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segunda-feira, março 18, 2024

«O Princípio de Tudo - Uma nova História da Humanidade», David Graeber e David Wengrow

 

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício
É mesmo uma perspectiva original. Aqui não há embustes com o adjectivo «novo» que muitos autores utilizam para vender o seu produto, muitas vezes com hipóteses mal construídas ou sem verificação científica. David Graeber (1961-2020), juntamente com David Wengrow, apresentam-nos um livro tão consistente quanto interessante de se ler. As questões formuladas variam quer no grau de provocação académica no campo da Antropologia e na História, quer na inteligência viva como são apresentadas. Muitas delas são óbvias e, por isso mesmo, desconcertantes. Por exemplo: a História tendo teimado durante tanto tempo na cronologia evolucionista, isto é, do Paleolítico ao Neolítico e das «civilizações» urbanas e teocráticas à Idade Clássica, desta aos Impérios, seguindo-se depois as conhecidas «idades», não se limitou a criar compartimentos estanques que «esqueceram» períodos intermédios de séculos, se não mesmo de milénios, em que, faltando registos escritos ou arqueológicos, foram arrumados numa espécie de «idades das trevas», mas provavelmente tão ricas sociológica e politicamente como as que foram estudadas mais profundamente? Isto dar-se-ia essencialmente naquilo a que chamamos de Pré-História. A velha sequência de caçadores recolectores, logo nomadismo, agricultores, logo sedentarismo, criação de cidades, logo hierarquias políticas e aparecimento de estados teocráticos, não será demasiado simplista? E se nada disto se tivesse passado e as estruturas socias do nomadismo conviveram amiúde com o sedentarismo que nunca o terá sido verdadeiramente? E se os nómadas recolectores a que vulgarmente associamos a sociedades «igualitárias» não o fossem tanto assim, nem os primeiros agricultores permanecessem em sociedades «desiguais»? E se se complementassem em sociedades onde o predomínio da recolecção fosse de algum modo complementado com uma agricultura «a brincar»? Isto durante milénios, não vendo a humanidade qualquer vantagem numa agricultura intensiva. E se, nas grandes cidades como Uruk ou Çatal Hüyük, no chamado Crescente Fértil, houvesse menos desigualdade quanto imaginamos hoje ou que o poder sacerdotal e político convivesse com grandes assembleias populares e organizações de bairro, tornando os primeiros uma espécie de poder teatral? E se a agricultura não teve origem só no Crescente Fértil, mas ao mesmo tempo, ou até muito antes, em cidades maiores na Ucrânia e na América Central?  E se as sociedades primitivas fossem de facto igualitárias, com chefes que não eram obedecidos ou só o fossem em caso de guerra? E se os filósofos iluministas tivessem tido conhecimento destas sociedades igualitárias nomeadamente as das Cinco Nações índias que iam do Québec e Ontário ao que é hoje St. Louis e Florida e que as críticas indígenas à sociedade europeia branca tivessem sido estudadas por Rousseau ou Montesquieu, tendo-as passado para os seus ensaios em «As Origens da Desigualdade...» ou o «Espírito das Leis», respectivamente? Os autores apresentam dados convincentes para que estes factos tenham sido bem reais do que à primeira vista podem parecer. O mesmo quando se aplica o conceito de «guerra» e escravatura em sociedades ditas primitivas.

Mas fiquemos com um trecho dos autores na conclusão de «O Princípio de Tudo»: «Os teóricos sociais têm uma tendência para escrever sobre o passado como se tudo o que aconteceu pudesse ter sido previsto antecipadamente. Esta postura é um pouco desonesta, pois todos sabemos que, quando tentamos realmente prever o futuro, quase sempre nos enganamos - e isto aplica-se tanto aos teóricos sociais como a todas as outras pessoas. Não obstante, é difícil resistir à tentação de escrever e pensar como se o estado actual do mundo, no início do século XXI, fosse o desfecho inevitável dos últimos dez mil anos de História, apesar de, evidentemente, não termos uma verdadeira ideia de como será sequer o mundo em 2075, quanto mais em 2150.
Quem sabe? Se a nossa espécie perdurar e um dia olharmos para trás, a partir desse futuro ainda desconhecido, talvez os aspectos do passado remoto que agora parecem anomalias - como, por exemplo, as burocracias que funcionavam a uma escala comunitária; as cidades governadas por conselhos de bairro; os sistemas de governo em que as mulheres tinham uma preponderância nas posições formais; ou os modos de gestão da terra baseados no cuidado e não na posse e na extracção - venham a ser considerados os verdadeiros avanços significativos e as grandes pirâmides ou estátuas de pedra se pareçam mais com curiosidades históricas. E se partíssemos agora dessa abordagem e olhássemos, digamos, para a Creta minóica ou a cultura hopewell [indígenas do leste americano] não como pequeos desvios aleatórios num caminho que leva inexoravelmente a Estados e Impérios, mas como alternativas: estradas não tomadas?» (págs. 589/590)

Bertrand, 2022. Trad. Paulo Tavares e Sara M. Felício


segunda-feira, setembro 05, 2022

«Fragments of an Anarchist Anthropology», de David Graeber

 

Talvez dos livros mais importantes de David Graeber, a seguir ao seu monumental «Debt, the first 5000 years» e «Trabalhos de Merda», que me pronunciarei em breve sobre ele. Dizem que já está esgotado e não me admira. É um livrinho de 100 páginas, mas bem elaborado e com uma síntese impecável sobre o que é o Anarquismo, hoje. Creio, não errar se disser que provavelmente ele escreveu-o para a galáxia marxista, mais do que para anarquistas. Por mim, apanhei-o a tempo e dou por mim a pensar que anarquistas haverá que talvez reajam com alguma surpresa e desconfiança o cada vez maior número de pessoas que se aproximam das suas teses e que leem com novo vigor as teses de Proudhon, Bakunine (não sabia que ele traduziu «O Capital» de Marx para russo!) e Kropotkine. O mais interessante é que o editor da «Prickly Paradigm Press» é o nosso conhecido Marshall Sahlins que escreveu o icónico «Âge de Pierre, âge d'abondance - l'économie des sociétés primitives». No seguimento da minha afirmação anterior também não será de estranhar as referência a Castoriadis, aos situacionistas, aos autónomos italianos e americanos e aos conselhistas, segundo ele os marxistas mais próximos à prática anarquista. Já não nos admira tanto a sua referência aos anarquistas e libertários como John Zerzan, um primitivista que editei na Deriva com o seu «Futuro Primitivo» e que esteve nas grandes assembleias de Seattle e ao recém-falecido Peter Lamborn Wilson autor das «Utopias Piratas», também editado pela Deriva. Com estes autores mantive uma correspondência bastante frutuosa. Gostei bastante deles e sendo este um fator subjetivo, vale o que vale, mas não queria deixar passar este facto em branco. Portanto, não tendo já essa possibilidade, peço que traduzam este livro para português, pela sua importância. Penso que a Antropologia cá da terra, e as pessoas que ainda não se recusam a ler e a pensar criticamente, só teriam a agradecer e não é com surpresa que vejo algumas afinidades com o livro de João Carlos Louçã no seu «Pensar a Utopia-Transformar a Realidade» principalmente na aproximação do marxismo ao anarquismo.

Neste livro, escrito em fragmentos e apresentando-nos pensamentos aparentemente desligados uns dos outros (como aliás toda a técnica da escrita fragmentária) reconhecemos uma sólida formação de antropólogo que não foge aos problemas vários do capitalismo e da construção de alternativas. São a construção desses paradigmas de liberdade individual e coletiva que nos leva a conhecer não só algumas práticas ditas de sociedades primitivas, mas criticá-las também. Provavelmente, teremos de pensar em alternativas ao capitalismo em moldes completamente novos. E é esse o desafio da democracia direta que nos traz David Graeber, além de outros desafios. Passa a pente fino a fixação ocidental (eis um conceito que deve acabar, o de «ocidental») na «democracia» ateniense e espartana como fossem o início de toda a governabilidade, quando existiam povos que usavam o consenso democrático muitos milhares de anos antes. A própria ideia de «representação» é de um dos maiores logros, ele chama-a de «trap» o que é uma palavra bem que acentua melhor o «nosso» sistema político. 

Deixo para o fim o inteligente debate imaginário entre os sempre céticos de uma nova liberdade sem capitalismo, pode-se chamar anarquismo ou não, e aqueles que acreditam numa nova era alternativa, com bases sólidas de organização popular, autónoma, consensual, de vizinhança e de solidariedade comuns. Impossível? A História mostra-nos que não, mas omite as experiências livres que ocorreram desde há dois séculos e que ainda ocorrem em Chiapas, nas assembleas argentinas (após a sua derrocada económica) ou nas ZAD's autónomas por todo o lado na Europa, Estados Unidos ou Canadá. Opondo uma prática não-violenta à violência brutal do capitalismo (ele goza com o adjetivo «tardio») e a que já nos habituámos. Infelizmente. Até porque é cada vez mais letal.

É evidente que não se esgota aqui, nesta minha ficha de leitura, a riqueza das ideias de David Graeber e o pensamento crítico com que nos brinda em cada página. Que nos faz pensar. Mas é um desafio interessante ver que os antropólogos estarão na primeira fila do que ele chamaria de novos paradigmas, porque têm o saber necessário para desconstruir um sistema que nunca funcionou ou, se o fez, foi à custa de escravatura, genocídio de milhões de indivíduos, racismo, nacionalismos que levaram a guerras fratricidas, exploração desenfreada de recursos e criação de refugiados expulsos das suas terras ancestrais. E tudo isto através de estruturas militares, prisionais e burocráticas.

Ah...e Portugal e Espanha são referidos, tal como o sistema colonial francês e inglês. As monarquias ibéricas não eram muito mais complexas que as do Congo como se verificou nos seus primeiros contactos. Mas isto não é dito nas disciplinas académicas atuais. O que faz com que a História hoje se apresente como uma enorme omissão, quando não mentira estudada, como o fazem os media atuais, ou a sociologia que pretende «perceber» as «sociedades» confundidas propositadamente com os «estados».

Termino com uma provocação de Graeber: «por que razão há tantos académicos marxistas e só na antropologia é que encontramos um número assinalável de anarquistas?»