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sexta-feira, outubro 11, 2019

Pensar em tempos de não-pensamento. Notas para uma analítica do brutal na contemporaneidade, de Rui Pereira


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Foto Rui Grácio Editor

Rui Pereira tem um percurso singular na área do jornalismo, principalmente no Expresso que abandonou, abraçando a investigação e docência universitária na Filosofia. Tem trabalhos e ensaios traduzidos para espanhol, francês, alemão e italiano. Pensador excecional, amigo do seu amigo, generoso e de grande empatia pessoal, lembrar-me-ei sempre de uma conversa entre ele  e o catalão Santiago Lòpez-Petit, acerca do seu livro «Amar e pensar» editado há anos e, creio, nunca traduzido para português. A conversa decorreu em 2010, pouco antes de uma conferência onde iria apresentar «O estado-guerra» deste último e foi com um entusiasmo muito grande que o Rui envolveu esse o «Amar e pensar» como uma espécie de alfa e ómega de toda a atividade humana. A partir daí, pergunto-me sempre se haverá outros temas que nos façam verdadeiramente felizes, completos. Sinceramente, até hoje, não encontro mais nenhuns temas apesar da vastidão dos conceitos. Mas o Rui Pereira é assim. Levanta questões, não teme labirintos e dá-nos a ponta de um fio por vezes envolto em meadas aparentemente impossíveis de desfiar. Repetia muitas vezes, em diálogo, o seu «Achas?» que nos põe a pensar no que acabámos de dizer. Por proposta dele, a Deriva Editores, e sob a nossa responsabilidade, conheceu e editou Vicente Romano, o já citado Santiago Lòpez-Petit e Angel Rekalde. Sensação extraordinária esta de os ver na bibliografia.

O livro «Pensar em tempos de não-pensamento» lê-se sem nunca o conseguir largar até ao fim. Um conselho: nada nos deve interromper na sua leitura, porque há uma ligação entre os capítulos resultantes de um pensamento sólido, que põe a nu estes tempos contemporâneos de brutalidade e que se reflete no cuidado entre a fraseologia académica a queo autor não pode fugir e a explicação para públicos mais heterogéneos . Atenção: não julguem o livro fácil. Não o é. Obriga-nos a voltar atrás em algumas frases, parar e seguir depois de nos interrogarmo-nos bastas vezes. Por isso mesmo é um livro excecional. O Rui não faz cedências. O livro editado pela Grácio Editor é o nº5 da coleção Poiesis. Podem pedi-lo para editor@ruigracio.com, cujo sítio é o www.ruigracio.com . A obra é constituída por capítulos: Apresentação, A Coisa, Fundações, Casa das Máquinas, Gramática, Pensar, Síntese e as inevitáveis e importantíssimas referências. O livro foi apresentado em forma de cinco conferências a convite da Biblioteca Pública de Gondomar.

Não pensem o «brutal» como mais uma denúncia da guerra, ou da boçalidade de um Trump, de um Bolsonaro ou de Duterte. Também o é, mas o Rui não quer ir somente por aí. O seu pensamente vai muito mais longe. Atrevo-me a apresentar-vos algumas questões propostas pelo autor: o que fez esta sociedade por nós, senão o voltar ao «pensamento mágico» que dantes serviria para aplacar a ira dos deuses e, agora, para não incomodar muito os senhores do mundo? O que ela fez para nos tornar viciados em entretenimento alarve? Até onde nos levou um sistema escolar que não questiona, que não lê, que não consegue escrever os poucos vocábulos de que os alunos (e alguns professores) dispõem? Quem nos levou à sacralização do deus-dinheiro? Terá isso a ver com a cultura dominante de um egoísmo hedónico que nos faz competir e esmagar o outro, em vez da necessária partilha? Que mercado é esse que nos levará seguramente para a catástrofe? Qual o papel dos media na edificação da «brutalização contemporânea», nas palavras de Rui Pereira? Quem ainda nos faz trabalhar pelo trabalho estupidificante na era da tecnocracia? Quem promove a precariedade e porque somos cada vez mais? Por que já não existem contratos fiáveis, mesmo aqueles que são assinados pelos Estados? Que razão levou à transformação da notícia ao conjunto de fait-divers com que nos bombardeiam a toda a hora, a todos os minutos? Por que razão aceitamos que a qualquer momento da nossa vida podemos cair na miséria mais absoluta e achar isso normal?

Mas damos a palavra a Rui Pereira: «Eis pois o desafio que me proponho e que vos proponho, nestas – enfrentemos o nome – ‘’conferências’’sobre o pensar e o pensamento, num tempo que chamo de não-pensamento e em que, decerto, tudo parece estar já dito, quando se olham as prateleiras de qualquer biblioteca. Por essa razão, o meu método será, em, larga medida, o de tomar palavras a outros. Autores, obras, fragmentos, palavras que nos ajudem a responder a questões que se nos depararão. O meu método fundamental será, assim, o da citação. O da transcrição ou da paráfrase, isto é, o do recurso do pensamento ao próprio pensamento que o antecede.» Atrevo-me igualmente a dizer que a clarificação excecional do pensamento de Rui Pereira é fundamentado nas transcrições e citações que o faz e na panóplia fantástica de autores que nos dá a conhecer, mesmo em frases e ideias que nunca pensaríamos pudessem ser ditas pelos que julgamos conhecer há muito. E assim, certeiro, usa uma frase de Bragança de Miranda «rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas, no fundo, cita-se sempre, mais ou menos obscuramente».

Para concluir, o método do pensar é proposto pelo contraditório. O pensar torna-se pensar porque luta contra o pensar. Ou seja, pensar, como diz Santiago Lòpez-Petit «será interromper o senso comum, perfurar a realidade, destruir o manto da obviedade que a protege, em suma, abrir espaços de vida». Rui Pereira finaliza com algumas palavras sobre aquilo que chamo de método de pensar:  «De certa maneira, tentei, com estas conferências trazer-vos aqui, algo do que julgo poder ser um exercício deste tipo. Talvez o indeferentismo imperante, esse estranho batido de impotência misturada com indiferença, reclame de nós a reabilitação, teórica e não só teórica, (...) que sejam capazes de nos devolver a notícia de nós, no quadro de uma ‘’interioridade natural’’ (ou ‘’mental’’) que nos afaste da cegueira moral, da anestesiada dessensibilização de que falava Zygmunt Bauman.

Aproveito, para felicitar Rui Pereira pela qualidade não só das transcrições, mas também a interpretação que delas faz. É raro ver citar (por exemplo Debord) com o rigor com que o faz. Vejo, amiúde, falar do «espetáculo» debordiano como «entretenimento». Em Debord nunca o foi e é vítima desta subversão, diria, de estado. Trata-se, pois, de espetáculo dominado pelas trocas de mercadorias com o seu valor de troca e de uso que, mais tarde, veio a desenvolver o conceito de «espetáculo integrado» em que tudo é alienação, porque integrado num sistema global de «brutalidade contemporânea» baseado no mercado global. E quantos outros autores são aqui expostos na eterna preocupação de resgatar o humano. O pensamento do Rui contribui para isso, sem dúvida.

António Luís Catarino
Coimbra, 11 de outubro de 2019

domingo, julho 13, 2014

Bertrand do ArrabidaShopping: Livros da Deriva

Pode encontrar-se facilmente na Bertrand do ArrabidaShopping em Gaia, na estante da sociologia A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano e o Call Centers, de João Carlos Louçã. Tem tudo a ver.

domingo, dezembro 30, 2012

2013: a intervenção política da Deriva vai, seguramente, continuar

2013 vai ser um ano de intervenção política. Os nomes que constituem esta coleção da Deriva em que alguns passaram por Portugal são Vicente Romano, Santiago Lopéz-Petit, John Zerzan, Kenneth White e Peter Lamborn Wilson

quarta-feira, novembro 07, 2012

domingo, abril 29, 2012

sexta-feira, junho 03, 2011

Sugestões para o dia de reflexão...





Toda esta obra, com frequência profundamente original, disseca os processos comunicacionais a partir da sociologia, da educação, das representações e funções sociais, da interculturalidade, entrando inclusivamente na relação entre o fazer comunicacional contemporâneo e os usos do tempo e do espaço humanos. Defensor de uma necessariamente nova “ecologia e ética da comunicação”, a obra de Vicente Romano é um paradigma da junção entre valor científico e mérito transformador profundamente revolucionário. Quando a academia falha a este, que deveria ser o seu chamamento natural, que a ele acudam pensadores da envergadura do professor Vicente Romano, cuja obra de divulgação, “A Formação da Mentalidade Submissa”, que a Deriva edita agora em Portugal, contando já com dezenas de milhares de leitores e editada em diversos países do mundo, é não apenas a primeira a ver a luz do dia em língua portuguesa, como uma síntese modelar, de todo o seu notável trabalho. [Rui Pereira]





Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade." Santiago López-Petit 

domingo, abril 10, 2011

A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano

Cada vez vale mais a pena ler A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano.

Pela sua própria natureza, a informação é selectiva. Devido às limitações espácio-temporais, aos condicionamentos profissionais, ideológicos, culturais, etc., os jornalistas vêem-se sempre obrigados a seleccionar.

Quase nunca dispõem do tempo, do espaço e da autodeterminação suficientes para dizer o que gostariam. Daí que possa afirmar-se que um domínio superior da língua, o seu uso consciente e competente, seja uma das qualidades fundamentais do jornalista. Entre os jornalistas, embora sejam raros, podem existir casos de ingenuidade profissional, mas em informação nada há que seja inócuo.
[…]

Em vez de chamar as coisas pelo nome, esta retórica apresenta a guerra através da metáfora de um jogo. Assim é quando se compara a guerra com partidas de póquer ou de xadrez, ou quando se fala de “teatro de operações” excluindo-se, sempre, as suas consequências mortais para a população. As metáforas da natureza aparecem em terminologias como “guerra relâmpago” (um termo predilecto dos nazis – Blitzkrieg), “ondas de bombardeamentos”, “tempestade do deserto”, etc. Provoca-se, assim, a adesão da ideia das guerras à ideia das catástrofes naturais contra as quais nada há a fazer que as possa evitar. As vítimas reais perdem a sua condição de pessoas. Perdem-se tanques ou aviões, destroem-se instalações militares, etc., mas omite-se o destino dos pilotos ou das vítimas civis desses ataques. Os objectos adquirem, pela mesma via, uma condição humana: trata-se de armas e bombas “inteligentes”.

Outro dos recursos utilizados na desorientação ou, o que é sinónimo, na desinformação, é o emprego de neologismos que ocultam a barbárie das acções bélicas. Os civis mortos, as casas, escolas, hospitais, barragens, campos, colheitas, etc. destruídos são apresentados como “danos colaterais”. Os indicadores de distanciação reduzem, por seu lado, a credibilidade do inimigo. Começa-se com “segundo fontes…” ou “o citado…”, para se prosseguir com a valorização dicotómica entre bem e mal, na qual os bons “confirmam”, “advertem”, enquanto os maus “enganam”, “ameaçam”. Os bons têm “governo”, os maus, “regime”.
O uso correcto da língua contribui para a eficácia da comunicação, para o aumento do conhecimento, quer dizer, para que a ignorância se reduza e para a ampliação da liberdade humana. Por isso há que cuidar e dominar a língua, os recursos expressivos para a transmissão de informações. Em tempos de guerra, de incerteza e de angústia social como os actuais, é fácil recorrer ao sensacionalismo, à manipulação orientada da emocionalidade. Sim, os profissionais da informação não podem renunciar à sua sensibilidade ante a dor e a exploração dos seres humanos. As suas reportagens e as suas palavras reflectem a sua posição perante os factos, mesmo quando tentam ocultá-los. Mas não se pode esquecer que estes profissionais são observadores, não actores. E, ainda que a verdade possua muitas caras e seja difícil obtê-la por inteiro, podem, sim, aproximar-se dela. in A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano.

sexta-feira, março 11, 2011

Actualidade: A Intoxicação Linguística e Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano


"A manipulação dirige-se ao pensamento, aos sentimentos, às acções (e omissões) de toda e qualquer pessoa. Da esfera íntima até à apresentação pública no trabalho, na escola ou na política, não sobra um único aspecto, uma única dimensão da vida que dela não receba a influência. O objectivo final da manipulação é a obtenção da passividade e da submissão. A manipulação das mentes é uma guerra psicológica planificada, elaborada a partir de conhecimentos científicos, contra o desenvolvimento progressista, isto é, solidário e cooperativo do ser humano ou, o que é a mesma coisa, orientada contra o progresso social" in  A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano


A imprensa, a rádio e a televisão baseiam-se na repetição. A melhor ilustração desta circunstância é o ritual da televisão, uma vez que requer a visão e a audição, forçando os espectadores à postura sentada, enquanto a rádio e a imprensa lhe permitem liberdade de movimentos. Esta porque pode suspender-se e retomar-se noutro momento, a rádio porque a recepção da sua mensagem depende apenas do ouvido. Do ponto de vista da transmissão, a rádio é o meio mais rápido. As suas mensagens podem difundir-se praticamente a qualquer momento e, com a ajuda da telefonia, em praticamente todos os lugares. 

Também aqui, porém, o império dos prazos e da imediaticidade existe, elaborado a partir do ritual horário e de calendário que o interpreta, à semelhança do que sucede com os outros meios. E, onde há interpretação há clero, quer seja religioso quer profano. É ele quem decide o que pode ouvir-se, ler-se ou ver-se a que dias e a que horas. Actualmente, pode observar-se como a televisão estatal se molda e inclusivamente antecipa a concorrência comercial da televisão privada, desbragando a linguagem e reduzindo os programas de conteúdo cognitivo em favor das compensações emocionais ou, pelo menos, atirando-os para horas de escassa audiência. 

A minuciosa coacção dos prazos educa para a fugacidade da percepção. A brecha entre o electronicamente perceptível e o que fica registado em papel aumenta dia a dia. É preciso questionar se aquilo que os olhos vêem é fiável, pois desde Aristóteles que se acredita que ver é saber. A redução sucessiva da linguagem transformada num mero código de sinais ominosos, aumenta, claro está, a velocidade da transmissão. Mas a comunicação à velocidade de relâmpago de insinuações binárias, de símbolos positivos e negativos, não passa de um código que nada tem já a ver com a pugna pela expressão humana através da linguagem.  in  A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano

domingo, fevereiro 20, 2011

Tempos de Intoxicação Linguística

Hoje em dia, a maior parte da comunicação é realizada através dos chamados meios de massas que, tal como o termo 'comunicação de massas', não deixa de ser um eufemismo. Como é sabido, nem as massas comunicam entre si através destes meios, nem eles são das massas, mas sim de uns poucos que produzem massivamente para as massas.
Em suma, estes poucos detêm o poder de definir a realidade para os demais, de dizer-lhes o que se passa, o que é bom e o que é mau, o que há a fazer e a não fazer, como fazê-lo, etc. Este poder de fixar o programa social de qualquer comunidade é a chave de controlo social. Lorde Nordcliffe, dono de um dos maiores consórcios jornalísticos de princípios do século XX explicava-o assim, sem papas na língua: "Deus ensinou os homens a ler para que eu possa dizer-lhes quem devem amar, quem devem odiar e o que devem pensar".
E o que nos contam é quase sempre a história dos outros, não a nossa. Ora, se estamos ocupados a viver a história dos outros, não temos tempo para nos preocuparmos com a nossa própria. Pois que se dela nos ocupássemos e descobríssemos como são outros que a determinam, não ficaríamos de braços cruzados, tentaríamos mudá-la para melhor.
Produção massiva significa produção em série, indiferenciada, simplificação e estereotipada. Como na produção comunicativa o que está em causa são produtos do pensamento, conteúdos de consciência, essa serialização e indiferenciação têm necessariamente a ver com produção de pensamento indiferenciado, acrítico, mágico.
Na comunicação, o engano não se dá apenas no quadro dos meios primários, senão que, pelo contrário, ele ocorre sobretudo no âmbito dos meios terciários, quando os participantes necessitam, tanto um quanto outro, de aparelhos para comunicar. A técnica da comunicação, acelerada através das grandes distâncias para grandes quantidades de receptores dispersos, conduz à simplificação dos signos em imagens e abreviaturas linguísticas. Deste modo, reduzem as possibilidades da sua própria decifração, ao mesmo tempo que sobrecarregam a percepção com novas abreviaturas e excedem a capacidade da memória.
A maioria das pessoas adquire a sua consciência através do trabalho. Todo o socialismo se baseia na hipótese de que há que consciencializar os seres humanos. Após esta ilustração, serão eles a tomar o seu destino nas mãos, a emancipar-se do poder dominante da economia e dos proprietários dos meios de produção. Uma tal consciencialização não pode dar-se na Era da expansão global dos grandes meios técnicos de comunicação, uma vez que estes não fomentam o trabalho consciente mas, antes, o reduzem. Fazem-no de muitas maneiras. Primeiro, criando tensão. Trata-se de um processo de distracção. Segundo, simplificando a realidade através da oferta dos mesmos padrões de comportamento que são sempre binários: bom e mau, acima e abaixo, falso e verdadeiro, etc. Estas pautas de comportamento realizam-se na figura estética do televisor.
Neste processo é também a imaginação que se simplifica. Às pessoas é servido sempre o mesmo, sob formas cada vez mais elementares, primitivas, uma vez que, de acordo com a economia de sinais, os proprietários têm de fazer investimentos cada vez maiores e, por consequência, têm de chegar a números cada vez maiores de receptores, para rentabilizar esses investimentos. Só se pode chegar a audiências cada vez maiores excluindo a diferenciação e reconduzindo permanentemente ao que todos entendem: coito, violência, saída — entrada, subida — descida, isto é, modelos muito rudimentares. Com estes pares binários atinge-se um forte efeito dramatológico, ainda que à custa de grandes perdas em sentido de realidade e possibilidade de conhecimento, pois quem selecciona abstrai e, claro, tem de deixar mais e mais coisas de fora. Em consequência, é de esperar uma longa época de idiotização mediante uma Humanidade mediaticamente enquadrada.
Na imprensa, o que conta é a apresentação visual dos conteúdos, que são estruturados de forma a predeterminarem as modalidades perceptivas, bem como aquilo que pode conhecer-se e interpretar-se.
E é de esperar que assim continue, enquanto persista a relação directa entre a apresentação como captação visual e as bases comerciais do meio impresso. Quanto maior a tiragem, tanto mais atractiva a apresentação e tanto mais curtos os enunciados. A redução deve-se, em todos os meios, à economia de sinais.
Na radiodifusão como na imprensa, portanto, a linguagem é submetida à lei da economia de sinais, isto é, ganhar tempo e poupar espaço para chegar ao maior número de consumidores com o menor gasto possível para o produtor. Assim, o ganho de tempo é a suprema máxima da sua práxis.
No respeitante à imprensa e à tele e radiodifusão deve, porém, distinguir-se entre ganho de tempo para o produtor da comunicação e ganho de tempo para o seu consumidor. Pelo prisma da autode-terminação, o ganho de tempo do primeiro não corresponde, necessariamente, a um ganho de tempo do segundo, pois este entrega algum do seu biotempo na suposição de que tal entrega valha a pena para si. Ora essa entrega pode muito bem traduzir-se em 'tempo perdido', isto é, em tempo que não compensou os seus défices cognitivos e emocionais. Simplesmente, o tempo gasto não volta.
E o produtor tem a obrigação de reunir todos os consumidores possíveis para a sua comunicação, a fim de poder amortizar com a máxima recepção o gasto técnico que investiu.
Os receptores, por seu lado, querem entreter-se, participar, estar em comunicação, uma vez que são seres humanos e não podem, nem querem, viver isolados. Mas quando primem o botão da rádio ou da televisão, ou pegam num jornal, têm de aceitar a apresentação linguística e icónica de redução de cada um desses meios e abandonar o seu dispositivo cognitivo nas mãos de comunicações heterodeterminadas, sem poder contradizê-las, ao contrário do que sucede na comunicação primária.  in Intoxicação Linguística, de Vicente Romano

Outros livros de Vicente Romano:

A Formação da Mentalidade Submissa

"Segundo os dicionários, manipular significa "operar com as mãos, trabalhar demasiado alguma coisa, manuseá-la, manejar as coisas a seu modo ou intrometer-se nas coisas alheias" e, por fim, "intervir com meios hábeis ou, por vezes, astuciosos, na política, na sociedade, no mercado, etc., com frequência para servir interesses próprios ou de terceiros".
Desta forma, etimologicamente, manipulação acaba por ser uma intervenção consciente num dado material com um fim determinado. Neste sentido, diz-se que o oleiro manipula a argila ou que o realizador de cinema ou de televisão manipula as imagens filmadas. Aqui, vamos referir-nos à manipulação dos conteúdos de consciência, das mensagens dos meios de comunicação no seu sentido mais lato. Trata-se de uma intervenção com consequências sociais e, portanto, de um acto político."  A Formação da Mentalidade Submissa, Vicente Romano

quinta-feira, março 18, 2010

A formação da mentalidade submissa, de Vicente Romano


"A manipulação dirige-se ao pensamento, aos sentimentos, às acções (e omissões) de toda e qualquer pessoa. Da esfera íntima até à apresentação pública no trabalho, na escola ou na política, não sobra um único aspecto, uma única dimensão da vida que dela não receba a influência. O objectivo final da manipulação é a obtenção da passividade e da submissão. A manipulação das mentes é uma guerra psicológica planificada, elaborada a partir de conhecimentos científicos, contra o desenvolvimento progressista, isto é, solidário e cooperativo do ser humano ou, o que é a mesma coisa, orientada contra o progresso social. 
Naquilo a que se chama "sociedade de mercado livre", a função da indústria da comunicação, como de qualquer indústria, consiste em gerar lucro, mais ainda, em estimular a sua criação e, sobretudo, em manipular a maioria da população de maneira a que esta não empreenda acções contra o sistema de economia privada, mas antes que o apoie e reforce. A razão de ser da manipulação funda-se nas leis que regem a economia de mercado. Por isso há quem a tenha qualificado como um instrumento de conquista, como o fez Paulo Freire, na sua "Pedagogia do Oprimido". A manipulação, diz o pedagogo brasileiro, é um dos recursos mediante os quais "as elites dominantes tratam de fazer com que as massas se moldem aos seus objectivos". Valendo-se de mitos que explicam, justificam e até adornam as condições existentes de vida, a minoria que dispõe dos media mobiliza-se em favor de uma ordem social que não serve os interesses das maiorias. Uma manipulação bem sucedida fará com que as pessoas não pensem noutros ordenamentos sociais possíveis nem, consequentemente, em alterar os existentes. 
Por outras palavras, a função primordial da indústria da comunicação, da consciência, do entretenimento ou como quer que se lhe chame, na sociedade capitalista consiste em desorganizar e desmoralizar os submetidos. Neutraliza os dominados, por um lado, e consolida, por outro, a solidariedade com a classe dominante e com os interesses desta. Ao fim e ao cabo, "os ricos também choram", têm problemas com os seus filhos, etc. Os modelos de conduta que apresentam, baseiam-se no êxito pessoal, no individualismo, no isolamento e na fragmentação social. O colectivo, segundo tal lógica, não conduz a lado algum. 
Manipula-se, em suma, quando se produzem informações que não reflectem os interesses e necessidades dos seus consumidores, quando deliberadamente se produzem mensagens desconformes com a realidade social. 
O oposto da manipulação é a formação da consciência crítica e da vontade democrática, tendo em vista o desenvolvimento multifacetado da pessoa humana. Para isso requer-se, entre outras coisas, a transformação do sistema de produção material e espiritual, do sistema de ensino, a criação de condições efectivas de acesso que estendam a liberdade concreta de expressão a todos, a supressão das medidas estatais que limitam essas liberdades, requer-se a travagem e anulação da influência dos monopólios e oligopólios na formação da opinião pública e na cultura. Terão as maiorias de converter-se em protagonistas dos media, recorrendo aos modelos e exemplos concretos e reais para a formação da sua opinião em todos os aspectos da vida. O povo como protagonista, implica que as maiorias trabalhadoras elaborem as suas notícias e as discutam 
in A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano

segunda-feira, novembro 03, 2008

Miguel Carvalho e Rui Pereira na apresentação/debate sobre a Intoxicação Linguística. Sábado, 8 de Nov, 21h. Bar Uptown, Porto

Sábado, dia 8 de Novembro, pelas 21:00, no Bar Uptown (Rua Breiner, 59, na Cedofeita) Miguel Carvalho, Rui Pereira e António Luís Catarino vão debater com quem estiver presente a Intoxicação Linguística de Vicente Romano. Uma boa ocasião para estudar a questão da linguagem política nas diferentes áreas de intervenção do estado e das instituições que lhe estão associadas. Debate informal, como aliás se quer.

quinta-feira, setembro 11, 2008

A Intoxicação Linguística, próximo livro de Vicente Romano. Em breve nas livrarias

Capa de Gémeo Luís

Depois de A Formação da Mentalidade Submissa, Vicente Romano edita, na Deriva, A Intoxicação Linguística. Estará, muito em breve nas livrarias.

Introdução — Jornalismo e Língua

Pela sua própria natureza, a informação é selectiva. Devido às limitações espácio-temporais, aos condicionamentos profissionais, ideológicos, culturais, etc., os jornalistas vêem-se sempre obrigados a seleccionar. Quase nunca dispõem do tempo, do espaço e da autodeterminação suficientes para dizer o que gostariam. Daí que possa afirmar-se que um domínio superior da língua, o seu uso consciente e competente seja uma das qualidades fundamentais do jornalista. Entre os jornalistas, embora sejam raros, podem existir casos de ingenuidade profissional, mas em informação nada há que seja inócuo.
O uso correcto da língua contribui para a eficácia da comunicação, para o aumento do conhecimento, quer dizer, para que a ignorância se reduza e para a ampliação da liberdade humana. Por isso há que cuidar e dominar a língua, os recursos expressivos para a transmissão de informações.
Em tempos de guerra, de incerteza e de angústia social como os actuais, é fácil recorrer ao sensacionalismo, à manipulação orientada da emocionalidade. Sim, os profissionais da informação não podem renunciar à sua sensibilidade ante a dor e a exploração dos seres humanos. As suas reportagens e as suas palavras reflectem a sua posição perante os factos, mesmo quando tentam ocultá-los. Mas não se pode esquecer que estes profissionais são observadores, não actores. E, ainda que a verdade possua muitas caras e seja difícil obtê-la por inteiro, podem, sim, aproximar-se dela.

II

Porém, como dizia o senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917, a verdade é a primeira vítima da guerra. Em termos semelhantes se manifestara no seu, Da Guerra, o general prussiano Carl von Clausewitz, cem anos antes: “Uma grande parte das notícias que recebem na guerra é contraditória, outra parte ainda maior é falsa e a maior parte é bastante duvidosa…”. Em suma, concluí Clausewitz, «a maioria das notícias é falsa e o temor dos seres humanos reforça a mentira, não a verdade».
Como demonstraram a II Guerra Mundial, o desmembramento militar da Jugoslávia, a Guerra do Golfo ou as agressões contra o Afeganistão, o Iraque e o Líbano, as palavras do senador norte-americano no princípio do século XX, como as do general prussiano no início do século XIX não perderam validade. Pelo contrário, reforçaram-se mais e mais.
O controlo da informação e difusão de notícias e imagens foi sempre utilizado como uma arma essencial para submeter vontades e conquistar consciências. Por isso, o Pentágono não deixou ver qualquer imagem da Guerra do Golfo, anunciada como a primeira guerra televisionada na História, nem a administração norte-americana mostrou os corpos das vítimas do 11 de Setembro, como não permite, hoje, a difusão de qualquer notícia ou imagem do Afeganistão ou do Iraque que não esteja controlada, isto é, manipulada pela CIA e pelo Pentágono. E, para maior sarcasmo, isto é feito por um governo que proclama aos quatro ventos a liberdade de expressão como um dos pilares da sua organização social.
O objectivo consiste, naturalmente, em que apenas se conheça uma versão dos factos, ou seja, a comunicação unidireccional e unilateral, irreversível. Mas, por definição, a comunicação engloba o elemento da reciprocidade, da dicção e da contradição, da partilha do conhecimento. Por isso é contraditória com a vontade autoritária, a qual recorre à força e à violência física. Reciprocidade significa franqueza, abertura aos outros. Na comunicação aberta são o conhecimento e o raciocínio que se concretizam. A violência, seja esta física seja psicológica, deforma o pensamento, uma vez que não indaga acerca do verdadeiro e do falso. Os meios que se fecham impedem a comunicação. Não são recursos de violência física, não são bombas, mas transformam os seres humanos em coisas e a política que se transmite por seu intermédio não pode senão estar submetida à coacção que os meios exercem sobre os fins (Pross, 1971).
(...)
In, A Intoxicação Linguística, Vicente Romano. Em breve distribuido nas livrarias

domingo, junho 10, 2007

Edição de Junho do le Monde - A Formação da Mentalidade Submissa de Vicente Romano

É José Nuno Matos que assina a crítica de A Formação da Mentalidade Submissa de Vicente Romano na edição de Junho da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. Uma edição a ler.

quinta-feira, abril 26, 2007

Vicente Romano editado de novo pela Deriva

A Intoxicação Linguística - O uso Perverso da Língua é o novo livro de Vicente Romano que vai ser publicado, em breve, pela Deriva. O uso da língua sob o ponto de vista ideológico, mesmo escondido pelo manto supostamente neutral da linguagem e da comunicação oral (já não falando dos media) é tratado pelo autor de uma forma que já nos habituou em A Formação da Mentalidade Submissa: não fazendo cedências ao poder, chamando as coisas pelos nomes, enfrentando a complexidade da política, da economia e das lutas sociais actuais e utilizando uma linguagem e ideias de uma assinalável clareza e concisão.
A capa que vemos é da edição espanhola de El Viejo Topo.

sábado, dezembro 02, 2006

De novo nas livrarias A Formação da Mentalidade Submissa de Vicente Romano

Não demorou nada. Depois de uma grande procura de A Formação da
Mentalidade Submissa
, de Vicente Romano, a edição já está disponível nas livrarias outra vez.

Poderemos assim satisfazer a procura e enviar sem demora as encomendas que entretanto foram pedidas.

domingo, novembro 05, 2006

«E Você é um Submisso?» título da entrevista de Miguel Carvalho a Vicente Romano na Visão de 2 de Novembro


Miguel Carvalho, da revista Visão desta semana, entrevistou Vicente Romano que esteve em Portugal a apresentar A Formação da Mentalidade Submissa, editado pela Deriva. Foi aqui no Porto (na Biblioteca Almeida Garrett, com perto de 60 pessoas e moderado por Rui Pereira) e em Lisboa, na Livraria Letra Livre, com a apresentação de Isabel do Carmo e Rui Pereira. Aí, encheu-se um novo espaço desta livraria com muita gente interessada em saber o que pensa Vicente Romano sobre a origem da submissão através do Estado, dos Media e da Escola. Não necessariamente por esta ordem.
Destacamos, da entrevista de três páginas que publicaremos em breve e na íntegra, as seguintes passagens:

MC - Como é que as sociedades constroem uma mentalidade submissa?
VR - Começa em casa, na escola, mas são os media que mais «educam»: dizem-nos o que é bom e o que é mau, quem é bom e quem é mau. Através da violência simbólica ou psicológica inculcam esses significados. Outro factor determinante na formação de opinião é o entretenimento. A escola devia ensinar as crianças a ver televisão, a escola deveria, pelo menos, proporcionar-lhes formação crítica e uma reflexão sobre a forma como são manipuladas. Só a acção e a experiência levam ao verdadeiro conhecimento. O receio de perguntar é um resultado da domesticação.»
(...)
MC - Diz que as sociedades democráticas e livres são um mito. Porquê?
VR - Qual foi o momento histórico em que o poder caiu nas mãos da maioria? E onde, já agora? A democracia só será possível quando as pessoas participarem a todos os níveis. A democracia acaba quando cruzas a porta e entras na fábrica ou na empresa. Aí, manda quem pode. Os poderosos, de resto, exigem confiança e fé nos cidadãos, premissas para que um sistema funcione. É mais fácil enganar uma pessoa que confia do que outra que pensa por si própria e duvida.
(...)
MC - Que devemos fazer então para sermos um pouco mais livres, menos submissos?
VR - Ampliar conhecimentos sobre o meio e a sociedade em que vivemos. Descobrir como funciona. O conhecimento é sempre activo. E exige esforço. Depois, então, sim, tentar transformar a sociedade em nosso benefício e não de uns poucos que continuam a chupar o sangue à humanidade. Se executarmos acções sem conhecer as suas causas. condições e efeitos, passamos a ser a causa, condição e efeito das acções dos outros.»
(...)
A adquirir, pois, a Visão, num quiosque perto de si. O livro está aqui.

sexta-feira, outubro 13, 2006

A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano. Lançamentos com o autor

Capa de Gémeo Luís
Vicente Romano apresentará o seu livro A Formação da Mentalidade Submissa no foyer do Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, aqui no Porto, às 21:30h do dia 20 de Outubro (sexta), juntamente com o jornalista Rui Pereira.
Também em Lisboa, agora com o Rui e Isabel do Carmo, o livro será debatido na Livraria Letra Livre, pelas 18h do dia 21 de Outubro (sábado).
«Toda esta obra, com frequência profundamente original, disseca os processos comunicacionais a partir da sociologia, da educação, das representações e funções sociais, da interculturalidade, entrando inclusivamente na relação entre o fazer comunicacional contemporâneo e os usos do tempo e do espaço humanos. Defensor de uma necessariamente nova “ecologia e ética da comunicação”, a obra de Vicente Romano é um paradigma da junção entre valor científico e mérito transformador profundamente revolucionário. Quando a academia falha a este, que deveria ser o seu chamamento natural, que a ele acudam pensadores da envergadura do professor Vicente Romano, cuja obra de divulgação, “A Formação da Mentalidade Submissa”, que a Deriva edita agora em Portugal, contando já com dezenas de milhares de leitores e editada em diversos países do mundo, é não apenas a primeira a ver a luz do dia em língua portuguesa, como uma síntese modelar, de todo o seu notável trabalho.»

Rui Pereira, do Prefácio

domingo, outubro 01, 2006

Sobre A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano, a sair a 20 de Outubro

Francesco Fedeli
Quem é Vicente Romano:
Vicente Romano, catedrático de Comunicação Audiovisual, jubilado em 2005, da Universidade de Sevilha, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Complutense de Madrid e doutorado cum laude pela Universidade de Münster, investigador e professor na Alemanha, França, Estados Unidos Canadá e Brasil, é uma das grandes autoridades europeias e mundiais nos estudos comunicacionais.
Autor de treze livros e de outros nove em co-autorias, redigiu a impressionante quantidade de cerca de uma centena de artigos científicos para revistas da especialidade em Espanha e no estrangeiro, tem outras tantas participações em conferências, seminários, e congressos académicos nacionais e internacionais. Traduziu para o castelhano mais de meia centena de trabalhos de alguns dos mais importantes pensadores e cientistas sociais da actualidade.
Do prefácio de Rui Pereira:
Toda esta obra, com frequência profundamente original, disseca os processos comunicacionais a partir da sociologia, da educação, das representações e funções sociais, da interculturalidade, entrando inclusivamente na relação entre o fazer comunicacional contemporâneo e os usos do tempo e do espaço humanos. Defensor de uma necessariamente nova “ecologia e ética da comunicação”, a obra de Vicente Romano é um paradigma da junção entre valor científico e mérito transformador profundamente revolucionário. Quando a academia falha a este, que deveria ser o seu chamamento natural, que a ele acudam pensadores da envergadura do professor Vicente Romano, cuja obra de divulgação, “A Formação da Mentalidade Submissa”, que a Deriva edita agora em Portugal, contando já com dezenas de milhares de leitores e editada em diversos países do mundo, é não apenas a primeira a ver a luz do dia em língua portuguesa, como uma síntese modelar, de todo o seu notável trabalho.
Um extracto de A Formação da Mentalidade Submissa:
A consciência indiferenciada corresponde à vida sentimental estereotipada. O pensamento mágico acrítico, gera uma consciência conformista, submissa. O que significa deixar por mãos alheias a solução dos problemas próprios, situação em que tudo pode ser facilmente manipulado por esses interesses estranhos. Aí radica o perigo de passar as rédeas dos assuntos pessoais para as mãos dos especialistas ou do novo credo académico. Autodeterminação significa, antes de tudo, libertar-se da angústia e ganhar consciência das determinações impostas por terceiros, para conseguir ultrapassá-las .
Vicente Romano
Apresentação do livro no Porto, a 20 de Outubro, na Biblioteca Almeida Garrett, pelas 21:30h, no Foyer do Auditório com a presença de Vicente Romano e de Rui Pereira. Em Lisboa, a 21 de Outubro, às 18h, na Livraria Letra Livre (Calçada do Combro) com o autor, Rui Pereira e Isabel do Carmo.

terça-feira, junho 20, 2006

A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano, sai em Outubro, pela Deriva

Estilhaços para uma pré-publicação:

Há caminhos mais fáceis e outros mais difíceis de se fazerem as coisas. Buscar a dificuldade não constitui, por si só, especial mérito para quem o faça. Mas, descer as azinhagas do facilitismo, isso sim é uma razão de superlativo demérito. Abrir uma colecção de ensaio sobre comunicação com o livro de um herege como Vicente Romano, é obra ao alcance de não muitos dos actores do panorama editorial, ou daquilo a que mais modernamente chamaríamos “o mercado do livro”.

Ainda assim, é isso que vai acontecer com este primeiro volume de um estudo comunicacional, editado pela Deriva, “A Formação da Mentalidade Submissa”, uma obra que transcende o espectáculo mediático em si mesmo. Para inserir, como diria Michel Foucault, na ordem das coisas e da batalha, a ordem das palavras e do discurso.

A obra é do catedrático de Sevilha, professor Vicente Romano, doutorado pela Universidade Complutense de Madrid e pela Universidade de Münster e dotado de um currículo científico tão invejável quanto de um desassombro conceptual total [ver dados biográficos]. Romano junta ao rigor do pensamento a coragem de o dizer, liberto das peias que tolhem e encolhem as palavras ditas apenas para deixarem de bem com todos, aqueles que as disseram. Perdendo, ocasionalmente, esplêndidas oportunidades para guardarem um pouco de um bem tão crescentemente mais raro como é, se não o da reflexão, pelo menos o do silêncio.

Com os devidos agradecimentos ao sítio Rebelión.org e ao próprio professor Romano pelas facilidades com que disponibilizaram vontades, recursos e trabalho para que possamos a aceder a esta estreia em português de um autor tão influente pela sua heterodoxia e profundidade, deixam-se alguns fragmentos deste volume em que a escassa quantidade das páginas contrasta com a importância da sua fundamental qualidade.

As sessões de lançamento, a que se prevê associarem-se vários sectores académicos e da investigação no nosso país, bem como outros colectivos e pessoas, ainda se encontram por agendar em termos definitivos. Aponta-se para Setembro / Outubro, próximos. Até lá, alguns excertos ou –melhor dito- alguns estilhaços não sobre, mas contra a mentalidade submissa que renasce a cada esquina deste volátil tempo em que agonizamos sorridentemente uns para os outros.

Rui Pereira