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quinta-feira, julho 17, 2025

sábado, junho 03, 2023

«Morte a Crédito», Louis-Ferdinand Céline

 

Livros do Brasil, 2023. Tradução de Luiza Neto Jorge
Escrever mais sobre Céline quando poderá estar tudo escrito sobre ele? A questão que coloco é qual a verdadeira razão de se voltar à sua leitura, se não pela paleta que Céline nos mostra sobre a realidade humana, bem testemunhada pela sacanice, invejas, violências várias e constante repugnância pelos outros? Principalmente, Céline sabe do que fala e atira-nos à cara o que ela, a humanidade, tem de pior. Sabe-se o que o autor foi e os «estudos» que dele se faz e da sua literatura não é menos responsável pelos lugares-comuns que lhe foram atribuídos e que me recuso a dar eco aqui. Não é pois novidade a personalidade muito particular de Céline, sem dúvida, mas o libelo antimilitarista e anti-bélico está inteiramente presente no que escreve e o mesmo se passa sobre o desprezo que nutre face à burguesia rapace e hipócrita, seja ela de pequena ou grande dimensão. 

«Morte a Crédito» foi escrito em 1936, quatro anos após a publicação da «Viagem ao Fim da Noite». Nessa ocasião, antes da II Guerra Mundial, Louis-Ferdinand Céline era considerado um homem de esquerda, premiado e convidado pela intellentsia das letras francesas para palestras sobre o seu modo muito particular de escrever, comparando-o inclusive a Rabelais devido ao seu argot cáustico e irónico. Depois foi o que se viu com a colaboração com os alemães, embora nos seus romances nada sobressaia desse mesmo apoio. Digo romances, não os célebres panfletos ainda hoje proibidos de publicar em França e que o levaram à maldição e ao ostracismo a partir de 1945

De qualquer maneira, este romance editado pela Livros do Brasil, em Fevereiro de 2023, tem uma tão difícil como excelente tradução de Luiza Neto Jorge, o que lhe acrescenta um valor inquestionável. A mesma poeta também esteve na base da tradução, nos anos 80, de uma edição publicada pela Assírio & Alvim. Paradoxalmente, a trama de «Morte a Crédito» passa-se antes da «Viagem...». Não sendo consideradas obras totalmente autobiográficas, esta última descreve a sua vida terrível na frente da guerra de 1914/18 e a recuperação dos ferimentos sofridos, acrescentando as viagens que o autor faz à América e ao Congo juntando, no final, a sua experiência de Paris, também como médico e frequentador de bares soturnos. Já em «Morte a Crédito» realça-se a sua vida antes de se juntar ao corpo militar francês que combateu contra a Alemanha. A conclusão do livro é de uma ternura imensa (a conversa mantida com um Ferdinand exausto perante um tio que é o único a compreender os seus azares e insociabilidade constantes) contrastando com a violência imprimida durante toda a narrativa e que descreve um ambiente familiar de cortar à faca com o pai que o agredia violentamente e uma mãe doente, queixosa e que era igualmente vítima das frustrações paternas. Nada disto, contudo, será comparado aos trabalhos verdadeiramente indignos a que se sujeitou para sobreviver, para «ganhar a côdea»,  ou a perspectiva de um amor quase sempre fugaz. Alguns momentos há que são de cunho surrealista como aquele em que com os De Pereires, em fuga de Paris por imensos calotes e dívidas, cria uma quinta pedagógica para ser criada uma «Nova Raça»; claro que esta «nova raça» não fez mais do que passar fome e frio, roubar e assaltar todas as quintas limítrofes ao «falanstério» e que se viu, subitamente, fechado pela polícia e com o seu responsável a suicidar-se com uma caçadeira. Não deixo de considerar esta «experiência» tão ironicamente relatada como uma metáfora inesquecível no campo literário sobre as ideologias assentes na criação de «novas raças» europeias que floresciam desde o final do século XIX e inícios do século XX e cujas consequências horríveis se vieram a dar-se na II Guerra Mundial. 

Céline é um clássico incontornável.

sábado, maio 27, 2023

Estudos 8, Céline

 

Trabalho em progresso: Louis-Ferdinand Céline. Tinta-da-china e aguarela

"Viagem ao Fim da Noite", Louis-Ferdinand Céline


Edição da Ulisseia, Babel. Tradução de Aníbal Fernandes. Capa de Henrique Cayatte 2014. 6' edição 

Voltar sempre a Céline, pois.

« - Tens assim tanto medo?
- Mais do que isso, Lola. Tanto medo, vê bem, que se eu morrer mais tarde de morte natural, o que acima de tudo não quero é que me queimem! Gostaria que me deixassem na terra, a apodrecer no cemitério tranquilamente e pronto a reviver talvez. nunca se sabe! Ao passo que queimado até às cinzas, Lola, tudo está acabado e bem acabado, compreendes?... Apesar de tudo um esqueleto ainda se parece alguma coisa com um homem...Está sempre mais apto a reviver do que as cinzas...As cinzas...acabou-se O que dizes tu?...E nesse caso a guerra...
- Oh! És de facto um grande cobarde, Ferdinand! Tão repugnante como um rato...
- Sim, de facto um grande cobarde, Lola, recuso a guerra e tudo o que tem dentro...Não a lamento...Não me resigno...Não choramingo por minha causa...Recuso-a por inteiro, com todos os homens que ela contém, não quero nada com eles nem com ela. Fossem novecentos e noventa e cinco milhões de um lado e eu do outro, não teriam razão, Lola, quem tem razão sou eu porque só eu sei o que quero: não quero morrer.
- Mas é impossível recusar a guerra, Ferdinand! Só os loucos e os cobardes recusam a guerra quando a sua Pátria está em perigo...
- Então vivam os loucos e os cobardes! Ou antes, sobrevivam os loucos e os cobardes! Recordas um só nome, Lola, de um dos soldados mortos durante a Guerra dos Cem Anos?...Alguma vez tentaste conhecer um só desses nomes?...Não, por certo...Nunca tentaste? Para ti também são anónimos, indiferentes e mais desconhecidos do que o último átomo deste pisa-papéis aqui à nossa frente, ou a tua torrada matinal...Vê lá tu como morreram para nada, Lola! Para absolutamente nada, esses cretinos! Afirmo-o! A prova está tirada! Só a vida conta. Aposto que esta guerra, tão importante como nos parece, daqui a dez mil anos estará completamente esquecida...Haverá uma dúzia de eruditos, quando muito, a brigarem aqui e além por causa dela e a propósito das datas das principais hecatombes que a ilustraram...E é tudo o que os homens até este momento conseguiram encontrar de memorável a respeito dos outros, a alguns séculos, a alguns anos e até a algumas horas de distância...Não acredito no futuro, Lola...»
Págs. 72 e 73

«Eu tinha o hábito e até mesmo o gosto destas íntimas e meticulosas observações. Por exemplo, quando nos detemos no modo como são formadas ou proferidas as palavras, as nossas frases não resistem lá muito ao desastre do seu cenário baboso. Mais complicado e aflitivo do que a defecação é o esforço mecânico da conversa. A corola de carne entumecida, a boca que se convulsiona a soprar aspira e debate-se expele toda a espécie de sons viscosos através da barragem pestilenta da cárie dentária, que castigo! No entanto, aí está o que nos exortam a transpor em ideal. É difícil. Como não passamos de recintos com tripas mornas e quase apodrecidas, havemos sempre de ter dificuldades com o sentimento. Estarmos apaixonados não é nada, mantermo-nos os dois juntos é que é difícil. A imundície, essa, não procura resistir nem desenvolver-se. Aqui, neste ponto, somos bem mais infelizes do que a merda; no nosso estado, a fúria de preservação constitui uma tortura incrível.
Decididamente, não adoramos nada mais divino do que o nosso cheiro. Toda a nossa infelicidade resulta de termos de continuar a ser Jean, Pierre ou Gaston, custe o que custar e durante um ror de anos. Este corpo, fantasia carnavalesca de moléculas excitadas e banais, a todo o instante se revolta contra a farsa atroz da sobrevivência. As nossas moléculas, essas queridas, querem dispersar-se o mais possível pelo universo! Sofrem por só terem de ser «nós», cornos de infinito. Explodiríamos se tivéssemos coragem, apenas falhamos, dia após dia. Atómica, a nossa adorada tortura encerra-se com o orgulho ali, na nossa própria pele.»
Págs. 311 e 312


sexta-feira, maio 12, 2023

«Guerra», Louis-Ferdinand Céline

 

Livros do Brasil, 2023. Tradução de Diogo Paiva
Obra póstuma sob a responsabilidade de Pascal Fouché e prefaciada por François Gibault, saiu em 2022 pela Gallimard não sem algumas peripécias. Este manuscrito foi encontrado entre os papéis perdidos, ou melhor, confiscados pelas autoridades francesas no pós-libertação de 1945 e, ao que parece, seria a continuação do «Três em Pipa» que narra o ferimento grave que assolou o primeiro-sargento Louis Destouches (o nome verdadeiro de Céline) na frente de guerra de 1914-18 e posterior internamento no hospital militar de Hazebrouck. O manuscrito encontrava-se entre os papéis de Lucette Almansor, a segunda mulher de Céline, e bastante incompleto. Aliás, segundo aquela, o escritor tentou reaver a obra sem sucesso até desistir de o conseguir. Como sabemos, morre em 1961, sob o opróbrio geral sem que alguma vez tenha conseguido completá-lo. Não me cabe a mim afirmar o mérito ou demérito desta edição, ou mesmo da sua legitimidade, mas consegue-se vislumbrar um registo límpido do argot tão característico de Céline, a que se junta não só a ironia como a violência perante o horror da guerra e da ideia assassina de nação. Para além de tudo, o prefácio de Gibaut é, no mínimo, polémico quando parte do princípio que «Guerra» seria uma biografia e não um romance ou a continuação de um outro romance. Ou seja, se neste livro há elementos claros de um registo biográfico caro ao escritor, também é verdade que Céline utiliza as personagens que ele conheceu realmente para construir uma narrativa terrível onde o odor pestilento da guerra que transforma tudo e todos e que as levam a comportamentos bizarros e de algum modo decadentes. Daí, a afirmar que Céline mentiu, ou que foi injurioso para com elas, ou é má fé ou ignorância. Ainda não vi melhor prefácio sobre o autor do que aquele que foi escrito por Aníbal Fernandes para a 6ª edição portuguesa de «Viagem ao Fim da Noite», da Ulisseia, em 2014. Tirando estes factos, alguns burlescos, sobre a quem pertenceriam os direitos de herança dos manuscritos roubados a Céline e de que ele fez uma lista (este manuscrito estava listado por ele) quando da sua prisão numa fortaleza na Dinamarca entre 1945 e 1951, sabe-se que haverá mais talvez nas mãos de Lucette Almansor ou filhos e que isso o perturbava muito. Mas que poderia ele fazer quando se encontrava em pleno ostracismo numa espécie de prisão domiciliária na vila de Meuton a tratar dos seus cães e de um papagaio, sem sequer ter acesso aos seus netos e filha? «Rien...»

«Há que admitir que a partir desse momento [a atribuição de uma medalha por bravura em combate pelo General Joffre] as coisas ficaram bem porreiras e fantásticas. Em torno de nós soprou uma grande aragem imaginativa. Tive mesmo uma coragem suprema, deixei-me levar, posso dizê-lo. Não cedi à surpresa que me teria mantido tão imbecil como antes a mamar desgraças e apenas desgraças porque era só o que conhecia desde que fui educado pelos meus bons pais, e aliás desgraças bem penosas, bem estafantes, bem transpiradas. Não conseguia acreditar na feira inventiva na qual me pediam que montasse num cavalinho de madeira, todo equipado de mentiras e veludos. podia ter recusado. Não recusei.
Alto!, disse eu para mim, o vento sopra, Ferdinand, emparelha a tua galé, deixa os idiotas na merda, deixa-te levar, não acredites em mais nada. Estás todo partido em mais que dois terços, mas com o bocadinho que te sobra ainda vais espairecer, deixa que o aquilão favorável sopre sobre ti. Durmas ou não durmas, cambaleia, fornica, vacila, vomita, espuma-te, cobre-te de pústulas, põe-te febril, esmaga, trai, não te preocupes, é tudo uma questão de vento que sopra, nunca serás tão cruel e aldrabão como o resto do mundo. Em frente, é tudo o que te é pedido, tens medalha, és belo. Na batalha dos paspalhos estás finalmente a ganhar com grande avanço, tens a tua fanfarra particular na cabeça, tens a gangrena a meio, é claro que estás podre, mas viste o campo de batalha onde não se condecoram os cadáveres e tu, sim, foste condecorado, não o esqueças ou não passarás de um ingrato, o vomitado desnorteado, a escumalha de cu baboso, vales mais do que o papel com que te limpas.» (pág.78)

quarta-feira, agosto 03, 2022

«O Cão de Deus», Louis-Ferdinand Céline

 

Hiena, 1995, Trad. Alberto Nunes Sampaio

Não há quem não se refira a Céline sem que nos lembre o seu passado ou o homem. Mas há poucos que analisem, ao menos, a sua escrita. Não vou fazer uma coisa, nem outra. Nem poderia. O que me leva a escrever estas linhas nas fichas de leitura que faço aqui é o não esquecimento do que li e das emoções que geri ao longo dos anos. Uma delas chama-se Louis-Ferdinand Céline.

«Cães de Deus», era como os dominicanos se chamavam a si próprios em defesa do altíssimo. O epíteto relacionado com Céline está longe desse conceito medieval. Céline era o que era, mas ao mesmo tempo um poderosíssimo escritor. Evidentemente, mal compreendido porque o anátema cola-se-lhe à pele.

«Língua Morta» é como ele chama ao francês utilizado pelas academias que detestava e que, segundo ele, o empobreciam cada vez que saía um romance da chamada elite intelectual parisiense, seja ela quem for e o que for. Ainda hoje é assim. E o francês empobrece cada vez mais. Tal como o português, diga-se. Mas não chamaria, como alguns o fazem, de «inovador» a Céline. Acho que se estivesse a ouvir este termo lhe daria uma apoplexia. Ele sabia bem o que fazia. De origens pobres teve de trabalhar muito cedo e ajudar a mãe viúva. Enquanto se despedia tumultuosamente de treze patrões antes de se formar em medicina, nunca o deixaram evoluir na profissão, exercendo-a em dispensários e até em navios mercantes. Dessa vida conheceu a língua francesa, o calão forte, a palavra atirada sem o sentido literal que a burguesia lhe dava, as pragas, que assustavam o repimpado burguês. O argot. Não bebia, mas os bares de prostituição eram o seu poiso habitual, embora sem relações habituais com mulheres. Tal como usou o francês puro de Rabelais que ele citava como dos melhores escritores franceses e nunca ultrapassado, a não ser talvez por Voltaire, mas sem mudanças desde aí. Não pensem que este livro é uma defesa em sua «honra». É um doloroso ataque a quem lhe desejou a morte, o fuzilamento, a que Brasillach não conseguiu escapar, mais os 200 mil que os encostaram à parede, logo após a libertação em 44. Tinha uma filha cujo marido não lhe deu a conhecer os 5 netos. Nunca os viu. Vivia pobremente em Meudon onde nasceu. Deixou a medicina muito antes e vivia rodeado de cães e gatos. E um papagaio. Paradoxalmente, era gentil para quem o procurava, mas as entrevistas que dava eram fogo puro de desespero ou talvez ódio. Ele negava. Mas continuava a escrever? Sim porque a Gallimard exigia-lho para pagar as suas pretensas dívidas!

Em Portugal, não sei se conhecemos a sua obra completa (certamente que não!) ou sequer que a exijamos conhecer. No fundo, o que conhecemos melhor é o Viagem ao Fim da Noite e o Morte a Crédito, os seus dois primeiros livros. É manifestamente pouco. 

Sobre o papel de Jean-Paul Sartre sobre a amnistia de 1951 que ele recusou porque não se poderia defender das acusações de antissemitismo, patentes em dois panfletos que editou, aí, teríamos muito que falar. O que posso dizer é que, segundo Céline, ele não foi o defensor do seu não fuzilamento, antes pelo contrário: escreveu um artigo acusador logo em 1945 que o ia levando ao enforcamento ainda na prisão na Dinamarca. Jean-Paul Sartre de uma maneira cobarde e sem provas acusa-o de estar ao lado do ocupante por ter sido pago! Safou-se por pouco, mas defendia que queria ser julgado e apontar alguns nomes ditos colaboracionistas e agora na tal elite da «merda seca do olho do cu», quais resistentes encartados. Não pôde! Acho, ainda hoje, a defesa de Sartre, Beauvoir ou Aragon para com Céline uma história muito mal contada. Acredito mais na possibilidade De Gaulle, aliás como Céline aventa neste livro.

Sobre o estilo: «As grandes civilizações mudaram muitas vezes de estilo. Falo das grandes civilizações desaparecidas, esquecidas, quer a dos Sumerianos, quer a dos Arameanos; de todas estas civilizações entre o Tigre e o Eufrates, há uma quarenta, cinquenta que tiveram poetas que tiveram escritores, que tiveram legisladores. E mudaram muitas vezes de estilo. Os franceses, esses, estão de pedra e cal; (...)» pág.82

Sobre política já em 1933: «A posição dos homens ao meio da sua confusão de leis, costumes, desejos, instintos aceites, repelidos, fez-se ao mesmo tempo tão perigosa, tão artificial, tão arbitrária, tão trágica e tão grotesca, que a literatura nunca foi tão fácil de conceber como agora, mas nunca foi mais difícil, também, de suportar. Estamos rodeados de países totalmente cheios de embrutecidos anafilácticos; o mais pequeno choque precipita-os em convulsões assassinas que nunca mais acabam.
    Chegámos, pois, ao final de vinte séculos de grande civilização, e no entanto não há regime que resista a dois meses de verdade. Tanto estou a referir-me à sociedade marxista como às nossas sociedades burguesas e fascistas!
        De facto, o homem não pode persistir em nenhuma desta formas sociais, que são brutais ao máximo, completamente masoquistas, sem a violência de uma mentira permanente e cada vez mais maciça, repetitiva, frenética, totalitária, como lhe chamam. Privadas deste freio desmoronar-se-iam, as nossas sociedades, na pior anarquia. Hitler não é a última palavra, talvez cheguemos a ver um género ainda mais epiléptico.» Fala nas linhas seguintes das «berrarias ditatoriais» Pág.39

Morre em 1961.
        

terça-feira, janeiro 08, 2019

Céline / 23


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Céline

O ano era o de 1980 e encontrava-me em Coimbra, numa Universidade tão antiga, quanto resistente aos ventos de inovação e crítica que, no país, desde a revolução de 1974 varriam o país. Depois da tempestade transformadora veio a bonança normalizadora e, enquanto os soldados voltavam para os quartéis, rapando as longas barbas e cabelos, os operários e camponeses desocupavam as fábricas e terras; os estudantes, esses, não cortavam os seus cabelos e barbas, mas preparavam-se para voltar a estudar as longas matérias e tornarem-se úteis à sociedade – tarefa muito difícil, ou quase impossível, como viriam a comprovar mais tarde, pelo visível desprezo que o Estado democrático lhes dedicava.
Nos entretantos do tempo, eu lia poesia, literatura vária, ouvia música e rádio. Muito rádio. Entre os meus programas favoritos contava-se o excelente «Café Concerto» de Maria José Mauperrin que, com as escolhas jazzísticas de Aníbal Cabrita, fazia as delícias dos meus dias da semana entre as 22:00 e a 24:00. Nunca mais me esqueci de uma entrevista em particular e que, casualmente num encontro entre livros, relembrei-a com Aníbal, aqui no Porto no ano passado. Maria José Mauperrin, entrevistava Jorge Listopad. Este, um dramaturgo e realizador de origem checoslovaca, contava que veio para Portugal, afastando-se do estado do «socialismo real» que, nos anos 50, já se consolidava no seu país. Lá, o entusiasmo pela libertação também esmorecia, como em Portugal dos anos 70. Embora resistente aos nazis no seu país e na Jugoslávia, meteu-se no seu Skoda, com a mulher e as duas crianças gémeas e só parou em Portugal, travando à vista do Atlântico. Era uma figura algo controversa mas, pessoalmente, muito empática. Que tem isto a ver com Céline? A entrevista com Mauperrin continuava interessante e Listopad contava que, na sua errância, tinha chegado aos arredores de Paris, noite chuvosa, e as duas gémeas encontravam-se doentes com febre. Uma gastroenterite, creio. Entrou na vila de Meudon por acaso e, num café, perguntou se conheciam algum médico perto. Apontaram-lhe uma casa. Listopad, então, bateu à porta e saiu-lhe um homem rude com um casaco grosso e rodeado de cães. Era Louis-Férdinand Destouches e Listopad reconheceu-o como Céline. Era o tal médico, sim. Ao pedir-lhe ajuda, Céline ter-lhe-á dito que não podia observar e curar as filhas dele porque…tinha de dar comida aos cães! Nunca mais esqueci esta sequência e mostra bem as partículas elementares da raiva de que era feito Céline, cuja memória dos seus panfletos antijudaicos, volta a incomodar a nossa veia iluminista. Fosse este homem quem fosse, e era radicalmente mau como pessoa, não invalida ter escrito dos maiores libelos contra a guerra como «Viagem ao fim da Noite» e «Morte a Crédito». Não se trata de uma tentativa metafórica mas as gémeas de Listopad, essas, salvaram-se, apesar de tudo.

António Luís Catarino, 1/03/2018

sábado, janeiro 12, 2013

Céline ou a história edificante de um cão bejense



Já se disse que não sabe o nome da criança que morreu em Beja, atacado, segundo se disse, por um pitbull caseiro. Provavelmente demasiado caseiro. Também não vou ao chavão, habitual nestes casos, de usar o vegetarianismo de Hitler que adorava animais, mas a raça humana nem por isso, como se pode comprovar facilmente pela História. Mas quero contar-vos uma história tão edificante como a da triste vida do tal cão. Foi em 1976 e encontrava-se a estudar com um amigo, em Coimbra, enquanto ouvia um programa de Maria José Mauperrin, entre a meia-noite e as duas (não me lembro do nome do programa); entrevistava Jorge Listopad sobre a forma como veio para Portugal, com a mulher e as filhas gémeas, depois da gorada primavera de Praga de 68. Listopad encontrava-se numa aldeia nos arredores de Paris quando as gémeas adoeceram gravemente com uma gastroenterite. Em desespero, apontaram-lhe a casa onde vivia Céline, isolado e rodeado de cães e já após o processo que o levou a safar-se de um fuzilamento como colaboracionista dos nazis e de Pétain, e onde não faltou o apoio de Sartre e de outros homens e mulheres de esquerda. Mas Listopad, sabendo-o médico, foi então ter com ele pedindo-lhe que visse as gémeas. Céline respondeu-lhe, na ocasião, que não podia, não tinha tempo, porque tinha de dar de jantar...aos cães! Gostaram de história? 
Ah, volto ao princípio: como se chama a criança de Beja? O cão que foi salvo por causa da petição, eu sei, chama-se zico, não é?

domingo, janeiro 23, 2011

Céline continua polémico em França

Louis-Ferdinand Céline constava de uma lista de personalidades que seriam homenageadas em 2011, em França, aproveitando o cinquentenário da sua morte. À última da hora o sobrinho de Miterrand, o senhor ministro da Cultura Frédéric Miterrand, resolveu riscá-lo de todas as homenagens oficiais afirmando que o acto foi fruto de muita reflexão (estilo hoje, em Portugal, um dia antes das eleições). Só o facto de o pretenderem homenagear já é, de si, ridículo. Saneá-lo à má fila, não deixa de ser uma vergonha. Sabemos também que o senhor era antisemita, um pouco execrável como pessoa (recusou-se, por exemplo, como médico a tratar as filhas de Listopad com uma gastrentrite, porque «tinha de dar comida aos cães») e que foi salvo do pelotão de fuzilamento em 1945 por outras personalidades como Camus ou Jean-Paul Sartre. Mas isso não me impede de dizer que o maior libelo contra a guerra que alguma vez li foi o da sua Viagem ao Fim da Noite em que relata a sua experiência na I Guerra. Talvez se aprendesse mais sobre o fenómeno do antisemitismo e de como o ovo da serpente pode estar em todos e em cada um de nós. Calar, omitir, nunca foi uma boa opção.