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terça-feira, setembro 12, 2023

Sketchbook de férias, 2023, Pays d'Oc, Ocitânia

Montolieu, a chamada Village du Livre et des Arts. A história destes sortudos 760 habitantes é simples: nos anos 80, um bibliófilo de Paris farto de estar por lá, criou, com a ajuda da Mairie e de uns quantos entusiastas locais, condições para virem, com armas e muitas bagagens, alfarrabistas de toda a França (e alguns ingleses também) para Montolieu. A pequena vila ainda hoje está em recuperação deste sonho, depois de ter falecido o seu mentor. Mas aquilo não pára. Só dele, de Michel Braibant, uma grande e antiga fábrica foi adaptada para um lugar onde se podia vender e comprar livros de todos os géneros. Hoje, esta antiga fábrica separou-se e deu origem a uma livraria independente e naquele espaço ficaram somente ateliers e oficinas de pintura e de arte. Não sem que nos lembrassem que aquela antiga fábrica foi lugar de exílio forçado de 400 republicanos espanhóis que fugiam de Franco e que aquela vila se recusou a entregar. A bandeira da Espanha republicana está lá a recordar-nos.

Maison Rives. Casa de hóspedes onde ficámos 4 noites, 5 dias. O Sr. Bernard era o dono. O nosso quarto era o da varanda. A sala comum era bonita e o mobiliário antigo a fazer lembrar as casas dos nossos avós. Tomávamos o pequeno-almoço na cozinha servido por ele que tinha igualmente uma livraria a «Palmade»
Torre principal da Igreja de Santo André na praça principal da vila
Outra imagem da Igreja de Santo André vista da Place de La Liberté, antigo convento beneditino
Livraria alfarrabista «La Manufacture» cujo dono, Pierre, para além de um grande conversador sabia muito sobre autores e livros. Nasceu e viveu em Paris (sabia falar o argot de Céline) durante muitos anos até se fixar na Ocitânia em busca de paz e de uma vida diferente. A livraria era uma maravilha de 3 andares, fora o sótão, e os preços eram incrivelmente baratos. 
Rua principal de Montolieu. Ligava a Maison Rives, onde estávamos hospedados, à Place de La Liberté em poucos minutos. A pé, claro. As casas de habitação mantinham a traça antiga. Do lado esquerdo, vê-se as grossas paredes da Igreja de Santo André.
Place de La Liberté. Ao fundo um restaurante a que íamos jantar muito bem uns pratos do País d'Oc com vinho d'Oc, pois claro: o «Casquette et Chapeau». A fonte e o jogo da petanca não podiam faltar. Os plátanos, que não se podavam, faziam com que a temperatura baixasse a do muito calor que se fazia sentir.
A antiga «Manufacture Royale», fábrica têxtil fundada no século XVIII, era agora uma casa de habitação permanente de artistas e fotógrafos, para além de restaurante, bar e jardim. As exposições nas galerias variavam entre o naif e o profissional. Falámos com todos os artistas presentes. Também jantámos, esperando que nos servissem nuns «rápidos» 45 minutos antes de começarmos a comer! Eram quase todos budistas, o que desculpa tudo! A Ananda sentada a beber um aperitivo.
Restaurante de eleição: o «La Rencontre». Gente simpática, jantava-se debaixo de uma latada com comida francesa, principalmente o pato confitado, peixe e também a da região da Ocitânia. O vinho era muito bom, diga-se, principalmente o branco fresquinho. Era usual falar-se com os convivas do lado.
Mazamet, a norte de Montolieu. Aqui se encontra o Museu do Catarismo, a heresia que levou a Igreja Católica a um massacre de milhares de pessoas e à criação da Inquisição, já no século XIII. A luta aberta levou quase 20 anos e a luta «surda» permanece ainda. A repressão e as torturas, os autos-de-fé foram de tal violência que ainda hoje perdura um rancor das populações não totalmente ultrapassado contra Paris e contra uma personagem quase inominável: Simon de Monfort, o que destruiu cobardemente Constantinopla e a sua valiosíssima biblioteca em cruzadas anteriores no Médio Oriente. 
Quanto ao catarismo e ao que significava dava muito para falar e embora não caiba aqui referir os seus princípios (neste blogue damos conta deles) podemos dizer que lutavam por um cristianismo primitivo e uma igreja mais ligada aos pobres e às mulheres. A igreja oficial não poderia permiti-lo. As rotas de fuga dos cátaros incluem Portugal, nesses séculos a braços com problemas de povoamento.

Desenhos e legendas de António Luís Catarino
Agosto de 2023

domingo, setembro 04, 2022

«Os Cátaros», Jesús Mestre Godes

 

«Os Cátaros - Origens, Desenvolvimento, Perseguição e Extinção», do catalão Jesús Mestre Godes, não é um livro histórico no sentido mais científico do termo porque influenciado por um nacionalismo algo exacerbado do autor. É verdade que se socorre de historiadores contemporâneos e escritos evos de trovadores e clérigos, mas trata-se mais de uma súmula de investigações alheias do que propriamente nascidas de Godes. Depois, este livro de 1995, e publicado em português pela Pergaminho em 2001, ignora alguns estudos essenciais sobre o tema na sua bibliografia. Um apontamento singular: a tradução é de Jorge Fallorca.

O livro é um bom início para se introduzir um tema histórico bem mais complexo do que parece à primeira vista e em que o turismo do sul de França conseguiu arredar a seriedade necessária para o analisar. Ainda me lembro da primeira vez que visitei o castelo de Carcassone, um dos locais cátaros de maior evidência: as muralhas estavam então cercadas literalmente por autocaravanas que assediavam o local com crianças munidas de espadas de madeira e elmos combatendo-se e berrando com ímpetos de vitória. Uma disneylândia! O calor era bastante e os franceses banhavam-se em chuveiros improvisados bebendo cerveja dita artesanal com rótulos de gordos abades cátaros. Nem parei ou entrei no castelo! Saí logo dali para fora em direção à Montolieu, uma pequena vila occitânica onde se pode encontrar 30 livrarias e alfarrabistas. Permaneci lá durante 3 dias incríveis, visto que o programa cultural era exatamente ao contrário do que se faz aqui, onde o novo-riquismo impera: bastava um piano e um pianista e tínhamos uma noite perfeita! No outro dia uma contrabaixista e mais um dia com uma saxofone. De livros, falaremos noutra ocasião tal a diversidade e importância.

Tudo indica que os cátaros defendiam, dentro do cristianismo, um maniqueísmo com influências, ao que tudo indica, do filósofo persa dualista Mani que também inspirou o zoroastrismo. Para eles, que se chamavam «puros» havia dois mundos: o mundo do mal, material, e o mundo do bem, o das ideias, onde estava Deus e que era intangível. Acreditavam em Jesus, filho de Deus, enviado à Terra e que fazia parte de um plano mais geral, que terminaria no apocalipse, numa luta gigantesca entre Deus e o diabo, com a vitória do Bem. Não será de estranhar pois, que a Igreja do século XII começasse a ser criticada pelos cátaros pelos seus luxos, simonias, indulgências, pecados ditos venais dos clérigos e demasiado ligada ao poder temporal feudal das violências e ocupações de terras e lugares. Nada que não esperássemos, mas que tiveram razão antes de Lutero é verdade, e talvez isso explique a fúria inexplicável, nalguns pontos da história, contra os albigenses, ou seja, os cátaros. A inquisição dominicana (com o próprio Domingos de Gusmão à cabeça) liderou esse conflito, primeiro de um modo conciliar, depois, de pura repressão brutal principalmente após a sua morte. Daí a antipatia e afastamento que muitos cristãos católicos ainda hoje sentem por esta ordem. Os franciscanos esses, embora tenham pregado no Languedoc estão longe de terem responsabilidades nas fogueiras levantadas pelos dominicanos e pelos príncipes franceses. Os papas que de uma maneira ou de outra criaram bulas anticátaras, nos vários concílios de Latrão, foram Inocêncio III, Honório III e Gregório IX, todos bem conhecidos da História de Portugal.

Disse «franceses» propositadamente. A população do Languedoc nunca se sentiu francesa. Faria parte de uma «renaixence» cultural muito assente na prática trovadoresca e literária onde pontificava igualmente a música e o teatro. Isto em pleno século XII e XIII onde o comércio florescia e enriquecia os burgueses de Montpellier, Toulouse, Foix, Pérpignan, Agen ou Narbonne. Não é impossível que este comércio com rotas orientais tivessem tido influência na criação da religião cátara trazida por comerciantes da Pérsia ou mesmo por comerciantes do Languedoc vindos dessas paragens.

A verdade é que a chamada heresia existiu e promovia a pobreza, a errância pregadora, a humildade, a austeridade e até um novo papel da mulher na condução dos serviços religiosos cátaros. Viviam em comunidades e repartiam tudo em igualdade. Tinham bispos, perfeitos e perfeitas e mantinham com o povo uma constante presença o que originava um processo de simpatia que irradiava por todo o Laguedoc e para lá dele: pensa-se que havia cátaros na Catalunha, em Aragão e até em Marselha e Grenoble. Ora, esta vida cultural e comercialmente mais ativa gerou um afastamento de um norte francês mais rural, feudal que invejava e ambicionava estes territórios incorporando-os em França, o que veio a acontecer com Luís IX, após batalhas, conflitos legais, repressões, ataques, traições de toda a espécie e principalmente, entre 1209 e 1219, em cercos violentos que originaram centenas de milhares de mortos, não contando os que sofreram as torturas e as fogueiras da Inquisição e as sevícias para alguns «inenarráveis» nomeadamente para historiadores da época, mesmo que estes fossem do «outro lado». Assim foi que até o Papa Honório III teve de lembrar a Simão de Montfort, o principal verdugo e militar de França, e já conhecida a sua brutalidade em cruzadas contra Constantinopla e Jerusalém, que «nem se trataram assim os sarracenos!» pedindo-lhe mais moderação e razoabilidade na repressão, conselho que não foi de todo seguido.
Mas foi assim que a história se passou: a dos Cátaros e do catarismo que ainda se «mexia» no início do século XIV até à tomada mítica de Montségur com a autoimolação dos principais perfeitos e perfeitas cátaros. A rendição do seu povo veio depois, com aniquilação pensa-se que total, da sua população.

As questões que me tem atravessado desde sempre, como licenciado em História, é a falta de elementos escritos do catarismo o que se compreende até uma certa parte: para os perseguidos era necessário esconder qualquer vestígio da sua religião, assim como para os perseguidores era necessário cortar o mal pela raiz destruindo tudo o que encontravam que lembrasse a «heresia». Só dispomos, ao que se sabe, de quatro fontes escritas cátaras. Quanto à arqueologia, esta tem sido mais feliz, embora o mito turístico do «Santo Graal templário escondido em Montségur» ter estragado tudo! Ou quase tudo, não exageremos...

No entanto, há a última questão, esta, quanto a mim, a mais densa: para onde foram os refugiados cátaros? Sabemos que os houve, em diversas vagas, e o contrário é que seria para admirar. Há provas da presença deles no século XIII e XIV em Aragão e nos Condados de Barcelona e sabemos que Pedro I de Aragão (que vem precisamente a morrer na Batalha de Muret) tinha simpatias cátaras assim como milhares de nobres e cavaleiros do Languedoc que tiveram de jurar obediência a França após a derrota de Muret e principalmente na de Toulouse, cuja resistência condal e popular ficou nos anais da História. 

Mas os cátaros que conseguiram fugir, permaneceram somente nas faldas dos Pirenéus? Ora, aqui reside a minha principal dúvida: se Castela estava politicamente com os cátaros porque via neles a possibilidade de enfraquecer o reino francês, tal como a Inglaterra e o Imperador do Sacro Império alemão, (prometeram ao cátaro Conde de Toulouse, Raimundo VII, ajuda em Muret que depois traíram por influência papal), será que encontraram no lado de cá dos Pirenéus algum refúgio? Se sim, foram mais avante até Portugal? Vejamos: não é de todo impossível porque no século XII o recentíssimo Portugal estava a braços com problemas sérios de povoamento e as nossas casas senhoriais tinham bastantes contactos com Aragão como sabemos. No século XIII começa-se a povoar as arroteias em Portugal e será não com alguma estranheza ou pela pura convicção (como queiram!) que vemos o nome Catarino que nos remete para o étimo de «cátaro» difundido nas regiões onde pontuavam os pântanos e as arroteias como Viana do Castelo, Ílhavo, Aveiro, Cantanhede e Grândola, por exemplo. Mais tarde estes territórios também serviram para as alforrias dos escravos, como é comprovado por várias monografias destas regiões. Fica a dúvida, que ainda permanece, por que razão este pedaço importantíssimo da História europeia, a da «heresia cátara» e da consequente debandada dos seus fiéis da Occitânia nunca foi estudada a fundo em Portugal.