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quarta-feira, dezembro 29, 2021

«Suicidas», de Henrique Manuel Bento Fialho

 

Foto: Gazeta das Caldas
Paul Celan

(...)
Sei há muito o peso da rotina. Ando encafuado no tráfego e nem a rádio sintonizada numa cassete meticulosa me salva, ando sem esperança a passar os dias, a enchê-los de um pouco, vá lá, de conforto possível, ando, isso mesmo, num andar por andar até que se formem calos na base dos pés e a dor se torne insuportável, ando, isso mesmo, a certificar-me de que os parques públicos respeitem as regras necessárias para que os filhos possam continuar a sorrir e que os rios ainda têm água onde um dia possamos mergulhar. Agora diz-me, que a vida é menos vida do que esta? Uma rotina consciente de si. Por isso, para o próximo Natal peço um ramo de tulipas a desfazer-me as paredes do corpo. Deixa os escorpiões sossegarem no deserto. Mete as tulipas a dançar ao som de um leão em coma. Sem pressa, por favor. Sem pressa. Com o andar vagaroso dos aborígenes.

Henrique Manuel Bento Fialho, «Suicidas», Deriva Editores, 2013, ''Paul Celan'', pág. 81


segunda-feira, fevereiro 03, 2014

De «Suicidas»: Jack London, de Henrique Manuel Bento Fialho



JACK LONDON


Vou falar-te de excessos. Já estive à beira da morte. Pensando no assunto, estamos cada segundo das nossas vidas à beira da morte. A vida é um excesso, o meu nome é excessivo, eu acredito que não acredito em nada, a minha boca é excessiva. Vou contar-te do excesso. Vou contar-te de um corpo pendurado a seis passos do chão, a balouçar como se fosse um ponteiro de um relógio danificado, e o tempo a passar pelos músculos rasgados de tanta força fazerem para trazerem de novo à tona o corpo pendular. Vou contar-te da jóia negra que um dia comi sem sabê-la contaminada. Nunca fiz o teste, receei o resultado. Vou contar-te de uma coisa parecida com um corpo humano a saltar de um veículo em andamento, numa estrada atlântica ladeada de canaviais onde tantas vezes procurei esconder-me das luas cheias que me açoitavam as hormonas. Vou falar-te de uma orgia a céu aberto, com dois corpos rebolando-se sobre as brasas extintas de uma fogueira apagada, e de como cada um desses corpos ao rebolar-se daquela maneira deixou escrito a carvão, na pele que trazemos sobre a nossa própria pele, o quanto era importante activar todas as glândulas num único sentido: o do excesso que nos faz sentir vivos nem que seja por brevíssimos e esplendorosos e absolutamente únicos instantes. Vou falar-te de uma salada de maconha, respiração boca a boca em pleno deserto, com o mundo inteiro a transformar-se numa miragem. Quando morreres, que te prestem contas pelo que não fizeste. Que a vida te seja proveitosa no céu. A vida é um alvo ao alcance da mira excessiva, a vida é a bala em trânsito. Às vezes compro caixas de lua cheia e devoro-as num segundo, só para sentir o açúcar a embebedar-me o sal do sangue; sempre que bebo, bebo predispondo-me para a bebedeira com que um dia levantei ao ar um caixote do lixo com nome de mulher. Tinha um nome complexo. A revolução acabou de começar, mas é já a história a repetir-se. Isso mesmo, a revolução acabou de começar, mas é só a história a repetir-se. Toma lá um bafo, leva-o bem ao fundo dos pulmões, encolhe a respiração, explode de alegria e, faz-me esse favor, não lhe chames artificial. No fundo, é apenas a chama do riso a ser ateada. E nos meus pulmões o ar dos teus pulmões refazendo, como se diz, toda a perspectiva do mundo. Os meus olhos vêem-te por todo o lado sob todas as formas. E eu mudo-te o nome a cada instante. És igualzinha a um banho de sol em delírio, a uma guitarra distorcendo as ancas que dançam e pulam e giram e se abanam como se quisessem espanar do ar as poeiras que o vento traz. De onde traz o vento todas estas poeiras? Não quero saber. Já preparei a mochila, em breve seguirei por aí à procura de um rumo para os estilhaços espalhados pelo chão. Estou no ir. Há algo no ar que o vento traz, estou no ir. Todas as evidências enterradas, um passado inteiro atirado para a berma da estrada, estou no ir, uma ossada ganhando músculos, desabrochando, os nervos crescendo no corpo como uma flor na terra, sementes de pele rebentando sobre a carne viva, desnascer só pode ser isto, estar no ir, e eu estou a chover dentro de mim próprio para que alguma coisa nova nasça, estou a fecundar as terras do meu corpo para que alguma coisa nele brote, alguma coisa que se possa cultivar sem os cuidados exigidos das hortas lavradas, alguma coisa selvagem, um silvado carregado de amoras, um silvado excessivo onde alguém um dia mergulhará cada um dos seus anseios para de lá sair com o corpo cravado de espinhos, estou a flectir as pálpebras, a revirar os olhos para melhor observar o que dentro me vai impedindo de estar em sintonia com o que está fora, estou no ir. Para os teus banhos de sol, uma das minhas caixas de lua cheia. Podes ficar com a poesia.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Diálogo construído numa grande superfície à sua beira ou de como não se compra Suicidas

- Boa tarde. Tem Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho?
- Um momento. Vou ver aqui no computador. Hmmm...hmmm....
- Sim?
- Temos. Está aqui registado Suicidas, sim senhor! Só há um.
- Ok. Obrigado. Onde? Não o vejo na estante da poesia, nem na dos autores portugueses.
- Só há um, mas no Algarve!
- Desculpe? (admiração e espanto)
- O que temos aqui registado é que só temos um exemplar, mas numa livraria do Algarve. (mostra enfado)
- Mas estamos no Porto, carago! (alguma irritação)
- Posso pedir (revira os olhos em círculo) para lá. Leva 5 a 8 dias! (olha para longe, sem fitar ninguém em particular)
- Ao menos em Lisboa. Não há lá nenhum. Pelas contas demoraria 2 a 3 dias! (produz-se um sorriso amarelo)
- É o que temos. (como quem está a falar com um atrasadão)

sábado, novembro 09, 2013

As escolhas do poeta Rui Almeida, hoje, no Expresso


Gostamos das todas as escolhas de Rui Almeida, um poeta que muito respeitamos, mas enche-nos particularmente de orgulho as que nos são dirigidas quando referiu Compositores do Período Barroco de José Ricardo Nunes e Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho. Hoje, no Expresso.



segunda-feira, setembro 23, 2013

Ana Teresa Pereira e o elogio de José Tolentino Mendonça

Foto de José Miguel Rodrigues

Há algo de muito justo e nobre no último artigo de José Tolentino Mendonça na Revista do Expresso desta semana, quando se refere a Ana Teresa Pereira como «uma das mais extraordinárias escritoras (que) continua a ser uma perfeita desconhecida». Assim é. Pessoalmente, nunca compreendi este silêncio à volta da autora, mesmo depois de ter ganho o Grande Prémio de Romance e Novela da APE de 2012. Mas deparo-me, mesmo assim, com outro mistério: é que já não é o primeiro prémio, nem o segundo, nem sequer o terceiro que ganha. Tem perto de trinta livros publicados e conheço-a desde os anos 80 fidelizando um público entre o qual me incluo, desde a célebre colecção da Caminho policial. Avanço outras hipóteses: Ana Teresa Pereira tem uma escrita gótica, nada fácil, rebuscada e muito centrada nas teias do corpo e do invisível, das emoções. Mas não me fio que seja isso, porque há quem escreva mal e tenha a distinta lata de pensar que o faz e ainda por cima seja reconhecido. Avento mais uma: viver na Madeira, com as tais insularidades que se pagam caro, no afastamento dos círculos literários do continente. Mas não, não pode ser isso, porque há vários exemplos que o negam. E, paulatinamente, vejo-me na contingência de dar razão a Paulo Kellerman, outro escritor premiado com um APE e a Henrique Manuel Bento Fialho que já escreveu sobre isso. É possível que este «esquecimento» tenha a ver com a escolha pelo conto que Ana Teresa Pereira realizou e, ainda por cima, com uma grande qualidade literária. E tenho receio que tenha razão o Paulo quando diz que, neste país, o conto é um estilo maldito. Talvez seja, mas existir José Tolentino Mendonça que a fez lembrar dá-me outro alento e pensar que ainda há justiça por cá.

terça-feira, agosto 27, 2013

Antero de Quental, em «Suicidas», de Henrique Manuel Bento Fialho

Enquanto se espera pacientemente que acabe a silly season e recomece o trabalho de distribuição e, com ele, a presença de Suicidas nas livrarias, abrimos a vossa curiosidade com «Antero de Quental», prosa poética de Henrique Manuel Bento Fialho criado com base nesta figura incomparável da política e literatura portuguesas.

ANTERO DE QUENTAL

   Nascidos em território já conquistado, terão pela frente a árdua tarefa da preservação. O dever da preservação é problemático, sobretudo quando nos vimos obrigados a preservar algo que não foi por nós conquistado e não seria nossa vontade deter caso nos tivesse sido oferecida a oportunidade de escolher entre o território que nos colocaram nas mãos e outro algures à mercê da nossa vontade. O ímpeto expansionista de um animal domesticado está demarcado, à partida, pelas paredes, pelos muros, pelas vedações, pelas fronteiras, físicas ou psicológicas, que vão sendo erguidas, ao longo da vida, em torno dos seus desejos, das suas eventuais ambições, da sua mais íntima fome. Por isso, sempre que pode, o animal doméstico entretém-se a desenhar cidades invisíveis no prato que lhe trazem à mesa, molda com os dedos o puré de batata, transformando-o no rosto que o acompanha em sonhos, desenha com a ponta do garfo, no molho da carne, os contornos dos vales onde imagina pertencer a sua volúvel identidade.
   O animal doméstico não se sacia migrando do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a garagem, desta para o sótão, mas poder caminhar nesse labirinto de tijolo e cimento, adornado com estantes, retratos, resquícios do tempo observados como uma fenda abrindo-se na palidez do rosto, poder andar para ali, curvado, de um lado para o outro, arrastando o seu desânimo, a sua desesperança, a sua melancolia, a modorra dos dias, pelos mosaicos, pelos tapetes, pelas carpetes semanalmente aspiradas, poder rastejar sobre o soalho afagado e ladrilhado é para ele uma inominável aventura.
   Olhem para o animal doméstico, ainda agora chegado ao espelho mal iluminado da casa de banho, aparando a barba, lavando os dentes amarelecidos, bocejando o sono mal dormido, olhem para ele a enfiar-se na banheira como se os azulejos fossem a vegetação que ilumina as cachoeiras onde nunca lavou o corpo. Olhem-no a ensaboar o tempo, afastando da pele a poluição que trouxe consigo da travessia do deserto. Ai o deserto, o deserto, essas cidades iluminadas pelo fogo das chaminés industriais, movidas a turbinas de aço, atravessadas pela velocidade distorcida dos veículos.
   E um homem afasta-se e sente o silêncio a cair sobre o ruído, sente o ruído a ficar para trás e experimenta a rara e furtiva sensação de conforto que nenhuma poesia oferece, porque toda a poesia, mesmo quando se aproxima do silêncio, resulta de uma interrupção, de um conceito que arrasa a ordem natural e extra-moral do espaço, impondo-lhe os seus fantasmas, os seus edifícios, as suas construções, a sua arquitectura.
   Ainda assim, para o animal doméstico, essa poesia é a ilha deserta onde ele naufragou voluntariamente. Ainda assim, essa poesia é a piroga que o levará na corrente de rios imaginários até às cachoeiras onde nunca lavou o corpo. Porque o seu corpo é já tão-somente uma hélice, um motor, um instrumento ao serviço da domesticação de que o próprio é vítima.

   Ó belo e estranho ser, teus pés não se afundaram no cimento, teus músculos ainda não oxidaram, os teus ossos têm nervo. Desse nervo, poderás, quem sabe, levantar-te da jardinagem paisagística à selvática e caótica beleza das gavinhas, poderás, quem sabe, prescindir dos museus que te oferecem o mundo em segunda mão e, quem sabe, chegar à primeira mão do mundo, para que daqui a, esperemos, muitos anos, possam final e irremediavelmente domesticar-te na geometria fria dos cemitérios.

sábado, julho 27, 2013

Apresentação de Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho. Um apelo à vida

Pela ordem da esquerda para a direita: Henrique Fialho, o editor apresentando-o e José Ricardo Nunes

Um aspecto da assistência na Casa dos Barcos, no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. Casa cheíssima, perto do lago onde, segundo Luiz Pacheco, desapareciam criancinhas, como muito bem lembrou o Henrique

O livro esperando a sua aquisição que pode ser efectivada nas livrarias muito em breve

Ao lado de Suicidas, o último livro de Henrique Manuel Bento Fialho na Deriva, o Estranhas Criaturas

O Henrique no uso da palavra. O apelo à vida através do curso da insatisfação, da incomodidade, do inconformismo. Um apelo sincero à liberdade e a uma outra vida.

quinta-feira, julho 25, 2013

Já amanhã: Suicidas no Parque D. Carlos I, em Caldas da Rainha. às 21:30

É nesta Casa dos Barcos que sexta feira, dia 26, pelas 21:30, Henrique Manuel Bento Fialho apresentará o seu último livro, SUICIDAS. Consigo e falando sobre o livro estará igualmente José Ricardo Nunes. 

segunda-feira, julho 15, 2013

sábado, julho 13, 2013

Apresentação de Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho, nas Caldas da Rainha, dia 26, 21:00



Tantos milhares de anos passados, tantas histórias, guerras, revoluções, tantos rostos registados e tantos mais esquecidos, tantas batalhas, tantas conquistas, tantas derrotas, tanta alegria consumida pela tristeza e tanta tristeza momentaneamente devorada por breves alegrias, tanta morte, tanta vida, tanto ser nascido para uma vida à morte resumida, tantos deuses a adornarem-nos o desespero, tanto desassossego, tanto sonho, tanto invento escusado para tanta escusada recriação, tanto, tanto, tanto para virmos dar aqui, a este lugar. O céu existe mesmo? A terra também.

Apresentação na Casa dos Barcos (Parque D. Carlos I)
Caldas da Rainha
Dia 26, 21h
Apresentação de José Ricardo Nunes

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO nasceu em 1974. É licenciado
em Filosofi a, sobrevive como livreiro. Publicou os livros Neoménia
seguido de Outros Exorcismos (1997), Entre o dia e a noite há sempre um
sol que se põe (2000), Antologia do Esquecimento (2003), Estórias Domésticas
& Outros Problemas (2006), O Meu Cinzeiro Azul (2007), Estranhas
Criaturas (2010), A Dança das Feridas (2011) e Rogil (2012). De referir
ainda, em nome individual, a plaquete “Uma Aldeia que não Existe” (2009),
sobre o poeta Ruy Belo, e o n.º 29 dos “Baluerna – Cuadernos del Viajero”
(2008, Espanha). Colaborou no n.º 12 da revista Di Versos com versões
de poemas do chileno Nicanor Parra. Está representado em várias antologias,
tendo prefaciado a “Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa”
(2008), da qual se fez uma edição em árabe no ano de 2010. Colaborou com
as revistas Aullido (Espanha), Big Ode, Sulscrito, Saudade, Callema, Entre
o vivo, o não-vivo e o morto, non nova sed nove, Sítio, Piolho e Golpe d’Asa.
Mantém o weblog Antologia do Esquecimento (http://universosdesfeitosinsonia.
blogspot.pt/), gosta de tocar guitarra com os Ventilan e continua a

faltar às sessões de catequese.

sexta-feira, julho 05, 2013

Novo livro: «Suicidas» de Henrique Manuel Bento Fialho, em entrevista


«Suicidas»! Que livro é este, Henrique? Como te surgiu a ideia de o escreveres?

É um livro de poemas em prosa, na linha do “Estranhas Criaturas” (Deriva, Junho 2010) e do “Estórias Domésticas” (Ovni, 2006). É nesse território que me sinto melhor, embora desde cedo tenha sentido uma forte ambivalência entre a prosa e o verso. A ideia de escrever um livro cujos textos tivessem como “figuras tutelares” escritores que se suicidaram persegue-me há muito. Julgo que me surgiu, pela primeira vez, em 2003, depois de ter lido um texto de Antonin Artaud intitulado “Van Gogh – O Suicidado da Sociedade”. Organizá-lo agora tem que ver, julgo, com o ambiente social que estamos a viver. Por vezes, sinto que este livro é um manifesto contra todos quantos defendem não haver espaço para estados de alma neste momento especialmente crítico. Não havendo espaço para estados de alma, não há espaço para a vida. Fazemos o quê? Eu escrevo, é a minha forma de me matar e ir aguentando. A citação final do Ruy Belo é o axioma que fundamenta a tese.

A Literatura, a poesia e a morte estão assim tão ligadas? São indissociáveis?

Não sei se são indissociáveis, é provável que sim. Sei que estão muito ligadas. O amor e a morte são as balizas de um campo onde a linguagem joga e o texto nasce. A morte é um tema universal, intemporal… mas este livro, embora muito tocado pela ideia da morte, não é sobre a morte. É mais sobre a dificuldade de se estar vivo. Noutro sentido, reflecte uma concepção de escrita que olha para o texto como uma pequena morte. Um pouco de pele que ficou pelo caminho, células mortas em busca do repouso que um dia o esquecimento lhes dará. Para mim a poesia é indissociável da vida. Logo, indissociável da morte.

Já não é o teu primeiro livro. Que expectativas guardas para este?

Espero que tenha leitores. É só isso que espero. Ou talvez espere algo mais. Quando publicámos “Estranhas Criaturas” fui estupidamente acusado pelos editores da revista Criatura de andar a enviar recados. Enfim, espero agora que os escritores evocados neste livro não se ergam do repouso em que se encontram para me atazanarem a cabeça. Não pretendo perturbar os mortos, pelo menos não tanto quanto gostaria de agitar os vivos.

Dá-nos uma ideia para salvar a poesia.

A poesia está em apuros? O Herberto esgotou em dois dias, precisa de ser salvo. A poesia não.

Como vai ser a apresentação do livro?


Vai ser como devia ser sempre a vida: simples. Pedi ao José Ricardo Nunes que apresentasse. Ele aceitou. Estava a tratar de encontrar um café onde nos pudéssemos reunir, em tertúlia, num contexto de proximidade onde os estados de alma tenham lugar. Mas vai ser na Casa dos Barcos no dia 26 de Julho, em pleno parque das Caldas, pelas 21:00

segunda-feira, maio 06, 2013

Henrique Fialho escreveu sobre A Moralidade da Profissão das Letras, de Stevenson



Dar ao público o que ele não quer, mas esperar ser sustentado: temos aí uma estranha pretensão, contudo não invulgar, sobretudo entre os pintores.
Robert Louis Stevenson

Quem se detenha no título deste ensaio, não deixará de se espantar. Primeiro por nele ser admitida uma profissão das letras, depois por pressupor-se nessa profissão uma moralidade. O ensaio data de 1881, os tempos eram outros, mas Robert Louis Stevenson (1850-1894) mantém-se actual. Ainda que o conceito de profissão das letras nos pareça vago, sobretudo num país como o nosso, ele faz sentido onde as letras podem ser tomadas com a seriedade de outros negócios. A urgência de uma moralidade na profissão, que já então suscitava debate, é outra história. Basta ler A Informação, de Martin Amis, para se compreender que também neste negócio, o das letras, a moralidade tem tectos falsos e fronteiras relativas. Mas essa é uma realidade que, apesar de tudo, está distante da nossa, pois por cá o amadorismo e a diletância, no pior e no melhor dos sentidos, vão como que garantindo um certo desprendimento que mantém o negócio em território paralelo. Perdem os autores, explorados até ao tutano das palavras, ganham, quando ganham, os editores, as distribuidoras, os retalhistas (que já nem se resumem a esse sôfrego espaço das livrarias, pois por todo o lado se vêem livros à venda como outrora se viram tremoços). O cenário é apenas similar ao experienciado por Stevenson, pese embora o facto de no que à porcaria diz respeito haver sempre pormenores que nunca mudam. E esses pormenores fazem a diferença. Disto não pode ser abstraída a natureza humana, retratada pelo autor, na sua essência, nessa magistral efabulação intitulada The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. A bipolaridade da personagem tipifica o pensamento de Stevenson nos mais variados temas, não sendo excepção os três ensaios coligidos neste pequeno volume da colecção Pulsar (Deriva, Dezembro de 2012). No primeiro, que dá título ao volume, subentende-se o esforço colocado na defesa de uma literatura rigorosa que não se faça depender, exclusivamente, das ambições lucrativas. Entenda-se aqui o lucro em termos meramente materiais, pois outros há que ultrapassam a configuração salarial. Passam por valores igualmente viciantes como os do reconhecimento, da fama, da promoção académica, da afirmação pessoal, da pura vaidade. Isto torna actualíssimo o principal desejo do autor de An Inland Voyage: «Melhor fora que os nossos templos serenos estivessem vazios do que cheios de padres vendilhões e embusteiros» (p. 17). A expressão “templos serenos” é denotativa do lugar em que Stevenson colocava a sua actividade, olhando para a literatura de um modo que as práticas actuais não se esforçam para desmentir. Stevenson acreditava na função educativa das letras, encarava-o como uma missão, preocupando-se pois em estabelecer uma separação clara entre uma literatura preocupada em instruir e outra meramente ocupada em agradar. Não obstante, admitirá, com laivos de ironia: o fim de toda a arte é agradar e o primeiro dever de um indivíduo é ganhar o seu sustento (cf. p. 40). Note-se que a crítica do entretenimento não deixa de ser curiosa num autor cujos méritos, muitas vezes, não foram elevados a outros patamares. Talvez existisse nesta postura uma necessidade de afirmação, algo que o leva a concluir ser intelectual o primeiro dever de qualquer um que queira escrever. No entanto, essa necessidade é colocada de lado quando critica a parcialidade do jornalismo, reivindica a busca da verdade, preocupa-se em atribuir às letras uma utilidade que será sempre mal paga. E conclui: «Na literatura como na conduta, nunca podemos esperar proceder com correcção exacta. Tudo o que podemos fazer é procurar a máxima certeza; e para isso há apenas uma regra. Nada que possa ser feito devagar deve ser feito à pressa» (p. 28). É esta a ferida que um texto escrito há 130 anos melhor abre, pois exige-nos que pensemos a nossa relação com o tempo e como a mesma determina tudo o que fazemos, mesmo quando o fazemos contra o tempo, indiferentes à utilidade dos ofícios pagos ou à atribuição de um salário. Talvez o acto de escrever, que na Carta a um Jovem Cavalheiro que se Propõe Enveredar pela Carreira das Artes é separado das «profissões rotineiras» e colado à «vocação», se tenha transformado numa espécie de ritual com direito a fazer parte de uma comunidade restrita. O elogio, os encómios, a popularidade (sempre relativa), pagam a jorna. Evocada, ontem como hoje, a cegueira da «grande massa do público», pouco mais nos resta. Robert Louis Stevenson não teve que se queixar senão de uns desgraçados pulmões, o que lhe valeu repouso eterno nas ilhas do Pacífico. Do mal, o menos. Sem ceder à mediocridade, foi popular. Nele, o idealismo encontrou o realismo e este assentou no regaço daquele. Mesmo tendo em conta uns parcos 44 anos de vida, não foi extensa a sua produção. Velejar, afinal, era mais útil do que escrever.


Henrique Manuel Bento Fialho,

segunda-feira, março 25, 2013

Extracto de Suicidas, de Henrique Manuel Bento Fialho, a sair na Deriva


Muito em breve, Henrique Manuel Bento Fialho, apresentará o seu novo livro na Deriva. O seu título é Suicidas e segue-se a Estranhas Criaturas. É de Suicidas este extracto que colocamos aqui sobre Antonin Artaud.

ANTONIN ARTAUD
Artaud estava do lado de Tuiavii, havia nele a voz selvagem dos mestres, o sentido da tradição oral, era um homem experimentado a contar uma história de terror enquanto os tambores ressoavam a trovoada nocturna dos anseios recalcados. Cada dente que lhe faltava na boca assinalava um exorcismo. Eram reais as aranhas que lhe saíam pelo cu, tinha um modo de escarrar no qual pressentíamos uma música singular, por isso mesmo doentia, porque tudo o que ousa afirmar-se em ruptura com a lógica dos tribunais é tomado por loucura.
   Ora, desde muito cedo benzido, desde muito cedo iniciado nas tradições do mau-olhado, aprendi a libertar-me do quebranto em pratos de azeite pingados com vinagre. A minha mãe levou-me às bruxas, fui gótico, toquei o xilofone dos nervos enquanto me curvava para receber a extrema-unção. Naquele tempo, as oliveiras ainda eram vergastadas e ao rio íamos colher mergulhos na lama. Bebíamos directamente da teta das cabras, víamos passar os mendigos com uma estranha admiração, porque também nós não apreciávamos o banho a horas certas. Preferíamos erguer casas no topo das árvores, fazer o ninho nas asas dos índios, correr com os ciganos do bairro porque éramos mais ciganos que eles. Talvez tenha começado aí um certo sentido da contradição social, ao observar o gosto que a ciganagem punha em romper com as suas tradições, em vestir-se como os betos do outro lado da rua, aqueles que tinham piscina onde mergulhar as mães nuas e irmãs de rata ao léu. Talvez tenha sido essa a primeira experiência de que resistir implicava não abdicar de um eu misterioso, indecifrável, livre, coerente com as suas próprias ambiguidades, um eu obstinado e livre o suficiente para se poder iludir com voluntariedade e um profundo sentido da divergência. (...)
Henrique Manuel Bento Fialho, Os Suicidas, Deriva, 2013. A sair
Extracto da responsabilidade do editor.

terça-feira, maio 15, 2012

A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho


Recebi, hoje mesmo e pelo correio, o último livro de Henrique Fialho, desta vez em edição de autor. A capa é de Maria João Lopes Fernandes e a composição de Pedro Serpa. Devo dizer que ainda só folheei o livro mal o tive na mão e é com algum entusiasmo que desde já o revelo aqui. O autor de Estranhas Criaturas (o primeiro a ser editado pela Deriva) aí está de novo e, não me engano, com um belíssimo conjunto de poemas. Mas não escolhi um ao acaso. Foi o que, para já, gostei mais. Depois não se aproveitem e digam que o leram «na net». É bom que tenham a obra (o autor avisa que é de tiragem única e não repetível!). Todo o livro é assim belo como este poema:

IAN CURTIS A ANNIK HONORÉ

Colho um tufo de erva do teu corpo
Deito-me nele e como-o,
sinto-lhe a humidade que ficou da última noite
quando nos deitámos e rebolámos
e nos cruzámos com insectos
a medirem-nos a respiração das coisas.

Prostro-me sob a sombra do teu peito,
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve.

Andamos sempre à procura
de uma noite que não tem dias,
de uma noite sem sinais,
candeeiros que reflictam
a agitação dos mosquitos à queima-roupa.

Andamos como uma letra despovoada
nos silos da ternura, a encostar um sopro
a outro sopro. E nada, absolutamente nada,
nada nos cura desta traição consumada.

sábado, março 05, 2011

OS AMEAÇADOS, in Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho


OS AMEAÇADOS


Os ameaçados calam-se. Concentram-se nas tripas e omitem, fingem não saber, olham para o lado. Sabem tudo, vêem tudo, regam teorias com o cuspo das palavras. Falam em demasia aquilo que calam.
Os ameaçados plagiam as horas com fintas cheias de estilo. Preferem votar à ignorância o que julgam estar ao seu alcance. Eles não entendem o quão rasteiras são as suas vidas, que aos répteis foi atribuído o dom de: arrastar o corpo sobre a própria porcaria. Envolvem tudo num véu discutível e dizem sim ao flash, para à mesa discutirem com a família o ângulo perfilado de medo.
Engraxam os sapatos, por isso sujam os dedos. Vestem o melhor fato, frequentam casas de chá, pedem uma cerveja ao fim da noite e suspiram por fim o desgosto de estarem tão sós no seu rasteiro caminho.
Gosto dos ameaçados, quem mais lembra a ditadura do esquecimento. Gosto de os ver perdidos como cães cegos focinhando contra a vaidade.
ver mais aqui.