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segunda-feira, maio 20, 2024

II Feira de Livros de Arte. Centro de Artes Visuais, Coimbra

 


Na II Feira do Livro de Arte, no CAV de Coimbra, um fartote de aquisições de livros bonitos. Poesia de Heiner Müller, traduzida por Adolfo Luxúria Canibal e ilustrações de José Pereira, Jornal Punkto sobre a Palestina, "Existenzgrunder" de Anna Klos, um fabuloso "In the End, it was the economy" da Ghost Editions, "O livro da Patrícia" da mesma editora e "RIP", colagens de Pedro Teixeira Neves da Paper View Books. Claro que me escusei de adquirir os 5 livros de António Alves Martins das Artes Breves edições, porque já os tinha! Nada como realmente.

quinta-feira, agosto 29, 2013

Transiberic Love, de Raquel Freire


Ler Transiberic Love é um desafio aos sentidos, se ainda os temos incólumes e isto após os ataques continuados à nossa vida quotidiana vindas do estado e dos mercados. Revemo-nos nele. Sentimo-lo em cada linha, em cada palavra, mesmo que Raquel Freire tenha escolhido algumas claramente panfletárias. Não importa. Aliás, essas palavras tornam-se excepcionalmente belas no contexto do livro. Tudo ali é coerência, tudo ali se enquadra num livro emotivo, revolucionário, vívido e, literariamente, extremamente interessante.
Tinha curiosidade em lê-lo e dois dias me bastaram, rápidos a absorvê-lo e, principalmente, a compreendê-lo. Estou na casa dos 50 e entre Janes Joplin e Amy Winehouse, já passaram os Clash, os Velvet Underground, David Bowie ou Byrne. Filho da tal revolução sexual dos anos 60 e desconfiado de tanta fruta, preferi, jovem, aguardar pelo movimento punk e ver no que paravam as modas quanto à libertação sexual, argumentando ao mesmo tempo pela necessidade de uma revolução social. Entretanto, tal como Maria, personagem revolucionária do romance, vi-me a comprar jornais todos os dias, a ter emprego, a gerir o tédio como quem não queria a coisa. Erro meu, erro nosso. Quando vivíamos a Arte de Viver da Geração Nova, de Vaneigem, não levámos suficientemente a sério o aviso: «Aqueles que falam de revolução e de luta de classes sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa das coações, esses têm na boca um cadáver.» Já Raquel Freire prefere a fórmula de uma revolucionária obrigando-se a proclamar «se não puder dançar, então isto não é uma revolução».

As personagens de Transiberic Love são livres na sua beleza andrógina, na recusa de serem catalogados no binómio biológico, provocando a sociedade, voando com as suas asas de anjos loucos, bebedores, drogados, procurando violentamente a felicidade. Duvido que não haja o mínimo de comoção no leitor quando a autora nos faz dançar com Marx, com os que estiveram presentes na I e II Internacionais, ou quando estamos numa reunião comunitária com transsexuais, lésbicas, homossexuais ou bissexuais ávidos por reconhecimento das suas identidades: «Danço. Olho-nos a dançar nas discotecas, mestiçxs, lésbicas excêntricas em transe, drag queens entusiasmadas, butches loucas, trichas de tão bichas, drag kings esfusiantes, translovers fervorosas, feministas radicais, gays musculados como rochas, transexuais eufóricos, lésbicas tímidas a dançarem possuídas, bissexuais a rirem de todxs, trangéneros ávidos, trans andróginos mais belxs do que todos os anúncios de Calvin Klein e do que toda a moda capitalista junta, a palavra de ordem é transformação, toda a vida é feita de mudança (...),» (pág. 255). É assim, com Camões e a evidência da mudança, que teremos a certeza que estes nossos filhos da revolução que não quisemos fazer nos anos 80, nos mandam à cara. Com amor, mas esse amor não é o que julgamos ser: « - Não é novo! (a noção de amor universal) É um código que repetimos porque estamos sempre a vê-lo na música, no cinema, na televisão, na literatura, na religião, na escola, no discurso da família... tudo parece obedecer ao amor como valor universal: all you need is love. Todas as músicas, todos os livros, hetero e gays, todos os filmes repetem a palavra amor. Deus é amor! Todos idolatram o amor: padres, políticxs, poetas, psicólogxs, professorxs, putas, artistas, jornalistas, sociólogxs, sexólogxs, antropólogxs, humanistas, socialistas, democratas, monárquicxs, comunistas, fascistas...» (pág. 227) Aqui ninguém sai ileso. Como nos concertos de Jim Morrison, quando declarava «Daqui ninguém sai vivo», também as personagens de Raquel Freire são implacáveis na sua fuga para a frente. Não há cedências a ninguém, nem a nenhuma ideologia. Mesmo Marx aparece como uma ferramenta essencial para afastar o ressentimento legítimo ao capitalismo «O marxismo salva-me da tristeza, o capitalismo escraviza-me, repito para mim mesma enquanto danço. É o meu mantra.» (pág. 136), mas a personagem sabe que tem de travar esse entusiasmo. No fundo, percebemos a formação filosófica de Raquel Freire a fugir aos dogmas. Mais uma lição que recebemos na leitura de Transiberic Love. E um aviso sério meus caríssimos leitores: «Somos sobreviventes, mutantes, répteis voadores, mas dos que voam baixinho, baratas é o que nós somos, sobrevivemos a todas as guerras, todos os colapsos dos mercados, todos os desastres amorosos, todas as overdoses dos nossos amigos, a todas as mortes inglórias, we are young, drunk, beautiful and free». Seja. Irei com eles. É um livro muito bonito.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Livros: Instinto de Morte, de Jacques Mesrine, Antígona



Reli Instinto de Morte de Jacques Mesrine, recém-editado pela Antígona, e muito por causa da crítica de Ana Cristina Leonardo, no Expresso. Isto tem uma história: quando o li pela primeira vez foi em Paris, editado pela então Champ Libre. Nessa ocasião a edição ligava-me à Centelha de Coimbra e tentei editá-lo por aí. Fui até à Rua Béarn para falar com alguém que me apresentasse os direitos de autor e de tradução. Ora, quando me dirigi até lá, não sabia que tinha acabado de ser assassinado Gérard Lebovici o editor de Mesrine. A sanha persecutória da polícia francesa tinha ultrapassado tudo. Acusaram Guy Debord de ser ele o assassino, ou mesmo o seu mentor. A imprensa levantava hipóteses sem fim como, por exemplo, ter sido elaborado por antigos companheiros de Mesrine que, aliás, tinha adoptado Sabrine a sua filha e muito referida no livro. O seu assassinato foi, portanto, uma espécie de ajuste de contas de gente marginal. Com o caso de Guy Debord o caso piava mais fino. Há muito que a polícia queria fazer-lhe uma grande provocação e ele sabia-o. Publicava vários livros na Champ Libre e foi exactamente nessa altura que lá cheguei. Esta completa provocação da polícia a Debord, que mais tarde foi inocentado de tudo, foi muito bem descrita num comunicado do tradutor e editor Júlio Henriques, sob o pseudónimo creio, de Partido da Verdade.
Quando toquei à porta abriram-me uma pequena vigia e de lá perguntaram-me toda a minha identificação. Depois de ter dito que era português e que gostava de saber as condições que me davam para traduzir Instinto de Morte, de Mesrine e outros livros de Debord, fizeram-se desentendidos. Apresentaram-me as Memórias de Bukarine e os cartazes do Maio 68, ou os livros de Censor (Sanguinetti?). Só percebi mais tarde o problema: Debord. Encontrava-se a passar os seus direitos (que eram livres) para o nome de Alice Becker Ho, antecipando talvez as consequências da sua doença. Quanto a Mesrine, tinha acabado de sair uma lei francesa que obrigava a que os direitos de autor de indivíduos condenados fossem entregues às suas vítimas. Mais tarde, com a Deriva, ao publicar Jean-Marc Rouillan (Odeio as Manhãs) e Anjel Rekalde (Dorregarai a Casa-Torre), vim a perceber isto mesmo e a dificuldade legal em editar indivíduos ex-condenados (o primeiro pela militância na Action Directe e o segundo na ETA).
Depois de reler o livro foi uma desilusão: a diferença de trinta anos é grande, mas nunca esperava ver Mesrine (nos anos 80, mantinha ainda um certo halo de herói popular) como um indivíduo tão desprovido de sentimentos como perpassa na leitura do seu livro e na percepção da sua psicologia de assassino muito particular. Anselm Jappe já nos tinha avisado no prefácio: algumas das mortes foram totalmente inúteis, tendo servido somente para aumentar o seu narcisismo e reputação no «meio», como ele diz. As mulheres só são reconhecíveis como tal se forem submissas perante os homens; e se assaltam bancos e fazem frente à polícia são «verdadeiros homens». A tortura é legítima, segundo ele, para os delatores ou os traidores. E fê-lo, sem qualquer problema, a vários deles.
Mas o que mais me surpreendeu é a repulsa que ele tem por quem trabalha. Aliás, roubou, pelo menos duas vezes, grandes somas de salários a empresas. O problema contudo reside na sua opção em não trabalhar: recusava aquilo que os franceses chamam «metro, bulot, dodo» com toda a legitimidade, diga-se. Nada o obrigava a essa vida e poderia, nos anos 60, ter tido várias alternativas. Poderia, inclusive, repetir até à exaustão, que quem trabalha é um escravo moderno (porque de facto o é), mas não tinha o direito (porque contraditório) em adular tantos polícias e inspectores. Ou seja, um polícia é um polícia que faz o seu trabalho, o marginal, também. Logo, está tudo no seu lugar: «eu roubo, porque trabalhar é ser escravo, gosto de assaltar bancos porque há adrenalina e conheço miúdas bonitas e hóteis de luxo», «tu, polícia, tens de me apanhar e se fores correcto comigo, tudo bem, se for mano a mano, és tão honesto como eu!». Seria um resumo das suas ideias. Agora se poderá ver o verdadeiro terror da classe média depauperada, viver entre estes dois extremos!

Fala, uma única vez e no final do livro, de uma pretensa opção política, para explicar o eventual rapto de um líder parlamentar da oposição, porque poria o governo da altura em maus lençóis. Nada mais que isto. Anarquista? Comunista? Libertário? Socialista? De extrema-direita? Esta última hipótese coloca-se simplesmente por ter referido, na sua participação na guerra da Argélia, torturas que executou a árabes, cujo ódio, vai sendo descrito ao longo do livro, juntando a este racismo latente o gosto desmesurado pelas armas. Ficamos sem o saber. 

segunda-feira, agosto 19, 2013

A ler: O Negócio dos Livros, de André Schiffrin. Letra Livre



Em boa hora a Letra Livre publicou O Negócio dos Livros, de André Schiffrin. Com um subtítulo esclarecedor, Como os grandes grupos económicos decidem o que lemos, avançamos para a leitura que se revela extremamente interessante para quem, como nós aqui pela Deriva, se vê em palpos de aranha para sobreviver no mundo dos livros. Mundo que não é todo igual, como nos avisa a tempo, Vítor Silva Tavares que o prefacia.
Schiffrin é americano, filho de judeus que fugiram da ocupação nazi em França, e isto explica já alguma coisa. Ou seja, a posição política do autor que foi editor da Pantheon Books e, depois, da New Press, é claramente de esquerda. Bom, em termos europeus podemos dizer que sim, mas na América é um perigoso liberal, ainda por cima com excelentes ligações a editoras francesas e inglesas que editaram Sartre, Hobsbawm, E.P. Thompson, Marguerite Duras, Beauvoir, Chomsky, Ivan Illich e por aí fora... Parece-nos evidente que sem ele, estes autores muito dificilmente veriam a luz do dia nos E.U.A.
O livro, em si, não contém grandes novidades para os leitores que sabem escolher os seus livros. Mas devia ser de leitura obrigatória para os que vão atrás dos horríveis escaparates com que as livrarias nos agridem todos os dias. Talvez seja bom saber como se formatam as mentes com os livros, já de si formatadas pela TV e pelo cinema de Holywood bem acompanhadas por outros avanços capitalistas, tão alienantes e perigosos como os primeiros. Mas o livro de Schiffrin devia ser igualmente de cabeceira para os editores das grandes fusões à moda portuguesa. Porquê? Porque aquilo que foi feito nos anos 90 nos EUA e Grã-Bretanha está ser feito em Portugal e no resto da Europa.
A receita é aparentemente simples: duas, três, quatro médias editoras (atenção à diferença de dimensão: uma média editora americana é maior do que uma considerada grande editora portuguesa), são compradas por um grupo ligado a uma grande televisão, revistas, ou seja, do que comummente chamamos de media. Após a compra, inicia-se o processo de despedimento colectivo, enviando para o desemprego os antigos editores e contratando «novos» gestores que nada tem que ver com os livros, antes, com dinheiro puro e duro. Schiffrin diz-nos que se fazem pagar como nababos, sendo de crer que alguns têm ordenados maiores que alguns administradores de bancos, o que é obra!
Chegados aqui, começa a transformação ideológica das editoras fundidas: já não haverá lugar para grandes pensamentos ou critérios editoriais alternativos. Agora, pensa-se em ganhar dinheiro e a direita julga-se boa nisso. Avança-se com «biografias», com pagamentos principescos a personalidades dúbias, livros de autoajuda, de cozinha, de viagens, de personalidades da TV e cinema, livros ligados a Fundações, etc.
Julgam que isto dá dinheiro? Não, não dá. O autor e editor, garante-nos que os números são claramente inflaccionados, reduzindo-se até a margem de lucro das fusões para limites inaceitáveis (chega-se a calcular 1% de lucro, o que não será de admirar tendo em conta os ordenados brutais dos administradores, o gasto de pagamentos em avanços idiotas por novos editores mais interessados em ganhar currículo antes do despedimento, a publicidade na TV de livros que nada vendem, os prémios completamente desajustados, etc, etc.). Mesmo a venda de livros é uma mentira: quem já não viu, aqui em Portugal, por exemplo, a 24ª edição de um livro junto a uma 6ªou 12ª edição do mesmo livro?
Outra coisa que nos faz pensar é a «escolha» do e-book como alternativa segura ao livro por gigantes como a Amazon. Mais uma inflacção de vendas: só o que se gasta em publicidade não dá sequer para contrabalançar as vendas on line. E têm estado a baixar por cansaço das pessoas com as escolhas sempre iguais no plano editorial. Não fossem alguns jornalistas a serem cúmplices desta estratégia e provavelmente a situação era bem pior.

Mas é provável, mesmo sabendo isto, que a coisa continue. A incongruência é parte inseparável do capitalismo e, por isso, o processo de multiplicação da usura editorial e da especulação também têm aqui o seu papel. 
Exactamente, o seu papel!

domingo, dezembro 30, 2012

O Pensamento Tornado Dança, Estudos em torno de George Steiner, org. por Ricardo Gil Soeiro


Primeiro estranha-se, depois, entranha-se. Um livro sobre George Steiner, editado pelo Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e organizado por Ricardo Gil Soeiro. Li  somente a comunicação de Vasco Graça Moura e de João Lobo Antunes. Preparo-me para ler o resto ainda hoje com participações extremamente interessantes para o conhecimento de Steiner. Ver aqui.Guardo para vocês, e sobre a Educação, tão importante para este filósofo, trechos sobre a comunicação de João Lobo Antunes que deixo à consideração e reflexão de todos:
«Uma das teses fundamentais é a de que a educação exige o culto de valores de dificuldade, e repete a citação de Spinoza, que tudo o que é excelente é raro e difícil. No ensaio ''Elogio da Dificuldade'', chamei a atenção para o facto de que o que se pede hoje ao ensino não é muito diferente do que se exige na aquisição de um bem de consumo - automóvel, a parelho de vídeo, computador - ou seja, quer-se barato, de boa qualidade e ''amigo do utilizador''. Mas, de facto,  a missão da educação não é primariamente fazer com que os estudantes se sintam felizes na escola, como afirmava Woodrow Wilson, presidente de Princeton, antes de se transferir para a Casa Branca. A educação deve, sim, fornecer instrumentos de felicidade, e esta é necessariamente uma construção pessoal, para a qual a escola pode contribuir dando músculo às qualidades de espírito e de carácter indispensáveis à jornada.
Se é verdade que a escola fácil não cumpre a missão de preparar para a vida difícil e se, como nota Steiner, a simplificação, o nivelamento por baixo, a ''diluição'', são autênticos crimes, há infelizmente entre nós a tendência para criar a dificuldade espúria, gratuita, como por exemplo pela mudança imprevisível das regras do jogo, pelo currículo empanturrado, pela mesquinhez do pormenor inútil, da pergunta matreira ou pela distância soberba que nega o mandato sagrado de ensinar.
A escola fácil a que me refiro é a que cede à demagógica satisfação dos caprichos, a que fecha os olhos à burla científica, à incompetência de mestres e alunos, que se submete ao relativismo que nega o mérito individual, que procura o consenso que nivela pelo menor denominador, que entende que os valores se não distinguem, e aceita, como dizia Séneca, que os vícios se transformem em costumes.
Steiner quer expulsar os vendilhões do templo, aqueles professores que ele chama ''assassinos da esperança e da perfectibilidade dos jovens'', aqueles que reduzem as matérias a uma ''inanidade cinzenta'', que vão deixando cair gota a gota o mais corrosivo dos ácidos - o enfado.
Segundo Steiner, para ensinar é preciso ser um ''doador, ser um pouco louco, estar nu e não ter vergonha da sua nudez'' e, como diz noutro escrito, ser afligido por uma doença crónica: a doença do optimismo.»
João Lobo Antunes, Lições de George Steiner,O Pensamento Tornado Dança, Lisboa, Roma Ed. 2009

sábado, abril 14, 2012

As insónias e o recurso aos clássicos

Camilo por Vasco
Deve ser da idade. Pelo menos, o Vasco Pulido Valente queixava-se, ainda não há muito tempo, do mesmo. A falta de sono e as insónias que invariavelmente me obrigam a ler. Como os jornais estão como estão (todos iguais uns aos outros e com opiniões de alto coturno, ao nível da mesa de café) e a televisão se encontra insuportável, vejo-me na feliz contingência de me dedicar à releitura de alguns clássicos entre escritores mais ou menos contemporâneos, não vão acusar-me de arrogância. Veio-me às mãos (já o tinha lido em miúdo) A Queda dum Anjo e, palavra de honra, lembrei-me de algumas personagens atuais do nosso parlamento e da nossa opinião política. Aquele Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda não engana: gongórico, redondo, nunca recusando uma citação ilustrativa, é ele o provinciano astuto que se adapta facilmente à conjuntura. E a conjuntura no século XIX era, desgraçadamente, a mesma de hoje. Já o Eça de A Cidade e as Serras (que o Luís Nogueira meu professor de Português nos deu para ler aos 12 anos) mostra uma aparente desprezo por Paris diretamente proporcional ao exagerado amor por Portugal. Não brinques, ó Eça. «Uma maçada! Uma seca!» - não pára de dizer Jacinto para um Zé Fernandes sobre Paris. Não fosse a trigueira Joaninha não querer sair de Tormes e gostaria de adivinhar um outro final. Um final que obrigasse Zé Fernandes a dizer dela o que disse das madames de Jacinto: «- Parece que fala como as mulheres de Camilo! Oh, nunca leste Camilo? Ah o Camilo...» Mortífero. É o que dão as releituras. Obrigam-nos a uma outra forma de entender os livros. Deve ser a idade.

domingo, abril 08, 2012

A ler La Coca, de J. Rentes de Carvalho

Duvido que no panorama literário atual se retrate tão bem o Minho e a Galiza de hoje como o faz J. Rentes de Carvalho neste La Coca. Sim, de cocaína. Mas também de heroína, de haxixe, de carros de alta cilindrada, de palácios construídos em pouco tempo nas quintas arruinadas e compradas com o dinheiro do narcotráfico, de traineiras que depressa passaram às famosas voadoras, de jantares pantagruélicos entre os capos e amigos colombianos e panamanianos e sempre a rede corrupta entre as duas fronteiras que marcam indelevelmente funcionários, advogados, dirigentes de clubes, empresários. E fala-se também de Barcelos, de Viana, de Lanhelas que cruzam antigos favores com Baiona, Cambados, Arousa. Aqui se constrói uma geografia nova que La Coca nos mostra sem nostalgias inúteis ou moralismos. O que hoje é a Galiza e o Minho fizeram-nas os respetivos estados e, um dia, que queiramos voltar atrás será tarde demais. A cocaína não corrompe só quem a consome, mas toda uma sociedade que se faz cúmplice em torno do dinheiro fácil. São as novas «novelas do Minho». Mas estas deixam um trago amargo na boca, acreditem.

sexta-feira, abril 06, 2012

A ler A Arte de Morrer Longe, de Mário de Carvalho


Mário de Carvalho é um excelente retratista e um contador de histórias. Mostra-nos um país ocupado em pequenas mezinhas de carácter, em pequenos empregos e ainda mais pequenas relações entre personagens que se dividem em revistas cor de rosa e nas pantalhas luminosas que desvendam o saber atual: a grande wickipedia! Os portugueses são ases no saber sugado pela net. Os mais desenrascados de entre nós, sabem-no. Mas a veromilhança de A Arte de Morrer Longe constrói-se pela capacidade de Mário de Carvalho em apresentar-nos situações que só a realidade nos pode dar. O absurdo é tal que nos é difícil imaginar essas situações no campo literário. Só mesmo a realidade para percebermos a possibilidade de elas acontecerem. Que faz uma tartaruga num apartamento de Lisboa alimentada por um casal desavindo em vésperas de uma separação e loucamente à procura de umas luvas de látex? E os interrogatórios policiais que procuram saber desse afã pouco comum? E a mãe de Arnaldo, uma burguesa da Avenida de Roma que lhe aparece com um avental da Festa do Avante, convidando «Eu sou comunista. Porque não tu?». Aqui tudo se explica pela escrita muito própria de Mário de Carvalho que nos interpela diretamente, como leitores e cúmplices. De qualquer maneira, embora não seja dos melhores romances dele, é uma obra incontornável. Imperdível, na página 94, o retrato de Quintão Malpique um tipo muito português que a net descobriu e ampliou do que, antes dela, denunciava os outros à Câmara ou à polícia «só para chatear» e, agora na possibilidade infinita da net, se diverte sob anonimato a caluniar, a comentar, a insultar e a propagandear salazar. Para um muito português faduncho e fascistóide «Só para chatear»!

quarta-feira, abril 04, 2012

A ler A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão


Como coabitar com discursos políticos aparentemente panfletários com uma magnífica história de amor tendo, como pano de fundo, a cidade de Lisboa e o abandono a que está votada? Teolinda Gersão consegue-o de uma maneira magistral, prendende-nos através de uma narrativa solta e com personagens muito bem construídas a nível psicológico. Essas pessoas, Rui, Cecília, Sara, são pessoas que sentem, que comem, que se cansam, que entristecem, que amam. Que estão vivas. Elas não estão sozinhas e convivem com a cidade (nem sempre de uma forma saudável) esburacada, pouco cuidada, guiada por gente sem escrúpulos, políticos de algibeira que fingem gostar dela para serem eleitos. Portugal também é assim, a braços com uma crise profunda, que não é só económica, mas que navega à vista da corrupção e da vigarice. Lembramo-nos da História de Portugal e de Lisboa e a autora atira-nos com ela à cara ao ponto de sentirmos algum incómodo. As personagens continuam a viver e a tentar sobreviver, envoltos numa culpa nem sempre assumida. Com quem amam e com o país, a que tentam sempre fugir. Derivam para Londres, Estocolmo, Berlim, mas os encontros definitivos dão-se cá. Em Lisboa. Nas últimas páginas de A Cidade de Ulisses, Rui, a personagem central organiza uma exposição no CAM que vai partilhar, com esse mesmo nome, com Cecília que já não se encontra entre nós. Provavelmente à espera da decisão de uma qualquer Penélope. Muito bom, este livro.

segunda-feira, abril 02, 2012

A ler Primo Levi, Se Isto é um Homem

 
Numa época em que prolifera a «marca» hitler e se banaliza o mal, a leitura ou releitura de Se isto é um Homem é importante. Para lá da abjeção que nos provoca a vivência quotidiana em Auschwitz e Birkenau (lá perto, de onde se via o fumo negro da sua chaminé!) que reduz a humanidade a uma sobrevivência infame e a uma relação de poder violenta entre os próprios homens-escravos, condição que o campo de concentração os obrigou a assumir, impele-me a pensar que a sociedade em que vivemos não é mais do que a projeção extrema da ideologia por detrás da construção do campo. Ou seja, levada na sua lógica de dominação e exploração até às últimas consequências. Talvez esteja aqui a chave da submissão e do medo da revolta e da descoberta do novo. Só três dias depois do abandono das SS de Auschwitz, perante o avanço russo, é que Primo Levi e os seus companheiros tiveram coragem de sair do arame farpado e tentar iniciar a vida que foi brutalmente interrompida, sem que essa tentativa não impedisse novas mortes. O cinismo de «O Trabalho liberta» aí está com toda a sua força, neste pequeno livro datado exatamente de 1945 e escrito ainda sob a influência da vida no campo e da posterior libertação. Ainda bem que Primo Levi não teve o impulso de o rever mais tarde. A não esquecer, mas não estou assim tão certo disso.

sexta-feira, março 30, 2012

A ler Ernestina, de J. Rentes de Carvalho

«Deus criou o Mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930». Assim começa Ernestina um livro de J. Rentes de Carvalho, editado em 1998 pela Quetzal e que devemos ler com urgência. Conhecia-o, ao autor, mal e sabia-o a viver em Amesterdão tendo lido algumas entrevistas dele. O seu discurso aberto e franco deixou-me de sobreaviso e agora consegui iniciar a leitura da sua obra. Francamente entusiasmou-me e as longas descrições do Porto dos anos 30 e 40, em vez de poderem ser cansativas, são de uma grande beleza. Sentimos o cheiro da Ribeira, do peixe e do carvão, vemos os miúdos ao banho, o Douro com pouca água no verão, o pôr do sol e as calçadas de Gaia que desciam até Afurada. A própria descrição da escola e do liceu levam-nos a um universo de hipocrisia e também das primeiras resistências após 1945, quando Salazar prometeu uma eleiçõs «tão livres quanto à livre Inglaterra». Mas o autor diz-nos francamente que não é de resistências e embora sempre optando pela liberdade, nem que não fosse pela memória de seu avô José Maria republicano e avesso ao padres «quando republicano queria dizer socialista», cedo viu que o portugalinho dos velhos e bons costumes lá continuaria com Salazar. Opta, antes, pelo cinema e pelas leituras de Balzac e Zola, seus companheiros das noites. Pensa-se no Porto do cinema Batalha, do café Palladium, dos bilhares e dos alfarrabistas. Goza-se a descrição da aldeia de Trás-os-Montes para onde ia nos agostos quentes e nos afetos das avós e do Ti Serafim seu avô adotivo. E a descoberta de Ernestina que, com o nome da mãe, o leva a descobrir o amor. Acho importante ser dado nas escolas, mas isso seria outra conversa.

quarta-feira, março 28, 2012

Lágrimas de Chuva, de Rosa Montero


Livro que foi uma desilusão, em contraponto com a enorme promoção que Rosa Montero tem tido em Portugal. Nada tinha lido dela, mas aventurei-me à leitura este Lágrimas de Chuva, uma eventual continuação de Blade Runner de Ridley Sott, adaptação ao cinema do livro de Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick. De continuação da saga nada existe, a não ser uma contínua passagem mais ou menos rápida e muito ligeira de algumas referência avulsas a Blade Runner e de personagens muito mal construídas. Bruna Husky é uma androide que não chegamos a conhecer bem por preguiça da autora que não nos dá uma personalidade sólida com que nos identifiquemos e conheçamos os seus desejos, nem sequer nas suas «memórias» falsas, dadas por um memorista que seriam os novos escritores contratados por empresas. Que vendem essas mesmas memórias adulteradas. O recurso ao mantra de Bruna, quando se lembra do desconto dos dias da sua vida limitada também é uma forma extremamente cansativa de nos relembrar que a andróide tem quatro anos de vida. A sua relação com Paul Lizard fica muito aquém do que se poderia esperar, em recursos literários, entre um humano criado por uma androide e por Bruna, uma robô criada por humanos. As descrições da cidade de Madrid em 2109 poderiam ser mais ricas e mais imaginativas, assim como a trama política completamente falha em verosimilhança.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Livros, muitos livros...


Todos os  pretextos são bons para oferecer livros.... E o Natal é um pretexto como outro qualquer....
Temos livros para todos os leitores....
Para os mais novos - O Aquário (4.ª ed.); As Vozes do Alfabeto, O Conto da Travessa das Musas.
Para adolescentes recomendamos o Perigo Vegetal, de Rámon Caride e Miguel Anxo Prado.

Depois, temos coisas Aqui da Terra de Miguel Carvalho, Tentações do Pedro Eiras, A Peste Bubónica no Porto, de Ricardo Jorge, A Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra, de Santiago López-Tetit; Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho;  Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, Chega de Fado, de Paulo Kellerman... entre muitos outros

Peça a deriva@derivaeditores.pt  que nós enviamos em embalagem discreta e oferecemos os portes de envio.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Myra de Maria Velho da Costa ganhou o Prémio Correntes d'Escritas 2010

Foi Myra, de Maria Velho da Costa e editado pela Assírio que ganhou o Prémio Correntes d'Escritas deste ano. Nas nossas cadeiras, ao receber a notícia, pensava-se igualmente em Sala Magenta, de Mário de Carvalho, mas o sentimento geral foi de satisfação. Parabéns à autora.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Se Fosse Um Intervalo, de Ana Luísa Amaral. Por Paula Cruz

Entre o mundo
e comum: a sílaba fechada
nesse acerto que é centro
Ana Luísa Amaral

As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus...
Fernando Pessoa, Marinheiro

Se fosse um intervalo é um texto nos bastidores da escrita: um capturar do instante da materialização do imaginado, é um estar “entre” (cf. Deleuze): é o exacto momento em que, não interrompemos o fluxo do texto, mas nos inserimos nessa onda preexistente.
De todos os livros de Ana Luísa Amaral – e em todos há uma forte componente reflexiva e metapoética – este é, porventura, aquele onde se procura com, mais veemência, o ponto de ebulição do acto da escrita – o momento em que o sonhado, o imaginado, o efabulado passa ao papel:

Enquanto é só razão, sei que consigo
Salvaguardar-me lúcida e pensada.
Mas mal te tento reorganizar
Numa memória nova ou recriada,
Retorno ao ponto zero em que me estás
(Amaral, 2009:19)

Não se trata de encontrar o ponto de origem da escrita, mas o momento em que o raciocinado passa a escrito. E o resultado – independentemente do esforço, da resistência, da alavanca – conta sempre com o génio: ficará sempre aquém ou além, nunca será o sonhado.
No princípio, mesmo antes do corpo do texto, mesmo antes de começar, temos a oficina do poeta, em pensado abandono:

mãos cruzadas, luz diagonante,
pus de lado papéis e
preparei-me

E eis que “em vez de verbo pela mão: / um verso.” (pg. 9 ): a poesia irrompe, mesmo quando o apetecido é outro, mesmo quando o que se procura é a ficção (como se a poesia o não fosse: “"Dentro do avião, agora: um tempo escuro: / as janelas sem tempo devagar, /e o meu conforto: leve tabuada,/ essa que rejeitei, em verso, à minha filha,/ só útil para o verso" (pg. 49)”:

esquecendo um dia os braços, procurei dar-te um nome, inventei nome falso mas real de ficção, cheguei mesmo à loucura (desabri¬da) do esquema para a história. estava tudo no esquema, o central é que não. e rasguei esquema e nome, que tu não respondias ao nome que inventara para ti. e como um sino falso de metal quebrado eram os nomes que suces¬siva¬mente te fui dando. (pg. 11)

A voz do texto assume o obstáculo, as resistências da escrita: a impossibilidade de sair do esquema já traçado e saltar para a história. É o texto em prosa a querer escrever-se e a poesia a surgir entre ele, a entremeá-lo, a intervalá-lo. E surge então o verso, um eco de uma narrativa que se pressente, mas que ainda não se consegue dizer. Assim, entre prosa e verso surge uma tensão, um jogo de reflexos, necessariamente, imperfeitos e incompletos: textos que são duplos, falsos de outros textos, de outras verdades. Duplos como o sinal que se vê ao espelho: “o lado avesso a Deus” (pg 25).
Os textos em prosa que intervalam os textos em verso – e aqui seguimos a lição de Irene Lisboa : "Ao que vos parecer verso chamai verso e ao resto chamai prosa" - reflectem entre si uma tensão entre a vigília (a prosa?) – e a semi-vigília (a poesia?), um desejo de “suspender o amor e suspender // o verso assim, tão pessoanamente, /oblíquo e masculino de fingir.”, porque não há razão pura ou emoção pura, há, no intervalo, também “uma chuva pequena e muito rente / à visão que se estende docemente / em direcção a mares e a porvires.” (pg.51)

Nestes versos, nestes textos, nas dobras dos textos há recantos, há recados, há segredos, há luzes e sombras. E é em cada prega, em cada luz, em cada brilho diagonal que a resistência acontece. Antes do par, antes do coração habitado, do fogo aceso, há um tempo de solidão, de afastamento, de pragmatismo, de rede - “Se o navio se debruça / em demasia,/ lá se vai horizonte / pré-quinhentos” (pg. 32), “em vez de rosas, pão” (pg.37) ou “o pesadelo / que os sonhos têm sempre” (pg. 46)
Este livro, numa estética que já vêm desde Entre Dois Rios e Outras Noites (2007), propõe um trabalho nos interstícios do dizer. No entanto, agora, há uma segunda voz que ganha espessura. Uma espécie de consciência que a intervalos irrompe no texto, uma voz que se quer afirmar. Uma voz que testa as margens: “este rio engrossou e ameaça transbordar as margens.” (pg.18) do poético, do dramático e do narrativo.
No intervalo do livro, surge o texto dramático, discrepâncias (a duas vozes), que trazem à memória quer Marinheiro, o drama estático pessoano, como o Antes de Começar, de Almada Negreiros, onde dois bonecos se descobrem o coração
Não há uma voz única: há uma multiplicidade de vozes. Nada de extraordinário na poeta, que já em a Génese do Amor convocava outras vozes para o texto (Natércia, Catarina, Beatriz, Laura, Dante, Petrarca, Camões). No entanto aqui, o jogo de vozes, de olhares, de perspectivas é levado mais longe: há vozes que interferem no próprio texto. Há vozes que “intervalam” o texto e o discutem no próprio acto de criação:
E a personagem? O elemento humano? É interessante começar assim. Mas bastaria o quadro na cozinha. Depois disso, a memória alimenta-se de gente: quem lá vivia, como era, o seu nome (inven¬tado, claro). Descreve. Concentra a narrativa nesse corpo. Fá-lo entrar na cozinha, passar à sala onde as cadeiras lembravam Came¬lot, deter-se no espelho grande, bem urdido nesse canto, atraves¬sar a ausência de portas. Veste por dentro a personagem. E esquece a dis¬sonância. (pg. 55)

A Voz 2 – “função de alerta” pg.62 - assume-se como um coro trágico, um espaço de contraditório onde o texto discute com o texto, a sombra (ou a luz), o avesso, o bastidor. E esta Voz 2 não poderá ser a do leitor: “E a escrita é assim mesmo: o que tu sabes, eu sei também. O que não sabes, se me apetecer, in¬vento-o.” (pg. 56) ou a voz do autor quando transmudado em leitor de si mesmo?
Ana Luísa Amaral trabalha nas margens genológicas, dissolvendo os géneros como uma espuma. É um trabalho no intervalo, uma “dissonância de vozes” (pg. 62).
Um dos mais interessantes contos de Mário de Carvalho, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, começa assim:
O grande Homero às vezes dormitava, garante Horácio. Outros poetas dão-se a uma sesta, de vez em quando, com prejuízo da toada e da eloquência do discurso. Mas, infelizmente, não são apenas os poetas que se deixam dormitar.Os deuses também. Assim aconteceu uma vez a Clio, musa da História que, enfadada da imensa tapeçaria milenária a seu cargo...."
A desatenção divina, que leva Clio a entregar-se nos braços de Morfeu, deixa que os tempos por momentos de toquem. É nesta fantasia que leio Se fosse um intervalo: entre géneros, entre son(h)os, uma chuva de “luminosas partículas de pó” (pg. 86) que se tocam, mas não se confundem. E a nossa Clio, aqui a voz autoral, deixa que aconteçam milagres:
Podem acontecer, e então a música
decerto estará lá,
que gira em torno de eixo feito de outra luz.
Poderia ser Deus, ou paz.
Sentir. E de repente o mundo a acontecer,"” –
(pg. 96)

sábado, outubro 31, 2009

Dois Anos a Ferver é tempo demais.


O Pedro Ferreira, do movimento FERVE, entregou-me um livro excepcional. Porque excepcional deveria ser a causa que o move mas, infelizmente neste país, não é. Os recibos verdes vieram para ficar até que a (im)paciência nos faça soltar a indignação e os obriguemos a mudar a lei.
O Fartos d'Estes Recibos Verdes talvez seja o movimento mais genuinamente inovador que nos últimos anos apareceram na vida política comum (sim, ainda a há) e aquele que mais simpatia gerou por profissionais que lutam por uma dignidade laboral que a luta sindical (algo anquilosada hoje) chutou para canto. Para nós foi uma agradável surpresa ver Carvalho da Silva apresentar este livro e, segundo sei, a participar nalgumas iniciativas do movimento. Dado impressionante e que retrata bem o país: neste momento, o livro aponta para 900 mil as pessoas que estão a sobreviver pelos recibos verdes. Mais de 30% da população activa, segundo as minhas contas. Chegamos rapidamente aos 2 milhões de precários se pensarmos na «flexibilidade» com que nosso código laboral trata a maioria dos trabalhadores.
Para além de Carvalho da Silva, temos a colaboração de Ana Maria Duarte, Alexandra Figueira, Catarina Falcão, Chico, Cristina Andrade, Gémeo Luís, Henrique Borges, Isabel Lhano, João Alves, José Soeiro, Luís Silva, Luísa Moreira, Marta Calejo, Paulo Anciães Monteiro, Regina Guimarães, Rui Vitorino dos Santos, Sandra Monteiro, São José Almeida, Sofia Alexandre Cruz, Tiago Gillot, valter hugo mãe e Vitalina Samuilova.
O blogue do FERVE pode consultar-se aqui

sexta-feira, setembro 11, 2009

Que têm os fueguinos de mal?

Alguns fueguinos
Tenho pensado muito nisto. Não há ninguém que simpatize com eles? Os fueguinos, ao que me dizem, foram extintos, dizimados. Hoje, não existe nenhum, mas isso não impede o comum dos mortais, e mesmo de alguns dos imortais que foram eleitos pela ciência, de os escalpelizar com impropérios e maledicências que a antropologia já desconsiderou há muito. Além disso é feio dizer-se mal de quem já cá não está para se defender, não é? Outra das razões que me incomoda neste caso.

Tive ocasião, desde Junho deste ano, de ler os seguintes livros seguidos: Magalhães de Stephan Zweig, A Viagem do Beagle de Charles Darwin, As Aventura de Gordon Pym de Nantucket de Edgar Allan Poe e, por fim, reli Navegador Solitário de Joshua Slocum. Pois o que os une? O ódio visceral ao fueguinos, os antigos habitantes da Terra do Fogo! Não vou falar sequer de Slocum cuja arte de boa navegação à vela é inversamente proporcional ao seu carácter cívico: o tipo é um racista do piorio, tendo inclusive matado dois deles a tiro (isto em 1885!) e não ter mostrado o mínimo arrependimento! Eram fueguinos, pois... Allan Poe deveria estar com febre quando escreve sobre eles na parte final do livro em que Arthur sobrevive na Terra do Fogo e os seus habitantes (iguaizinhos aos fueguinos, pois então) são portadores de um carácter cobarde, vil e dissimulado que os faz resistir a... tiro, claro, para poderem sair da ilha incólumes e não serem comidos por estes. Por acaso, no mesmo romance, para quem está lembrado, Arthur sobrevive por que come literalmente um seu companheiro (tirado à sorte) num naufrágio, mas não era fueguino... pelo que estará desculpado!

Magalhães é o mais antigo de todos, reconheçamo-lo, mas mesmo assim por causa de um erro de navegação e de cálculo básico sobre o período invernoso naquelas paragens do sul, teve de ancorar na Terra do Fogo durante uns dois ou três meses, chamando-lhe Puerto de la Hambre e dando instruções claras à sua tripulação (isto sempre segundo Zweig) de não maltratar os seus habitantes que não largavam as naus. Claro que tiveram de matar alguns porque se estavam a aproximar demais dos barcos. Chatices... que não o impediram de abandonar à sua sorte dois nobres que conspiravam contra ele naquelas agradáveis paragens e junto a uma população assumidamente canibal. Claro que nunca mais se teve notícias dos dois desgraçados, mas era para ter? Poderíamos dizer que o canibalismo não colhe muita simpatia aqui pelo ocidente, mas os maoris também o eram e nem por isso deixámos de gostar deles, das suas tatuagens e imitarmo-los nas suas danças guerreiras nos desafios de raguebi. Aos fueguinos ninguém imita nada!

Todos este livros citam os fueguinos
Vou deixar para o fim Darwin, cuja simpatia por ele não escondo. Cinco anos esteve aquele cientista por todas as paragens que se pode imaginar contando histórias incríveis do Beagle (cuja vida a bordo não descreve muito), tendo embirrado abundantemente com duas regiões: o Brasil, mais os seus habitantes que chamava de brutos e esclavagistas, e isto no século XIX não esqueçamos, e quem mais?, com A Terra do Fogo!
Fala dos seus habitantes de um modo que custa a ouvir a um cientista daquela craveira, mas ele não se inibe: diz que são sujos, de feições monstruosas, lábios carnudos, cabelos desgrenhados, unhas sujas e compridas, parcamente vestidos, sem moral, cobardes, violentos para com as suas mulheres e crianças, canibais... ainda por cima das mais idosas que eles sufocavam no fumo das fogueiras e que se refastelavam com partes do seu corpo nas ocasiões de fome. Parece-me que foi o que mais agradável que Darwin disse deles - que comiam os seus anciãos, mas em ocasiões de penúria alimentar, estilo «pá, desculpa lá qualquer coisinha..mas tenho uma larica do caraças.. 'tás a ver aquela fogueira? Olha vem daí comigo...»
Pelos vistos Darwin só gostou dos bicos dos tentilhões, dos gaúchos argentinos (mais do que dos guachos chilenos, diga-se) dos lacraus da Tasmânia e dos dragões de Comodo. O que têm os fueguinos de tão mau? Fora isso, o que me traz ensimesmado com a sorte dos habitantes da Terra do Fogo, os livros são de ler e reler (Relógio de Água e Assírio & Alvim). Quanto a Slocum, se não gostar de vela não perde nada... (este é da Europa-América). O tipo diz mal de tudo e todos, menos dos anglo-saxónicos, só fala de si, e não lhe perdoo ter inventado uma tentativa de corrupção nos Açores que nunca aconteceu e não saber fazer contas: Então, ò Slocum, o Vasco da Gama partiu para a Índia no ano seguinte à viagem de Bartolomeu Dias? Bastava ir a uma enciclopédia americana...mediana.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Tempos Interessantes, de Eric Hobsbawm

Ainda hoje Hobsbawm é considerado «matéria reservada» para o MI5

Tempos Interessantes de Eric Hobsbawm é um daqueles livros que não se pode ler (nem deve ler-se) de um só fôlego, mesmo que a tentação seja grande pelas situações descritas e opiniões sustentadas de pessoas e factos que este historiador tão bem faz e refere. Deve ler-se devagar.
Hobsbawm é comunista. Mas não nos iludamos: depois de perto de 50 anos de militância política que atravessou os eventos mais trágicos de quase todo o século XX, vê-se sem o Partido Comunista Britânico que sossobrou (ou implodiu) na crise de 89 e anos seguintes. O que resta dele, hoje, é um arremedo estalinista que tenta sobreviver a todo o custo sem que se perceba bem o seu projecto ou se vislumbre sequer uma base social de apoio que o levou a ser um dos principais partidos comunistas do ocidente. Hobsbawm nunca saiu do PC ou dele foi expulso, quando até teriam razões para o fazer; basta dizer que foi contra (e escreveu-o publicamente ao contrário do que dele disse Judt) a repressão húngara de 1956 e da invasão da Checoslováquia, em 1968. Apoiou alguns julgados nas purgas soviéticas dos anos 50 e questionou o papel de Estaline, assim como as diatribes de Kruchev já sem força para a Crise dos Mísseis que tentou manter com Kennedy. Esteve com Che Guevara de que não recorda grandes rasgos intelectuais e tem a coragem de o dizer na ocasião, prevendo, infelizmente com razão, o desastre boliviano e, já antes, congolês.
Mas Hobsbawm é também ele o militante judeu (sem dar grande relevo a isso) que, em Berlim assiste e luta nas ruas contra a ascensão de Hitler e das suas SA e SS. Que se opõe ao Anchluss austríaco e permanece em Viena, quando os primeiros judeus são deportados para os campos de trabalho na Polónia, onde aliás já contavam com amigos seus comunistas e social-democratas que os inauguraram. Como ele lembra, aliás.
É, portanto, um daqueles militantes comunistas de segunda e terceira geração, dos anos 30, que marcam toda uma época de luta e de utopias várias e que nós fomos, de uma maneira ou de outra, seus herdeiros. Que tiveram de gerir, mais tarde, o pacto germano-soviético e organizar a resistência à vertigem totalitária em que a Europa mergulhava. Tudo isto ele nos conta, sem um esgar de raiva ou de arrependimento. É honesto nos seus pressupostos de profunda mudança social que sempre o norteou. Mas é principalmente honesto para com a História e para com Cambridge, universidade que o acolheu e que o protegeu, mesmo depois das perseguições que estes intelectuais sofreram na pele nos anos da guerra-fria. Percebe-se que gosta da «sua» universidade e só assim se compreende a sua ligação com os «Apóstolos» de Cambridge e que tenha sobrevivido mesmo depois do «caso Kirby» de que ele, aliás, nada tinha a ver. Os espiões não devem gostar de intelectuais...
Hobsbawm lembra-se dos anos 60, o que faz dele um não pertencente a esta geração, diz ele, não sem uma certa ironia. Não gostava de ácido ou de drogas e nunca usou jeans. Gostava de jazz (foi crítico em revistas) e abominava o rock que ele acusava de imitar a música negra, embora simpatizasse com os Beatles.
Viveu a recuperação liberal de Reagan e Tatcher e soube juntar a esquerda que então passava períodos graves de dissolução. Continuava a não gostar da experiência cubana e a detestar o terrorismo que nasceu dos anos de chumbo. Já não dizia nada da URSS dos anos 70 - porque não havia nada a dizer sobre este país que comprometia mais do que produzia entusiasmo. Não gostou de lá ter estado. Nunca compreendeu a leveza e a falta de objectividade revolucionárias dos «soixante-huitards». Mas coloca os situacionistas como dos mais influentes movimentos revolucionários que apareceram nesta época. Não deixa de ser estranho que todos os seus livros de História, alguns tão importantes como A Era dos Extremos, A Era dos Impérios ou a Era das Revoluções, nunca tenham sido editados nos países do «socialismo real».
Hobsbawm tem razão, mesmo quando se engana.

quarta-feira, agosto 26, 2009

O Século XX Esquecido, Lugares e Memórias, de Tony Judt

Tony Judt perpassa todo o século XX de um modo literalmente arrasador. O pior século de que há memória em termos de mortes e catástrofes humanas. Aceita Albert Camus e Hanna Arendt como filósofos honestos (embora ostracizados) e que viram onde estava o gérmen do terror e do mal. Bate em Sartre e Beauvoir e, cá para nós, muito bem. Defende (exageradamente?) Arthur Koestler e Manés Sperber. Desdenha de Althusser. Aponta, displicente, Antoine Compagnon. Condescende com Eric Hobsbawm (ainda bem) e Edward Said. Explica-nos melhor o suicídio de Primo Levi. Ataca Israel de hoje (ele que esteve na fundação de um Kibutz, logo em 1948) e é feroz para com Reagan e Tatcher. Ridiculariza Blair e a Terceira Via (terá Sócrates lido este livro?), assim como o socialismo que renega o papel regulador do Estado. No entanto, é liberal e aqui o problema torna-se insolúvel. Perante a negação de Marx, pelo menos o de um certo Marx, as alternativas que apresenta sossobram ainda. Não basta um estado regulador e interventivo à boa maneira do New Deal. Para esse peditório já demos nos anos 30. Hoje a humanidade defronta-se com problemas mais sérios e Tony Judt deixa tudo em aberto. Mais do que interpretar, podia, ao menos, ter a vontade de transformar... mas isso é marxista. De qualquer maneira, O Século XX Esquecido - Lugares e Memórias, é um livro indispensável para quem quiser lê-lo abertamente, sem preconceitos. Quem o publica é as Edições 70 e a tradução é de Marcelo Felix.

segunda-feira, junho 01, 2009

Algumas sugestões presentes na Feira do Livro do Porto

O Mundo Sólido de João Paulo Sousa

Um Punhado de Terra, de Pedro Eiras

A Inexistência de Eva, de Filipa Leal

A Intoxicação Linguística de Vicente Romano

Estudo Histórico sobre a Campanha do marechal Soult em Portugal, de A. P. Taveira (1898)
No Pavilhão dos Pequenos Editores, junto à estátua de D. Pedro IV.