normal que tenham vindo ao de cima possíveis escolhas arbitrárias, algumas distorções parciais e, sobretudo, uma enorme incapacidade para fazer reconhecer como legítimos critérios de avaliação que não são uniformes.

2. A ausência de reconhecimento que suscita uma instituição como a FCT, ou seja, o pôr em causa de uma instituição do sistema de investigação em Portugal, está presente em muitas outras escalas do frágil edifício científico que caracteriza as humanidades e as ciências sociais. Um inventário, mesmo que incompleto, das debilidades deste edifício não implica que tivesse existido uma qualquer época dourada, do passado recente ou longínquo.

Arrisco mesmo traçar um diagnóstico das debilidades em causa, a partir de cinco grandes linhas, sem preocupações de as apresentar por ordem. Antes de mais, o modo como as carreiras se organizam favorece a figura do professor transformado em administrador, aspirando a um poder de direcção, mas totalmente separado da figura carismática do professor reconhecido pelas suas investigações, criações e capacidades de inovação. Num quadro dominado pelos administradores burocratas, os que investigam raras vezes têm capacidade para impor as suas escolhas, sobretudo quando se trata da nomeação dos mais jovens e brilhantes investigadores. Logo, as nomeações dos mais jovens acabam por ser decididas quer por meros critérios de gestão, quer por parte dos que chegaram ao poder por via administrativa.

Num quadro de cinzentismo e de depreciação do valor dos mais carismáticos professores-investigadores, alguns dos critérios de excelência e de internacionalização — duas das palavras mágicas dos diplomas que organizam a investigação em Portugal — assumem carácter meramente formal. Por exemplo, conheço quem por ter passado umas semanas ou uns meses com o cartão de uma qualquer biblioteca universitária norte-americana exiba os galões de “visiting scholar” ou mesmo de “visiting professor” desta ou daquela universidade da Ivy League. O mesmo se passa em relação à participação em colóquios ou em redes ditas internacionais. É que são sobretudo dignos de pacóvios muitos dos casos de puro exibicionismo de sinais exteriores de internacionalização. Curiosamente, são os professores-administradores os que mais ufanos se mostram na acumulação de tais títulos de internacionalização — que fazem sorrir uma nova geração de investigadores que, apesar de precária, se tem mostrado muito mais capaz de se internacionalizar.

Atribuo à obsessão pelos critérios bibliométricos o mesmo peso que um professor-administrador incapaz de distinguir entre níveis aprofundados de fazer ciência e as meras obras de divulgação. Claro que, pelo menos nas humanidades e ciências sociais, a bibliometria tem dois tipos de utilidade. Por um lado, serve para encontrar um critério de aparente objectividade que esconda situações de inegável arbitrariedade quando se trata de escolher, classificar e nomear. Por outro lado, permite que as escolhas meramente administrativas se baseiem em indicadores de produtividade e de boa gestão. Aqui bate, talvez, um dos pontos de maior dissolução de todo o edifício: a incapacidade de impor verdadeiros critérios de inovação científica baseados numa cultura crítica, analítica e problematizadora.

Não é, aliás, por acaso que os maiores defensores da bibliometria quantitativista são os que mais facilmente definem a investigação a partir de temas — não de problemas — com falsas preocupações de exaustividade. É que as listas de temas, tal como em muitos casos a exibição de teorias, modelos e metodologias, a cargo dos que já foram denominados como os seus cães de guarda, servem para demonstrar uma espécie de poder e para criar a ilusão da existência de escolas. Ora, estas últimas vão ao encontro da valorizada noção de grandes projectos, com financiamentos avultados, exibidos à maneira dos velhos troféus de caça, mas que raras vezes se encontram ligados à inovação criativa.

Última das debilidades do edifício das humanidades e ciências sociais: são poucas ou nenhumas as condições que favorecem a investigação e o ensino universitário que delas deveria resultar. Por exemplo, não existem bibliotecas em construção, com colecções pensadas de forma integrada — um processo lento que não é substituível pelo acesso a bases de dados, ainda por cima truncadas e desactualizadas. Ora, a existência de uma boa biblioteca — conforme disse, há muito, Marc Bloch a propósito da história comparada — fará mais pela interdisciplinaridade do que todos os discursos programáticos a seu respeito. É aqui que será necessário uma maior concentração de esforços, para que os gastos em pessoal e na sua formação sejam devidamente rentabilizados. Por exemplo, não seria mais razoável evitar a dispersão de recursos em Lisboa, num raio de dois quilómetros, por pequenas bibliotecas de centros e universidades, e simplesmente dotar de meios a Biblioteca Nacional?

3. Com a chegada do Inverno, imagino que o edifício a que me refiro poderia ser bem diferente. A esperança que ainda tenho talvez seja resultado de trabalhar e escrever diariamente na Biblioteca Nacional, uma instituição onde, apesar de todos os cortes e da falta de meios, o acolhimento aos leitores é caloroso. Mas o que mais me determina resulta de me cruzar, no meu quotidiano, com colegas mais novos, investigadores de uma geração que trabalha em posições precárias, mas com rasgo e capacidade crítica e problematizadora. O respeito que tenho por essa nova geração, que não beneficiou das condições privilegiadas de estabilidade e segurança de emprego que usufruí desde os meus 22 anos, é imenso. Não resisto, por isso, a evocar aqui três casos que apontam para caminhos muito diferentes.

Bruno Monteiro, um jovem sociólogo do Porto que não tem 30 anos, e cujo primeiro grande livro aguarda publicação, representa bem essa nova geração de investigadores em que valeu a pena investir. Herdeiro de uma tradição de pesquisa sedimentada por várias gerações de cientistas sociais do Porto, de Madureira Pinto a Virgílio Borges Pereira, tem demonstrado nos seus trabalhos um conhecimento aprofundado, crítico e analítico, do Porto e do Vale do Ave. Utilizando este território como uma base, Monteiro, graças às condições de estabilidade que a Universidade do Porto lhe tem sabido proporcionar, tem conseguido multiplicar as suas áreas de interesse e cruzar saberes. Entre as suas actividades, os seus estudos publicados por uma pequena editora independente, Deriva, e traduções por ele coordenadas, merecem ser destacados, enquanto propostas originais em que os conhecimentos disciplinares se cruzam em função da colocação de problemas, Ricardo Jorge, A peste bubónica do Porto (2010); Ludwig Wittgenstein, Observações sobre “O Ramo Dourado” de Frazer (2011); História Social do Porto (2011); Michael Pialoux e Christian Corouge, Crónicas Peugeot (2013).

Porém, as condições, os resultados e as expectativas sugeridos pelo caso de Bruno Monteiro quase parecem excepcionais no confronto com dois outros casos. Por um lado, o de uma brilhante investigadora, doutorada há três anos, que tem agora 40 anos. Doutorou-se tarde, por ter tido sempre de trabalhar ao mesmo tempo que investigava. A estabilidade do trabalho de professora num liceu de província constituiu-se como uma prioridade, quando vieram os filhos e depois o divórcio. Neste momento, a necessidade de assistência à família leva-a a angariar outros trabalhos — como tradutora, ghostwriter e tarefeira de projectos científicos — para suplementar o seu ordenado. Seria um devaneio arriscar tudo numa bolsa. Porém, sem esta a sua disponibilidade para se dedicar à escrita, necessariamente morosa, de artigos para poder ser avaliada afigura-se como uma quimera. O seu potencial, no qual irei continuar a acreditar, está pois comprometido neste círculo vicioso do qual dificilmente conseguirá fugir. E só por hipocrisia com todos os que se confrontam com situações precárias se poderá argumentar que a necessidade aguça o engenho...

Último caso: um aluno que conheço por se ter licenciado na faculdade onde ensino, onde acabou por se doutorar com bolsa da FCT, vai interromper a sua bolsa de pós-doutoramento que lhe foi concedida também pela FCT. Concorreu à bolsa de uma prestigiada fundação de pesquisa brasileira e foi escolhido como um dos quatro investigadores em mais de uma centena de candidatos. Partirá em Janeiro. Suspenderá a bolsa, na certeza de que o seu futuro em Portugal é muito incerto. Felicitei-o, como mandam as regras, mas guardei para mim a ideia de que não irá voltar.


4. Como em qualquer edifício, são vários os que têm responsabilidades sobre o estado em que se encontra a construção. A FCT, as universidades e centros de pesquisa e, sem dúvida mais limitados, os próprios investigadores situam-se em patamares diferentes de escolhas e execução. Porém, neste Inverno que agora começa, a hecatombe vinda de cima — suscitada por uma enorme desorientação e por erradas escolhas políticas — tem consequências difíceis de admitir. Sobretudo quando se trata de sacrificar o elo mais fraco e de transformar em vítimas os investigadores de uma nova e promissora geração.

terça-feira, novembro 19, 2013

Crónicas Peugeot. O que são? Que história por detrás do livro?

No início dos anos 80, o sociólogo Michel Pialoux conheceu Christian Corouge, operário e sindicalista nas fábricas Peugeot, em Sochaux (França). Ao longo de largos anos, eles mantiveram um diálogo sobre os pequenos nadas que preenchem o quotidiano do trabalho fabril, a entreajuda, galhofa e convívio entre colegas de trabalho, as resistências e increpações perante as tentativas de controlo patronal. A partir da história singular de um operário, o que, por si só, vem pôr em causa as concepções que tendem a anular a subjectividade dos próprios trabalhadores, são trazidos para o primeiro plano todos os aspectos que fazem do trabalho o que ele realmente é, sejam as vicissitudes que representa organizar uma manifestação sindical a exigir uma melhoria das condições de trabalho, seja o suicídio de um colega que não pôde mais suportar as humilhações da gerência, seja ainda o orgulho sentido em preservar intransigentemente a dignidade pessoal contra todas e quaisquer intrusões e pressões.

«Aqui estão “lançadas sobre o papel as palavras da língua falada”, palavras simples, por vezes brutais e frequentemente cómicas: as palavras de Christian Corouge, operário da fábrica Peugeot de Sochaux e delegado sindical, trocadas com o sociólogo Michel Pialoux por ocasião de entrevistas gravadas entre 1983 e 1986. Corouge analisa os métodos Peugeot de gestão da mão-de-obra, as técnicas de repressão dos militantes bem como as técnicas de resistência, a convivialidade entre operários, indissociável do sucesso de uma greve. Resistir no local de trabalho é também ultrapassar o horizonte estreito que ele poderia impor ao formular um questionamento político sobre a representação dos operários e a delegação do poder, sobre as relações com os intelectuais e com a cultura, sobre o lugar das mulheres e dos imigrantes.»
Célestin Saldana, «Compte rendu», Le Monde Diplomatique, Dezembro de 2011.

«Christian Corouge, operário da Peugeot, dialogando com o sociólogo Michel Pialoux, traz um olhar singular sobre as desilusões da causa operário no último terço de século. Um caso exemplar de produção intelectual partilhada entre um artesão do intelecto e um pensador da actividade operária. (…) Estando para lá do simples testemunho pela sua reflexividade, a pesquisa comporta um interferência original, explícita e cultivada, entre aspirações sociais e ciências sociais. Desde quando foi realizada, ela contribuiu para a renovação na etnologia e na sociologia das investigações sobre a sociedade francesa, e daquilo que podemos designar por movimento etnográfico francês.»


Nicolas Hatzfeld, «Da la chaine à la plume», La Vie des Idées, 5 de Setembro de 2011.

sexta-feira, novembro 15, 2013

Ontem, na UPP. Apresentação de Crónicas Peugeot

O editor, Bruno Monteiro e José Madureira Pinto da FLUP

Foi na Universidade Popular a apresentação de Crónicas Peugeot, de Michel Pialoux e Christian Corouge. Não esteve muita gente, antes pelo contrário. Doze pessoas num dia de futebol de tudo ou nada, que isto de Portugal não ir ao Mundial do Brasil ainda seria uma desgraça. Pelos vistos, foi mais uma vez o jovem Cristiano Ronaldo, o sempre eterno herói nacional a colocar-nos no mapa futebolístico. Longe da valorização merecida anda quem trabalha todos os dias para ganhar a vida e sobreviver com o que o lhe dão e tiram todos os dias. Era isso que queríamos debater. Connosco estiveram Bernard Despommadéres, adido cultural do consulado francês, responsável pela última vinda de Pialoux ao Porto, Virgílo Borges Pereira que trazia uma mensagem de Pialoux, José António Gomes, Sérgio Vinagre, José Soeiro e outras gentes não deixaram em vão a preocupação de relacionar o trabalho sociológico inovador de Pialoux com a classe operária da Peugeot de Sochaux. Para quem teima, em tempos de resistência antiliberal, em não esquecer que ainda há explorados. E exploradores. Agora, Lisboa e Coimbra. E, provavelmente, o Porto outra vez. Sem futebóis.