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sábado, fevereiro 22, 2025

«Kallocaína», Karin Boye

Penguin Clássicos, 2025. Introdução de David McDuff. Tradução de Ivan Figueiras
Ainda estou por perceber qual a razão que levou a editora, depois de declarar a protecção da propriedade intelectual e dos direitos de autor, a colocar-lhe um sub-título completamente abusivo, até melhor explicação, de «Romance do século XXI»! 

Trata-se de uma distopia, de um livro inquietante, escrito em 1940, portanto antes dos conhecidos «1984», de Orwell e de «Fahrenheit 451» de Bradbury, mas após os incontornáveis «Admirável Mundo Novo», de Huxley, «Nós», de Zamiatine ou as obras futuristas de H.G.Wells, entre muitos outros que viveram o período entre as duas guerras mundiais, o que se deverá compreender facilmente com a ascensão do nazismo, do fascismo e dos processos de Moscovo liderados por Estaline que desvirtuaram a tentativa libertária da revolução russa. Todas as razões para perspectivar um futuro sombrio.

É um livro notável que nos remete para a construção de um totalitarismo que poderia ter saído da II Guerra Mundial. Mesmo com o nazi-fascismo derrotado (repete-se que «Kallocaína», foi escrito em 1940, ano de todas as vitórias alemãs sobre os aliados e o início da invasão da URSS) no final da guerra a tentativa de controlo do indivíduo pelos governos e pelos serviços secretos democráticos era uma realidade próxima e que a Guerra Fria veio acentuar e tornando-se quer numa realidade «democrática» ocidental, quer «burocrática» de leste.

A kallocaína seria um soro da verdade que quando injectado num inimigo capturado, preso, suspeito de resistência contra o Estado, ou o que quer que seja, - Kall, o inventor, usa-o na mulher para se certificar que não tem uma relação sexual com um seu colega resistente e que é condenado à morte, denunciado por ele - os fazem dizer toda a verdade contra a sua vontade e denunciar todos os seus companheiros, organismos oponentes e todos os que moral e eticamente se separam das directrizes do Estado. Uma tortura limpa, portanto; sem sangue ou violências escusadas, primitivas e cansativas. Talvez o que Elon Musk nos reserve com o seu programa Neuralink que adivinha através da computação e IA o pensamento dos simples mortais como nós que têm veleidades a, imaginem, pensar criticamente! Não que não houvesse tentativas anteriores como a administração lesiva de LSD e outras drogas químicas pela CIA, ditaduras sul-americanas e serviços secretos do leste a prisioneiros, mas a questão era e foi sempre jurídica: não se aceitavam confissões sob o efeito comprovado dessas drogas, anulando ou minorando as penas aplicadas. Agora pergunto-vos: haverá algum travão a que esse tipo de tortura se torne juridicamente aceite nos EUA de Trump e após Guantanamo? Bem me parecia que a vossa resposta não foi tão imediata quanto se pretendia, se me permitem a ousadia de tentar adivinhá-la. 

Karin Boye previu tudo isto, tal como o Estado todo-poderoso totalitário, a alienação total das massas, a credulidade em fés messiânicas, a violência da denúncia de colegas de trabalho ou de membros da família, de comportamentos considerados desviantes, o estado de guerra permanente contra inimigos imaginários ou como forma de fortalecer os Estados, como aliás se passa hoje. Bem o sabemos e não será necessário procurar muitos exemplos. «Kallocaína» também prevê a Resistência. Ela durará enquanto o Estado totalitário existir com todas as suas violências. Isso será a única certeza que Karin Boye teve e que aqueles que conhecem a luta contra a discricionaridade o sabem igualmente em todo o mundo. A autora assistiu, em Berlim e em 1938, a um comício em que o orador era Göering. A alienação e o ethos de morte era de tal ordem que, no fim, levantou o braço em saudação nazi, sabendo que correria o risco de ser linchada pela multidão se não o fizesse. Suicidou-se na Suécia em 1941, o que me leva a pensar que a maioria dos autores distópicos acabam na sua maioria assim. Ou por suicídio, ou por doenças evitáveis devido a abusos de toda a ordem. 

«(...) Nestas situações, vai ser bom ter a minha Kallocaína à disposição. Com ela, poder-se-á prever e prevenir muitas atrocidades que agora acontecem de um momento para o outro sem que as tenhamos visto chegar...
 - Desde que apanhemos as pessoas certas. O que também não é assim tão fácil. Não está a insinuar que toda a gente deva ser examinada, pois não?
 - Porque não? Porque não toda a gente? Eu sei que é um sonho futurista, mas ainda assim! Prevejo um tempo em que ninguém será colocado num posto sem primeiro ser submetido a um teste de Kallocaína, de forma tão natural como agora se é submetido aos testes psicotécnicos. Assim, serão do conhecimento público não só a competência profissional da pessoa em questão, como também o seu valor como camarada soldado. Eu imaginaria até um exame anual de Kallocaína obrigatório para cada camarada soldado...
 - Os seus planos para o futuro não são nada modestos. - Mas seria necessário um dispositivo demasiado grande.
 - Tem toda a razão, chefe, seria necessário um dispositivo demasiado grande. Exigiria uma grande entidade inteiramente nova com uma multidão de funcionários, todos eles retirados da presente organização militar e de produção. (...)» (págs.114,115, ee)

terça-feira, fevereiro 27, 2024

«O Homem do Castelo Alto», de Philip K. Dick

 

Saída de Emergência, 2015, tradução de David Soares
Obra de Philip K. Dick que coloca o mundo nas mãos dos nazis e das forças do Eixo vencedores da II Guerra Mundial que findou em 1947. A acção passa-se na década de 60 do século XX nos Estados Pacíficos da América (EPA), antigos EUA, divididos a leste pelos alemães e a oeste pelos japoneses. A Europa está sob o domínio nazi comandados por Martin Bormann que sucedeu à morte (calma) de Hitler. Quando aquele, por sua vez, falece, acontece uma verdadeira orgia palaciana de sangue e fogo entre Goebbels e Heydrich. O melhor e mais forte vencerá, seguindo a comédia nazi. Não saberemos quem ganhou, mas esta narrativa não é para aqui chamada. É somente um pormenor num livro interessante que levou Philip K. Dick a elaborar uma ucronia que nos leva, necessariamente, a pensar o que o mundo seria sob a égide totalitária do fascismo. Não estamos perante uma obra literária de excelência. Creio que não era isso que movia o autor que escreveu quase um romance por ano durante a sua vida que terminou em 1982. Estaria mais interessado na mensagem e no conteúdo das suas obras que realizar qualquer arremedo novelístico inigualável. E conseguiu transmitir uma mensagem política clara na base da ucronia no exercício da hipótese do «se...» em História. E se o Eixo ganhasse a II Guerra? Não é uma distopia, embora se o escrevesse no futuro, «O Homem do Castelo Alto» tornar-se-ia numa, certamente. Ao colocar a história no passado, a trama ganha novos contornos, claramente ucrónica. E sabe, como poucos em ficção científica, apresentar «nuances» políticas entre os dominadores. O Japão vencedor que se assenhoreia do oeste dos EPA odeia a Alemanha e a sua política de extinção de judeus e a brutalidade policial que continua após a guerra, mantendo campos de extermínio quer na Europa, quer no antigo território americano. Os europeus não germânicos são considerados inferiores e fazem os trabalhos considerados menores que os alemães não querem e África é um continente cuja população está a ser extinta, ninguém sabe como e não há informação sobre isso. Apenas se sabe que está a ser extinta por Heydrich e isso basta para um mundo dominado e economicamente em crescimento contínuo. Viver todos os dias é quase uma vitória para uma população que caminha para a alienação total através da televisão. O homem do castelo alto é, no fundo, um líder de uma oposição intelectual, que embora se oponha ao totalitarismo não vê, ou não quer ver, que mais tarde ou mais cedo será igualmente eliminada. 

Uma palavra para esta edição que é complementada por um «ensaio» de Nuno Rogeiro de longas páginas que quase nos obriga a dizer que este é um livro dele, com um romance de Philip K. Dick! À viva força o autor do ensaio quer ver no escritor americano um membro místico de extrema-direita, quando nada no romance nos guia para essa conclusão e claramente negado pela sua vida que sempre alinhou pela esquerda americana, quer nos anos 50 com perseguição do FBI, quer nos anos 60 contra a guerra do Vietname alinhando com os estudantes de Berkeley e com a intelectualidade da esquerda dos EUA. Como comprova a sua amizade com a anarquista Ursula K. Le Guin. Se chegou a ser membro do PC dos EUA nos anos 50 não há certeza, mas o «democrata» FBI nunca o incomodaria se não houvesse indícios disso mesmo. No entanto, a partir de 1974, com um abuso de drogas alucinogénias mais intensificado, envereda por um misticismo cristão primitivo que o leva a atitudes paranóicas acabando por se tornar um anticomunista militante, o que não faz desta obra, «O Homem do Castelo Alto», um livro de extrema-direita! Daí, não se entender por que razão Nuno Rogeiro foi chamado pela editora para escrever o tal «ensaio» verdadeiramente lamentável sobre Philip K. Dick.

quarta-feira, dezembro 14, 2022

«Floresta é o nome do Mundo», de Ursula K. Le Guin

 

Foto de Dana Gluckestein para a New Yorker
«World for World is Forest», de Ursula K. Le Guin escrito e publicado em 1972, é como se estivéssemos a ver as marchas pacifistas contra a guerra do Vietname, ouvir Joan Baez ou Bob Dylan, ou lembrarmo-nos o que nós fizemos aqui para acabar com os massacres de vietnamitas perpetrados pelos USA. Não que Ursula Le Guin tenha citado neste livro, e por uma única vez, o Vietname ou a guerra, mas ele lá está, presente num planeta longínquo a 27 anos de uma Terra ecologicamente exaurida, sem florestas, água e quase desértica. O planeta Athshe, rico em madeira e floresta servia para ser colonizado e escravizar um povo pacífico, os critures, que, fruto de violências constantes por parte dos humanos, é obrigado a defender-se para sobreviver através de Selver um chefe carismático que se apodera de bases e das armas dos militares e responde violentamente à escravatura e ao genocídio. Mesmo contra o «gel incendiário» (uma referência implícita ao napalm), os hélis lança-chamas e cortando a comunicação direta com a Terra. 

Ursula Le Guin não destrinça o comportamento humano num futuro longínquo do homem medieval, da globalização renascentista ou da moderna, contemporânea. Os sinais aí estão: escravatura, violência sobre seres considerados sub-humanos, genocídio, racismo mesmo entre os colonos humanos, chauvinismo, violações de mulheres, xenofobia e patriarcado. Ao contrário da condição matriarcal do povo de Athshe. Aqui a autora não esconde o seu pessimismo da condição humana, embora uma personagem sobressaia na construção de pontes pacíficas com as populações das florestas: Lyubov, um antropólogo. Não deixa de ser sintomático que esteja na antropologia, a chave do entendimento dos costumes e hábitos que são estranhos a soldados cujo objetivo é o domínio pelo domínio, nem que lhes custe uma vida miserável num planeta distante. É Lyubov que os compreende e que tem a coragem de mudar de campo. Creio ser este o ponto crucial do livro de Ursula Le Guin. Por vezes é necessário mudar de campo para podermos viver dignamente. Ou morrer, como acontece com Lyubov.

Um livro inteligente que mereceria, tal como a autora, um pouco mais de respeito na tradução e na capa que não reproduzirei aqui. Sobre as capas da Europa-América, a única editora que se aproximou em dimensão das médias/grandes editoras da Europa, deveriam ser objeto de um estudo de caso, tão feias que são; mas quanto à tradução só vos dou um exemplo: numa única página, a 117, é repetida a expressão «pura e simplesmente» três vezes. Posso garantir-vos que não há duas páginas seguidas em todo o livro que não apareça pelo menos uma vez!

Isso fez-me afastar de Ursula K. Le Guin? Nunca. Não seria possível. É uma aurora extraordinária. Ainda bem que a Relógio D'Água tomou conta do assunto. Tal como os livros de Philip S. Dick, Robert Heilein ou Azimov que agora estarão em boas mãos.


domingo, outubro 23, 2022

«O Homem que caiu na Terra», Walter Tevis

Não sei o que deu ao Expresso de 2 de Setembro de 2022 em chamar ao autor de «O Homem que caiu na Terra» Walter Travis, quando o homem se chamava Tevis. Portanto, Walter Tevis. São erros imperdoáveis em jornais ditos de referência! O livro teve muito impacto em 1963 e voltou a dar que falar em 1976 por ter sido vertido para cinema no filme «The man who fell in Earth» protagonizado por David Bowie, quando, na ocasião, pontificavam as músicas de «The Man who sold the Earth» ou «Space Oddity». As músicas de Bowie sucediam-se na minha cabeça ao ler o livro de Tevis, falecido em 1984, e seguindo com atenção a personalidade de Tom Newton, um alien vindo do planeta Anthea, cujos recursos, desaparecimento da água e guerras aniquilaram a sua população. Tentava sobreviver arquitectando uma viagem interplanetária dos seus últimos habitantes para a Terra, rica em água e em combustíveis, como o urânio e plutónio. 

Só Bowie poderia dar corpo a Newton tal como o autor o desenhou psicológica e fisicamente. Figura algo frágil, andrógina, albina, envolto na sua solidão e mistério. A sua relação com os primeiros três trabalhos musicais também o catapultaram para o papel e por mais que eu tente não vejo outra personagem para Tom Newton. Talvez um Iggy Pop ou um Lou Reed, mas nos anos 60... ainda haveria a possibilidade remota de um Andy Warhol se ele não estivesse sempre a espremer borbulhas da cara... De qualquer modo, os editores pensaram o mesmo que eu e colocaram David Bowie na capa. A mesma capa do cartaz que deu nome ao filme de 1976 e que, quando o vi, não me entusiasmou por aí além. Tinha outras preocupações certamente. Como por exemplo esticar o Prec até onde fosse humanamente possível. Acabou mal.

Estávamos em 1963, um ano após a crise dos mísseis de Cuba que ia levando a uma verdadeira e gigantesca guerra nuclear e só agora passados quase 60 anos temos a certeza, após a desclassificação de documentos americanos e soviéticos, que a devastação nuclear esteve mais perto de deflagrar do que nunca. Nos anos 60, a ficção científica abandonava os insectos radioactivos do tamanho de prédios e a devorar pessoas, aranhas enormes que engoliam táxis novaiorquinos ou legumes que abafavam aldeias inteiras em busca de carne humana. A partir de uma real ameaça nuclear deseja-se uma invasão alienígena que ponha fim à demência de uma humanidade ainda na idade de uma infância autodestrutiva cuja salvação ou destruição poderia vir do espaço por via de uma vida inteligente que pudesse pôr fim ao pesadelo. Isto é: fossem bons ou maus digam ao que vêem ou fiquem e arrasem isto tudo! Salvem-nos ou destruam-nos! É esse o objectivo de Newton: na aniquilação do planeta Anthea, derivada das guerras nucleares sucessivas, desiste de salvar-se a si, aos antheanos que ainda restam num planeta em fim de vida e aos humanos que prevê o fim numa guerra nuclear arrasadora no prazo de dez, vinte ou mesmo trinta anos. No fim, deixou-se de importar. Torna-se niilista: bebe gim e passeia os milhões de dólares ganhos com as corporações de vendas de armas. Destrói a única possibilidade de salvar os seus desistindo de fabricar uma nave espacial quase pronta, enquanto despreza igualmente os habitantes da Terra igualando-os a macacos um pouco mais inteligentes, é certo. É a conquista do espaço que seis anos após a edição deste livro começa com as primeiras pegadas na Lua com um Armstrong aos saltos. Pobre conquista, diria Major Tom!

Didn't know what time it was, the lights were lowI leaned back on my radioSome cat was layin' down some rock 'n' roll"Lotta soul, " he said
Then the loud sound did seem to fadeCame back like a slow voice on a wave of phaseThat wasn't no DJ, that was hazy cosmic jive
There's a starman waiting in the skyHe'd like to come and meet usBut he thinks he'd blow our mindsThere's a starman waiting in the skyHe's told us not to blow it'Cause he knows it's all worthwhileHe told meLet the children lose itLet the children use itLet all the children boogie
I had to phone someone, so I picked on youHey, that's far out, so you heard him tooSwitch on the TVWe may pick him up on channel two
Look out your window, I can see his lightIf we can sparkle, he may land tonightDon't tell your poppa or he'll get us locked up in fright
There's a starman waiting in the skyHe'd like to come and meet usBut he thinks he'd blow our mindsThere's a starman waiting in the skyHe's told us not to blow it'Cause he knows it's all worthwhileHe told meLet the children lose itLet the children use itLet all the children boogie
Starman waiting in the skyHe'd like to come and meet usBut he thinks he'd blow our mindsThere's a starman waiting in the skyHe's told us not to blow it'Cause he knows it's all worthwhileHe told meLet the children lose itLet the children use itLet all the children boogie
Letra de «Space Odity», de David Bowie