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terça-feira, setembro 03, 2024

Diogo Vaz Pinto escreve sobre Joaquim Castro Caldas

 

De uma revista chamada Ler. Verão de 2024.
Devo dizer que, quase de certeza (tenho muito poucas, vá), o Joaquim Castro Caldas iria rever-se por inteiro nesta trabalho de Diogo Vaz Pinto sobre a colectânea de poemas dele e sobre a sua poesia. «Intérprete da Vontade do Pássaro» é o título da obra que foi organizada por Isaque Ferreira e Rui Spranger, amigos dele de longa data. O trabalho de Diogo Vaz Pinto tem tanto de honesto, quanto de rigoroso e devo dizer que me obrigou à compra da revista que, de todo, não leio habitualmente. Fiquemos com algumas afirmações com as quais me revejo: 

«Joaquim Castro Caldas é um poeta menor, não propriamente negligenciável, mas um poeta que dificilmente poderia infiltrar o cânone por mais que se dedicassem à sua obra os melhores esforços desses astrónomos capazes de fixar de forma genérica o nosso firmamento literário (...) Eles mesmo se mostrou consciente de que ''não fez nem faz outra coisa senão arte embrionária e terminal''.»

«Tem aquela graça da escrita desinchada, a capacidade de desarme de um literato que se desinteressou da imortalidade, preferindo estabelecer essa irmandade com o mais comum dos mortais, e explorando aquele sentimento de inaptidão irremediável para a vida.»

«Joaquim Castro Caldas lembra-nos que existe uma literatura não-oficial, que não nos faz ouvir os guizos dos condecorados.»

«Por outro lado, temos por vezes a sensação de que se trata de uma escrita que não se cumpre inteiramente, não alcança grandes cumes, fica aquém do que promete, mas vai-se implicando nesse esforço de forçar os limites, quase nos vira do avesso, e deve reconhecer-se como este ''quase'' é suficiente para desequilibrar quem respira e pressente essa força, encontrando nesta obra movimentos e levantamentos estranhos às suas necessidades de ar regulares, esse quadro que oferece um desvio face à vulgaridade do quotidiano, dando-nos um impulso.»

«Há momentos em que tudo o que parece haver nele é veneno, mas para não degradar os outros, busca saídas.»

Aviso-vos que Diogo Vaz Pinto acaba em beleza no último parágrafo do seu trabalho sobre Joaquim Castro Caldas e que será impossível de contornar a existirem estudos sobre a sua poesia. Não cometerei o erro e desrespeito de o transcrever aqui porque o artigo deve ler-se no seu todo. Tem um 'continuum' que não se pode fragmentar como eu o fiz em pequenos trechos com que me revi e que achei interessante partilhar convosco. 

O 31 de Agosto assinala os 16 anos da sua morte e ainda penso que foi há meses. Não passa esta data sem que pense nele. O Joaquim foi um cometa na Deriva e foi-o também na minha vida como editor e amigo desde os cafés de Coimbra quando esta era uma cidade noctívaga e trânsfuga, dada a escândalos e ao rasgar de normas. Falamos obviamente dos anos 70 e não da recuperação da normalidade neoliberal dos anos 80. Ele cirandava por Lisboa do teatro e os amigos de cá colocavam-no em Coimbra a vender os seus livros de café em café de bas-fonds em bas-fonds. Sempre à noite. Mas aproximámo-nos irremediavelmente, já nos 2000, nas Antas do Porto que ele amava, tal como eu. Vivia perto de mim e da escola onde eu dava aulas. A Deriva era na Batalha e por vezes deslocávamo-nos lá, mas era impossível, com o Caldas, parar muito tempo num escritório. Tínhamos de tomar ar e aí eram horas e horas nos cafés da Baixa do Porto a falar de tudo... Também era ele que mergulhava o nariz nos cabelos da minha filha quando a íamos buscar à escola primária na Costa Cabral e dizia-lhe «Cheiras a Escola! Deixa-me cheirar outra vez!»; atendia as minhas chamadas num telemóvel Nokia do século anterior todo partidinho e que era uma autêntica relíquia e ao mesmo tempo um mistério técnico por que magia conseguia funcionar. Planeámos várias apresentações do «Mágoa das Pedras», mas o seu estado de saúde já só permitiu duas: a de Lisboa e Porto. Descartou Coimbra, lembrado por mim. Ele lá soube porquê e eu também não estava muito entusiasmado. Para Lisboa, na Ler Devagar, já de Xabregas, fomos de Alfa Pendular. O Joaquim tinha sempre de mandar aquecer a cerveja sem álcool no vaporizador da máquina dos cafés. Explicado por ele, este estranho pedido era porque a cerveja fria o incomodava no esófago e garganta. Nos cafés das Antas já sabiam e não havia problemas de maior ou caras admiradas com o pedido, mas no Alfa Pendular desse dia, o empregado do bar entendeu o que não queria entender e considerar que o pedido era ou uma tentativa para o gozar, ou estavam a achincalhar o seu trabalho; aquilo acabou mal: o Joaquim que era a boa educação e bondade em pessoa, exigiu que lhe aquecessem a cerveja e que não tinha de dar mais explicações (ele não tinha dado nenhuma) e perante a evidente má criação e recusa do empregado da Refer que achava que a cerveja ia estalar e partir-se ao ser aquecida, retorquiu «que não estava para aturar bêbados!». Ora, isto chamou-me à colacção e vai daí foi uma cena do caraças em pleno comboio, lá para os lados de Pombal, que chegou a obrigar outros passageiros a entrar em campo separando as nossas mãos das golas dos respectivos casacos. Mas a coisa resolveu-se e bebemos as cervejas, eu com álcool e ele sem álcool (impossível portanto a acusação da ebriedade do Caldas). Outro grande «inconseguimento» dele era a sua relação aristocrática com o dinheiro e recusava-se a ter conta bancária. O «Mágoa das Pedras» foi-lhe pago em dinheiro vivo que ele gastava nas mercearias das Antas em hortícolas e fruta com a minha filha Ana atrás dele e a dar a sua opinião. Recebia uns morangos em troca. Gostava imenso dos seus amigos, arrisco-me a dizê-lo, que eram o seu mundo e falo obviamente do Spranger e do Isaque. Da malta vária do Pinguim (o Luís!) onde ela dizia maravilhosamente os seus poemas e de outros poetas como ele. Às segundas, quem fosse ao Pinguim era melhor levar um livro de poesia lá de casa porque o Joaquim invectivava as pessoas a poetarem «Agora és tu! O que vais ler?». O gosto pela palavra e o repentismo que o caracterizavam, quer na poesia, quer no seu contacto diário, era uma marca indelével do Joaquim Castro Caldas. Mas também a sua amargura relativamente aos académicos. Afastava-se rápido deles quando os pressentia perto. Infelizmente conheci pessoalmente, por via da Deriva, as suas doutíssimas e erradas opiniões acerca da poesia do Caldas e constituiu para mim outro mistério (dos muitos relacionados com ele) o particular ódio que alimentavam contra ele. Talvez por a sua vida ser verdadeiramente poética? Por procurá-la incessante e violentamente quando não a encontrava? Porque eram incapazes (e sabiam-no) de enveredar pela liberdade de uma vida errante e livre como a do Caldas? Saberiam eles que ele praticou a teoria da deriva por Paris, por Amesterdão, por Londres? Que foi amigo pessoal de Juliette Greco e Leo Ferré, entre outros?

Nunca mais esqueci o nosso encontro num dia qualquer de Julho de 2008, quando me preparava para ir de férias e lhe perguntei se precisava de alguma coisa. «Oh, estou a morrer. De que preciso eu?». Rimo-nos com alguma inquietação misturada. Tinha ideia que nas últimas semanas o seu estado se tinha degradado. Quando cheguei perto do final de Agosto foi o choque imenso de saber que não o via mais. Um estúpido atraso no estúdio de gravação de um cd que acompanhava um livro, o «Com quatro Pedras na Mão» sobre o Porto e do Bando dos Gambozinos de Suzana Ralha, que incluía o poema do Joaquim «Ir Indo» e musicado pelo Bando, só esteve pronto após a sua morte. Ele soube, contudo, que o íamos musicar e estava expectante, tal como o projecto do seu próximo livro que nunca teve lugar. Nunca o ouviu. Fica a sua música, o seu poema partilhado com outros como José Mário Branco, Jorge Sousa Braga, Luís Nogueira, Luísa Ducla Soares, Matilde Rosa Araújo, Rui Pereira, João Pedro Mésseder e Filipa Leal como uma lembrança que atravessará os tempos, certamente.

alc

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Hoje, apresentação de Antologia da Cave. Na Almeida Garrett, pelas 21:30


O número impressiona num país avesso a estas coisas da poesia: 25 anos de Café/Bar Pinguim, 56 poetas que serão antologiados neste livrinho e que vai ser apresentado logo à noite na Biblioteca Almeida Garrett, aqui no Porto. Durante 25 anos, com mais ou menos regularidade, muita gente passou por ali dizendo poemas, ouvindo, lendo e comentando. Fumava-se e bebia-se com gosto, e sempre coma poesia. Durante todo este tempo, o Joaquim Castro Caldas o Isaque Ferreira, o Pedro Lamares e o Rui Spranger serviram de orientadores encartados a pessoas a quem só interessava ouvir poesia e sem trazer qualquer senha de presença. Das poucas vezes que por lá passei (as sessões no Pinguim começavam à meia noite, eu levantava-me às sete da manhã e a minha idade não perdoa!) senti esse abraço que só eles poderiam dar. Relembro-me sempre muito do Joaquim e da sua completa anarquia, as história que contava passadas com Juliette Greco, com o Leo Ferré, o comboio partilhado em Paris com o Samuel Beckett, as noites com o Ary dos Santos e Natália Correia que lhe tinha um carinho especial (estas histórias estarão escritas?). Mas não posso esquecer também a generosidade do Spranger, do Isaque, a presença da Filipa Leal, os poemas de Pedro Ribeiro, de João Habitualmente, do Daniel Maia-Pinto Rodrigues e do Pedro Lamares, entre outros.
Estes 25 anos e a presença destes 56 poetas são de um trabalho inestimável que o futuro poderá dar razão, ou não. Pelo nosso lado, a Antologia da Cave tem todo o sentido.

sábado, agosto 31, 2013

Joaquim Castro Caldas, cinco anos


Como se pode medir a ausência de um poeta? Não sabemos, nem nos atrevemos a fazer muitas considerações sobre essa falta que nos faz não ter aqui o Joaquim. Faz-nos falta o seu viver poético, faz-nos falta o seu sorriso irónico, faz-nos falta a sua mordacidade, faz-nos falta a sua incapacidade partilhada em viver a vidinha. Um abraço, Joaquim.

Uma aura

Numa folha branca
se passa a mão
e apetece marrar

ficam marcados
na areia dorida
os passos que se dão

para deixar a maré
e rasgar uma outra
à água que rebenta

em espuma a praia
se o corpo se entrega
a uma concha aberta

Mágoa das Pedras, Deriva, 2008

domingo, fevereiro 24, 2013

Festa homenagem a Joaquim Castro Caldas, A Barraca, terça, 21:30

Na terça feira, dia 26 de fevereiro, vai ter lugar em Lisboa uma homenagem ao Joaquim Castro Caldas. É no Teatro A Barraca, às 21:30. O seu livro Mágoa das Pedras, que a Deriva editou, vai estar disponível a quem o queira adquirir, pela mão amiga de Rui Spranger e Isaque Ferreira que vão dizer também poemas seus. Será a última vez que o livro estará disponível. Depois desta homenagem, será retirado do mercado e dado como esgotado só cedendo o seu trabalho para futuras antologias.Foi assim que o Joaquim quis. A entrada é livre.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Joaquim Castro Caldas [1956-2008]


ir indo
a gente aprende
o coração à lareira
que se fica a ir
e reacende
até que um dia
alguém se lembre

Joaquim Castro Caldas

terça-feira, agosto 30, 2011

Uma não-efeméride de Castro Caldas:«-Fazes cá falta, Joaquim!»


Foto de António Pedro Ribeiro

Não sou dado a saudosismos. Evito sempre a efeméride e a lembrança da pequena data. Há, no entanto,a de hoje que não me sai da cabeça e que me diz que o Castro Caldas se foi há 3 anos. Comprei-lhe o Português Suave, em 1977, no Tropical em Coimbra. Bebíamos cervejas ininterruptamente e falávamos dos sonhos de quem tinha 20 e poucos anos, poesia sempre incluída. A ele acrescentava-se o teatro. Perdi-lhe o rasto durante anos e vim a encontrá-lo no Porto, já doente mas sem queixas e com um sentido de humor que não tinha perdido. Ria com os títulos dos novos «romances». ria com a «nova» poesia, daquela que recusava a declamação, a rua ou o vão dos bares. É disso que me lembro do Caldas: da vontade de viver e da realidade contraposta que os médicos impunham nas visitas que fazia ao Santo António. Nunca deu de si. Lembrava-me, nos cafés das Antas onde queimavamos tempo como só ele sabia fazer com a qualidade necessária de quem tinha todo o tempo do mundo, algumas cenas passadas com a Juliette Greco, com Leo Ferré (que o viu a declamar em Paris o Avec le Temps, na rua) ou com Ary dos Santos. O Joaquim faz-me falta e à Deriva. Numa época onde a poesia é cada vez mais esquecida ao ponto de a termos suspendido este ano que passa, o Castro Caldas faz falta. Para dar alento. Para nos fazer acreditar que a poesia tem de ser sobretudo vivida todos os dias. De qualquer maneira, o Mágoa das Pedras aí está editado por ambos e com a alegria de quem escolheu os poemas, como este:

Espero que haja música
no espaço mítico da morte
a água não corre na fonte
a erva não cresce no monte
não cheira a pó de Alexandria
nem áspero nem seda
os sentidos não circulam
como o sangue e a seiva
a liberdade é uma varejeira
os poemas são peidos
a citar arrotos velhos
e querem que os putos comam
a carne seca dos navios?
aprendam a vida sexual
dos abutres à mercê dos cânticos?
a intervenção mais juvenil
é o boicote à criação arrumada
só tu és o mestre da tua vontade
só tu és o aluno da tua árvore
espero que entre o bem e o mal
a tua amada musa dance dance

Poesia, in Mágoa das Pedras, Deriva, 2008

terça-feira, agosto 31, 2010

Joaquim Castro Caldas [1956 - 2008]


ir indo
a gente aprende
o coração à lareira
que se fica a ir
e reacende
até que um dia
alguém se lembre

Joaquim Castro Caldas

sábado, agosto 28, 2010

um verbo | Joaquim Castro Caldas



um verbo

o amor não se diz
isso não se faz ao amor

adeus tempo e modo
não se tem é-se-lhe
o amor quer-se dizer
sabe-nos para a vida
não nos faz espécie

o amor não se diz
isso não se faz ao amor
dá-se-nos damos-lhe

Joaquim Castro Caldas
in Mágoa das Pedras


quinta-feira, agosto 19, 2010

O Albatroz, (a propósito de Mágoa das Pedras), de Joaquim Castro Caldas

O Albatroz, (a propósito de Mágoa das Pedras), de Joaquim Castro Caldas 


Ses ailes de géant l'empêchent de marcher. (Baudelaire)
Eu vi a luz em um país perdido. (Pessanha)


Tendo por fundo um eco baudelairiano, Castro Caldas evoca em Mágoa das Pedras (2008) a consciência da indiferença do seu tempo e da sua própria diferença – um albatroz em desasado. Quando o albatroz, o monarca azul dos ares, é por sádico prazer preso pelos marinheiros, perde a graça e as longas e as suas pesadas asas tornam-se um empecilho. O que antes era belo e admirável é agora risível – “lui naguère si beau, qu'il est comique et laid!” . O poeta que enfrenta vendavais e se ri da seta no ar, quando exilado no chão, obrigado a cumprir regras que desconhece e a estar monotonamente no meio de todos, não consegue, sequer, andar. Assim o albatroz de Coleridge e Baudelaire, assim Joaquim Castro Caldas.

Nenhuma imagem é tão perfeita para a poesia e para a figura de JCC como a do albatroz: o poeta incompreendido, o príncipe da altura, o estrangeiro em terra. Façam-lhe ao menos a justiça de o não julgar nem fora , nem antes do tempo (pg.10).
Mágoa das Pedras traz-nos uma memória de um tempo em que se amava “e nunca se pedia / aos corações desamarrados / falava-se de tesouros perdidos / partia-se à procura de um dia” ( p. 35), mas um tempo que não vale já a pena lembrar pois “mordiscar o tempo sabe a esferovite” (p. 28). O poeta continuou a dançar mesmo depois de a música ter parado. Todos os outros, se habituaram a viver sem asas, a andar rente ao chão: ele não, insiste no voo, resiste - “apanho mar e lavo os olhos com luz / deito a cabeça na areia carrego o coração” (p. 13) – e transfigura-se em “anjo mensageiro que por mar, terra e céu” anuncia o apocalipse para os que “informatizam a eternidade” (p. 17) e para os que não perceberam que a grande revolução ainda não está feita.
Mágoa das Pedras é feita de aindas e agoras : “ainda as líricas impressas”, “ainda a vida em fundo” (p. 10), “o lume ainda aceso (p. 20), “um grande amor ainda espera pelo amor ” (p.59) e por agoras, certezas de que acções incompreendidas no passado, agora fariam ainda mais sentido: “agora é que tinha graça” e “há lixo da época ouro hoje […] que agora nos deixam a pele em arrepio” (p.55). Os “aindas” e os “agoras” do texto são pequenos freios impostos ao tempo: tentativas fugazes de, com o capital de vida acumulado, viver de uma forma mais distendida, mas a velocidade impressa no passado, não perdoa e já não há travões possíveis (note-se que quase não há pontos finais, não se pode mesmo parar).

A imagem que o título cataforicamente projecta na obra é a do relógio de água: a clepsidra - água, mágoa, pedra. A água que mede o inexorável passar do tempo e nada fixa. A palavra escrita é a resistência num tempo esquivo: “escrevo à mão a quem se debruça ainda nas líricas impressas” (p. 10), num tempo de sms – “hoje para chegar a tempo manda-se um silêncio a dizer morri, vivalma, nada”(p. 31) - e outras redes.Numa óptica palimpséstica, Mágoa das Pedras traz-nos o desejo presente em Pessanha de “deslizar sem ruído” de passar, de ir. Sem nascimento e sem morte: apenas uma mudança de energia - on/ off : “tudo passa e desaparece, recomeça, a cada vez diferente, a voz sugere, o que está em movimento recupera a fonte, a voz foge, aqui não há morte, a vida recomeça, há só uma energia que muda de forma e mergulha” (p. 9).
Em Castro Caldas, há um paradoxal estar dentro das coisas, estando ao mesmo tempo distante. Há uma incapacidade de parar, de fixar, por pouco tempo que seja, o próprio tempo. Uma fina película - “película de água” (p.9), “película de geada” (p.39) - aproxima-o e afasta-o do concreto, como se esvoaçasse, sem nunca verdadeiramente voar, mas também, sem nunca verdadeiramente poisar. É um estar por dentro, vendo tudo a uma certa distância, ou melhor num outro tempo. A película, o biombo, a neblina devolvem-nos um intervalo e, ainda assim, “tudo se passa por dentro” (p.33).
Os amigos são as estratégias de continuar inscrito, amarrado ao tempo e ao real: são os violinos e são as cartas. O amigo é o príncipe e o livro que depois relido continua novo e puro. O amigo é a faca que rasga caminhos, é aquele que chega sempre a tempo ao mesmo destino.
Em Mágoa das Pedras sente-se a correria desatinada para o abismo, através de um trajecto de acumulação de ideias e de uma de construção sintáctica desajectivada. A febre que empurra para o abismo é a mesma que faz com que se entrecruzem planos e sensações na água, na mágoa que tudo arrasta.
As palavras que tomou de empréstimo – as que disse, as que usou - são agora despidas e despedidas, como que se tivessem atingido uma maioridade que o dispensa, a ele enquanto voz:

Vão-se embora palavras
Deixem-me ali à esquina
Amem e façam-se à vida
Não temam a morte voem
Sabem que são minhas
Para lá dessas fronteiras
Que desapertam as rimas
Com poemas ou bombas
Fucem apanhem boleias
Só vos deixei preparadas
Para os cornos dos poetas
(p. 46)

Num poeta “diseur” é curioso este mandar ir as palavras, sem si, este “ir indo”: as palavras ficam desatadas como puro espírito à procura de uma voz, talvez porque acredite existir só “uma oportunidade” (p.52):

Tinha uma luz para voar
Tinha o dom e a dedicação
Para ir mais longe do que tudo
Mas esqueceu-se de que além do brilho
Só há uma oportunidade 
(p.52)

Depois do sopro no pavio, são as palavras desfraldadas, as palavras ditas e escritas que ficam e sobrevivem ao tempo: são a inscrição possível nas pedras. Não há espaço para corrigir erros, repetindo, qual jockey, a corrida à procura de um outro resultado. O destino é o do albatroz prisioneiro, o do cavalo caído. Resta-lhe apenas ajudar o próximo cavalo a ter melhor sorte “e não culpar ninguém ” (p. 53).
Do poeta habituado a “dizer”, sobra para a poética, a música verlainiana: “vagas breves”(p. 13); “Suor / do trigo/ a sangrar / no dorso” (p. 23); “Moinho / do vento / violento/ a dobrá-lo” (p. 23); “o amigo é um violino / estimado, obstinado” (p. 24); “de alfinete paciente e carinho antigo / o virtuoso ausente/ omnipresente “ (p. ), “Sotaque e o cognac“ (p 27 ), Mesmo triste a sorrir sempre” (p. 27), “as papoilas as palmas “ (p. 28); “não há orgãos, mãos e olhos, esporas e poros” (p.31); “bebemos buio / fumamos breu” (p. 33); “passa a mão ao de leve pela sede e na seda” (p. 44); “ vão as botas mágoa erecta de ervas” (p. 48). A música que emana dos versos, a música do violino é omnipresente – como se todos os silêncios, todas as solidões tivessem de ser preenchidas agora, pois não se sabe se há música depois, espera-se apenas que ela exista: “espero que haja música / no espaço mítico da morte” (p. 51).
Castro Caldas junta, neste livro, os quatro elementos: esconde no título a água e a terra, deixa fugir para a capa o fogo e deixa os versos futuar. Ar, Fogo, Água e Terra, assim o albatroz faz o poema.
Concluímos com Sena e com o seu albatroz:
"Os marinheiros tinham apanhado o albatroz, e a ave, coitada, habituada a sobrevoar livremente as ondas, não sabia andar no convés do navio, tropeçava nas asas. É o que acontece com todos nós, os que voámos alguma vez. Fica-se a vida inteira a tropeçar nas asas, e a dar com a cabeça na gaiola." (Jorge Sena)
Mágoa das Pedras guarda as mágoas do albatroz que tenta voar, mas inevitavelmente inscreve o seu sangue nas pedras. [Paula Cruz]

Mágoa das Pedras, Deriva Editores, 2008


Nuno Abrunhosa criou, no Facebook   um grupo para reunir leitores e amigos de Joaquim Castro Caldas: clicar aqui para aderir.

sábado, março 20, 2010

uma boina, Joaquim Castro Caldas

(foto de Egídio Santos)

uma boina

eu só a uso como cúpula inacabada
não dou ordens nem peço esmola
a uma arte de rua fugida à escola
que apanha traços a uma máscara

enfiaram-me o barrete à nascença
não tiro o boné a não ser na forca
fui trolha nos vitrais da renascença
e ando ainda ao leme da minha proa
.
Joaquim Castro Caldas, in  Mágoa Das Pedras 

segunda-feira, agosto 31, 2009

Hoje, dia 31 de Agosto, no Pinguim, pelas 22h, uma sessão para lembrar Joaquim Castro Caldas


Creio que será muito pela iniciativa do Rui Spranger, que organiza estas sessões, que vamos lembrar o Joaquim Castro Caldas, no dia em que lhe passou pela cabeça dizer-nos «até já»! Faz um ano...

O Luís Miguel Queirós lembrou-o, hoje mesmo no Público, com este excelente artigo que me lembro de o ter lido por essa ocasião, já há uns tempos, portanto. Porque vale a pena lê-lo, retomo-o aqui:

«Não sei precisar a data, mas deve ter sido em 1989. Eu estava a jantar, sozinho, numa tasca da zona da Boavista, no Porto. Além de mim, só havia outro cliente, que me chamara a atenção porque, tal como eu, estava a ler um livro de poemas enquanto comia. Que a coincidência também o interessou tornou-se manifesto quando se levantou, se dirigiu à minha mesa e, sem quaisquer preâmbulos, atirou: "Tens olhos de poeta." A abordagem pareceu-me inquietante e, confesso, foi com alguma relutância que o convidei a sentar-se. Mas a conversa posterior deve ter-me tranquilizado, porque o levei para casa e, pelas três da manhã, estava a ouvi-lo dizer de cor os 168 versos da Tabacaria de Fernando Pessoa. Quando lhe chamei um táxi, e tendo em conta que eu próprio já então os utilizava diariamente e conhecia todos os motoristas da zona, preferia que não tivesse insistido em despedir-se de mim, dando-me, à porta de casa dos meus pais, sucessivos beijos no pescoço. Ainda assim, reconfortou-me pensar que sempre era uma sorte que ele fosse bastante mais baixo do que eu.A personagem chamava-se Joaquim Castro Caldas. Como fiquei a saber nessa noite, era uma ovelha algo tresmalhada de uma família tradicional, que até fornecera um ministro ao Estado Novo. Tinha caído de pára-quedas na anódina noite portuense, vindo de lugares bastante mais animados, como Paris, onde convivera com Leo Ferré, ou Veneza, onde afirmava ter guiado uma gôndola e cantado o fado. Agora, explicou-me, dera-lhe para se radicar no Porto e, às segundas-feiras, organizava umas sessões de poesia no Pinguim. Uma coisa suficientemente insólita para me despertar a curiosidade, nesse tempo em que éramos governados por um sujeito que não sabia quantos cantos tinham Os Lusíadas. Num ambiente escuro e enfumarado, sete ou oito pessoas ouviam o Caldas - chamei-lhe sempre assim, embora não se cansasse de me frisar que o nome dele era Joaquim - dizer poemas de Rimbaud (em francês), Pessoa, Sá-Carneiro, Almada, Herberto Helder ou Mário Henrique Leiria, mas também dele próprio ou de poetas muito novos, às vezes sem livros publicados. Tinha ao seu lado um grande baú donde ia tirando livros e papéis. Depois era a vez de a assistência se chegar à frente. Tanto surgia alguém a tentar imitar Villaret a dizer A Duquesa de Brabante, como um adolescente a gaguejar o poema que escrevera nesse mesmo dia. E quase sempre aparecia um senhor com idade para ser pai da restante fauna, que tinha uma bela voz e recitava em castelhano o Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, de Lorca. A qualidade do que se ouvia era deveras desigual, mas o ambiente era único. Foi isso que tentei dizer quando escrevi uma notícia a divulgar estas sessões, que saiu no primeiro número do PÚBLICO, de 5 de Março de 1990. Ao lado de uma fotografia de Joaquim Castro Caldas com um livro à frente dos olhos e um copo de cerveja à ilharga, lia-se o título "Pinguim: poesia à queima-roupa". Quando as Segundas-Feiras de Poesia se tornaram um pequeno sucesso de público, com pessoas até sentadas no chão de cimento, nem por isso deixaram de se manter iguais a si mesmas. Mérito do Caldas, que, apreciasse mais ou menos o género, era um artigo genuíno. Não o estou a ver, por exemplo, a promover um José Luís Peixoto. Talvez lhe dissesse que tinha olhos de poeta, mas não lhe dedicaria uma sessão.»

segunda-feira, agosto 24, 2009

Relembrar Joaquim Castro Caldas (1956-2008). Um filme


Um filme de Paula Cruz que lembra Mágoa das Pedras de Joaquim Castro Caldas. Porque sim e porque sentimos a sua falta.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Joaquim Castro Caldas (1956-2008)


Um Apocalipse

agora é que tinha graça encher campos de relva de soldados e derrubá-los com os braços, pegar-lhes pelos capacetes e pô-los nos sítios do globo que nos apetecesse, agarrar no ar obuses e mísseis e espetá-los uns contra os outros, empurrar tanques por desfiladeiros, desligar centrais nucleares e bombas e amontoar dinheiro para o derreter e queimar, cobrir o jogo de lágrimas verdadeiras a conta gotas nos olhos dos homenzinhos armados em grandes, os que chamam melancolia ao amor e nostalgia à humildade, os que monopolizam e manipulam a história, informatizam a eternidade, esquecem-nos ou esquecem-se
in Mágoa das Pedras, Deriva, 2008

domingo, agosto 31, 2008

Hoje, 31 de Agosto, o Joaquim deixou-nos

«Escrevo à mão a quem se debruça ainda nas líricas impressas como as árvores curvadas sobre os lagos de água da chuva, marcando o livro com indisciplina, a quem ainda cheira a tinta, raízes e barro, a quem usa o romantismo para aliviar o tremor dos homens...».


Notícia estúpida esta, como são sempre as notícias que dão corpo à ausência. O Joaquim deixou-nos devagar, como quem nos estuda os gestos, com olhar matreiro e irónico. Como quem diz que já aí vem. Que foi só ali e não se demora nada.

segunda-feira, março 03, 2008

Joaquim Castro Caldas na Ler Devagar a 8 de Março, pelas 18:00, com Bibi Perestrelo e João de Sousa


Apresentação de Mágoa das Pedras de Joaquim Castro Caldas

Ler Devagar, Lisboa. Sábado, 8 de Março. 18:00
Com João de Sousa e Bibi Perestrelo

terça-feira, janeiro 29, 2008

Apresentação de Mágoa das Pedras de Joaquim Castro Caldas. Clube Literário do Porto, 18:00, dia 31 de Janeiro, Quinta.

Se há algum sentido na escolha da palavra coragem para adjectivar a poesia ela aplica-se sobretudo a Joaquim Castro Caldas, homem de muitos ofícios que desde sempre e em múltiplas geografias optou por uma vida verdadeiramente livre que se confunde com as palavras que lhe assomam. Que tenha a forma de livro é esta a regra do jogo. Deste e de outros que distribuía em locais de uma verdadeira deriva experimental que o autor, felino, frequenta. Como ele diz, «escrevo à mão a quem se debruça ainda nas líricas impressas como as árvores curvadas sobre os lagos de água da chuva, marcando o livro com indisciplina, a quem ainda chira atinta, raízes e barro, a quem usa o romantismo para aliviar o tremor dos homens...».