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quarta-feira, agosto 14, 2024

«Stupeur et Tremblements», Amélie Nothomb

 

Amélie Nothomb. (1966). Foto da editora Anagrama
Completamente desconcertante e de uma ironia ímpar, esta escritora belga a viver em Kobe, no Japão onde nasceu, é igualmente prolixa. Quase um livro por ano, desde 1990. Li agora este «Stupeur e Tremblements» guardado há muito na estante, porque entretanto me debrucei sobre outros dela. Tenho-a seguido regularmente e a sua escrita prova que a sua qualidade literária não é incompatível com o riso. Devo dizer-vos, contudo, que o li em francês. Desconhecia que tivesse tradução portuguesa mas, sim, tinha: foi a Asa que lhe deu o título «Temor e Tremor» com a informação adicional que está esgotado; também no Brasil foi publicado, pela Record como «Medo e Submissão». Já o filme de Alain Corneau, em 2016, apresentou o título de «Medo e Tremor»! Visto isto, espero que quem me leia me perdoe eu ter optado pela edição francesa, duvidando mesmo que alguma vez conseguisse a sua edição esgotada na língua nossa. Acresce que Amélie Nothomb, no próprio livro, expõe a razão do título: é que o «stupeur e tremblements» faria parte do protocolo aos visitantes físicos do imperador japonês. Era deste modo, humilhante e vexatório, que se obrigavam os nipónicos a curvarem-se sob a presença imperial. Por isso, não entendo por que razão não se escolheu o título tão português de «Estupor e Tremor». Bastava o dicionário e a própria ironia das palavras e os subentendidos que provocavam.

A narrativa é delirante. Amélie Nothomb, como já se disse, conhece bem o Japão, tendo nascido em Tóquio e vivendo neste momento em Kobe. Sendo belga não deixa por isso de olhar para o Japão com os olhos tão críticos, como legítimos, para a vida no país do Sol Nascente. Seja ela a vida «pessoal», individual de cada japonês ou japonesa, e aqui a condição feminina não é ignorada, como a empresarial - chega a dizer que a existência dos japoneses é vivida para a ideia de empresa - que é descrita de modo magistral por Amélie Nothomb quando trabalhou sete meses na multinacional Yunimoto. Amélie-san é uma subordinada que não tem ninguém para mandar. Acima dela há toda uma hierarquia de autoridade cuja acção é tão completamente kafkiana, como verosímil. “O Sr. Haneda era o superior do Sr. Omochi, que era o superior do Sr. Saito, que era o superior da Srta. Mori, que era minha superiora. E eu não era superior de ninguém.” Conhecendo nós como trabalham as multinacionais, sejam elas japonesas ou não, temos a certeza que tudo aquilo que lemos, com um sorriso nos lábios ou mesmo com riso desbragado, é replicado por todas as pequeninas empresas, imitando os grandes Ceo's e ajustando o que aprenderam nas praxes universitárias para com os colaboradores subordinados, porque isso de trabalhadores já nada tem a ver com as novas e perecíveis startups

Se puderem não percam este livro, ou filme, ou ainda na versão esgotada do português de cá (cuidado com o olx e com o marketplace, optem sempre pelos alfarrabistas) ou do outro lado do Atlântico (tendo atenção ao valor dos reais e às taxas de encomendas).

Albin Michel, Livre de Poche, 1999
alc

segunda-feira, abril 15, 2024

«Du Traité de savoir-vivre à l'usage des jeunes générations à la nouvelle insurrection mondiale», Raoul Vaneigem

 

le cherche midi, 2023
«A poesia não cai do céu. Ela nasce no bas-fonds da existência»
Raoul Vaneigem, pág.164

Um dos erros em que não cairei é comparar este livro com o já icónico «Arte de Viver das Gerações Novas» publicado em 1967 pelo então membro da Internacional Situacionista, Raoul Vaneigem, hoje com a idade de 90 anos. Como sabemos, foi editado em Portugal, em 1975, no Porto. A mesma tradução de José Carlos Marques, foi recuperada pela Letra Livre em 2014 e já vai na 3ª edição! Mais que nunca a lucidez e o desenho de vastas possibilidades de substituir o capitalismo por uma realidade em que se possa dar azo à verdadeira arte de viver. Raoul Vaneigem publica «Do Tratado da arte de viver das novas gerações à nova insurreição mundial» (tradução livre, minha), em 2023 e aponta para a criação de novas subjectividades consequência das estruturas hierárquicas estatais, ambientais e sociológicas que entretanto foram tomando forma no espaço de 56 anos. Digamos que é um discurso denso, fragmentário, mas, paradoxalmente, de uma coerência e coesão teóricas a que sempre nos habituou. No ocaso da sua vida física, apresenta-nos possibilidades reais de transformação pela emergência da Vida e da Autonomia baseada na autogestão generalizada. Possivelmente sem o vigor do final dos anos 60 que conduziu à «carga de cavalaria», para citar Debord, do Maio de 68, mas com um traço de conhecimento e de experiência entretanto adquirido. Dizia-se dele, quando abandonou a IS, que era o lado solar dos situacionistas e Debord o seu lado lunar. Não tenho essa opinião, mas classifico este livro como uma prova límpida que, numa insurreição futura, é tão necessário o amor, quanto o confronto contra as hierarquias tomem elas as roupagens estatais, como as burocráticas. 

Aqui, pela mão de Vaneigem, pode-se sentir a luta contra a desumanização propagada pelo capitalismo e muitas vezes retransmitido por um anticapitalismo mais do que uma vez anunciando a escravização do proletariado que recusa o consumismo e o trabalho assalariado (hoje, bem diferente do que era antes) sob o argumento de o emancipar. Mas reconhece que até esses burocratas estão cansados de já ninguém os ouvir. Uma insurreição da vida quotidiana propaga, em França e no mundo, uma guerrilha que sem matar, está apostada em erradicar a engrenagem que destrói o que está vivo. Necessário será, pois, destruir as empresas do Lucro e a criação de zonas autónomas e de criação livre. A luta das mulheres contra o patriarcado (uma constante neste livro, sem que defenda um matriarcado tão nefasto quanto aquele) tornou-se exemplar. O indivíduo emancipa-se do individualismo, tão caro igualmente em Stirner. O estado afunda-se. A autodefesa do que é vivo, confronta-se com o envenenamento generalizado. O exercício do Poder ensombra-se no ridículo. A verdadeira imagem de quem nos governa são autênticos demiurgos da morte programada contra o Natural e pela guerra permanente. O seu glossário, inscrito neste livro, é de algum modo uma esperança revolucionária, sem que Raoul Vaneigem deixe de nos avisar que ter esperança sem nada fazer é tão negativo quanto à desesperança. 

Seria muito importante a tradução deste livro para o português. Haja quem.

terça-feira, agosto 16, 2022

«Rien ne Résiste à la Joie de Vivre», de Raoul Vaneigem


Edições Grevis, 2022
Creio que é o último livro de Raoul Vaneigem. Síntese à maneira situacionista, livro de 63 páginas muito condensado, mas nem por isso isento de analisar os males da sociedade atual e o modo de os superar. No entanto, penso que alguns temas precisariam de mais aprofundamento, quer na análise da catástrofe planetária, como da pandemia do coronavírus, sobre a não-violência ou o feminismo. De resto, a matriz das ideias e das teorias de Vaneigem estão aqui bem consolidadas.

Sabemos hoje o quão difícil é lutar contra o Estado seja ele «democrático», totalitário ou autoritário. A violência a que o Estado recorre é inversamente proporcional às razões mais pacíficas dos manifestantes atuais. Mas dedicar o livro aos zapatistas e aos Gilets Jaunes deixará muita gente perplexa, mesmo entre aqueles que não apodam os GJ de simples fanáticos fascistas. Sabemos que são centenas de milhares de desesperados que querem sobreviver a todo o custo, quer nas cidades que os afastam, quer nas zonas rurais abandonadas. Pessoalmente, vi-os em França, em pleno Inverno, nas rotundas onde vigiavam a polícia e se aqueciam nas fogueiras, comunicavam entre si e via que despontava ali uma solidariedade comum invulgar que nada tinha de militarizado ou fascista. Conviviam alegremente e convidavam as pessoas a juntarem-se-lhes.

Dizer que o livro é mais do mesmo pode parecer pretensioso, mas quem conhece a obra de Vaneigem desde há 40 anos, sabe ao que me refiro: o apelo à desobediência civil e à resistência individual e coletiva (falou uma única vez nas ZAD's), por uma «vida plenamente vivida» talvez tenha substituído a revolta como o único estado decente e honesto de todo o indivíduo, proclamado por ele em 1968. 

Do livro: «A força do indivíduo autónomo vem dele próprio e da solidariedade dos seus semelhantes. O individualista é um adepto do cálculo egoísta, um vulgar predador, um puro produto do capitalismo.

»Desconstruindo a liça dos combates fácticos, os povos aprenderam no sofrimento que somente os negociantes de armas ganham com a guerra. O nosso combate não é concorrencial, resume-se a tentar viver através dos nossos desejos reivindicando para todos e todas um direito idêntico à felicidade.
 
»A alegria de viver é uma inclinação natural. É na sua soberania que a Natureza deverá ser libertada do homem predador.

»Só uma liberdade absoluta aniquilará o absolutismo que nos mata.»
(tradução minha)

A tónica, contudo, de Vaneigem neste «Rien ne Résiste à la Joie de Vivre» vai para a redação universal de uma Carta dos Direitos do Ser Humano. Que se faça, então!

De qualquer maneira, um livro a ler e talvez a debater em conjunto.