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segunda-feira, outubro 06, 2025

Sobre Gaza

 

Não deixa de ser sintomático as análises de alguns, poucos, sectores da esquerda sobre as últimas manifestações contra a política sionista e criminosa de Israel face à ação levada a cabo pela flotilha que rumava à Palestina, como forma solidária de apelar ao mundo que acabe com o genocídio à vista de todos. Da direita e da sua extrema sabemos ao que vêm. Nada de novo e a petição para manter presa, em Israel, Mariana Mortágua só a alguns surpreende. Verdadeiramente, o único ponto do programa que de lá sai que seja real é a necessidade de prender todos os opositores em prisões políticas. Meter todos em prisões, após escrutínios de uma nova polícia política é o objetivo real do projeto securitário da direita e, nesse campo, o governo português não se afasta muito desse desejo.

Mas de alguma esquerda também já nada me causa surpresa quando dizem e escrevem que estas manifestações vêm tarde, que vigorou tempo demais o silêncio sobre Gaza e a Palestina, que, as últimas manifestações são uma gota de água na luta por uma Palestina livre. Sinceramente, não sei o que querem mais (não) fazer. Estar presente em manifestações, ocupar a rua, responder a provocações por vezes fisicamente, aguentar o olhar de desprezo da polícia que não esconde a sua hostilidade transformada em milícias da extrema-direita, abraçar solidariamente amigos que não se vêm há muito, retomar aqui e ali a agenda revolucionária, não vejo outra possibilidade de tornar as vozes claramente internacionalistas. Mas a «análise» de alguns (já não sei se bem intencionados ou não, sinceramente) é isto: por mais que façamos, que ocupemos as ruas, a coisa já vai tarde, o silêncio impera há muito, é impossível lutar contra os dólares e os complexos militares industriais. Ou seja, o conformismo a par com o derrotismo. Talvez, também, cinismo.

Sair do sofá e do facebook é tarefa árdua para alguns, é certo. Mas enquanto estivermos na rua, enquanto se tornar a rua um forum de liberdade, a direita é inexistente, afunda-se na indignidade da sua ação no parlamento e nas instituições que ela quer destruir. Como me dizia um amigo meu na manifestação de Coimbra pela Palestina, bem pujante por sinal, o problema é se perdemos a rua. Acredito que não. Para outros, para os derrotistas, sim, já se perdeu a rua. Perdeu-se tudo. Nada vale a pena.

sexta-feira, dezembro 06, 2024

Gaza, Palestina. Dezembro de 2024

 

Público, 5 de Dezembro de 2024 (pormenor)

Ontem, a abrir o Público, fiquei a olhar longamente a primeira página, cuja foto edito aqui um pormenor. No chão, jaz um cadáver que presumo ser de um familiar desta mulher. Este desespero terrível tenta ser consolado por uma sua companheira que não sei o que lhe poderá dizer. Em Gaza. Todos os dias estas imagens invadem a nossa sensibilidade, a nossa revolta, a impotência que sentimos perante um governo de genocidas, cuja prática hedionda, inumana, é de uma crueldade sem nome.
A Europa vai pagar caro estas lágrimas. Desta mulher e dos milhares de crianças e velhos que todos os dias, todos os dias, repito, são mortos às dezenas, às centenas em Gaza, no Líbano e na Cisjordânia. E a Europa, hoje rica e confortável, vai pagar mais cedo do que tarde. O Ocidente não quer ver, não percebe, finge, dissimula, apoia os fortes, calca os fracos. Humilha um povo, assinalando a sua vontade hipócrita de uma paz impossível, porque sabe bem que quem está no governo de Israel não a quer. Prefere a morte programada, a vingança bíblica. Os árabes de todo o mundo sentem-se assediados e humilhados perante os europeus. Imagina-se a sede que nos têm, tal como os africanos, tal como os chineses, tal como os indianos e os americanos do sul. Tal como os ameríndios. Escrevo, misturando as coisas? Não creio. Faço-o propositadamente. Não se perde o sentido, porque estas lágrimas, as desta mulher, juntam-se a muitas outras que a História nos atira à cara. Aos europeus que, desde sempre, utilizaram a violência e a discricionaridade contra os povos. Os americanos do norte? Fizemo-los igualmente nós. Se aqueles ainda não demonstraram totalmente a raiva, hoje ainda algo contida, estes últimos estão ciosos de nos deixarem sozinhos, resguardados por um chapéu nuclear que julgam protegê-los. Na onda de pagar as humilhações e violências perpetradas não existirá qualquer protecção que nos valha. Estas lágrimas doem a alguns de nós, mas eles, os que sofrem o horror, saberão disso?

alc

segunda-feira, novembro 06, 2023

«Os Palestinianos», artigo de Jean Genet em 1971 para a Revista Zoom. Em «L'Ennemi Déclaré», Gallimard

Fedayn palestiniano em treino da OLP num campo da Jordânia. 1969
Foto de Bruno Barbey (1941-2020) Magnum

Este artigo de Jean Genet (1910-1986) saíu na Revista Zoom,  no longínquo ano de 1971, tendo como base a exposição fotográfica, em Paris e sobre a Palestina, de Bruno Barbey, um fotojornalista que fez vários trabalhos para a Magnum. Vista a exposição por Genet publica-se agora parte desse artigo que fui encontrar no livro da Gallimard de 1991 - «L'Ennemi Déclaré» todo dedicado a entrevistas e pequenos artigos de jornais de Jean Genet e sob a responsabilidade de Albert Dichy. A foto exposta aqui é referida explicitamente pelo autor. Aqui fica a tradução (possível) do francês:

    «(...) Dois mil anos de humilhações permitiram compreender os comportamentos - ou os mecanismos - da Psicologia e a sua utilidade à distância cronológica. Dois mil anos passados em guetos, ou sob falsa identidade civil, os judeus foram ameaçados de extermínio. Conhecem agora as mentiras dos que foram os seus mestres. Satânica ou divina, a Igreja Católica bate-os aos pontos em hipocrisia, em chantagem evangélica e em ameaças. Era necessário esperar. A contrapartida aos vexames é o conhecimento dos actos dos poderosos. Aqui cumprem-se agora dois mil anos de diáspora, morta a infame lenda de cobardia física. Os judeus não querem nem desaparecer, nem serem ''assimilados''. A nação judaica terá o seu território. Onde? No que é ainda, talvez, colonizável. Procura-se. Talvez no Uganda, na Argentina, na Rússia, mas Herzl tem o seu projecto, o retorno à ''terra prometida''. E, segundo a História escrita por um idiota mas ensinada às crianças, se os Judeus foram expulsos pelos romanos, os árabes pagarão por isso. A Palestina, camponesa, populosa, empobrecida pela administração otomana, resistirá às infiltrações de Judeus do mundo inteiro e finalmente enganada e dominada pelos ingleses em acordo com os movimentos sionistas nascentes, será invadida. Muito antes, mas sobretudo entre 1880 e 1940, na Europa cristã ou laica, o antissemitismo desenvolver-se-á entre pequenos progroms até Dachau e Auschwitz. A Europa massacra ou ameaça os Judeus quando, simultaneamente, Judeus massacram e ameaçam os árabes com a ajuda de soldados ingleses que pretendem uma ligação ao Médio Oriente de modo a proteger a rota da Índia. Desprezo, repressão, compra usurária, confisco de terras cultiváveis. Os Judeus aterrorizam, matam os árabes. Que europeu poderá reagir a isto?: a França mata os árabes da África do Norte, os malgaches, os indochineses, os negros de África subsaariana. A Inglaterra faz precisamente o mesmo fora do seu território. A Bélgica também. A Holanda na Indonésia, a Alemanha no Togo, a Itália na Etiópia e na Tripolitânia [Líbia], a Espanha em Marrocos, Portugal, nós sabemos onde (sic). Os sionistas são culpados e a Europa inteira é culpada do sionismo. Quando a Europa está obrigada a terminar com o colonialismo, a arte clássica da substituição, Israel soube descolar-se habilmente da protecção britânica para se prover, com bastante astúcia, sob o manto protector americano.
    Os palestinianos, massacrados no seu próprio território, pegaram em armas para lá retornarem. Mas a Palestina tem agora o nome de Israel. Os palestinianos estão vivos. Encontrarão a Palestina, mas após um longo percurso que os obrigará, talvez, a conseguir provocar a revolução em todo o mundo árabe. O que não diz o feddaïn - o mártir - que se vê na imagem, é que ele sabe que não verá essa revolução cumprida, mas que a sua própria vitória é de a ter começado. Talvez ele não saiba que a sua imagem, malgrado os boicotes sionistas, vos está a ser facultada. Quanto a Israel, imaginado no final do século XIX para segurança, segundo é dito, dos Judeus tornar-se-á, bastante rapidamente, naquela parte da Ásia, a maior ofensiva e ameaça imperialista ocidental.» (páginas 89 e 90)

quarta-feira, outubro 18, 2023

Pequena nota pessoal sobre Gaza aos amigos libertários e à esquerda radical

 

Getty Images
1. As palavras valem o que valem e nos tempos de chumbo em que vivemos a palavra terrorismo banalizou-se de tal maneira que «comentadores» de jornais e de tv's utilizam-na para atacar desde o PC, ao BE e aos libertários. Escondem o seu próprio ódio fascista, alardeando o ódio que dizem sermos portadores.

2. Um desses comentadores chegou a referir, sem a mínima hesitação, que antes de se prolongar na sua pobre «análise» do massacre de Gaza que o «conceito de vida nos países árabes não era o mesmo que no ocidente»! (CNN, 11/10). Dizer isto é o mesmo que concordar implicitamente com o ministro de defesa de Israel quando afirmou que os israelitas estão a guerrear com «animais», portanto sub-humanos, tal como os nazis consideravam os judeus no genocídio dos campos da morte na II Guerra Mundial.

3. Sobre a violência, ela é legítima quando defende um povo cujo território não é só ocupado violentamente há décadas, como lhe retiraram todas as possibilidades de viverem dignamente ou, sequer, sonhar com elas. O que acontece com os palestinianos hoje. Não vejo nenhum libertário coerente ou pertencente à esquerda radical que encare o Hamas, o Hezbolah ou a Jihad Islâmica como representante legítimo do povo palestiniano, quer pela sua prática de matar civis indiscriminadamente, tal como faz o ocupante israelita, quer pela sua vertente religiosa e fanática que nos coloca nos seus antípodas. Tal acontece igualmente com o objectivo não declarado de Israel em tornar-se um estado teocrático, não necessitando de ter uma Constituição escrita, mas votando no Knesset, em sua substituição, uma Lei do Estado-Nação em 2018 que estabelece «a Terra de Israel como a pátria do povo judeu»! O objectivo do Grande Israel que está implícito desde 1948 compreende regiões da Síria, do Iraque o do Líbano.

4. Não há um «conflito israelo-palestiniano» como alguns amigos defendem. Existe uma ocupação violenta e genocida sobre o povo palestiniano, esse sim, desarmado perante todo o horror. Afirmar que em Israel existe luta de classes, tal como na Palestina, é uma meia-verdade que pode levar a confundirmos as duas realidades como sendo iguais em recursos e em riqueza produzidos. E não são. Basta saber o mínimo do genocídio para verificar a imbecilidade de tal defesa.

5. Quando durante anos, a maioria dos libertários e da esquerda radical denunciaram (e bem) o papel da ONU ao lado dos mais fortes e ignorando petulantemente os mais fracos e explorados do mundo, surgem agora alguns de uma maneira cómoda e hipócrita e defenderem as suas resoluções que nunca foram cumpridas pelo agressor israelita. Recusaram qualquer discussão sobre geopolítica, demonstrando a sua inconsequência devido à defesa teórica um mundo sem fronteiras, que neste caso não se coloca: é que não há «fronteiras» em Gaza. Há corredores com arame farpado e mar minado!

6. A esquerda e os libertários não devem permanecer numa posição defensiva e reaccionária, passando o pouco tempo disponível a afirmar que não se reveem nos grupos religiosos islâmicos, porque isso não tem sentido nenhum. Os «mas»... que se seguem à defesa do povo palestiniano não se compadecem com a urgência de uma resolução rápida para a ocupação assassina de Israel sobre Gaza. O que devemos exigir dos pobres comentadores e indivíduos ou grupos que defendem Israel é a clarificação total das suas posições genocidas, colocando-os ao lado dos mísseis sobre Gaza e das declarações racistas do governo israelita.

7. Não há possibilidade de outra defesa senão aquela de estarmos ao lado do povo palestiniano sem quaisquer hesitações. Não só por ser a parte mais fraca (dantes era um atributo da esquerda que, penso, ainda não estar esquecida!), mas porque se corre o risco de, mais uma vez, serem abandonados quer pelos seus congéneres árabes, quer pela indiferença criminosa e doentia do Ocidente. E estar «ao lado» do povo palestiniano significa exigir o cessar-fogo imediato (até agora a chamada «comunidade internacional» não o exigiu!) e início de um processo com interlocutores sérios que levem à existência de uma Palestina livre e independente de todos os autoritarismos.