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segunda-feira, novembro 06, 2023

«Os Palestinianos», artigo de Jean Genet em 1971 para a Revista Zoom. Em «L'Ennemi Déclaré», Gallimard

Fedayn palestiniano em treino da OLP num campo da Jordânia. 1969
Foto de Bruno Barbey (1941-2020) Magnum

Este artigo de Jean Genet (1910-1986) saíu na Revista Zoom,  no longínquo ano de 1971, tendo como base a exposição fotográfica, em Paris e sobre a Palestina, de Bruno Barbey, um fotojornalista que fez vários trabalhos para a Magnum. Vista a exposição por Genet publica-se agora parte desse artigo que fui encontrar no livro da Gallimard de 1991 - «L'Ennemi Déclaré» todo dedicado a entrevistas e pequenos artigos de jornais de Jean Genet e sob a responsabilidade de Albert Dichy. A foto exposta aqui é referida explicitamente pelo autor. Aqui fica a tradução (possível) do francês:

    «(...) Dois mil anos de humilhações permitiram compreender os comportamentos - ou os mecanismos - da Psicologia e a sua utilidade à distância cronológica. Dois mil anos passados em guetos, ou sob falsa identidade civil, os judeus foram ameaçados de extermínio. Conhecem agora as mentiras dos que foram os seus mestres. Satânica ou divina, a Igreja Católica bate-os aos pontos em hipocrisia, em chantagem evangélica e em ameaças. Era necessário esperar. A contrapartida aos vexames é o conhecimento dos actos dos poderosos. Aqui cumprem-se agora dois mil anos de diáspora, morta a infame lenda de cobardia física. Os judeus não querem nem desaparecer, nem serem ''assimilados''. A nação judaica terá o seu território. Onde? No que é ainda, talvez, colonizável. Procura-se. Talvez no Uganda, na Argentina, na Rússia, mas Herzl tem o seu projecto, o retorno à ''terra prometida''. E, segundo a História escrita por um idiota mas ensinada às crianças, se os Judeus foram expulsos pelos romanos, os árabes pagarão por isso. A Palestina, camponesa, populosa, empobrecida pela administração otomana, resistirá às infiltrações de Judeus do mundo inteiro e finalmente enganada e dominada pelos ingleses em acordo com os movimentos sionistas nascentes, será invadida. Muito antes, mas sobretudo entre 1880 e 1940, na Europa cristã ou laica, o antissemitismo desenvolver-se-á entre pequenos progroms até Dachau e Auschwitz. A Europa massacra ou ameaça os Judeus quando, simultaneamente, Judeus massacram e ameaçam os árabes com a ajuda de soldados ingleses que pretendem uma ligação ao Médio Oriente de modo a proteger a rota da Índia. Desprezo, repressão, compra usurária, confisco de terras cultiváveis. Os Judeus aterrorizam, matam os árabes. Que europeu poderá reagir a isto?: a França mata os árabes da África do Norte, os malgaches, os indochineses, os negros de África subsaariana. A Inglaterra faz precisamente o mesmo fora do seu território. A Bélgica também. A Holanda na Indonésia, a Alemanha no Togo, a Itália na Etiópia e na Tripolitânia [Líbia], a Espanha em Marrocos, Portugal, nós sabemos onde (sic). Os sionistas são culpados e a Europa inteira é culpada do sionismo. Quando a Europa está obrigada a terminar com o colonialismo, a arte clássica da substituição, Israel soube descolar-se habilmente da protecção britânica para se prover, com bastante astúcia, sob o manto protector americano.
    Os palestinianos, massacrados no seu próprio território, pegaram em armas para lá retornarem. Mas a Palestina tem agora o nome de Israel. Os palestinianos estão vivos. Encontrarão a Palestina, mas após um longo percurso que os obrigará, talvez, a conseguir provocar a revolução em todo o mundo árabe. O que não diz o feddaïn - o mártir - que se vê na imagem, é que ele sabe que não verá essa revolução cumprida, mas que a sua própria vitória é de a ter começado. Talvez ele não saiba que a sua imagem, malgrado os boicotes sionistas, vos está a ser facultada. Quanto a Israel, imaginado no final do século XIX para segurança, segundo é dito, dos Judeus tornar-se-á, bastante rapidamente, naquela parte da Ásia, a maior ofensiva e ameaça imperialista ocidental.» (páginas 89 e 90)

sexta-feira, setembro 29, 2023

«No Sentido da Noite», Jean Genet

 

Sistema Solar, Julho de 2016, Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Por mais que se leia, que se pesquise, que se pretenda conhecer melhor um autor como Genet, há sempre uma imensa lacuna, consequência do jogo tão legítimo, quanto narcísico, dos criadores em esconder os seus motivos, os seus sentimentos ou em utilizarem várias máscaras que são autênticas peças de um enorme puzzle, quase impossível de construir para um leitor, mesmo que atento ou interessado. 

Escrevi, quando do «Diário do Ladrão» traduzido por Miguel Serras Pereira, que Cocteau e Sartre sacanearam a obra e a pessoa de Jean Genet. Através da apresentação de Aníbal Fernandes em «No Sentido da Noite», conclui-se que haverá muitos mais. Não interessa nomeá-los, mas muita das «incompreensões» da obra de Genet surgem exactamente destas relações tóxicas mantidas durante anos por personagens da Rive Gauche que o ajudaram a editar e a ser conhecido no meio literário francês. 

Genet foi censurado pela rádio quando se opôs ao abrandamento da disciplina dos reformatórios para jovens delinquentes, sem que se percebesse totalmente o que afirmava, ele que por catorze vezes os habitou até aos dezasseis anos! Defendia que os jovens criminosos como ele esperavam do Estado, que os metia dentro das masmorras, o pior de todas as experiências de modo a atingirem um grau de expiação quase mítico. Genet que foi ladrão, pouco hábil, segundo as suas palavras aliás, foi preso pela primeira vez não por estes crimes, mas por viajar sem bilhete num comboio e por isso foi condenado a seis meses de reclusão! A contradição e crueldade mais obtusa do conhecido sistema prisional francês foi-se revelando sempre à medida que a sua idade progredia. Conheceu prisões e prisioneiros a que chamava de «colonos» lembrando a Guiana que entretanto foi abolida em 1961 como destino abominável de culpados ou não. Mas o sistema de reclusão era o mesmo, talvez pior pela falta de espaço, pelo confinamento absoluto e atrofia dos sentidos a que a personalidade do prisioneiro era submetida.

Genet amou e foi amado, foi traído e traiu, viu suicídios de amantes (ele que também se suicidou), viu, igualmente, demasiados mortos a tiro ou violentamente; foi nómada, politicamente empenhado no apoio ao imigrantes magrebinos em plena guerra da Argélia, esteve ao lado dos Black Panthers americanos e dos palestinianos, viu-se afastado pelos pensadores existencialistas dos cafés da moda que eles frequentavam. 

Genet escreveu sobre assassínios e viu a sua peça «As Criadas» ser representada como uma vulgar comédia e totalmente abastardada, mesmo após os seus apontamentos à representação serem pormenorizados ao milímetro de cada palco. Não acreditava em actores ou actrizes profissionais porque demasiados presos aos conservatórios oficiais e nada disso foi seguido. Depois de ter abandonado a literatura e a poesia, foi agora a vez de acabar com o teatro. Diz-se que rasgou ou queimou muita coisa que escreveu.

Volto ao princípio: como disse Sartre não sei se Genet (apodou-o de Saint Genet) era comediante ou mártir, o título do livro do filósofo que nunca lerei. Faltar-me-á sempre uma ou mais peças do puzzle para o considerar um escritor «maldito». Mas é inevitável ter de o ler. Só assim um pedaço proscrito da humanidade se pode juntar ao imenso «público de mortos», afinal os espectadores do teatro de Genet.

António Luís Catarino

segunda-feira, setembro 25, 2023

«Diário do Ladrão», Jean Genet

 

Diário do Ladrão, Minotauro, Setembro de 2022. Tradução de Miguel Serras Pereira
Jean Genet escreveu «Diário do Ladrão» em 1949, embora publicado clandestinamente um ano antes. Foi necessário Jean Cocteau inventar uma editora para que se desse a conhecer esta obra tão estranha, quanto ímpar na literatura. Sartre deu-lhe asas, isto é, sacaneou de tal maneira o seu «amigo» Genet, «santificando-o» e «interpretando-o», que este não lhe perdoou. Durante sete anos após um livro vergonhoso de Partre (para parafrasear Vian) sobre ele, chamando-lhe de Saint Genet e apodando-o inclusive de comediante, não escreveu mais nada, mas isso são contas de outro rosário e não será por acaso que o registo católico, em Genet, vem ao caso. Citaremos «O Sentido da Noite» para mais tarde analisarmos um pouco mais esta relação venenosa entre o papa do existencialismo e Jean Genet. Nessa ocasião prestaremos contas, agora vamos a este livro dificilmente ostracizado. Diríamos, mesmo, impossível de o esquecer se nos embrenharmos na sua leitura, despojando-nos de preconceitos sobre a maldição que ainda transporta seu nome.

Genet, foi abandonado pela sua família, conhecendo não só famílias de acolhimento, como também reformatórios cuja disciplina e crueldade foram do pior que se pode imaginar. Não encontro neste «Diário do Ladrão» nenhuma desculpa como é comum lermos em outras biografias idênticas, de indivíduos ou mulheres que optaram pelo crime. Nem sequer encontramos uma secreta alegria pela «reforma mais humana» dos reformatórios para crianças e do sistema prisional em geral, pelos anos 60 em França. Pelo que leio e sei, as prisões de França ainda são, hoje, das mais duras do mundo. Jean Genet tem uma trípode neste livro que apresenta: o roubo, a homossexualidade e a traição «(...) são os temas essenciais deste livro. Uma relação, senão sempre aparente, existe entre eles, pelo menos parece-me reconhecer uma espécie de comunicação vascular entre o meu gosto pela traição, o roubo e os meus amores.» (pág.174). O assassínio e a violência surgem como a ordem natural das coisas, uma evolução para um patamar superior, com cicatrizes deixadas no corpo como medalhas, por quem escolhe o tipo de vida que ele escolheu: «Sem me crer nascido magnificamente, a indecisão da minha origem permitia-me interpretá-la. Acrescentava-lhe a singularidade das minhas misérias. Abandonado pela minha família parecia-me já natural agravar esse facto através do amor dos rapazes e esse amor através do roubo, e o roubo através do crime ou da complacência perante o crime. Assim recusava decididamente um mundo que me recusara. (...) A prisão rodeia-me de uma garantia perfeita. Estou certo de que foi construída para mim - com o palácio de justiça, a sua dependência, o seu monumental vestíbulo. Segundo a maior seriedade tudo aí me foi destinado. O rigor dos regulamentos, a sua estreiteza, a sua precisão, são da mesma essência que a etiqueta de uma corte real, que a cortesia requintada e tirânica da qual nessa corte o convidado é objecto.» (páginas 89,90)

Genet assume uma vida perigosa em regiões e cidades perigosas em países perigosos, num mundo a explodir em violência para ele inaceitável. Roubou na Alemanha de Hitler e sentiu um verdadeiro asco em ver a aceitação da população perante verdadeiros criminosos que impuseram a ordem dos lager. Não é um paradoxo ou contradição de Jean Genet. É outra coisa: trata-se de uma coerência excepcional de alguém para quem o roubo é a vida, o florescimento da vida, tal como a prostituição aceite como natural desde a sua infância miserável. Mas colocar o crime no âmago do Estado era para ele insuportável. Conheceu igualmente Barcelona pouco antes da Guerra Civil e voltou lá após a guerra e soube estar ao lado dos que perderam, o que para ele era a lógica dominante na sua vivência. Errou por Antuérpia, Amesterdão, Bordéus, Marselha, a sua Paris e declarou que não haveria cidade da Europa em que não conhecesse um ladrão ou grupo constituído de ladrões. Fez o perfil destes grupos de criminosos, pequenos ou grandes, cujas leis internas variavam ao sabor das vontades, dos ódios ou do amor entre os seus elementos, fossem eles femininos ou masculinos. Para além de ladrão foi prostituto, assaltante armado, jogador, traidor dos seus, sentiu a miséria extrema de um sem-abrigo, a fome e a sujidade mais abjecta. E nisso, conseguiu ver a liberdade, a luminosidade santificada dos que abraçam o Mal e que por qualquer escuro caminho praticariam igualmente o Bem por desespero. «Desejo por um instante pôr uma atenção aguda sobre a realidade da suprema felicidade no desespero: quando se está só, de súbito, frente à sua perda súbita, quando se assiste à irremediável destruição da sua obra e de si mesmo.» (pág.214) «(...) mas sobretudo quero ser um santo porque a palavra indica a mais alta atitude humana, e farei tudo para aí chegar. Aí empregarei o meu orgulho e aí o sacrificarei.» (pág.215)

Há, contudo, um aspecto que não consigo compreender totalmente em Genet: o seu silêncio perante o processo literário. Quando e onde escrevia? Quando e onde lia? O que lia? Adivinho uma vida errante, de quarto em quarto, de pardieiro em pardieiro, de noites e dias fugidios e frenéticos, de prisões muitas. O seu vocabulário é abundante e certeiro. Sabe escrever bem, tem uma grande cultura (mais bíblica, é certo), sabe defender-se e explica porque escreve, mas na sua obra inicial não há momentos de contemplação, de busca e produção literárias. Após o reconhecimento que se lhe seguiu, sim, podemos perceber o tempo despendido nos livros, nas respostas e nas cartas a defender-se dos escândalos que sobre ele caía (óbvio!), os ataques e a censura oficial sobre ele, o abandono da literatura e o seu silêncio antes de enveredar pelo teatro, para ele mais verdadeiro e, talvez, mais livre de «segundas leituras»: «A menos que sobrevenha, de uma tal gravidade, um acontecimento tal que perante ele a minha arte literária seja imbecil e eu precise para dominar essa nova desgraça de uma nova linguagem, este livro é o último. Espero que o céu me surpreenda sem avisar. A santidade é fazer servir a dor. É forçar o Diabo a ser Deus. É obter o reconhecimento do mal. Há cinco anos que escrevo livros: posso dizer que o fiz com prazer mas acabei. Através da escrita obtive o que buscava. O que, sendo para mim um ensinamento, me guiará, não é o que vivi mas o tom em que o relato. Não as anedotas mas a obra de arte. Não a minha vida mas a sua interpretação. É o que me oferece a linguagem para a evocar, para falar dela, para a traduzir. Conseguir a minha lenda. Sei o que quero. Sei para onde vou. Os capítulos que se seguirão (já disse que um grande número se perdeu) deixo-vos avulsos.» (pág.210) A sua obra não foi somente «perdida»; sabemos que foi igualmente destruída por si. Genet suicidou-se em 1986.

António Luís Catarino