terça-feira, agosto 27, 2013

Antero de Quental, em «Suicidas», de Henrique Manuel Bento Fialho

Enquanto se espera pacientemente que acabe a silly season e recomece o trabalho de distribuição e, com ele, a presença de Suicidas nas livrarias, abrimos a vossa curiosidade com «Antero de Quental», prosa poética de Henrique Manuel Bento Fialho criado com base nesta figura incomparável da política e literatura portuguesas.

ANTERO DE QUENTAL

   Nascidos em território já conquistado, terão pela frente a árdua tarefa da preservação. O dever da preservação é problemático, sobretudo quando nos vimos obrigados a preservar algo que não foi por nós conquistado e não seria nossa vontade deter caso nos tivesse sido oferecida a oportunidade de escolher entre o território que nos colocaram nas mãos e outro algures à mercê da nossa vontade. O ímpeto expansionista de um animal domesticado está demarcado, à partida, pelas paredes, pelos muros, pelas vedações, pelas fronteiras, físicas ou psicológicas, que vão sendo erguidas, ao longo da vida, em torno dos seus desejos, das suas eventuais ambições, da sua mais íntima fome. Por isso, sempre que pode, o animal doméstico entretém-se a desenhar cidades invisíveis no prato que lhe trazem à mesa, molda com os dedos o puré de batata, transformando-o no rosto que o acompanha em sonhos, desenha com a ponta do garfo, no molho da carne, os contornos dos vales onde imagina pertencer a sua volúvel identidade.
   O animal doméstico não se sacia migrando do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a garagem, desta para o sótão, mas poder caminhar nesse labirinto de tijolo e cimento, adornado com estantes, retratos, resquícios do tempo observados como uma fenda abrindo-se na palidez do rosto, poder andar para ali, curvado, de um lado para o outro, arrastando o seu desânimo, a sua desesperança, a sua melancolia, a modorra dos dias, pelos mosaicos, pelos tapetes, pelas carpetes semanalmente aspiradas, poder rastejar sobre o soalho afagado e ladrilhado é para ele uma inominável aventura.
   Olhem para o animal doméstico, ainda agora chegado ao espelho mal iluminado da casa de banho, aparando a barba, lavando os dentes amarelecidos, bocejando o sono mal dormido, olhem para ele a enfiar-se na banheira como se os azulejos fossem a vegetação que ilumina as cachoeiras onde nunca lavou o corpo. Olhem-no a ensaboar o tempo, afastando da pele a poluição que trouxe consigo da travessia do deserto. Ai o deserto, o deserto, essas cidades iluminadas pelo fogo das chaminés industriais, movidas a turbinas de aço, atravessadas pela velocidade distorcida dos veículos.
   E um homem afasta-se e sente o silêncio a cair sobre o ruído, sente o ruído a ficar para trás e experimenta a rara e furtiva sensação de conforto que nenhuma poesia oferece, porque toda a poesia, mesmo quando se aproxima do silêncio, resulta de uma interrupção, de um conceito que arrasa a ordem natural e extra-moral do espaço, impondo-lhe os seus fantasmas, os seus edifícios, as suas construções, a sua arquitectura.
   Ainda assim, para o animal doméstico, essa poesia é a ilha deserta onde ele naufragou voluntariamente. Ainda assim, essa poesia é a piroga que o levará na corrente de rios imaginários até às cachoeiras onde nunca lavou o corpo. Porque o seu corpo é já tão-somente uma hélice, um motor, um instrumento ao serviço da domesticação de que o próprio é vítima.

   Ó belo e estranho ser, teus pés não se afundaram no cimento, teus músculos ainda não oxidaram, os teus ossos têm nervo. Desse nervo, poderás, quem sabe, levantar-te da jardinagem paisagística à selvática e caótica beleza das gavinhas, poderás, quem sabe, prescindir dos museus que te oferecem o mundo em segunda mão e, quem sabe, chegar à primeira mão do mundo, para que daqui a, esperemos, muitos anos, possam final e irremediavelmente domesticar-te na geometria fria dos cemitérios.