segunda-feira, setembro 23, 2013

António Ramos Rosa - A Mão de Água e a Mão de Fogo


A Mão de Água e a Mão de Fogo : antologia poética / António Ramos Rosa ; posf. Maria Irene Ramalho Sousa Santos. Capa: António Luís Catarino PUBLICAÇÃO: Coimbra : Fora do Texto, 1987 DESCR. FÍSICA: 279 p. ; 21 cm COLECÇÃO: Poesia nosso tempo ; 45

Em 1987 a Fora do Texto, de Coimbra, editou A Mão de Água e Mão de Fogo, uma antologia de António Ramos Rosa que acompanhou, junto com António Martins, a edição da obra. Tem posfácio de Maria Irene Ramalho sendo que a capa é cá do editor, nessa ocasião vivendo nessas paragens. Marcou-me imenso o trabalho que tive com António Ramos Rosa e vivi intensamente os seus períodos de euforia e também de profundo silêncio que alternavam entre si. Marcou-me a profundidade da sua inteligência e os seus gestos de grande generosidade traduzidos pela oferta de um desenho ou pelas palavras escolhidas e que se nos dirigia, como se fosse um poema que construía. Até sempre.

Ana Teresa Pereira e o elogio de José Tolentino Mendonça

Foto de José Miguel Rodrigues

Há algo de muito justo e nobre no último artigo de José Tolentino Mendonça na Revista do Expresso desta semana, quando se refere a Ana Teresa Pereira como «uma das mais extraordinárias escritoras (que) continua a ser uma perfeita desconhecida». Assim é. Pessoalmente, nunca compreendi este silêncio à volta da autora, mesmo depois de ter ganho o Grande Prémio de Romance e Novela da APE de 2012. Mas deparo-me, mesmo assim, com outro mistério: é que já não é o primeiro prémio, nem o segundo, nem sequer o terceiro que ganha. Tem perto de trinta livros publicados e conheço-a desde os anos 80 fidelizando um público entre o qual me incluo, desde a célebre colecção da Caminho policial. Avanço outras hipóteses: Ana Teresa Pereira tem uma escrita gótica, nada fácil, rebuscada e muito centrada nas teias do corpo e do invisível, das emoções. Mas não me fio que seja isso, porque há quem escreva mal e tenha a distinta lata de pensar que o faz e ainda por cima seja reconhecido. Avento mais uma: viver na Madeira, com as tais insularidades que se pagam caro, no afastamento dos círculos literários do continente. Mas não, não pode ser isso, porque há vários exemplos que o negam. E, paulatinamente, vejo-me na contingência de dar razão a Paulo Kellerman, outro escritor premiado com um APE e a Henrique Manuel Bento Fialho que já escreveu sobre isso. É possível que este «esquecimento» tenha a ver com a escolha pelo conto que Ana Teresa Pereira realizou e, ainda por cima, com uma grande qualidade literária. E tenho receio que tenha razão o Paulo quando diz que, neste país, o conto é um estilo maldito. Talvez seja, mas existir José Tolentino Mendonça que a fez lembrar dá-me outro alento e pensar que ainda há justiça por cá.

Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas, coord. Pedro Eiras


O encontro «Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas» aconteceu no Auditório da Biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos, a 11 de Outubro de 2007, organizado pela Câmara Municipal de Matosinhos, com concepção inicial e coordenação de Pedro Eiras.
Nesse dia, a todos os títulos memorável pelo seu interesse e pela novidade no campo da crítica e do ensaio literário, ouviram-se as intervenções de Marinela Freitas, Mariana Leite, João Paulo Sousa, Catarina Nunes de Almeida, Miguel Ramalhete Gomes, Raquel Ribeiro, Margarida Gil dos Reis, Helena Lopes, Joana Matos Frias, José Ricardo Nunes, Andréia Azevedo Soares e Daniel Jonas.

Jovens Ensaístas Lêem Jovens Poetas começou por ser um ciclo de palestras em torno de um desafio comum. Realizou-se no dia 11 de Outubro de 2007, em quatro sessões de comunicações e debates, no Auditório da Biblioteca Florbela Espanca, com organização da Câmara Municipal de Matosinhos. (…)
Durante todo o dia 11 de Outubro, um público numeroso e fidelíssimo acompanhou e dialogou com estas leituras da mais jovem poesia. O livro que agora se publica corresponde aos doze textos, revistos, eventualmente repensados a partir dos debates. (…)
Da mais premente contemporaneidade se fala também neste livro. Os doze autores chegaram ao ensaio precisamente no momento em que os poemas aqui lidos eram escritos. Pretende-se dar conta desse encontro. Alguns dos autores deste livro, embora se apresentem aqui como ensaístas, são também poetas revelados nas décadas de 1990-2000, e chegam a ser estudados em alguns ensaios.
Geram-se pois, ao mesmo tempo, coincidências e dispersão – igual-mente produtivas. Por um lado, há referências que se cruzam, repetem, permitem definir projectos do que seja a poesia hoje. Para uma escrita necessariamente em transformação, dizem-se assim algumas cartografias possíveis.

Do Prefácio, por Pedro Eiras

Preço: 10,80 euros
Referência 1504006
ISBN 978-972-9250-37-8
Edição: Maio 2008
PP: 184
Formato: 210 x 145

Capa: Brochado

sexta-feira, setembro 20, 2013

Crítica de António Carlos Cortez a Bartlebys Reunidos no último JL

A crítica de António Carlos Cortez a Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro, pode encontrar-se na página 13 do último Jornal das Letras de 18 de setembro a 1 de outubro de 2013

terça-feira, setembro 10, 2013

Hoje, na Bertrand Dolce Vita, Porto

Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro na secção de Poesia. Junto com Domingo no Corpo, de Aurelino Costa, Vale Formoso de Filipa Leal, Compositores do Período Barroco de José Ricardo Nunes

Compositores do Período Barroco, de José Ricardo Nunes

Que se Lixe a Troika, de João Camargo, bem acompanhado na secção de Política

Na secção de Ensaio o livro da Deriva/ILC da FLUP coordenado por Teresa Martins de Oliveira Ao Encontro de Max Frisch

sexta-feira, setembro 06, 2013

Deriva Juvenil. 4 escolhas das Escolas



A Saga das Aventuras de Sheila e Said, de Ramón Caride e ilustrada por Miguelanxo Prado: Perigo Vegetal (2ª ed./9 euros), Ameaça na Antártida (9 euros) e O Futuro Roubado (9,5 euros). No Plano Nacional de Leitura com inúmeras explorações pedagógicas para várias disciplinas dos 2º e 3º ciclos em www.aventurasdesheilaesaid.blogspot.com
O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão, ilustrado por Sandie Mourão. No Plano Nacional de Leitura é um teatro que fala do nosso sistema solar, de Newton e das estrelas. Com prefácio de Máximo Ferreira e um guião pedagógico para uso nas escolas de Paulo Simões (9 euros)

Deriva Infantil. 4 escolhas para as escolas

O Aquário, de João Pedro Mésseder e ilustrado por Gémeo Luís. 4ª Edição. 12.50 euros. No Plano Nacional de Leitura. Inúmeras explorações pedagógicas elaboradas por professores aqui neste blogue.

Com Quatro Pedras na Mão. Poemas sobre o Porto. Música de Suzana Ralha cantada pelo Bando dos Gambozinos. Ilustração de Emílio Remelhe. No Plano Nacional de Leitura. 18 euros, com CD

Conto da Travessa das Musas, de João Pedro Mésseder e ilustrado por Manuela São Simão. 12 euros

Vozes do Alfabeto, de João Pedro Mésseder, ilustrado por João Maio Pinto. No PNL. 9,50 euros

sábado, agosto 31, 2013

Joaquim Castro Caldas, cinco anos


Como se pode medir a ausência de um poeta? Não sabemos, nem nos atrevemos a fazer muitas considerações sobre essa falta que nos faz não ter aqui o Joaquim. Faz-nos falta o seu viver poético, faz-nos falta o seu sorriso irónico, faz-nos falta a sua mordacidade, faz-nos falta a sua incapacidade partilhada em viver a vidinha. Um abraço, Joaquim.

Uma aura

Numa folha branca
se passa a mão
e apetece marrar

ficam marcados
na areia dorida
os passos que se dão

para deixar a maré
e rasgar uma outra
à água que rebenta

em espuma a praia
se o corpo se entrega
a uma concha aberta

Mágoa das Pedras, Deriva, 2008

Aurelino Costa na Porta Treze

A Livraria Porta Treze em Vila Nova de Cerveira

Luandino Vieira apresentando Aurelino Costa

Foi hoje, na Porta Treze, em Vila Nova de Cerveira, a sessão de poesia de Aurelino Costa que trouxe, com ele, Domingo no Corpo. A sessão foi interessante e participativa tendo, vários convidados, lido os poemas do último livro do autor. Um espaço simpático e a convidarmos a seguir as suas actividades. Luandino Vieira recebeu-nos. Prometemos lá voltar. Presentes: Anxo Pastor que fez a capa e a ilustração da obra e Alexandre Teixeira Mendes entre muitos outros.

quinta-feira, agosto 29, 2013

Transiberic Love, de Raquel Freire


Ler Transiberic Love é um desafio aos sentidos, se ainda os temos incólumes e isto após os ataques continuados à nossa vida quotidiana vindas do estado e dos mercados. Revemo-nos nele. Sentimo-lo em cada linha, em cada palavra, mesmo que Raquel Freire tenha escolhido algumas claramente panfletárias. Não importa. Aliás, essas palavras tornam-se excepcionalmente belas no contexto do livro. Tudo ali é coerência, tudo ali se enquadra num livro emotivo, revolucionário, vívido e, literariamente, extremamente interessante.
Tinha curiosidade em lê-lo e dois dias me bastaram, rápidos a absorvê-lo e, principalmente, a compreendê-lo. Estou na casa dos 50 e entre Janes Joplin e Amy Winehouse, já passaram os Clash, os Velvet Underground, David Bowie ou Byrne. Filho da tal revolução sexual dos anos 60 e desconfiado de tanta fruta, preferi, jovem, aguardar pelo movimento punk e ver no que paravam as modas quanto à libertação sexual, argumentando ao mesmo tempo pela necessidade de uma revolução social. Entretanto, tal como Maria, personagem revolucionária do romance, vi-me a comprar jornais todos os dias, a ter emprego, a gerir o tédio como quem não queria a coisa. Erro meu, erro nosso. Quando vivíamos a Arte de Viver da Geração Nova, de Vaneigem, não levámos suficientemente a sério o aviso: «Aqueles que falam de revolução e de luta de classes sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa das coações, esses têm na boca um cadáver.» Já Raquel Freire prefere a fórmula de uma revolucionária obrigando-se a proclamar «se não puder dançar, então isto não é uma revolução».

As personagens de Transiberic Love são livres na sua beleza andrógina, na recusa de serem catalogados no binómio biológico, provocando a sociedade, voando com as suas asas de anjos loucos, bebedores, drogados, procurando violentamente a felicidade. Duvido que não haja o mínimo de comoção no leitor quando a autora nos faz dançar com Marx, com os que estiveram presentes na I e II Internacionais, ou quando estamos numa reunião comunitária com transsexuais, lésbicas, homossexuais ou bissexuais ávidos por reconhecimento das suas identidades: «Danço. Olho-nos a dançar nas discotecas, mestiçxs, lésbicas excêntricas em transe, drag queens entusiasmadas, butches loucas, trichas de tão bichas, drag kings esfusiantes, translovers fervorosas, feministas radicais, gays musculados como rochas, transexuais eufóricos, lésbicas tímidas a dançarem possuídas, bissexuais a rirem de todxs, trangéneros ávidos, trans andróginos mais belxs do que todos os anúncios de Calvin Klein e do que toda a moda capitalista junta, a palavra de ordem é transformação, toda a vida é feita de mudança (...),» (pág. 255). É assim, com Camões e a evidência da mudança, que teremos a certeza que estes nossos filhos da revolução que não quisemos fazer nos anos 80, nos mandam à cara. Com amor, mas esse amor não é o que julgamos ser: « - Não é novo! (a noção de amor universal) É um código que repetimos porque estamos sempre a vê-lo na música, no cinema, na televisão, na literatura, na religião, na escola, no discurso da família... tudo parece obedecer ao amor como valor universal: all you need is love. Todas as músicas, todos os livros, hetero e gays, todos os filmes repetem a palavra amor. Deus é amor! Todos idolatram o amor: padres, políticxs, poetas, psicólogxs, professorxs, putas, artistas, jornalistas, sociólogxs, sexólogxs, antropólogxs, humanistas, socialistas, democratas, monárquicxs, comunistas, fascistas...» (pág. 227) Aqui ninguém sai ileso. Como nos concertos de Jim Morrison, quando declarava «Daqui ninguém sai vivo», também as personagens de Raquel Freire são implacáveis na sua fuga para a frente. Não há cedências a ninguém, nem a nenhuma ideologia. Mesmo Marx aparece como uma ferramenta essencial para afastar o ressentimento legítimo ao capitalismo «O marxismo salva-me da tristeza, o capitalismo escraviza-me, repito para mim mesma enquanto danço. É o meu mantra.» (pág. 136), mas a personagem sabe que tem de travar esse entusiasmo. No fundo, percebemos a formação filosófica de Raquel Freire a fugir aos dogmas. Mais uma lição que recebemos na leitura de Transiberic Love. E um aviso sério meus caríssimos leitores: «Somos sobreviventes, mutantes, répteis voadores, mas dos que voam baixinho, baratas é o que nós somos, sobrevivemos a todas as guerras, todos os colapsos dos mercados, todos os desastres amorosos, todas as overdoses dos nossos amigos, a todas as mortes inglórias, we are young, drunk, beautiful and free». Seja. Irei com eles. É um livro muito bonito.

Na Bertrand do GrandPlaza, Baixa do Porto. Poesia da Deriva


Ontem, na estante de poesia da Bertrand do GrandPlaza na Baixa do Porto (Fernandes Tomás) os últimos livros da Deriva:
Domingo no Corpo, de Aurelino Costa
Vale Formoso, de Filipa Leal
Compositores do Período Barroco, de José Ricardo Nunes
Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro

terça-feira, agosto 27, 2013

Antero de Quental, em «Suicidas», de Henrique Manuel Bento Fialho

Enquanto se espera pacientemente que acabe a silly season e recomece o trabalho de distribuição e, com ele, a presença de Suicidas nas livrarias, abrimos a vossa curiosidade com «Antero de Quental», prosa poética de Henrique Manuel Bento Fialho criado com base nesta figura incomparável da política e literatura portuguesas.

ANTERO DE QUENTAL

   Nascidos em território já conquistado, terão pela frente a árdua tarefa da preservação. O dever da preservação é problemático, sobretudo quando nos vimos obrigados a preservar algo que não foi por nós conquistado e não seria nossa vontade deter caso nos tivesse sido oferecida a oportunidade de escolher entre o território que nos colocaram nas mãos e outro algures à mercê da nossa vontade. O ímpeto expansionista de um animal domesticado está demarcado, à partida, pelas paredes, pelos muros, pelas vedações, pelas fronteiras, físicas ou psicológicas, que vão sendo erguidas, ao longo da vida, em torno dos seus desejos, das suas eventuais ambições, da sua mais íntima fome. Por isso, sempre que pode, o animal doméstico entretém-se a desenhar cidades invisíveis no prato que lhe trazem à mesa, molda com os dedos o puré de batata, transformando-o no rosto que o acompanha em sonhos, desenha com a ponta do garfo, no molho da carne, os contornos dos vales onde imagina pertencer a sua volúvel identidade.
   O animal doméstico não se sacia migrando do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a garagem, desta para o sótão, mas poder caminhar nesse labirinto de tijolo e cimento, adornado com estantes, retratos, resquícios do tempo observados como uma fenda abrindo-se na palidez do rosto, poder andar para ali, curvado, de um lado para o outro, arrastando o seu desânimo, a sua desesperança, a sua melancolia, a modorra dos dias, pelos mosaicos, pelos tapetes, pelas carpetes semanalmente aspiradas, poder rastejar sobre o soalho afagado e ladrilhado é para ele uma inominável aventura.
   Olhem para o animal doméstico, ainda agora chegado ao espelho mal iluminado da casa de banho, aparando a barba, lavando os dentes amarelecidos, bocejando o sono mal dormido, olhem para ele a enfiar-se na banheira como se os azulejos fossem a vegetação que ilumina as cachoeiras onde nunca lavou o corpo. Olhem-no a ensaboar o tempo, afastando da pele a poluição que trouxe consigo da travessia do deserto. Ai o deserto, o deserto, essas cidades iluminadas pelo fogo das chaminés industriais, movidas a turbinas de aço, atravessadas pela velocidade distorcida dos veículos.
   E um homem afasta-se e sente o silêncio a cair sobre o ruído, sente o ruído a ficar para trás e experimenta a rara e furtiva sensação de conforto que nenhuma poesia oferece, porque toda a poesia, mesmo quando se aproxima do silêncio, resulta de uma interrupção, de um conceito que arrasa a ordem natural e extra-moral do espaço, impondo-lhe os seus fantasmas, os seus edifícios, as suas construções, a sua arquitectura.
   Ainda assim, para o animal doméstico, essa poesia é a ilha deserta onde ele naufragou voluntariamente. Ainda assim, essa poesia é a piroga que o levará na corrente de rios imaginários até às cachoeiras onde nunca lavou o corpo. Porque o seu corpo é já tão-somente uma hélice, um motor, um instrumento ao serviço da domesticação de que o próprio é vítima.

   Ó belo e estranho ser, teus pés não se afundaram no cimento, teus músculos ainda não oxidaram, os teus ossos têm nervo. Desse nervo, poderás, quem sabe, levantar-te da jardinagem paisagística à selvática e caótica beleza das gavinhas, poderás, quem sabe, prescindir dos museus que te oferecem o mundo em segunda mão e, quem sabe, chegar à primeira mão do mundo, para que daqui a, esperemos, muitos anos, possam final e irremediavelmente domesticar-te na geometria fria dos cemitérios.

Domingo no Corpo, na Porta Treze. Cerveira. 31/08. 16:00

Dia 31 de Agosto, pelas 16 horas, Aurelino Costa apresentará o seu último livro de poesias, Domingo no Corpo, editado pela Deriva. Estaremos lá com todo o gosto. É em Vila Nova de Cerveira e a associação poética é tão simpática como a vila que nos receberá.

“Visto que não havia porta treze…
No princípio eram umas tertúlias no Convento de San Payo do Monte sobranceiro à vila de Cerveira e ao rio Minho de onde, em dias límpidos, quase se avista o Brasil para lá das montanhas da Galiza…
… e meses mais tarde, no regresso de uma  dessas tertúlias, já na vila, descendo a Rua Queirós Ribeiro frente à antiga Livraria Luís Pedro (que informalmente funcionava de «centro cultural» desde a sua fundação em 1960), se viu que faltava a porta 13 em sua fachada. Da sorridente observação às suas simpáticas proprietárias nasceu o nome para uma – logo ali perfilhada – tertúlia, ou o que quer que fosse, que celebrasse a poesia como a mais alta expressão da arte literária!
E se ajuntou um grupo de doze fiéis discípulos de Camões, o Luís Vaz, que decidiu formar uma associação com esse fim único de convívio poético. De todo o mundo com a poesia. E da poesia com todo o mundo. De todo o mundo e ninguém, como manda a tradição literária, poética. Que todo o mundo diz a querer amar e ninguém diz que a vai trair.
O futuro falará, só pela voz das nossas acções.
Porta Treze, a nossa associação, rigorosamente cultural para fins de solidariedade social, está aberta a todos quantos a queiram e em celebração da poesia da língua portuguesa.
Só isto: a poesia – que é a nossa vida; a língua portuguesa – que é a alma que essa vida guarda.”

Luandino Vieira

A porta treze, associação poética de todas as artes tem por objectivo celebrar a Poesia como realização da Arte Literária, sob todas as suas formas e em relação com as outras Artes, através de iniciativas de estudo, formação, produção, edição e divulgação como convívios, oficinas, recitais, exposições, colóquios, seminários, conferências, congressos, festivais ou outro tipo de manifestações que tenham a Poesia como motivo.

Porta Treze – Associação Poética de todas as Artes
Rua Queirós Ribeiro nº 11/15
4920-289 Vila Nova de Cerveira
telefone
+351 251795115
e-mail da associação

portatreze@gmail.com

segunda-feira, agosto 26, 2013

Que se Lixe a Troika!, de João Camargo. 2ª edição


Chegou à 2ª edição Que Se Lixe a Troika!, de João Camargo. É possível que haja alguns atrasos de reposição devido ao mês de Agosto que é, ainda, um mês de férias. No entanto, logo que possível, este livro de denúncia e de argumentos sólidos sobre a chamada «crise do subprime» vai estar novamente nos escaparates. Escusado será dizer que, escrito em forma de dicionário da crise, explica pormenorizadamente quem e o porquê de nos estarem a colocar a vida em frangalhos.

Odeio as Manhãs, Jean-Marc Rouillan



O título do livro  pode enganar: as manhãs de que fala o autor são o início dos dias intermináveis das prisões francesas que se seguem às noites laranjas das luzes internas e externas das celas.
Na ocasião da publicação do livro, não me deixaram contactar com Jean-Marc Rouillan a cumprir uma pena de prisão perpétua em Lannemezan, por participação em atentados, nos anos 80, reivindicados pela Action Directe. Mas o caso de Rouillan e de outros prisioneiros políticos chamou-me a atenção, quer pela violência com que estavam a ser tratados ultrapassando claramente (pelo menos na minha opinião) a violência dos crimes que cometeram, quer as leis do estado de direito. Muitos deles encontravam-se gravemente doentes e a prova que alguma coisa estava mal no campo do Direito é que hoje encontram-se todos em liberdade e não veio daí grande mal ao mundo. Na altura, falei com Isabel do Carmo para fazer o prefácio do livro de Rouillan e mostrou-se disponível, não sem que me avisasse que nunca concordou com os métodos da AD. Mas faria um apelo à amnistia por causas humanitárias. Sinceramente era igualmente a minha opinião e gostei de a ouvir pela boca de alguém que teve a sua quota parte da révanche do Estado na sua procura da normalização democrática.
O título do livro  pode enganar: as manhãs de que fala o autor são o início dos dias intermináveis das prisões francesas que se seguem às noites laranjas das luzes internas e externas das celas.

Jean-Marc Rouillan, autor de Odeio as Manhãs, viu indeferida a sua libertação em março de 2009, depois de um longo período de reclusão em várias penitenciárias francesas acusado de pertencer à Accion Dirècte. Hoje, encontra-se em liberdade condicional, devido a uma grande campanha da Amnistia Internacional.
Jean-Marc Rouillan nasceu em 1952, e participou muito jovem no movimento anarco-comunista de Toulouse e, depois, no movimento anti-franquista. Assim, no decurso dos anos 70, foi membro do primeiro núcleo de organização armada onde se desenvolveu o movimento operário clandestino da região de Barcelona: o Movimento Ibérico de Libertação (MIL). Um dos seus membros, Salvador Puig Antich, foi o último condenado político a ser garrotado a 2 de Março de 1974, já no estertor do ditador Franco. Portugal conheceu bem este crime tendo havido, nessa altura, acções de rua contra o regime que então guiava os destinos do estado espanhol. Participou, mais tarde, na fundação dos Grupos de Acção Revolucionária Internacionalistas e ao movimento autónomo (surgido da deriva espontaneísta de maoístas e de um renovado movimento revolucionário na juventude. Em 1978, participa na fundação da Acção Directa, organização desmantelada em 1987. "Odeio as Manhãs" foi escrito clandestinamente a meio de uma greve de fome no centro prisional de Lannemezan e terminou o livro, a lápis, no Hospital de Fresnes. Foi publicado em 2001.
Jean-Marc Rouillan está preso desde 1987, desde o desmantelamento da Action Directe, cumprindo uma pena de prisão perpétua. Esta crónica foi escrita em 2001 na central de Lannemezan e conta o quotidiano da sua vida prisional sob um regime ultra-severo. Denuncia também a ligação muito discutível entre a medicina e a prisão.
Tradução de José Paulo Vaz.
(Odeio as Manhãs-5 euros, mais portes de envio)

Livros: Instinto de Morte, de Jacques Mesrine, Antígona



Reli Instinto de Morte de Jacques Mesrine, recém-editado pela Antígona, e muito por causa da crítica de Ana Cristina Leonardo, no Expresso. Isto tem uma história: quando o li pela primeira vez foi em Paris, editado pela então Champ Libre. Nessa ocasião a edição ligava-me à Centelha de Coimbra e tentei editá-lo por aí. Fui até à Rua Béarn para falar com alguém que me apresentasse os direitos de autor e de tradução. Ora, quando me dirigi até lá, não sabia que tinha acabado de ser assassinado Gérard Lebovici o editor de Mesrine. A sanha persecutória da polícia francesa tinha ultrapassado tudo. Acusaram Guy Debord de ser ele o assassino, ou mesmo o seu mentor. A imprensa levantava hipóteses sem fim como, por exemplo, ter sido elaborado por antigos companheiros de Mesrine que, aliás, tinha adoptado Sabrine a sua filha e muito referida no livro. O seu assassinato foi, portanto, uma espécie de ajuste de contas de gente marginal. Com o caso de Guy Debord o caso piava mais fino. Há muito que a polícia queria fazer-lhe uma grande provocação e ele sabia-o. Publicava vários livros na Champ Libre e foi exactamente nessa altura que lá cheguei. Esta completa provocação da polícia a Debord, que mais tarde foi inocentado de tudo, foi muito bem descrita num comunicado do tradutor e editor Júlio Henriques, sob o pseudónimo creio, de Partido da Verdade.
Quando toquei à porta abriram-me uma pequena vigia e de lá perguntaram-me toda a minha identificação. Depois de ter dito que era português e que gostava de saber as condições que me davam para traduzir Instinto de Morte, de Mesrine e outros livros de Debord, fizeram-se desentendidos. Apresentaram-me as Memórias de Bukarine e os cartazes do Maio 68, ou os livros de Censor (Sanguinetti?). Só percebi mais tarde o problema: Debord. Encontrava-se a passar os seus direitos (que eram livres) para o nome de Alice Becker Ho, antecipando talvez as consequências da sua doença. Quanto a Mesrine, tinha acabado de sair uma lei francesa que obrigava a que os direitos de autor de indivíduos condenados fossem entregues às suas vítimas. Mais tarde, com a Deriva, ao publicar Jean-Marc Rouillan (Odeio as Manhãs) e Anjel Rekalde (Dorregarai a Casa-Torre), vim a perceber isto mesmo e a dificuldade legal em editar indivíduos ex-condenados (o primeiro pela militância na Action Directe e o segundo na ETA).
Depois de reler o livro foi uma desilusão: a diferença de trinta anos é grande, mas nunca esperava ver Mesrine (nos anos 80, mantinha ainda um certo halo de herói popular) como um indivíduo tão desprovido de sentimentos como perpassa na leitura do seu livro e na percepção da sua psicologia de assassino muito particular. Anselm Jappe já nos tinha avisado no prefácio: algumas das mortes foram totalmente inúteis, tendo servido somente para aumentar o seu narcisismo e reputação no «meio», como ele diz. As mulheres só são reconhecíveis como tal se forem submissas perante os homens; e se assaltam bancos e fazem frente à polícia são «verdadeiros homens». A tortura é legítima, segundo ele, para os delatores ou os traidores. E fê-lo, sem qualquer problema, a vários deles.
Mas o que mais me surpreendeu é a repulsa que ele tem por quem trabalha. Aliás, roubou, pelo menos duas vezes, grandes somas de salários a empresas. O problema contudo reside na sua opção em não trabalhar: recusava aquilo que os franceses chamam «metro, bulot, dodo» com toda a legitimidade, diga-se. Nada o obrigava a essa vida e poderia, nos anos 60, ter tido várias alternativas. Poderia, inclusive, repetir até à exaustão, que quem trabalha é um escravo moderno (porque de facto o é), mas não tinha o direito (porque contraditório) em adular tantos polícias e inspectores. Ou seja, um polícia é um polícia que faz o seu trabalho, o marginal, também. Logo, está tudo no seu lugar: «eu roubo, porque trabalhar é ser escravo, gosto de assaltar bancos porque há adrenalina e conheço miúdas bonitas e hóteis de luxo», «tu, polícia, tens de me apanhar e se fores correcto comigo, tudo bem, se for mano a mano, és tão honesto como eu!». Seria um resumo das suas ideias. Agora se poderá ver o verdadeiro terror da classe média depauperada, viver entre estes dois extremos!

Fala, uma única vez e no final do livro, de uma pretensa opção política, para explicar o eventual rapto de um líder parlamentar da oposição, porque poria o governo da altura em maus lençóis. Nada mais que isto. Anarquista? Comunista? Libertário? Socialista? De extrema-direita? Esta última hipótese coloca-se simplesmente por ter referido, na sua participação na guerra da Argélia, torturas que executou a árabes, cujo ódio, vai sendo descrito ao longo do livro, juntando a este racismo latente o gosto desmesurado pelas armas. Ficamos sem o saber. 

quarta-feira, agosto 21, 2013

Entrevista de Ricardo Gil Soeiro ao site Novos Livros


Retirado do Site Novos Livros 
http://novoslivros.blogspot.pt/2013/08/ricardo-gil-soeiro-bartlebys-reunidos.html

1 - O que representa, no contexto da sua obra, o livro Bartlebys Reunidos?
R – Trata-se do segundo volume de uma tetralogia que, neste momento, estou a escrever, intitulada Tetralogia de uma Poética Palimpséstica e que é constituída por quatro volumes (que assentam nos mesmos moldes formais): presentemente, estou a trabalhar no Volume III: Comércio com Fantasmas [Para uma Epistolografia Espectral] e no Volume IV: Anjos Necessários [Para uma Angelografia do Desejo]. O meu objectivo é reunir no futuro os quatro volumes num único livro que intitularei de “Palimpsesto”. É-me muito cara a ideia da escrita poética enquanto retraçar do traço, sublinhando as múltiplas camadas de que se faz um texto. No fundo, a ideia de uma tessitura poética fertilmente assombrada por um labirinto de outras escritas. E o que é a poesia senão esta riqueza de múltiplas vozes, múltiplas mãos? A escrita, dando conta da impossibilidade do apagamento absoluto, aponta para esse resto espectral cujo frémito ainda estremece.

2 - Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R – O livro baseia-se na figura criada por Herman Melville, no conto Bartleby, the scrivener (1853): o escrivão Bartleby que, a cada solicitação ou ordem, se limita a retorquir: “Preferiria não o fazer.” Visa, fundamentalmente, interrogar poeticamente a pulsão negativa e a atracção pelo nada, tal como esta se desenha no labirinto da literatura do Não (aqui inspirei-me no romance híbrido Bartleby & Compañia, da autoria do escritor catalão Enrique Vila-Matas). Imaginando múltiplos Bartlebys, cada poema encena a problemática da desistência literária, inspirando-se para o efeito em diversas obras de referência (na poesia, na filosofia, no teatro e na pintura) que espelham a renúncia da escrita. Daí o subtítulo que acompanha a obra: “Para Uma Ética da Impotência”. Creio que o livro ganha em ser lido à luz desta unidade conceptual, mas cada poema pode igualmente ser perspectivado individualmente: a minha esperança é a de que o leitor se sinta seduzido e tentado pela singularidade de diferentes vozes e pelos distintos tons que se sucedem. Essa rede polifónica parece-me decisiva, não só para quem lê, mas também para quem escreve: a convicção segundo a qual o sujeito escrevente, ao tomar a palavra poética, se heteronomiza, se torna Outro. É desta forma que procuro explicar o meu fascínio crescente pelas metamorfoses, pelos simulacros, pela “verdade das máscaras”, na formulação de Nietzsche. Interessa-me ameaçar a própria ideia de representação, transgredir a sua lógica mimética. Talvez assim se torne possível, parafraseando Victor Stoichita na sua magnífica obra O Efeito Pigmalião: Para uma Antropologia Histórica dos Simulacros, fazer explodir o texto, ferir o olhar. Esse é o objectivo impossível, mas profundamente necessário.

3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Neste momento, estou a trabalhar na tetralogia, como referi. Mas estou também a terminar aquilo que designo por “Díptico sobre a Palavra Absoluta” (2013-2014) e que é constituído por dois livros, ligados entre si: Painel I: A rosa de Paracelso [poema longo] e Painel II: ‘Ultima Verba’. Tratado das Confidências [ficção]. Agrada-me muito esta ideia de séries ou de volumes que, valendo por si mesmos (quando considerados individualmente), ganham uma maior amplitude e riqueza formais, quando perspectivados em ligação uns com os outros. De resto, já havia feito algo semelhante aqui há alguns anos com as Partituras do Ofício (2011), constituído por dois livros: Ciclo I - Labor Inquieto [poesia] e Ciclo II - Constelações do Coração (seguido de Filosofia Portátil) [crónica autobiográfica seguida de série poética].
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Ricardo Gil Soeiro
Bartlebys Reunidos [Para uma Ética da Impotência]

Deriva Editores, 11,50€

Fazer Teatro na Escola, uma proposta

O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão, é uma peça de teatro para a juventude várias vezes apresentada no Teatro da Trindade em Lisboa, entre outros palcos. Alia o humor à pedagogia. Da História às Ciências Naturais, da Matemática à Física; para além, igualmente, da Língua Portuguesa e da Geografia, mostra-nos uma série de possibilidades que se podem concretizar no espaço da turma ou da escola. Dentro, um prefácio de Máximo Ferreira e um guia de exploração pedagógica de Paulo Simões. Para a montagem do espectáculo, sugestões oportunas de figurinos dos actores e actrizes. Proposto pelo Plano Nacional de Leitura.
Pedidos para infoderivaeditores@gmail.com (descontos para as escolas)

Hoje, na Livraria Leitura no Porto



A Livraria Leitura no Shopping Bom Sucesso, na Boavista, Porto, é das poucas livrarias que tem o catálogo completo da poesia da Deriva. Hoje, encontrava-se em escaparate os últimos Compositores do Período Barroco, de José Ricardo Nunes e Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Perigo Vegetal, Ameaça na Antártida e Futuro Roubado. No Plano Nacional de Leitura (1º, 2º e 3º ciclos)


Eis os livros juvenis da Deriva, escritos pelo galego Ramón Caride, onde se constroem aventuras de dois irmãos contra as multinacionais que querem tomar conta do planeta (ainda mais). São todos escolhidos pelo Plano Nacional de Leitura para o 1, 2º e 3º ciclos e passíveis de serem explorados pedagogicamente por várias disciplinas. Ver em http://aventurasdesheilaesaid.blogspot.pt/


A ler: O Negócio dos Livros, de André Schiffrin. Letra Livre



Em boa hora a Letra Livre publicou O Negócio dos Livros, de André Schiffrin. Com um subtítulo esclarecedor, Como os grandes grupos económicos decidem o que lemos, avançamos para a leitura que se revela extremamente interessante para quem, como nós aqui pela Deriva, se vê em palpos de aranha para sobreviver no mundo dos livros. Mundo que não é todo igual, como nos avisa a tempo, Vítor Silva Tavares que o prefacia.
Schiffrin é americano, filho de judeus que fugiram da ocupação nazi em França, e isto explica já alguma coisa. Ou seja, a posição política do autor que foi editor da Pantheon Books e, depois, da New Press, é claramente de esquerda. Bom, em termos europeus podemos dizer que sim, mas na América é um perigoso liberal, ainda por cima com excelentes ligações a editoras francesas e inglesas que editaram Sartre, Hobsbawm, E.P. Thompson, Marguerite Duras, Beauvoir, Chomsky, Ivan Illich e por aí fora... Parece-nos evidente que sem ele, estes autores muito dificilmente veriam a luz do dia nos E.U.A.
O livro, em si, não contém grandes novidades para os leitores que sabem escolher os seus livros. Mas devia ser de leitura obrigatória para os que vão atrás dos horríveis escaparates com que as livrarias nos agridem todos os dias. Talvez seja bom saber como se formatam as mentes com os livros, já de si formatadas pela TV e pelo cinema de Holywood bem acompanhadas por outros avanços capitalistas, tão alienantes e perigosos como os primeiros. Mas o livro de Schiffrin devia ser igualmente de cabeceira para os editores das grandes fusões à moda portuguesa. Porquê? Porque aquilo que foi feito nos anos 90 nos EUA e Grã-Bretanha está ser feito em Portugal e no resto da Europa.
A receita é aparentemente simples: duas, três, quatro médias editoras (atenção à diferença de dimensão: uma média editora americana é maior do que uma considerada grande editora portuguesa), são compradas por um grupo ligado a uma grande televisão, revistas, ou seja, do que comummente chamamos de media. Após a compra, inicia-se o processo de despedimento colectivo, enviando para o desemprego os antigos editores e contratando «novos» gestores que nada tem que ver com os livros, antes, com dinheiro puro e duro. Schiffrin diz-nos que se fazem pagar como nababos, sendo de crer que alguns têm ordenados maiores que alguns administradores de bancos, o que é obra!
Chegados aqui, começa a transformação ideológica das editoras fundidas: já não haverá lugar para grandes pensamentos ou critérios editoriais alternativos. Agora, pensa-se em ganhar dinheiro e a direita julga-se boa nisso. Avança-se com «biografias», com pagamentos principescos a personalidades dúbias, livros de autoajuda, de cozinha, de viagens, de personalidades da TV e cinema, livros ligados a Fundações, etc.
Julgam que isto dá dinheiro? Não, não dá. O autor e editor, garante-nos que os números são claramente inflaccionados, reduzindo-se até a margem de lucro das fusões para limites inaceitáveis (chega-se a calcular 1% de lucro, o que não será de admirar tendo em conta os ordenados brutais dos administradores, o gasto de pagamentos em avanços idiotas por novos editores mais interessados em ganhar currículo antes do despedimento, a publicidade na TV de livros que nada vendem, os prémios completamente desajustados, etc, etc.). Mesmo a venda de livros é uma mentira: quem já não viu, aqui em Portugal, por exemplo, a 24ª edição de um livro junto a uma 6ªou 12ª edição do mesmo livro?
Outra coisa que nos faz pensar é a «escolha» do e-book como alternativa segura ao livro por gigantes como a Amazon. Mais uma inflacção de vendas: só o que se gasta em publicidade não dá sequer para contrabalançar as vendas on line. E têm estado a baixar por cansaço das pessoas com as escolhas sempre iguais no plano editorial. Não fossem alguns jornalistas a serem cúmplices desta estratégia e provavelmente a situação era bem pior.

Mas é provável, mesmo sabendo isto, que a coisa continue. A incongruência é parte inseparável do capitalismo e, por isso, o processo de multiplicação da usura editorial e da especulação também têm aqui o seu papel. 
Exactamente, o seu papel!

quinta-feira, agosto 01, 2013

Bartlebys Reunidos, na Fnac de Sta. Catarina, Porto

Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro, finalmente nas Fnacs. Neste caso na Fnac de Sta. Catarina, no Porto.

quarta-feira, julho 31, 2013

Nos anos da morte de Ricardo Jorge, a Peste Bubónica no Porto

Pedidos a infoderivaeditores@gmail.com 13 euros, 158 páginas

Sobre Bartlebys Reunidos, Ricardo Gil Soeiro diz-nos...



De Ricardo Gil Soeiro, autor de Bartlebys Reunidos, recebemos estes pensamentos/registos que apontam para a continuação do seu projecto poético. Que sim, dizemos nós:

(...) A minha opção é, todavia, outra. Se parto em busca de uma re-humanização poética do sentido, tal não significa que me renda a uma arte de vocação totalizadora: só compreendo a plenitude do sentido à luz das fracturas, das sombras que se insinuam por entre as nossas aspirações mais genuínas. Na entrevista que vai sair muito em breve explico essa questão de uma maneira clara: por um lado, dou conta do meu fascínio pelas intersecções metamórficas (pelas máscaras, pelas metamorfoses e pelos simulacros que marcam presença nos meus poemas), enfim, pelo espírito irónico de uma pós-modernidade que nos veio confirmar que as grandes narrativas se desmoronaram e que o anjo da História nos olha com uma justificada desconfiança; por outro lado, faço igualmente menção aos múltiplos tons que ressoam no nosso livro dos Bartlebys. Num texto em prosa, inédito, que escrevi aqui há algumas semanas detenho-me sobre essa problemática que me parece essencial. O texto de duas páginas intitula-se “Signos de ninguém: gaguejar em órbitas deleuzianas”. Aí encaro o acto de escrever como um arriscar em constante desequilíbrio: se um estilo, como diz Deleuze, é conseguir gaguejar na sua própria língua, então o acto de escrever deve produzir velocidade, diferentes velocidades. Os tais tons distintos que sublinhei.   

É por isso que todos os poemas do livro são profundamente diferentes entre si – a despeito da unidade conceptual em que se ancoram. O mesmo sucede com o primeiro volume da tetralogia, “Da vida das marionetas”, que se centra sobre a figura inanimada. Não só esse livro é distinto deste livro sobre os bartlebys, como nesse volume em particular se assiste a um registo dramático, dialógico, de um eu (a marioneta em metamorfose) e um tu que se encontra, de poema para poema, em profunda transmutação. Mais uma vez: os múltiplos tons, as múltiplas vozes, as múltiplas máscaras. Vestir diferentes peles, habitar diferentes “caosmos” (como queria Joyce).


É isto que me interessa fazer. Não o tal lirismo forte de uma subjectividade que canta, mas desenhar um rosto polimórfico que se desdobra em diferentes urdiduras textuais: e que essas urdiduras textuais possam abrir novos horizontes de sentido. Um outro projecto que terminei há uma semana constitui um bom exemplo do que quero dizer: chama-se A rosa de Paracelso e é um extenso poema baseado no conto homónimo de Borges. É um único poema (35 páginas) que se inicia justamente com a alusão ao episódio final do relato borgesiano: quando aí se concebe que Paracelso terá logrado recriar uma rosa pela palavra. Ou seja, aqui é já uma outra voz que pretendo explorar: convoca-se uma reflexão metapoética que aposta no poder demiúrgico da palavra, mas que, simultaneamente, acolhe a condição inerentemente paradoxal que atravessa a criação poética.

Ricardo Gil Soeiro, 30 de Abril de 2013

Pedidos a infoderivaeditores@gmail.com. 11,50 euros

Uma experiência (a repetir) com Compositores do Período Barroco





Abra-se o último livro de poesia de José Ricardo Nunes editado pela Deriva, Compositores do Período Barroco, na página 41. Encontramos o poema Maurizio Cazzati. Investiguemos no Youtube este músico barroco e encontramos este trecho. Leia-se este poema de José Ricardo Nunes enquanto ouvimos a música:

CAZZATI, Maurizio
(1616-1678)

Por mais que atestem o contrário,
ele refute,
não duvido ser Arresti
o redactor do Dialogo. Tomado por fraco,
deixei-me atingir pelas críticas.
Republiquei a Missa Primi Toni
em sessenta e sete, devidamente
expurgada dos erros que afirmavam
conter, apenas um
e recorrente. Após a demissão, fui acolhido
em Mântua. A Duquesa também ouviu
a minha história mas, ao contrário
do que sucedeu contigo, não se impressionou
com os factos.

Aconselhamos vivamente a leitura activa destes poemas, enquanto, ou antes, ou depois, de sermos invadidos pela música dos compositores.

O autor, depois de invectivado por Pedro Mexia, apresenta ao público a enciclopédia La Musique Baroque onde baseou, em parte, a sua investigação poética

Pedidos a infoderivaeditores@gmail.com. 15 euros

segunda-feira, julho 29, 2013

Os últimos livros da Deriva

Os pedidos podem ser endereçados a infoderivaeditores@gmail.com
com o nome, morada e contacto telefónico

Preços com 20% de desconto:
Domingo no Corpo / Aurelino Costa       11           8,80
Bartlebys Reunidos /Ricardo Gil Soeiro 11,5       9,20
Compositores do Período Barroso / José Ricardo Nunes 15          12
Suicidas / Henrique Manuel Bento Fialho 13           10,4
Que se lixe a troika! / João Camargo      9,5
A  Moralidade da Profissão das Letras / Robert Louis Stevenson – Trad. Jorge Bastos da Silva  8,5   6,4    
Samuel Taylor Coleridge - Biographia Literaria - Jorge Bastos da Silva 14                11,20
Ao Encontro de Max Frish – Teresa Martins de Oliveira 14          11,20
Hobby e Dandy, Da Arte na sua Relação com a Sociedade/Jean-Claude Pinson  8    6,40
Literatura para a Infância e a Juventude e Educação Literária/Maria Madalena M.C. Teixeira da Silva e Isabel Mociño González  15     12

Bartlebys Reunidos na Fnac/Colombo

Já à venda na Fnac/Colombo, em Lisboa, Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro

sábado, julho 27, 2013

Hoje, no Expresso: José Mário Silva faz a recensão de Bartlebys Reunidos, de Ricardo Gil Soeiro



Apresentação de Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho. Um apelo à vida

Pela ordem da esquerda para a direita: Henrique Fialho, o editor apresentando-o e José Ricardo Nunes

Um aspecto da assistência na Casa dos Barcos, no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. Casa cheíssima, perto do lago onde, segundo Luiz Pacheco, desapareciam criancinhas, como muito bem lembrou o Henrique

O livro esperando a sua aquisição que pode ser efectivada nas livrarias muito em breve

Ao lado de Suicidas, o último livro de Henrique Manuel Bento Fialho na Deriva, o Estranhas Criaturas

O Henrique no uso da palavra. O apelo à vida através do curso da insatisfação, da incomodidade, do inconformismo. Um apelo sincero à liberdade e a uma outra vida.