quinta-feira, outubro 27, 2022

JORNAL MAPA: Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

SÁBADO, 22 OUTUBRO 2022

As obras do Metro Mondego, um elétrico articulado que se propõe circular na cidade de Coimbra e chegar a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, ameaçam abater 663 árvores no seu trajeto. O mesmo trajeto que um comboio assegurou durante dezenas de anos e que, sem ser articulado, não precisou de abater árvores nenhumas.

No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. Podia ler-se no Jornal Público que «a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro informou que na estação do Instituto Geofísico do concelho de Coimbra foi registada uma concentração média horária de 188 microgramas por metro cúbico de ozono no ar, afetando quem se encontra nas freguesias de Almedina, Santa Cruz, São Bartolomeu, Sé Nova, Eiras, Santa Clara, Santo António dos Olivais e São Martinho do Bispo», isto é, na maior parte da cidade. Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!). Afinal, não eram só os «vulneráveis» que estavam em perigo, como dizia o comunicado da CCDR do Centro. Repentinamente tornámo-nos todos vulneráveis: éramos todos velhos, crianças e portadores de doenças graves. Isto não é novo numa cidade virada exclusivamente para o automóvel que é dono e senhor das vias apertadas e das avenidas onde se acelera muito para além dos 40 ou 50 km/h, em que os peões são tidos por inimigos e os ciclistas são vistos como seres anormais que devem ser apertados e apartados das estradas e vias urbanas. Por isso apita-se, insulta-se e manobra-se contra o peão e o ciclista. As ciclovias, com alguns troços partilhados com peões, são um perigo porque se partilham igualmente com automóveis em dois sentidos, têm curvas a 90 graus e escorredores pluviais onde se enfaixa com facilidade um pneu de bicicleta. Azar para o ciclista! Tal como o estacionamento: caótico é pouco para o descrever como, aliás, pode atestar quem conduz um carrinho de bebé, uma cadeira de rodas, seja ela mecânica ou elétrica, ou mesmo os estudantes com os carrinhos fanados nos supermercados completamente ébrios de praxe e de álcool marado.

O ICNF e os massacres de inverno e de verão

No início de 2021, a senhora responsável pelo ICNF convoca os jornalistas para a Mata do Choupal. Eles comparecem. Logo a seguir a senhora fala e eles ouvem. Proclama, na sua pusilanimidade, o vigoroso Plano de Recuperação da Mata do Choupal que, para admiração de muitos dos seus utentes, não necessitava de plano nenhum, muito menos de recuperação. Mas, sendo um espaço verde e havendo o dinheiro do PDR para gastar, havia que solucionar um problema inexistente. Anunciam-se 98 mil euros e a plantação de 5000 árvores cujas espécies a senhora não soube identificar, nem tampouco a sua numerosa comitiva. Até hoje não se sabe que espécies eram, mas plantaram-se em março, mesmo com avisos sérios de que as árvores não iam aguentar serem plantadas em plena primavera. Hoje o Choupal mirrou. As plantas secaram e a erva rasteira vingou abafando as plantadas. Ficaram as canas espetadas que as haviam de suportar e grandes clareiras. Por falar em canas, outra das matas mais conhecidas de Coimbra, Vale de Canas, também teve a sua intervenção podando à toa, desmatando e, até certo ponto, impedindo a sua regeneração natural. Aliás, as podas de árvores completamente dementes são um ex-libris das autarquias da região de Coimbra, ainda que obriguem a regas e enormes gastos de água que não aconteceriam de outra forma. Também os relvados caríssimos e de regas constantes pertencem a um novo-riquismo conimbricense que, como é evidente, não se revê em ervas naturais que não necessitam de água e que alimentam abelhas e outros insetos que não são nocivos. Sobre este aspeto, leia-se o agrónomo Vasco Paiva que tem denunciado sistematicamente a política incompetente das várias câmaras da região de Coimbra: «Em Coimbra existiam muitas plantas espontâneas de sabugueiro que foram erradamente eliminadas em ajardinamentos públicos. Chega-se ao disparate de se eliminarem muitas plantas e flores silvestres espontâneas porque acham que é preciso limpar… Exemplos de espécies nativas para os nossos jardins? Aqui vão alguns: alecrim, alfazema, erica, madressilva, medronheiro, murta, pascoinhas, pilriteiro, rosmaninho, sabugueiro e tantas outras. Já imaginaram os cheiros, as cores, as pequenas aves que se vão alimentar dos seus frutos?».

É evidente que para o poder autárquico isto é completamente absurdo. Os relvados e os vasos de flores com as cores da bandeira em rotundas da cidade são muito mais tocantes na psique dos automobilistas e dos funcionários da câmara.

No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. (…) Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!).

Entra em cena a novel Câmara de Coimbra

A Câmara de Coimbra tem como presidente José Manuel Silva, que capitaneou a coligação «Juntos Somos Coimbra». Logo antes das eleições, um terço dos seus membros independentes saíram para dar lugar a um verdadeiro albergue espanhol que já apontava, por isso mesmo, para uma espécie de ditadura pessoalista e presidencialista. A coligação tem apoios do PSD, CDS, Nós Cidadãos, RIR, PPM, Aliança e Volt. Sete partidos que na maior parte não conheciamos nem tinhamos ouvido falar e que arredaram um PS arrogante, igualmente pessoalista e incompetente. Mas não nos fixemos na política partidária, embora ela explique esta propensão do senhor ex-bastonário da ordem dos médicos para se olhar a si próprio como imprescindível na corrida para uma cidade em vias de sufocar ainda mais.

Vale a pena fixarmo-nos no Diário de Coimbra de 23 de setembro (o abate de árvores iniciou-se a 12!) para conhecer os autos de consignação e o protocolo de todas as obras do Metro Mondego inseridas no Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), em que a Metro Bus apresentará um «elétrico articulado» que irá «servir» a cidade e que chegará a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, tal como um comboio o fez durante dezenas de anos, servindo populações diariamente até interesses inconfessáveis o terem banido, levantando as linhas e deixando as populações à mercê de um serviço rodoviário com estradas repletas de centenas de curvas e muito mais morosas! A verdade é que, nessa ocasião, se constituiu uma empresa durante perto de 30 anos que serviu para nada fazer em prol das pessoas, mas mais que pródiga em ordenados chorudos de ceo’s que se iam alternando conforme os interesses partidários.

Ora, o presidente da câmara de Coimbra resolveu apresentar o plano no único barco turístico do Mondego como o nome muito acertado de «Basófias» (!!), chamando os jornalistas com pompa e circunstância, não fosse o facto anedótico de o barco encalhar em plantas aquáticas invasoras que se meteram no sistema de propulsão do barco! A planta (qual metáfora embainhada a tempo) é a elódea-africana que coloca em risco toda a biodiversidade autóctone do rio e das margens. Mas o projeto não encalhou, tal como a dobragem do Cabo Bojador. O abate de árvores não estava comprometido, portanto.


O massacre dos plátanos

No dia 6 de setembro, o Jornal Público noticiava que Coimbra iria abater 5 plátanos centenários junto ao Parque Manuel Braga, no centro da cidade. Esse corte aconteceria seis dias depois. Imediatamente, algumas dezenas de cidadãos protestaram no local apresentando um plano alternativo a um «elétrico articulado» cujo traçado abateria não só os 5 plátanos centenários, alguns de 30 metros, mas também 663 árvores no novo traçado até Semide, na chamada Linha da Lousã. Veríamos, mais tarde, que já se tinha perdido a conta às árvores abatidas dentro da cidade e por todo o lado. As pessoas perguntavam-se por que razão um elétrico que é articulado necessitava de massacrar tal hecatombe de árvores, quando anteriormente um comboio não articulado nunca tinha estado em conflito com qualquer árvore nesse mesmo traçado. A resposta aos cidadãos que apresentaram à SMM um plano que evitaria este verdadeiro crime (não sabemos ainda, nesta fase, se é ou não um crime ambiental) foi abismal, segundo o mesmo jornal: «A Sociedade Metro Mondego (SMM) olhou para a proposta de quem queria evitar o abate de cinco árvores de grande porte na avenida Emídio Navarro, estudou uma alternativa e concluiu que nada muda em relação ao plano inicial.» A SMM «olhou» e disse «não!». Mais tarde, com uma contestação fraca e muito localizada, estando já em campo a ClimAção Centro, a empresa pública dá mais umas achegas: é «facilmente constatável» que a proposta do movimento resultaria em «externalidades e implicações que se traduzem no abaixamento expressivo dos padrões de qualidade do projecto». Não se percebendo de imediato o que é «facilmente constatável», as «externalidades» eram tão só a interferência com uma estação de gasolina no local e com uma estação elevatória das Águas do Centro Litoral em construção. Já antes, no dia 6 de setembro, a Agência Lusa tinha dado conta das verdadeiras razões da recusa da SMM, que jurava a pés juntos que queria um traçado verde mas que era obrigada ao abate. Qual a razão? «Alterar projetos consignados e em fase de execução tem implicações extremamente penalizantes em termos de financiamento, as quais podem levar à sua inviabilidade e encerramento definitivo». Portanto, o caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde, ainda por cima com as alterações climáticas existentes e que nos levam a temperaturas recorde.

A ClimAção tenta agir

Pode dizer-se que a ClimAção Centro tem sido a única entidade em Coimbra que se opõe a esta verdadeira desgraça, a um crime que ainda não está configurado e a que os responsáveis se esquivam de uma maneira canhestra, ora dizendo que a responsabilidade é da SMM, da presidência da câmara ou da Infraestruturas de Portugal. Afiançamos aos leitores que cada uma destas instituições fala por si, ou astutamente combinadas, e, de facto, a ClimAção que tenta uma oposição eficaz conflitua com esta fuga à responsabilidade por parte de quem é culpado desta hecatombe arbórea.

Coimbra cidade-dormitório. Ela dorme, o capitalismo verde sossega-a.

Coimbra não contesta. Coimbra é uma enorme cidade-dormitório. Literalmente. Coimbra não tem estudantes contestatários, embora de vez em quando clamem por Greta Thunberg. Preocupam-se com as praxes, mais do que com os crimes que lhes passam pelos olhos. Os conimbricenses olham pelo seu umbigo, levando o seu corpo a ginásios que se multiplicam, pela sua imagem, pela sua cátedra e pelos seus serviços públicos e privados. Coimbra é a sua universidade fechada e menoscabada. Coimbra preocupa-se com os seus automóveis e com as pistas de velocidade em que transformaram as vias rodoviárias. Coimbra expulsou os operários das suas fábricas. Agora expulsa a natureza. Coimbra exulta a sua decadência.

Chega a ser comovente ver a desmotivação dos que mais ativamente se opõem a esta ação da SMM, do presidente e da IP, não reparando sequer que a oposição institucional da Câmara vai apelando aqui e ali para que não se faça o abate indiscriminado de 663 árvores. O papel da oposição institucional é exercer esse combate, ténue é certo, mas o mais importante, e é isso que muitos ingénuos e ingénuas não compreenderam ainda, é ver o Metro a andar! Com árvores abatidas ou sem elas, o importante é que em 2024 o Metro Bus, esse «elétrico articulado» que não se consegue articular com as árvores, comece a funcionar. Estaremos nas vésperas de mais umas eleições autárquicas e a coisa tem de render votos, puxando para si o «progresso» baseado no capitalismo verde.

O caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde.

Uma câmara maoísta?

Lembrar-se-á a campanha levada a cabo por Mao e que acabou mal – «Que mil flores desabrochem! Que mil escolas de pensamento floresçam!» -, mas o comunicado de 5 de agosto de 2022 da coligação camarária é de um mau gosto e de uma demagogia que configura inclusive uma impossibilidade real em que só os mais incautos podem acreditar. Esse comunicado promete que a CM de Coimbra e a SMM chegaram a um acordo: por cada árvore abatida, três florescerão! As contradições são tantas que não podem caber no espaço deste artigo, mas sobressaem estas, socorrendo-me agora de algumas perguntas que o agrónomo Vasco Paiva coloca na sua página de Facebook a 10 de setembro: «Outra falácia é de que vão substituir cada árvore abatida por três novas! Claro que uma árvore adulta (algumas centenárias) de elevado porte e de larga copa não é substituível por jovens plantas ou árvores que, no máximo, terão 2 ou 3 metros de altura. Quantas décadas serão necessárias para atingirem a mesma dimensão e cumprirem os meus serviços ambientais (despoluição, fixação de carbono, sombra, abrigo para pássaros ou outros animais)? Outra falácia: Segundo foi afirmado na comunicação social, e não desmentido, está previsto o abate de cerca de 600 árvores. No Plano, apresentado pela “Metro Mondego” à Assembleia Municipal, intitulado “Plano para o Reforço da Estrutura Arbórea”, está prevista a plantação de 1.326 árvores, sendo 151 em 2022; 575 em 2023 e 600 em 2024. Alguém me explica como é que 3 x 600 não são 1.800?»

As razões da anestesia conimbricense e o modo sempre pacífico de a contrariar: o bystander effect!

Perante a pobre contestação que se tem vindo a observar, a universidade socorre-se da Psicologia, não fosse Coimbra propagandeada como a cidade do conhecimento! No dia 19 de setembro, no site CoimbraCooletiva, e adivinhando já a desmotivação e abandono da contestação ao crime que se evidencia cada vez mais, a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra coloca aos cidadãos as seguintes perguntas: «Por que é que as pessoas boas ficam paradas e não lutam a favor do que defendem? Como é que deixamos que se destrua património, como zonas verdes, lamentando e criticando mas não fazendo nada? A psicologia chama-lhe efeito do espectador e tem cura»; e ainda «o bystander effect é o fenómeno onde a difusão da responsabilidade («os outros fazem…») e o medo do risco envolvido (ficar mal visto, perder emprego, ser criticado, ser preso…) leva à inação por parte de pessoas que poderiam rectificar a situação». Qual é a cura, então? A resposta que vai levantar em peso a população conimbricense é esta: «É para contrariá-lo que o InterDito se junta hoje à Secção Experimental de Yoga da Associação Académica de Coimbra, ao Encontro da Paz e a quem na comunidade também estiver preocupado com o abate de árvores no centro da cidade numa manifestação pacífica, sob a forma da criação de cordão humano».

É evidente que a cidade está perdida, as suas árvores estarão condenadas a morrer pelo crime de existirem e colidirem com interesses financeiros públicos, privados e de fundos europeus. No entanto, quer-nos parecer que a anestesia de uma franja muito significativa da população da cidade que vira literalmente as costas a este crime, ainda que com algumas lágrimas (de crocodilo?), tem um carácter local muito vincado. Fica por perceber como é que não houve providências cautelares contra o abate enquanto se apresentavam alternativas concretas, assim como mais apoios no país e mesmo na cidade, ganhando com isso tempo inestimável. Se este facto ocorresse em algumas outras cidades ou vilas portuguesas as coisas não seriam assim, e seria mesmo impensável numa qualquer cidade europeia. Mas, em Coimbra, é sempre possível a aventura do capitalismo verde!

Texto de  António Luís Catarino | Imagens de António Barros

https://www.jornalmapa.pt/

https://www.jornalmapa.pt/2022/10/22/coimbra-o-massacre-de-663-arvores/

domingo, outubro 23, 2022

«O Homem que caiu na Terra», Walter Tevis

Não sei o que deu ao Expresso de 2 de Setembro de 2022 em chamar ao autor de «O Homem que caiu na Terra» Walter Travis, quando o homem se chamava Tevis. Portanto, Walter Tevis. São erros imperdoáveis em jornais ditos de referência! O livro teve muito impacto em 1963 e voltou a dar que falar em 1976 por ter sido vertido para cinema no filme «The man who fell in Earth» protagonizado por David Bowie, quando, na ocasião, pontificavam as músicas de «The Man who sold the Earth» ou «Space Oddity». As músicas de Bowie sucediam-se na minha cabeça ao ler o livro de Tevis, falecido em 1984, e seguindo com atenção a personalidade de Tom Newton, um alien vindo do planeta Anthea, cujos recursos, desaparecimento da água e guerras aniquilaram a sua população. Tentava sobreviver arquitectando uma viagem interplanetária dos seus últimos habitantes para a Terra, rica em água e em combustíveis, como o urânio e plutónio. 

Só Bowie poderia dar corpo a Newton tal como o autor o desenhou psicológica e fisicamente. Figura algo frágil, andrógina, albina, envolto na sua solidão e mistério. A sua relação com os primeiros três trabalhos musicais também o catapultaram para o papel e por mais que eu tente não vejo outra personagem para Tom Newton. Talvez um Iggy Pop ou um Lou Reed, mas nos anos 60... ainda haveria a possibilidade remota de um Andy Warhol se ele não estivesse sempre a espremer borbulhas da cara... De qualquer modo, os editores pensaram o mesmo que eu e colocaram David Bowie na capa. A mesma capa do cartaz que deu nome ao filme de 1976 e que, quando o vi, não me entusiasmou por aí além. Tinha outras preocupações certamente. Como por exemplo esticar o Prec até onde fosse humanamente possível. Acabou mal.

Estávamos em 1963, um ano após a crise dos mísseis de Cuba que ia levando a uma verdadeira e gigantesca guerra nuclear e só agora passados quase 60 anos temos a certeza, após a desclassificação de documentos americanos e soviéticos, que a devastação nuclear esteve mais perto de deflagrar do que nunca. Nos anos 60, a ficção científica abandonava os insectos radioactivos do tamanho de prédios e a devorar pessoas, aranhas enormes que engoliam táxis novaiorquinos ou legumes que abafavam aldeias inteiras em busca de carne humana. A partir de uma real ameaça nuclear deseja-se uma invasão alienígena que ponha fim à demência de uma humanidade ainda na idade de uma infância autodestrutiva cuja salvação ou destruição poderia vir do espaço por via de uma vida inteligente que pudesse pôr fim ao pesadelo. Isto é: fossem bons ou maus digam ao que vêem ou fiquem e arrasem isto tudo! Salvem-nos ou destruam-nos! É esse o objectivo de Newton: na aniquilação do planeta Anthea, derivada das guerras nucleares sucessivas, desiste de salvar-se a si, aos antheanos que ainda restam num planeta em fim de vida e aos humanos que prevê o fim numa guerra nuclear arrasadora no prazo de dez, vinte ou mesmo trinta anos. No fim, deixou-se de importar. Torna-se niilista: bebe gim e passeia os milhões de dólares ganhos com as corporações de vendas de armas. Destrói a única possibilidade de salvar os seus desistindo de fabricar uma nave espacial quase pronta, enquanto despreza igualmente os habitantes da Terra igualando-os a macacos um pouco mais inteligentes, é certo. É a conquista do espaço que seis anos após a edição deste livro começa com as primeiras pegadas na Lua com um Armstrong aos saltos. Pobre conquista, diria Major Tom!

Didn't know what time it was, the lights were lowI leaned back on my radioSome cat was layin' down some rock 'n' roll"Lotta soul, " he said
Then the loud sound did seem to fadeCame back like a slow voice on a wave of phaseThat wasn't no DJ, that was hazy cosmic jive
There's a starman waiting in the skyHe'd like to come and meet usBut he thinks he'd blow our mindsThere's a starman waiting in the skyHe's told us not to blow it'Cause he knows it's all worthwhileHe told meLet the children lose itLet the children use itLet all the children boogie
I had to phone someone, so I picked on youHey, that's far out, so you heard him tooSwitch on the TVWe may pick him up on channel two
Look out your window, I can see his lightIf we can sparkle, he may land tonightDon't tell your poppa or he'll get us locked up in fright
There's a starman waiting in the skyHe'd like to come and meet usBut he thinks he'd blow our mindsThere's a starman waiting in the skyHe's told us not to blow it'Cause he knows it's all worthwhileHe told meLet the children lose itLet the children use itLet all the children boogie
Starman waiting in the skyHe'd like to come and meet usBut he thinks he'd blow our mindsThere's a starman waiting in the skyHe's told us not to blow it'Cause he knows it's all worthwhileHe told meLet the children lose itLet the children use itLet all the children boogie
Letra de «Space Odity», de David Bowie

quarta-feira, outubro 19, 2022

«Sobre o Mal», de Terry Eagleton

 
Edições 70.Tradução: Pedro Elói Duarte.2022

Para quem se define marxista é demasiado descritivo, contemplativo. Parece ignorar Marx quando este dizia que aos filósofos não bastava descrever o mundo mas sim transformá-lo. Mas para falar do mal vai buscar muitas e diversificadas referências, citando quando quer exemplificar uma ténue opinião sua. Juntamente com um humor (o Independent chama-lhe «refrescante», o Irish Times de «divertido» e o The Observer agradece-lhe «comos cristãos» o contributo que dá para a compreensão do mal) que resvala por vezes para a stand-up comedy. Chega a exemplificar uma imagem do Éden em que a Kate Winslet era a vizinha dele! Ou esta frase com montes de riso: «Não torna a escravatura, Bob Hope ou a Guerra dos Trinta Anos retrospectivamente toleráveis!», ah, ah, ah... pois não, man, pois não! E aquela de ires buscar o Terramoto de Lisboa como a justificação da teodiceia que castigava os homens (sic), ah, ah, ah... andas a ler Voltaire, camarada!, e não o citas nem nada, que fixe!, expressão que o teu filho usou quando lhe disseste que ias escrever um livro sobre o Mal!

Para quem escreve sobre o mal é fastidioso lê-lo. Lá vem a Bíblia e o Antigo Testamento com o desgraçado Job, marioneta de Deus omni tudo e que nem aceita a pergunta mais que legítima de «porquê eu?» do castigado, porque Este estava para além da sua compreensão. E não porque Job fosse falho de inteligência. A pergunta em si do «quem és?» é uma afronta humana que Deus não está para aturar. Mas quem não sabe esta história e, principalmente, a tão estafada questão do Deus que cria o Bem é o mesmo que criou o Mal e o Diabo? Bocejo longo... Agarrem-se que vêm aí as referências: Milton e o Paraíso Perdido, que afinal não era paraíso celeste nenhum, mas a própria Inglaterra após a sua Revolução do século XVII que se finou num instante em sangue, Santo Agostinho que topou o Mal muito antes de todos os medievalistas, incluindo o aristotélico Tomás de Aquino que depois da tal visão divina achou que tudo o que escreveu antes era «palha seca» mas que não inibe Eagleton de o citar, Shakespeare, Thomas Mann, Hitler, Eichmann, Arendt, Sartre, Shopenhauer (este dizia que a condição humana era uma boa merda), Kiekergaard, Freud, Lacan, Adorno, Marx, Graham Greene, Thomas Hardy, Goethe (não podia deixar de ser, claro!), Baudelaire e Rimbaud (esses bebedolas e dissolutos que fustigavam a carne como salvação, valha-nos Deus!) e ainda mais... ah, Estaline e Mao também lá estão. Dois terços do livro são colagens de citações e algumas «tiradas» e reenvio de humor para os marxistas seus colegas como Perry Anderson e F. Jameson muito mais cientes que ele do que é a teoria de Marx.

Mas o Mal! Nenhuma tese ou antítese de Eagleton, visto que sem tese não pode haver antítese. Agora sou eu a tentar ironizar com algum humor falhado que é o que ele faz no livro. Nenhuma saída ou ideia nova, o que o envia direitinho para as mãos dos conservadores que tal como Hobbes (não o cita e é estranho) só pode haver o Bem e a Liberdade que o protagoniza com fortes estados e instituições porque o mal é intrínseco à Humanidade. Aos que acham que desde que há História, ou seja, domínio, guerra e poder de uns sobre os outros, o Mal de instalou nas sociedades e desejam utopias ele clama contra a ingenuidade esquerdista porque visa a construção de sociedades cheias de tédio e bondade! Portanto, uma pitada de mal até vinha a calhar nesta pasmaceira que seria um socialismo a-histórico como as sociedades primitivas. Ou seja, uma teia de confusões e meias-verdades que nem sequer conflituam com meias-omissões e meias-mentiras. Um livro pela metade, pois.

segunda-feira, outubro 17, 2022

«Aqui, onde acaba a estrada», de Igor Lebreaud. Na Escola da Noite

 

Pela Escola da Noite. De Igor Lebreaud

Penso em algumas arestas a limar depois de ver com interesse «Aqui, onde acaba a estrada», de Igor Lebreaud, talvez um conhecido do teatro, não tanto do público. Pelo menos como encenador, pois terá sido a sua primeira vez a encenar uma peça escrita igualmente por si.

O tema, esse, é de imediato entendido visto que o choque entre duas culturas é bem explícito. A tragédia dos refugiados está à nossa frente, incontornável, absurda. Mas igualmente absurdo é o facto do comandante da fronteira estar de camuflado, botas altas e ser tratado como «professor». Professor de quê, ao certo? O seu comportamento nazi é histriónico e não se consegue perceber o objectivo da sua recusa em deixar entrar quer o homem, quer a caixa. Ou seja, há algum sentido na peça que conseguimos ver, mas há zonas de algum nevoeiro que gostaríamos de ver mais claras. E aquela do soldado bom e do soldado mau não é coisa já estafada? E não há ressentimento entre o dominado e o dominador? Não que fosse obrigatório, mas...

«O Pássaro de Peito Vermelho», de Jo Nesbo

 

Gosto de livros de bolso e creio que não é a primeira vez que o digo. São mais baratos, guardam-se mais facilmente e o facto de quase caberem na mão dá-lhes uma certa intimidade que um livro de formato normal, terá mais dificuldade em conseguir. Já se não gostarmos de um livro de bolso é-nos mais fácil atirá-lo janela fora que o prejuízo não será muito. Uso-o, na maioria das vezes, para ler policiais e ficção científica. Mas parece que, definitivamente, entrou nos hábitos dos portugueses que lêem. 

Por vezes, quando o autor é bom como é o caso de Jo Nesbo este, através de uma trama policial tão verosímil, como enredada em teias políticas e sociais que nos prendem à leitura, sabemos muito mais quando acabamos o livro, do que a descoberta de quem assassinou quem. Por exemplo, que a Noruega nunca foi o exemplo de paz e bonomia democrática com que a olhamos vulgarmente. Até foi o contrário, segundo o seu compatriota Jo Nesbo. Durante a II Guerra Mundial e a partir dela, a Noruega passou de um país relativamente pobre em recursos para um dos países mais prósperos do mundo. Isso não foi ao acaso. Nunca o é. Mas a fuga do seu monarca para Londres e depois América juntamente com as reservas de ouro, abandonando à sua sorte o povo da invasão nazi, levou a que a «protecção» de Roosevelt contra a URSS fosse traduzida num apoio monetário substancial à construção dos riquíssimos poços de petróleo com que as suas «elites» se deleitam. E por falar em «elites» devemos dizer que não foi por acaso que o rei fugiu. Essa fuga desprezível, para Nesbo também, aponta para uma clara capitulação sem guerra a Hitler, como o foi a «neutralidade» sueca ou a rendição em 3 dias da Dinamarca. Todos eles estiveram, de uma maneira ou de outra, ao lado de Hitler, sendo o caso da Finlândia uma outra conversa. Não se pense contudo que não houve resistência norueguesa. Haver houve, mas foi fraquíssima e com pouca organização. Remeteu-se aos bosques e a algumas cidades, mas aumentou exponencialmente em 1944, já os soviéticos avançavam sobre Berlim. Astutos, não puderam contudo esquecer-se dos números de antes da guerra: a fria estatística apontava para 3 ou 4 vezes mais mobilizações nas Waffen SS na frente oriental contra os russos do que na débil mas honrosa Resistência. Depois da derrota da Alemanha nazi os soldados vivos voltaram para a Noruega e logo nos dias seguintes da libertação o Forte Akershus abateu milhares de traidores como uma fúria, segundo Jo Nesbo, muito maior do que países cuja resistência foi bem maior. Conta perto de cem mil encostados à parede em todo o país. Cem mil num país com menos de 4 milhões em 1950! Percebemos agora a brandura dos tribunais para com os «traidores» que estiveram na frente oriental e que apodaram de «peixe-miúdo»! Era necessário parar com os fuzilamentos e deixar que a economia funcionasse já que as perspectivas americanas mais o Plano Marshall eram as melhores.

Só que, entretanto, e é disto que trata «O Pássaro de Peito Vermelho», passaram três gerações após a II Guerra Mundial e soldados da frente oriental não tinham motivos para pensar que eram traidores de coisa nenhuma e que lutarem ao lado dos alemães foi lutar ao lado do nacionalismo norueguês contra o inimigo russo! E vieram os filhos e depois os netos a ouvirem estas histórias. Não nos admiremos pois, e o autor não se admira nada, que a Noruega juntamente com outros países nórdicos, sejam onde mais cresceu a extrema-direita e está mais arreigado o clima anti-imigração. Já há governos nórdicos com fascistas declarados. Mesmo que angelicamente a Krippo, a polícia norueguesa, tenha contado somente 59 militantes de extrema-direita no país! 

Não se viu o «Ovo da Serpente» de Bergman, um sueco? Não lemos igualmente um outro sueco que já não está entre nós: Stieg Larsson? Jo Nesbo escreve tão bem como ele. Tem as mesmas preocupações que ele! Triste social-democracia que não tiveste engenho, arte ou energia para veres a incubação lenta de um ovo!

António Luís Catarino

segunda-feira, outubro 10, 2022

«Montaillou - Cátaros e Católicos numa aldeia occitana, 1294-1324», de Emmanuel Le Roy Ladurie

 

Edições 70, 1975, 2ª ed.1982
Tradução de Nuno Garcia Lopes e Pedro Bernardo

É um trabalho mais que pormenorizado: estamos perante um verdadeiro «cusco» que faz, no papel de historiador, um levantamento do quotidiano de uma aldeia occitana - Montaillou entre os séculos XIII e XIV. Esta aldeia faz parte de uma grande rede de aldeias pirenaicas e (hoje) do sudeste de França quase completamente tomadas pela heresia cátara, embora com uma presença minoritária católica. Não se pense que uma e outra apresentavam práticas totalmente «puras». Essas práticas cruzavam-se: por um lado recusava-se a extrema-unção, mas pedia-se o consollamentum e a endura cátaras à hora da morte e inversamente também. Havia padres católicos que eram hereges e que não confessavam, nem davam hóstias porque não acreditavam na transubstanciação. Havia, por sua vez, perfeitos ou homens-bons cátaros que embora imbuídos de maniqueísmo oriental rezavam o Pater Nostrus ou a Ave Maria. Nada é tão simples como parece nesta região occitana onde a luta de classes se diluía num ódio cada vez maior partilhado por nobres, burgueses, camponeses e pastores contra os poderes políticos e religiosos da Île-de-France e Paris, ou seja, do Norte de França, para com os impostos senhoriais e dízimos clericais. Nunca se perdoará a brutalidade de Simon de Monfort contra as cidades, vilas e aldeias occitanas no século anterior e com os massacres correspondentes bem mais violentos do que fez contra Constantinopla. Os levantamentos não eram raros e aí víamos igualmente cátaros e católicos juntos.

É verdade que Le Roy Ladurie teve fontes históricas incríveis e uma sorte que não se deve desdenhar ao encontrar os registos minuciosíssimos de Jacques Fournier, inquisidor-mor contra o catarismo que não tolerava e que chegou a papa (talvez por isso mesmo) com o nome de Bento XII. Deixava a violência dos interrogatórios para outros. Preferia que o pormenor do interrogatório, as contradições, a delação e o medo do acusado de catarismo ou de valdismo seguisse o seu caminho. E apontava tudo em grossos volumes. São esses registos que foram parar às mãos do historiador que não se fez rogado. Está lá tudo: as amizades, as inimizades, a alegria, o ódio, as fratrias, as domus, as locus, os olhares, os casamentos, o sexo adúltero ou não, a comida, os animais. Enterramos os nossos pés nas vias das aldeias, sentamo-nos à lareira das domus, ouvindo estórias, bebendo um copo de vinho e um pão feito ao forno com peixe frito ou com um naco de perna de porco, animal demoníaco é certo, mas se estivesse presente um perfeito cátaro dar-lhe-íamos um fígado de bode. Um cura católico comeria de tudo! O papel da mulher é de tal modo importante que se pode dizer que estamos perante um matriarcado. Se na infância e na adolescência a mulher está numa situação perigosa (as violações e os raptos consentidos ou não, eram frequentes) à medida que ultrapassa a adolescência vai tendo um papel primordial nas comunidades por duas ordens de razões: os casamentos escolhidos por mulheres sucedem-se porque a esperança média de vida do homem é quase metade do da mulher (sessenta anos é o máximo a que o homem pode aspirar, mas a média é de 40 anos) e aumenta-lhe assim os recursos materiais e voz nas assembleias e finalmente porque uma mulher velha é mais respeitada do que um homem velho, isto na boa tradição kabila ou mediterrânica, como quiserem.

Não será de religião propriamente dita que se falará aqui. Mas falaremos de comunitarismo pré-capitalista onde não havia sequer moeda. A única que havia veio tardiamente e era a moeda francesa do norte, o parisis. Em plena Idade Média havia um poder dual: o senhorialismo e o comunitarismo aldeão e pastoril. O nomadismo transumante estava nas mãos dos pastores que se sentiam realmente livres e pobres, ao ponto de recusarem astutamente o casamento, devido ao facto de o serem, embora a poesia trovadoresca da língua de oc (que influenciou a nossa poesia) nos dê bons exemplos de grande fraternidade com as mulheres de muitas aldeias occitanas! Fraternidade aqui é um eufemismo, visto que o pastor era partilhado por várias mulheres de aldeias diferentes com consciência disso mesmo. O tabu do incesto ia até à prima de primeiro grau e, evidentemente, aos irmãos. Já mais misterioso é o tabu entre cunhados.

As decisões eram tomadas por assembleias livres comunitárias onde se partilhava o gado bovino, ovino e a respetiva lã e carne. Havia pastos e campos cerealíferos comuns. Isto não queria dizer que os pastos e os campos eram de toda a região de Sabhartès, onde pertence Montaillou. Para os usarem era necessário que o pastor ou camponês tivesse de ser casado com alguém da terra ou aldeia a que pertencesse os pastos ou os campos. Este comunalismo já existia desde o século XIII e no XVIII e mesmo no início do século XIX era possível assistir a estas práticas que não deixavam de ser algo rígidas para que pudessem vingar. E vingou. Durante muito tempo não se pagou o dízimo ou impostos senhoriais ao rei francês o que fez com que a Occitânia pagasse bem caro com uma repressão brutal a que a própria heresia serviu de causa aparente para uma regulação fiscal por parte do Estado. Antes da Inquisição que retirou terras quer a nobres, quer a camponeses, sob a acusação de heresias, engordando a nobreza e clero do norte, as assembleias é que serviam de mediação fiscal para com o estado central. 

É notável o registo da vaga de refugiados que a repressão inquisitorial provocou. Fala-se da Lombardia, Sicília, Catalunha, Espanha. Na minha opinião essa onda enorme de fugitivos veio até Portugal onde os recebemos como povoadores altamente necessários para um país despovoado. E a toponímia já nos ajuda com algumas corruptelas: Proença/Provence, Montalvão/Montauban, albi-castrense/Albi, Tolosa/Toulouse, Rodão/Ródano, Nisa/Nice e por aí fora. Quanto aos patronímicos como «Catarino» já aqui falámos, mas não deixa de ser estranho que exista na raia espanhola, como no litoral de arroteias onde este nome prolifera.

Caso notável era que esta comunalismo se estendia  por todos os Pirenéus inclusivamente para a Catalunha e Aragão. Com esta regiões se faziam trocas comerciais e de pastoreio quer de um lado, quer de outro. Para Navarra e País Basco não temos notícia nos registos de Jacques Fournier, mas sabemos que aí havia um forte comunalismo mas aparentemente sem contactos com a Occitânia. Havia portanto cátaros desde as regiões hoje espanholas até Toulouse e Montpellier. 

Há uma figura central em todo o livro que, habilmente, Le Roy Ladurie nos apresenta. É Pierre Maury, pastor, cátaro, não muito praticante é certo, mas portador de uma filosofia muito própria que nos remete para a existência de um espírito verdadeiramente livre e acerrimamente crítico dos padres e mesmo dos frades menores. A página 160 e seguintes são todas elas um manifesto de um ideal igualitário e democrático (até nómada) possível nos século XIV. O que se questiona é por que razão este tipo de vida foi usurpado pelas cidades das confrarias e do corporativismo mercantil e usurário. Até à derrota do comunalismo que, astutamente, o poder o fez confundir com a pobreza e ignorância. Ironicamente, este livro tão pleno de fontes históricas e no período em questão, não foi registado qualquer período de fome, embora houvesse tempos de penúria em anos agrícolas não muito bons, mas fome generalizada como em outros contextos não houve. A solidariedade e hospitalidade entre as domus e as locus eram obrigatórias para os que estivessem em dificuldades. 

Numa época de colapso a todos os níveis como a que estamos a viver hoje talvez fosse uma fonte de bom senso e prazer ler este livro, atentando com a minúcia de um Jacques Fournier, o que de bom e útil comunidades inteiras foram capazes de criar durante séculos. Conseguiremos reerguer essas experiências?

António Luís Catarino

sábado, setembro 24, 2022

«Ibéria Esvaziada», de Carlos Taibo

Edição da Letra Livre, prefácio de Filipe Nunes, tradução de Pedro Morais

Carlos Taibo já não é propriamente um desconhecido entre nós, embora devêssemos estar mais atentos ao seu trabalho que pode ser considerado polémico pela novidade das suas ideias que são sustentadas em casos directamente conhecidos por ele, em estudos sérios e dados de outros cientistas; mas é inegável a sua importância pelas possibilidades reais de querermos uma fuga ao colapso que se aproxima ou que já está entre nós sem que o saibamos.

Este livro é de 2022 e foi escrito em plena pandemia cujo combate o autor considera ter sido um ensaio para as medidas autoritárias e ecofascistas, mas com outros motivos, para além das sanitárias, para nos confinar aos milhões pelo mundo fora. Atenção que não estamos a ter uma visão negacionista; falamos, sim, de um ensaio autoritário e musculado a populações inteiras que se poderão aplicar a outras situações sejam elas pandémicas, militares (uma guerra, por exemplo), contestações sociais ou políticas. 

Em 2019 já aqui falávamos deste professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid, Carlos Taibo, quando a Letra Livre o Jornal Mapa nos ofereceram o seu livro «Colapso» e aqui foi escrito isto: http://derivadaspalavras.blogspot.com/search?q=colapso . O excelente prefácio de Filipe Nunes abre-nos todas as perspectivas do trabalho de Carlos Taibo em «Ibéria Esvaziada». Perante o despovoamento assustador de uma Ibéria do interior cada vez com menos gente, com serviços sociais inexistentes, sem escolas ou serviços de saúde, correios, transportes públicos, digam-nos se o colapso não chegou já, quer em Portugal ou Espanha.

Mas fixemo-nos na apresentação de Filipe Nunes: «Taibo assume essencialmente um ''optimismo patológico'', contrastante com um ''pessimismo congénito'' que poderia fazer transparecer da sua teoria do colapso. O desafio a que nos convoca é precisamente o de questionar como queremos que seja a sociedade pós-colapso. E desafia-nos literalmente a lançar mãos à terra, pois o colapso, esse, já esta entre nós. Estamos todos cientes do horizonte desesperante das alterações climáticas e do esgotamento das matérias-primas energéticas fósseis, pelo que, num mundo em colapso, prefere sublinhar as consequências positivas que lhe estão associadas: a rerrularização, uma maior autonomia local e fragmentação e o retrocesso dos fluxos hierárquicos.» 

Ora, nestas três consequências que serão ao mesmo tempo propostas para o colapso que já se vive ou para o pós-colapso que, segundo os mais optimistas, ainda não veio ou, sequer, virá, Carlos Taibo dá-nos toda uma perspectiva não só de sobrevivência, mas igualmente de possibilidades de felicidade e bem-estar baseado em índices que nada terão a ver com a existência de dinheiro especulativo das sociedades industriais de hoje. O que nos propõe: as associações de apoio mútuo, as correntes de solidariedade humanas e a síntese muito interessante entre as sociedades pré-capitalistas e as redes anticapitalistas que terão de se adaptar, sem sectarismos inúteis, a uma nova realidade. É esta a grande diferença entre o ecofascismo que recusa o crescimento industrial e financeiro especulativo enquanto nos vai enchendo as serras de moinhos eólicos, uma nova mineração brutal e vai arranjando argumentos para a continuidade da carbonização, adiantando que a Humanidade sempre soube encontrar soluções tecnológicas para um colapso, e, por outro lado, uma rede humana que aposta no descrescimento, na autonomia política das decisões das populações, no valor de uso e nas trocas solidárias entre grandes bioregiões. Tudo está em aberto. 

Fixa-se igualmente na onda cada vez maior dos neo-rurais: pessoas que não suportam já a vida nas cidades e na ditadura dos automóveis, nos preços exorbitantes das casas e das coisas incluindo os produtos de primeira necessidade, no desemprego, nas altas taxas de criminalidade junto com o autoritarismo latente e cada vez mais arrogante e brutal das instituições políticas e governos, nas doenças pulmonares e cancros cada vez mais agressivos, num individualismo insuportável, etc., etc, Carlos Taibo avisa-nos que esta passagem da cidade para o campo não é propriamente fácil e, muitas, têm-se mostrado um fracasso. Talvez a reprodução de um individualismo urbano para o campo não seja a melhor escolha. No campo, ou se encontra uma rede solidária de trocas, de saber ou materiais, ou esse fracasso não tarda a aparecer.

Voltemos ao prefácio de apresentação de «Ibéria Esvaziada», de Taibo por Filipe Nunes quando cita Júlio do Carmo Gomes num artigo, creio, que inscrito num número do Jornal Mapa: «Como escreveu JCG, invocando os indícios da nossa ancestralidade política, trata-se do resgate da cultura comunitarista como potência política e génese poética, raízes inseparáveis para problematizar as políticas acerca da vida». Este movimento do neo-ruralismo vai crescer, sabemo-lo, até porque os exemplos se multiplicam em toda a Europa que ainda nada no seu fausto de coisas sem grande ou nenhuma utilidade. Em França 25% da agricultura biológica já alimenta o país através do trabalho das ZAD, em Espanha experiências que vieram de 36-39 estão a repetir-se nos Pirenéus e no interior também ele esquecido dos governos, em Portugal a experiência da Reforma Agrária de 74-75 não deixou grandes rastos num proletariado camponês em vias de desaparecimento, mas o movimento cooperativo deixou algumas marcas assim como em aldeias do interior do Alentejo e Trás-os-Montes que tem conhecido um movimento nada negligenciável de famílias jovens que chegam das cidades, tal como na Grécia e sul de Itália.

Carlos Taibo, significativamente, termina este livro interessantíssimo com o título de «silêncio», um valor a que as cidades já não conhecem. Recorreu a Vergílio: «Lavradores se considerariam bem de sorte se tivessem inteira consciência das dádivas enormes que recebem. É a eles que, longe das discórdias, longe das armas, dá a natureza generoso sustento que os mantém.» e ao renovador do cristianismo, no século XIV, Thomas de Kempis: «Procurei repouso em todo o lado e não o encontrei em lado nenhum, excepto em algum recanto com um livro».

Talvez haja um pequeno repouso ao ler este livro, mas que paradoxalmente nos convida a perscrutar todas as verdadeiras possibilidades de uma vida útil, é uma verdade muito difícil de contrariar. E ainda bem.

António Luís Catarino

segunda-feira, setembro 05, 2022

«Fragments of an Anarchist Anthropology», de David Graeber

 

Talvez dos livros mais importantes de David Graeber, a seguir ao seu monumental «Debt, the first 5000 years» e «Trabalhos de Merda», que me pronunciarei em breve sobre ele. Dizem que já está esgotado e não me admira. É um livrinho de 100 páginas, mas bem elaborado e com uma síntese impecável sobre o que é o Anarquismo, hoje. Creio, não errar se disser que provavelmente ele escreveu-o para a galáxia marxista, mais do que para anarquistas. Por mim, apanhei-o a tempo e dou por mim a pensar que anarquistas haverá que talvez reajam com alguma surpresa e desconfiança o cada vez maior número de pessoas que se aproximam das suas teses e que leem com novo vigor as teses de Proudhon, Bakunine (não sabia que ele traduziu «O Capital» de Marx para russo!) e Kropotkine. O mais interessante é que o editor da «Prickly Paradigm Press» é o nosso conhecido Marshall Sahlins que escreveu o icónico «Âge de Pierre, âge d'abondance - l'économie des sociétés primitives». No seguimento da minha afirmação anterior também não será de estranhar as referência a Castoriadis, aos situacionistas, aos autónomos italianos e americanos e aos conselhistas, segundo ele os marxistas mais próximos à prática anarquista. Já não nos admira tanto a sua referência aos anarquistas e libertários como John Zerzan, um primitivista que editei na Deriva com o seu «Futuro Primitivo» e que esteve nas grandes assembleias de Seattle e ao recém-falecido Peter Lamborn Wilson autor das «Utopias Piratas», também editado pela Deriva. Com estes autores mantive uma correspondência bastante frutuosa. Gostei bastante deles e sendo este um fator subjetivo, vale o que vale, mas não queria deixar passar este facto em branco. Portanto, não tendo já essa possibilidade, peço que traduzam este livro para português, pela sua importância. Penso que a Antropologia cá da terra, e as pessoas que ainda não se recusam a ler e a pensar criticamente, só teriam a agradecer e não é com surpresa que vejo algumas afinidades com o livro de João Carlos Louçã no seu «Pensar a Utopia-Transformar a Realidade» principalmente na aproximação do marxismo ao anarquismo.

Neste livro, escrito em fragmentos e apresentando-nos pensamentos aparentemente desligados uns dos outros (como aliás toda a técnica da escrita fragmentária) reconhecemos uma sólida formação de antropólogo que não foge aos problemas vários do capitalismo e da construção de alternativas. São a construção desses paradigmas de liberdade individual e coletiva que nos leva a conhecer não só algumas práticas ditas de sociedades primitivas, mas criticá-las também. Provavelmente, teremos de pensar em alternativas ao capitalismo em moldes completamente novos. E é esse o desafio da democracia direta que nos traz David Graeber, além de outros desafios. Passa a pente fino a fixação ocidental (eis um conceito que deve acabar, o de «ocidental») na «democracia» ateniense e espartana como fossem o início de toda a governabilidade, quando existiam povos que usavam o consenso democrático muitos milhares de anos antes. A própria ideia de «representação» é de um dos maiores logros, ele chama-a de «trap» o que é uma palavra bem que acentua melhor o «nosso» sistema político. 

Deixo para o fim o inteligente debate imaginário entre os sempre céticos de uma nova liberdade sem capitalismo, pode-se chamar anarquismo ou não, e aqueles que acreditam numa nova era alternativa, com bases sólidas de organização popular, autónoma, consensual, de vizinhança e de solidariedade comuns. Impossível? A História mostra-nos que não, mas omite as experiências livres que ocorreram desde há dois séculos e que ainda ocorrem em Chiapas, nas assembleas argentinas (após a sua derrocada económica) ou nas ZAD's autónomas por todo o lado na Europa, Estados Unidos ou Canadá. Opondo uma prática não-violenta à violência brutal do capitalismo (ele goza com o adjetivo «tardio») e a que já nos habituámos. Infelizmente. Até porque é cada vez mais letal.

É evidente que não se esgota aqui, nesta minha ficha de leitura, a riqueza das ideias de David Graeber e o pensamento crítico com que nos brinda em cada página. Que nos faz pensar. Mas é um desafio interessante ver que os antropólogos estarão na primeira fila do que ele chamaria de novos paradigmas, porque têm o saber necessário para desconstruir um sistema que nunca funcionou ou, se o fez, foi à custa de escravatura, genocídio de milhões de indivíduos, racismo, nacionalismos que levaram a guerras fratricidas, exploração desenfreada de recursos e criação de refugiados expulsos das suas terras ancestrais. E tudo isto através de estruturas militares, prisionais e burocráticas.

Ah...e Portugal e Espanha são referidos, tal como o sistema colonial francês e inglês. As monarquias ibéricas não eram muito mais complexas que as do Congo como se verificou nos seus primeiros contactos. Mas isto não é dito nas disciplinas académicas atuais. O que faz com que a História hoje se apresente como uma enorme omissão, quando não mentira estudada, como o fazem os media atuais, ou a sociologia que pretende «perceber» as «sociedades» confundidas propositadamente com os «estados».

Termino com uma provocação de Graeber: «por que razão há tantos académicos marxistas e só na antropologia é que encontramos um número assinalável de anarquistas?»

domingo, setembro 04, 2022

«Os Cátaros», Jesús Mestre Godes

 

«Os Cátaros - Origens, Desenvolvimento, Perseguição e Extinção», do catalão Jesús Mestre Godes, não é um livro histórico no sentido mais científico do termo porque influenciado por um nacionalismo algo exacerbado do autor. É verdade que se socorre de historiadores contemporâneos e escritos evos de trovadores e clérigos, mas trata-se mais de uma súmula de investigações alheias do que propriamente nascidas de Godes. Depois, este livro de 1995, e publicado em português pela Pergaminho em 2001, ignora alguns estudos essenciais sobre o tema na sua bibliografia. Um apontamento singular: a tradução é de Jorge Fallorca.

O livro é um bom início para se introduzir um tema histórico bem mais complexo do que parece à primeira vista e em que o turismo do sul de França conseguiu arredar a seriedade necessária para o analisar. Ainda me lembro da primeira vez que visitei o castelo de Carcassone, um dos locais cátaros de maior evidência: as muralhas estavam então cercadas literalmente por autocaravanas que assediavam o local com crianças munidas de espadas de madeira e elmos combatendo-se e berrando com ímpetos de vitória. Uma disneylândia! O calor era bastante e os franceses banhavam-se em chuveiros improvisados bebendo cerveja dita artesanal com rótulos de gordos abades cátaros. Nem parei ou entrei no castelo! Saí logo dali para fora em direção à Montolieu, uma pequena vila occitânica onde se pode encontrar 30 livrarias e alfarrabistas. Permaneci lá durante 3 dias incríveis, visto que o programa cultural era exatamente ao contrário do que se faz aqui, onde o novo-riquismo impera: bastava um piano e um pianista e tínhamos uma noite perfeita! No outro dia uma contrabaixista e mais um dia com uma saxofone. De livros, falaremos noutra ocasião tal a diversidade e importância.

Tudo indica que os cátaros defendiam, dentro do cristianismo, um maniqueísmo com influências, ao que tudo indica, do filósofo persa dualista Mani que também inspirou o zoroastrismo. Para eles, que se chamavam «puros» havia dois mundos: o mundo do mal, material, e o mundo do bem, o das ideias, onde estava Deus e que era intangível. Acreditavam em Jesus, filho de Deus, enviado à Terra e que fazia parte de um plano mais geral, que terminaria no apocalipse, numa luta gigantesca entre Deus e o diabo, com a vitória do Bem. Não será de estranhar pois, que a Igreja do século XII começasse a ser criticada pelos cátaros pelos seus luxos, simonias, indulgências, pecados ditos venais dos clérigos e demasiado ligada ao poder temporal feudal das violências e ocupações de terras e lugares. Nada que não esperássemos, mas que tiveram razão antes de Lutero é verdade, e talvez isso explique a fúria inexplicável, nalguns pontos da história, contra os albigenses, ou seja, os cátaros. A inquisição dominicana (com o próprio Domingos de Gusmão à cabeça) liderou esse conflito, primeiro de um modo conciliar, depois, de pura repressão brutal principalmente após a sua morte. Daí a antipatia e afastamento que muitos cristãos católicos ainda hoje sentem por esta ordem. Os franciscanos esses, embora tenham pregado no Languedoc estão longe de terem responsabilidades nas fogueiras levantadas pelos dominicanos e pelos príncipes franceses. Os papas que de uma maneira ou de outra criaram bulas anticátaras, nos vários concílios de Latrão, foram Inocêncio III, Honório III e Gregório IX, todos bem conhecidos da História de Portugal.

Disse «franceses» propositadamente. A população do Languedoc nunca se sentiu francesa. Faria parte de uma «renaixence» cultural muito assente na prática trovadoresca e literária onde pontificava igualmente a música e o teatro. Isto em pleno século XII e XIII onde o comércio florescia e enriquecia os burgueses de Montpellier, Toulouse, Foix, Pérpignan, Agen ou Narbonne. Não é impossível que este comércio com rotas orientais tivessem tido influência na criação da religião cátara trazida por comerciantes da Pérsia ou mesmo por comerciantes do Languedoc vindos dessas paragens.

A verdade é que a chamada heresia existiu e promovia a pobreza, a errância pregadora, a humildade, a austeridade e até um novo papel da mulher na condução dos serviços religiosos cátaros. Viviam em comunidades e repartiam tudo em igualdade. Tinham bispos, perfeitos e perfeitas e mantinham com o povo uma constante presença o que originava um processo de simpatia que irradiava por todo o Laguedoc e para lá dele: pensa-se que havia cátaros na Catalunha, em Aragão e até em Marselha e Grenoble. Ora, esta vida cultural e comercialmente mais ativa gerou um afastamento de um norte francês mais rural, feudal que invejava e ambicionava estes territórios incorporando-os em França, o que veio a acontecer com Luís IX, após batalhas, conflitos legais, repressões, ataques, traições de toda a espécie e principalmente, entre 1209 e 1219, em cercos violentos que originaram centenas de milhares de mortos, não contando os que sofreram as torturas e as fogueiras da Inquisição e as sevícias para alguns «inenarráveis» nomeadamente para historiadores da época, mesmo que estes fossem do «outro lado». Assim foi que até o Papa Honório III teve de lembrar a Simão de Montfort, o principal verdugo e militar de França, e já conhecida a sua brutalidade em cruzadas contra Constantinopla e Jerusalém, que «nem se trataram assim os sarracenos!» pedindo-lhe mais moderação e razoabilidade na repressão, conselho que não foi de todo seguido.
Mas foi assim que a história se passou: a dos Cátaros e do catarismo que ainda se «mexia» no início do século XIV até à tomada mítica de Montségur com a autoimolação dos principais perfeitos e perfeitas cátaros. A rendição do seu povo veio depois, com aniquilação pensa-se que total, da sua população.

As questões que me tem atravessado desde sempre, como licenciado em História, é a falta de elementos escritos do catarismo o que se compreende até uma certa parte: para os perseguidos era necessário esconder qualquer vestígio da sua religião, assim como para os perseguidores era necessário cortar o mal pela raiz destruindo tudo o que encontravam que lembrasse a «heresia». Só dispomos, ao que se sabe, de quatro fontes escritas cátaras. Quanto à arqueologia, esta tem sido mais feliz, embora o mito turístico do «Santo Graal templário escondido em Montségur» ter estragado tudo! Ou quase tudo, não exageremos...

No entanto, há a última questão, esta, quanto a mim, a mais densa: para onde foram os refugiados cátaros? Sabemos que os houve, em diversas vagas, e o contrário é que seria para admirar. Há provas da presença deles no século XIII e XIV em Aragão e nos Condados de Barcelona e sabemos que Pedro I de Aragão (que vem precisamente a morrer na Batalha de Muret) tinha simpatias cátaras assim como milhares de nobres e cavaleiros do Languedoc que tiveram de jurar obediência a França após a derrota de Muret e principalmente na de Toulouse, cuja resistência condal e popular ficou nos anais da História. 

Mas os cátaros que conseguiram fugir, permaneceram somente nas faldas dos Pirenéus? Ora, aqui reside a minha principal dúvida: se Castela estava politicamente com os cátaros porque via neles a possibilidade de enfraquecer o reino francês, tal como a Inglaterra e o Imperador do Sacro Império alemão, (prometeram ao cátaro Conde de Toulouse, Raimundo VII, ajuda em Muret que depois traíram por influência papal), será que encontraram no lado de cá dos Pirenéus algum refúgio? Se sim, foram mais avante até Portugal? Vejamos: não é de todo impossível porque no século XII o recentíssimo Portugal estava a braços com problemas sérios de povoamento e as nossas casas senhoriais tinham bastantes contactos com Aragão como sabemos. No século XIII começa-se a povoar as arroteias em Portugal e será não com alguma estranheza ou pela pura convicção (como queiram!) que vemos o nome Catarino que nos remete para o étimo de «cátaro» difundido nas regiões onde pontuavam os pântanos e as arroteias como Viana do Castelo, Ílhavo, Aveiro, Cantanhede e Grândola, por exemplo. Mais tarde estes territórios também serviram para as alforrias dos escravos, como é comprovado por várias monografias destas regiões. Fica a dúvida, que ainda permanece, por que razão este pedaço importantíssimo da História europeia, a da «heresia cátara» e da consequente debandada dos seus fiéis da Occitânia nunca foi estudada a fundo em Portugal.

sexta-feira, agosto 26, 2022

«Antéchrista», Amélie Nothomb

 

Gosto de Amélie Nothomb. Belga a viver em Bruxelas, cidade de que gostei bastante de visitar por duas vezes, teve uma infância e adolescência na China e no Japão; deste último país, cuja língua fala e escreve fluentemente, ficou-lhe um traço que se nota nos seus livros que é, ao que julgo, uma grande capacidade de síntese ao mesmo tempo que consegue, com um aceitável domínio da escrita, caracterizar muito bem as personagens e os ambientes. Define-se não como escritora, mas como «grafómana», o que desde logo captou a minha simpatia. Ganhou vários prémios, tem 26 livros, até agora, e escreve muito bem, digo-vos. 
Este «Antéchrista» foi editado em português logo em 2003, ano em que foi publicado na Bélgica, França e em vários países. Trata-se de um thriller emocional em que uma miúda de dezasseis anos, solitária e com vários complexos da adolescência, se vê enredada numa teia montada por uma amiga de quem se aproximou e, sem medir qualquer consequência, a convida para sua casa julgando que esta não teria dinheiro para se sustentar na universidade que frequentam. 
Blanche, a miúda precoce que, com dezasseis anos se vê na universidade será aquilo que hoje se chama uma nerd e Christa a «buller» que se assenhoreia não só dos seus sentidos, como de toda a família. Pai e mãe que vêem, nesta, um exemplo que a filha deveria seguir. A narrativa traz-nos surpresas, mas não vale a pena aqui revelá-las. Mas a razão que leva Christa a maltratar psicologicamente Blanche tem uma forte razão que se pode ancorar numa surda luta de classes. Ao contrário, mas sempre luta de classes. E já disse muito.
Descrevo um pensamento de Blanche:
«Até ao meu encontro com Christa, uma das felicidades da minha vida de adolescente consistia em ler: deitava-me na cama com um livro e embrenhava-me na leitura. Se o romance era de qualidade, transformava-me nele. Se era medíocre, não passava menos horas maravilhosas, deleitando-me naquilo que não gostava nele, sorrindo nas passagens estranhas.
A leitura não era um prazer de substituição. Visto do exterior, a minha existência era esquelética; visto do interior, inspirava-me o que suscitam os apartamentos cujo único mobiliário é uma biblioteca sumptuosamente repleta: a alegria contemplativa para que o supérfluo não atrapalhasse a existência do necessário.
Ninguém conhecia o meu interior: ninguém sabia que eu não estava a protestar, somente eu - e isso bastava-me. Eu aproveitava a minha invisibilidade para ler dias inteiros sem que alguém se apercebesse.» (tradução minha, pág.61)

quinta-feira, agosto 18, 2022

4 policiais 4. O mundo mudou e o policial também

 


Gosto de policiais e se forem de bolso melhor ainda. Não gasto muito dinheiro, podemos tratá-los mal e lê-los de uma assentada sem grandes preocupações que a escrita dita literária obriga. 

Neste Agosto, contudo, observei uma regra: em dez dias levei para férias dois autores considerados antigos e dois «novos»; destes últimos só conhecia toda a saga dos «Homens que odeiam as mulheres» de Stieg Larsson e um de Camilla Läckberg de que já não me lembra o nome.

Os da conhecidíssima coleção Vampiro, agora nas mãos da Porto Editora, temos boas traduções e são bem revistos, coisa que não acontecia no passado. Li E.C.Bentley com agrado. Claramente socialista, o livro escrito em 1913, logo antes da guerra retrata como ninguém a voragem que já se fazia sentir em Wall Street por «capitalistas sem escrúpulos» cujo assassinato de um deles terá sido obra de um sindicato vingativo e arquivado pela polícia. Com alguma simpatia, dá-nos a verdadeira razão desse crime, mesmo que o relatório do detective esteja completamente errado. Por isso, acaba com a sua profissão num belo jantar com o verdadeiro homicida. Lindo! Psicologicamente algo denso, a trama é extremamente bem feita e obriga-nos a pensar, mas isso são contas de outro rosário. O Último Caso de Trent foi adaptado ao cinema nos anos 30 o que o obrigou a ressuscitar a personagem. 

Dashiell Hammett é outro que tal: membro do Partido Comunista Americano, nem por isso se deixa acometer por algum racismo em relação aos negros e «mulatos» como lhes chama... mas a história deixa antever os ricos como os maus da fita, tipos vulgares, odiosos, que não se detêm perante nada, passando por cima de tudo e todos. Assassinos com fartura e sangue aos borbotões. Mas ainda assim é um gosto ler Hammett e vê-lo no cinema com um Bogart a fazer de Marlowe. A Maldição dos Dain foi igualmente levado ao cinema nos anos 30, claro.

Jeffrey Archer pia mais fininho com um livro de 2019, não fosse ele um ex-vice-presidente do grupo parlamentar torie, dos conservadores, para os mais desatentos. Atenção que isto não é uma história inventada. Faz parte da autobiografia do autor: apanhado nas teias da bolsa de Londres, o tipo fica a dever meio milhão de libras a uma data de gente e indo a tribunal cometeu perjúrio o que lhe valeu 4 anos de prisão onde escreveu, em 3 volumes, os Diários da Prisão, pois claro! Hoje voltou à política, pagou as suas dívidas e é um milionário por vende 250 milhões de livros em 37 países. Portanto, o livro que li titula-se Quem Não Arrisca... caso para dizer que sabe-la toda, o homem!

John Grisham, escreveu o manuscrito e é outro que tal: é lido aos milhões pelo universo conhecido, mas é honesto pelo que se sabe. Escreveu O Manuscrito e pode dizer-se que é um bom escritor. A história envolvem milhões de dólares e são fruto da especulação alfarrabista (!?) de 1ª edições assinadas. Sendo o livro um objeto mais apetecível que o ouro, acções da bolsa ou mesmo os dólares, dá que pensar ao amante de livros que se viu sempre rodeado deles, certamente. Que sejam objecto de especulação nos States é de abrir a boca de espanto. Mas estamos aqui para aprender sempre.

Qual a diferença entre os «novos» e os «velhos» policiais? É que, nestes, os criminosos geralmente pagam sempre os seus crimes hediondos ou talvez nem tanto, conforme a moral e a ética de quem os escreve. Quem com ferro mata, com ferro morre é o bíblico refrão que se aplica aqui. A trama policial é composta pelo desenrolar de mentes inteligentes o que obriga a equacionarmos possíveis soluções à medida que as páginas avançam. Há tiros a rodos e frieza dos detectives que prendem belas mulheres e homens de fora de qualquer suspeita social. A polícia científica é a de laboratório de vão de escada. Lá ajudar, ajuda, mas pouco. A mente é que descobre, desfaz a teia construída com denodo pelos criminosos e somos convidados a participar na descoberta da coisa.

Já com os «novos» não se vislumbra castigo nenhum para os criminosos. Antes pelo contrário. É tipo «Ocean's Eleven», topam? Os ambiciosos se forem espertos continuam as suas actividades com ambição e inteligência. A polícia científica toma o lugar da dedução ou indução do leitor. As câmaras de vigilância sabem tudo. A mínima lã deixada numa carpete é caso para levar um tipo 30 anos para a prisão. A marca de batom nos cigarros é mentira porque já ninguém fuma.  A observação mórbida dos cadáveres dizem mais do que os desgraçados que são abertos ao ritmo das anedotas dos médicos legais que é para descontrair! Os dólares já não são o objetivo, nem os milhões ou ouro, mas sim a arte e os manuscritos e 1ª edições valiosos que sempre valorizam a cada dia que passa. Livros e quadros? Museus a serem assaltados? É claro como água e todos os que se arrebanharam à grande contra os bens públicos têm a medalha dos bons e intocáveis. «Quem não arrisca...», não é? Mesmo assim, a polícia perde sempre. Sim, os policiais mudaram muito, mesmo com as câmaras de vigilância e a chafurdice nos cadáveres que nos permitem preguiçar na solução dos crimes. Querem alimentar a mente? Joguem xadrez!

terça-feira, agosto 16, 2022

«Rien ne Résiste à la Joie de Vivre», de Raoul Vaneigem


Edições Grevis, 2022
Creio que é o último livro de Raoul Vaneigem. Síntese à maneira situacionista, livro de 63 páginas muito condensado, mas nem por isso isento de analisar os males da sociedade atual e o modo de os superar. No entanto, penso que alguns temas precisariam de mais aprofundamento, quer na análise da catástrofe planetária, como da pandemia do coronavírus, sobre a não-violência ou o feminismo. De resto, a matriz das ideias e das teorias de Vaneigem estão aqui bem consolidadas.

Sabemos hoje o quão difícil é lutar contra o Estado seja ele «democrático», totalitário ou autoritário. A violência a que o Estado recorre é inversamente proporcional às razões mais pacíficas dos manifestantes atuais. Mas dedicar o livro aos zapatistas e aos Gilets Jaunes deixará muita gente perplexa, mesmo entre aqueles que não apodam os GJ de simples fanáticos fascistas. Sabemos que são centenas de milhares de desesperados que querem sobreviver a todo o custo, quer nas cidades que os afastam, quer nas zonas rurais abandonadas. Pessoalmente, vi-os em França, em pleno Inverno, nas rotundas onde vigiavam a polícia e se aqueciam nas fogueiras, comunicavam entre si e via que despontava ali uma solidariedade comum invulgar que nada tinha de militarizado ou fascista. Conviviam alegremente e convidavam as pessoas a juntarem-se-lhes.

Dizer que o livro é mais do mesmo pode parecer pretensioso, mas quem conhece a obra de Vaneigem desde há 40 anos, sabe ao que me refiro: o apelo à desobediência civil e à resistência individual e coletiva (falou uma única vez nas ZAD's), por uma «vida plenamente vivida» talvez tenha substituído a revolta como o único estado decente e honesto de todo o indivíduo, proclamado por ele em 1968. 

Do livro: «A força do indivíduo autónomo vem dele próprio e da solidariedade dos seus semelhantes. O individualista é um adepto do cálculo egoísta, um vulgar predador, um puro produto do capitalismo.

»Desconstruindo a liça dos combates fácticos, os povos aprenderam no sofrimento que somente os negociantes de armas ganham com a guerra. O nosso combate não é concorrencial, resume-se a tentar viver através dos nossos desejos reivindicando para todos e todas um direito idêntico à felicidade.
 
»A alegria de viver é uma inclinação natural. É na sua soberania que a Natureza deverá ser libertada do homem predador.

»Só uma liberdade absoluta aniquilará o absolutismo que nos mata.»
(tradução minha)

A tónica, contudo, de Vaneigem neste «Rien ne Résiste à la Joie de Vivre» vai para a redação universal de uma Carta dos Direitos do Ser Humano. Que se faça, então!

De qualquer maneira, um livro a ler e talvez a debater em conjunto.

quarta-feira, agosto 03, 2022

«O Cão de Deus», Louis-Ferdinand Céline

 

Hiena, 1995, Trad. Alberto Nunes Sampaio

Não há quem não se refira a Céline sem que nos lembre o seu passado ou o homem. Mas há poucos que analisem, ao menos, a sua escrita. Não vou fazer uma coisa, nem outra. Nem poderia. O que me leva a escrever estas linhas nas fichas de leitura que faço aqui é o não esquecimento do que li e das emoções que geri ao longo dos anos. Uma delas chama-se Louis-Ferdinand Céline.

«Cães de Deus», era como os dominicanos se chamavam a si próprios em defesa do altíssimo. O epíteto relacionado com Céline está longe desse conceito medieval. Céline era o que era, mas ao mesmo tempo um poderosíssimo escritor. Evidentemente, mal compreendido porque o anátema cola-se-lhe à pele.

«Língua Morta» é como ele chama ao francês utilizado pelas academias que detestava e que, segundo ele, o empobreciam cada vez que saía um romance da chamada elite intelectual parisiense, seja ela quem for e o que for. Ainda hoje é assim. E o francês empobrece cada vez mais. Tal como o português, diga-se. Mas não chamaria, como alguns o fazem, de «inovador» a Céline. Acho que se estivesse a ouvir este termo lhe daria uma apoplexia. Ele sabia bem o que fazia. De origens pobres teve de trabalhar muito cedo e ajudar a mãe viúva. Enquanto se despedia tumultuosamente de treze patrões antes de se formar em medicina, nunca o deixaram evoluir na profissão, exercendo-a em dispensários e até em navios mercantes. Dessa vida conheceu a língua francesa, o calão forte, a palavra atirada sem o sentido literal que a burguesia lhe dava, as pragas, que assustavam o repimpado burguês. O argot. Não bebia, mas os bares de prostituição eram o seu poiso habitual, embora sem relações habituais com mulheres. Tal como usou o francês puro de Rabelais que ele citava como dos melhores escritores franceses e nunca ultrapassado, a não ser talvez por Voltaire, mas sem mudanças desde aí. Não pensem que este livro é uma defesa em sua «honra». É um doloroso ataque a quem lhe desejou a morte, o fuzilamento, a que Brasillach não conseguiu escapar, mais os 200 mil que os encostaram à parede, logo após a libertação em 44. Tinha uma filha cujo marido não lhe deu a conhecer os 5 netos. Nunca os viu. Vivia pobremente em Meudon onde nasceu. Deixou a medicina muito antes e vivia rodeado de cães e gatos. E um papagaio. Paradoxalmente, era gentil para quem o procurava, mas as entrevistas que dava eram fogo puro de desespero ou talvez ódio. Ele negava. Mas continuava a escrever? Sim porque a Gallimard exigia-lho para pagar as suas pretensas dívidas!

Em Portugal, não sei se conhecemos a sua obra completa (certamente que não!) ou sequer que a exijamos conhecer. No fundo, o que conhecemos melhor é o Viagem ao Fim da Noite e o Morte a Crédito, os seus dois primeiros livros. É manifestamente pouco. 

Sobre o papel de Jean-Paul Sartre sobre a amnistia de 1951 que ele recusou porque não se poderia defender das acusações de antissemitismo, patentes em dois panfletos que editou, aí, teríamos muito que falar. O que posso dizer é que, segundo Céline, ele não foi o defensor do seu não fuzilamento, antes pelo contrário: escreveu um artigo acusador logo em 1945 que o ia levando ao enforcamento ainda na prisão na Dinamarca. Jean-Paul Sartre de uma maneira cobarde e sem provas acusa-o de estar ao lado do ocupante por ter sido pago! Safou-se por pouco, mas defendia que queria ser julgado e apontar alguns nomes ditos colaboracionistas e agora na tal elite da «merda seca do olho do cu», quais resistentes encartados. Não pôde! Acho, ainda hoje, a defesa de Sartre, Beauvoir ou Aragon para com Céline uma história muito mal contada. Acredito mais na possibilidade De Gaulle, aliás como Céline aventa neste livro.

Sobre o estilo: «As grandes civilizações mudaram muitas vezes de estilo. Falo das grandes civilizações desaparecidas, esquecidas, quer a dos Sumerianos, quer a dos Arameanos; de todas estas civilizações entre o Tigre e o Eufrates, há uma quarenta, cinquenta que tiveram poetas que tiveram escritores, que tiveram legisladores. E mudaram muitas vezes de estilo. Os franceses, esses, estão de pedra e cal; (...)» pág.82

Sobre política já em 1933: «A posição dos homens ao meio da sua confusão de leis, costumes, desejos, instintos aceites, repelidos, fez-se ao mesmo tempo tão perigosa, tão artificial, tão arbitrária, tão trágica e tão grotesca, que a literatura nunca foi tão fácil de conceber como agora, mas nunca foi mais difícil, também, de suportar. Estamos rodeados de países totalmente cheios de embrutecidos anafilácticos; o mais pequeno choque precipita-os em convulsões assassinas que nunca mais acabam.
    Chegámos, pois, ao final de vinte séculos de grande civilização, e no entanto não há regime que resista a dois meses de verdade. Tanto estou a referir-me à sociedade marxista como às nossas sociedades burguesas e fascistas!
        De facto, o homem não pode persistir em nenhuma desta formas sociais, que são brutais ao máximo, completamente masoquistas, sem a violência de uma mentira permanente e cada vez mais maciça, repetitiva, frenética, totalitária, como lhe chamam. Privadas deste freio desmoronar-se-iam, as nossas sociedades, na pior anarquia. Hitler não é a última palavra, talvez cheguemos a ver um género ainda mais epiléptico.» Fala nas linhas seguintes das «berrarias ditatoriais» Pág.39

Morre em 1961.
        

terça-feira, agosto 02, 2022

Livro preso por um fio

Não tenho por hábito escrever ou fazer qualquer ficha de leitura de livros que não gosto, ou que ache mal feitos, com erros de português ou escritos com interesses inconfessáveis. Li com algum tédio «Presos por um Fio» sobre as FP25, de Nuno Gonçalves Poças. Com prefácio de Paulo Portas! São os dois entendidos em tudo, portanto tudistas. O nome do autor nada me dizia até encontrá-lo na televisão falando célere, mais célere que os pensamentos que lhe vinham à boca. Creio ser na SIC que o homem vai buscar os recibos verdes. 

Vem isto a propósito pela confusão (pensada e repensada?) que ele faz de organizações, datas e situações, misturando tudo no mesmo saco personagens que nada tiveram a ver com o processo. O que faz ali Camilo Mortágua relacionando-o com as gémeas deputadas, suas filhas, não consigo atingir. Se há alguém que está longe das FP é ele, mas assim como assim lá vai o nome que talvez cole. Tal como a LUAR, que nada teve a ver com a FP, mas sim com o PS nos anos quentes do PREC. Mas embora lá, que esta organização dividiu-se em dois o que dá sempre jeito para que a fação dita «conselhista» esteja por detrás da luta armada dos anos 80! Creio não errar afirmar que já não existia, assim como o MES com nomes como o Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues e coiso e tal... para ousar ligá-los ao chamado terrorismo, também se lá põe o nome, assim como como o de Catalina Pestana que saiu logo no congresso inaugural das FUP/OUT. 

Não se trata aqui de defender o que quer que seja, mas lembrar ao tudista Poças que o país esteve à beira da guerra civil e que houve crimes da extrema-direita que ele, só muito a custo, cita, mas não enumera, nem diz nomes. Aliás só fala de dois: Ramiro Moreira e Cónego Melo. E fá-lo depois de citar o livro de Miguel Carvalho «Quando Portugal Ardeu»! Como se fosse possível desligar um processo violento de assassinatos, bombas e ataques a casas particulares e sedes pela extrema-direita do aparecimento da violência da extrema-esquerda. Chega ao ponto de quase tornar uma nota de rodapé a assassinato em Vila Real do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes, sem sequer lhes citar os seus nomes! O que está aqui presente é uma tentativa de levantar o espectro do «terrorismo de esquerda» como se fosse o alfa e ómega de todo o processo de luta armada e de violência organizada em Portugal. Não foi, como Poças sabe, mas não quis dizer.

Sobre os «arrependidos» baralha e torna a jogar como se fossem «dissidentes». Há nomes que são confundidos propositadamente, ou então e o que me parece mais verosímil é que este livro tem como objetivo uma nova cruzada de caça à esquerda. E feito em cima do joelho. Com a profundidade de um trabalho elaborado por uma turma do 12º ano e com fontes muito problemáticas de aceitar.

Ah, e onde se «escondem» os que assaltaram bancos, carrinhas de valores, fábricas e empresas? Aliás, diga-se que o livro a certa altura parece um deve e haver de contabilidade tal é a obsessão do autor pelas quantias roubadas em contos e o que valeriam hoje em euros!! Mas onde estão os criminosos? No BE, claro que lhes dá guarida, alguns em Assembleias Municipais e outros, vejam bem, directores de Agrupamentos escolares! Repito que fosse bom, para um livro sobre o tema ter referido e procurado melhor outras fontes mais fidedignas, confrontá-las e usar uma cronologia coerente. Alvitrar nomes de eventuais operacionais na morte de um diretor prisional também não me parece ser uma boa prática para quem se quer pôr em bicos de pés na História ou no Jornalismo. Fique-se pelo tudismo...