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sábado, agosto 23, 2025

"Os Frutos da Terra", Knut Hamsun

 

Cavalo de Ferro, 2016. Tradução do norueguês de João Reis
Numa época em que tudo arde, em que a Natureza é posta à última prova, a da sua própria sobrevivência, ler «Os Frutos da Terra», do norueguês Knut Hamsun, já aqui referido com «Fome» e «Pan», não deixa de ser uma triste ironia, uma metáfora desagregadora da relação entre uma Humanidade falhada com uma Terra doente. 

Escrita em 1917, esta obra, contudo, não se pode entender como optimista. Hamsun tem todas as dúvidas, nem sempre explícitas, sobre o destino das comunidades camponesas isoladas no norte da Noruega, cuja vida é marcada pelos ritmos e vontade dos ciclos da terra, do clima, das montanhas, dos pântanos e da vontade férrea e desinteressada do trabalho humano. Erguer uma cultura afastada criteriosamente das cidades, das aldeias, das ideologias e da religião cristã, era o objectivo dessas mesmas comunidades paganizadas que viam no nascer das sementes e do que a floresta lhes dava a verdadeira vida, aquela que valeria a pena ser vivida. Se eram pagãs, não o eram por qualquer escolha religiosa, social ou muito menos política. Era porque assim o determinava os ciclos dos homens, das mulheres, dos jovens e da Natureza. Os conceitos do bem e o mal tornavam-se obsoletos, dispensáveis e só as comunidades e a consciência de cada um, em confronto com as situações que lhes eram manifestadas pelos elementos aleatórios da vida e da morte tinham importância. Agiam conforme o que lhes era ditado por uma justiça que vinha da sabedoria dos ancestrais. Por vezes cruel, outras vezes branda, sempre livres de julgamentos impostos pelas leis dos homens dos governos. 

Juntem todo este magma social a uma escrita única, a um estilo sóbrio e denso, embora claro, e nunca esquecerão este livro. Torna-se presente em nós, como em todos os clássicos. Estamos, de facto, perante um livro inesquecível, tornado público numa era de guerras de uma segunda revolução industrial dos finais do século XIX na Europa e Américas. É daí que surge o leve pessimismo de Knut Hamsun sobre a possibilidade de continuação destas comunidades livres. Os colonos são confrontados com o extractivismo do cobre que esventram as montanhas, o comércio avassalador e inútil que tudo transforma em bens usurários e os impostos e directivas dos governos que se acham senhores de tudo o que é considerado natural. 

Hoje, quer queiramos ou não, e para uma população europeia que vive intrinsecamente ligada à cidade, a energia emergente da terra é indefinida, desconhecida. O telúrico afundou-se em alcatrão e pavimentos de pedra. As relações sociais deslaçaram-se há muito. Teremos então muita dificuldade em entender este livro, mas a atracção reside nisso mesmo: nas possibilidades de voltar, de regressar, de emigrar, de nos tornarmos colonos de uma vida outra. Ou se quisermos ainda salvarmo-nos. Ou se vamos a tempo.

«Os três homens trabalham até ao meio-dia, comem os seus farnéis e conversam por um curto período. Têm as suas próprias coisas de que falar: acerca das aflições que atingem a área remota e os seus colonos. Nada de parvoíces, mas sim assuntos que merecem ponderação. Estão calmos, os seus nervos não se encontram tensos e não fazem o que não devem. O Outono aproxima-se, a floresta em volta está serena, as montanhas estão ali, o Sol está ali, e esta noite, a Lua e as estrelas surgirão: tudo permanece o mesmo, cheio de doçura, em abraço. Aqui, as pessoas têm tempo de descansar na floresta, com um braço servindo-lhes de almofada.» (pág.294)

Falou-se sobre Knut Hamsun noutras ocasiões e sabemos que a sua vida não correu pelo melhor, visto que as suas opções políticas levaram-no a apoiar a Alemanha durante a II Guerra Mundial, ou seja, a estar ao lado do ocupante da Noruega, o que lhe trouxe a infâmia, provavelmente até hoje. De uma vida extremamente indigente na sua juventude, daí o extraordinário «Fome», e depois de ser reconhecido como um dos maiores escritores de sempre, cai na pobreza absoluta novamente devido às expropriações de que foi alvo após o julgamento por traição, inclusive o que tinha ganho com o Nobel de 1920. Morre em 1952. Esquecido. Os livros, não obstante, aí estão, para os acompanharmos sempre.

alc

domingo, agosto 03, 2025

«Casa de Barcos», Jon Fosse

 

Cavalo de Ferro, 2025. Tradução do norueguês de Liliete Martins
Será que a prosa tem métrica? Parece que para os entendidos, não, não terá. Mas é inegável que Jon Fosse escreve como respira. Cada período parece ter em atenção a nossa velocidade de leitura em períodos pequenos, dialogantes, ritmados, com palavras escolhidas não por acaso e com ausência quase total de parágrafos que só existem nos poucos diálogos existentes. O nosso pensamento voa com a impressão das letras e das palavras por ele expostas, adivinhamos que profundamente reflectidas, rasuradas, novamente aduzidas. Reedificadas para nosso prazer de leitura. Se a iniciamos é impossível de parar, não só pelo estilo literário, mas pela trama aparentemente repetida, mas com algo de novo em cada situação que decorre.

Jon Fosse é norueguês, de Hausegund, nascido em 1959. Dele, já li com igual alegria a sua «Trilogia». Deram-lhe o Nobel em 2023 o que não o prejudicou em nada, diga-se em abono da verdade. «Casa de Barcos» é dos primeiros dele, de 1989 (!!) e não houve alma editorial que o descobrisse ou agente que o propusesse a esta santa terra lusitana! Adiante, que exemplos destes temos muitos. Pelo menos, Jon Fosse escrevia desde 1983, estreando-se com «Raudt, svart» (Vermelho, preto). Voltarei a ele, ameaça que cumprirei.

A narrativa passa-se numa pequena aldeia norueguesa, junto a um fiorde onde a personagem principal pouco faz além de pescar, tocar guitarra em bailes aos fins-de-semana e, embora trintão vive ainda com a mãe (atenção, que estamos em países nórdicos. Para eles trata-se de um escândalo!). Não trabalha e passa o tempo na Biblioteca a requisitar livros que lê de supetão no sótão da sua casa. A partir de um certo momento inquieta-se e deixa de ler, sai pouco de casa e escreve por necessidade quase física. A chegada de um amigo da sua adolescência, Knut (e não Kurt como vem na contracapa do livro!), vem agravar mais essa tensão interior. Recorda-lhe pequenas, muito pequenas coisas, factos quase irrelevantes, acontecimentos a que não daríamos muita importância, mas que o tempo resolve tornar vívidos. Isto também acontece connosco, e, com a idade, muito mais memória que achamos residual vem à tona, o que confere toda a verosimilhança ao romance. A atracção, o amor, a sedução, a incomodidade, são narradas magistralmente. Até ao final, que me abstenho de contar aqui, como me parece de bom senso. 

«Já não saio de casa, uma inquietação apoderou-se de mim e deixei de sair de casa. Foi no último Verão que esta inquietação se apoderou de mim. Voltei a encontrar o Knut, que já não via há uns dez anos certamente. O Knut e eu andávamos sempre juntos. Uma inquietação apoderou-se de mim. Não sei o que é, mas esta inquietação afecta-me o braço esquerdo, os dedos. Já não saio de casa. Não sei porquê, mas há já diversos meses que não ponho um pé fora de casa. E é só por causa desta inquietação. Foi por isso que decidi escrever, vou escrever um romance. Tenho de fazer qualquer coisa. esta inquietação é insuportável. se escrever talvez isso me ajude. (...)» (pág.7)

alc

segunda-feira, junho 03, 2024

«Trilogia», Jon Fosse

 

Cavalo de Ferro, 2021. Trad. do norueguês de Liliete Martins
Pouco importa se é Nobel e como ouvi dizer com alguma propriedade, há muito tempo, por um amigo, «Para Nobel até escreve bem!» É o caso. «Trilogia», de Jon Fosse, tem um sub-título esclarecedor: «Vigília. Os Sonhos de Olav. Fadiga.» O tempo e o espaço alternam-se segundo uma narrativa tão bem construída como bela. Com uma pontuação «saramaguiana», se assim se pode dizer, ou não a utilizando de todo. não deixa de ter uma cadência firme que leva o leitor a imaginar as falas muito dramatizadas, quase teatrais, e os espaços visualmente críveis, quer se trate de um barco ao largo do mar da Noruega ou na entrada por entre fiordes, ou, ainda, a atracagem de um barco à vela numa cidade costeira. As casas de madeira e os seu interior são descritas em poucas palavras, mas que se revestem igualmente de um grande rigor visual. Este livro, esta «Trilogia» cheira a mar e sentimos o vento nórdico gelado nas nossas caras, para além da rudeza da terra e do gado que alimenta uma população norueguesa, no século XIX, marcada pelo protestantismo e, concomitantemente, pela ética do trabalho duro e honesto, pela culpa e castigo.

E é nesse caldo que cultura que jovens como Asle e Alida cometem crimes terríveis de que não sentem a mínima noção do mal. É aqui que reside toda a liberdade do livro. Eles cometem crimes para se apoderarem de bens materiais que os levariam a uma paz exigida por e para si próprios. Não se julgam, nem julgam, nem pedem perdão. Agem somente na ânsia de serem felizes. Se cometem os crimes é para atingirem esse desejo de amor, fosse ele o roubo de um barco, o assassinato de uma mulher e de uma idosa, ou de um velho. Para isso, usam subterfúgios e mudam quer de nome, quer de origem ou família de modo a não serem encontrados; a fuga torna-se constante, o mar e a estrada a sua morada contínua. Por fim «Fadiga», e Alida desiste após o desaparecimento de Asle (não cometerei aqui a indelicadeza de dizer como) e entrega-se, por cansaço, a uma nova realidade que, simultaneamente, a ameaça e a recolhe.

Mesmo muito bom.

terça-feira, abril 02, 2024

«Caçadores de Cabeças», Jo Nesbo

Mais do Jo Nesbo. É evidente que ele sabe o que a maioria dos leitores quer ler, o que, em princípio, não é sinal de qualidade. No caso do norueguês Jo Nesbo, junta uma certa expectativa na narração que nos prende e, ao mesmo tempo, sabe que o policial mudou muito desde o século passado. Hoje, a brutalidade é maior, o adn e o csi vieram modificar a pesquisa cerebral, portanto dedutiva, dos detectives para encontrar um assassino e nem sempre o crime não compensa. Neste caso, compensou, sim. 

Editado em «Mostra o que estás a ler» Facebook

quinta-feira, dezembro 07, 2023

«Fechada para o Inverno», Jorn Lier Horst


D. Quixote, 2016, Tradução: João Reis
Bom, o que vale é que Horst foi polícia na Divisão de Oslo o que dá um carácter de veracidade a tudo o que lemos dele. Não só a questão administrativa a que são obrigados os detectives (creio que ainda bem!), mas a sua relação com os procuradores e juízes e igualmente com os métodos de investigação, embora mais que ajudados pelos capitalismo de vigilância. Já aqui se disse que a dedução, a memória, a inteligência de um detective do século XX já nada tem a ver com os quilómetros de imagens, mails, contas bancárias, telemóveis e discos duros dos computadores a que hoje começa e acaba toda uma investigação criminal no século XXI. Os crimes hoje são essencialmente económicos e deixa-se para trás o tráfico de droga ou outros equivalentes, como os humanos. Não há mãos para tudo, caramba! O Estado assim o obriga e tudo corre às mil maravilhas.

A história do livro em si não é má de todo. Mas os liberais deviam seguir a narrativa de Horst quando este vai à Lituânia numa investigação criminal. Longe de ser um autor que aborde a política, não deixa, contudo, de exercer a sua visão sobre a sociedade lituana há poucos anos saída da União Soviética. Como disse, os liberais, depois de um dia de trabalho árduo no Parlamento ou nas suas empresas e nos seus unicórnios, depois de passarem no ginásio ou no spa, ou mesmo durante os mesmos, sei lá, deviam ler o que ele conta da Lituânia neste livro. O liberalismo selvagem produziu pobres a esmo, 25% de desemprego, riquezas fabulosas, crime mais organizado que o Estado, mercados negros tão grandes como os maiores bairros de Oslo onde tudo se consome e vende sem que se possa criar riqueza para o Estado, porque a exercer o fisco nesses mercados era pior do que as suas consequências sociais. Fixe, não é? Claro que quem paga isso, em parte, são os países ricos como a Noruega, a Suécia, a Finlândia e a Dinamarca, por exemplo. Mas nem tudo é mau: produz uma literatura policial profícua e lucrativa nestes países, em troca de umas casas assaltadas (geralmente as segundas ou terceiras casas de férias de famílias viquingues), uns televisores LCD a menos e uns carros desviados dos seus donos. Nada que preocupe a social-democracia em descida inclinada para a extrema-direita, igualmente favorecida para o seu discurso político. Todo um programa liberal em poucas centenas de páginas. 

quarta-feira, novembro 29, 2023

«Marcada para a Vida», Emelie Schepp

 

D.Quixote, 2023, Tradução de Ana Costa
Um policial norueguês a reboque do «nórdico». Dá para tudo e o seu contrário, o nada. Muito sangue, pouco sexo talvez por uma postura muito protestante e púdica da autora sabe-se lá, desaparecimentos, vinganças a rodos, uma procuradora que foi treinada em criança para assassinar tudo o que mexesse e que perdeu convenientemente a memória dessa infância, refugiados mortos em contentores... um longo bocejo. Pena minha gostar de policiais, porque às vezes surgem banhadas destas. Mas há que os ler até ao fim. Não sendo uma promessa, não façam como Marx que os lia só pela metade quando não lhe cheirava a literatura da boa. Mas gostava do poeta Heine!

segunda-feira, novembro 06, 2023

«Fome», Knut Hamsun

 


Cavalo de Ferro, 5ª edição, 2022. Tradução do norueguês de Liliete Martins

A fome tal como ela é. Este livro do norueguês nobelizado em 1920 e falecido na miséria em 1952 devido às suas simpatias nazis durante a II Guerra Mundial (não foi o único na Noruega, antes pelo contrário, mas disso já tratámos aqui) é de uma violência nada condizente com a chamada sociedade de abundância com que vivemos hoje no Ocidente. Mas que ela existe, existe. Anda por aí, disfarçada, e como tema ou experiência é arredada para debaixo do tapete como em qualquer sociedade de bons costumes liberais que se preze. Tenhamos a noção, ao acabar de ler este livro, que a fome descrita desta maneira crua, só pode ter sido vivida por quem a sentiu e desesperou com ela: a fome. Tanto física, como psíquica a fome apresenta-se com toda a verdade que lhe é inerente. Não há escapatória ou purgante para a fome. O desespero de quem não tem hipótese de comer naquele momento e, pior, de quem não vê qualquer perspectiva de o fazer num futuro próximo. A contagem dos cêntimos, a venda de produtos colados ao corpo, por vezes a venda do próprio corpo ou dos órgãos, a riqueza imensa de ter um bocado de pão mesmo recesso. O esvaziar lento dos valores de sociabilidade, o ódio crescente aos passantes, a todos nós chega a invectiva de quem tem fome. A fome fica, permanece, não será nunca esquecida por quem a viveu, nem que fosse por um só dia.

    «Entrei e voltei a subir. O coração batia-me violentamente. 
    Entrei furtivamente na passagem Smedgangen o mais fundo que pude chegar e parei diante de um portão deteriorado, junto de um pátio traseiro. Não se via qualquer luz em parte alguma, à minha volta estava escuro, felizmente. Pus-me a roer o osso.
    O osso não sabia a nada, mas soltava um cheiro áspero a sangue e tive de vomitar logo a seguir. Tentei de novo. se ao menos conseguisse aguentá-lo no estômago, faria de certo algum efeito; tratava-se de lograr que se mantivesse lá dentro. Mas voltei a vomitar. Zanguei-me e mordi a carne com brusquidão, arranquei um pedacinho e engoli-o violentamente. Não me serviu de nada; assim que as migalhinhas de carne tinham aquecido no estômago, lá vinham elas para cima outra vez. Cerrei os punhos com louca exasperação, desatei a chorar desamparado e roí como um possesso. Chorei, vi o osso ficar molhado e sujo pelas lágrimas, vomitei, praguejei e voltei a roer. Em voz alta amaldiçoei todos os poderes do mundo e mandei-os para o inferno.
    Silêncio. Nem uma pessoa por perto, nem uma luz, nem um ruído. Encontrava-me numa violenta agitação dos sentidos, a minha respiração era pesada e ruidosa e eu chorava pungentemente de cada vez que era forçado a vomitar aquelas migalhas de carne que talvez pudessem dar-me um pouco de alimento. Como não foi possível de todo, por mais que tentasse, arremessei o osso contra o portão, impotente de raiva; a fúria pôs-me desvairado, ameacei e gritei violentamente contra o céu, berrei o nome de Deus com voz rouca e cortante e curvei os dedos como garras...
    - Digo-te, ó divino Baal do céu, que tu não existes; e se  existisses, eu amaldiçoar-te-ia de tal modo que o teu céu seria assolado pelo fogo dos infernos. Digo-te que te ofereci os meus serviços e tu recusaste, digo-te que me afastaste de ti e que agora te viro as costas para todo o sempre, porque não te apeteceu manteres-te informado das tuas horas de visita. Digo-te que sei que vou morrer e, no entanto, ó Deus do Céu e Ápis, ouso afrontar-te com a morte nos dentes. Digo-te que prefiro ser lacaio no Inferno a homem livre nos teus domínios; digo-te que nutro o mais glorioso desprezo pelo teu ridículo Céu e que prefiro escolher para eterna morada o abismo, para onde são empurrados Satanás, Judas e o Faraó. Digo-te que o Céu está cheio de todos os idiotas, com as cabeças mais boçais deste reino terreno, e de indigentes espirituais, e digo-te que encheste o Céu com todas as gordas meretrizes daqui de baixo, quem na hora da sua morte, ajoelharam perante ti por cobardia. Digo-te que tens usado de violência contra mim, mas não sabes ó Nulidade do saber absoluto, que jamais me curvarei na adversidade. (...)» (páginas 133 e 134)

Este continuum de impropérios ao criador (não acaba aqui) lembra em grande parte Nietzsche o que não será, de todo, surpreendente sendo o autor quem foi. Mas todo o livro é uma descrição verdadeiramente impressionante sobre a fome que anda sempre junto com a pobreza. À fome, às alucinações provocadas por ela, ao delírio dos sonhos e de sonos mal dormidos, à agressividade latente de quem jejua por falta de dinheiro, juntam-se os lugares desprovidos de aquecimento, a humidade e o frio e vento cortantes como facas. As feridas que não saram por fraqueza geral do corpo já não imune. Mais grave ainda é a indiferença das pessoas. Se a vida de um jovem escritor em princípio de carreira, nos finais do século XIX, é descrita por Knut Hamsun como um ataque elaborado aos nossos sentidos, conseguiu-o plenamente. Cumpriu o seu papel como objecto literário. E isso importa.

terça-feira, outubro 17, 2023

«O Morcego», Jo Nesbo

 

BIS, Livro de Bolso, 2ª ed. 2019. Trad. (inglês) Maria Georgina Segurado
Primeiro livro da série do inspector norueguês Harry Hole é claramente uma aposta sofrível. Os acontecimentos não fluem, são colocados a camartelo para dar algum aspecto de verosimilhança, mas falha completamente. Um polícia que vem da Noruega à Austrália para se inteirar de um assassínio de uma rapariga norueguesa em Sidney, vítima de um assassino em série, dão-lhe uma arma que usa à fartazana, anda à porrada em bares, bebe que se farta, estampa carros, utiliza prostitutas para ter acesso a informações e pior que tudo, envia para a morte certa a sua namorada sueca, por quem diz ter-se apaixonado loucamente, para os braços do assassino que a mata sem rebuço, usando-a como isco! Isto sem haver inquéritos, expulsões da polícia, ou sequer uma advertenciazinha. Ou a polícia australiana anda a dedicar o seu tempo ao surf ou estamos perante uma piada ao país, repetida vezes sem conta no livro para com os australianos, pouco focados nas lides policiais. As drogas aparecem em todo o lado, tal como a prostituição generalizada nas ruas, tal como os hippies tardios, os gays são em maior número do que em S. Francisco o que o leva a declarar à namorada, ainda viva na ocasião, que se sente mal ao reparar que são o único par heterossexual na King's Cross de Sidney, tal como os aborígenes que são gente dada a crimes, pobreza, alcoolismo (ele que é alcoólico!), prostituição e disfuncionalidade familiar. Todavia, dados aos mais profundos segredos da Natureza.

E por falar em aborígenes, claro que o assassino em série será um deles. Só massacra e viola (por vezes a ordem inverte-se) mulheres louras sem filhos (requinte de malvadez) para que não possam procriar mais tarde e, assim mesmo, se vinga da forma como os brancos humilharam, maltrataram e torturaram o povo que vivia há 60 mil anos na Austrália. Mesmo que os estudos revelem que os assassinos em série são geralmente homens brancos, alguns com família constituída e perfeitamente integrados socialmente. Mas, para o livro de Nesbo, essa vingança sociopata só poderia vir de um aborígene que morre no aquário de Sidney engolido por um tubarão!! Claro que Harry Hole, antes, tenta matá-lo a tiro, por entre as pessoas que, com os filhos, visitavam calmamente o aquário e que tiveram como bónus ao bilhete adquirido, um tipo a ser comido aos safanões por um tubarão branco. Já antes, em capítulos anteriores, um palhaço tinha sido decapitado por uma guilhotina, expelindo rios de «sangue e medula» (sic), perante o entusiasmo da criançada! Se me contassem que isto era descrito num livro não acreditaria à primeira...

Mas as coisas estão assim: enquanto me dedico à História, principalmente de autores contemporâneos que obviamente não conheci na Faculdade e na leitura de autores malditos do século XX, tive necessidade de intervalar com alguns livros policiais que sempre gostei de ler, aliás. Não os conhecendo como deveria, levei este Nesbo, apodado, na capa do livro de bolso, de «autor nórdico do momento, best seller internacional» e que me custou 9,95 euros. Que fiquem pois com o seller que como best, estamos conversados. Grande banhada nórdica!

quinta-feira, dezembro 22, 2022

«Cães de Caça», de Jorn Lier Horst


É evidente que um livro, uma história policial, que é contada com alguma competência por um ex-polícia ao serviço da instituição norueguesa durante 20 anos tem de dar resultado, sabendo igualmente que os policiais nórdicos têm uma aceitação pública que se tem mantido estável fruto de uma política de marketing bem sucedida e vendendo-se com regularidade séries de TV relativamente em conta até para a nossa televisão. Neste caso, a série em causa foi «Wisting» (nome da personagem principal) que deu na cadeia de cabo AMC. 
Mas no caso de «cães de caça» de Jorn Lier Horst a coisa torna-se verosímil pela experiência profissional do autor o que lhe dá credibilidade. Só não percebo a teimosia vikingue, quase uma caso de estudo, por que razão existem sempre pessoas, geralmente mulheres, a desaparecerem e a surgirem em caves, presas e acorrentadas. Ou é uma coisa que Freud terá explicado em detalhe, ou é uma mania local que veio desde Stieg Larsson, esse sim, um jornalista que conhecia os meandros da polícia e da política sueca e um escritor fora de série. Horst encontra-se a meio caminho, mas ainda lhe falta alguma coisa para atingir a mestria daquele. 

segunda-feira, outubro 17, 2022

«O Pássaro de Peito Vermelho», de Jo Nesbo

 

Gosto de livros de bolso e creio que não é a primeira vez que o digo. São mais baratos, guardam-se mais facilmente e o facto de quase caberem na mão dá-lhes uma certa intimidade que um livro de formato normal, terá mais dificuldade em conseguir. Já se não gostarmos de um livro de bolso é-nos mais fácil atirá-lo janela fora que o prejuízo não será muito. Uso-o, na maioria das vezes, para ler policiais e ficção científica. Mas parece que, definitivamente, entrou nos hábitos dos portugueses que lêem. 

Por vezes, quando o autor é bom como é o caso de Jo Nesbo este, através de uma trama policial tão verosímil, como enredada em teias políticas e sociais que nos prendem à leitura, sabemos muito mais quando acabamos o livro, do que a descoberta de quem assassinou quem. Por exemplo, que a Noruega nunca foi o exemplo de paz e bonomia democrática com que a olhamos vulgarmente. Até foi o contrário, segundo o seu compatriota Jo Nesbo. Durante a II Guerra Mundial e a partir dela, a Noruega passou de um país relativamente pobre em recursos para um dos países mais prósperos do mundo. Isso não foi ao acaso. Nunca o é. Mas a fuga do seu monarca para Londres e depois América juntamente com as reservas de ouro, abandonando à sua sorte o povo da invasão nazi, levou a que a «protecção» de Roosevelt contra a URSS fosse traduzida num apoio monetário substancial à construção dos riquíssimos poços de petróleo com que as suas «elites» se deleitam. E por falar em «elites» devemos dizer que não foi por acaso que o rei fugiu. Essa fuga desprezível, para Nesbo também, aponta para uma clara capitulação sem guerra a Hitler, como o foi a «neutralidade» sueca ou a rendição em 3 dias da Dinamarca. Todos eles estiveram, de uma maneira ou de outra, ao lado de Hitler, sendo o caso da Finlândia uma outra conversa. Não se pense contudo que não houve resistência norueguesa. Haver houve, mas foi fraquíssima e com pouca organização. Remeteu-se aos bosques e a algumas cidades, mas aumentou exponencialmente em 1944, já os soviéticos avançavam sobre Berlim. Astutos, não puderam contudo esquecer-se dos números de antes da guerra: a fria estatística apontava para 3 ou 4 vezes mais mobilizações nas Waffen SS na frente oriental contra os russos do que na débil mas honrosa Resistência. Depois da derrota da Alemanha nazi os soldados vivos voltaram para a Noruega e logo nos dias seguintes da libertação o Forte Akershus abateu milhares de traidores como uma fúria, segundo Jo Nesbo, muito maior do que países cuja resistência foi bem maior. Conta perto de cem mil encostados à parede em todo o país. Cem mil num país com menos de 4 milhões em 1950! Percebemos agora a brandura dos tribunais para com os «traidores» que estiveram na frente oriental e que apodaram de «peixe-miúdo»! Era necessário parar com os fuzilamentos e deixar que a economia funcionasse já que as perspectivas americanas mais o Plano Marshall eram as melhores.

Só que, entretanto, e é disto que trata «O Pássaro de Peito Vermelho», passaram três gerações após a II Guerra Mundial e soldados da frente oriental não tinham motivos para pensar que eram traidores de coisa nenhuma e que lutarem ao lado dos alemães foi lutar ao lado do nacionalismo norueguês contra o inimigo russo! E vieram os filhos e depois os netos a ouvirem estas histórias. Não nos admiremos pois, e o autor não se admira nada, que a Noruega juntamente com outros países nórdicos, sejam onde mais cresceu a extrema-direita e está mais arreigado o clima anti-imigração. Já há governos nórdicos com fascistas declarados. Mesmo que angelicamente a Krippo, a polícia norueguesa, tenha contado somente 59 militantes de extrema-direita no país! 

Não se viu o «Ovo da Serpente» de Bergman, um sueco? Não lemos igualmente um outro sueco que já não está entre nós: Stieg Larsson? Jo Nesbo escreve tão bem como ele. Tem as mesmas preocupações que ele! Triste social-democracia que não tiveste engenho, arte ou energia para veres a incubação lenta de um ovo!

António Luís Catarino

quinta-feira, março 10, 2022

«Pan», de Knut Hamsun

 

Knut Hamsun
Knut Hamsun (1859-1952) foi um nazi norueguês que apoiou a invasão alemã ao seu país. Isto é importante? É. Não me custa nada dizer que é um bom escritor, mas não consigo deixar de pensar que é um traste humano. Também é um prémio Nobel atribuído logo em 1920. Em 1945 retiraram-lhe tudo e expropriaram os seus bens tendo morrido louco e na miséria num lar de idosos. Bem feito? É-me indiferente, só não o sendo completamente, porque gostaria de saber se esse pecúlio foi para as mãos dos resistentes noruegueses ao domínio nazi. Espero que sim. No entanto, não posso deixar de pensar em Ezra Pound, Céline, Carl Schmit (sim, escreveu um livro para a sua querida netinha), D'Annunzio, Mishima e tantos outros que se deixaram levar pela vergonha totalitária. Mas eram bons escritores.

Dito isto, a obra não pode ser separada do homem que a escreveu. Knut Hamsun é um panteísta que chama por vezes por Deus e a sua personagem em «Pan», Tenente Thomas Glahn,  vive na natureza, numa cabana do Norte da Noruega, longe de tudo e de todos, mas perto de uma pequena cidade - Sirilund. Não vou descrever as personagens que lhe caem no caminho, mas é evidente o carácter brutal que Hamsun imprime a Glahn. Se iniciamos a leitura de «Pan» lembrando-nos de «Walden», depressa reparamos que nada terá a ver com Thoreau ou William Morris. Glahn mata e caça por prazer. Para alimentar-se, mas mata igualmente para recordar-nos a supremacia sobre a natureza e os animais. E essa supremacia aumenta quando está com mulheres que ou são submissas perante ele, meros objectos de prazer, ou se lhe resistem, fere-se a si próprio com um tiro num pé, mata o seu próprio cão, Esopo, enviando o cadáver à que o rejeitou, vinga-se constantemente de outros que considera rivais e mostra sempre a sua força bruta perante eles (por acaso ? um médico, um grande comerciante, um barão e um cientista), mata uma mulher a quem mostrou um amor fugaz sem querer, através de uma derrocada de pedras sobre um barco que afunda. Foge para a Índia tamil e aí terá a oportunidade de mostrar mais uma vez a força perante uma natureza ainda mais selvagem: mata leopardos, panteras, aves de toda a espécie, quase perdoa um tigre que tinha «despedaçado e engolido uma criança», vive com uma tamil «mais linda que uma verdadeira branca» e, por fim, provoca a sua própria morte, atirando e falhando propositadamente um compatriota para que este respondesse. 

A editora, numa badana, escreveu que tinha sido inspiração de Gide, Hemingway, Thomas Mann, Fitzgerald, Kafka e, vejam bem, de Gorky! Tenho o direito de não acreditar. Mesmo que o considere um bom escritor.

Foi esta a vida de Glahn, envolta em violência constante, numa tensão permanente, numa revoada de morte e domínio brutal que nos é transmitida por Hamsun. Que a terra lhe seja leve.

Pan é uma edição da Cavalo de Ferro de 2010, sendo a 2ª edição de 2015.

sábado, fevereiro 13, 2021

Centro histórico de Bergen, Noruega. Scketchbook a preto e branco.

 

Bergen, uma cidade da Noruega de que gostei muito, desenhado e aguarelado em preto e branco, por mim. É o seu centro histórico. Tudo o que se vê, tal como em desenhos anteriores que publiquei aqui, foi bombardeado pelos nazis em 1943, segundo me disseram. Só restaram duas casas de madeira do século XVI da velha Hansa e que eu visitei igualmente.