quarta-feira, outubro 18, 2023

Pequena nota pessoal sobre Gaza aos amigos libertários e à esquerda radical

 

Getty Images
1. As palavras valem o que valem e nos tempos de chumbo em que vivemos a palavra terrorismo banalizou-se de tal maneira que «comentadores» de jornais e de tv's utilizam-na para atacar desde o PC, ao BE e aos libertários. Escondem o seu próprio ódio fascista, alardeando o ódio que dizem sermos portadores.

2. Um desses comentadores chegou a referir, sem a mínima hesitação, que antes de se prolongar na sua pobre «análise» do massacre de Gaza que o «conceito de vida nos países árabes não era o mesmo que no ocidente»! (CNN, 11/10). Dizer isto é o mesmo que concordar implicitamente com o ministro de defesa de Israel quando afirmou que os israelitas estão a guerrear com «animais», portanto sub-humanos, tal como os nazis consideravam os judeus no genocídio dos campos da morte na II Guerra Mundial.

3. Sobre a violência, ela é legítima quando defende um povo cujo território não é só ocupado violentamente há décadas, como lhe retiraram todas as possibilidades de viverem dignamente ou, sequer, sonhar com elas. O que acontece com os palestinianos hoje. Não vejo nenhum libertário coerente ou pertencente à esquerda radical que encare o Hamas, o Hezbolah ou a Jihad Islâmica como representante legítimo do povo palestiniano, quer pela sua prática de matar civis indiscriminadamente, tal como faz o ocupante israelita, quer pela sua vertente religiosa e fanática que nos coloca nos seus antípodas. Tal acontece igualmente com o objectivo não declarado de Israel em tornar-se um estado teocrático, não necessitando de ter uma Constituição escrita, mas votando no Knesset, em sua substituição, uma Lei do Estado-Nação em 2018 que estabelece «a Terra de Israel como a pátria do povo judeu»! O objectivo do Grande Israel que está implícito desde 1948 compreende regiões da Síria, do Iraque o do Líbano.

4. Não há um «conflito israelo-palestiniano» como alguns amigos defendem. Existe uma ocupação violenta e genocida sobre o povo palestiniano, esse sim, desarmado perante todo o horror. Afirmar que em Israel existe luta de classes, tal como na Palestina, é uma meia-verdade que pode levar a confundirmos as duas realidades como sendo iguais em recursos e em riqueza produzidos. E não são. Basta saber o mínimo do genocídio para verificar a imbecilidade de tal defesa.

5. Quando durante anos, a maioria dos libertários e da esquerda radical denunciaram (e bem) o papel da ONU ao lado dos mais fortes e ignorando petulantemente os mais fracos e explorados do mundo, surgem agora alguns de uma maneira cómoda e hipócrita e defenderem as suas resoluções que nunca foram cumpridas pelo agressor israelita. Recusaram qualquer discussão sobre geopolítica, demonstrando a sua inconsequência devido à defesa teórica um mundo sem fronteiras, que neste caso não se coloca: é que não há «fronteiras» em Gaza. Há corredores com arame farpado e mar minado!

6. A esquerda e os libertários não devem permanecer numa posição defensiva e reaccionária, passando o pouco tempo disponível a afirmar que não se reveem nos grupos religiosos islâmicos, porque isso não tem sentido nenhum. Os «mas»... que se seguem à defesa do povo palestiniano não se compadecem com a urgência de uma resolução rápida para a ocupação assassina de Israel sobre Gaza. O que devemos exigir dos pobres comentadores e indivíduos ou grupos que defendem Israel é a clarificação total das suas posições genocidas, colocando-os ao lado dos mísseis sobre Gaza e das declarações racistas do governo israelita.

7. Não há possibilidade de outra defesa senão aquela de estarmos ao lado do povo palestiniano sem quaisquer hesitações. Não só por ser a parte mais fraca (dantes era um atributo da esquerda que, penso, ainda não estar esquecida!), mas porque se corre o risco de, mais uma vez, serem abandonados quer pelos seus congéneres árabes, quer pela indiferença criminosa e doentia do Ocidente. E estar «ao lado» do povo palestiniano significa exigir o cessar-fogo imediato (até agora a chamada «comunidade internacional» não o exigiu!) e início de um processo com interlocutores sérios que levem à existência de uma Palestina livre e independente de todos os autoritarismos.

terça-feira, outubro 17, 2023

«O Morcego», Jo Nesbo

 

BIS, Livro de Bolso, 2ª ed. 2019. Trad. (inglês) Maria Georgina Segurado
Primeiro livro da série do inspector norueguês Harry Hole é claramente uma aposta sofrível. Os acontecimentos não fluem, são colocados a camartelo para dar algum aspecto de verosimilhança, mas falha completamente. Um polícia que vem da Noruega à Austrália para se inteirar de um assassínio de uma rapariga norueguesa em Sidney, vítima de um assassino em série, dão-lhe uma arma que usa à fartazana, anda à porrada em bares, bebe que se farta, estampa carros, utiliza prostitutas para ter acesso a informações e pior que tudo, envia para a morte certa a sua namorada sueca, por quem diz ter-se apaixonado loucamente, para os braços do assassino que a mata sem rebuço, usando-a como isco! Isto sem haver inquéritos, expulsões da polícia, ou sequer uma advertenciazinha. Ou a polícia australiana anda a dedicar o seu tempo ao surf ou estamos perante uma piada ao país, repetida vezes sem conta no livro para com os australianos, pouco focados nas lides policiais. As drogas aparecem em todo o lado, tal como a prostituição generalizada nas ruas, tal como os hippies tardios, os gays são em maior número do que em S. Francisco o que o leva a declarar à namorada, ainda viva na ocasião, que se sente mal ao reparar que são o único par heterossexual na King's Cross de Sidney, tal como os aborígenes que são gente dada a crimes, pobreza, alcoolismo (ele que é alcoólico!), prostituição e disfuncionalidade familiar. Todavia, dados aos mais profundos segredos da Natureza.

E por falar em aborígenes, claro que o assassino em série será um deles. Só massacra e viola (por vezes a ordem inverte-se) mulheres louras sem filhos (requinte de malvadez) para que não possam procriar mais tarde e, assim mesmo, se vinga da forma como os brancos humilharam, maltrataram e torturaram o povo que vivia há 60 mil anos na Austrália. Mesmo que os estudos revelem que os assassinos em série são geralmente homens brancos, alguns com família constituída e perfeitamente integrados socialmente. Mas, para o livro de Nesbo, essa vingança sociopata só poderia vir de um aborígene que morre no aquário de Sidney engolido por um tubarão!! Claro que Harry Hole, antes, tenta matá-lo a tiro, por entre as pessoas que, com os filhos, visitavam calmamente o aquário e que tiveram como bónus ao bilhete adquirido, um tipo a ser comido aos safanões por um tubarão branco. Já antes, em capítulos anteriores, um palhaço tinha sido decapitado por uma guilhotina, expelindo rios de «sangue e medula» (sic), perante o entusiasmo da criançada! Se me contassem que isto era descrito num livro não acreditaria à primeira...

Mas as coisas estão assim: enquanto me dedico à História, principalmente de autores contemporâneos que obviamente não conheci na Faculdade e na leitura de autores malditos do século XX, tive necessidade de intervalar com alguns livros policiais que sempre gostei de ler, aliás. Não os conhecendo como deveria, levei este Nesbo, apodado, na capa do livro de bolso, de «autor nórdico do momento, best seller internacional» e que me custou 9,95 euros. Que fiquem pois com o seller que como best, estamos conversados. Grande banhada nórdica!

sexta-feira, outubro 13, 2023

«Uma Nova História do Mundo Clássico», de Tony Spawforth

Alma dos Livros, 2021. Tradução de Paulo Mendes
Título presunçoso tendo em conta ao que se propõe: uma «nova» história do mundo clássico! Sinceramente, nada encontrei de novo relativamente ao que se estudava há 45 anos. A saber: que o Linear A micénico ainda não foi decifrado (Done!); que Atenas e Esparta não se podiam ver (Done!); que, apesar de tudo, Esparta esteve a lutar ao lado de Atenas contra os Persas (Done!); que Homero era excepcional e que os seus poemas vieram até nós pela tradição oral (Done!); que os gregos eram requintadamente amantes da cultura, embora também fossem amantes entre homens (várias vezes realçado!) e as mulheres tivessem poucos direitos (Done!); que a Democracia não era benquista por Platão (Done!); e assim por diante... nada a declarar igualmente sobre Roma que é uma sucessão de lugares-comuns sem nada de verdadeiramente «novo» que instigue a aquisição da obra. 

O título do livro sugere a tendência de hoje no campo da divulgação histórica. Essa presunção do «novo» não é só sobre este livro. Basta passear pelas estantes das livrarias dos centros comerciais para ver que o vocábulo «novo» se implanta em qualquer livro principalmente nesta disciplina. Mas a insolência do «neo» acaba aqui. De facto, há qualquer coisa de novo no ar e que lemos neste livro em particular (mas há outros, há outros!): o recurso à experiência pessoal do autor, isto é, sem que seja necessário, ele diz que esteve presente na escavação tal ou tal, de modo a dar uma certa verosimilhança ao «estudado» mesmo que a escavações referidas não tenham dado em nada ou acrescentado algo de diferente do que já se sabia; a islamofobia latente em cada linha da exposição - chega a referir o «vandalismo islâmico», como coisa assente; ainda que de mansinho, uma simpatia não escondida e desculpabilizadora da acção de autocratas e imperadores como Nero ou Calígula, vítimas segundo ele de exageros contemporâneos. visto que eram amados pelo povo; o recurso irritante a comparações de imperadores ou políticos gregos e romanos com (imaginem!) Thatcher ou Trump; comparar a derrocada do império de Alexandre com a «Guerra dos Tronos» da Netflix, ou «chamar» a Rowling de «Harry Potter» para exemplificar os augures ou as pitonisas de Delfos é um exercício sublime de estupidez ou de uma puerilidade confrangedora.

Estamos de volta à história anedótica, personalizada, sem uma corrente de ar fresco que nos faça reconhecer e avançar nos estudos das instituições, da sociedade, da cultura, ou da economia dos povos. É pouco para um presunçoso e insolente «neo»!

«Os Litigantes», John Grisham

 

Bertrand Ed., col. 11/17. Tradução de Ana Mendes Lopes
Para quem ache que o policial é uma literatura menor aconselho a ler as opiniões que sobre o tema escreveram os principais escritores portugueses, ou não; para o caso, as fronteiras de nada servem. Mas ler John Grisham é uma boa aposta. Mais ainda se ele, com o conhecimento de causa que se lhe reconhece (foi advogado litigante durante anos antes de se tornar uma «besta célere»), nos demonstrar a completa imoralidade e insensibilidade do sistema de saúde americano e dos lucros fabulosos das multinacionais farmacêuticas dos EUA. O livro «Os Litigantes» é igualmente um retrato bem vivo do sistema de justiça que acompanha bem de perto o sistema de saúde. Todos ganham, menos, obviamente, os que mais precisavam de apoio. Os doentes, com ou sem seguros de saúde, as pessoas usadas como cobaias dos países pobres do Sul americano, africano ou asiático e os pequenos advogados engolidos pelos grandes escritórios de autênticos tubarões sempre em busca de vítimas e dólares. Também há advogados especialistas  em acusar os advogados que perdem invocando negligência, como se, em tribunal, entre a defesa e a acusação, a matemática não obrigasse um a perder! Mas há também especialistas em procurar desastres de automóveis, brinquedos chineses à venda com níveis de chumbo não adequados, especialistas em pessoas obesas para litigar com farmacêuticas ou com restaurantes de comida rápida. Alguns nem chegam a tribunal. Um punhado de dólares em acordos e já está, só que o dinheiro nunca chega às «vítimas». 

O liberalismo no seu melhor. O mesmo é dizer que vale tudo e tudo está à venda, seja o corpo humano, seja a própria justiça com o seu cortejo de hipocrisias e nomeações. Aqui, quem manda é quem tem dinheiro. Tão simples como isso. Um livro que substitui as longas páginas de jornais (alguns com interesses inconfessáveis) sobre o assunto e que, por vezes, lhes cheiramos as conivências. Ler este livro vale mais do que ler intermináveis e laboriosos estudos sobre as virtudes do liberalismo.

sexta-feira, setembro 29, 2023

«No Sentido da Noite», Jean Genet

 

Sistema Solar, Julho de 2016, Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Por mais que se leia, que se pesquise, que se pretenda conhecer melhor um autor como Genet, há sempre uma imensa lacuna, consequência do jogo tão legítimo, quanto narcísico, dos criadores em esconder os seus motivos, os seus sentimentos ou em utilizarem várias máscaras que são autênticas peças de um enorme puzzle, quase impossível de construir para um leitor, mesmo que atento ou interessado. 

Escrevi, quando do «Diário do Ladrão» traduzido por Miguel Serras Pereira, que Cocteau e Sartre sacanearam a obra e a pessoa de Jean Genet. Através da apresentação de Aníbal Fernandes em «No Sentido da Noite», conclui-se que haverá muitos mais. Não interessa nomeá-los, mas muita das «incompreensões» da obra de Genet surgem exactamente destas relações tóxicas mantidas durante anos por personagens da Rive Gauche que o ajudaram a editar e a ser conhecido no meio literário francês. 

Genet foi censurado pela rádio quando se opôs ao abrandamento da disciplina dos reformatórios para jovens delinquentes, sem que se percebesse totalmente o que afirmava, ele que por catorze vezes os habitou até aos dezasseis anos! Defendia que os jovens criminosos como ele esperavam do Estado, que os metia dentro das masmorras, o pior de todas as experiências de modo a atingirem um grau de expiação quase mítico. Genet que foi ladrão, pouco hábil, segundo as suas palavras aliás, foi preso pela primeira vez não por estes crimes, mas por viajar sem bilhete num comboio e por isso foi condenado a seis meses de reclusão! A contradição e crueldade mais obtusa do conhecido sistema prisional francês foi-se revelando sempre à medida que a sua idade progredia. Conheceu prisões e prisioneiros a que chamava de «colonos» lembrando a Guiana que entretanto foi abolida em 1961 como destino abominável de culpados ou não. Mas o sistema de reclusão era o mesmo, talvez pior pela falta de espaço, pelo confinamento absoluto e atrofia dos sentidos a que a personalidade do prisioneiro era submetida.

Genet amou e foi amado, foi traído e traiu, viu suicídios de amantes (ele que também se suicidou), viu, igualmente, demasiados mortos a tiro ou violentamente; foi nómada, politicamente empenhado no apoio ao imigrantes magrebinos em plena guerra da Argélia, esteve ao lado dos Black Panthers americanos e dos palestinianos, viu-se afastado pelos pensadores existencialistas dos cafés da moda que eles frequentavam. 

Genet escreveu sobre assassínios e viu a sua peça «As Criadas» ser representada como uma vulgar comédia e totalmente abastardada, mesmo após os seus apontamentos à representação serem pormenorizados ao milímetro de cada palco. Não acreditava em actores ou actrizes profissionais porque demasiados presos aos conservatórios oficiais e nada disso foi seguido. Depois de ter abandonado a literatura e a poesia, foi agora a vez de acabar com o teatro. Diz-se que rasgou ou queimou muita coisa que escreveu.

Volto ao princípio: como disse Sartre não sei se Genet (apodou-o de Saint Genet) era comediante ou mártir, o título do livro do filósofo que nunca lerei. Faltar-me-á sempre uma ou mais peças do puzzle para o considerar um escritor «maldito». Mas é inevitável ter de o ler. Só assim um pedaço proscrito da humanidade se pode juntar ao imenso «público de mortos», afinal os espectadores do teatro de Genet.

António Luís Catarino

segunda-feira, setembro 25, 2023

«Diário do Ladrão», Jean Genet

 

Diário do Ladrão, Minotauro, Setembro de 2022. Tradução de Miguel Serras Pereira
Jean Genet escreveu «Diário do Ladrão» em 1949, embora publicado clandestinamente um ano antes. Foi necessário Jean Cocteau inventar uma editora para que se desse a conhecer esta obra tão estranha, quanto ímpar na literatura. Sartre deu-lhe asas, isto é, sacaneou de tal maneira o seu «amigo» Genet, «santificando-o» e «interpretando-o», que este não lhe perdoou. Durante sete anos após um livro vergonhoso de Partre (para parafrasear Vian) sobre ele, chamando-lhe de Saint Genet e apodando-o inclusive de comediante, não escreveu mais nada, mas isso são contas de outro rosário e não será por acaso que o registo católico, em Genet, vem ao caso. Citaremos «O Sentido da Noite» para mais tarde analisarmos um pouco mais esta relação venenosa entre o papa do existencialismo e Jean Genet. Nessa ocasião prestaremos contas, agora vamos a este livro dificilmente ostracizado. Diríamos, mesmo, impossível de o esquecer se nos embrenharmos na sua leitura, despojando-nos de preconceitos sobre a maldição que ainda transporta seu nome.

Genet, foi abandonado pela sua família, conhecendo não só famílias de acolhimento, como também reformatórios cuja disciplina e crueldade foram do pior que se pode imaginar. Não encontro neste «Diário do Ladrão» nenhuma desculpa como é comum lermos em outras biografias idênticas, de indivíduos ou mulheres que optaram pelo crime. Nem sequer encontramos uma secreta alegria pela «reforma mais humana» dos reformatórios para crianças e do sistema prisional em geral, pelos anos 60 em França. Pelo que leio e sei, as prisões de França ainda são, hoje, das mais duras do mundo. Jean Genet tem uma trípode neste livro que apresenta: o roubo, a homossexualidade e a traição «(...) são os temas essenciais deste livro. Uma relação, senão sempre aparente, existe entre eles, pelo menos parece-me reconhecer uma espécie de comunicação vascular entre o meu gosto pela traição, o roubo e os meus amores.» (pág.174). O assassínio e a violência surgem como a ordem natural das coisas, uma evolução para um patamar superior, com cicatrizes deixadas no corpo como medalhas, por quem escolhe o tipo de vida que ele escolheu: «Sem me crer nascido magnificamente, a indecisão da minha origem permitia-me interpretá-la. Acrescentava-lhe a singularidade das minhas misérias. Abandonado pela minha família parecia-me já natural agravar esse facto através do amor dos rapazes e esse amor através do roubo, e o roubo através do crime ou da complacência perante o crime. Assim recusava decididamente um mundo que me recusara. (...) A prisão rodeia-me de uma garantia perfeita. Estou certo de que foi construída para mim - com o palácio de justiça, a sua dependência, o seu monumental vestíbulo. Segundo a maior seriedade tudo aí me foi destinado. O rigor dos regulamentos, a sua estreiteza, a sua precisão, são da mesma essência que a etiqueta de uma corte real, que a cortesia requintada e tirânica da qual nessa corte o convidado é objecto.» (páginas 89,90)

Genet assume uma vida perigosa em regiões e cidades perigosas em países perigosos, num mundo a explodir em violência para ele inaceitável. Roubou na Alemanha de Hitler e sentiu um verdadeiro asco em ver a aceitação da população perante verdadeiros criminosos que impuseram a ordem dos lager. Não é um paradoxo ou contradição de Jean Genet. É outra coisa: trata-se de uma coerência excepcional de alguém para quem o roubo é a vida, o florescimento da vida, tal como a prostituição aceite como natural desde a sua infância miserável. Mas colocar o crime no âmago do Estado era para ele insuportável. Conheceu igualmente Barcelona pouco antes da Guerra Civil e voltou lá após a guerra e soube estar ao lado dos que perderam, o que para ele era a lógica dominante na sua vivência. Errou por Antuérpia, Amesterdão, Bordéus, Marselha, a sua Paris e declarou que não haveria cidade da Europa em que não conhecesse um ladrão ou grupo constituído de ladrões. Fez o perfil destes grupos de criminosos, pequenos ou grandes, cujas leis internas variavam ao sabor das vontades, dos ódios ou do amor entre os seus elementos, fossem eles femininos ou masculinos. Para além de ladrão foi prostituto, assaltante armado, jogador, traidor dos seus, sentiu a miséria extrema de um sem-abrigo, a fome e a sujidade mais abjecta. E nisso, conseguiu ver a liberdade, a luminosidade santificada dos que abraçam o Mal e que por qualquer escuro caminho praticariam igualmente o Bem por desespero. «Desejo por um instante pôr uma atenção aguda sobre a realidade da suprema felicidade no desespero: quando se está só, de súbito, frente à sua perda súbita, quando se assiste à irremediável destruição da sua obra e de si mesmo.» (pág.214) «(...) mas sobretudo quero ser um santo porque a palavra indica a mais alta atitude humana, e farei tudo para aí chegar. Aí empregarei o meu orgulho e aí o sacrificarei.» (pág.215)

Há, contudo, um aspecto que não consigo compreender totalmente em Genet: o seu silêncio perante o processo literário. Quando e onde escrevia? Quando e onde lia? O que lia? Adivinho uma vida errante, de quarto em quarto, de pardieiro em pardieiro, de noites e dias fugidios e frenéticos, de prisões muitas. O seu vocabulário é abundante e certeiro. Sabe escrever bem, tem uma grande cultura (mais bíblica, é certo), sabe defender-se e explica porque escreve, mas na sua obra inicial não há momentos de contemplação, de busca e produção literárias. Após o reconhecimento que se lhe seguiu, sim, podemos perceber o tempo despendido nos livros, nas respostas e nas cartas a defender-se dos escândalos que sobre ele caía (óbvio!), os ataques e a censura oficial sobre ele, o abandono da literatura e o seu silêncio antes de enveredar pelo teatro, para ele mais verdadeiro e, talvez, mais livre de «segundas leituras»: «A menos que sobrevenha, de uma tal gravidade, um acontecimento tal que perante ele a minha arte literária seja imbecil e eu precise para dominar essa nova desgraça de uma nova linguagem, este livro é o último. Espero que o céu me surpreenda sem avisar. A santidade é fazer servir a dor. É forçar o Diabo a ser Deus. É obter o reconhecimento do mal. Há cinco anos que escrevo livros: posso dizer que o fiz com prazer mas acabei. Através da escrita obtive o que buscava. O que, sendo para mim um ensinamento, me guiará, não é o que vivi mas o tom em que o relato. Não as anedotas mas a obra de arte. Não a minha vida mas a sua interpretação. É o que me oferece a linguagem para a evocar, para falar dela, para a traduzir. Conseguir a minha lenda. Sei o que quero. Sei para onde vou. Os capítulos que se seguirão (já disse que um grande número se perdeu) deixo-vos avulsos.» (pág.210) A sua obra não foi somente «perdida»; sabemos que foi igualmente destruída por si. Genet suicidou-se em 1986.

António Luís Catarino

sexta-feira, setembro 22, 2023

Arthur Cravan, poeta e boxeur

 

Mélanges éd., 2005
Um livrinho editado em 2005, baseado num poema impresso pela primeira vez em 1915 no número 5 da revista Maintenant dirigida pelo próprio Arthur Cravan, poeta, boxeur e dadaísta. Mas não só. A sua vida é extraordinária e, pelo que sabemos, confunde-se literalmente com os pressupostos Dada. Foi-me oferecido pelo Pierre, responsável da livraria/alfarrabista La Manufacture, de Montolieu. Não me atrevendo a traduzir o que quer que seja de Cravan aqui vai uma declaração de amor inscrita no poema de 8 páginas com que nos atinge de frente:
(...)
Et tandis qu'allophage
A l'amour de ton chauffage,
Nos gilets
Se câblent leurs violets,
Que, chéri et choufleur,
Je suis tes gammes
Et tes couleurs,
Et, qu'en un amalgame
De Johnson, de phoque et d'armoire
Nos merdes rallument leurs moires,
Fff! les pistons
Du veston.
Dans la finale
Abdominale!
(...)
Cravan está, contudo, publicado em português numa edição já esgotada de 1980 pela Antígona e acompanhado por Jacques Rigaut e Jacques Vaché. Suponho ser importante referir que Abel Prazer/ Silva de Viseu, seus tradutores (ou, talvez, tradutor somente), escreveram nesta antologia:
«De Cravan vai publicada, na presente colectânea, toda a sua obra, excepto os poemas e aquilo a que ele chamava ''prosopoemas''. As dificuldades de tradução destes últimos textos eram tantas (rimas, aliterações, etc.) que o prazer de divulgar um autor a nossos olhos simpatiquíssimo - e para isso basta ele ter preferido o boxe à literatura - se dissolveria completamente num tão ciclópico trabalho. Fez-se o que se pôde.» (pág.5 e 6)

A biografia de Cravan, como disse atrás, fala por si e resumo um pouco a que foi descrita na mesma antologia e com base na revista Maintenant:
1881 - Nasce o Misterioso Sir Arthur Cravan, de seu verdadeiro nome Fabian Lloyd, o poeta com os cabelos mais curtos do mundo, neto do Chanceler da Rainha, naturalmente, sobrinho de Oscar Wilde, renaturalmente, e neto de Lord Alfred Tennyson, re-renaturalmente.
Abril de 1912 a Abril de 1915 - Aparecem os cinco números da pequena revista Maintenant, dirigida por Arthur Cravan. Segundo Breton, ''por ódio às livrarias abafadiças onde tudo se confunde e tudo cai aos bocados ainda em estado de novo, Cravan transporta, ele próprio, um sortido de Maintenant numa carroça de vendedor ambulante.
Junho de 1914 - Na sola de Sociétés Savants junta-se um numeroso público que Cravan insulta e perante o qual dança e faz uma demonstração de boxe.
23 de Abril de 1916 - Em Espanha, o pugilista negro Jack Johnson, campeão do mundo de pesados, bate Cravan por KO ao primeiro assalto. Cravan foge e pede perdão ao antagonista.
25 de Dezembro de 1916 - Vai para os EUA no navio «Montserrat» onde se cruza por acaso com Trotsky.
Março de 1917 - Cravan é convidado para dar uma palestra sobre o humor moderno nos «Independesntes» de Nova Iorque. Surge embriagado, despe-se e a polícia intervém.
Abril de 1917 - Os EUA entram na guerra e Cravan vai para o Canadá onde se casa com a poetisa inglesa Mina Loy de quem terá uma filha. Depois parte para o México.
1919 - É professor de Educação Física na Academia Atlética Mexicana. Desaparece, de canoa, no Golfo do México. 

Edição portuguesa da Antígona, 1980. Cravan, Rigaut, Vaché. Tradução de Abel Prazer/Silva de Viseu

Nesta antologia vale a pena ler, se a conseguirem adquirir, uma carta endereçada a André Gide e a Apollinaire, entre outros nomes insultados... por vezes, ao ler estes poetas cuja vida se confunde com a sua poesia, penso como seria profícua a vinda de um poeta boxeur a este recanto. 

António Luís Catarino

terça-feira, setembro 12, 2023

Sketchbook de férias, 2023, Pays d'Oc, Ocitânia

Montolieu, a chamada Village du Livre et des Arts. A história destes sortudos 760 habitantes é simples: nos anos 80, um bibliófilo de Paris farto de estar por lá, criou, com a ajuda da Mairie e de uns quantos entusiastas locais, condições para virem, com armas e muitas bagagens, alfarrabistas de toda a França (e alguns ingleses também) para Montolieu. A pequena vila ainda hoje está em recuperação deste sonho, depois de ter falecido o seu mentor. Mas aquilo não pára. Só dele, de Michel Braibant, uma grande e antiga fábrica foi adaptada para um lugar onde se podia vender e comprar livros de todos os géneros. Hoje, esta antiga fábrica separou-se e deu origem a uma livraria independente e naquele espaço ficaram somente ateliers e oficinas de pintura e de arte. Não sem que nos lembrassem que aquela antiga fábrica foi lugar de exílio forçado de 400 republicanos espanhóis que fugiam de Franco e que aquela vila se recusou a entregar. A bandeira da Espanha republicana está lá a recordar-nos.

Maison Rives. Casa de hóspedes onde ficámos 4 noites, 5 dias. O Sr. Bernard era o dono. O nosso quarto era o da varanda. A sala comum era bonita e o mobiliário antigo a fazer lembrar as casas dos nossos avós. Tomávamos o pequeno-almoço na cozinha servido por ele que tinha igualmente uma livraria a «Palmade»
Torre principal da Igreja de Santo André na praça principal da vila
Outra imagem da Igreja de Santo André vista da Place de La Liberté, antigo convento beneditino
Livraria alfarrabista «La Manufacture» cujo dono, Pierre, para além de um grande conversador sabia muito sobre autores e livros. Nasceu e viveu em Paris (sabia falar o argot de Céline) durante muitos anos até se fixar na Ocitânia em busca de paz e de uma vida diferente. A livraria era uma maravilha de 3 andares, fora o sótão, e os preços eram incrivelmente baratos. 
Rua principal de Montolieu. Ligava a Maison Rives, onde estávamos hospedados, à Place de La Liberté em poucos minutos. A pé, claro. As casas de habitação mantinham a traça antiga. Do lado esquerdo, vê-se as grossas paredes da Igreja de Santo André.
Place de La Liberté. Ao fundo um restaurante a que íamos jantar muito bem uns pratos do País d'Oc com vinho d'Oc, pois claro: o «Casquette et Chapeau». A fonte e o jogo da petanca não podiam faltar. Os plátanos, que não se podavam, faziam com que a temperatura baixasse a do muito calor que se fazia sentir.
A antiga «Manufacture Royale», fábrica têxtil fundada no século XVIII, era agora uma casa de habitação permanente de artistas e fotógrafos, para além de restaurante, bar e jardim. As exposições nas galerias variavam entre o naif e o profissional. Falámos com todos os artistas presentes. Também jantámos, esperando que nos servissem nuns «rápidos» 45 minutos antes de começarmos a comer! Eram quase todos budistas, o que desculpa tudo! A Ananda sentada a beber um aperitivo.
Restaurante de eleição: o «La Rencontre». Gente simpática, jantava-se debaixo de uma latada com comida francesa, principalmente o pato confitado, peixe e também a da região da Ocitânia. O vinho era muito bom, diga-se, principalmente o branco fresquinho. Era usual falar-se com os convivas do lado.
Mazamet, a norte de Montolieu. Aqui se encontra o Museu do Catarismo, a heresia que levou a Igreja Católica a um massacre de milhares de pessoas e à criação da Inquisição, já no século XIII. A luta aberta levou quase 20 anos e a luta «surda» permanece ainda. A repressão e as torturas, os autos-de-fé foram de tal violência que ainda hoje perdura um rancor das populações não totalmente ultrapassado contra Paris e contra uma personagem quase inominável: Simon de Monfort, o que destruiu cobardemente Constantinopla e a sua valiosíssima biblioteca em cruzadas anteriores no Médio Oriente. 
Quanto ao catarismo e ao que significava dava muito para falar e embora não caiba aqui referir os seus princípios (neste blogue damos conta deles) podemos dizer que lutavam por um cristianismo primitivo e uma igreja mais ligada aos pobres e às mulheres. A igreja oficial não poderia permiti-lo. As rotas de fuga dos cátaros incluem Portugal, nesses séculos a braços com problemas de povoamento.

Desenhos e legendas de António Luís Catarino
Agosto de 2023

segunda-feira, setembro 11, 2023

«Auto-de-Fé», Elias Canetti

 

Cavalo de Ferro, 3ªed.2023, Tradução de Luís de Almeida Campos
Livro editado em 1935, escrito desde 1929 em Viena e terminado em Berlim, e que estava para ter outros títulos entre os quais «Cegueira», «Kant incendeia-se» ou «Brand». Elias Canetti escolheu «Auto-de-Fé» que, contudo, teria a ver sempre com o fogo. Fogo e livros. Livros estes que eram a obsessão louca de Peter Kien, a personagem «homem-livro» que acaba devorado pelo incêndio que provocou à sua enorme biblioteca, perecendo com ela no final do romance. Aliás, como nota avulsa, deve dizer-se que a palavra «kien» é também a «madeira resinosa» que se usava para atear fogueiras. Ironia pérfida é o facto deste livro ter feito parte dos incêndios de publicações que iluminavam as noites macabras das marchas nazis de archotes a partir de 1933 e que o consideraram «degenerado». Canetti exilou-se então nos Estados Unidos para não morrer às mãos dos nazis como judeu sefardita que era. Voltando à personagem que enforma «Auto-de-Fé», Peter Kien era o protótipo de o «Homem-livro», aquele que vivia para eles e neles só encontrava a «verdade», ignorando tudo o resto incluindo os vícios e, talvez, as virtudes da humanidade. Alto e magro, misógino, egocentrado, professor universitário que desprezava os alunos deambulava por Viena com uma pasta, passeando os livros que escolhia nesse dia para o fazer. Dormia num divã com eles. Contudo, casa-se com a governanta que sentia tratar bem dos livros...
Não me ocorre uma «descrição» do único romance de Canetti e que, junto com outros, o levou ao prémio nobel de 1981, e que seria forçosamente redutora tal a profundidade filosófica com que o ilustrou. Diz o autor, talvez referindo-se ao processo de escrita de «Auto-deFé» que «A crueldade daquele que se obriga a admitir uma verdade atormenta-o sobretudo a si mesmo: o escritor violenta-se a si próprio cem vezes mais que o leitor.(pág.553)» Não pretendendo, sequer, ousar desmenti-lo posso todavia afirmar que o leitor não sai incólume da leitura desta obra clássica. Estão lá plasmadas a alienação, das massas sim, mas também do indivíduo que mergulha no mundo dos livros e que os considera mais humanos que os humanos que desconhece, a loucura, a religião (todas elas sem agravo), a psiquiatria ou a mesquinhez quer dos poderosos, quer dos subordinados. Todo este exercício literário sobre a alienação remete-nos já para os livros de ouro de Canetti como «Massa e Poder» e «Língua Resgatada» cuja leitura se tornou agora obrigatória para mim, se bem que já tenha lido, há demasiado tempo e julgo que sem o instrumento poderoso da idade, o primeiro deles. 

«A ciência tinha-lhes inculcado uma fé cega na causalidade. Personagens convencionais, cingiam-se fielmente aos costumes e opiniões da maioria. Procuravam o prazer e interpretavam tudo e toda a gente em função dessa procura: uma mania da época que dominava todos os espíritos sem dar grandes resultados. E por prazer entendiam, naturalmente, todos os vícios tradicionais que o indivíduo,. desde que existem animais, pratica com um afinco que não desfalece.
A verdade é que nada sabiam daquela força motriz da história, muito mais profunda e autêntica: o impulso humano para se fundir numa espécie animal superior, a massa, e perder-se tão irremediavelmente nela como se nunca tivesse existido um homem isolado. Porque, além disso, eram educados, e a educação é uma arma defensiva do indivíduo contra a massa que transporta dentro de si.
Não menos que a luta pela fome e pelo amor, praticamos a chamada luta pela vida com o fim de aniquilarmos a nossa massa interior. Mas esta fortalece-se tanto, sob certas condições, que obriga o indivíduo a a gir de forma desinteressada e até contra os seus próprios interesses. A humanidade existia como massa já muito antes de ter sido formulada e diluída em conceitos. Como um animal monstruoso, selvagem, ardente e exuberante, a massa ferve e agita-se no mais profundo do nosso ser, a maior profundidade que as nossas próprias Mães. É, apesar da sua idade, o mais jovem de todos os animais, a criatura essencial da Terra, a sua meta e o seu futuro. Mas nada sabemos dela e vivemos, supostamente, como indivíduos. Não obstante, a massa abate-se às vezes sobre nós como uma maré espumante, como um oceano furioso em que cada gota permanece viva e aspira ao mesmo. Passado pouco tempo dispersa-se, devolvendo-nos ao nosso estado habitual de pobres diabos solitários. E então torna-se-nos inconcebível recordar que alguma vez chegámos a ser tanto, tão grandes e tão «Uno». «Doença», dirá um comentarista inteligente; «a fera do homem», atenuará um humilde cordeiro, sem suspeitar quão perto da verdade se encontra o seu erro. Entretanto, a massa prepara um novo ataque de dentro. Até que um dia não volte a dispersar-se, talvez num único país, no princípio, e dali comece a propagar-se para todos os lados até que ninguém ponha em dúvida a sua existência, porque já não haverá mais Eu, nem Tu, nem Ele, mas apenas ela: a Massa.» (pags. 476,477)

Este trecho de «Auto-de-Fé» foi escrito em 1935, lembrando-nos que estava na forja, pelo menos, desde 1929, ano de todas as acções de massas principalmente as do fascismo e do nazismo contra os quais Elias Canetti lutou, até de armas na mão, como eles nos conta no Posfácio de 1973 a uma edição vienense deste livro. O caso deve ser descrito aqui: numa manifestação de esquerda assassinaram nove operários em Viena. Os jornais, os jornalistas e escritores da altura ou, na sua maioria, defenderam os assassinatos ou, mantiveram-se cobardemente calados, menos Karl Kraus, evidentemente; o veredicto do julgamento absolveu os perpetradores e julgou até necessário esse crime. A resposta foi espontânea dos operários que, sem os seus chefes conciliadores social-democratas, atacaram e incendiaram o Palácio da Justiça de Viena. A polícia fez então 90 mortes entre os operários onde se encontrava Elias Canetti, também ele em protesto. Ao seu lado estava alguém que, exuberante, gritava «Foram-se os processos! Todos queimados!». O jovem Elias Canetti não se conteve e violentamente retorquiu-lhe: «Há dezenas de pessoas mortas e você só pensa nos processos?» (no Posfácio). Significativo.

De qualquer modo, e pelo que escrevi, não pensem os liberais e os «neos» que os acompanham que Canetti é um deles. Decididamente, não. Antes pelo contrário: de matriz claramente marxista, não fosse da geração nobre de entre guerras de Viena e Berlim, conheceu Karl Kraus a quem não regateou influências, o desenhador George Groz de quem foi grande amigo e Isaak Babel, para além de Brecht que o «adoptou» como seu discípulo e, mais tarde, depois de ter ultrapassado alguma desconfiança acerca dos escritores vienenses não tão frontais e hiperactivos como os de Berlim, tornou-se íntimo de Musil e de Broch. Há um facto curioso e que tem a ver com Brecht: na minha leitura de «Auto-de-Fé» deu-me para pensar na possibilidade de uma adaptação grandiosa para o teatro desta obra à maneira de Kraus ou de Brecht; aquela obra, dividida em três grandes capítulos, não era de todo impossível e não sei se alguém o tentou ou, sequer, se era um desejo de Canetti realizá-la. Já com Thomas Mann (mais uma achega para eu detestar o homem) as coisas não correram tão bem. Durante muito tempo «Auto-de-Fé» esteve parado na gaveta por recusa de o publicar por editores medrosos, como Suhrkamp por exemplo, e quando Canetti o enviou para apreciação a Mann este recusa lê-lo, visto que não teria muito tempo para o fazer. Quando foi editado em Viena e o êxito começou a mostrar-se como devia, este tem o desplante de o considerar «tão bom como o ''Henri Quatre'' de Einrich Mann, seu irmão» (!?). Pergunto: alguém conhece este última obra ou o autor? Pobre Thomas Mann! Elias Canetti morre em Zurique, em 1994. Deixou-nos um clássico impossível de não ler.

quinta-feira, agosto 31, 2023

Hotéis

 

Quando procuro hotéis para ficar uns tempos, procuro quase sempre aqueles que já demonstram, em todo o seu orgulho escondido, o passar do tempo. Quase sempre enormes, quando a possibilidade de ter um grande número de empregados a baixo preço era uma realidade, começam a apresentar fissuras nas paredes, as carpetes antigas a desfiarem-se, os sofás já um pouco puídos, os móveis quase sempre de madeira africana a exibir a sua excelência mas diminuídos por enormes pantalhas de televisores sempre ligados. Contudo, ainda existem estatuetas de anjos dourados na sala de jantar e candeeiros robustos, para além de mosaicos azuis e amarelos, agora em vinil tentando o ambiente oitocentista que se mistura com o chamado «vintage». Os novos empregados já não têm farda. Usam ténis e vêm de escolas profissionais de turismo, arreganhando simpatia, é certo, mas esquecendo-se de dar a provar o vinho. Condescendentes, sorrimos sempre dando-lhes ânimo para continuarem o trabalho sem grandes sobressaltos. Nos longos corredores já não passa ninguém. Só as responsáveis pelas limpezas matinais, falando alto e ligando as televisões dos quartos para estarem atualizadas com os programas da manhã. Entretanto, aspergem líquidos azuis e verdes para higienizar ambientes. Na recepção, mal damos pelos olhos dos que nos recebem: encontram-se ligados ao computador ou ao telemóvel, os sorrisos forçados, o olhar dirigindo-se para onde está o director, quase sempre escondido num gabinete.

Interessam-me sempre as pequenas grandes histórias dos enormes hóteis. Mas não as procuro lá dentro. Quase sempre a população que vive em pequenas vilas onde aqueles se impõem contam-nos toda a saga que fez o hotel de charme ser levantado. Nunca se duvide dessas histórias. Todas são verdadeiras.

"Troisième Lexique", Jean Grenier e Arpad Szenes

 




Este livrinho que encontrei meio escondido numa caixa da livraria "La Manufacture" junto com outros, em Montolieu, foi a descoberta de uma pequena maravilha. Data de 1973, publicado pelas Éditions Galanis e vale essencialmente pelos 31 desenhos originais de Arpad. Estes fazem parte de um dicionário imaginado pelo filósofo humanista Jean Grenier que faleceu dois anos antes (obra póstuma, portanto) e onde se pode ler, utilizando alguma ironia, o que ele entende em diversas entradas. A do desenho que exponho aqui faz parte da letra O onde se encontra a entrada «Oeuvre». Traduzo: "Por vezes, um meio de comunicar o que não se quer comunicar"!

domingo, agosto 27, 2023

Guy Debord. BD de Jochen Gerner


No número 458 de "Le Un Hebdo", de Agosto de 2023, encontramos uma BD de Jochen Gerner sobre a vida de Guy Debord num número a todo ele dedicado.

sexta-feira, agosto 25, 2023

«Debaixo do Vulcão», Malcolm Lowry

 

Relógio D'Água, 2007. Tradução do prefácio, Manuel Alberto. Tradução: Virgínia Motta
México, finais dos anos 30. Um país sempre em convulsão, após o fim da revolução socializante de Cardenas, acompanhando um mundo a preparar mais uma guerra mundial. Malcolm Lowry esteve dez anos para finalizar este livro impossível de catalogar, nem teria interesse em fazê-lo. O escritor avisa-nos, num prefácio à edição francesa e que a editora portuguesa teve a feliz ideia de o incorporar, que teve de lutar contra os editores que não só o recusavam durante anos seguidos, mas igualmente com aqueles que, aceitando a obra, pediam-lhe, contudo, para a encurtar. Nunca cedeu e a sua quarta versão aí está tal como foi a vontade de Lowry. Um extraordinário livro que é um clássico, tal como ele tinha vaticinado aos seus editores americanos e ingleses.
Mas Lowry solicita-nos a nossa atenção para mais umas quantas questões que a leitura de uma obra estranha e violenta pode acarretar. Em primeiro lugar, a cadência da narrativa que ele, no prefácio já referido, compara à poesia, a um texto poético onde por vezes se tem de ler duas a três vezes a mesma frase para entender o seu sentido, ou melhor, o sentido que lhe queiramos dar; segundo lugar e já que falámos em sentidos, este é sem dúvida um livro emocional, visto por uma personagem alcoólica e bebedora de um extracto da mescalina, o mescal, que é alucinogénio. No México era absolutamente legal, que faz com que Malcolm Lowry, que criou o seu alter ego na figura de Geoffrey, um cônsul britânico naquele país, tivesse várias crises alcoólicas e psiquiátricas graves, estando internado duas vezes, também, ao que se julga, por amor pela actriz Jan Gabrial que conhece em Granada e que, no romance, terá o nome de Yvonne. A Espanha e a Guerra Civil, nomeadamente a frente do Ebro, será uma constante em todo o «Debaixo do Vulcão».
Mas também a descrição das alucinações de Lowry e digo-vos que é raro, mesmo nos impressionistas do absinto e depois pelos dadaístas e surrealistas ou nos que vieram depois deles e que tentaram entrar em estado de loucura (não comendo ou dormindo dias seguidos) para com isso conseguir escrever as suas impressões sonâmbulas, encontrar visões do inferno tão imensamente ternas, violentas e belas como encontramos neste livro. Por isso ele acreditava nos anjos, fossem eles do mal ou do bem numa terra que cultiva a morte como o fazem os mexicanos, o que talvez por isso, seja o povo dos mais felizes do mundo. E também dos mais violentos, diga-se. Deixo-vos com uma das alucinações não de Geoffrey, mas de Yvonne que experimenta o mescal pela primeira vez tentando perceber a decadência irremediável daquele (que desembocará na sua morte), escritas e registadas por Lowry (ele dizia-se um registador dessas mesmas alucinações):
«Repugnante, áspero e sabendo a éter, o mescal, a princípio, não lhe produziu calor no estômago; somente, como a cerveja um frio intenso. Mas deu resultado. Fora do pórtico, uma guitarra, ligeiramente desafinada, atacou «La Paloma». Uma voz mexicana cantava, e o mescal continuava a produzir os seus efeitos. Afinal, possuía a qualidade de uma boa bebida forte. Onde estaria Hugh? Teria encontrado finalmente ali o Cônsul? Não, ela sabia que ele não se encontrava ali. Olhou em torno de El Popo, uma casa morta e sem alma, que vibrava e gemia,, como o próprio Geoff poderia ter dito - um mau fantasma de um restaurante americano à beira da estrada; mas já lhe não parecia tão medonho. Escolheu um limão de entre os que estavam na mesa e espremeu umas gotas para dentro do copo. Contra o costume, tudo aquilo lhe levou muito tempo a fazer. De repente, deu porque estava a rir para si própria de forma singular. Qualquer coisa ardia dentro dela, explodia e, mais uma vez, também, no seu cérebro se desenhou uma mulher que batia incessantemente com os punhos no chão...
Mas, não, não era ela que estava a arder. Era a casa que na sua imaginação criara. Era o seu sonho. Era a quinta, era Órion, as Plêiades, era a casa de ambos à beira-mar. Mas onde era o fogo? Fora o Cônsul quem primeiro dela por ele. Que pensamentos insensatos, pensamentos sem forma nem lógica eram aqueles? Estendeu a mão para outro mescal, o mescal de Hugh, e o fogo apagou-se, foi dominado por uma onda súbita, que  a penetrou inteiramente - uma onda de desesperado amor e ternura pelo Cônsul. (...)» (pág. 303)
Lowry vem a morrer precocemente em 1957, em Sussex, após internamentos, viagens contínuas em busca de uma deriva salvífica, bebendo muito álcool, contando com vários divórcios, abuso de barbitúricos e uma escrita nem sempre compreendida. A este inglês, ex-estudante em Cambridge, solidário para com os mais fracos e do lado certo das guerras que presenciou, foi-lhe  passado uma certidão de óbito por um médico, talvez igualmente poeta que apôs a frase seguinte: «Death for misadventure».
 
António Luís Catarino

terça-feira, agosto 15, 2023

«La Frontière», Pascal Quignard

 

Éditions Chandeigne, 1992 e Gallimard poche, 1994
Um livro já relativamente antigo de Pascal Quignard, mas que tem muito a ver connosco, com os portugueses e principalmente com a História portuguesa do século XVII. A «fronteira» é relativa às estórias (são várias que se cruzam) do Marquês de Fronteira e da Restauração de 1640 até ao período de 1690. 

Digamos que o livro tem um interesse limitado devido, até, ao motivo que o levou a publicar. As Edições Quetzal, com Maria da Piedade Ferreira e Rogério Petinga, no dia 19 de Maio de 1992, associaram-se a uma grande festa dos Marqueses de Fronteira, ora toma!, no Palácio do mesmo nome e, com tradução de Pedro Támen. O livro de Pacal Quignard surgiu, pois, entre champanhe e canapés, nos labirintos algo esquivos dos jardins, entre estátuas eróticas e azulejos que tentam retratar a vida nobre e alguma dissolução de costumes da nobreza da altura. Nada que não soubéssemos já, mas a razão de tais temas nos azulejos terão a ver com a história que Pascal Quignard conta neste romance excelente, com uma contenção assinalável de somente 80 páginas. Não sei se a encomenda saiu como os pagantes gostariam que fosse publicada, isto é, por suas nobres senhorias Mafalda e Fernando de Mascarenhas, mas a ideia que fica é de uma violência assassina que era apanágio da nossas «elites». Eis a nossa monarquia bragantina em todo o seu esplendor desde D. João IV: uma cambada de dissolutos, bêbados,  toureiros, gulosos de comezainas e de carnes muitas, violadores em grupo de mulheres sue viviam sozinhas nos arrabaldes, entre elas descendentes de mouras e de judeus portanto desculpáveis por qualquer coisinha, pedófilos, assassinos mesmo entre eles, seja por ciúmes, seja por promessas não cumpridas, também atacavam quem se atrevia a sair na noite perigosa lisboeta. Roubavam igualmente mendigos e sem-abrigo quando o dinheiro da estroina faltava! 

Há, contudo, uma heroína nesta história de Quignard e que está representada nos azulejos dos jardins de Fronteira: é a Madame d'Oeiras que, apesar de um suicídio impossível de evitar segundo os costumes da época e, claro desculpável pela igreja devido à sua estirpe social (deu-a como doida para a safar das chamas do inferno!), capou o amante, Monsieur de Jaume (um criminoso francês a quem lhe deram título por ter ajudado os nobres nos combates contra Castela), por ter descoberto que tinha matado o marido numa caçada ao javali, para ficar com ela numa teia que teria urdido desde que ela era criança. A vingança foi feita e está exposta em azulejos, em ouro sobre azul, ainda hoje no Palácio Fronteira.

A questão que coloco é esta: a «encomenda» era mesmo para ter este retrato e este fim? Se assim não foi, Pascal Quignard saiu, sem ironias, mesmo melhor que a encomenda, como se diz cá na terrinha ainda embevecida pelas suas «elites»! O retrato que delas dá Quignard não é suposto ser assim, digamos, tão cru, para com um regime que caiu de podre e que no seu seio gerou das maiores aberrações que a História assinalou. Pena que Aquilino não tenha podido ler este livro.

«Soif», Amélie Nothomb

 

Albin Michel, poche, 2019
Amélie Nothomb diz que é o livro da sua vida tal como refere a cinta do livro de bolso. Seja, e só ela o pode dizer. É uma escritora que sigo com interesse.

«Soif» é herege, partindo do princípio que a Igreja Católica Romana, na sua tentativa reformadora e de sobrevivência, ainda considera a imagem do Cristo humano como heresia. Esta sede é literal, portanto não confundi-la com a «sede» espiritual de que fala um nosso cardeal-poeta-bibliotecário da Vaticana. Amélie Nothomb cria um monólogo na primeira pessoa de Cristo e fá-lo falar, pensar, amar, odiar, desprezar, mentir, invectivar Deus ele-próprio, pai que o castiga sem que se saiba bem o porquê, diz-lhe ele para salvação da Humanidade, questão posta de lado por Cristo desde logo. A humanização terna de Nothomb à figura de Cristo sensibiliza-nos e acredito a qualquer católico que tenha uma ponta de amor pelo homem, filho de Deus, o que ele, desde logo e durante a Paixão rumo a Golgotá, põe em dúvida. Então donde vem esta sede, metáfora sempre presente nas escrituras, principalmente em João e Mateus? Torna-se em «Soif» a sede literal, como o disse atrás. As dores da Paixão, a fúria e o gozo da multidão que o agride, a coroa de espinhos, a fustigação contínua do chicote, o sangue, a nudez e o suor, a ausência dos apóstolos, as dores insuportáveis principalmente nos pés e nos músculos das pernas quando crucificado, obriga urgentemente a água. É necessário, diz a certa altura do sacrifício (e porquê este sacrifício?, repete Cristo) ter sede, para saber a maravilha que é beber água. Num dos melhores momentos do livro (e nas cenas bíblicas também), um soldado romano pede então a um centurião romano permissão para lhe dar água a que é atendido. Fá-lo, molhando uma esponja com vinagre, o que em vez de ser mais uma tortura como é contado vezes sem conta nos catecismos oficiais, era uma forma de aplacar essa sede brutal, método que era usual nas legiões romanas nas longas marchas dos seus soldados. O prazer que Cristo sente ao beber essa água, no meio das dores enormes da tortura e da crucificação, fá-lo lembrar-se de Epicuro e dos seus ensinamentos sobre o prazer (oh heresia!). Prazer que nunca renunciou com Madalena, amando-a tão humanamente, que, recordando a sua vida nas poucas horas que lhe restam, terá suposto fugir com ela para lugares recônditos, não reconhecíveis, nem conhecedores da sua pessoa e dos milagres que ele (e outros antes dele, como diz) protagonizou. Queria levantar-se todos os dias junto a ela, viver a vida comum observando ternamente uma cara que, logo que a viu, lhe fez descobrir nele a beleza e o desejo que não recusou. Madalena é a única que está com ele na morte, junto do soldado romano que lhe dá o golpe fatal no coração para lhe acabar com o sofrimento.

Uma excepcional heresia e um livro que deu, como não poderia deixar de ser, uma polémica desgraçada em França com a Igreja que nada compreendeu da obra de Amélie Nothomb. Este é um livro de amor. De grande e terno amor. E, tal como conhecemos o «Evangelho segundo Jesus Cristo» de Saramago, como uma obra de profunda gratidão e amor principalmente para com Maria, não poderemos deixar de o associar a todo o processo inquisitorial que levou Saramago a despedir-se de Portugal por causa das inquisições que ainda mexem por cá.

Há uma edição em português da Guerra e Paz, mas não a conhecia antes de o ler em francês e de aqui escrever estas palavras.

terça-feira, agosto 08, 2023

Estojo de viagem: na mochila.

Antes de Montolieu, parto hoje à tarde para Toulouse a partir de Lisboa, fixo-me não muito na roupa, mas no papel nos diários gráficos (os sketchbooks) de 110 gr a folha (não posso carregar muito nas aguarelas), nalguns blocos de maior gramagem para desenhar e aguarelas de 45 cores com pincel recarregável de água já que é mais prático. Lápis HB e H2 até H8, canetas de tinta-da-china de 0,1, 0,2 e duas de 0,5 e uma caneta de pincel. Livros somente um, dos cátaros, zona a que pertencem por direito próprio já que o esquecimento dos massacres de hereges pela Igreja não mora aqui. 

Uma viagem a Montolieu há 13 anos. No Languedoc.


Montolieu, Languedoc. La Village du Livre et des Arts

Há 13 anos escrevia as minhas impressões neste blogue, que mantenho desde 2008, ainda algo longe do Facebook. Descobri Montolieu, no Languedoc, por puro cansaço de viagem e que me obrigou a parar por uma noite. Fiquei lá três. No outro dia, logo de manhã, deparei-me onde estava: numa das «Villages du Livre» comuns, agora, em França. Nessa ocasião estava a iniciar o seu projecto que, tudo indica, terá sido um êxito: treze anos depois, já sem a Deriva, mas não largando os livros, lá vou eu vê-la de novo por uma semana. Talvez tenha tempo de ver tudo e falar com os alfarrabistas e livreiros, sempre dispostos a passar uns tempos numa conversa com estranhos mas ligados a esse mistério que é um livro e como fazê-lo artesanalmente, por exemplo. Após lá estar nos próximos seis dias deixarei a minha impressão gravada aqui. Como o fiz há 13 anos no meu Deriva das Palavras, porque a teoria da deriva existe mesmo:

«Imaginem-vos cansados, mal dormidos, com alguma fome e a precisarem de descanso total depois de percorridos muitos quilómetros (entre os quais muitos a pé, em cidades europeias). Depois de pararem em cafés, em estradas secundárias do Languedoc e do País Cátaro e depois de desconfiarem do turismo de Carcassone, onde se encontravam milhares de pessoas, têm acesso a um lugarzinho chamado Montolieu, de 760 habitantes segundo um censo de 2000, com 15 livrarias. Quinze livrarias e alfarrabistas! Para não falar de um Hotel em cujo hall de entrada esperava que entrasse o inspector Maigret a todo o momento. Não faltava a Abadia (fortificada, claro) não estivéssemos nós em território de revoltas camponesas e hereges. Por falar nisso, a sede do PCF, outrora forte na região, foi transformada num estranhíssimo «Espaço Che» onde pulavam algumas crianças e outros, mais velhos, bebiam café e bolos. Os idosos, provavelmente sem paciência para gerirem «espaços», jogavam no jardim central. Demorei-me dois dias, quase três e ainda hoje lá estaria, não fossem as sempiternas «obrigações».

Mas 15 livrarias e alfarrabistas, duas editoras, ateliers de produção artesanal de livros e ilustrações, bibliotecas numa pequena vila, mesmo que (soube-o depois) se lhe desse o nome de «village du livre» é obra que me custou uns euros (não muitos) em livros (atenção que vim com um saco cheio deles, pagando por um livro do século XVIII 6 euros, com desconto final de 1 euro!). Perdi-me naquilo, acreditem. Como me perdi na leitura de alguns livros, entre cerveja, cigarros e café do verdadeiro arábico, como estava escrito no tal hotel. O jazz e a música clássica esperavam por nós ao fim da tarde, ao ar livre, em restaurantes e poucos bares.

A história destes sortudos 760 habitantes é simples: nos anos 80 um bibliófilo de Paris, farto de estar por lá, criou, com a ajuda da Mairie e de uns quantos entusiastas locais, condições para virem com armas e muitas bagagens alfarrabistas de toda a França (e alguns ingleses também) para Montolieu. A pequena vila ainda hoje está em recuperação deste sonho, depois de ter falecido o seu mentor. Mas aquilo não pára. Só dele, de Michel Braibant, uma grande e antiga fábrica foi adaptada para um enorme lugar onde se pode vender e comprar livros de todos os géneros. Não sem que nos lembrassem que aquela antiga fábrica foi lugar de exílio forçado de 400 republicanos espanhóis que fugiam de Franco e que aquela pequena vila se recusou a entregar. A bandeira da Espanha republicana está lá a recordar-nos.

Nunca antes assentei este nome «Montolieu» no meu mapa mental ou em outro mais físico. Nunca ouvi falar de tal experiência ou desta pequeníssima vila. Mas fui lá ter – esta é, de facto, a teoria da deriva.

António Luís Catarino
21/08/2010»

Montolieu, «La Manufacture du Livre et des Arts». 


segunda-feira, agosto 07, 2023

«O Duplo Rimbaud», Victor Segalen

 


Longe de uma tentativa de comparar uma edição e outra, vi-me a ler as duas por uma questão de ter «descoberto» Victor Segalen quando editei em 2008, na Deriva, «O Espírito Nómada» de Kenneth White. No prefácio este explica o conceito de nómada inserido no movimento geopoético fundado por ele. No prefácio desse livro ele explica o que o levou a incluir, entre outros, Rimbaud e Victor Segalen que navegou por mares longínquos, passando por Harare e China. Diz White nesse prefácio o seguinte: «Desde há alguns anos para cá, a palavra "nómada" anda no ar. De um modo vago e que necessita apenas de tornar-se preciso, designa o movimento que se esboça no sentido de um novo espaço intelectual e cultural. Mas nas nossas culturas mediatizadas, cada palavra, de imediato sub-traduzida torna-se pretexto para uma moda. Do que aqui se trata não é de um assunto de moda mas de mundo.» O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes. Neste livro onde se encontrarão portanto mais peregrinações que problematizações, mais mapas que retratos, o prazer de peregrinar acaba por levar a melhor sobre o desejo de saber (aumentar e renovar o campo do saber) e no final da viagem será menos importante a questão de saber do a de ver no vazio.»

A partir deste ponto esclarecedor segundo o «nomadismo poético» de Kenneth White reparamos que Victor Segalen vive obcecado pela vida de Rimbaud, não conseguindo, contudo, que cometesse alguns erros ao citar de cor alguns versos de Rimbaud não totalmente certos, como reparou o tradutor da edição da Sistema Solar, Aníbal Fernandes. Segalen, na sua demanda, entrevistou alguns dos que conheceram aquele poeta luminoso, nomeadamente os irmãos gregos amigos e proprietários do Café de la Paix, em Harare, onde Rimbaud bebia o seu café e fazia os seus negócios, muitos deles fracassados. Creio que Segalen e outros (mais ou menos inteligentes, mais ou menos imbecis) nunca lhe perdoaram o ter abandonado com 20 anos a poesia. Quando Rimbaud perdeu a perna e regressa a França para tentar uma derradeira salvação que não consegue, Segalen, que não o conheceu pessoalmente, segue o seu rasto e fala com a irmã, Isabelle. Citei-a num desenho meu de Rimbaud que expus no Liquidâmbar em «Anjos do Desespero», em 2020, entendendo que ele era um deles. Afirmou ela a Segalen que no seu leito e já muito doente, quando ela lhe lia e, entre a narrativa se sobrepunha um poema, ele pedia-lhe rapidamente para saltar por cima, para não o ler, para continuar a narrativa mas sem poesia! 
Creio que é difícil, para nós, ver um dos maiores poetas odiar a poesia, mas ele odiava-a verdadeiramente. Mesmo que as tais interpretações pseudo-freudianas nos lançarem a bóia do amor/ódio, não há volta a dar: Rimbaud é um poeta luminoso e foi-o entre os 17 e 20 anos. E isso é encantador (no que de mais verídico contém esta palavra)!
Rimbaud, António Luís Catarino, Exposição «Anjos do Desespero», 2020, Liquidâmbar. Encontra-se no desenho a citação atribuída a Isabelle Rimbaud

Edição da Sistema Solar, 2022, Preâmbulo (excelente) de Benjamim Fondane. Introdução e tradução de Aníbal Fernandes. Edição muito completa com desenhos de Verlaine, Léger, Cocteau, Rosman, Berrichon, Forsin e fotos raras de, Fondane, Isabelle e Jean-Arhur Rimbaud e retrato de Victor Segalen por Monfreid. 

Edição da Hiena, 1991, tradução de António Moura, prefácios de Bernard Nöel e Michael Taylor.

domingo, agosto 06, 2023

"A Pedra e o Desenho", Julião Sarmento e Gonçalo M. Tavares

 

A água subiu, mas eu estou bem.
O meu pai morreu, mas eu estou bem.
A minha mulher saiu de casa, mas eu estou bem.
A morte já tocou à campainha, mas eu estou bem. (pag.71)

A linguagem é uma forma de desenhar no espaço vazio, no ar, com mão nenhuma. (pag.49)

Uma exposição de Julião Sarmento, em 2016, «O Peso e o Gesto», fez com que o pintor e desenhador convidasse Gonçalo M. Tavares a escrever os textos para o seu catálogo. O resultado foi o de publicar um outro projecto comum com outros textos do escritor e desenhos inéditos de Julião Sarmento que pouco ou nada teria a ver com os da referida exposição. A morte do pintor, em 2021, impediu-o de ver a publicação do livro em Julho de 2022, mas aí está ele pela mão da Relógio D'Água. Lemos, numa breve nota inicial de Gonçalo M. Tavares, um dos maiores escritores contemporâneos, este trecho que retiro: «No dia da morte de Julião, fiquei com o livro nas mãos, há muito a rever infinitamente as mesmas frases, pensando na inutilidade de tanta coisa e no absurdo. Este livro é, pois, também, uma homenagem ao amigo Julião. Um festejo de vida.»
O desenho e o texto, a colagem e o traço, fazem a maravilha deste estranho «A Pedra e o Desenho». Quem quer que ame o risco, entendido nos dois sentidos que a palavra supõe, gostará deste livro e fixar-se-á obrigatoriamente em palavras e imagens feitas à medida dos dois autores. Registo um que não me sai do pensamento: «(...) O que é o momento decisivo? É o momento em que não podes adiar, tens de marcar com tinta o espaço.
Cuidado: que a mão não trema, não falhes o teu traço.» (pag.64)