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segunda-feira, setembro 29, 2025

«Como Ler um Poema», Terry Eagleton

 

Edições 70, 2024. Tradução de Ricardo Mangerona
Isto não é «Poesia para Tótós» até porque se trata de um autor que sigo com interesse o que, por si só, nada prova com a informação graciosamente prestada. Mas posso, contudo, jurar a pés juntos que é verdadeiramente entusiasmante lê-lo. Sendo um filósofo, crítico literário e professor da Universidade de Lancaster, versado em Marx (ao contrário de livros de Estudos Literários portugueses que avisam, logo na introdução e aos estudantes, que abandonam todas as teses de análise marxista e estruturalistas!) e traduzido em inúmeros países (mas não mais que 195, segundo a ONU, sendo que dois deles são só observadores, o que me faz pensar que, nos tempos que correm, fosse avisado a conquista de tal estatuto para Portugal!).

O livro é para estudantes e para tipos como eu. Quer dizer, tipos a quem a vacina da literatura foi eficaz e, não sendo negacionista, foi inoculada por bons professores de Português a quem lhes devo a referência aqui, como um Luís Nogueira ou um António Taborda. 

É evidente que a poesia não será para todos como pretendeu Novalis. Em vez disso, e talvez mais realisticamente, deveríamos ficar somente pela fórmula de Enzensberger sobre os números de leitores (duzentos e tal) e dar-nos por satisfeitos. Ler poesia é um acto de liberdade e uma escolha muito pessoal. Tanto, que só muito raramente escrevo aqui sobre poemas ou poetas. Quando o faço é com todos os cuidados e sem grandes conciliábulos, não vá dá para o torto. E dar para o torto, neste preciso caso, é não estar acompanhado pelo olhar do poeta que poderia dizer «não é nada disso!» ou ter de partilhar emoções coisa que não estou para aí virado. O que também corresponde a um dos capítulos deste livro de Eagleton: a partir do momento em que o livro é publicado, podemos entender qualquer metáfora, alegoria, hipérbole ou comparação como muito bem nos aprouver e nada teremos a explicar, a não ser o de sentir ou procurar na página em branco que envolve o poema, essa resposta, esse mistério a que deu forma e o entrelaçar das palavras escolhidas pelo/a poeta. É aquilo a que também se refere de «textura», «imagética», «sentido», «ritmo» ou o «timbre». É evidente, para Terry Eagleton, que há uma técnica poética baseada não já na rima, no verso ou na métrica (coisas passadas), mas por uma forma muito actual de encontrar a ironia, a fúria, o desdém, os sentidos, através de técnicas apuradas pelos poetas que não abandonaram de todo a forma em detrimento do conteúdo. Ou seja, o conteúdo pode ser, até certo ponto, descoberto pela forma e não o seu contrário. O verdadeiro entusiasmo de qualquer estudante de Literatura e de Poesia, deve ser ainda, suponho com todas as forças do meu ser, a de saber em que consiste um anapesto (di-di-dum), uma assonância (dapple-dawn-draw), um batos, um dáctilo (dum-di-di) uma falácia da encarnação ou, talvez o mais importante, uma falácia mimética, «uma crença de que, digamos, um poema sobre o tédio deve ser, ele próprio, entediante».

É evidente que os exemplos que abundam em «Como Ler um Poema», são essencialmente ingleses e com traduções que vão de Daniel Jonas (Milton, Wordsworth...), José Agostinho Baptista (Yeats), Fernando Guimarães (Shelley), Manuel Corrêa Barros (Elizabeth Barrett Browning), Jorge Vaz de Carvalho (Blake). De resto, o trabalho de Eagleton é ilustrado profusamente com exemplos de poemas de raízes anglo-saxónicas o que não deixa de ser interessante. Alvo de alguma curiosidade e mesmo de apreensão é compararmos as traduções com o original em inglês. Bem sei que uma tradução poética será sempre de uma grande liberdade para o tradutor, mas reparem neste verso de Edward Thomas:

«(...) That once were underwood of hazel and ash» é traduzido por «Que foram raminhos de aveleira e freixo». Bom, adiante Eagleton tem necessidade de ir a este verso e escreve «(...) e em breve serão consumidos até se tornarem outro tipo de ''ash'' - cinzas». Quais cinzas? A tradução engoliu-as.

e esta tradução de Wordsworth:

«Among Arabian sands:» é traduzido por «Por entre a Arábia plana:» em que ficamos perplexos quando o autor nos chama a atenção, mais à frente, com a frase «Ou que é mais bem-vinda do que o som do rouxinol cantando perante o rebuliço dos viajantes num abrigo esconso das areias da Arábia.» Areias?

Terry Eagleton termina deste modo este excelente livro com um pensamento com o qual me identifico completamente e que vos deixo aqui: «(...) Vale a pena notar que, de todos os géneros literários, a poesia parece ser o que mais tenazmente resiste à crítica política, o mais isolado dos ventos da história. Tem a sua própria espessura e densidade, que não podem ser sumariamente reduzidos a sintomas de outra coisa.» (pág.329)

alc

quarta-feira, outubro 19, 2022

«Sobre o Mal», de Terry Eagleton

 
Edições 70.Tradução: Pedro Elói Duarte.2022

Para quem se define marxista é demasiado descritivo, contemplativo. Parece ignorar Marx quando este dizia que aos filósofos não bastava descrever o mundo mas sim transformá-lo. Mas para falar do mal vai buscar muitas e diversificadas referências, citando quando quer exemplificar uma ténue opinião sua. Juntamente com um humor (o Independent chama-lhe «refrescante», o Irish Times de «divertido» e o The Observer agradece-lhe «comos cristãos» o contributo que dá para a compreensão do mal) que resvala por vezes para a stand-up comedy. Chega a exemplificar uma imagem do Éden em que a Kate Winslet era a vizinha dele! Ou esta frase com montes de riso: «Não torna a escravatura, Bob Hope ou a Guerra dos Trinta Anos retrospectivamente toleráveis!», ah, ah, ah... pois não, man, pois não! E aquela de ires buscar o Terramoto de Lisboa como a justificação da teodiceia que castigava os homens (sic), ah, ah, ah... andas a ler Voltaire, camarada!, e não o citas nem nada, que fixe!, expressão que o teu filho usou quando lhe disseste que ias escrever um livro sobre o Mal!

Para quem escreve sobre o mal é fastidioso lê-lo. Lá vem a Bíblia e o Antigo Testamento com o desgraçado Job, marioneta de Deus omni tudo e que nem aceita a pergunta mais que legítima de «porquê eu?» do castigado, porque Este estava para além da sua compreensão. E não porque Job fosse falho de inteligência. A pergunta em si do «quem és?» é uma afronta humana que Deus não está para aturar. Mas quem não sabe esta história e, principalmente, a tão estafada questão do Deus que cria o Bem é o mesmo que criou o Mal e o Diabo? Bocejo longo... Agarrem-se que vêm aí as referências: Milton e o Paraíso Perdido, que afinal não era paraíso celeste nenhum, mas a própria Inglaterra após a sua Revolução do século XVII que se finou num instante em sangue, Santo Agostinho que topou o Mal muito antes de todos os medievalistas, incluindo o aristotélico Tomás de Aquino que depois da tal visão divina achou que tudo o que escreveu antes era «palha seca» mas que não inibe Eagleton de o citar, Shakespeare, Thomas Mann, Hitler, Eichmann, Arendt, Sartre, Shopenhauer (este dizia que a condição humana era uma boa merda), Kiekergaard, Freud, Lacan, Adorno, Marx, Graham Greene, Thomas Hardy, Goethe (não podia deixar de ser, claro!), Baudelaire e Rimbaud (esses bebedolas e dissolutos que fustigavam a carne como salvação, valha-nos Deus!) e ainda mais... ah, Estaline e Mao também lá estão. Dois terços do livro são colagens de citações e algumas «tiradas» e reenvio de humor para os marxistas seus colegas como Perry Anderson e F. Jameson muito mais cientes que ele do que é a teoria de Marx.

Mas o Mal! Nenhuma tese ou antítese de Eagleton, visto que sem tese não pode haver antítese. Agora sou eu a tentar ironizar com algum humor falhado que é o que ele faz no livro. Nenhuma saída ou ideia nova, o que o envia direitinho para as mãos dos conservadores que tal como Hobbes (não o cita e é estranho) só pode haver o Bem e a Liberdade que o protagoniza com fortes estados e instituições porque o mal é intrínseco à Humanidade. Aos que acham que desde que há História, ou seja, domínio, guerra e poder de uns sobre os outros, o Mal de instalou nas sociedades e desejam utopias ele clama contra a ingenuidade esquerdista porque visa a construção de sociedades cheias de tédio e bondade! Portanto, uma pitada de mal até vinha a calhar nesta pasmaceira que seria um socialismo a-histórico como as sociedades primitivas. Ou seja, uma teia de confusões e meias-verdades que nem sequer conflituam com meias-omissões e meias-mentiras. Um livro pela metade, pois.